20 dezembro 2012

Pastores da alegria

Chove suavemente. Sendo a chuva assim, lá vão com as ovelhas dois amigos pastores, cada um com o seu rebanho. Um bebia muito desde muito novo e o médico disse-lhe um dia que “ou beber ou viver”. Ele contrapôs que se não bebesse morria mais depressa, mas na companhia das ovelhas juntou os vês com os bês e conseguiu um nível alcoólico razoável. O outro bebeu tudo o que tinha a beber de modo concentrado na rápida juventude. Depois, crente de que não chegaria aos 50 anos porque o mundo iria acabar antes, passou a beber água e pouco mais. Lá vão eles agora debaixo de uma chuva miudinha, cada um para seu lado. Lembrei-me deles por causa dos pastores do presépio, muito falados nesta época e com uma grande visibilidade no cenário do nascimento de Jesus. A luz resplandecente de um céu rasgado para os anjos descerem à terra deixa os pastores assombrados, porém a sua presença como primeiras testemunhas da salvação, parecendo tão romântica está carregada de ironia. O que geralmente se diz é que os pastores eram um dos grupos mais desconsiderados e condenados naquele povo portador da salvação para toda a gente. A razão principal seria o facto de levarem um tipo de vida afastado do convívio social e, portanto, distante das obrigações religiosas e do cumprimento da Lei. Para além do cenário que envolve os pastores do presépio e do seu significado, cabe perguntar: de quem seriam as ovelhas que apascentavam? Deles não podiam ser. Os pobres tinham poucas ovelhas e guardavam-nas junto da casa, os grandes rebanhos que ficavam nos campos eram propriedade dos grandes senhores da terra. E quem seriam esses senhores de grandes rebanhos? Eram os senhores de tudo: da economia, das finanças, da religião, da teologia, das leis, até mesmo da imagem de Deus. O Templo era o centro religioso e político para onde tudo isto confluía e a partir do qual tudo era determinado. As ovelhas eram uma parte da questão mas não desprezível. Todos os anos pela Páscoa eram sacrificados milhares de cordeiros vindos dos rebanhos a preços que nem todos podiam pagar. Os que não podiam pagar ofereciam a Deus um par de rolas ou pombas, envergonhados e cheios de temor. Depois as peles dos cordeiros eram objecto de manufacturação que trazia grandes lucros, como por exemplo os odres que rebentavam com o vinho novo quando já eram velhos. E havia a lã, o leite, os próprios chifres dos carneiros. Onde está a ironia? Um dia falei aqui de uma jovem que não podia ler a leitura na missa porque não comungava. E que não comungava porque não a deixavam, por motivos ridículos. Neste caso passa-se algo semelhante: os pastores eram condenados pelos senhores do Templo e os seus sócios da Lei, por não cumprirem nem viverem o que estava estabelecido. Mas não cumpriam essas coisas porque eram pastores e tinham que andar nos campos a cuidar dos rebanhos dos senhores do Templo. Trabalhavam para aqueles que os condenavam. Era esse Templo que Jesus queria destruir e ainda quer, eternamente. A imagem dos pastores no presépio tem, por isso, uma grande densidade. Eles são o riso de Deus diante daqueles que se apresentam como deuses para o povo. São eles que anunciam a salvação àqueles que em vez de terem Deus como Senhor, são subtilmente os senhores de Deus. Mas o último a rir é sempre Deus, e os pastores são os portadores da alegria dos céus diante daqueles que proibiam ou tornavam impossível a alegria na terra. Penso neles ao ver o Armindo e o Laurindo, e o contrário também. Lá vão os dois agora debaixo de uma chuva miudinha, um contente porque o mundo ainda não acabou e pôde chegar aos 50 anos, o outro porque pode beber um dia de cada vez e viver todos os dias. Não vão muitas vezes à missa por razões de algum modo razoáveis, mas sei que rezam e não rezam orações egoístas. Creio que se numa noite de lua cheia começassem a gritar que o céu se tinha rasgado nas suas cabeças e tinham visto anjos a voar, um seria levado ao hospital para desintoxicação alcoólica e o outro para a esquadra por alucinações acerca do fim do mundo. Mas não vai acontecer porque o Natal, na sua mensagem de paz, esclarece tudo isso com a mesma serenidade da chuva miudinha caindo nos abrigos destes dois amigos.

Frei Matias, O.P.

14 dezembro 2012

Abusos sexuais na Igreja

Nesta época em que celebramos a chegada ao mundo de uma criança que iria
transformar esse mundo e que tanto recomendou que deveríamos ter o maior cuidado com as crianças e até procurar imitá-las, é triste ter que abordar um tema que tão profundamente   encarna o MAL. 
O episódio agora vindo a público,em que um padre, vice-reitor do Seminário do Fundão,  é acusado de abusos   sexuais por seminaristas a ele confiados tem que ser enfrentado por nós todas e todos que somos Igreja. Tal como o Movimento Internacional Nós Somos Igreja - Portugal afirma na sua Tomada de Posição sobre o assunto, «no passado dia 18 Maio, 2012, em carta a D. José Policarpo, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, afirmávamos o nosso apoio e aplauso ao documento “Directrizes Referentes ao Tratamento de Casos de Abuso Sexual de Menores por Parte de Membros do Clero ou Praticados no Âmbito da Actividade de Pessoas Jurídicas Canónicas,” então divulgado. Afirmávamos nós que as “Directrizes” poderiam ser utilizadas como sinal de esperança para que as vozes de vítimas silenciosas se fizessem ouvir. As “Directrizes” apareciam como útil instrumento para a prevenção e dissuasão de tais crimes e sinal de certeza para a punição dos culpados.  O tema explode agora com destaque nos meios de comunicação social e é motivo de pasmo, tristeza, desagrado para o Povo Português, católico ou não. É desconforto e grave problema para a hierarquia, que pela voz do bispo da Guarda declara colaboração com a investigação penal. Esperemos o desenrolar dos acontecimentos.»
Dado o facto de que em muitos países, estes crimes terem sido praticados e seus actores finalmentepunidos, leva-nos afazer a seguinte reflexão: Como é que pessoas que supostamente dedicaram e dedicam a sua vida a Cristo, como todas/os somos chamados a fazê-lo, puderam assim violentar e agredir física e psicologicamente pessoas vulneráveis, com a cumplicidade e ignorância voluntária dos seus superiores, inclusive dos bispos? Ficamos aterradas e envergonhadas. Sou obrigada a sugerir que a atitude temerosa e excluidora da instituição-Igreja face às mulheres, a incompreensível insistência do Vaticano em impôr o celibato obrigatório ao clero secular, propondo que o sacramento do matrimónio é incompatível com o sacramento das ordens (excepto, por razões demasidamente evidentes, para o clero anglicano), a persistente atitude negativa face à sexualidade, em muito contribuiram e contribuem para estas situações vergonhosas.
Ou seja, como conclui a nossa tomada de posição « Que este gravíssimo episódio encoraje uma séria reflexão sobre as reformas que urge implementar no funcionamento da Igreja instituição e que o nosso Movimento tem vindo a propor.»
Ana Vicente - Dezembro 2012 

09 dezembro 2012

Tomada de posição do Movimento Nós Somos Igreja - Portugal acerca da investigação sobre abusos sexuais no Seminário do Fundão

No passado dia 18 Maio, 2012, em carta a D. José Policarpo, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, afirmávamos o nosso apoio e aplauso ao documento “Directrizes Referentes ao Tratamento de Casos de Abuso Sexual de Menores por Parte de Membros do Clero ou Praticados no Âmbito da Actividade de Pessoas Jurídicas Canónicas,” então divulgado. O Movimento Nós Somos Igreja Portugal congratulou-se pela iniciativa da Conferência Episcopal Portuguesa, que assim tomava uma posição em face do tema mais polémico e fracturante na história recente da Igreja - instituição. Afirmávamos nós que as “Directrizes” poderiam ser utilizadas como sinal de esperança para que as vozes de vítimas silenciosas se fizessem ouvir. As “Directrizes” apareciam como útil instrumento para a prevenção e dissuasão de tais crimes e sinal de certeza para a punição dos culpados. Logo que divulgado o documento, o Movimento Nós Somos Igreja Portugal acreditou na contribuição da Igreja para a eficácia da Justiça, concretizada em penas efectivas para os abusadores. O tema explode agora com destaque nos meios de comunicação social e é motivo  de pasmo, tristeza, desagrado para o Povo Português, católico ou não. É desconforto e grave problema para a hierarquia, que pela voz do bispo da Guarda declara colaboração com a investigação penal. Esperemos o desenrolar dos acontecimentos.

Que este gravíssimo episódio encoraje uma séria reflexão sobre as reformas que urge implementar no funcionamento da Igreja instituição e que o nosso Movimento tem vindo a propor.

CORTAR NAS GORDURAS DO PRESÉPIO

1. Terão sido as “modernices” de um livro que provocaram conversas, ora bravas ora jocosas, com um desfecho pouco natalício: “esse Joseph Ratzinger nem vestido de cor-de-rosa será bem recebido no presépio” deste ano.  
 Convém esclarecer que este Joseph Ratzinger nasceu em 1927, na Alemanha, ensinou teologia em prestigiosas universidades, o Cardeal Frings, arcebispo de Colónia, escolheu-o para conselheiro e foi designado como perito no Concílio Vaticano II. Não tendo ele nenhuma simpatia pela teologia romana, colaborou com gosto na sua despromoção. Em 1977, Paulo VI nomeou-o arcebispo de Munique e em 1981, João Paulo II designou-o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. A 19 de Abril de 2005, foi eleito Papa e adoptou o nome de Bento XVI.
Sucedeu a João Paulo II que nunca revelou “tentações progressistas”, mas teve alguns gestos que ficaram como referências cristãs para o futuro: multiplicou os pedidos de perdão, opôs-se frontalmente à política belicista de Bush e realizou o belo e inesperado encontro inter-religioso de Assis. Durante o seu pontificado, além das muitas viagens, como peregrino e pastor, publicou longos documentos oficiais que continuam a descansar nas bibliotecas religiosas.
O itinerário e o estilo de Joseph Ratzinger são diferentes. Durante o Vaticano II, não era um desconhecido, não esteve inativo, mas também não era das estrelas mais brilhantes do céu teológico. Tornou-se pouco simpático na Europa, na América Latina, na Ásia e em África, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Assustado com os rumos da teologia pós-conciliar, perdeu o gosto pela liberdade de investigação e expressão dos autores mais ousados. No conhecido estilo alemão, quem tem autoridade, exerce-a. Ficou-se a saber muito rapidamente quem mandava e qual era a doutrina segura.
2. Eleito Papa, serenou o ritmo de documentos pontifícios. Preferiu retomar o seu curso de obras teológicas, da sua inteira responsabilidade, discutíveis, portanto. Quem gostasse, gostava; quem não gostasse, poderia avaliá-las segundo os critérios habituais da crítica livre. Publicou uma trilogia cristológica. Recebeu elogios, reparos e rejeições. Nada de mais saudável.
Os editores sabiam, no entanto, que este autor não é papa dia sim, dia não. Toda a sua produção teológica, de qualquer das suas fases, seria sempre apresentada e recebida como escrita do Papa. Este facto daria a tudo o que escreveu, desde sempre, um valor acrescentado de que mais nenhum autor pode gozar: obra de Joseph Ratzinger é de Bento XVI.
A trilogia cristológica sobre Jesus de Nazaré chegou ao fim, a falar dos começos: o 1º volume foi sobre a Vida de Jesus, desde o baptismo até à transfiguração; o 2º, desde a entrada em Jerusalém até à ressurreição e o 3º, que acaba de ser editado em nove idiomas e com um milhão de exemplares, é dedicado à Infância de Jesus. Ninguém pode ser classificado como não católico por não ter as opiniões exegéticas, históricas e cristológicas de Bento XVI.
Enquanto o debate sobre o “Jesus da história e o Cristo da fé” se ocupar de questões acerca das quais o comum dos fiéis não dispõe de instrumentos para se pronunciar, com conhecimento adequado, o debate - se debate existir - ficará sempre entre especialistas. Embora com a ambiguidade editorial apontada, nada de grave poderá acontecer.
 3. Os grandes meios de comunicação precisam do insólito, não de uma licenciatura, para se ocuparem de religião. Com todas as cidades iluminadas, com a publicidade desencadeada em tudo quanto é sítio, poder-se-ia supor que os natais são todos iguais. De repente, tocam os sinos a rebate: com a autoria de Joseph Ratzinger e Bento XVI, o livro sobre a Infância de Jesus, tinha expulso o burro e a vaca do presépio, deixando Jesus ao frio. A preocupação com a limpeza do presépio criou uma questão ecológica e teológica: a vaca e o burro, apesar de séculos e séculos de ocupação, tinham perdido o direito à casa, à personalidade jurídica e deixavam de figurar na recriação do mundo, com o mais belo nome de Jesus, Emmanuel, Deus connosco.
Há limites para cortar nas gorduras do Presépio. Por este caminho, ainda vão despedir os pastores, cortar os presentes dos Reis Magos e racionar as horas de iluminação do presépio. Perigo maior: teremos a família da crise, pai, mãe e um filho, cortando as narrativas sobre os “irmãos e irmãs” de Jesus.
Afinal, tanto alarido para nada. Joseph Ratzinger/ Bento XVI diz explicitamente que nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento. Não acredito que venha a haver um desmentido oficial da notícia infundada, nem um pedido de desculpas à vaca e ao burro.
Não sejamos demasiado severos. Neste natal, não vinha muito a propósito a repetida conversa sobre os exageros consumistas; os subsídios foram retidos na fonte e como tinha de haver despedimentos no presépio, os animais foram os primeiros. Veremos o que acontece aos Reis Magos no próximo ano, já que o galo só serve para a missa.
S. Marcos começou o seu Evangelho pela vida adulta de Jesus. Nada contra, mas as crianças também têm direitos. É bom que se saiba que Jesus não nasceu adulto. Só peço que não façam dogmas dos frutos da imaginação da fé.
Frei Bento Domingues, o.p.

in Público 9.12.2012

02 dezembro 2012

COMBATE À RECESSÃO LITÚRGICA (II)

1. Consta que existe um movimento de retorno à missa em latim, com o padre de costas para o povo ajoelhado.
Tive aulas de teologia em latim, activas e passivas. Continuo a gostar de ler o meu querido confrade, Tomás de Aquino, na limpidez dos seus textos que falam das mil formas da misteriosa presença de Deus na evolução do mundo, sem interferir nas leis da sua inviolável autonomia, investigadas pelas diversas ciências.
A missa em latim e de costas para o povo conheço-a desde criança, como sacrifício que ia aguentando como todos, até ao fim, acompanhada da monotonia do terço, à espera do “ sed libera nos a malo” - do padre “à procura da mala” - sinal de que aquilo estava prestes a acabar.
Nunca esquecerei um colega de escola que dela só reteve e fixou o encantamento de falange, falanginha e falangeta. Com esse recurso, conseguiu ser o melhor nas respostas ao senhor abade, bastante mouco, no exame de catequese. Passou a ajudar à missa e quando o celebrante se virava para dizer “dominus vobiscum”, respondia com o seu melhor latim: falange, falanginha e falangeta.
Dir-se-á que coisas destas só eram possíveis num povo muito atrasado, da serra do Gerês. Tenho, diante dos olhos – reproduzo com a grafia da época - o Compendio de Orações e Práticas Piedosas Dedicado á Juventude Catholica, pela empresa editora do Bem Público (Lisboa 1909), com aprovação eclesiástica de António, Patriarcha de Lisboa, que, para tanto, pediu parecer a “pessoa competente”.
O assunto é litúrgico, nada menos do que a Explicação dos mysterios da missa. Não posso transcrever, na íntegra, essa peça exemplar e citadina. O começo diz o estilo de todas as outras instruções: Quando o sacerdote sae da sacristia revestido, representa Christo quando saiu do ventre virginal de Nossa Senhora ao mundo, e quando subiu ao monte Calvario a obrar os mysterios da nossa redempção. O que a seguir diz da corôa, do amícto, da alva, do cordão, do manípulo, da estola, da casula, do sebasto da casula, do templo, do altar e da pedra d’ara, da cruz, dos corporaes, pala e toalha, do cálix, da patena, da hostia e vinho, é ainda mais hilariante. Nada tem a ver com nada.
2. Textos destes situam-se no grau zero da inteligência da pré-história do soluçante movimento litúrgico em Portugal, embora já estejam registados alguns momentos do seu despertar[i].
Não espanta, no entanto, que a constituição litúrgica, Sacrosanctum concillium (4.12.1963), tenha sido o primeiro documento votado e aprovado no Concílio Vaticano II, marcando uma tal viragem nos seus debates que influenciou, de forma positiva, tudo o que veio a seguir.
Tinha sido preparada pelas grandes intuições, iniciativas e pesquisas que desaguaram no movimento de pastoral litúrgica da Áustria, Alemanha, Bélgica, França, etc., em simbiose com a renovação da arte sacra - arquitectura, pintura e música – e com as reformas do Tríduo Pascal dos anos cinquenta do século passado.
A constituição aprovada ia de encontro ao que se desejava para um concílio de renovação da Igreja que compreendesse o mundo contemporâneo e que este, nas suas contradições, alegrias e tristezas, pudesse entender o sentido da mensagem evangélica. Chegava ao fim o tempo de uma Igreja que só falava latim e de costas para o povo.
3. Sem uma língua oficial e universal, temia-se que a Igreja se tornasse uma Torre de Babel. Esta analogia não era muito feliz. Segundo o mito bíblico, foi Deus que não gostou de um mundo reduzido à ditadura de uma só cultura e de uma só língua. A Divindade pode ser escutada e louvada em todas as línguas da Terra. O Pentecostes, que abriu a Igreja ao mundo na sua diversidade e o mundo à pluralidade dos carismas do Espírito Santo, mostra que cada povo pode ouvir a mensagem da ressurreição, nas expressões da sua própria cultura.
A viragem litúrgica do Vaticano II meteu a Igreja em trabalhos e para sempre. Não há decretos, rituais, traduções de textos que possam substituir a criatividade literária, musical e artística da cultura própria das comunidades. Pensar que basta formatar um pronto a servir, com todas as indicações do que está permitido e proibido fazer, é regressar ao império do direito canónico e do rubricismo, nova edição de uma liturgia de costas para a criatividade do povo cristão. Este não está situado fora ou acima do tempo e da cultura em que vive. Os cristãos não existem para dizer ámen a tudo. Uma celebração litúrgica que não seja percorrida por uma mística e uma ética, que não seja uma energia de mudança de vida, será sempre um ritual vazio.
A ritualidade é inerente à condição humana, religiosa ou não. A liturgia é uma antropologia para Deus e uma teologia para os seres humanos. Para os cristãos, o conjunto das acções rituais é a mediação da graça de Deus a nível cognitivo, emocional e estético.
Uma missa que só investe na homilia é apenas instrução, a escorregar para o moralismo; se apenas procura emoções, assim como aquece, arrefece; se é só estética, torna-se arte pela arte.
A liturgia é convocatória de todas as artes para que a vida seja bela.

[1] Bernardino Ferreira da Costa, osb Movimento Litúrgico em Portugal, Ora & Labora, Singeverga 2009

Frei Bento Domingues, o. p.
     in Público

01 dezembro 2012

DEVOCIONARIO


COMPENDIO DE ORAÇÕES
-- E --
PRATICAS PIEDOSAS
Dedicado á Juventude Catholica
Pela empresa editora do Bem Publico
Typographia de Germano da Silva
Rua da Padaria, 48 – Lisboa


Approvação Ecclesiastica
Conformando-Nos com o parecer de pessoa competente, a quem cometemos o exame do opusculo que tem por titulo «Devocionario»; e considerando que a recitação de orações n’elle collegidas muito póde concorrer para alimentar e afervorar a piedade nos fieis: Havemos por bem conceder a Nossa aprovação ao referido «Devocionario».
Paço de S. Vicente de Fóra, 4 de Abril de 1909

António, Patriarcha de Lisboa

Explicação dos mysterios da missa
Quando o sacerdote sae da sacristia revestido, representa Christo quando saiu do ventre virginal de Nossa Senhora ao mundo, e quando subiu ao monte Calvario a obrar os mysterios da nossa redempção.
A corôa na cabeça representa a de espinhos, que por escarnio puzeram ao Senhor.
O amícto significa o véo com que os soldados lhe vendaram os olhos.
A alva significa a vestidura branca, que por escarneo mandou pôr Herodes ao Senhor.
O cordão significa a corda com que ataram o Senhor, quando O prenderam e levaram preso a Jerusalem, com que o amarraram á columna, e os açoutes que lhe deram.
O manipulo significa o cordel xom que ataram as mãos ao Senhor.
A estola significa a corda que lançaram ao seu santo pescoço quando lhe puzeram a cruz ás costas.
A casula significa a túnica de que despiram o Senhor para o crucificarem, e a purpura que por escarneo lhe puzeram os soldados.
O sebasto da casula (que em França, com muita propriedade, forma uma cruz) significa a cruz que o salvador levou ás costas
O templo significa a Igreja catholica, e a congregação dos fieis em Jesus Christo.
O altar e a pedro d’ara quadrada significam a cruz em que o Senhor morreu.
A cruz que se põe sobre o ltar significa a Christo crucificado.
Os corporaes, pala e toalha do altar significam o sudário em que o Senhor foi amortalhado.
O cálix significa o sepulcro .
A patena significa a lousa com que se encerrou o sepulcro .
Infelizmente, o opúsculo estava ratado e daí que A hostia e o a o vinho significam não sabemos o quê.

Esta é uma proposta que aconselho a quem desejar uma introdução ao futuro da restauração do passado litúrgico que tantas saudades desperta em quem a não conheceu, por indução de quem não sabia nada e nada aprendeu.
Eu fiquei passado com tanta sabedoria

Frei Bento Domingues, O.P.
1 de Dezembro
Nota: Conservei a grafia de 1909

25 novembro 2012

COMBATE À RECESSÃO LITÚRGICA (I)

      
1. Terei de continuar a viver sem as máquinas superinteligentes, prometidas para 2030, dotadas de consciência reflexiva, multiplicadoras do eu pessoal, tantas vezes quantas se desejar e com a imortalidade à vista. É possível que venham a resolver, de forma científica e técnica, todas as questões existenciais, imanentes ou transcendentes, sem restos das ingenuidades do passado. Alguns perguntam com malícias tradicionais o que será namorar e casar com um computador, pedir-lhe para procurar saber se Deus existe ou não, se haverá vida (e que vida) depois da morte, se a oração e as liturgias religiosas terão algum sentido.
Esse género de perguntas pertence a ignorantes do admirável mundo novo inscrito na dinâmica das novas tecnologias que dispensa tanto as velhas utopias humanistas como o património artístico e religioso dos nossos antepassados. Essas máquinas prodigiosas vão superar os voos poéticos do velho Apocalipse: vi então um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra foram-se e o mar já não existe. Nunca mais haverá dor, lágrimas, morte, luto, clamor. As coisas antigas desapareceram. Não haverá mais noite e o sol também não será preciso. Vou fazer novas todas as coisas (Ap. 21-22). 
Este Livro prodigioso parece que servia de encorajamento às igrejas cristãs perseguidas. A desgraça não tem de ser eterna, eterno é o misterioso Deus de Amor. Quando não se sabe nada do futuro, ou se aposta em cálculos que saem sempre errados ou resta-nos a imaginação delirante. Quando é poética, não se lhe pedem responsabilidades. É verdadeira por ser como é. Quando pretende ser científica, tecnicamente garantida, é preciso esperar para ver e não sobra tempo para tanto.
2. É próprio da celebração litúrgica enraizar-se no passado, transformar o presente e abrir o futuro das comunidades cristãs. A encenação litúrgica, como teofania e antropologia, ou vive da convocação musical de todas as artes ou não consegue reunir o céu e a terra na regeneração transfiguradora do ser humano. É na luz da palavra poética e na energia da acção simbólica do agir ritual que acontece a graça de Deus. Quando a celebração se degrada, fica o ritualismo vazio e o fastio litúrgico. Quando a prática religiosa deixa de ser considerada uma obrigação, sob pena de pecado mortal e suas consequências, já nada consegue vencer o aborrecimento, a prática religiosa entra em crise, surge o abandono, a recessão litúrgica. Não se vence com a obsessão ritual. Seria procurar a cura na doença. 
Outro foi o caminho escolhido pela Faculdade de Teologia da UCP e o Patriarcado de Lisboa, que organizaram as jornadas Liturgia, Arte e Arquitectura nos 50 anos do Concílio do Vaticano II, a 15 e 16 deste mês. O tema é abrangente e com razão, pois a liturgia exige o contributo de todas as artes da palavra e da encenação ritual, num tempo e num lugar concreto, como celebração de uma comunidade. Não se trata de preservar o património religioso nem de encenação de espectáculos. O ponto de partida não pode ser um desígnio abstracto de construção de uma comunidade com gente sem história, sem desejos e sem projectos. É preciso partir de grupos de pessoas cristãs, em processo de conversão, com proveniências diferenciadas, que vão adquirindo consciência de que são elas a Igreja em construção.
O primeiro alicerce é o da escuta recíproca. A primeira qualidade do ministro ordenado, para ajudar a comunidade, é a capacidade de escutar e promover as formas várias de encontro entre todos os membros desse corpo. A pressa e o adiamento das decisões não ajudam esse processo vital. É a partir daqui que tem sentido pensar no espaço, na arquitectura e nas artes da celebração da comunidade. Pensar e projectar, com a participação de todos, não atrasa a obra porque esse processo já está a construir o mais importante. Não é tempo perdido.
3. Poder-se-á objectar que um método desses vai dificultar a renovação litúrgica, a participação criativa de artistas, arquitectos e músicos.
Isso só pode acontecer quando se procura espaço para a igreja sem haver Igreja. É na construção de uma comunidade plural, culturalmente marcada, que, de forma dialogada, se podem manifestar as formas artísticas em que ela se reconheça, sabendo que pertence a várias gerações.
Dito isto, a pertinência da temática do encontro não podia ser mais ajustada. A cinquenta anos do Vaticano II, já é possível avaliar a importância da reforma proposta pelo Concílio, tendo em conta a sua preparação, mediante o movimento litúrgico de vários países e tendências, ao longo dos anos.
Continuaremos no próximo Domingo.

Frei Bento Domingues, o.p.

in Público