16 novembro 2012

SANTOS SEM ALTAR

Santos é um dos apelidos mais comuns em Portugal. Ser santo pelo contrário parece ser uma condição muito invulgar. É verdade que nos dois últimos pontificados se fizeram reconhecer uma genuína proliferação de santos de altar, mas esses estão no pedestal dos altares laterais das Igrejas ou apenas no calendário litúrgico.
Quanto ao uso e abuso da palavra verificamos que quando se diz de alguém que “fulano de tal é um santo homem” soa aos ouvidos menos púdicos como uma subtil dúvida sobre o exercício da sua masculinidade, ou para os ouvidos menos freudianos e mais beatíficos, como equivalente a ser um palonço, um ingénuo. Tem pois má fama, esta palavra!
Na tradição portuguesa, quer na reconstrução ideológica da identidade nacional, (“Salvé, Nobre Padroeira…”), quer especificamente na religiosidade popular, não nos compreendemos sem o recurso aos santos patronímicos das terras, das romarias, à devoção mariana a Santa Maria nas suas várias invocações, aos santos de Verão, como os ditos Santos Populares, ou aos  das outras estações do ano, como recentemente São Martinho, no Outono, que anuncia a partilha da capa com quem precisa e provavelmente das castanhas e água-pé. Virá depois São Nicolau no Inverno e assim por diante. Há muito boa gente que ao perder qualquer coisa se apressa a rezar o Responso a Stº António, confiando que há-de acontecer o milagre do aparecimento do objeto sumido. Ou a São Judas Tadeu invocado como advogado das causas impossíveis. Esta proximidade com os santos é curiosa, mas é apenas instrumental; eles são a cunha idónea para dar uma ajuda no quotidiano nos momentos de aflição e também nos de festa. Para quem desconfia de que o sistema de cunhas que vigora na terra com sucesso seja ineficaz no céu, a devoção aos santos tornou-se insignificante. Purificou-se de algum modo, mas perdeu-se.
Originalmente o conceito tem um sentido bem distinto. Paulo, o Apóstolos dos Gentios, ao escrever às comunidades da Diáspora por si fundadas refere-se aqueles que se reconhecem cristãos como “Santos”. Estão santificados em Cristo. Não são pois os mortos, mas os vivos. Não são os que receberam o título de santidade (tipo conde, marquês, etc.), o reconhecimento legal hierárquico da santidade, mas “apenas e só” aqueles que, por terem querido ser baptizados, são reconhecidos como participantes da vida em abundância do Evangelho.
Ser Santo é então ser Cristão. A questão difícil é a que vem depois; é ser capaz de viver como tal!
A falha antropológica entre o ser e o fazer revela-se precisamente na dificuldade de se viver como se pensa que se quer viver, coerentemente, entre a mensagem da Boa Nova e a incapacidade demonstrada nas obras. A esta dificuldade há quem lhe chame pecado ou apenas fragilidade humana. Seja qual for a designação mais adequada, a discrepância entre os dois planos existe. A má fama da palavra Santo vem desse uso desmesurado de bons princípios e de más práticas correntes, ou pelo menos, pouco boas, face ao que seria legitimamente expectável.
Esta expectativa é múltipla; pessoal, comunitária, eclesial e social. Quando os cristãos são atacados veementemente, por gente de fora do grupo, são-no por não serem testemunhas eficazes do amor ao próximo que Jesus Cristo viveu e anunciou. Raras vezes na praça pública se ataca o cristianismo enquanto mensagem, mas em geral a crítica incide sobre a forma como os mensageiros da Boa Nova a levam à prática. E aí cada um que “ponha a mão na consciência”! Há mesmo muitas razões de queixa por ficarmos demasiado longe do que seria necessário e credível.
Não basta a Fé, mesmo se este é o ano da Fé; pois temos muita! Não basta a Esperança e com esta crise é mesmo quase só isso o que nos resta. O que permanece é o Amor. Não confundir com caridadezinha e polémicas adjacentes. Os atos valem mais do que as palavras.
Há muitas ações concretas realizadas por gente de boa vontade, cristã ou não, em prol dos que mais precisam. Só assim o mundo se tornará mais humano, justo e solidário. Os que trabalham nas respostas de emergência social, de proximidade fraterna, na procura política de um modelo de desenvolvimento menos injusto, são esses os Santos que repõem a palavra no bom caminho pois estão a encontrar as mediações para testemunhar o que é o Reino de Deus.
Se olharmos à nossa volta reconhecemos que os Santos da nossa devoção estão bem vivos e atuantes. Precisamos deles para serem fermento da massa e nos ajudarem a sermos cristãos.
Partilhar o tempo, o que se é, o que se sabe, o que se tem é talvez uma possibilidade de Nova Evangelização mais eficaz do que as tradicionais ladainhas aos Santos. Novas vias de santificação (que palavras mais beatas!) eis alguns exemplos do que se já se faz e que importa apoiar:




Podemos pois partilhar e seremos um pouco mais santos, só que andamos demasiadas vezes distraídos a olhar para o nosso próprio umbigo, enredados nas nossas próprias dores, em vez de admirar e seguir o exemplo do samaritano da parábola que soube ver, julgar e agir sem demora! Quem faz isso hoje, são esses os Santos sem altar que encontramos todos os dias.
AFF   14-11-2012                          

13 novembro 2012

Venda de Natal

Aproximando-se o Natal avolumam-se o número de vendas de Natal que não só podem recolher fundos para boas causas como são em si uma ocasião de convívio e de oportunidade de darmos gratuitamente algum do nosso tempo. Vou falar apenas de uma dessas vendas que na minha óptica merece todo o apoio. Ainda por cima dá a oportunidade às/aos nossas/os leitoras/os de oferecerem livros que tenham em casa e de que já não precisem: Vejam também como se apresenta a própria organização, que acolhe a título permanente 38 mulheres, com problemas graves de saúde e que é gerida por uma comunidade de freiras dominicanos, com a Irmã Ana Maria à cabeça. O Convento em si é lindíssimo e merece ser visitado.



A Venda de Natal no Convento dos Cardaes, Lisboa, vai realizar-se este ano nos dias 23, 24, 25 de Novembro e também nos dias 1, 2, 8, 9, 15 e 16 de Dezembro, 2012 .
ATENÇÃO: Se quiserem oferecer alguns dos muitos livros, usados ou novos, (em qualquer língua), CDs, DVDs, videos, ou discos, que têm em casa e que já não sabem onde pôr, podem fazê-lo desde já, fazendo a entrega na Rua Eduardo Coelho, 1, (Bairro Alto), LISBOA, A QUALQUER HORA. CONTUDO SE FOR ENTRE AS 14.30 E AS 15.30 PODEM SER ENTREGUES NA Rua do Século nº 123.


Ana Vicente - membro do Movimento Internacional Nós somos Igreja


 








 
 Há Natal no Convento!


Queremos fazer-lhe um convite muito especial!

Partilhe connosco o Chá e Venda de Natal. Há 25 anos, em Lisboa, por altura do Natal, o Convento ganha nova vida e enche-se de amigos...

Vêm, em família, tomar o nosso Chá e os já famosos scones e bolos do Convento.
Vêm fazer algumas compras de Natal, levando a alegria de, assim, já terem contribuído para a nossa obra.







Nos dias 23 (14h-20h), 24 (10h-20h) e 25 ( 14h-20h) de Novembro
1 e 2, 8 e 9, 15 e 16 de Dezembro (15h-19h)

Tomando Chá connosco ajuda esta obra social tão extraordinária que garante o dia-a-dia de 38 meninas deficientes e cegas.
                         Traga a sua família e partilhe o nosso espírito de Natal!

 Assinatura

Rua do Século,123  Tlf: 213 427 525   www.conventodoscardaes.com  www.facebook.com/conventodoscardaeslisboa 

11 novembro 2012

TUDO EM ABERTO (1)

1. A memória e a recepção do Concílio Vaticano II continuam a dar que pensar, falar e escrever, embora em âmbitos restritos. Não é bom que as grandes religiões andem ora distraídas, ora a reagir com ameaças num mundo que continua assustador. As comemorações devem servir para rever o passado e para discernir os sinais que apontem hipóteses viáveis de um futuro aberto para todos, sem medo e sem ingenuidade. Aos movimentos espirituais compete a tarefa de ajudar a descobrir que, sem práticas de fraternidade irrestrita, não há salvação para a aventura humana.
A Igreja Católica, ao inscrever o Ano da Fé no cinquentenário do Vaticano II, não deve ceder ao marketing da banalidade: pelo preço de um, leve dois. Espero que a junção da memória do Concílio e dos seus recursos adormecidos, aliada às urgências do nosso tempo, desafie a temática do Ano da Fé, sem abafar questões eclesiais, teimosamente adiadas.
A Ouvidoria de Ponta Delgada organizou um longo ciclo de conferências para o Ano da Fé, subordinadas ao tema geral A Fé Cristã Hoje. Convidou-me a reabrir o cansado e inevitável debate das relações entre Deus e o Homem, duas palavras poluídas por maus usos. Deixarei aqui, de forma esquemática, algumas marcas desse percurso, embora sem os argumentos e as exemplificações da conferência.
Partir de Deus para o encontro com o ser humano é manter-se na “idade teológica”, segundo a periodização simplista de Auguste Comte. Mas o próprio Tomás de Aquino, que muito lutou pela consistência do mundo em si mesmo, organizou a Suma Teológica dentro do esquema neoplatónico: é de Deus, dessa fonte misteriosa, que continuamente vimos - nós e o universo - e a Deus regressamos, numa viagem da nossa responsabilidade, pelo caminho da graça, vínculo do divino e do humano, na pessoa e intervenção de Jesus Cristo, rosto do céu e da terra.   
Nesta referência, tudo é considerado a partir de Deus, embora com ressalvas: d’Ele nada se pode dizer sem a negação de precipitadas analogias que impedem o salto para a experiência do seu mistério inabarcável. Deus não cabe na ilusão de nenhum conceito e só na linguagem metafórica pode acontecer o milagre do seu advento em humanidade. É, aliás, na grande música, na poesia, em parábolas, na pintura, nas artes, no humor, que poderá ser sugerida a sua passagem.
O terminal do Credo e das argumentações teológicas não são os artigos do Credo, mas a infindável “treva luminosa” que provoca o caminhar incansável dos místicos. De Deus, tanto mais saberemos, quanto mais nos convencermos de ser “conhecido como desconhecido”. Não se confunda esta radical e ardente ignorância com o silêncio da preguiça catequética. Inspirado andava o Mestre Eckhart, quando rezava: Deus livra-me de deus, livra-me dos ídolos que levam o seu nome e procuram circunscrever e prender a sua presença transcendente a pessoas, lugares, palavras, crenças, rituais e movimentos religiosos. É essa idolatria que leva à alternância mediática do exílio e do regresso dos deuses.
2. Isso, por um lado. Por outro, quando se fala das relações do ser humano com Deus, entra-se na “idade filosófica” que parte da questão que o ser humano é para si mesmo, procurando saber donde brotam as suas próprias perguntas.
 A filosofia não começa por Deus, ainda que se diga que, desde sempre, os seres humanos, para decifrar o enigma que constituem para si próprios, fossem bater às portas dos desuses. A própria filosofia da religião situa-se no âmbito da razão, como se pode ver nas célebres quatro questões de I. Kant. Este iminente filósofo teve, no entanto, o cuidado de advertir: é próprio da razão levantar questões que ela própria não pode resolver! Na filosofia existem perguntas básicas: quem sou eu? De quem sou responsável? O que será de mim e dos outros? Como libertar o fundo de bondade que existe no ser humano? Será a qualidade das sensações a medida de tudo?
Pelos passos da razão teórica e experimental passou-se à chamada “idade das ciências”, que não precisam da hipótese Deus para existirem e se desenvolverem, embora não possam evitar o espanto diante da inteligibilidade do mundo que as torna possíveis. Por método, não são religiosas. Nem a fé teologal se ocupa das ciências, nem as ciências se ocupam dos pressupostos da teologia. Quando há conflitos, é porque uma ou as duas se atrevem a falar do que não cabe nas respectivas competências.
A ideologia cientista acreditava que o progresso das ciências bastaria para resolver todos os problemas humanos e acabaria por dispensar a religião, impulso da esperança, segundo I. Kant. Essa ideologia era insensível ao “mistério de existir”, como lhe chamou Fernando Pessoa. È legítimo supor que o oculto é sempre mais vasto do que aquilo que o desenvolvimento das ciências pode revelar. A distinção entre problema e mistério, elaborada por Gabriel Marcel, continua sugestiva e fecunda.
Quando a modernidade entrou em crise, tanto a teologia como a filosofia da religião depararam, do ponto de vista cultural, com a chamada “morte de Deus”, anunciada por Nietzsche. Para uns, a notícia é exagerada, para outros, uma evidência. Uns viverão como se Ele não existisse e outros não podem passar sem o invocar.
Continuaremos no próximo domingo.

Frei Bento Domingues, O.P.

As crónicas do Frei Bento são publicadas semanalmente no Jornal Público

07 novembro 2012

SANTOS, VATICANO II E OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES

Dia de Todos os Santos, Dia das Bem Aventuranças, Dia do Sermão da Montanha, este ano como sempre desde que me lembro, faz-me pensar nas mais anónimas criaturas que todos os dias alcançam a santidade, na vivência das suas mais diferentes condições e circunstâncias. Faz-me pensar nos que sofrem, aqueles que Carlos Drummond de Andrade enumerava no poema “Canto ao Homem do Povo de Charlie Chaplin:” – “falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração, os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados.” E faz-me reviver momentos da Reunião Formal do Internacional Movement We Are Church, IMWAC, acontecido em Lisboa, no fim de semana passado. Treze nacionalidades, quase trinta membros do IMWAC foram recebidos pelo Movimento Nós Somos Igreja – Portugal, organizador da Reunião. A língua falada foi o inglês, as línguas pensadas foram variadas, na identidade cultural de cada presença. Estes católicos, na sua universalidade, têm em comum, no IMWAC, a reforma desejada da Igreja. Da Igreja-Instituição que está longe de ser a Igreja do Povo de Deus.
Para ampliar esta causa aos grupos católicos nos mais remotos países, à Europa de Leste, aos continentes Ásia e Austrália, debateram-se meios de divulgar a Petição do Povo de Deus. Foram faladas as relações com a hierarquia, ou o diálogo diplomaticamente possível com alguns bispos na Dinamarca e praticamente impossível em países como Itália ou Espanha. A urgência de mudança de mentalidades foi invocada, para que aconteçam as mudanças desejadas. O representante da Irlanda falou nas reações à pedofilia na Igreja. Um dos representantes dos Estados Unidos lembrou a tensão entre o ideal e a realidade, na questão social. Lançada pelos dois representantes do Brasil no IMWAC, a questão da “opção preferencial pelos pobres” que foi substância fundamental na Teologia da Libertação na América Latina dos anos 60, mereceu destaque no envolvimento de todos os participantes, unânimes na defesa da justiça social.
Foi decidido redigir um documento, cuja primeira versão ficou a cargo de José Brendan, que foi um dos representantes do Nós Somos Igreja – Brasil. Nele se exprimirá o desejo de uma Nova Igreja e a intenção é fazê-lo chegar a Roma. Na reunião preparatória para a elaboração deste documento, Ana Vicente sugeriu uma consulta atenta, com investigação sobre o Papa Leão XIII, as Encíclicas, os textos da Doutrina Social da Igreja. E propõs que os ingredientes da Teologia da Libertação sejam abordados com formas mais actualizadas, já distantes da carga ideológica marxista, em voga na fase de Puebla e Medelin, estendida a toda a América Latina, irradiando para o resto do mundo. Um outro documento, a registar a voz do IMWAC em Roma quando ocorrer o Conclave pela morte de Bento XVI, será também redigido, traçando o perfil do próximo Papa desejado por nós, Povo de Deus.   
Na Igreja, as portas estiveram fechadas até ao dia de Outubro de 1962 em que o Papa João XXIII abriu o Concílio Vaticano II, alertando o mundo para os Sinais dos Tempos e o Aggiornamento indispensável ao trânsito da Igreja de Roma no mundo. Para entender as transformações acontecidas, é preciso revisitar o contexto da época, diferente da condição atual. Concisa, firme, clara, a intervenção da teóloga Teresa Toldy envolveu o Encontro inteiro no pensamento sobre Aggiornamento e Obediência, sobre liberdade e consciência, sobre este tempo de crise em que a Igreja deve estar ao lado daqueles que não têm poder. Teresa acredita no espírito do Concílio, afirma que a Igreja está nos espaços abertos, defende que passemos às novas gerações o testemunho da experiência que vivemos. Ela cita os preceitos da Congregação da Doutrina da Fé para os bons católicos, a ilustrar aquilo que permanece e parece fundamental, na Cúria Romana, na instituição Igreja: “Vá à missa. Vá à confissão. Cumpra devoção aos santos. Leia os documentos da Igreja. Estude o catecismo. Ajude alguém. Convide alguém para a missa. Viva as beatitudes.”
Releio a notícia sobre a recomendação de Bento XVI aos padres, em 2009, para que voltem a usar batina, demonstrando hábitos, cultura e caridade, missão central da Igreja. E, relembrando os Santos, rezo pelos mais de 500 católicos caldeus assassinados no norte do Iraque, em setembro de 2010. Segundo a ONG norte americana Christian Peace Association, restam hoje 400 mil do 1,5 milhão de cristãos que viviam no Iraque em 2003. Católicos caldeus, assírios, ortodoxos arménios. Penso em todos os mortos e martirizados, nos retirantes e deslocados, nos excluídos da aparente segurança do mundo ocidental. E releio o poema de Drummond.  

Leonor Xavier
3 de Novembro de 2012

02 novembro 2012

FUNDAMENTOS ÉTICOS DA REFORMA

1. Nas sociedades pluralistas em que vivemos, se os imperativos éticos não forem incondicionais, se a moral não tiver uma justificação, uma fundamentação, as nossas sociedades não serão pluralistas, mas relativistas, pois não haverá distinção entre bem e mal, tudo será aceitável –“vale tudo”- basta que corresponda às tendências actuais, aos desejos de cada um, à moda. A pura actualidade sem horizonte, dominada pelo corrupio das notícias, sem referência para uma orientação de longo alcance, tende a considerar tudo provisório, com medo do império de falsos absolutos. Será uma época que tem cada vez mais recursos, mas uma época de “meios sem fins”. O declínio da causalidade final torna difícil a pergunta pelo sentido.
2. Esta justificação terá que ser imanente, reconhecível por crentes e não crentes, para valer como universalmente válida. A filosofia nasceu da religião, mas por um processo de racionalização, o símbolo foi cedendo lugar ao logos. A própria religião surge, do ponto de vista fenomenológico, como “um facto humano específico que tem origem no reconhecimento, por parte do ser humano, de uma realidade suprema, a qual confere o sentido último à própria existência, ao conjunto da realidade e ao curso da história” (J. Martín Velasco).
 Na linha da Modernidade, a fundamentação deverá ser antropocêntrica, pois o ser humano (Cf. Summa Thelogiae, I, q. 75-102) na sua complexidade, é o único ser ético – o único que é princípio das suas obras, possuindo livre-arbítrio e domínio sobre as suas acções( Cf.S. Th., II-II, Prólogo).
3. Não basta, porém, fundamentar as grandes linhas de orientação ética e manter-se nos princípios universais, pois as acções humanas realizam-se no concreto, no singular circunstanciado, onde se provam as energias virtuosas e se faz um juízo prático a partir da informação, com os dados disponíveis e se decide com base na virtude da prudência , a virtude da decisão informada. Mas sem a apreensão do mundo como experiência de profundidade, perdemos o sentido da temporalidade e trocámo-la pela canonização do que existe, estetização banal da banalidade. É certo que as tecnologias têm o carácter de estabilizadores eufóricos para muita gente. Dir-se-ia que a tecnologia é o novo instrumento de reencantamento do mundo . Basta carregar no ponto certo e está tudo. Como se diz frequentemente, a máquina tem sempre razão.
4. As propostas éticas - que não sejam a sua negação - estão todas inseridas numa tradição. Procuram, pelo menos, interlocutores na história.
Paul Ricoeur, na confluência das tradições aristotélica e kantiana, sem juramentos de fidelidade  ortodoxa a  nenhuma delas - distinguindo ética e moral -, apresenta o seu programa  de forma  sintética: “Visée de la vie bonne, avec et pour les autres, dans des institutions justes” (Cf. RPF, Jan.-Março, 1990, pp.6-17).
a)  I. Kant insere a questão ética num conjunto muito vasto, mediante quatro perguntas: - Que posso saber? - Que devo fazer? - Que me é permitido esperar? - O que é o homem?
À primeira, responde a metafísica; à segunda, a moral; à terceira, a religião e à quarta, a antropologia, já incluída nas anteriores.
É uma ética do dever e da dignidade humana – o ser humano nunca deverá ser meio. É sempre um fim. Não deve ser instrumentalizado. Não tem preço. Tem valor.
b) A tradição aristotélica é diferente. É uma ética da procura da vida boa (não da boa vida), da felicidade humana, do agir virtuoso, prudencial, do caminho da boa medida, que culmina na alegria. Como diz o grande helenista  A. –J.Festugière,  nas mais autênticas tradições gregas, o bem agir é a condição da euforia, mas a euforia é, por sua vez, a companheira inseparável da actividade virtuosa. A norma para o grego não é “ tu deves”, mas “tu podes” ser humano. O importante é saber e querer desenvolver as capacidades para realizar uma vida boa enquanto humana, isto é virtuosa, em e com os outros, em instituições justas, como sintetizou P. Ricoeur.
5. Não vou entrar aqui nas propostas de Apel-Habermas (a ética da razão comunicacional, dialógica) nem na teoria da justiça de Rawls. Mas Lévinas, com  “a presença do rosto - o Infinito do Outro - é nudez, presença do terceiro ( quer dizer  de toda a humanidade) que nos olha)”, nos olhos do  outro que me olha, olham todos os outros, a humanidade inteira”. Não posso desviar o olhar, sou responsável pelo outro, por todos os outros que se apresentam no rosto que me interpela.
6. A sentença ética universal (em forma negativa ou positiva), pois encontra-se em todas as sabedorias antigas é a seguinte: “ faz aos outros o que desejarias que os outros te fizessem a ti”.
7. A ética religiosa de alcance universal pode assumir as seguintes expressões: Que fizeste do teu irmão? (Genesis, 4,9); quem é o meu próximo? (Lc. 10, 25-37); tive fome… a história humana em três parábolas e o juízo ético radical (Mateus,25). São éticas do respeito, da compaixão, do cuidado, da responsabilidade ilimitada.
8. A questão de fundo sobre a “reforma” é a do percurso da questão antropológica para a questão da fundamentação ética.
 A chamada civilização ocidental está a universalizar-se, mas revela-se radicalmente ambígua, pois não sabe como poderá ser humanizada. Não se trata apenas de perguntar:  “descansamos para trabalhar ou trabalhamos para descansar”?,  embora haja cada vez menos trabalho devido às máquinas de substituição dos seres humanos. Os pragmáticos utilitaristas perguntam-se: a maioria dos seres humanos não estará a mais?
A questão de fundo, paradoxal é esta: por um lado, cultiva-se o respeito e a comunhão por tudo o que é vivo, pela natureza, ressuscitando o velho animismo e denunciando uma ilusória superioridade do ser humano sobre o mundo; por outro, trabalha-se na transformação da natureza humana, sonhando com o pós-humano, imortal.
9. Kant viu bem: tudo se concentra na antropologia e no dever de ser humano, de forma adulta, que pensa por si mesmo, de forma autónoma.
  Os gregos viram melhor: os seres humanos, na sua finitude, podem conjugar a grandeza da sua excepcional condição, mas sem ceder à “ubris”, à desmedida ou à humilhação, mantendo-se no sentido da sabedoria, do equilíbrio, da boa medida, da justiça para todos.
1O. Dito tudo isso, importa reconciliar o ser humano com a sua historicidade, tornando também suas as preocupações dos outros e com os outros em instituições justas. O que o implica na participação política do bem comum. Tomás de Aquino dizia que a virtude da  prudência política é de todos e para todos e não só para os governantes.
O fundamento ético da reforma encontra-se na historicidade e pluridimenção da condição humana: o ser humano não é, vai sendo, subindo e descendo e não pode ser reduzido a uma única função. Cuidar para que haja todas as idades da vida, com previdências e providências, pessoais, comunitárias e sociais para quando uma pessoa já não tiver condições para cuidar de si e dos outros. Com um cuidado especial por aqueles que não têm unhas nem viola.
 11. Numa civilização pragmatista, os idosos não valem, só estorvam; estão fora de prazo de validade. Paradoxo: caímos numa sociedade de idosos sem saber o que fazer com eles. O reformado não tem que ser um indesejado e arrumado a um canto, a esperar a morte com medo ou como alívio.
Como pensar a reforma como uma oportunidade de vida desejada por si e pelos outros, de serviço voluntário?
!2. As questões técnicas e as exigências sociais e económicas da reforma não podem esquecer a fundamentação ética, mas exigem outras competências para a poder realizar.
Mariano Rajoy declarou à TVE
... "A primeira prioridade é tratar os pensionistas da melhor maneira
possível. A minha primeira instrução ao ministro das Finanças é de que
as pessoas que não se devem prejudicar são os pensionistas.
"No Orçamento de Estado de este ano só há dois setores que sobem: os
juros da dívida e as pensões. Não tenho nenhum interesse e se há algo que não tocarei, são as pensões".
"Rajoy sublinhou que o pensionista é a pessoa mais indefesa, que tem
a situação mais difícil, porque não pode ir procurar outro posto de
trabalho aos 75 ou 80 anos, tendo uma situação muito mais difícil"...
Que não se arrependa!
Frei Bento Domingues O.P

Sobre os Idosos, ver Danusa Figueirinha; Inês Marques; José Augusto Simões, Ética na relação do Profissional de Saúde e Idoso nos Cuidados Continuados (Revista Portuguesa de Bioética, nº 16, 2012, pgs 31-46);  Diana Faria; Madalena Oliveira; José Augusto Simões, Políticas Públicas de Defesa e Promoção dos Direitos dos Idosos (ib. pgs 67-80)

28 outubro 2012

JÁ CHEGA DE CONCÍLIO?

1. Estava adormecida a memória da turbulência que Angelo G. Roncalli (1881-1963) – um pobre camponês italiano – provocou no mundo, quando, inesperadamente, o Movimento Internacional “Nós Somos Igreja” resolveu revisitar as datas que romperam, durante algum tempo, com a ideologia que justificava a Igreja Católica como monarquia absoluta. Embora com dezenas de anos a refazer-se desse susto, os debates sobre o Vaticano II regressaram. Por razões diferentes, ninguém quer ficar para trás. Mesmo em Portugal, multiplicaram-se os colóquios, as conferências e as publicações de todo o género.
O que terá levado o Conclave dos Cardeais, de Outubro de 1958, a escolher um camponês para a liderança da Igreja Católica? A hipótese mais divulgada é a seguinte: o consenso para a escolha do novo Papa tornara-se cada vez mais difícil. O cardeal Roncalli estava velho, doente e não tinha nenhum gosto pelos conflitos. Dada a sua idade, era uma escolha de transição pacífica, até se encontrar uma figura marcante, digna de suceder a Pio XII, que sabia tudo e estava preparado para falar de tudo.
J. Cornwell nota que ele dava lições aos grupos de visitantes sobre temas tão diversos como odontologia, ginástica, ginecologia, aeronáutica, cinematografia, psicologia, psiquiatria, agricultura, cirurgia plástica ou sobre a arte de ouvir as notícias pela rádio. O grande teólogo dominicano e o maior eclesiólogo do século XX, Yves Congar, escrevia à sua mãe, em Setembro de 1956: “O papa actual, sobretudo a partir de 1950, desenvolveu, de forma obcecada, um regime paternalista em que ele, e só ele, diz ao mundo e a cada um o que é preciso pensar e como actuar. Pretende reduzir os teólogos ao papel de comentadores dos seus discursos, sem que possam ter a veleidade de pensar algo, de ter qualquer iniciativa fora dos limites desse comentário: excepto, repito, numa margem muito estreita, perfeitamente delimitada e vigiada, acerca de problemas sem consequências”.
2. Dir-se-ia que o camponês eleito papa, diante de tanto saber e autoridade, teria de se reduzir à sua insignificância. Puro engano. A 25 de Janeiro de 1959 espantou o mundo inteiro. Anunciou, da forma mais breve possível, um novo concílio ecuménico. Seguiu-se uma fase preparatória e a 25 de Dezembro de 1961 fez a convocatória oficial. A 11 de Outubro de 1962 realizou-se a abertura solene do 21º concílio ecuménico. A 8 de Dezembro foi encerrada a primeira sessão regozijando-se o papa com o clima de liberdade que nela se viveu.
A 3 de Junho de 1963 morre João XXIII. Não morreu o concílio. Prosseguiu com Paulo VI até 8 de Dezembro de 1965, com um estilo muito diferente.
José Mª Castillo, autor de uma vasta obra teológica, veio a Lisboa, a convite do Nós Somos Igreja e fez uma conferência, no Convento de S. Domingos, sobre a situação da Igreja antes, durante e depois do Concílio. Defendeu a seguinte tese: a Igreja, como está, não é de fundação divina. Não pertence a Jesus o modelo de uma monarquia absoluta. Tentou mostrar como é que isto aconteceu. Foi possível desenhar, no Vaticano II, uma eclesiologia nova. Continua, no entanto, a reflectir os contrastes que existiam entre os padres conciliares, permitindo, por isso, leituras pouco convergentes. O modelo piramidal foi abalado, mas recuperou depois, através do chamado poder absoluto e universal de ”jurisdição” do papa, inspirado nas concepções jurídicas de B. Sassoferrato (séc. XIV). Como a reforma da Cúria romana não foi realizada e enfraquecido o exercício da colegialidade dos bispos, regressou-se ao modelo da monarquia absoluta, ao poder absoluto do papa, embora, por vezes, não se saiba se é o papa que manda ou a cúria que ele mantém. Saem prejudicados os direitos humanos, no interior da Igreja.
3. Segundo o costume mais antigo da Igreja, isto é, da assembleia cristã, o direito e a autoridade não residiam só na hierarquia. Nos primeiros tempos, quando havia problemas, era dada a palavra a todos para a sua solução. Ainda em meados do século III, Cipriano, bispo de Cartago, escrevia: desde o princípio do meu episcopado determinei não tomar nenhuma resolução, por minha conta, sem o vosso conselho e o consentimento do meu povo. Esta prática era observada na nomeação dos bispos e papas. S. Leão Magno (séc. V) disse com precisão: aquele que deve ser posto à cabeça de todos deve ser eleito por todos. De forma mais taxativa, o papa Celestino I estabeleceu a norma que, no séc. XI, voltou a ser recolhida no Decreto de Graciano: Não se imponha nenhum bispo àqueles que o não aceitem; deve requerer-se o consentimento do clero e do povo.
É pena que os bons costumes estejam esquecidos. Continuam a pertencer-nos. Procurar incarná-los numa democracia que também tem de ser refeita, não me parece que seja grande heresia. O contrário é que não me parece nada ortodoxo.
Frei Bento Domingues, o.p.
in Público de 28.10.2012

25 outubro 2012

IMPOR OU SERVIR?

1. O Prémio Nobel da Paz de 2012 foi atribuído à Europa, cuja população é de 500 milhões de cidadãos. Vem, como é normal, justificado: A União e os seus precursores têm contribuído, há mais de seis décadas, para o avanço da reconciliação, da democracia e dos direitos humanos. O papel estabilizador da UE ajudou a transformar a maior parte da Europa de um continente de guerra num continente de paz.
Embora o seu comportamento, sobretudo em relação ao Médio Oriente, por acções e omissões, continue a ser desastroso, o prémio celebra um processo interno notável que, por desgraça, tem vindo a ser gravemente traído. Quando os actuais dirigentes políticos parecem ter perdido a memória, o juízo e a decência, este prémio poderá ser interpretado como um alerta solene: não deitem a perder, com políticas mesquinhas, esquecidas da “fraternidade entre as nações”, um património de esperança.
Por outro lado, o culto das guerrilhas económicas e financeiras nunca poderá ser fonte de paz. As lógicas imperiais sempre precisaram de vítimas, sejam elas as seguidas pelo mundo ocidental, sejam as praticadas pela China, cada vez menos misteriosa.
Naquilo que imediatamente nos toca, não sei se chegaremos a conhecer a rede e o percurso dos interesses de todos os intervenientes – visíveis e invisíveis – com um resultado que violenta as pequenas empresas, os trabalhadores, os pensionistas e entrega a massa dos desempregados às reacções do desespero. Mas a insistência no caminho do quanto pior melhor, depois de todos os avisos, talvez não seja um jogo inocente. Não é, pelo menos, o caminho mais inteligente e virtuoso.
2. Para os eurocépticos, a própria ideia de UE não passou de mais uma utopia destinada à falência, fruto de um voluntarismo descontrolado pela memória dos horrores de duas guerras mundiais.
Talvez não tenha sido voluntarismo cego, mas alta lucidez. Não bastava dizer “guerra nunca mais”. Era preciso imaginar e percorrer os caminhos que, passo a passo, constroem a paz. Nenhum futuro desejado está, porém, garantido à partida. A vigilância activa de todo o processo é a condição para não confundir a utopia com o delírio.
O desejo e a imaginação são fontes de mudança, mas também de instabilidade e sofrimento. Buda, ao adoptar o longo processo interior de desapego do seu próprio eu, atingiu a “iluminação”, pois ficou a saber o que é o sofrimento, de onde vem, como pode ser superado e o caminho para o superar. Não é pouco.
O caminho de Jesus tem pontos de contacto com o de Buda – “perder é ganhar” – mas de modo diferente. Toda a sua pessoa e intervenção eram desejo de um mundo outro, um fogo a acender em todos os corações. Não apagava o desejo. Intensificava-o, convertendo-o sempre em algo de melhor, para não se perder em labirintos sem rumo. Não era nem um austero nem um libertino. Gostava da vida e para todos a desejava em abundância, alargando a tenda do Reino onde reunisse todos os filhos de Deus dispersos pela desumanidade.
Está escrito que ele próprio teve de resistir às tentações messiânicas, à vontade de tomar o poder e instaurar uma nova era em Israel ocupado. Interpretou-as como diabólicas! Não conseguiu, todavia, convencer os seus discípulos de que sem a radical conversão do desejo nunca iriam entender o que é preciso para alterar a própria natureza do poder. Ao pressentir que se passava com eles algo de muito estranho, descobriu a luta pelo poder, com as clássicas manhas do carreirismo, que envenena a política. Foi obrigado a uma linguagem e atitudes muito duras para tentar restabelecer a paz no grupo.
 3. O Evangelho de S. Marcos, proclamado na missa de hoje, identifica a tentação que tem minado a Igreja, ao longo dos tempos. Nada de muito original: para satisfazer a ambição do poder, a vontade de mandar, é preciso saber construir uma carreira e intervir no momento exacto. A narrativa não podia ser mais clara. “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram ter com Jesus e disseram-Lhe: Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir. (…) que quereis que vos conceda?  Que na tua glória – quando tomares o poder – nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda”. Estavam dispostos a tudo. Ouvindo isso, os outros, os dez, sentindo-se ultrapassados, indignaram-se contra Tiago e João.
Jesus não podia deixar isto em claro e fez uma reunião: “Sabeis que os chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem-lhes sentir o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo e quem quiser entre vós ser o primeiro será o escravo de todos, porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos”( Mc 10. 35-45).
Quando se pergunta que pode a Igreja fazer pela paz, pressupõe-se uma situação grave, atravessada por conflitos nacionais ou internacionais. Não deve tentar substituir o que pertence aos caminhos da política. Mas,  sabendo o que perverte as relações económicas, políticas e sociais,  tem de mostrar pela sua vida, pelo seu comportamento, pela transformação do poder de dominar em serviço, no seu interior, que existem alternativas ao modo como são governadas as nações. A Igreja tornar-se-ia, desse modo, fermento, sal da terra e luz do mundo.

Frei Bento Domingues, O.P.
Artigo copiado do Jornal Público