01 junho 2012

A morte e o off-shore no paraíso

Sabemos que um dia virá para cada um. Duas faces da mesma moeda; de um lado a vida e do outro a morte. Indissociáveis estes dois lados mas parece que apenas olhamos para uma das faces, a da vida. É cultural, sem dúvida, evitarmos falar naquela face oculta.
No entanto confrontamo-nos permanentemente com ela. Morremos um pouco cada dia que passa e saboreamos a vida de outro modo; crescer ou envelhecer é amadurecer, humanizarmo-nos um pouco mais, e quando estivermos mais próximos de sermos capazes de um amor infinito e desinteressado estaremos prontos para sermos acolhidos pela fonte de todo o Amor que é o nome de Deus.
Há gente que evita tanto a palavra “morreu” que diz sempre eufemisticamente “partiu”. Subentenda-se partiu para o Pai, partiu para a eternidade, partiu desta para melhor, no dizer do povo.
Lembro-me de uma amiga que vivia em Lisboa e foi viver para o Porto, vivendo e trabalhando entre as duas cidades em circulação permanente. Um dia um amigo comum disse-me com um ar consternado; “ela partiu” e eu perguntei ingenuamente “outra vez para o Porto?” ao que ele me respondeu indignado com a minha questão; “Não, morreu!”
Agora cada vez que oiço dizer que alguém partiu, olho bem para a cara de quem mo diz; se está triste ou preocupado sei que significa que alguém morreu, se está de sorriso aberto quer dizer que a pessoa em causa partiu para férias ou coisa assim.
A morte dos outros faz cortes violentos e deixa uma saudade infinita, uma parte de nós morre com essa saudade de um definitivo “nunca mais”, de um “adeus” sem retorno.
Vidas ceifadas antes do que nós consideraríamos o tempo certo. Recentemente sentimos isso de modo particular quando o Bernardo Sassetti morreu e pouco antes quando o Miguel Portas morreu depois de lutar contra um cancro devastador. Nenhum deles tinha “idade para morrer”, entre os quarenta e os cinquenta e picos não é a “idade” adequada nem de acordo com as estatísticas, nem no nosso quadro mental e sensibilidade.
Olhando um pouco o que foi a vida deles, sabemos que deixaram uma marca insubstituível no mundo, independentemente de podermos concordar ou não com algumas das respetivas opções, as duas vidas foram cheias de busca pela beleza e pela justiça, e isso expressou-se em gestos de amor concreto de cuidado pelos outros. Provavelmente estavam prontos para sair fora da finitude do tempo e serem acolhidos numa dimensão misteriosa a que chamamos eternidade.
Recentemente conversei longamente sobre a questão da morte com uma pessoa que tem mais de 90 anos. Tem consciência de que estatisticamente já ultrapassou o tempo de vida previsto e cada dia é uma vitória sobre o fatal momento de que tem um medo terrível. Direi mesmo um medo infantil. Mas medo de quê afinal? Confessou-me que tem medo do Juízo Final. Terá sido suficientemente boa pessoa?
Realmente é um dado a ter em conta, e é uma questão pertinente. A nossa experiência humana diz-nos que ninguém gosta de ir a tribunal ou de fazer exames, mesmo se ultrapassa esses momentos com sucesso. Sendo neste caso o juiz divino e não humano, confio que terá em conta muito mais vertentes do que as simples leis humanas ou eclesiais que teremos certamente transgredido.
Com uma vida longa cheia de missas, terços, primeiras sextas-feiras e de primeiros-sábados, entre outras devoções, já deve ter acumulado a quantidade de indulgências no sistema “bancário” instituído pela piedade do catolicismo tradicional a que Lutero reagiu com vigor e bastante razão.
Espanta-me pois que o Papa Bento XVI, à imagem do seu antecessor, continue a distribuir indulgências como se nada fosse. Ir a Madrid no ano passado às jornadas mundiais da juventude ou ir agora ao encontro mundial de famílias, desde que incluam uma confissão, missa e comunhão dão direito a mais “créditos” na hora da morte, depositados numa conta “off-shore” com sede no paraíso!
Será uma preocupação pastoral com as pessoas idosas que têm medo da morte? Suspeito que não seja bem isso mas apenas a reciclagem de tradicionalismos devocionais incluídos no chamado programa de Nova Evangelização.
Em vez destes investimentos em indulgências, é capaz de ser mais fácil quando nos confrontamos com a nossa mortalidade procurarmos rever as obras de misericórdia e verificar se fizemos o investimento correto em “ações” de amor ao próximo.
E se a fé nos ensina que o Amor de Deus é infinito devemos aprender a confiar em Deus sempre, incluindo o momento fatal da “hora da nossa morte. Amém!”
Ora, como ainda estamos vivos temos todo o tempo necessário para aprender a amar o próximo, do primeiro ao último dia da nossa vida, seja ela breve ou longa.
A dificuldade não é pois a morte, o difícil é viver!
AFF
27-05-2012

27 maio 2012

Absoluto Mistério e uma Fala na Cidade

Alguém me fala de outro alguém, numa esquina da cidade, em casual conversa. Esse outro alguém, uma rapariga que eu não conheço, é-me descrita como muito aberta de espírito, apreciadora de prazeres carnais e comerciais, “apesar de” pertencer à Opus Dei. O tom da conversa não é religioso, mas absolutamente laico. Espera-se de mim que reaja com crítica ao alinhamento conservador, eu que sou uma heterodoxa em relação a regras estabelecidas ou uma rebelde em matéria de obediência e que costumo ter o coração ao pé da boca, em matéria de opinião. Mais uma vez invoco as muitas moradas da casa de Deus e digo que há os conservadores e os progressistas, os tradicionais e os reformistas, enquanto elogio o bom gosto dos gostos da rapariga, que assim demonstra continuar viva de corpo e alma, em vez de se deixar ficar reclusa numa jaula de preconceitos, proibições, pecados possíveis, como se poderia esperar. Nesta altura em que o espaço da rua oferece casuais encontros, e cada vez menos se convive no espaço da casa por convite formal, a cidade obriga-nos ao reencontrar casual, ao sorriso do cumprimento, às frases de circunstância que, afinal, nos fazem perceber os outros e nos levam a pensar sobre o mundo, naqueles passos de solitária caminhada, em que o espírito corre à solta sem se deixar parar.
Chego a casa sem esquecer a conversa e muito, muito teria que dissertar ou escrever sobre o que me passou pela cabeça. Corro às minhas mais recentes leituras de sábios e pensadores e académicos sobre ser católico e cristão, sobre a Igreja, sobre a vivência religiosa e a espiritualidade, sobre a desumanização, sobre o fanatismo religioso, sobre a intolerância, sobre os medos deste tempo que vivemos. A leitura estimula a concentração, a imaginação, acorda o entendimento. Para responder a muitas perguntas (Que pertença é a minha? Que fidelidade, que cumprimento? Que caridade sendo amor, que compaixão? Como, a tempo inteiro?) – descubro então a fórmula de José Mattoso, professor catedrático jubilado, especialista em Idade Média, autor da coletânea de ensaios “Levantar o Céu - Os Labirintos da Sabedoria”(ed. Temas e debates/Círculo de Leitores), que viveu anos de experiência monástica. Em comentário sobre os resultados da sondagem sobre Identidades Religiosas, a propósito da diminuição de católicos e do aumento de grupos religiosos diversos em Portugal, em entrevista a António Marujo no Público, diz: “Que estratégia a Igreja deveria seguir para não perder o lugar que chegou a alcançar? Penso que é sobretudo na vivência do evangelho na autenticidade da vida cristã.” Vou a seguir recortar a opinião de Alfredo Teixeira, sociólogo, coordenador desta mesma Sondagem, sobre a transformação das sociedades cristãs. Este fenómeno “não é o da não-crença, é o da reconstrução individual do religioso,” diz também ao jornalista António Marujo, usando a sua expressão científica para explicar que “a experiência, as crenças, os símbolos deixam de estar amarrados a um determinado contexto institucional e comunitário e passam a ser recompostos a partir da experiência individual.” Continuo a desfiar as minhas perplexidades e, no pensamento do Professor José Mattoso, encontro a flexibilidade das diferenças: “As ideologias traçam uma série de regras e se as regras são absolutas tornam-se como o homem que se submete à lei e não a lei para o homem e, se são instituições permissivas, não atingem os objetivos. Na Idade Média as regras fundamentais eram apresentadas em toda a sua exigência, mas a prática era muito mais maleável e não considerava que houvesse casos sem solução.” E hoje mesmo, leio a entrevista do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura a António Marujo, no Público. Sinto a universalidade do Evangelho, nas duas frases que aqui transcrevo: “O cristianismo é descobrir o eterno no tempo. Descobrir a importância do instante, do tempo que se vive, mesmo para construir-se a si mesmo.” Assim, ao longo dos dias, vou perguntando, sem parar. A fé não tem o descanso das certezas, mas o desassossego do mistério. Absoluto mistério, Deus Nosso Senhor.

Leonor Xavier

26 de Maio de 2012

20 maio 2012

As laranjas e o sumo pontífice

Um grupo de jovens estava reunido com um jovem padre. Tinham um semblante de piedade feliz e alegria devota enquanto combinavam uma procissão para breve, restrita, lembrando ao mesmo tempo uma outra mais geral que é a do Corpo de Deus. Dissertavam sobre os modos que deviam ter e os arranjos que os deviam conter. Essa procissão seria um acto de reverência e louvor a Deus, mas também uma afirmação pública da fé católica. Tornar-se visível, dar-se a conhecer parecia ser o mote para um acto destes no coração de uma sociedade laica e indiferente. Falavam de paramentos, de incenso, de velas. Pareceu-me ouvir falar de flores e por alguns momentos pensei nas lindas buganvílias do jardim das monjas, na discreta romãzeira da horta das irmãs, na protea que não se encontra facilmente, e noutras mais campestres como a giesta amarela com a sua exuberância ou a esteva de beleza luminosa e delicada. Mas afinal não era de flores que falavam, era de valores. Não compreendi o significado desses valores, se eram princípios, regras de conduta, ou valores monetários uma vez que também se referiam a despesas e receitas que a cerimónia comportaria.

Independentemente do que teriam estado a fazer esses jovens antes da reunião, depois dela foram todos ajoelhar diante do Santíssimo e, sob orientação do sacerdote, sussurraram breves orações, sendo depois convidados a ficar um pouco em silêncio. No fundo da igreja estavam algumas senhoras e dois homens com ar compungido, quase tristes, uma leve expressão de problemas em casa ou simplesmente na vida. Nesse momento não estava lá o homem de que fala S. Lucas (18, 9-14) que, ao fundo do templo, com semblante magoado, se declarava pecador. Era um cobrador de impostos, provavelmente colega de Zaqueu. A oração do fariseu tinha-o deixado envergonhado diante de Deus. Diminuído. Voltaria, mas não hoje. Confiava que Deus lhe perdoaria os pecados, mas teria de se encontrar a sós com Ele e não ao lado de tanta virtude. Por isso hoje não estava lá. Estavam aquelas senhoras e os dois homens que pareciam nem reparar nos piedosos e honestos jovens com uma expressão religiosa digna de nota. Quando o jovem padre lhes deu sinal de que podiam sair, uma senhora acenou afirmativamente com a cabeça, gesto de que nunca saberemos o significado.


Os jovens foram embora mas não para a rua. Regressaram à sala onde antes tinham estado reunidos, para aí lancharem e terem um pequeno e contido convívio. No meio dos sussurros ouve-se a voz do padre dizer: sabem que o santo padre fez anos há pouco tempo! E também sabem, ou se não sabem ficam a saber, que ele gosta muito de sumo de laranja! Como não tinha em casa laranjas que chegassem para fazer sumo, mandei comprar estas garrafas para bebermos em honra de sua santidade e em comunhão com ele. Diante deste episódio é legítimo perguntar se Jesus teria feito a multiplicação das laranjas que o padre tinha, de maneira que houvesse sumo para todos e ainda sobrasse para os que estavam ao fundo da igreja e mesmo para os que pediam à porta. Daquelas garrafas irá com certeza sobrar sumo, mas não será fruto de um milagre. Talvez apenas desperdício de supermercado. É pena! E também é pena que o sumo pontífice não tenha sido honrado com sumo de laranja natural, espremido à vista de todos para que todos fossem testemunhas de uma verdade indiscutível. Enfim, é na diversidade que todos somos Igreja.


Entretanto, no dia 13 de Maio, li no Público o artigo de Frei Bento “Sem teoria de tudo”. Não sei se já leram.

Frei Matias, op

18 maio 2012

Participação do NSI numa reunião internacional


O Nós Somos Igreja - Portugal (NSI-PT) participou na recente reunião da Rede Europeia Igreja em Liberdade, da qual é membro. Esta reunião teve lugar em Freising, Alemanha.

Para além das reuniões de trabalho, ouve duas oficinas e uma reunião informal do Movimento Internacional Nós Somos Igreja (IMWAC).

Uma das oficinas foi sobre a Europa, e nela se debateu a Aliança para uma Europa Secular (AES), uma rede de organizações que trabalham junto do Conselho da Europa, congregando organizações cristãs e não cristãs que trabalham para o igual reconhecimento de religiões, crenças e convicções ao nível europeu e pela separação de igreja e estado. No fim da reunião a Rede Europeia tornou-se membro da AES.

A outra oficina foi sobre o projecto Council 50, que pretende fazer um grande encontro em Roma, em Dezembro de 2015, por ocasião dos 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II. Até lá, as organizações participantes no projecto (entre as quais o NSI-PT) preparam este encontro organizando em cada país actividades que celebram o espírito do Concílio e o retomam. Em Protugal já foram organizadas várias conferências.

Está prevista já este ano, perto do dia 11 de Outubro, data de abertura do Concílio, uma Conferência de Imprensa em Roma, com a participação de várias organizações. 

Na reunião informal do IMWAC fez-se o ponto da situação presente, em termos de relação entre a hierarquia católica e a igreja em geral. Foram mencionados:

- A Iniciativa Pfarrer, que foi mesmo mencionada pelo papa na homilia de quinta-feira santa
- A recente crítica à organização "Leadership Conference of Women Religious", de religiosas norte-americanas,
- Alguns teólogos recentemente silenciados.

Pode ler algumas notícias sobre estes assuntos na página de notícias do IMWAC.

Foram também discutidos alguns aspectos da colaboração do IMWAC no projecto Council 50.

15 maio 2012

A Palavra amor e os meus cristãos siríacos de Azeh

Nestas matérias de fé, ou sobre o amor que na palavra de Jesus nos une e ilumina, não é linear nem lógico o pensamento. Descubro a frase do Frei Bento Domingues: “A fé cristã não é um calmante, mas um excitante da inteligência e dos afetos,” disse o Frei Bento no domingo, 29 de Janeiro deste ano. A partir daqui, vêm-me os fragmentos de pensar, a compor-se uns e outros como uma tela ou um bordado em construção. E porque todos os passos desta vida podem ter um significado, aqui vos conto um caso que eu soube, pela notícia do jornal Herald Tribune que li numa viagem de avião de Istambul para Lisboa. Eu tinha ido à Turquia em quase absoluta ignorância sobre o tempo real do país e não viajava com entusiasmo turístico nem com desejos consumistas e nem com cruzeiro de navio marcado. Atravessei um terço do território, entre a transparência do Mar Egeu, o cruzamento de Oriente e Ocidente, o espaço de olhar o céu, o capricho das escarpas recortadas na montanha, a rudeza da planície, a fertilidade da terra cultivada. Senti os sinais dos tempos nas ruínas das civilizações antigas, nos percursos dos apóstolos, nos refúgios das comunidades cristãs. Ali, quando por mim desfilam as memórias das perseguições, das guerras, dos êxodos, das destruições que desde sempre e até hoje permanecem, retomei a ideia da grande revolução que foi – e continua sendo – a mensagem de Jesus, naquele lugar e naquele tempo em que o mundo se ordenava pelo poder e não pelo amor.
As vidas dos outros podem levar a revisões de vida, a reordenar prioridades, a parar em meditação sobre os mistérios da condição humana e da liberdade em face dos desígnios de Deus. Assim me impressionou a história do cidadão turco Robert Tutus, cristão siríaco nascido em Azeh (Idil em turco), uma povoação no sudoeste da Anatólia, que remonta o seu cristianismo ao tempo dos apóstolos. Em Junho de 1994 dois homens assassinaram a tiro o pai de Robert, presidente da câmara local. De seguida a aldeia foi ocupada pelo exército turco, que destruiu as casas e decretou a expulsão de todos habitantes. Com a mãe e mais nove irmãos, Robert Tutus pediu asilo político na Alemanha, como o fizeram as centenas de cristãos siríacos que então se refugiaram na Europa Ocidental. Dez anos mais tarde, ele foi um dos primeiros exilados a aceitar o convite do governo turco aos siríacos para que voltassem à sua terra. Convite feito em 2001, por pressão da União Europeia, várias vezes repetido. A debandada dos habitantes de Azeh determinou o fim da era cristã daquela que foi sede de episcopado no séc II, habitada por uma população cristã de alguns milhares de pessoas até finais dos anos 70 do séc. XX. Dessa era, ficaram ruínas e foi surgindo da nova cidade de Idil habitada por curdos, árabes e alguns turcos, orgulhosos pela conquista muçulmana da cidade. Entre as planícies da Anatólia e as montanhas do sudoeste da Turquia fica o histórico centro da igreja ortodoxa siríaca, onde o Patriarca viveu até aos anos 30, quando mudou para a Síria. Aqui ainda existem igrejas siríacas e há um mosteiro do ano 397, reconhecido como um dos mais antigos mosteiros ativos do mundo. Há cem anos viviam naquela região 200 mil cristãos. Desses, 50 mil sobreviveram aos massacres de cristãos na Primeira Guerra. Hoje, são 4500 no máximo, enquanto 80 mil siríacos vivem na Alemanha, 60 mil na Suécia, 10 mil na Bélgica, na Holanda, na Suiça. Apesar da guerrilha entre curdos e exército turco e da agressividade dos curdos contra os siríacos, e apesar da mulher e das filhas adolescentes não quererem deixar a Alemanha, Robert Tutus voltou a Idil. Veio para reconstruir a casa de família, arrasada, está a restaurar a Igreja de Santa Maria e fundou uma associação para a cultura siríaca, para que a língua, a cultura e a tradição cristã siríaca se mantenham vivas. Para que os siríacos saibam que aquela é a sua terra. Para que o mundo saiba que ali vivem e existem, desde os primeiros tempos. Depois de ler a história até aqui acontecida, deixo-me pensar no ecumenismo, metáfora de unidade e harmonia, de entendimento e de paz, casa e resguardo, defesa de todos os males, na Igreja desejada. E acrescento a gente de Azeh-Isil à minha galeria de presenças, em hora de oração.

Leonor Xavier

15 de Maio de 2012

13 maio 2012

Viver com uma doença

Tal como milhares de portugueses tenho uma doença oncológica. Em cada ano cerca de 40,000 portugues@s são diagnosticados com esta doença. O meu diagnóstico data do verão de 2008, e desde então tenho tido o privilegio de ser tratada por pessoas altamente competentes e também com um forte sentido de ‘cuidado’. Recorro também à chamada ‘medicina chinesa’. Muito para além da utilização da acupunctura, a que ela vulgarmente é reduzida, a medicina chinesa trabalha sobretudo com as plantas medicinais, a massagem, a dieta e determinados tipos de exercício. A doente é encarada em toda a sua complexidade, sobretudo a nível emocional e também espiritual.
Não recebi a notícia como uma catástrofe ou uma desgraça mas, por feitio e por ter fé em Deus, com naturalidade, fazendo parte do precurso da vida. Entrei, até, numa fase em que sentia e sinto uma grande paz de espírito. Pela primeira vez, pois tinha sido sempre extremamente saudável, enfrentei a minha mortalidade. Informei os muitos médicos que encontrava a olhar para mim, com consternação, que não queria excesso de tratamentos nem de medicamentos. Declarei que preferia morrer mais cedo, com alguma qualidade, do que ser submetida a esses exageros que me parecem tantas vezes motivados para salvaguarda da ‘má’ consciência dos médicos ou dos familiares do enfermo, mas não para bem-estar da principal interessada, a doente. Sou, pois, a favor do testamento vital, que devolve às pessoas as decisões que só a elas dizem respeito. Em meio hospitalar é muito fácil os doentes perderem o controle sobre si próprios, que à luz da razão, da emoção e para mim, também da fé, tem que ser nosso. O poder dos profissionais de saúde, o poder da instituição, é arrasador. Apelo aos profissionais de saúde que nunca abusem do vosso poder sobre o doente.
A partir do momento em que se soube da doença fui alvo de uma espantosa onda de atenções, cuidados, orações, visitas, mensagens e telefonemas por parte de familiares e pessoas amigas que me confortaram extraordinariamente. Estou-lhes muitíssimo grata. Esta é para mim a verdadeira ‘comunhão dos santos’ – muito longe dos critérios de se encontrar um ‘milagre’ a todo o custo (nem que envolva um acidente com a fritura de peixe) para ‘provar’ que esta ou aquela pessoa importante na instituição-igreja é ‘beata’ ou até ‘santa’. Santas e beatas são todas aquelas pessoas que no seu dia a dia procuram seguir o apelo de Jesus Cristo - amai-vos uns aos outros como eu vos amei - mesmo que não acreditem nesse mesmo Jesus e que sejam convictamente agnósticas ou ateias.
É banal repetir que não sabemos o dia nem a hora, ecoando o Evangelho. Costumo pensar que, como tenho consultas regulares marcadas, não posso faltar e por isso não dá jeito morrer nos intervalos entre as consultas. Desde que fui diagnosticada, seis pessoas amigas morreram de forma inesperada ou repentina. Outra banalidade é o relativismo de uma situação de doença. Há tantos milhões em situação de grande sofrimento que se torna quase obsceno dar demasiada importância à nossa condição.
Aprofunda-se a fé, a meditação, a disponibilidade. A meditação é uma caminhada que está a ser objecto de muito interesse. Afastamo-nos do turbilhão dos nossos pensamentos habituais para “ficar na quietude de corpo e espírito”.
[1]
Não costumo ler relatos destinados a animar os doentes, e nunca faço pesquisas na internet sobre a doença. Uma excepção foi o livro de David Servan-Schreiber, um médico franco-americano, que nos dá uma visão, muito bem escrita e prazerosa, de caminhos possíveis para enfrentar a doença oncológica.
[2] Aos 30 anos confrontou-se com um tumor cerebral. Só morreu 19 anos mais tarde, tendo partilhado com uma imensa comunidade de doentes e cientistas a sua estratégia: alimentação saudável, a vivência das emoções, incluindo o espiritual, o exercício físico e psíquico e também os tratamentos tradicionais. Inspirada no exemplo deste médico, uma amiga minha, também ela doente, e eu própria, criamos um grupo de auto e inter-ajuda, que desde o Natal passado, reune quinzenalmente, em Lisboa, no Convento dos Dominicanos. Somos acompanhadas tecnica e gratuitamente por uma excelente enfermeira, Helena Pitta Negrão. Quem estiver interessado/a em saber mais é favor telefonar para 91 491 40 49. São bemvindos doentes, crónicos ou não, seus familiares e amigos. A próxima reunião é no dia 16 de Maio entre as 17.00 e as 18.00.
Ana Vicente
13 de Maio

[1] Há centenas de sítios sobre meditação. Um é www.meditacaocrista.com
[2] David Servan-Schreiber, Anti-Cancro – Um novo estilo de vida, Lisboa, Caderno, 2008.

09 maio 2012

A questão do “muitos” e do “todos” na consagração do vinho

O melhor texto que encontrei para o blogue deste mês é este. É longo, mas é essencial.


Frei Bento Domingues









Introdução
Segundo informação vaticana de 30 de Abril p.p., Bento XVI teria enviado aos bispos católicos da Alemanha uma mensagem determinando que a expressão “pro multis”, isto é, “por muitos”, da consagração eucarística do vinho, e que em várias línguas (incluindo a portuguesa) é actualmente traduzida “por todos”, seja a preferida, porque mais fiel ao texto bíblico. É verdade, filologicamente. Mas não, semanticamente. E em hermenêutica bíblica, se interessa a filologia, mais, muito mais nos deve interessar a semântica. Mas, vamos por partes.

A consagração eucarística do vinho
É verdade que no texto original do Missal Romano se lê, na fórmula eucarística da consagração do vinho e a propósito do sangue do Senhor Jesus: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum, o que dá em português e consta dos missais canonicamente aprovados e em uso: derramado por vós e por todos os homens para remissão dos pecados. Assim também em outras línguas, em que o multis do Missal Romano, isto é, muitos, é traduzido por todos. Quem tem razão? Vamos a ver. Mas antes, sejam-me permitidas algumas observações prévias.

Observações Prévias
O primeiro documento bíblico que nos informa sobre o que hoje consideramos a Eucaristia (ou a Missa, se quisermos), é a referência que Paulo faz à refeição fraterna dos fiéis de Corinto (1Cor.11,17-34)
[1]. Nele Paulo afirma taxativamente: “Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse “Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim”. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue: todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (1Cor.11,23-26). E mais não disse Paulo nem escreveu.

Outros bem puxados vinte anos depois, o médico Lucas, caríssimo discípulo e companheiro[2]
e colaborador de Paulo[3] na narrativa da Ceia de Despedida do Senhor Jesus escreve: “Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós” (Lc.22,20), no que está essencialmente de acordo com Paulo (1Cor.11,25), diferindo, quanto ao sangue, apenas naquele: que vai ser derramado por vós. E nada mais.

Os dois outros Sinópticos (Marcos, que escreveu antes dos demais, e Mateus) dão-nos as seguintes versões sobre o mesmo[4]: Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: “Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos…” (Mc.14,23-24). Segundo Mateus: Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: “Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados (Mt.26,27-28). Embora no texto grego original, e quanto ao sangue derramado, a expressão num e noutro evangelista seja a mesma, e translitero: tò ekchynnónenon hypèr pollôn (Marcos); tò perì pollôn ekchynnónenon, é notável que a tradução em Marcos e Mateus do termo grego pollôn, que é o busílis da questão, não seja a mesma: todos, em Marcos, e muitos, em Mateus. Afinal em que ficamos? Em todos ou só em muitos? Segundo Bento XVI deverá ser muitos. Segundo me parece e justificarei, literariamente, o tradutor de Marcos tem razão: são todos.

A chave da questão
Não há dúvida nenhuma de que o termo grego pollôn[5]
se pode traduzir, à letra, por muitos. Assim leio na quase dúzia de versões portuguesas que possuo[6], à excepção de duas: a TEB – a tradução ecuménica, publicada no Brasil pelas Paulinas em 1995, com recomendação do Presidente da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, e cujo texto é: derramado em prol da multidão, e A Boa Nova Para Toda A Gente, da Sociedade Bíblica, publicada em Lisboa em 1978 (Novo Testamento), com a aprovação de D. António, bispo do Porto, presidente da Comissão Episcopal da Doutrina da Fé, e cuja versão é: derramdo em favor da humanidade. Claro que isto não são versões mas interpretações. S. Jerónimo quando, no século IV, traduziu a Bíblia do hebraico e do grego para o latim, foi filologicamente (e acentuo: filologicamente) fiel ao original, vertendo: qui pro multis effundetur. E da Vulgata Latina terá passado para o Missal Romano. Mas, bem ou mal? Mal, porque não se trata apenas de uma questão filológica, mas também, e sobretudo, semântica. Ou, por outras palavras: o que é que aquele texto grego quer dizer: muitos ou todos?
Estou convencido de que quer dizer todos e pelas seguintes razões:

1. A tradição cristã em voga no tempo tanto da redacção dos Evangelhos segundo Marcos e Mateus, como no tempo de S. Jerónimo, era a de que o Senhor Jesus de Nazaré era o Messias. Na Sua Paixão e Morte realizara o predito pelo Segundo Isaías (século VI a.C.) sobre o Servo de Yahwéh: “Por isso ser-lhe-á dada uma multidão como herança, há-de receber muita gente como despojos, porque ele próprio entregou a sua vida à morte, e foi contado entre os pecadores, tomando sobre si os pecados de muitos (rabbim, no hebraico) e sofreu pelos pecados (Is.53,12). Quem não lê esta parte da “profecia” repercutida na fórmula consecratória do vinho em Mateus (21,22)[7]?
Ademais, é e bom que se diga em abono da ciência bíblica, as narrativas da Ceia de Despedida nos Sinópticos não correspondem por inteiro ao que, historicamente, então se terá verificado, não repugnando, por isso, que constituam criações da primitiva Comunidade Cristã face à prática cada vez mais generalizada de se reunirem os fiéis discípulos do Senhor Jesus em comunitárias e fraternas refeições a que, pouco a pouco, se foi dando carácter sagrado.

2. Em segundo lugar, o plural do adjectivo grego polús, pollê, polú (muito) é usado, tanto no grego clássico[8]
como no grego bíblico do Novo Testamento no sentido da totalidade, de todos. Assim, por exemplo, quando Paulo escreve aos Romanos: Se pela falta de um só homem (ei gàr tôi toỹ enòs (um) paraptốmati) todos morreram (hoi polloi apéthanon), com muito mais razão a graça de Deus, aquela graça oferecida por meio de um só homem (enós anthôpoy), Jesus Cristo, foi a todos (eis toys polloys) concedida em abundância (Rm.5,15). Aqui, não há dúvida, o sentido do adjectivo grego é o de totalidade (todos) e não apenas de pluralidade (muitos). E, mais abaixo, volta Paulo a usar polys, pollê, poly no mesmo sentido de totalidade: De facto, tal como pela desobediência de um só homem (toỹ enòs anthôpoy), todos (hoi polloi) se tornaram pecadores… (Rm.5,19).

3. Finalmente, o argumento da analogia da fé. Como é que que esta opção pelo muitos (sangue derramado por muitos), em vez de todos, se compagina com as afirmações bíblicas (e não é agora caso de tomar em mãos o tema, que isso nos levaria longe) da universalidade da salvação messiânica[9]?


Conclusão
Filologicamente, é possível a tradução: derramado por muitos. Semântica e exegeticamente, não. Por isso, está certo e bem traduzir-se: derramado por todos, na fórmula consecratória do vinho.

A. Cunha de Oliveira, 2012.05.05



[1] Esta Primeira Carta de Paulo aos Coríntios terá sido escrita uns vinte e poucos anos após a morte do Senhor Jesus.
[2] Como bem se fica sabendo pelo uso do plural por Lucas em Act.16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28.
[3]Cl.4,14; Flm.24; 2Tm.4,11.
[4] Estou seguindo a versão portuguesa da Nova Bíblia dos Capuchinhos (1ª edição, 1989).
[5] Genitivo do plural do adjectivo polys, pollê, polú (do sâncrito: púruh, com sentido de plenitude), que significa: muito, numeroso, e similares.
[6] Os ingleses traduzem: for many, e os alemães für viele.
[7] Sobre tudo isto, nem palavra no IV Evangelho, que terá sido composto depois do ano 90, ou seja, bem mais de meio século após a morte do Senhor Jesus.
[8] Veja-se Lorenzo Rocci, no seu monumental Vocabulário Greco-Italiano, 1534.
[9] Por desfastio, leia-se, entre outras, qualquer das seguintes citações: Lc.3,6; Jo.3,17;4,42;12,47; Act.4,12;28,28; Rm.11,11; 1Tm.2,4;4,10; Tt.2,11; 1Jo.4,14.