10 julho 2012

De acordo com notícias do jornal on-line “Página 1”[1], pertencente ao grupo da Rádio Renascença, o Cardeal Kurt Koch, responsável da Igreja Católica pelo diálogo ecuménico, considera que o aniversário dos 500 anos da Reforma “não é uma razão para festejar” e “apela antes por um memorial”. Embora as comemorações sejam de iniciativa da Igreja Luterana, haverá representantes católicos convidados, ao que parece. Acrescenta o jornal mencionado: “por uma questão de ecumenismo”. Mas o Cardeal Koch considera que, em vez de se festejar, o evento deveria ser “uma oportunidade para reconhecer erros de parte a parte”. Embora reconhecendo que as suas afirmações “poderiam ser vistas como anti-ecuménicas”, o Cardeal Koch considera que “não podemos festejar um pecado”, referindo-se, segundo o jornal Página 1, ao “pecado da separação”. O Cardeal considera que “deveria haver um evento durante o qual os representantes de ambas as partes pudessem reconhecer e perdoar mutuamente os erros cometidos”. A notícia termina com o seguinte parágrafo: “No dia 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero pregou as suas 95 teses à porta de uma Igreja, um evento que é considerado como tendo dado origem à reforma protestante na Europa Central.” Palavras mais do que escassas para explicar em que consistiu a intuição de Lutero!…
Esta notícia apareceu no preciso momento em que me dispunha a escrever este texto, pelo que ser-me-ia artificial não me referir a ela. Sobretudo, porque acredito que, sendo a separação entre os cristãos um escândalo e uma dor, uma concepção ecuménica da Igreja, centrada no facto de todos sermos irmãs e irmãos em Jesus Cristo, poderá constituir uma forma de olhar para todas as Igrejas (e insisto em dizer “Igrejas”) como cores de um único arco-íris. A maior dor, neste momento, para muitos cristãos, será o não avanço do diálogo ecuménico: disso, sim, teremos todos de nos arrepender. Mas, enquanto católica, sinto-me enriquecida pelas irmãs e pelos irmãos protestantes, herdeiros do rasgo teológico e espiritual de um Martinho Lutero que considerava necessário, em tempo de comércio de indulgências, acentuar que só a fé nos salva, e não as obras, isto é, que não são actos exteriores (inclusivamente os de eventual piedade puramente ritual), mas sem um coração entregue a Deus, que nos salvarão. E que a fé haverá de ser o fundamento para um agir cristão renovador do mundo. Assim como lhe devemos – todos, protestantes e católicos – a sua afirmação de que só a Escritura constitui o fundamento da tradição, pois toda a tradição constitui um serviço prestado à transmissão do essencial da nossa história de fé. Por isso, acredito que também temos todos matéria para festejar.
Teresa Toldy


[1] Jornal “Página 1”, edição do dia 25 de Junho de 2012, in: http://mediaserver.rr.pt/rr/others/428874089ac3c5.pdf

01 julho 2012

NÃO SABEMOS ONDE ESTAMOS NEM PARA ONDE VAMOS

1. Não sabemos onde estamos nem para onde vamos. Durante algum tempo, o entretenimento cultural eram as divagações, as conversas sobre modernidade e pós-modernidade. Deixemos, por enquanto, essa questão de lado.
Que não sabemos nem onde estamos nem para onde vamos, basta olhar para o que se passa com a “desunião europeia”. A Comissão e os chefes de Estado especializaram-se em reuniões sobre nada para chegarem a coisa nenhuma. Alimentam os especialistas do nada em questões europeias, preocupados apenas com a revelação e os ocultamentos de uma senhora alemã que parece não descansar enquanto não vir tudo a arder.
Não devemos, porém, ser demasiado severos com essa gente, pois o que vivemos, desde há vinte anos, é uma mutação prodigiosa. Talvez que só se produza uma semelhante de dois em dois ou de quatro em quatro mil anos.
 2. De forma mais precisa. Desde o começo dos anos 80, vivemos quatro revoluções ao mesmo tempo: uma revolução económica, com a mundialização; uma revolução numérica e cibernética que deu à luz um quase-planeta, um sexto continente; uma revolução genética, que transforma os fundamentos da humanidade, as nossas relações com a vida, com a procriação e com a genealogia; uma revolução ecológica, com a tomada de consciência de que não nos podemos desenvolver como se fazia desde há milénios. Por estas quatro razões, vivemos uma mudança, talvez tão importante como a revolução neolítica, há 12 mil anos, que fez passar a humanidade da caça à domesticação dos animais, da recolha à agricultura, do nomadismo à sedentarização ou, como se costuma dizer, o ser humano passou "de parasita a sócio activo da natureza", por vezes, também seu agressor.
3. Até há pouco tempo, a nossa ilusória representação do mundo colocava, no centro, o Ocidente que irradiava sobre o resto, sobre a periferia. O Ocidente incarnava a modernidade; a periferia era a tradição, o atraso. O centro irradiava quer de maneira violenta, pela conquista ou pela colonização, quer pela influência cultural, quer pela dominação tecnológica. No começo do século XVII, a cultura europeia recuperou do seu atraso em relação a outras grandes culturas mais antigas, como a da Índia e a da China. Ultrapassou-as, tornando-se hegemónica. Esta representação, que já leva quatro séculos, tornou-se caduca.
4. Com a intervenção americana no Iraque, os neoconservadores pensaram que podiam manter a superioridade ocidental sobre o resto do mundo. Hoje, sabemos que já não é possível. Os Estados Unidos já não têm meios para vencer quer no Iraque quer no Afeganistão. Já não conseguem governar o mundo. Alguns acreditaram que o Ocidente continuava a manter, no entanto, a superioridade na alta tecnologia. Dizia-se: os chineses fabricam meias baratas, mas nós fabricamos aviões caros e mantemos o segredo da sua tecnologia. É uma ilusão. Alguns países, como por exemplo a Índia, tornaram-se tão competitivos como os ocidentais. Alguns dias depois da falência do banco Lehman Brothers, a 15 de Setembro de 2008 – que levou a crise financeira ao seu paroxismo no Ocidente – deu-se a primeira saída de um astronauta chinês para o espaço. É um “piscar de olhos” da História. No mês seguinte, a Índia lançou a sua primeira missão espacial para a Lua. Como diz Jean-Claude Guillebaud, numa entrevista que, aqui, seguimos de forma livre, passamos a uma configuração, na qual já não existe um centro, mas vários, sem se poder dizer, hoje, qual será o hegemónico. Ocidente e modernidade já não sinónimos como se pensou durante algum tempo (Cf. La Vie – Le Monde 2012).
5. Os períodos de modernidade são sempre acompanhados de recusas. É, actualmente, o caso do Irão. O mundo muçulmano é atravessado, hoje, por um fundamentalismo que gostaria de parar o processo de modernização. Haverá violência. Não podemos, porém, dar razão a Samuel Huntington e à sua concepção de sete grandes civilizações, como se de entidades eternas se tratasse. Já há muito que não é assim. A China actual está atravessada por remodelações e por contradições como acontece no Ocidente. O mesmo se pode dizer da Índia, onde a literatura faz destas contradições dolorosas o seu tema principal.
6. Importa acabar com a ideia de que todos os países caminham para a democracia e que, tarde ou cedo, lá vão chegar. Basta que nós lha ensinemos. Para já, isso não funcionou no Iraque e não vemos como acontecerá em alguns outros países. Isto não significa que a liberdade não lhes interesse, pois, diz-se, pertencem a outra cultura. Ainda que muito confusas e problemáticas, as revoltas, conduzidas pela juventude, que surgiram na Tunísia, no Egipto, na Líbia, no Iémen, na Síria ou em Marrocos, mostram que o ponto de vista cultural não é pertinente. Ainda não sabemos onde irão dar as diversas “primaveras árabes”. Pode acontecer que sejam confiscadas pelos islamitas. Seria, no entanto, ridículo exigir que o mundo árabe realize em alguns meses uma “libertação” democrática que os ocidentais levaram tanto tempo a esboçar e com a qual nem sempre estão satisfeitos. E não ficaremos por aqui noutras partes do mundo. A sociedade chinesa, muito interessada pelas liberdades, parece que também está a reinventar mecanismos democráticos nas barbas do regime, usando a sua própria retórica. O Irão continua governado por uma teocracia obscurantista, mas a sociedade civil é dinâmica. Dito de outra maneira: outras formas democráticas germinam e elaboram-se, próximas e diferentes das que nós conhecemos.
Caminhamos para um choque de civilizações ou para uma mestiçagem cultural? É cedo para o dizer. De qualquer modo, o horizonte dos cristãos deve ser o de Jesus Cristo: reunir numa só família toda a humanidade, todos os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 52).

Frei Bento Domingues O.P.

30 junho 2012

Contestar as Mentalidades

 
 
Sou devoradora de jornais, ágil na internet, curiosa sobre o que acontece no mundo. Passo os meus dias em corrida de velocidade, como se estivesse num jogo de apanhada, a ver se alcanço e agarro as surpreendentes notícias que a toda a hora invadem o meu espírito, a minha casa, o meu espaço, para soltar as emoções, tão desencontradas, que me tomam, de cada vez. Mas as notícias ultrapassam-me e nem sempre sou capaz de segurar o fôlego, de ficar calada e quieta, de criar o silêncio interior que me acalme, me sossegue, me traga paciência e tolerância, ou pura indiferença em todos os absurdos que desfilam perante os meus olhos, em vertiginoso delírio os absurdos aceleram.    
Há os casos sinistros porque são dramáticos, como o do sacristão pedófilo, filmado por um dos miúdos abusados a masturbar-se à frente de outros miúdos. Com todas as consequências ou não consequências penais, quero saber o que trará a sequência dos acontecimentos. Que posição concreta será a da Igreja, a do padre da freguesia, que outras denúncias irá desencadear, que reações na opinião pública, quando o devoto/pedófilo sacristão já vai sendo assunto suculento e comentado na Praça da Alegria, o programa popular da manhã na RTP1?  
E há os casos risíveis, ou as farsas, um género teatral que, como toda a gente sabe, está acima da comédia, pela situação hilariante que provoca, porque é excessivo, porque é acelerado no possível nonsense. Eu não preciso de cenário para considerar como farsa duas das mais recentes notícias divulgadas sobre a Igreja em Portugal. Notícias sobre dois acontecimentos que talvez pretendam ser formas alternativas de Nova Evangelização, para as almas simples, dóceis e submissas.  O primeiro caso, é o da inauguração, em 6 de Junho do “Milagre de Fátima” em Hologramas (para perceber o fenómeno, aconselho a gloogar  Ciência Viva, e a ler a explicação…) Em Fátima, o investimento de 1 milhão de euros (um milhão!!!) incorporando 75 por cento de fundos comunitários (!!!) pretende atrair 300 mil pessoas por ano para apreciar “conteúdos de multimédia de ultima geração, recorrendo a hologramas, sons e odores” e assim reviver as Aparições aos pastorinhos. O segundo caso, transcendente, vai concretizar-se também em Fátima, 18 de Julho às 20 horas. Chama-se Cristoteca (!!!), é promovido pelo movimento brasileiro Aliança da Misericórdia, é um espaço de dança, oração e evangelização em que Cristodrinks (assim mesmo, meu Deus!!!), bebidas sem álcool são servidas. A evangelização faz-se corpo a corpo durante a dança, quando as missionárias do Aliança chegarão perto dos rapazes e das raparigas (claro que a Cristoteca não pretende chamar gente de meia idade), demonstrando-lhes que ali, o rei da dança, é Jesus. E que namorar se pode, sim, mas com pureza, castidade e virtude. Sem pecado (nem sexo, entenda-se). Para quem conhece o Brasil e o fenómeno das igrejas evangélicas, parece-me este Aliança da Misericórdia( criado em São Paulo e em Portugal desde 2008) muito influenciado pelos rituais dessas igrejas. O que me traz alguma perplexidade.    
Falando em um outro mundo real. Há um tempo, chegou-me via internet a curta filmagem de uma cantoria dos Salmos na missa de domingo na TVI. Dispenso-me de descrever porque todos poderão imaginar aquela estética e cultura pré conciliar que, também extraordinariamente, continua e existir, e que não tem nada a ver com o “pietismo”, que José Mattoso considera “uma devoção sentimental que é por vezes a expressão de um culto popular e precisa de reflexão racional para se tornar aceitável.” Com a tristeza destas notícias, cada vez mais penso que contestar as mentalidades é meu dever cristão.

Leonor Xavier
26 de Junho de 2012 

27 junho 2012

A maternidade onde o sol nasce

Como ainda era cedo para chegar aonde ia, subi a pé aquela parte da cidade onde sempre se passa depressa. No meio do bulício matinal e tendo o ar fresco da manhã como after shave, chamou-me a atenção um intenso brilho amarelo. Iluminada pelo sol nascente, a Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, mostrava o seu discreto esplendor entre elevados edifícios sem pátria. Depois de reconfortado com o sabor e o aroma de um café, olhei durante alguns minutos para aquela fachada tentando imaginar a azáfama por dentro da visível serenidade exterior. Quantas histórias por detrás daquelas janelas onde o sol reflectia intensamente! Certamente muitas histórias clínicas e humanas, com a diversidade correspondente. Profundas, intensas, umas com humor, outras dramáticas, histórias de vidas vistas e ouvidas com a atenção possível dentro da concentração necessária. Provavelmente um dos lugares onde se revela de modo especial a singularidade e a diversidade do ser humano e da sociedade. Um espaço onde poderá acontecer o que é tido como normal (como o nascer do sol), ou o que é visto como raro, excepcional, diferente, o melhor e o pior de uma sociedade, as suas fragilidades e esperanças, as suas forças e fraquezas. Num espaço assim poderão conviver vários estratos sociais, desde “o muito bem” ao “zé-ninguém”, várias culturas, raças, etnias, faixas etárias, muitas e diferentes maneiras de viver e sentir aquilo que ali se trata e cuida. Pelo que fui lendo há uns tempos, num período de luta aberta em defesa da MAC, pude compreender que quem lá trabalha ou trabalhou não fica indiferente e fica diferente. Sente-se vir dali uma energia positiva que congrega e em momentos difíceis vem ao de cima. Parece haver naquela casa qualquer coisa de família, com pertenças e laços consolidados. Uma família que nos últimos tempos se sente ameaçada. Inicialmente, pensando que não eram mais do que boatos, não reagiu continuando com naturalidade as suas vivências e exigências. O tempo encarregou-se de mostrar a consistência do que se falava. Acordados, em Semana Santa, ficaram vigilantes e reagiram com a força e a consciência do valor do seu trabalho e a energia dos laços de uma verdadeira família. Trabalho que, à mercê de razões económicas e outras mais obscuras, iria ser apagado, desmembrado, fragmentado. E aquela família, plural e multidisciplinar, sabe que o que bem faz é o resultado de uma forma de estar e actuar apurada pelo tempo, pela formação e pelas múltiplas e muitas experiências que o terreno fértil proporciona. Nem a angústia e a tristeza do fim que se anunciava (de alguma forma paralelas às de Jesus no Jardim das Oliveiras, que nesses dias se liam) os impediu de reagir. E vigiaram porque sentiam que talvez nem tudo estivesse consumado. Entre uma opinião pública de alguns indiferentes, outros críticos, muitos se uniram à sua causa. Os argumentos dos afectos e os da razão. Alguns chamaram-lhe jóia da coroa, outros, útero urbano, destacando as qualidades técnicas e científicas reconhecidas além-fronteiras. Outros ainda, não sabendo dizer melhor, simplesmente evocavam que um lugar de bem nascer não deveria morrer. Aquela casa é para muitos a gruta do seu presépio. E, logo após o anúncio da Ressurreição, uniram as mãos e os laços, num abraço simbólico em redor do que queriam e deviam proteger. Um cordão humano onde emanava a energia da esperança e a voz do que não podiam calar. Depois vieram as flores, e com elas se construiu o logotipo da instituição. Muitas vidas quereriam ainda florescer neste jardim da diversidade. Algum tempo depois, no dia 1 de Junho, dia da Criança, mais uma demonstração digna de nota: o lançamento de 2.000 balões representando os nascimentos já havidos este ano. No início da tarde, as janelas da fachada começaram a ficar adornadas com grupos de balões cor-de-rosa e azuis. Apesar das incertezas sobre o destino daquela casa, é notável a determinação em que tudo continue a funcionar com normalidade como se a saída do conflito fosse um lançamento de balões. Não por festiva inconsciência, mas pela satisfação de um bom desempenho profissional como se não houvesse fim. A meio da tarde as janelas e o gradeamento da entrada principal estavam enfeitados como se pretendia. No interior, utentes e profissionais estavam preparados para cortarem os fios quando o sinal fosse dado. Do lado de fora algumas dezenas de amigos, trabalhadores da MAC e também crianças, seguravam os seus balões. Por volta das oito, após contagem decrescente, lá partiram eles como notícias de uma festa e de uma causa. Foi bonito vê-los subir na brisa morna do entardecer, a voar como sorrisos de esperança, apoiados por uma orquestra de buzinas dos muitos carros que ali passavam. No dia seguinte aquela fachada continuou a ser iluminada pelo sol nascente.
frei matias, op

23 junho 2012

Ainda os escândalos sexuais

Esta semana, nos Estados Unidos, aconteceu algo notável. Pela primeira um alto funcionário da Igreja Católica foi condenado por encobrimento de crimes sexuais. Também o New York Times considera esta decisão histórica e potencialmente exemplar.
Entretanto, cá em Portugal, também houve uma muito pequena notícia sobre um caso de abuso sexual dentro da Igreja Católica. Foi o caso de umas crianças que denunciaram serem vítimas de abusos, mas que tiveram de filmar os acontecimentos para serem levados a sério pelas suas famílias.
Sem comentários.
PJF

18 junho 2012

Caminhos de Paz

“Um novo Tratado sobre o Comércio de Armas será negociado na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, entre 2 a 27 de Julho de 2012. Milhares de mulheres, crianças e civis, vítimas inocentes de armas de pequeno calibre, são feridas e mortas em vários conflitos em muitos países do mundo; comunidades são destruídas, sendo o meio ambiente e os recursos naturais afetados negativamente. A nossa fé ensina-nos que a vida de cada ser humano é sagrada. Também nos ensina a erguer a nossa voz perante o sofrimento.”
A citação do comunicado da OING – Pax Christi Internacional é todo um programa a que não podemos ficar indiferentes. (cf.
http://www.paxchristi.net/international/foci/ATT/main.php)
Em Portugal, a notícia das iniciativas de dois relevantes grupos católicos (cf.
http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=91392) especifica iniciativas concretas em curso; “Na carta endereçada a Paulo Portas, o presidente da Pax Christi - Portugal, D. Januário Torgal Ferreira, e o presidente do Observatório Permanente, Fernando Manuel Roque de Oliveira, recordam que “o comércio internacional de armas convencionais e das suas munições atinge todos os anos direta ou indiretamente milhões de pessoas, em todo o mundo”. Por isso mesmo, solicitam junto do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros “o envolvimento de Portugal na obtenção de um tratado tão forte e abrangente quanto possível”.
Temos uma tendência para considerar que este tipo de iniciativas é mais de natureza política e não tanto religiosa. Talvez porque seja mais fácil acomodarmo-nos no cantinho confortável e conhecido do nicho religioso das capelinhas e sacristias cujos pronunciamentos políticos se resumem a uma invocação semanal na oração dos fiéis pedindo sabedoria e justiça para “eles”, as autoridades políticas, que “sujam as mãos” no terreno político.
A coberto da autonomia das realidades terrestres, da política nomeadamente, temos muitas vezes uma desculpa para invocar que o que é de César seja para César e o que é de Deus para Deus.
E no entanto a realidade não se apresenta com esta linearidade dicotómica. Se queremos um mundo mais justo, mais fraterno, mais próximo do Reino em que o lobo e o cordeiro poderão pastar juntos, então temos mesmo de por mãos à obra. Ora isso implica dar atenção aos empecilhos que impedem o caminho para a humanidade se encontrar finalmente em Paz. A guerra e as armas são exemplos claros e revoltantes!
A violência que nos habita, “defeito de fabrico” que transportamos no ADN humano, (o tal pecado original que nos disseram na infância) pode e deve ser controlada, modificada e transformada em energia positiva, construtora da uma alternativa de vida possível e verdadeiramente humana para todos/as.
Tal como a imagem do fogo que queima num incêndio tudo à volta deixando um rasto de sofrimento e dor, neste caso com o tráfico de armas e as guerras que proliferam, podemos também usar esse mesmo fogo, como energia vital para construir a Paz e a imagem seria então a das línguas de fogo do Pentecostes com os vários dons que se espalham como o sopro do Espírito. Com a sabedoria de quem sabe que, com a ajuda de Deus e do Próximo, se pode transformar em construtor da Paz através da prática de pequenos e grandes gestos de não-violência ativa.
São gestos políticos porque são gestos humanos e a humanidade vive necessariamente em comunidade organizada. São gestos partilhados com quem não se define pela mesma matriz religiosa mas que se encontra nos mesmos objetivos. (cf.
http://www.amnistia-internacional.pt/)
As soluções concretas de programas político-ideológicos para os problemas da humanidade são da nossa responsabilidade como cidadãos, aí a diversidade de opções é legítima e saudável sejam motivadas ou não por valores religiosos pois trata-se da gestão da coisa pública.
Mas quando se trata da sobrevivência da humanidade, muito simplesmente, ecoa em nós a passagem bíblica em que o Senhor pergunta “O que fizeste do teu irmão?” E não podemos ficar indiferentes, pois de duas, uma; ou ajudámos a matá-lo ou a salvá-lo.
Lutar contra a proliferação de armas é ajudar a salvar-nos enquanto humanidade. Agora é o momento de exercermos a nossa pequena mas preciosa pressão; ou usando uma imagem bíblica, de sermos parte do fermento que leveda a massa e a faz crescer para um dia ser alimento de paz.
É uma atitude política e é uma expressão de fé de quem trilha o caminho da esperança de um mundo melhor!
AFF


17-06-2012

10 junho 2012

O DIREITO À ASSISTÊNCIA RELIGIOSA

Pela primeira vez, pois tinha sido sempre extremamente saudável, enfrentei a minha mortalidade. Informei os muitos médicos que encontrava a olhar para mim, com consternação, em volta da cama do hospital, que não queria excesso de tratamentos nem de medicamentos. Declarei que preferia morrer mais cedo, com alguma qualidade, do que ser submetida a esses excessos que me parecem tantas vezes motivados para salvaguarda da consciência dos médicos ou dos familiares do enfermo, mas não para bem-estar da principal interessada, a doente. Sou, pois, a favor do testamento vital, que devolve às pessoas as decisões que só a elas dizem respeito. É o empoderamento do doente que está em causa. Em meio hospitalar é muito fácil os doentes, precisamente pela sua condição, perderem o controle sobre si próprios, que à luz da razão, da emoção e para mim, também da fé, tem que ser nosso. O poder dos profissionais de saúde, o poder da instituição, é arrasador. Face a tantas e tantos profissionais de saúde, apelo a que nunca abusem do seu poder sobre o doente. Senti, contudo, que no hospital onde fui tratada, procura-se esse difícil equilíbrio de poderes. Todo o pessoal faz um esforço para ouvir os doentes e seus familiares, com cordialidade e paciência, o que em situações de fragilidade tem uma importância extraordinária, para o físico e psíquico.
 

Iniciei então os tratamentos tradicionais de quimioterapia e radioterapia, que aguentei bem. Calhou-me na sorte um excelente oncologista, o Dr. Nuno Gil, que mantém uma atitude respeitosa, afectiva e criativa face aos seus doentes. Reconhece ser esta uma doença muito misteriosa, onde não pode haver certezas e que a mente do doente e dos seus cuidadores tem que estar aberta a múltiplas hipóteses. Tive ou continuo a ter, ainda, a ventura de ser tratada por outros excelentes profissionais. Deparei-me com uma nova geração de enfermeiras (e muitos enfermeiros) e outros técnicos, de sofisticadas e difícieis especializações, muitos na casa dos vinte, de um excelente nível profissional, mas sobretudo humano. Verdadeiramente imbuídos do espírito do ‘cuidado’.

E agora entro mais especificamente no tema que o Pe Vítor me pediu para abordar:
 

O direito à assistência religiosa – para mim obviamente indiscutivel – e que eu descreveria até como um direito humano. Como todos os direitos humanos também este caminhou muito devagarinho. Podemo-nos alegrar porque, ao contrário do que acontece em tantas zonas do mundo, no nosso país temos agora em plena implementação a Lei da Liberdade Religiosa, (Lei nº 16/2001 de 22 de Junho), assim como o Decreto-Lei nº 253/2009 de 23 de Setembro, que regulamenta a assistência espiritual e religiosa nos hospitais e outros estabelecimentos do Serviço Nacional de Saúde – onde são respeitados os doentes pertencentes às diferentes crenças religiosas ou a ausência dessa crença.
 

Posso relatar a minha experiência específica mas sei, de conversas havidas com muitas pessoas que já passaram pela hospitalização, que essa assistência pode ser muito gratificante e confortante, desde que quem a preste tenha características pessoais e formação específica para a poder exercer com qualidade - e penso, no que diz respeito às pessoas católicas, ser positivo que tendencialmente esta função deixe de ser remunerada pelo hospital e passe a ser exercida por mulheres e homens, ordenados ou não, de forma voluntária.
 

Quando ainda estava internada chamei o meu amigo Frei Bento Domingues O.P. para me dar, já não os ‘últimos sacramentos’ ou a ‘extrema unção’ como dantes de dizia, dramaticamente, mas antes a benção dos doentes, o que fez com a sua habitual bonomia. Só me falta, portanto, receber um dos sete sacramentos, o da ordenação. Aproveito para repetir, pois já o escrevi e disse muitas vezes, a par com uma imensidão de outros crentes, de várias formações e responsabilidades, considero que não há fundamentos teológicos para excluir as mulheres dos ministérios ordenados e que antes pelo contrário, a mensagem de Jesus é de inclusão e nunca de exclusão.
 

A partir do momento em que se soube da doença fui alvo de uma espantosa onda de atenções, cuidados, orações, visitas, mensagens e telefonemas por parte de familiares e pessoas amigas que me confortaram extraordinariamente. E continuam a fazê-lo. psíquico e físico. Estou-lhes muitíssimo grata. Dou apenas alguns exemplos de índole religioso: A minha prima, Rosário Borges de Castro, trazía-me regularmente a comunhão a casa. A minha amiga Adriana Sarmento, que tem qualidades emocionais que ultrapassam o comum das pessoas, estava sempre disponível para me fazer ‘heiki’, a misteriosa transmissão de energia vital que nos faz sentir bem a nível físico, mental e espiritual. Outra velha amiga, a Lygia Preto, organizou uma cadeia de orações. Quanto a Elizabeth Bulger, freira carmelita há mais de 40 anos, no norte de Inglaterra, agora atingida por uma doença degenerativa, encontramo-nos em comunicação espiritual diária.
 

Esta é para mim a verdadeira ‘comunhão dos santos’ – muito longe dos critérios de se encontrar um ‘milagre’ a todo o custo (nem que envolva um acidente com a fritura de peixe) para ‘provar’ que esta ou aquela pessoa importante na instituição-igreja é ‘beata’ ou até ‘santa’. Santas e beatas são todas aquelas pessoas que no seu dia a dia procuram seguir o apelo de Jesus Cristo - amai-vos uns aos outros como eu vos amei - mesmo que não acreditem nesse mesmo Jesus e que sejam convictamente agnósticas ou ateias. Como repetia amiúde a minha mãe, há milhões de ‘santos escondidos’ que nunca conhecerão os altares nem obvervarão, lá dos céus, cerimónias pomposas sobre si próprios.
 

O meu marido e filhos encararam a minha doença com muito sofrimento mas também muita coragem, e sinto sempre a sua protecção, cuidado e amor. Dado o facto de minha filha e família estarem, providencialmente, a passarem o ano escolar de 2008-9 em Londres, para lá parti para ouvir outra opinião, pois sabia que tinha que ser operada. Uma prima minha, inglesa, religiosa, vinha visitar-me muitas vezes, trazendo-me a comunhão. Um dia, lembrou-se de mandar chamar o prior de St James, a Igreja Católica da zona. Julgando eu que ele me trazia a comunhão, manifestou que também pretendia dar-me a benção dos doentes, pelo que recebi aquele sacramento pela segunda vez, num curto espaço de tempo. Pelo seu olhar surpreso e ligeiramente embaraçado, percebi que pertencia à ala mais tradicionalista e conservadora da igreja quando lhe referi que considerava urgente acabar com a disciplina do celibato obrigatório para o clero secular.
 

Em Londres, recorri aos cuidados do célebre hospital Royal Marsden, que tinha deixado cair a palavra ‘cancer’ do seu nome. Agora que a palavra ‘cancro’ já não significa, necessariamente, o anúncio de morte a breve prazo, mas antes a oportunidade de viver uma fase muito interessante da vida, não se quer incomodar. Vivendo mais uma vez, uma ‘primeira’ experiência, fui operada por uma equipe de excelência e constatei que o anestesista era considerado tão importante como o cirurgião, seguindo a doente no pós-operatório tanto como o colega. Os cinco dias que fiquei no hospital foram extremamente desagradáveis, dado que do meu corpo saía um número elevado de tubos e entravam outras tantas agulhas, entre as quais uma espetada no pescoço. Não podia comer nem virar-me. Administrava a mim própria uma qualquer morfina para combater a dor, puxando por um cordão, que só actuava de cinco em cinco minutos. Um exemplo do sentido prático britânico.

Regressada a Portugal, tive e continuo a ter, altos e baixos. A partir de Maio de 2010, resolvi experimentar a medicina de tradição chinesa, sem abandonar a ocidental. Na pessoa do Dr. Ricardo Furtado encontrei um profissional de alto nível humano e técnico, com uma atitude holística face ao paciente. Muito para além da utilização da acupunctura, a que ela vulgarmente é reduzida, a medicina chinesa trabalha sobretudo com as plantas medicinais, a massagem, a dieta e determinados tipos de exercício. Cada um destes tratamentos, a serem utilizados, são-o de forma especificamente dirigida aquela pessoa com aquela sintomologia, procurando-se sobretudo a causa.
[1] A doente é encarada em toda a sua complexidade, sobretudo a nível emocional e também espiritual. Os efeitos positivos dos tratamentos são muitas vezes surpreendentes.
 

Outro tipo de terapia que tenho experimentado é a chamada Medicina Informacional. Trata-se de um método não invasivo que usa energia eléctrica para fornecer informação acerca do estado do nosso corpo e espírito, procurando restaurar um equilíbrio natural e um bom desempenho.
 

É banal repetir que não sabemos o dia nem a hora, ecoando o Evangelho. Desde que fui diagnosticada, seis pessoas amigas morreram de forma inesperada ou repentina. Outra banalidade é o relativismo de uma situação de doença. Há tantos milhões em situação de grande sofrimento (mulheres no Afeganistão, escravas sexuais em todo o mundo, crianças abusadas em Portugal, entre centenas de outros exemplos) que se torna quase obsceno dar demasiada importância à nossa condição.

Tenho falado com doentes oncológicos, crentes ou não, que consideram quase um privilégio ter sido atingido por esta doença (uma em cada cinco pessoas o são e prevê-se que dentro de pouco tempo a taxa será de uma para três – em Portugal estima-se que adoecem anualmente 40,000 pessoas) porque passamos a ter outra relação com o tempo e o espaço. Passa-se a apreciar de outra forma belezas várias e adquirir novas sabedorias. Um médico amigo, também ele afectado pela doença, de que se tratou, dizia-me com sentido prático: “como não há nada que possamos mudar, mais vale aceitar.” Como dizia o meu radioso primo Pedro Magalhães Ramalho, que conviveu com o seu cancro durante doze anos, “não podemos levar a vida demasiadamente a sério.” Aprofunda-se a fé, a meditação, a disponibilidade. Não é preciso ser crente para se praticar a meditação. É uma caminhada que está a ser objecto de muito interesse, também em Portugal. Afastamo-nos do turbilhão dos nossos pensamentos habituais para “ficar na quietude de corpo e espírito”.
[2]
 

Doente, escolho as leituras com mais cuidado e leio sem parar, um prazer insuperável. Desde o início que resolvi falar abertamente da doença, com naturalidade, em vez de a ocultar ou ignorar. Será também uma estratégia minha para a enfrentar sem medo. Acontece, por vezes, ser questionada acerca da razão porque uso uma bengala. Respondo calmamente que tenho uma doença grave, nomeadamente um cancro. A cara da interlocutora enche-se de espanto, de consternação ou de pânico. Quase sempre se inicia um relato das muitas pessoas que conhece, que tiveram cancro, e que agora há uma infinidade de tempo que estão bem. Eu também tendo a ter essa reacção se me vêem falar de cancro.
 

Vamo-nos habituando, aos poucos, à nossa mortalidade, e como eu nunca desejei morrer de repente, encaro este processo com interrogação. Percebemos a evidência de que não morremos quando queremos mas quando o corpo quer. Está cansado. Quer cessar as suas múltiplas funções que pareciam eternas.
 

Nesta, como em qualquer período da nossa vida, o futuro é um país estrangeiro, jogando com as palavras de um escritor inglês. Estar atenta aos sinais dos tempos em geral e aos que se atravessam no meu caminho, especificamente, é aconselhável. Estar em comunhão com Deus e com o próximo é o bem-estar permanente que procuro.
 

Cheguei agora a uma fase da vida, repleta de boas e más memórias, com uma plêiade de expectativas no horizonte, desfrutando a auto-segurança trazida pela idade. Na certeza que chegou a altura de fazer apenas aquilo de que sou capaz.

[1] Angela Hicks, A Medicina Chinesa,Lisboa, Presença, 1998.
[2] Há centenas de sítios sobre meditação. Um é www.meditacaocrista.com

Ana Vicente

10.06.2012