02 dezembro 2012

COMBATE À RECESSÃO LITÚRGICA (II)

1. Consta que existe um movimento de retorno à missa em latim, com o padre de costas para o povo ajoelhado.
Tive aulas de teologia em latim, activas e passivas. Continuo a gostar de ler o meu querido confrade, Tomás de Aquino, na limpidez dos seus textos que falam das mil formas da misteriosa presença de Deus na evolução do mundo, sem interferir nas leis da sua inviolável autonomia, investigadas pelas diversas ciências.
A missa em latim e de costas para o povo conheço-a desde criança, como sacrifício que ia aguentando como todos, até ao fim, acompanhada da monotonia do terço, à espera do “ sed libera nos a malo” - do padre “à procura da mala” - sinal de que aquilo estava prestes a acabar.
Nunca esquecerei um colega de escola que dela só reteve e fixou o encantamento de falange, falanginha e falangeta. Com esse recurso, conseguiu ser o melhor nas respostas ao senhor abade, bastante mouco, no exame de catequese. Passou a ajudar à missa e quando o celebrante se virava para dizer “dominus vobiscum”, respondia com o seu melhor latim: falange, falanginha e falangeta.
Dir-se-á que coisas destas só eram possíveis num povo muito atrasado, da serra do Gerês. Tenho, diante dos olhos – reproduzo com a grafia da época - o Compendio de Orações e Práticas Piedosas Dedicado á Juventude Catholica, pela empresa editora do Bem Público (Lisboa 1909), com aprovação eclesiástica de António, Patriarcha de Lisboa, que, para tanto, pediu parecer a “pessoa competente”.
O assunto é litúrgico, nada menos do que a Explicação dos mysterios da missa. Não posso transcrever, na íntegra, essa peça exemplar e citadina. O começo diz o estilo de todas as outras instruções: Quando o sacerdote sae da sacristia revestido, representa Christo quando saiu do ventre virginal de Nossa Senhora ao mundo, e quando subiu ao monte Calvario a obrar os mysterios da nossa redempção. O que a seguir diz da corôa, do amícto, da alva, do cordão, do manípulo, da estola, da casula, do sebasto da casula, do templo, do altar e da pedra d’ara, da cruz, dos corporaes, pala e toalha, do cálix, da patena, da hostia e vinho, é ainda mais hilariante. Nada tem a ver com nada.
2. Textos destes situam-se no grau zero da inteligência da pré-história do soluçante movimento litúrgico em Portugal, embora já estejam registados alguns momentos do seu despertar[i].
Não espanta, no entanto, que a constituição litúrgica, Sacrosanctum concillium (4.12.1963), tenha sido o primeiro documento votado e aprovado no Concílio Vaticano II, marcando uma tal viragem nos seus debates que influenciou, de forma positiva, tudo o que veio a seguir.
Tinha sido preparada pelas grandes intuições, iniciativas e pesquisas que desaguaram no movimento de pastoral litúrgica da Áustria, Alemanha, Bélgica, França, etc., em simbiose com a renovação da arte sacra - arquitectura, pintura e música – e com as reformas do Tríduo Pascal dos anos cinquenta do século passado.
A constituição aprovada ia de encontro ao que se desejava para um concílio de renovação da Igreja que compreendesse o mundo contemporâneo e que este, nas suas contradições, alegrias e tristezas, pudesse entender o sentido da mensagem evangélica. Chegava ao fim o tempo de uma Igreja que só falava latim e de costas para o povo.
3. Sem uma língua oficial e universal, temia-se que a Igreja se tornasse uma Torre de Babel. Esta analogia não era muito feliz. Segundo o mito bíblico, foi Deus que não gostou de um mundo reduzido à ditadura de uma só cultura e de uma só língua. A Divindade pode ser escutada e louvada em todas as línguas da Terra. O Pentecostes, que abriu a Igreja ao mundo na sua diversidade e o mundo à pluralidade dos carismas do Espírito Santo, mostra que cada povo pode ouvir a mensagem da ressurreição, nas expressões da sua própria cultura.
A viragem litúrgica do Vaticano II meteu a Igreja em trabalhos e para sempre. Não há decretos, rituais, traduções de textos que possam substituir a criatividade literária, musical e artística da cultura própria das comunidades. Pensar que basta formatar um pronto a servir, com todas as indicações do que está permitido e proibido fazer, é regressar ao império do direito canónico e do rubricismo, nova edição de uma liturgia de costas para a criatividade do povo cristão. Este não está situado fora ou acima do tempo e da cultura em que vive. Os cristãos não existem para dizer ámen a tudo. Uma celebração litúrgica que não seja percorrida por uma mística e uma ética, que não seja uma energia de mudança de vida, será sempre um ritual vazio.
A ritualidade é inerente à condição humana, religiosa ou não. A liturgia é uma antropologia para Deus e uma teologia para os seres humanos. Para os cristãos, o conjunto das acções rituais é a mediação da graça de Deus a nível cognitivo, emocional e estético.
Uma missa que só investe na homilia é apenas instrução, a escorregar para o moralismo; se apenas procura emoções, assim como aquece, arrefece; se é só estética, torna-se arte pela arte.
A liturgia é convocatória de todas as artes para que a vida seja bela.

[1] Bernardino Ferreira da Costa, osb Movimento Litúrgico em Portugal, Ora & Labora, Singeverga 2009

Frei Bento Domingues, o. p.
     in Público

01 dezembro 2012

DEVOCIONARIO


COMPENDIO DE ORAÇÕES
-- E --
PRATICAS PIEDOSAS
Dedicado á Juventude Catholica
Pela empresa editora do Bem Publico
Typographia de Germano da Silva
Rua da Padaria, 48 – Lisboa


Approvação Ecclesiastica
Conformando-Nos com o parecer de pessoa competente, a quem cometemos o exame do opusculo que tem por titulo «Devocionario»; e considerando que a recitação de orações n’elle collegidas muito póde concorrer para alimentar e afervorar a piedade nos fieis: Havemos por bem conceder a Nossa aprovação ao referido «Devocionario».
Paço de S. Vicente de Fóra, 4 de Abril de 1909

António, Patriarcha de Lisboa

Explicação dos mysterios da missa
Quando o sacerdote sae da sacristia revestido, representa Christo quando saiu do ventre virginal de Nossa Senhora ao mundo, e quando subiu ao monte Calvario a obrar os mysterios da nossa redempção.
A corôa na cabeça representa a de espinhos, que por escarnio puzeram ao Senhor.
O amícto significa o véo com que os soldados lhe vendaram os olhos.
A alva significa a vestidura branca, que por escarneo mandou pôr Herodes ao Senhor.
O cordão significa a corda com que ataram o Senhor, quando O prenderam e levaram preso a Jerusalem, com que o amarraram á columna, e os açoutes que lhe deram.
O manipulo significa o cordel xom que ataram as mãos ao Senhor.
A estola significa a corda que lançaram ao seu santo pescoço quando lhe puzeram a cruz ás costas.
A casula significa a túnica de que despiram o Senhor para o crucificarem, e a purpura que por escarneo lhe puzeram os soldados.
O sebasto da casula (que em França, com muita propriedade, forma uma cruz) significa a cruz que o salvador levou ás costas
O templo significa a Igreja catholica, e a congregação dos fieis em Jesus Christo.
O altar e a pedro d’ara quadrada significam a cruz em que o Senhor morreu.
A cruz que se põe sobre o ltar significa a Christo crucificado.
Os corporaes, pala e toalha do altar significam o sudário em que o Senhor foi amortalhado.
O cálix significa o sepulcro .
A patena significa a lousa com que se encerrou o sepulcro .
Infelizmente, o opúsculo estava ratado e daí que A hostia e o a o vinho significam não sabemos o quê.

Esta é uma proposta que aconselho a quem desejar uma introdução ao futuro da restauração do passado litúrgico que tantas saudades desperta em quem a não conheceu, por indução de quem não sabia nada e nada aprendeu.
Eu fiquei passado com tanta sabedoria

Frei Bento Domingues, O.P.
1 de Dezembro
Nota: Conservei a grafia de 1909

25 novembro 2012

COMBATE À RECESSÃO LITÚRGICA (I)

      
1. Terei de continuar a viver sem as máquinas superinteligentes, prometidas para 2030, dotadas de consciência reflexiva, multiplicadoras do eu pessoal, tantas vezes quantas se desejar e com a imortalidade à vista. É possível que venham a resolver, de forma científica e técnica, todas as questões existenciais, imanentes ou transcendentes, sem restos das ingenuidades do passado. Alguns perguntam com malícias tradicionais o que será namorar e casar com um computador, pedir-lhe para procurar saber se Deus existe ou não, se haverá vida (e que vida) depois da morte, se a oração e as liturgias religiosas terão algum sentido.
Esse género de perguntas pertence a ignorantes do admirável mundo novo inscrito na dinâmica das novas tecnologias que dispensa tanto as velhas utopias humanistas como o património artístico e religioso dos nossos antepassados. Essas máquinas prodigiosas vão superar os voos poéticos do velho Apocalipse: vi então um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra foram-se e o mar já não existe. Nunca mais haverá dor, lágrimas, morte, luto, clamor. As coisas antigas desapareceram. Não haverá mais noite e o sol também não será preciso. Vou fazer novas todas as coisas (Ap. 21-22). 
Este Livro prodigioso parece que servia de encorajamento às igrejas cristãs perseguidas. A desgraça não tem de ser eterna, eterno é o misterioso Deus de Amor. Quando não se sabe nada do futuro, ou se aposta em cálculos que saem sempre errados ou resta-nos a imaginação delirante. Quando é poética, não se lhe pedem responsabilidades. É verdadeira por ser como é. Quando pretende ser científica, tecnicamente garantida, é preciso esperar para ver e não sobra tempo para tanto.
2. É próprio da celebração litúrgica enraizar-se no passado, transformar o presente e abrir o futuro das comunidades cristãs. A encenação litúrgica, como teofania e antropologia, ou vive da convocação musical de todas as artes ou não consegue reunir o céu e a terra na regeneração transfiguradora do ser humano. É na luz da palavra poética e na energia da acção simbólica do agir ritual que acontece a graça de Deus. Quando a celebração se degrada, fica o ritualismo vazio e o fastio litúrgico. Quando a prática religiosa deixa de ser considerada uma obrigação, sob pena de pecado mortal e suas consequências, já nada consegue vencer o aborrecimento, a prática religiosa entra em crise, surge o abandono, a recessão litúrgica. Não se vence com a obsessão ritual. Seria procurar a cura na doença. 
Outro foi o caminho escolhido pela Faculdade de Teologia da UCP e o Patriarcado de Lisboa, que organizaram as jornadas Liturgia, Arte e Arquitectura nos 50 anos do Concílio do Vaticano II, a 15 e 16 deste mês. O tema é abrangente e com razão, pois a liturgia exige o contributo de todas as artes da palavra e da encenação ritual, num tempo e num lugar concreto, como celebração de uma comunidade. Não se trata de preservar o património religioso nem de encenação de espectáculos. O ponto de partida não pode ser um desígnio abstracto de construção de uma comunidade com gente sem história, sem desejos e sem projectos. É preciso partir de grupos de pessoas cristãs, em processo de conversão, com proveniências diferenciadas, que vão adquirindo consciência de que são elas a Igreja em construção.
O primeiro alicerce é o da escuta recíproca. A primeira qualidade do ministro ordenado, para ajudar a comunidade, é a capacidade de escutar e promover as formas várias de encontro entre todos os membros desse corpo. A pressa e o adiamento das decisões não ajudam esse processo vital. É a partir daqui que tem sentido pensar no espaço, na arquitectura e nas artes da celebração da comunidade. Pensar e projectar, com a participação de todos, não atrasa a obra porque esse processo já está a construir o mais importante. Não é tempo perdido.
3. Poder-se-á objectar que um método desses vai dificultar a renovação litúrgica, a participação criativa de artistas, arquitectos e músicos.
Isso só pode acontecer quando se procura espaço para a igreja sem haver Igreja. É na construção de uma comunidade plural, culturalmente marcada, que, de forma dialogada, se podem manifestar as formas artísticas em que ela se reconheça, sabendo que pertence a várias gerações.
Dito isto, a pertinência da temática do encontro não podia ser mais ajustada. A cinquenta anos do Vaticano II, já é possível avaliar a importância da reforma proposta pelo Concílio, tendo em conta a sua preparação, mediante o movimento litúrgico de vários países e tendências, ao longo dos anos.
Continuaremos no próximo Domingo.

Frei Bento Domingues, o.p.

in Público

22 novembro 2012

Primeiro viver, depois filosofar

Quando este aforismo foi inventado já se tinha filosofado muito e chegado à conclusão de que para se filosofar é preciso ter vivido alguma coisa daquilo que se pensa. É preciso ter matéria sobre a qual reflectir, sob pena de se cair num exercício mental inútil, estéril e vazio. E é necessário que o pensamento seja adequado à realidade. Por outro lado, como poderá filosofar quem não consegue sequer o mínimo para viver? Meio a propósito, ocorre-me citar um poema de A. O’Neill: “Você tem-me cavalgado, seu safado! Você tem-me cavalgado, mas nem por isso me pôs a pensar como você. Que uma coisa pensa o cavalo, outra quem está a montá-lo”. Pois é, neste caso aquilo que parece uma realidade, na verdade são duas. Aquilo que poderia parecer traduzir-se num único pensamento, na verdade exige dois e opostos. Vem isto a propósito de quê? Sei lá, se calhar de nada. Talvez palavras que, como se diz vulgarmente, perdem a oportunidade de ficarem caladas. A intenção é referir-me àquela coisa a que, na actualidade, quase toda a gente que escreve se refere: a crise. Já foram feitos muitos comentários, dadas muitas explicações, descrita a esquizofrenia entre a euforia económica e a depressão financeira. Fala-se da metáfora bíblica de tempos de vacas gordas e magras, de pensamentos de séculos passados que se referem ao mesmo problema em circunstâncias diferentes, de profetas que acertaram e de cientistas que se enganaram. Parece que ainda não se falou de Jesus, mas também se pode falar. De como ele se dirige às pessoas a partir da realidade concreta de cada uma. De como anima as suas vidas, encorajando-as a saírem do sufoco ou do caos em que outros as metem. De como as cura ou lhes dá alimento de um modo que evite o aparecimento dos missionários do negócio ou dos comerciantes do milagre. Esses que em tempos de crise têm a habilidade de criar ilusões e enganos. Hoje vivemos num mar de análises, esclarecimentos, observações, peritagens, previsões, cálculos, projecções… que nos perdoe o mar por o compararmos a tais coisas. Muita demagogia em pouca filosofia, muito escrever em pouco viver.
Isso também acontece na Igreja que, por definição, é diversa e plural. E se nós, que também somos Igreja, nos indignamos por não nos darem atenção, não nos terem em consideração, não atenderem àquilo que defendemos ou propomos, que dizer da indignação que toca o rés-do-chão da vida? Que dizer daqueles que também são homens e mulheres que querem trabalhar e não têm trabalho, que terminaram um curso e não têm um lugar onde exercer a sua profissão, que querem ter filhos e temem não terem possibilidade de os poderem criar, que são idosos e doentes e a sociedade os vai deixando para trás, que também são portugueses e vão buscar refúgio noutras pátrias! A grande maioria dos que passam por isto não tem possibilidade de filosofar sobre essas realidades. E se tem, não lhe é dado lugar onde o dizer a não ser na rua. Vive-as e sofre-as com as palavras entaladas na garganta, palavras que talvez não fossem sequer consideradas bem escritas ou bem ditas para se tornarem públicas ou serem publicadas. E os que falam e escrevem sobre essas realidades, falam e escrevem realmente sobre elas? Convém não ser injusto porque há quem o faça, mas no geral trata-se de filosofar sem viver. Mesmo na Igreja. Na Igreja há muita gente que faz o bem impelida pela sua fé e pelo conhecimento da pessoa de Jesus. E faz o bem com muito amor e beleza. Mas vejo acontecer com bastante frequência aquilo que é descrito numa pequena história já antiga: uma lenda cheia de humor popular, sempre muito realista, diz que, por volta de 1453, quando os turcos invadiram Constantinopla e entraram no palácio imperial, encontraram o imperador com a sua família e o seu círculo de teólogos, imperturbáveis, numa animada discussão sobre teoremas religiosos sem qualquer ligação a qualquer realidade. Um dos debates era sobre o sexo dos anjos, considerada uma questão que poderia ser de grande relevância para os destinos da humanidade. Entretanto o invasor ia ocupando a cidade e apoderando-se livremente dos seus bens. Sabendo nós que a lenda e a história andam juntas, Deus nos valha!
Frei Matias, O.P.

18 novembro 2012

Tudo em aberto (2)

    
           1. Com a chamada "morte de Deus", anunciada por Nietzsche, preparada e acompanhada por outras correntes que encaravam Deus e o ser humano como rivais, eclipsou-se a poesia da criação divina e da criação humana, que brilhavam da mesma surpresa e da mesma alegria. Na generalizada era da suspeita, vai entrar em crise a nova e eterna aliança-alma da "idade cristológica", celebrada na Eucaristia.

           Jesus Cristo deixava de ser o Emmanuel, Deus connosco, o rosto humano do maior acontecimento divino. Ruíam as suas definições dogmáticas do séc. IV e V, comentadas, durante séculos e séculos, nas Igrejas cristãs e sucediam-se fortes abalos nos próprios fundamentos da identidade cristã e da essência do cristianismo. Os próprios textos do Novo Testamento, submetidos ao método histórico-crítico, passaram a habitar as incertezas das ciências humanas.

         É verdade que, desde os séculos XVIII-XIX até à actualidade, já muita água passou por baixo e por cima das pontes, dentro e fora das Igrejas, na investigação dos textos e dos contextos que narram as origens das expressões da fé cristã. Xavier Pikaza, um conceituado biblista espanhol, no seu contributo para a obra coordenada por Anselmo Borges, fruto de um colóquio substancial, subordinado à pergunta Quem foi, quem é Jesus Cristo? (Gradiva), fez uma resenha exemplar desse longo percurso.

         A reedição da obra-mestra de Hans Küng, O Cristianismo, Essência e História (Círculo de Leitores), em Portugal, é o acontecimento editorial mais importante do mundo cristão em 2012. Precisamos dela para não cairmos em desdobradas ilusões.

         A Essência do Cristianismo já tinha sido o título que, em 1841, Ludwig Feuerbach dera a uma obra cujo objectivo confessado era transformar os teólogos em filósofos; os teófilos (amantes de Deus) em filantropos; os candidatos ao além em estudiosos deste mundo; os lacaios religiosos e políticos da monarquia e da aristocracia celeste e terrestre em cidadãos livres e conscientes da terra. Era a transformação da teologia e da cristologia em pura antropologia.

         2. Esta redução não exaltou a condição humana, como se pretendia. Freud (1855-1939) destacou as três humilhações, as três doenças narcísicas: primeiro, Copérnico demonstrou que a Terra girava à volta do sol, privando-nos do lugar central no universo; depois, Darwin mostrou a nossa origem, fruto da cega evolução, privando-nos do lugar privilegiado entre os seres vivos; finalmente, quando o próprio Freud tornou visível o papel predominante do inconsciente nos processos psíquicos, esclareceu que o nosso ego não manda em sua própria casa. Hoje, surgem humilhações adicionais: a nossa mente, em si mesma, é apenas uma máquina de computação para o processamento de dados. O nosso sentido de liberdade e autonomia seria ilusão do usuário dessa máquina. As neurociências estão cheias de promessas, até acerca do que ainda não podem saber. Também não sabemos o futuro da biotecnologia, mas já estamos tão desiludidos e aborrecidos com a nossa condição humana - a solução de um problema é sempre a origem de outro - que é normal que se deseje um pós-humano, tão cientificamente arrumado que nos liberte de todas as preocupações, mesmo se a troco da nossa liberdade. Talvez não seja muito fácil um referendo mundial que possa decidir do presente e do futuro da humanidade.

         Não será possível continuar o nosso trabalho humilde, nunca acabado, de nos libertarmos de ideias rasteiras, sempre renascentes, tanto acerca de Deus, como do ser humano? A rivalidade existencial - ao contrário da competição lúdica - é infantil e mortal para ambos. Daí a importância de percorrer caminhos, dentro e fora das religiões, que tenham gosto nas diferenças e que não matem as próprias diferenças.

         3. Para o Novo Testamento, a grande rivalidade não é entre Deus e o ser humano, mas entre o Deus libertador e a divinização escravizante do Dinheiro, do máximo lucro a qualquer preço. Seria ridícula uma divindade que dissesse: eu quero os seres humanos ao meu serviço, ao serviço dos meus caprichos e voltados para mim. O lugar do encontro transcendente com Deus são as pessoas que precisam de ajuda. Daí que a incómoda e constante pergunta que Ele nos faz, do começo (Gn 4, 9) ao fim do mundo (Mt 25), seja esta: que fizeste do teu irmão?

         Quando Jesus diz: não podeis servir a dois senhores, a Deus e ao Dinheiro (Mt 6, 24), os discípulos espantam-se. A riqueza era um sinal de gente bem sucedida, divinamente abençoada. Para mal, já bastavam os pobres, imagens do abandono de Deus.

Eles não tinham percebido nada e nós também não. Precisavam e precisamos de silêncio, de oração e de meditação para fazermos a pergunta essencial: quem manda em nós? Se for o amor ao dinheiro, já temos dono: seremos escravos e precisaremos de tornar os outros escravos do nosso desejo.

         Se quisermos ser livres e ajudar na libertação dos oprimidos, vamos continuar a precisar de dinheiro e de bens deste mundo. É evidente, mas surgirá outra pergunta: o dinheiro é dono ou instrumento? A nossa civilização teima numa solução que sempre perdeu os seres humanos e as sociedades: criar sistemas para dominar. Ao fazê-lo devora-se a si mesma. Arranja lenha para se queimar. Uma civilização comandada pelo amor do serviço caminharia para a liberdade.




Por Frei Bento Domingues O.P.
Crónica semanal publicada no jornal Público

 

16 novembro 2012

SANTOS SEM ALTAR

Santos é um dos apelidos mais comuns em Portugal. Ser santo pelo contrário parece ser uma condição muito invulgar. É verdade que nos dois últimos pontificados se fizeram reconhecer uma genuína proliferação de santos de altar, mas esses estão no pedestal dos altares laterais das Igrejas ou apenas no calendário litúrgico.
Quanto ao uso e abuso da palavra verificamos que quando se diz de alguém que “fulano de tal é um santo homem” soa aos ouvidos menos púdicos como uma subtil dúvida sobre o exercício da sua masculinidade, ou para os ouvidos menos freudianos e mais beatíficos, como equivalente a ser um palonço, um ingénuo. Tem pois má fama, esta palavra!
Na tradição portuguesa, quer na reconstrução ideológica da identidade nacional, (“Salvé, Nobre Padroeira…”), quer especificamente na religiosidade popular, não nos compreendemos sem o recurso aos santos patronímicos das terras, das romarias, à devoção mariana a Santa Maria nas suas várias invocações, aos santos de Verão, como os ditos Santos Populares, ou aos  das outras estações do ano, como recentemente São Martinho, no Outono, que anuncia a partilha da capa com quem precisa e provavelmente das castanhas e água-pé. Virá depois São Nicolau no Inverno e assim por diante. Há muito boa gente que ao perder qualquer coisa se apressa a rezar o Responso a Stº António, confiando que há-de acontecer o milagre do aparecimento do objeto sumido. Ou a São Judas Tadeu invocado como advogado das causas impossíveis. Esta proximidade com os santos é curiosa, mas é apenas instrumental; eles são a cunha idónea para dar uma ajuda no quotidiano nos momentos de aflição e também nos de festa. Para quem desconfia de que o sistema de cunhas que vigora na terra com sucesso seja ineficaz no céu, a devoção aos santos tornou-se insignificante. Purificou-se de algum modo, mas perdeu-se.
Originalmente o conceito tem um sentido bem distinto. Paulo, o Apóstolos dos Gentios, ao escrever às comunidades da Diáspora por si fundadas refere-se aqueles que se reconhecem cristãos como “Santos”. Estão santificados em Cristo. Não são pois os mortos, mas os vivos. Não são os que receberam o título de santidade (tipo conde, marquês, etc.), o reconhecimento legal hierárquico da santidade, mas “apenas e só” aqueles que, por terem querido ser baptizados, são reconhecidos como participantes da vida em abundância do Evangelho.
Ser Santo é então ser Cristão. A questão difícil é a que vem depois; é ser capaz de viver como tal!
A falha antropológica entre o ser e o fazer revela-se precisamente na dificuldade de se viver como se pensa que se quer viver, coerentemente, entre a mensagem da Boa Nova e a incapacidade demonstrada nas obras. A esta dificuldade há quem lhe chame pecado ou apenas fragilidade humana. Seja qual for a designação mais adequada, a discrepância entre os dois planos existe. A má fama da palavra Santo vem desse uso desmesurado de bons princípios e de más práticas correntes, ou pelo menos, pouco boas, face ao que seria legitimamente expectável.
Esta expectativa é múltipla; pessoal, comunitária, eclesial e social. Quando os cristãos são atacados veementemente, por gente de fora do grupo, são-no por não serem testemunhas eficazes do amor ao próximo que Jesus Cristo viveu e anunciou. Raras vezes na praça pública se ataca o cristianismo enquanto mensagem, mas em geral a crítica incide sobre a forma como os mensageiros da Boa Nova a levam à prática. E aí cada um que “ponha a mão na consciência”! Há mesmo muitas razões de queixa por ficarmos demasiado longe do que seria necessário e credível.
Não basta a Fé, mesmo se este é o ano da Fé; pois temos muita! Não basta a Esperança e com esta crise é mesmo quase só isso o que nos resta. O que permanece é o Amor. Não confundir com caridadezinha e polémicas adjacentes. Os atos valem mais do que as palavras.
Há muitas ações concretas realizadas por gente de boa vontade, cristã ou não, em prol dos que mais precisam. Só assim o mundo se tornará mais humano, justo e solidário. Os que trabalham nas respostas de emergência social, de proximidade fraterna, na procura política de um modelo de desenvolvimento menos injusto, são esses os Santos que repõem a palavra no bom caminho pois estão a encontrar as mediações para testemunhar o que é o Reino de Deus.
Se olharmos à nossa volta reconhecemos que os Santos da nossa devoção estão bem vivos e atuantes. Precisamos deles para serem fermento da massa e nos ajudarem a sermos cristãos.
Partilhar o tempo, o que se é, o que se sabe, o que se tem é talvez uma possibilidade de Nova Evangelização mais eficaz do que as tradicionais ladainhas aos Santos. Novas vias de santificação (que palavras mais beatas!) eis alguns exemplos do que se já se faz e que importa apoiar:




Podemos pois partilhar e seremos um pouco mais santos, só que andamos demasiadas vezes distraídos a olhar para o nosso próprio umbigo, enredados nas nossas próprias dores, em vez de admirar e seguir o exemplo do samaritano da parábola que soube ver, julgar e agir sem demora! Quem faz isso hoje, são esses os Santos sem altar que encontramos todos os dias.
AFF   14-11-2012                          

13 novembro 2012

Venda de Natal

Aproximando-se o Natal avolumam-se o número de vendas de Natal que não só podem recolher fundos para boas causas como são em si uma ocasião de convívio e de oportunidade de darmos gratuitamente algum do nosso tempo. Vou falar apenas de uma dessas vendas que na minha óptica merece todo o apoio. Ainda por cima dá a oportunidade às/aos nossas/os leitoras/os de oferecerem livros que tenham em casa e de que já não precisem: Vejam também como se apresenta a própria organização, que acolhe a título permanente 38 mulheres, com problemas graves de saúde e que é gerida por uma comunidade de freiras dominicanos, com a Irmã Ana Maria à cabeça. O Convento em si é lindíssimo e merece ser visitado.



A Venda de Natal no Convento dos Cardaes, Lisboa, vai realizar-se este ano nos dias 23, 24, 25 de Novembro e também nos dias 1, 2, 8, 9, 15 e 16 de Dezembro, 2012 .
ATENÇÃO: Se quiserem oferecer alguns dos muitos livros, usados ou novos, (em qualquer língua), CDs, DVDs, videos, ou discos, que têm em casa e que já não sabem onde pôr, podem fazê-lo desde já, fazendo a entrega na Rua Eduardo Coelho, 1, (Bairro Alto), LISBOA, A QUALQUER HORA. CONTUDO SE FOR ENTRE AS 14.30 E AS 15.30 PODEM SER ENTREGUES NA Rua do Século nº 123.


Ana Vicente - membro do Movimento Internacional Nós somos Igreja


 








 
 Há Natal no Convento!


Queremos fazer-lhe um convite muito especial!

Partilhe connosco o Chá e Venda de Natal. Há 25 anos, em Lisboa, por altura do Natal, o Convento ganha nova vida e enche-se de amigos...

Vêm, em família, tomar o nosso Chá e os já famosos scones e bolos do Convento.
Vêm fazer algumas compras de Natal, levando a alegria de, assim, já terem contribuído para a nossa obra.







Nos dias 23 (14h-20h), 24 (10h-20h) e 25 ( 14h-20h) de Novembro
1 e 2, 8 e 9, 15 e 16 de Dezembro (15h-19h)

Tomando Chá connosco ajuda esta obra social tão extraordinária que garante o dia-a-dia de 38 meninas deficientes e cegas.
                         Traga a sua família e partilhe o nosso espírito de Natal!

 Assinatura

Rua do Século,123  Tlf: 213 427 525   www.conventodoscardaes.com  www.facebook.com/conventodoscardaeslisboa