15 outubro 2012

Nós Somos Igreja na Havana de Fidel

Em Julho passado li a notícia da morte do dissidente cubano Osvaldo Payá, em desastre de carro numa estrada a 800Km de Havana. Admitida a possibilidade de assassinato, já que em regimes totalitários todas as hipóteses são possíveis, a notícia foi divulgada no mundo e especialmente desenvolvida no jornal El País. Osvaldo Payá, católico, engenheiro, esteve na oposição ao regime desde a juventude, e desde então se envolveu em movimentos católicos. Foi fundador do Movimento Cristão de Libertação e quando em 2002 ganhou o Prémio Sakharov de Direitos Humanos, Payá conseguiu autorização para receber o Prémio em Bruxelas, e ainda foi recebido pelo Papa em Roma. Em mim, a sua memória ficou inscrita na galeria de mortos que me fazem reviver a vida, ou estimular o gosto de vivê-la. Na consciência da liberdade de viajar por onde quiser e puder, sem limites de liberdade nem fronteiras de expressão. E fez-me reviver a vida porquê? Porque a evocação de Osvaldo Payá me fez regressar ao ano de 1989, quando no mês de Julho viajei do Rio de Janeiro para uma estadia em Cuba. Entretanto, recordei as notícias sobre a visita de João Paulo II em 1998 a Havana e o aperto de mão com Fidel, notícias jubilosas para uma possível abertura do regime à Igreja. Este ano, a viagem apostólica de Bento XVI foi formalmente correta, sem alusões à situação dos dissidentes presos e apesar dos apelos para que houvesse um pronunciamento sobre direitos humanos. Mas voltando ao meu mês de Julho de 1990, num dia de calor intenso e em contraste com os brilhos das casas que enquadravam a Praça, com a emoção própria do momento excecional me estava a acontecer, eu entrei na Catedral chamada da Virgem Maria da Imaculada Conceição de Havana, sede da Diocese e Património Mundial da Unesco. Imponente, como são as igrejas construídas no Novo  Mundo pelos jesuítas no séc.XVIII, a Catedral tem o despojamento da decadência, a frescura do silêncio, a escuridão do fio de luz que nos ilumina em funda viagem interior. E que viagem. Logo à entrada, parei a ler o texto de um painel simplesmente manuscrito, assente num cavalete, bem visível, impossível seria que o painel não chamasse a atenção de todo o homem ou mulher que ali chegasse. Fotografei. Revelei. Imprimi. Guardei no álbum de fotografias, entre todas as desses dias em Cuba. Em memória de Osvaldo Payá aqui trancrevo o texto, a registar o fermento da Palavra. Também naquele distante ponto do mundo, nós somos Igreja.   

“No começo da nossa Era, um homem único fez a sua entrada na história da humanidade. Este homem pode significar a tua mais nobre esperança e o melhor futuro para todos os povos.
Chamou-se JESUS.
Por ofício foi CARPINTEIRO e os seus amigos chamavam-lhe MESTRE.  Ele ensinou
Que os pobres e os que deixam de ser maus são os primeiros para Deus.
Que a liberdade é fazer sempre o bem.
Que o homem vale pelo que é e não pelo que tem e pelo que se pode tirar dele.
Que a vida é luta e que quando lutamos por viver como seres humanos, Deus está do nosso lado.
Que não há um Deus distinto para cada um.
Que há um Deus para todos e se chama PAI 
Que não se deixa comprar nem controlar. Dá o seu amor livremente e não suporta a hipocrisia nem a injustiça.
Que a religião não é magia nem ritos nem velhas tradições nem aparências.
Que a religião é trabalhar com retidão perante Deus.É olhar limpamente a vida. É cumprir com os deveres de cada um. É tratar os outros como irmãos.
Que a religião que agrada a Deus é o bem que se faz aos demais.
Vivia o que ensinava e a sua doutrina foi tida como subversiva. Por  dizer estas coisas, mataram-no os poderosos da sua época.
Mas não puderam apagar o seu nascimento nem apagar a luz que incendiou com a sua vida.
Porque CRISTO VIVE.
Vive no coração dos que o amam e lhe entregam a sua vida.
Vive porque veio a vencer todos os males e triunfou sobre a morte
Vive porque ressuscitou e está connosco.
Com o seu nascimento nasceu um mundo novo que todavia ainda está por completar.
Ele deu o primeiro impulso e a nós toca-nos continuar…
Passaram muitos anos desde que esteve no meio de nós.
Dele se disseram muitas coisas
O tempo e o nosso comportamento podem ter desfigurado a sua atuação e os seus ensinamentos.
A Igreja que Ele fundou quer dá-lo a conhecer.”

Leonor Xavier

14 outubro 2012

Os dominicanos em Portugal e o Vaticano II

1. Não vimos de nós mesmos. Também não nos confundimos com o nosso património genético. Situamo-nos numa história, numa língua e assumimos, de forma necessariamente selectiva, um património, uma linhagem. Depois de ter desfeito muitas quimeras, tentamos viver na companhia da esperança. Não somos nem o último dia, nem a última noite do mundo. Ao longo do tempo, conhecemos pessoas luminosas e outras assim-assim.

No passado dia 11, foram celebrados os 50 anos do início do Concílio Vaticano II. Muitos dos que participaram na preparação e na realização do acontecimento maior da Igreja Católica no século XX já morreram. De quem se esperava que ele fosse acolhido, de forma criativa, na intervenção pastoral, verificamos que não entendeu ou não quis entender as suas orientações mais profundas. Não vale a pena referir os movimentos que preferiam que esse Concílio nunca tivesse existido.

Estava tudo a correr muito bem - numa Igreja que se procurava que fosse imobilista - quando o desvairado ou ingénuo João XXIII, ao fazer a barba, se lembrou de convocar os bispos do mundo inteiro para pensarem tudo de novo. Sentiu que Igreja precisava de um aggiornamento, isto é, de se pôr em dia com o espírito de Cristo, em confronto com os problemas do mundo contemporâneo. Não era uma assembleia para dizer, de uma vez para sempre, o que devia ser o futuro, mas para ensaiar um método de ler os sinais dos tempos, sabendo que Deus faz sinal à sua Igreja a partir não só do seu interior, mas também do mundo que ela não comanda.

2. Mais vale tarde do que nunca e, desde que o Movimento Nós Somos Igreja se lembrou que nem a convocatória nem o começo deste Concílio podiam ser ignorados, têm-se multiplicado as referências a estas datas, com maior ou menor convicção. Depois, até se tornou de bom-tom dizer que o Vaticano II nunca foi tão actual. De facto, o Vaticano II, em Portugal, não foi nem preparado, nem acompanhado, nem bem recebido pelas instâncias oficiais. Manuel de Almeida Trindade, nas suas Memórias de um Bispo, confessa que faltou um grupo de peritos nacionais para acompanhar os bispos portugueses no desenrolar do Concílio e que foi uma lacuna. Se tivessem acompanhado o Concílio estariam depois em condições de, nas suas dioceses, "fazer um trabalho de divulgação e explicação da doutrina conciliar". Mesmo sem querer fazer um juízo exacto acerca das intervenções dos bispos portugueses, observa que "houve intervenções que mostraram o nosso atraso em assuntos teológicos" (...): "Os bispos, ocupados com os trabalhos da pastoreação diária das suas dioceses, não dispõem de sobras de tempo para se dedicarem, com profundidade, a assuntos dessa natureza. É, pois, compreensível que a nossa participação não tenha tido o nível do episcopado do Centro da Europa - ou da que tivemos no Concílio de Trento".

3. Isto não significa que não tivesse havido, em Portugal, pessoas e grupos que trabalharam para a reforma da Igreja na linha do que veio a ser o Vaticano II. Essa História, com várias histórias, já encontrou bons e conhecidos narradores. No passado dia 6, no Convento de Cristo-Rei (Porto), realizou-se um intenso colóquio, de três painéis, dedicado a celebrar os 50 anos da Restauração da Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores. Moisés Martins, professor da Universidade do Minho, mostrou o desconforto de não ter tido tempo - ao falar da presença dominicana em Portugal - de abordar a relação dos dominicanos com o Vaticano II. De facto, mesmo sem ter sido explicitada, com essa designação, esteve presente em muitos momentos. Destaco a abordagem, lúcida e fervorosa, feita pelo filósofo e poeta Eduardo Bento, sobre o papel do Studium Sedes Sapientae (Filosofia e Teologia), frequentado por várias congregações religiosas. Multifacetada e longa foi a acção do Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA), através do Curso de Verão de Teologia, que começou por ser, embora não de forma exclusiva, a iniciação das mulheres à prática da teologia, antes, durante e depois do Vaticano II, causando muita perturbação em vários sectores da Igreja.

Além de muitas outras realizações deste instituto, que ficam para outra altura, é obrigação da memória referir os Encontros de Teologia para Leigos, em Coimbra e no Porto, realizados sob forte vigilância eclesiástica. Deixo aqui pequenos fragmentos do testemunho do cónego Urbano Duarte, no Diário de Coimbra, em 23.02.67: "Uma comissão de leigos incentivou a realização deste III Encontro de Teologia para Leigos, a cargo dos padres dominicanos de Fátima. (...) Mais uma vez, foi impressionante e, podemos dizer, novo, o êxito alcançado. Nada em Coimbra se lhe pode comparar, em matéria de cultura religiosa: (...) os ouvintes, muitos que em salões caracteristicamente confessionais não costumam entrar, eram às centenas. A sobriedade melíflua, o "santo engano", ou a paz morta à sombra da ignorância não tiveram assento nestas assembleias de reflexão sobre a Fé."

Tanta coisa fica por contar... mas seria uma tristeza que a memória de mais de 50 anos não despertasse uma Igreja de futuro.

Frei Bento Domingues, O.P.

Esta crónica foi publicada no jornal Público de hoje, 14.10.12

11 outubro 2012

11 de Outubro 1962-2012

Que data tão maravilhosa celebramos no dia 11 de Outubro de 2012! O cinquentenário da abertura de um dos maiores e mais transformadores eventos do século XX, o Concílio Vaticano II. Esta magna assembleia da Igreja Católica, convocada pelo homem de Deus o Papa João XXIII, foi um acontecimento profético, onde o Espírito Santo parecia andar à solta. Eu tinha 19 anos, pertencia à Acção Católica e recordo as emoções que sentimos, como católicas e católicos, perante a perspectiva de uma Igreja mais fiel ao espírito de Jesus nos Evangelhos - amor, inclusão, tolerância, respeito, abertura. João XXIII queria que o Concílio fosse ‘um novo Pentecostes’ e devido aos esforços e orações de tantas pessoas, de facto, a Igreja como instituição e a Igreja como Povo de Deus ficaram marcadas para sempre por um espírito novo.
Evidentemente que há muitos que querem retroceder aos tempos pré-conciliares mas é igualmente evidente que, apesar dos esforços realizados nesse sentido pelos actual e último papa e pela  Cúria Romana,  nunca vai ser possível apagar a imensa energia e esperança libertada.Transformou-se a pastoral que ‘passou a ser mais alicerçada na igual dignidade de todos os fiéis e a ser mais  virada e aberta para o mundo.’ Houve uma profunda reforma litúrgica que nos trouxe a alegria de podermos celebrar a eucarística na língua vernacular, entre outros aspectos. Aceitou-se como valor a liberdade religiosa, promoveu-se o ecumenismo, ou seja o diálogo com outras igrejas cristãs e reconheceu-se que fora da Igreja também pode haver salvação. Ficou escrito que o Povo de Deus, ou seja o conjunto dos baptizados, constituem a Igreja. Nós todas e todos somos Igreja, o que nos exige uma prática de fé muito mais exigente e responsável.  Entretanto, é fácil encontrar milhares de páginas sobre o Concílio Vaticano II na internet.
Ana Vicente

02 outubro 2012

AS MULHERES NÃO CONTAM?


1. Claro que contam. A sua presença qualificada, em muitos sectores da sociedade portuguesa, é cada vez mais afirmativa e insubstituível. Alguns homens chegam a temer um “desequilíbrio” que possa afectar privilégios ancestrais.
Esse destaque feminino, ao mostrar uma realidade irrecusável, sublinha o contraste com um passado humilhante, não muito longínquo. As contínuas notícias de violência doméstica que, por vezes, vai até ao homicídio conjugal, arrefece as visões mais eufóricas. Se a violência doméstica designava, sobretudo, os maus tratos dados às mulheres e crianças, estende-se, cada vez mais, aos idosos, mulheres e homens. Sem adequadas pensões de reforma, ficam sem meios para garantir a defesa da sua dignidade. A predominância actual da cultura utilitarista não pode entender o que exige e implica a dignidade humana dos idosos.
As Igrejas cristãs foram confrontadas, desde o começo, com o estado de negação das mulheres na cultura judaica, gravado para sempre na expressão: “sem contar mulheres e crianças” (Mt 14, 21; 15, 38 e //).
Era, de facto, o retrato da realidade em que Jesus nasceu, foi educado, mas que recusou. As mulheres, afastadas da vida pública, confinadas ao lar, preparando-se para o matrimónio, estavam destinadas a sacrificar-se pela família até ao fim dos seus dias, sob o olhar atento do pai e do marido. Sem estudos, sem papel na religião, sem posses, não tinham qualquer capacidade de decisão autónoma.
Nesta situação, estava certíssima uma oração masculina, cínica e diária: “Bendito sejas, Senhor, por não me teres feito mulher”. (Tos. Ber. VII, 18)
2. Dizem os especialistas, que a ruptura activa de Jesus com essa situação representa um dos traços essenciais da originalidade da sua intervenção histórica. Afrontou tudo o que, no plano social e religioso, marginalizava as mulheres. Segundo as narrativas da paixão e ressurreição, Jesus encontrou nelas quem melhor entendeu a sua mensagem e o seu caminho. Garantiram futuro ao movimento cristão, quando tudo parecia morto.
Artur Cunha de Oliveira publicou uma obra notável sobre Jesus de Nazaré e as Mulheres, a propósito de Maria Madalena (Instituto Açoriano de Cultura, 2011). É uma obra de referência para a teologia feminista e pode ser de muito proveito para os anti-feministas. O autor é um sacerdote católico, dispensado do ministério e casado, licenciado em Teologia Dogmática e em Ciências Bíblicas, tendo sido professor no Seminário Episcopal de Angra, Cónego da Sé e assistente diocesano de vários movimentos, organismos e associações de apostolado.
Em 2011 nasceu a Associação Portuguesa de Teólogas Feministas. Criada por Teresa Toldy, Fernanda Henriques, Maria Carlos Ramos e Maria Julieta Mendes Dias, com os seguintes objectivos: contribuir para o aprofundamento da investigação teológica feminista; criar condições para a troca de experiências de investigação entre investigadores feministas de Teologia a nível nacional e internacional; relançar, em Portugal, o debate sobre as Mulheres, numa perspectiva ecuménica.
Esta Associação vem preencher, entre nós, uma lacuna no campo da teologia, inscrevendo-se num movimento sem fronteiras. A publicação das comunicações do I Colóquio Internacional de Teologia Feminista será apresentada no próximo Colóquio, marcado para o próximo mês de Novembro.
3. A reflexão teológica na Igreja não tem sentido desligada da experiência concreta das comunidades cristãs. É, por natureza, contextual. A descoberta dos direitos e do seu papel na sociedade obrigaram as mulheres cristãs a fazer uma verificação: a nossa situação é esquizofrénica. Por um lado, participamos na emancipação das mulheres na sociedade e por outro, é-nos dito que na Igreja não pode ser assim, tem de ser diferente, pois ela não existe para reproduzir a sociedade, mas para a evangelizar na fidelidade a Jesus Cristo. Manifesta-se, precisamente aqui, um dos aspectos do debate. Na constituição hierárquica da Igreja, não há lugar para as mulheres. Não têm acesso aos ministérios ordenados, pois decretaram que o sacramento da Ordem não é para elas.
Se os ministérios ordenados são para servir, perguntam-se: que haverá em nós, por sermos mulheres, que nos impede de ser chamadas a servir as comunidades cristãs? Surge-nos a dúvida: se fossem verdadeiramente um serviço, seríamos as primeiras a ser chamadas. Como se trata de poder, fica privilégio de homens.
Note-se que nem todas pretendem ser chamadas a preencher a lacuna da falta de vocações masculinas. Mas não escondem o que as comunidades católicas teriam a ganhar com as virtualidades da diferença feminina nos ministérios ordenados. O que não suportam, enquanto cristãs, é que as mulheres não contem na orientação da vida das comunidades cristãs e sejam reduzidas ao estado pré-cristão em que Jesus as encontrou.
A Igreja nunca poderá aceitar a vontade do Simão Pedro do evangelho apócrifo segundo Tomé: “ Maria deve ir embora, pois as mulheres não são dignas da vida”. A resposta do Jesus desse evangelho é dos diabos: “Vede, vou atraí-la para que se torne macho a fim de que ela também se torne um espírito vivente que se assemelha a vós, machos.”
4. Quando certas personalidades da Igreja, para recusar às mulheres determinadas funções, invocam a prática de Jesus para as fundamentar, importa não esquecer o seguinte: antes de mais, é preciso ver a qualidade e o volume de intervenções de Jesus que são uma autêntica revolução; alteraram completamente as ideias e atitudes que ofendiam e marginalizavam a mulher, que faziam dela um ser menor, uma eterna criança. Hoje, abundam os estudos que podem evidenciar o salto civilizacional e religioso que a prática de Jesus e a sua palavra representam.
O que não é aceitável é o seguinte: não se olha para esse acontecimento e, depois, fala-se de uma ausência nas decisões de Jesus, acerca de problemáticas que não pertenciam à sociedade em que Ele viveu. Por exemplo: quando se fala dos ministérios ordenados das mulheres, não é ridículo imaginar um ritual que hoje e há séculos se pratica nas Igrejas para ordenar padres ou bispos? Figurar Jesus, paramentado, de mitra e báculo, rodeado de bispos e padres e de candidatos prostrados de rosto por terra, esperando a sua vez, é não só ridículo como inteiramente anacrónico. Se imaginarmos as coisas assim, Jesus de facto, não ordenou mulheres como não ordenou homens. Só que a questão não é essa. A questão é simples porque é que este ritual foi criado para homens e nunca para mulheres. A partir daqui fica tudo baralhado. O que importa é responder hoje, na problemática de hoje, à novidade da prática de Jesus para hoje e para sempre. Graças a Deus, Jesus Cristo continua vivo e nós, continuamos surdos e cegos.

Frei Bento Domingues, O.P.

21 setembro 2012

Missão da Igreja num país em crise


Finalmente a Igreja portuguesa pela voz coletiva dos seus Bispos disse uma palavra relevante e sobre a situação de crise económica e social que o país está a viver.
Vozes dispersas e solitárias de vários quadrantes eclesiais, alguns Bispos, alguns responsáveis de organismos eclesiais como a Caritas e dos movimentos operários da Ação Católica, e ainda alguns leigos reconhecidamente católicos, tinham alertado para a gravidade da situação presente.

O silêncio incómodo da Comissão Nacional Justiça e Paz que apenas agora prepara uma posição pública, mostra bem como o jogo de forças e contradições em que estamos todos envolvidos, como cidadãos e como cristãos leva a opções distintas de interpretação do sentido dos sacrifícios que estamos a viver.

Retomemos pois o que é fundamental na Doutrina Social da Igreja (DSI); esta não é uma receita milagrosa para a solução dos problemas (bem jeito daria talvez), não é uma ideologia política com uma agenda de transformação imediata da sociedade, mas é apenas e isso é muito o relembrar dos princípios e dos valores fundamentais que toda a intervenção política, económica e social deve ter em conta se quer permanecer no nível básico de respeito pelos direitos humanos. Embora estes últimos sejam o fruto imediato da revolução francesa, na realidade mais não são do que as concretizações dos princípios cristãos do amor ao próximo e da proteção aos mais necessitados tendo como horizonte a condição de igualdade humana que todos partilhamos, a mesma família humana, una e diversa, mas fraterna.

Deixar-se levar na onda do capitalismo financeiro sem rosto nem legitimidade democrática que assola grande parte do mundo, procurando manter-se na crista da onda, qual surfista em equilíbrio instável, corre-se o risco de mergulhar de vez ou pelo contrário e com muita sorte passar os tempos de borrasca e sobreviver.

Só que os países, os Estados, são menos homogéneos do que a metáfora usada, não é a liderança política apenas que vive no mar encapelado, é o povo todo que procura não se afogar na situação. Gerir esse equilíbrio que é não só resultado de medidas económicas e financeiras para saldar parte da dívida aos nossos credores mas é igualmente o procurar consensos sociais que são um dos pontos nevrálgicos de qualquer política que evite o abismo.

Nos últimos dias a coligação mostrou claramente as suas fragilidades, com discursos distintos sobre a bondade ou iniquidade da Taxa Social Única (TSU) a par da contestação dos barões de ambos os partidos sobre as medidas económicas e do seu efeito social, nas ruas foi o que se viu; uma manifestação só comparável aos tempos da revolução dos cravos. Já não se trata apenas das oposições do costume, com a contestação habitual de quem está quase sempre do contra porque não está no poder na ocasião.

A função simbólica do efeito da anunciada subida da contribuição dos trabalhadores para TSU, a par da sua correspondente diminuição para os empregadores, pensada pelo governo como benéfica para a economia (o que falta provar), é mais ou menos vista pelo comum dos cidadãos como “tirar o pão do pobre Zé Povinho para dar ao rico”, além do rombo financeiro no salário real dos trabalhadores que é obviamente muito pesado.

Ora este simbolismo tocou num ponto sensível da nossa condição de portugueses e, mais fundo ainda, na questão da equidade (ou falta dela) que se revela na situação atual. E estamos zangados, muito zangados, pois é a nossa dignidade de seres humanos que está em causa. Este estado de espírito não é bom sinal para ninguém, nem para as pessoas singulares nem para grande parte do povo.

Assim a DSI, como vem bem explicado na Nota pastoral remete para a reflexão de áreas sensíveis, de valores éticos, que todas as medidas políticas devem respeitar, a saber;

“Prioridade na busca do bem-comum
Direito ao trabalho
Estabilidade política
Respeito pela verdade
Generosidade na honestidade”

Em suma são os valores da “dignidade da pessoa humana, a solidariedade como vitória sobre os diversos egoísmos, a equidade nas soluções e na distribuição dos sacrifícios, atendendo aos mais desfavorecidos, a verdade nas afirmações e análises, a coragem para aceitar que momentos difíceis podem ser a semente de novas etapas de convivência e de sentido coletivo da vida.” 
Se conseguirmos respeitar estes princípios, talvez se recomponha o equilíbrio instável em que vivemos e o nosso tecido social, económico e político não se estilhace de vez.

Temos pois muito que fazer!

AFF

16 setembro 2012

Crónicas do Frei Bento Domingues dos dias 9 e 16

Política sacrificial
Frei Bento Domingues, o.p.
1. Conheci teologias que apresentavam e justificavam divindades que exigiam sacrifícios humanos. Algumas atreveram-se a fazer, da própria crucifixão de Jesus Cristo – um crime político preparado por instâncias religiosas –, uma exigência de pagamento da infinita dívida a Deus contraída pelos pecados dos seres humanos. Jesus mandou às urtigas essas teologias macabras. O seu Deus não quer sacrifícios humanos. É amigo da vida e só quer justiça e misericórdia. A conversão cristã consiste numa reorientação da existência pessoal, guiada pelo primado do dom, fruto do amor.
Agora, Victor Gaspar, ministro das Finanças, não se importa muito com as suas contas mal feitas, pois “a disponibilidade dos portugueses para fazer sacrifícios é muito grande” (DN 12.09.2012). Conta, também, com Passos Coelho, mais troikista do que a troika: quem não gostar que emigre e nada de lamechices.
Se é pelos frutos que se conhece a árvore, estamos aviados: 89% dos portugueses dizem-se afectados pessoalmente pela crise e 90% pensa que a maioria dos benefícios deste sistema só vai para alguns, alargando o abismo entre pobres e ricos.
André Macedo, Director de Dinheiro Vivo, pergunta: “onde é que isto vai acabar? Impostos altíssimos, desemprego explosivo, um governo possuído por modelos económicos de alto risco e que, agora, até na gestão da tesouraria das empresas se intromete. Porquê esta loucura?” (DN 12.09.2012). Manuela Ferreira Leite entende que se o país seguir a linha traçada, “não só não se atingem os objectivos, como o país chega ao fim destroçado”. Para Silva Lopes, este governo é “o Robin dos Bosques, ao contrário: tira aos pobres para dar aos ricos”.
2. Não podem ser ignoradas as tomadas de posição de D. Januário Torgal, Bispo das Forças Armadas, do Bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, e as homilias de D. Pio Alves, Bispo auxiliar do Porto, em Fátima nos passados dias 12 e 13.
Bagão Felix considera, no entanto, que a Igreja Católica, em nome da sua doutrina social e da “opção preferencial pelos pobres”, é chamada a pronunciar-se sobre as medidas de austeridade, “não apenas através de vozes isoladas, que nem sempre representam a instituição”, mas “como um todo”. Para Manuel Pinto, da Universidade do Minho e conhecido militante católico, “começa a ser ensurdecedor o silêncio da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a gravidade da situação social e económica em Portugal” (Blog Religionline, 09.09.2012).
Alguns amigos mostraram-me a vontade de propor à Conferência Episcopal Portuguesa uma manifestação nacional para alterar as políticas que sacrificam sempre os que deveriam ser mais beneficiados. Como o país não é do governo e o governo foi eleito, baseado num programa que despreza, seria preciso levá-lo a ganhar juízo.
Não escondi as minhas reticências, embora não seja um propósito a excluir. Convém, no entanto, que não seja um duplicado das diversas manifestações anunciadas para os próximos tempos. Antes de mais, não podem ser um meio para manipular a fé dos católicos e surgir como uma espécie de partido ou associação política confessional. Seria pior a emenda que o soneto. Se resultasse nisso, preferia ver a Conferência Episcopal calada na sacristia. Mas existem muitas formas de manifestação de defesa dos mais pobres e empobrecidos sem cair nessa confusão e sem pairar nos grandes princípios ou nas “caridadezinhas” que ofendem a virtude teologal da Caridade, inimiga da propaganda.
3. Não poderia, por exemplo, a Conferência Episcopal promover, através das paróquias e das dioceses, dos movimentos e associações católicas, vigílias de oração e aprofundamento das incidências do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja, na situação actual, convergindo depois tudo para a peregrinação nacional a Fátima nos próximos dias 12 e 13 de Outubro?
Com estes gestos e iniciativas estaria a seguir a liturgia do passado e deste Domingo. Liturgias de cura da cegueira, da surdez e da fala. A Eucaristia é para não esquecer a memória da prática de Jesus. No coração de todas as Eucaristias do mundo, somos avisados: “Fazei isto em memória de Mim”. Traduziria assim: conservai diante dos olhos, em todas as épocas, em todas as situações, aquilo que foi a minha prática; tereis de fazer ainda coisas maiores, os tempos serão sempre outros, sempre com novos desafios; mas vede sempre o mundo, a história, as sociedades, as organizações culturais, económicas, políticas e sociais a partir dos mais pobres, dos excluídos, de modo local e global.
Um adágio antigo dizia que se deve rezar conforme a fé cristã. Hoje, na missa, S. Tiago vem com esta: “de que serve alguém dizer que tem fé se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? (…) A fé sem obras está completamente morta. Mas dirá alguém: Tu tens a fé e eu tenho as obras. Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé”.
São perversas as teologias e as políticas sacrificiais. O amor do sacrifício é uma doença. Um chá de tília espiritual não é o mais indicado para multiplicar e alimentar grupos de investigação e debate que desenhem alternativas políticas viáveis, postas ao serviço de quem as quiser usar, sem direitos de propriedade.
in Público 16 de Setembro

O direito absoluto é o direito a ter direitos
Frei Bento Domingues, O.P.
1. Dizia um anjo, desesperado na sua missão iluminista, a outro vestido de ortodoxia que não aprendia nada com ninguém, nem sequer com as liberdades de Jesus Cristo em relação às regras da moral convencional: “Mói um estúpido com trigo num almofariz e nem assim conseguirás arrancar-lhe a estupidez” (William Blake).
Dizem-me que esta experiência poderá ser verificada tanto no âmbito da estupidez religiosa como no da política. Talvez. Mas daí não se segue que todos os mundos religiosos e políticos estejam condenados a repetir os mesmos erros. Alguns dos que conheço melhor, quando não teimam em fechar-se dentro dos seus fantasmas e ilusões, dispõem de grandes fontes de transformação do indivíduo e da sociedade. Não cabem neste espaço as provas históricas de verdadeiras e falsas reformas nas igrejas cristãs. São memórias de santos, de mártires e déspotas.
2. Morreu o Cardeal Martini e António Marujo já evocou a sua memória neste jornal. Seria insignificante dizer que é uma memória incómoda para muitos, por razões diversas. Dizem uns que era um disfarçado lobo na Igreja católica, opondo-se em diversas tomadas de posição às modificações que João Paulo II e Bento XVI introduziram para corrigir os desmandos abertos pelo Vaticano II. Agora, terá de prestar contas a Deus. Para outros, foi sempre alguém que desejava reformas na Igreja, que iam além do Vaticano II, mas só as formulou, de modo frontal, quando já eram a voz de um velho aposentado e doente. Não as fez quando podia desencadear, no interior das estruturas eclesiásticas, mudanças que dizia urgentes, pois “a Igreja está atrasada 200 anos”. Outros ainda acrescentam: mais vale tarde do que nunca.
É evidente que preferimos projectar nos outros aquilo que nos compete dizer e fazer. Dou graças a Deus por esta grande figura. Espero que se acabe com anátemas contra aqueles que sustentam aquilo que o cardeal Martini, na última fase da sua vida, defendeu e reprovou ou, então, que haja a coragem de o declarar herege e cismático. Sei que já Cristo se queixava do costume de, primeiro, matarem os profetas e, depois, levantarem-lhes monumentos, sem deixarem de repetir o crime.
Não tenho nenhuma receita para as reformas que julgo urgentes. O tempo não espera sentado. Quando forem reconhecidas, poderá ser irremediavelmente tarde.
Alexandre Soares dos Santos, numa entrevista a Ana Bela Mota Ribeiro, deixou cair alguns “pingos amargos” sobre uma questão sentida por muitos: “por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto com o bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada da vida, que estão ali fechados?”
3. Participei, em Agosto, na paróquia de Ribeira Seca (Madeira), na celebração, impressionante de beleza e verdade, do 50º aniversário da Ordenação Sacerdotal do padre José Martins Júnior, uma figura polémica incontornável da Igreja da Madeira e da intervenção cívica e política a favor dos oprimidos. Esteve sempre atento à parábola de Jesus que não aguenta a exibição do luxo perante a miséria do pobre, seja onde for.
Nasceu no Machico em 1938. Foi ordenado por D. David de Sousa a 15 de Agosto de 1962. Foi professor no Seminário Menor, pároco de Porto Santo, coadjutor da Sé do Funchal, capelão militar em Moçambique. Voltou à Madeira em 1969, como pároco da Ribeira Seca.
Depois do 25 de Abril, foi deputado na Assembleia Legislativa Regional como independente, nas listas da UDP. Em 1977, é suspenso “a divinis” pelo bispo D. Francisco Santana, sem processo canónico formado. Em 1980, recandidata-se e é eleito novamente deputado. Presidiu à Junta de Freguesia de Machico. Em 1985, a Igreja da Ribeira Seca foi tomada de assalto, por 70 polícias armados, a pedido do governo e da diocese, mas também sem qualquer mandado judicial e sem processo formal. Presidente municipal de Machico, por duas vezes. Recebeu, em 1995, das mãos do Presidente da República, Dr. Mário Soares, as insígnias de Comendador, no Dia de Portugal. Deputado à Assembleia Legislativa Regional, como independente, nas listas do PS, até 2007. Deu, então, por terminada a sua actividade política activa.
Continua a exercer o sacerdócio, em consonância com o povo sediado na Ribeira Seca, numa igreja e residência feitas exclusivamente a expensas da população local.
Recolho estas breves referências de um livro, Olhares Múltiplos sobre um Homem de Causas, com textos de amigos e admiradores, a começar por um, muito belo, de Mário Soares, apresentado na igreja da Ribeira Seca, por Anselmo Borges, de forma brilhante.
As celebrações desenvolveram-se ao longo de uma semana, porque a cronologia que apresentei pode dar a ideia de uma figura só política e eclesiástica, mas o padre Martins Júnior é, em tudo, um grande homem de cultura, da música e do teatro, um pedagogo de jovens e crianças, para que a memória viva de Jesus Cristo seja uma fonte permanente de recriação da Igreja e da sociedade.
O direito absoluto é o direito a ter direitos, seja na sociedade seja na Igreja. É um absurdo eclesiástico continuar a não os reconhecer ao padre Martins Júnior.
in Público 9 de Setembro

29 julho 2012

PÃO PARA TODOS

Estou a lembrar-me de professores e investigadores como Jeffrey Sachs, Joseph E.Stiglitz, Abhijit V. Baneerjee/ Esther Duflo, Paul Krugman, etc.. Se isto não acontece, seria interessante identificar os interesses que ganham com a crise e a consideram uma grande oportunidade de negócios. As indústrias envolvidas nos incêndios não podem ser as mais preocupadas em convencer os governos e particulares a investir nos cuidados da prevenção ao longo do ano.      
2. Portugal faz parte de uma paisagem humana muito vasta. Aproximemos alguns números disponíveis referidos por Carlos Borrego (Brotéria 5/6 p. 449). Se o mundo tem agora 7 mil milhões de pessoas, em 2050 terá 9 mil milhões. Se a natalidade, mesmo em países como a África está diminuir, este aumento populacional será feito com idosos.
        Neste momento, 1,4 mil milhões vive actualmente com cerca de 1 euro por dia ou menos; 1, 5 mil milhões de pessoas no mundo não tem acesso à electricidade e 2,5 mil milhões não tem tratamento de esgotos. Quase mil milhões passam fome.
     Leonardo Boff, um famoso eco-teólogo, pergunta-se se não estaremos perante a crise terminal do nosso modo de viver. Diz que foram encontradas 25 formas diferentes para destruir a espécie humana. Como a humanidade e a terra estão interligadas de forma indivisível, tudo é afectado pelas mudanças climáticas. Estamos a chegar ao fim da matriz energética baseada em produtos fósseis – petróleo, gás e carvão – o que obriga a procurar fontes alternativas e limpas e, mesmo assim, serão insuficientes para sustentar o nosso tipo de civilização. A tragédia social não é menor. As três pessoas mais ricas do mundo possuem activos superiores a toda a riqueza dos 48 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 pessoas sozinhas acumulam mais riqueza do que 3 biliões de pessoas, o que equivale a 45 por cento da humanidade. Resultado: 1, 2 biliões de pessoas passam fome e outros tantos vivem na miséria. Leonardo Boff, de quem recebo estes números, sem os ter ido verificar a outras fontes, acrescenta que, no Brasil, cerca de cinco mil famílias possuem 46 por cento da riqueza nacional.
     3. Os números apresentados neste texto são conhecidos. Tornou-se, aliás, um lugar-comum dizer que, também em Portugal, cresce o abismo entre os poucos muito ricos e os muitos muito pobres. A Doutrina Social da Igreja, acerca do destino universal dos bens, é outro belo lugar-comum, do qual nada se espera.
A consciência ética começa quando chegamos à conclusão de que o mundo como está é uma vergonha, mas não é uma fatalidade. Jesus Cristo não deixou nenhuma receita automática para vencer este escândalo. Como se pode ler no Evangelho de S. Lucas, Jesus não alinhou nem com o regime de austeridade de João Baptista, nem com o estilo de vida do rico avarento. Gostava da vida, de comer e de beber, como toda a gente que tenha os sentidos bem apurados. Até lhe chamaram glutão e beberrão (Lc.7 e 16). Não suportava ver uns à mesa e outros à porta. Era a partir dos excluídos que encarava a transformação da sociedade.
Hoje, na Eucaristia, é lida uma narrativa da multiplicação dos pães e dos peixes. Já serviu para boas peças de humor. Tudo o que está escrito no Novo Testamento é para a nossa alegria.
Nos Evangelhos, os milagres não são reportagens. São parábolas. Faz-se uma coisa para dizer outra e para que os discípulos façam coisas ainda maiores. A aclamação e a meditação da leitura da multiplicação dos pães podem ter muitos efeitos: primeiro, não tem efeito nenhum; segundo, pode incomodar-nos, mas não muito; terceiro, pode abalar-nos. Quarto, pode tornar-nos militantes. Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.
Até Setembro.

Frei Bento Domingues, O.P.