20 janeiro 2013

ANO DA FÉ. UM DECRETO, PARA QUÊ? (2)

1. Em 1953, numa curta viagem de camioneta, sentou-se, ao meu lado, um padre de outra congregação religiosa. Sobre as características e as imagens de marca das invocadas na conversa, adiantou: “em humildade ninguém nos supera”. Não estava a fazer humor. Fiquei tão alérgico ao elogio da humildade como às disputas entre arrogantes. Nada, no entanto, mais inspirador do que uma pessoa humilde.
Esteve, em Portugal, Frei Bruno Cadoré. Nasceu em 1954, formou-se em medicina, entrou nos Dominicanos, foi director do Centro de Ética Médica do Instituto Católico de Lille e, depois de ter sido Provincial em França, foi eleito, em 2010, Mestre Geral da Ordem.
Não interessa explicitar aqui o que foi o seu brilhante e inspirador percurso profissional e dominicano, pois ele próprio nunca se lhe refere. É como se não tivesse existido.
Veio para visitar a família dominicana portuguesa, na diversidade dos seus ramos e revelou um estilo que não é muito habitual nos eclesiásticos.  
Na primeira reunião com a comunidade a que pertenço, procurou ouvir-nos acerca da situação da Igreja em Portugal, da Diocese em que estamos inseridos, do papel das ordens e congregações religiosas, masculinas e femininas, segundo o carisma de cada uma. Passou, depois, ao encontro fraterno, com cada um, individualmente, não para falar, mas para escutar. Durante meia hora ouviu-me, sem dizer uma palavra, despediu-se, sem me fazer qualquer recomendação. É evidente que debateu, com os órgãos das instituições da Província Dominicana Portuguesa, as questões com que ela está confrontada. Fez, também, a visita às monjas dominicanas, fundadas, no século XIII, por S. Domingos. Ainda antes do ramo masculino, eram elas a Santa Pregação. Encontrou-se também com as outras religiosas e com os leigos dominicanos.
Se Cristo veio, não para condenar, mas para manifestar o amor de Deus pelo mundo, como se poderá chamar evangelização, nova ou antiga, às obras, palavras e atitudes que não sejam escuta humilde dessa amizade divina?
O método de Frei Bruno - muito ouvir antes de falar - foi praticado e exposto na Paróquia de S. Domingos de Benfica, ao apresentar a tradução da obra clássica sobre A Pregação, de Humberto de Romans, e as Actas do Colóquio sobre a Restauração da Província Dominicana em Portugal.
2. É antiga a convicção de que o silêncio é o pai dos Pregadores e que a graça da pregação é secundada pelo estudo e pela contemplação. A fórmula dominicana foi cunhada muito cedo e já fazia parte do ensino de Tomás de Aquino: contemplar e dar testemunho da realidade contemplada. Era, desde a antiguidade, conhecida e exaltada a superioridade da vida contemplativa em relação à vida activa. Em benefício da sua própria causa, o santo doutor observou: a vida activa, que nasce da abundância da contemplação, vale mais do que a pura contemplação. Iluminar é melhor do que ser, apenas, luz. Foi este, aliás, o estilo da vida escolhida por Jesus.
A resposta é brilhante. Na prática, continuava a rivalidade entre o tempo consagrado ao principal e o tempo gasto com realidades temporais, inferiores. O tempo gasto na actividade esvaziava os ganhos da contemplação. A oração de S. Domingos, testemunhada pelos seus contemporâneos, estava sempre povoada pelas alegrias e tristezas do quotidiano. O trabalho apostólico não o dispersava nem o esvaziava.
Na sua conferência, Frei Bruno Cadoré saltou fora do esquema de falsas oposições. A fonte e o alimento da contemplação não se restringem ao quadro conventual ou às celebrações litúrgicas. A Igreja - e nela o dominicano -, não se pode apresentar ao povo cristão, aos membros das outras religiões, aos agnósticos e aos ateus como quem está na posse da verdade, dos bons princípios, dos bons caminhos e das boas soluções. Essa arrogância impede o caminho humilde da escuta, do estudo e do diálogo com todos os mundos em que se encontra, ou aos quais se dirige: a bondade e a verdade, servidas ou traídas, estão disseminadas em todos os estilos de vida e em todas as dimensões da existência. A Igreja, sem crescer e amadurecer nesse convívio, não pode partilhar nada, está fora de jogo. Esquece que Deus se insinua, de muitos modos, na vida das pessoas, expressa na diversidade de problemáticas e linguagens das sociedades, nas suas diferentes épocas e culturas. Os processos não são lineares e nunca nada está garantido.  
3. Em vários países, sob o ponto de vista cristão, o século XX foi prodigiosamente fecundo, apesar de duas guerras mundiais. Basta pensar nos movimentos bíblico, litúrgico, missionário, ecuménico, social, na redescoberta da teologia patrística e medieval, nos novos modelos e paradigmas de teologia - das realidades terrestres, do trabalho, da matéria, da evolução, da conjugalidade -, assim como nas formas de evangelização da pura presença, nos meios mais afastados das instituições da Igreja. Foi uma história exaltante de muitas esperanças e desilusões continuadas, pela repressão que se abateu sobre vários destes movimentos.
O Vaticano II, iniciativa de um papa que tinha os olhos postos no mundo em transformação e no aggiornamento da Igreja, recuperou e alargou a geografia da esperança.
Como e porquê se perdeu este impulso?

Frei Bento Domingues. o.p.
in Público

17 janeiro 2013

Depressão geral

Quando quase tudo corre mal, no país e no mundo, com a crise económica a acentuar-se, o sistema financeiro que se esboroa, o desemprego a crescer, os jovens a dependerem das famílias porque não há primeiros empregos e, ou ficam a arrastarem-se por cá ou vão procurar trabalho noutras terras… Os impostos a subirem e as prestações sociais a serem cada vez mais instáveis, perguntamo-nos se aquilo que tomamos como adquirido, direitos conquistados, são alguma coisa de estável em que vale a pena apostar ou confiar.
O pessimismo tomou conta de nós, deixamos de esperar “os amanhãs que cantam”, com um final feliz para o sentido da História e, acabrunhados já esperamos ouvir cada dia piores notícias do que na véspera porque pressentimos que o futuro não trará nada de bom.
A confiança de que há progresso na História humana, que esse progresso é bom para a humanidade e para o planeta num ecossistema coerente, deixou de existir. Esperamos a implosão do planeta, o degelo das calotes polares, uma seca persistente como horizonte de fatalidade se continuarmos neste estilo de desenvolvimento predador da maior parte dos recursos disponíveis de que só uma pequena minoria da humanidade beneficia enquanto a maioria vive das migalhas do banquete dos ricos.
Ora este cenário é sem dúvida uma bomba relógio para manifestações de violência entre povos, entre religiões, entre culturas. As raízes do terrorismo e dos vários fundamentalismos penetram neste ambiente de injustiça global para o qual nenhuma ideologia ou sistema político encontrou solução. A democracia, na sua frágil ambição de concertar diferentes perspetivas num debate alargado que se legitima em processos eleitorais, fica ameaçada de colapso face à possível emergência de soluções “messiânicas” que suspendem a liberdade nas suas diversas modalidades e se ancoram na necessidade subjectiva de segurança e estabilidade que tanto os indivíduos como os povos anseiam.
Em Portugal temos o velho mito do Sebastianismo, no qual delegámos ao longo da História a esperança que alguém vai aparecer como salvador da Pátria e dar um rumo ao desnorte que nos aflige. Durante as últimas décadas esperamos que a CEE, depois EU, nos ajudasse. Agora perdemos as ilusões; o sistema comunitário tem o nome simpático de “comunidade” e de “união” mas na realidade o seu funcionamento não é igualitário. A moeda comum, serve  como traço de união, mas o que um cidadão alemão compra com 100€ é bem diferente do que o que um português pode comprar. O salário mínimo em cada um dos países tem diferenças verdadeiramente chocantes. O fosso entre ricos e pobres, entre trabalhadores e desempregados, entre jovens e idosos, é cada vez mais acentuado. As nossas sociedades ocidentais (des) gastaram os valores da Revolução Francesa, temos pouca igualdade, liberdade e fraternidade, e o Estado Providência, protector e seguro, é quase apenas uma recordação do século XX.
Que fazer perante uma situação que se configura como um beco sem saída? As soluções ensaiadas historicamente já não são aplicáveis, austeridade a todo o custo asfixia a economia, o pano está velho é escusado remendá-lo e colocar-lhe novos bocados. O tecido rasga-se! Neste caso saltamos da metáfora têxtil, ainda que evangélica, para o tecido social que nos envolve.
Já ouvi gente dizer que, perante a falta de perspetivas de uma velhice confortável, com uma pensão de reforma decente, preferia ter um ataque cardíaco já, o que lhe pouparia muitos aborrecimentos e seria muito mais barato para o sistema da segurança social, contrariando a taxa de longevidade crescente.
Não está na tradição cristã o suicídio, pelo que provavelmente este desabafo é um desejo indireto de pedir a Deus o encurtamento da vida e uma boa e rápida morte. Morrer na paz de Deus e “deixar de ter chatices”! Parece uma saída airosa…
Só que Deus não costuma atender a estes pedidos de fuga ao mundo e à sua complexidade. Deixa-nos a responsabilidade de arranjar o pão nosso de cada dia, para nós e para os irmãos.
Suspeito que uma versão pouco ortodoxa do Purgatório seja isso mesmo, assumir as “chatices da vida” que não são vividas post mortem mas sim no dia-a-dia de qualquer ser humano que se preocupa minimamente com o estado a que chegámos como humanidade e com as pessoas concretas que mais sofrem, na certeza do desejo de fraternidade de sermos filhos de Deus.
Cabe-nos pois manter a chama viva e confiar, como diz o povo, que “Deus não dorme!”…Nós é que estamos a viver uma espécie de pesadelo e que já é tempo de começarmos a acordar.
Como o Império Romano se desmoronou face às invasões bárbaras, num processo lento e inexorável, assim o nosso modelo de desenvolvimento sobre o qual depositámos as nossas expectativas, se degrada e afunda no abismo…
Confiar que podemos fazer mais e melhor e que, se a Criação nos foi confiada, temos que ser capazes de encontrar soluções, de inovar, sem medo das mudanças necessárias. Claro que isto é provavelmente um pio desabafo, mas alguém tem melhor solução? É que realmente todos precisam do pão nosso de cada dia!
Se acreditarmos que o Espírito sopra onde quer, teremos a certeza de que não estamos abandonados e procuraremos os sinais da Sua presença entre nós. O Reino é uma promessa mas já está entre nós. Por vezes a nossa depressão coletiva impede-nos de olhar e ver as sementes de um mundo novo que nasce penosamente do velho que está a cair aos bocados.
Confiar e estarmos atentos para resolver os problemas de cada dia é a chave de leitura do difícil presente em que estamos mergulhados e ao qual não adianta tentar escapar.
“Ajuda-te que Deus te ajudará,” resume esta atitude em termos de sabedoria popular. Tirando a dimensão individual do provérbio e colocando o acento no Próximo, saberemos então procurar uma saída que não seja embater teimosamente no beco onde nos encontramos.

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13 janeiro 2013

ANO DA FÉ. UM DECRETO, PARA QUÊ? (1)

1. Enquanto não chegar o fim do mundo, depois de um ano, há sempre outro. Para não o enfrentar como uma aposta no vazio, é corrente consagrá-lo a um desejo, em forma de projecto. Diz-se que, perante a crise que atravessa o país, na conjuntura internacional em que temos de nos mover, é difícil configurar um caminho, com previsões que não se confundam com adivinhas ao sabor dos palpites de optimistas ou pessimistas e segundo os interesses que cada um tenta defender.
A verdade é que uns já decretaram que Portugal não tem solução, nem dentro nem fora do Euro e que o melhor é a liquidação total, a preço de saldo. A própria ideia de país independente seria uma ficção e neste tempo, comandado pela transformação e globalização dos negócios, é uma crença ridícula. Outros continuam a falar da urgência de uma política patriótica, quando a pátria de cada um é aquela para onde se consegue imigrar. Seja como for, os velhos vão continuar a morrer e se os nascimentos continuarem a diminuir, a sorte do país é previsível. Não será preciso dar-se ao trabalho de “repensar Portugal”, como desejava o Pe. Manuel Antunes.
 Diz-se isto como se poderia dizer outra coisa qualquer. Quando tudo passou para a ordem do inevitável, já nada tem sentido. O próprio sofrimento das vítimas da história da crise não conta para nada.
       A incapacidade de questionar, em profundidade, esta versão trituradora da máquina capitalista é a vergonha do nosso tempo. O Papa relembrou-o, muito recentemente, mas os economistas, os gestores, os banqueiros, os ministros que se confessam cristãos preferem espiritualidades de chá de tília religiosa, a ouvir o clamor dos pobres e dos empobrecidos e questionar teorias que mostram a sua inadequação, pelos frutos que produzem. As teorias são para os seres humanos, não estes para teorias, onde as pessoas estão sempre a mais.
       2. As interrogações são inevitáveis: tanta ciência económica e financeira, ensinada nas Universidades Católicas, não será capaz de imaginar contributos para alternativas concretas, técnica e politicamente viáveis? A Banca é para salvar as pessoas ou serão estas, as exploradas, que devem salvar os interesses da Banca, mediante decisões governamentais? Não será possível desconstruir configurações políticas que, nos seus efeitos, resultam em grandes negócios para uns e em castigo para a maioria da população? Estaremos numa civilização esgotada a transitar de continente para continente, enquanto sistema de exploração, sem tentar curar as suas raízes?
 Os chamados regimes democráticos fazem tudo para não se distinguirem das ditaduras. O fascínio pela China é interessante.
Com isto tudo, não creio que se possam extrair dos Evangelhos ciências ou políticas confessionais, em concorrência com ciências e políticas laicas, nem aceito que se diga que quanta mais ciências menos religião. Há grandes cientistas e políticos crentes, agnósticos e ateus.
Francisco José Ayala, um dos maiores representantes do neo-darwinismo, tem uma posição que me parece muito sensata: não vejo razão para pensar que as descobertas científicas sejam incompatíveis com a fé religiosa. A ciência procura descobrir e explicar os processos da natureza: o movimento dos planetas, a composição da matéria e do espaço, a origem e a função dos organismos. A religião trata do significado e propósito do universo e da vida, das relações apropriadas entre os humanos e o seu Criador, dos valores morais que inspiram e guiam a vida humana. A ciência nada tem a dizer sobre estas matérias, nem é assunto da religião dar explicações científicas, para os fenómenos que têm lugar na natureza.
3. Daqui não se pode concluir que os cristãos possam ser indiferentes ao que se passa na sociedade. Não dispõem de uma mensagem, descida do céu, para os levar para o céu, sem se importarem com o que se passa na terra. Se a Bíblia fosse, apenas, revelação divina escrita por autores inspirados, não teria de dar contas de nada nem a ninguém, era puro ditado sobrenatural. Esta é a posição do fundamentalismo mais ignorante. Nessa perspectiva, a Bíblia poderia ser decorada, mas nunca estudada. Não é esse o pensamento católico actual. O documento A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993) liberta a investigação de qualquer constrangimento. A Bíblia não remete para si mesma: aponta para o mistério de Deus e para o mistério do mundo. Deus não estava calado antes da Bíblia, nem emudeceu depois do último parágrafo da Sagrada Escritura. É preciso aprender a escutá-lo na experiência de cada um, nos acontecimentos da sociedade e em todas as tentativas para decifrar o sentido da vida.
Logo após o Vaticano II, E. Shillebeeckx, para lhe ser fiel, desenvolveu a perspectiva do mundo como “lugar teológico”: a história humana, em todas as suas manifestações, é o espaço e o tempo da contínua revelação de Deus, acolhida ou traída, a decifrar em cada conjuntura cultural.
O Ano da Fé não foi decretado para dizer que a Igreja tem a resposta pronta para tudo. É porque a não tem que, na humildade, tem de partir para a escuta de todos os mundos. Quais serão esses mundos?
Frei Bento Domingues, O.P.
         in Público

06 janeiro 2013

PRESÉPIO ABERTO

1. A imagem “presépio aberto” começa por ser enigmática, vai-se tornando sugestiva e acaba por ser mais pertinente e fecunda do que outra muito publicitada, “pátio dos gentios”. Tem especiais virtualidades para sugerir o espírito e o alcance deste domingo da Epifania.
Foi colhida por Agustina Bessa-Luís numa carta do grande romancista judeu, Franz Kafka (1883-1924), dirigida à sua irmã, a propósito das dificuldades que ela sentia com um filho de 10 anos.
Agustina recriou essa imagem numa conferência, no Goethe Institut do Porto, saltando fora das habituais preferências temáticas sobre a obra do grande escritor de Praga, “apresentando-o como um investigador prodigioso dos problemas da educação.
Agustina destaca algo que poderia passar por uma banalidade sociológica: Kafka faz notar à sua irmã a diferença entre o equilíbrio familiar de pobres e de abastados. O mundo e a vida de trabalho estão presentes na casa do pobre e a atmosfera tóxica da pressão familiar não se produz. A criança do pobre é uma parte do mundo e como tal reconhecida. Não digo reconhecida como privilegiada, mas como igual na partilha dos sofrimentos e dos prazeres. Kafka dá como exemplo o nascimento de Cristo num presépio aberto onde o mundo é imediatamente presente na figura dos Reis Magos e dos pastores, enquanto o quadro familiar fechado do Homem afortunado tende para o desequilíbrio do próprio amor.
Pode-se estranhar que seja um judeu a recomendar esta imagem. De facto, o próprio Kafka e a sua obra são um presépio aberto, um facto messiânico de nascimento em que o mundo está presente: todos nós o podemos abordar, visitar, amar.
A banalização ou a ocultação dos presépios escondem as teologias das construções literárias do presépio dos evangelhos de S. Mateus e de S. Lucas. Reflectem, ambos, um debate interno ao próprio judaísmo. As primeiras gerações dos discípulos de Jesus eram formadas por mulheres e homens judeus que desejavam abrir por dentro o próprio judaísmo. O presépio reflecte o que se passou na vida adulta de Jesus e na construção das comunidades com a presença do mundo pagão.
Jesus não nasce na cidade de Jerusalém, centro do poder político e religioso. Os pastores representam, precisamente, os que não frequentavam o culto oficial e são os primeiros a chegar ao presépio. Os Magos passam por Jerusalém, mas não ficam lá. A estrela desloca-os para a periferia, significando que se trata não de um fenómeno astronómico, mas teológico. Se os judeus da religião ortodoxa não reconhecem Jesus, os Magos, pagãos, procuram-no. Jesus, com Maria e José, depois da viagem pelo Egipto não vão morar no templo. Vão trabalhar para Nazaré, no meio de toda a gente. O presépio realiza, em miniatura, o que foi a revelação de Jesus na sua vida adulta: Deus anda à solta e faz a sua morada, o seu templo, onde menos se espera e faz família com quem não é da família.
2. Quando todas as indicações levavam a crer que em 2012 continuariam os artifícios de esquecimento do Vaticano II, realizado há cinquenta anos, pequenas iniciativas foram capazes de desencadear um movimento não apenas de recuperação da memória, mas esboçar um confronto com as questões actuais das igrejas, das religiões, do ateísmo, do mundo e tornar urgente a reconfiguração do futuro, num universo cada vez mais globalizado.
Não se esqueça que L’ Osservatore Romano, no dia seguinte ao anúncio do Concílio, feito por João XXIII, ocultou essa notícia, a mais importante no campo religioso do século XX e quando já ocupava a primeira página da imprensa mundial. Foi um boicote falhado, mas indicava que o presépio do mundo em mudança, com as suas alegrias e tristezas, não fazia parte da Cúria Vaticana.
Foi a paciência e a constância do santo João XXIII que conseguiu alterar esse clima para que a palavra aggiornamento fosse compreendida como a palavra de ordem da missão da Igreja nas sociedades contemporâneas, trabalhando na destruição dos muros que obrigavam sempre a pensar nos outros como inimigos, como incapazes de mudar.
Dir-se-á que não resolveu tudo, que apesar do trabalho dos padres conciliares ficou muita coisa adiada e que outros tentaram esquecer, desvirtuar e desfazer. A história humana da fé é de pequenos passos, não é uma viagem de TGV.
3. A imagem de presépio aberto, não se deve confundir com um presépio fixo, com aberturas de entrada e saída, para receber visitas. O presépio, apontado pelas figuras tradicionais, é feito por todos os que procuram a paz, baseada na verdade, na liberdade, no amor e na justiça, como lembrou João XXIII, há cinquenta anos, na Pacem in Terris.
Bento XVI diz o que é preciso recusar: a mentalidade subjacente ao capitalismo financeiro desregrado; as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia; a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Falta-nos construir o presépio de Cristo no qual todos os seres humanos, na diversidade de todos os povos, culturas e religiões possam dizer: somos um só mundo.

Frei Bento Domingues, O.P.
in Público

01 janeiro 2013

BOM E MAU DESASSOSSEGO

1. Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, é um dos heterónimos criados por Fernando Pessoa. Compôs o Livro do Desassossego, a sua cobardia: Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação da vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia.
A vida é um desassossego, também, por uma boa razão. É muito desagradável olhar para alguém muito satisfeito com ele próprio e com a sua obra. Fica-se com a impressão de que já morreu e finge que está vivo. O desassossego significa que uma pessoa ainda não está acabada, ainda tem futuro, está a fazer-se. Uma Igreja sossegada, convencida de que é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, precisaria de alguém que lhe lembrasse que parou antes de tempo.
Reuniu-se, no ano passado, em Sínodo, para abordar a temática da Nova Evangelização. Não faltou quem dissesse que foi quase um Concílio. Foram abordadas algumas questões importantes, mas não sabemos o que daí vai resultar. Essa, porém, não é a questão mais importante. Sínodo ou Concílio é uma reunião de delegados que não receberam delegação da Igreja, do conjunto dos católicos. Ficar-se sossegado com este método é adiar uma reforma urgente, por mais desassossego que provoque no mundo católico. Quando, no Sínodo, se afirmou que é preciso mudar a situação das mulheres na Igreja, alguém perguntou o que pensam elas, de forma verdadeiramente representativa, do estatuto que lhes é reconhecido ou negado? Quanto à situação eclesial dos divorciados casados em segundas núpcias, considerá-los simplesmente como pecadores - e que, por isso, não podem comungar -, ou dizer que não se trata propriamente de pecado, mas de uma situação incompatível com a nova aliança significada na Eucaristia, não se toca na pergunta essencial: Que pensam os divorciados recasados do estatuto que lhes é atribuído? Será que o verdadeiro sentido da Fé (sensus fidei) se tornou um exclusivo da hierarquia? Não pertence ele ao NÓS - sujeito de toda a Igreja - e que a expressão Nós Somos Igreja reproduz com exactidão?
2. Dadas as conquistas sociais, culturais e políticas que as mulheres já conseguiram, diferenciadas segundo os países e continentes, existe a tentação de não olhar de frente os crimes que continuam a cometer-se contra a parte maior da humanidade. Direitos e deveres implicam igualdade social de mulheres e homens. A hierarquia católica e as autoridades de outras confissões religiosas não podem reclamar essa igualdade na sociedade civil e negá-la no campo religioso, incapacitando-as de se tornarem as grandes impulsionadoras, a nível local e mundial, de mudanças inadiáveis.
Não se pode dizer que os crimes contra as Mulheres – violência física, psicológica e social, tráfego de mulheres, comércio de prostituição – não suscitem movimentos de indignação e de intervenção. Os níveis de conscientização dos direitos das Mulheres cresceram um pouco por toda a parte, resultado das suas lutas. Quando se olha, porém, para casos como os que a imprensa relata todos os dias – muito poucos em comparação com o que realmente se passa – e dos acontecimentos monstruosos como os que, ultimamente, ocorreram na Índia e não só, podemo-nos aperceber do que falta fazer. Quase tudo.
Quando surgem pedidos de abaixo assinados, quando as organizações de mulheres intervêm publicamente, solicitando adesões e divulgação, os homens não podem reagir como se fossem “questões de género”. São questões do género humano, questões de mulheres e de homens, seja qual fôr o credo religioso, cultural ou político.
As representações da boa relação entre homens e mulheres aprendem-se no berço, na escola, no namoro, na conjugalidade e até à morte. É a vida concreta, em todas as idades e situações, que se deve tornar o caminho de relações de mútua ajuda, libertas e libertadoras.
Desassossegar a situação actual é o melhor caminho para o bom sossego no futuro. Que 2013 nos dê uma paz desassossegada.
Frei Bento Domingues, O.P.
1 de Janeiro de 2013

30 dezembro 2012

SERÁ JESUS CRISTO UMA CAUSA PERDIDA? (2)

1. Neste Natal, D. Manuel Martins voltou a mostrar que não está cego, nem surdo, nem mudo. Declarou, a vários órgãos de comunicação social, que os actuais governantes não estão à altura do momento. Constituem um executivo mal alinhavado. O resultado está à vista: grande parte da população foi lançada no escuro do desespero e vive dominada por mil ditaduras. Tem medo de hoje e de amanhã, de perder o trabalho, de não poder resolver os seus problemas e de ter de deixar a sua casa. Sente-se no fundo de um poço e sem dinheiro para a corda que a puxe para cima.
Este bispo não isolou a desorientação caseira do sistema predominante no Ocidente, “uma espécie de religião fundamentalista seguida pelos poderosos que passam a vida ajoelhados diante do lucro e do dinheiro” esperando alargar, cada vez mais, a sua dominação financeira, sem olhar para o que poderia ser o verdadeiro interesse público.
Nessas declarações, a Igreja Católica também não foi poupada: anda atrasada e, em Portugal, está a falhar metade da sua missão.
Nenhum católico está obrigado a concordar nem com o diagnóstico, nem com a terapêutica que D. Manuel Martins propõe para sairmos do buraco que, dia a dia, se apresenta mais fundo. Como poderia ele, no seu retiro de bispo aposentado, virar as costas ao clamor da “miséria imerecida” do povo português?
2. Começam, agora, as dificuldades para responder ao título desta crónica. Hoje, só um ignorante se atreveria a negar a existência histórica de Jesus de Nazaré. Só alguém muito inconsciente pode dizer que sabe não só por que lhe chamaram, e continuam a chamar, Cristo, Messias, Filho de Deus, Filho do Homem, mas, sobretudo, o que é que verdadeiramente isso significa de vital para o nosso dia-a-dia.
São muitos os testemunhos escritos que as primeiras comunidades de discípulas e discípulos de Cristo nos deixaram. Lendo, relendo e estudando-os, a impressão que nunca me abandona é esta: Jesus não cabe nos textos do Novo Testamento, nem nas fórmulas dogmáticas e cristologias elaboradas, ao longo de dois mil anos. Falam sempre de alguém que lhes escapa. Todas as narrativas e todo o jogo de títulos, disponíveis e imagináveis, que lhe são atribuídos, são sempre roupa muito curta para o vestir. Dá-me sempre vontade de rir quando me perguntam: mas ele era Deus? Respondo sempre, da forma mais ortodoxa: verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Fico aflito quando as pessoas sossegam com a resposta. Ninguém conhece o mistério absoluto que Deus é, nem o mistério que o ser humano é para si mesmo. A intervenção de Jesus não desfez o mistério, revelou a sua insondável profundidade.
3. Nos Actos dos Apóstolos, Pedro, chamado a explicar-se porque teimava em actuar em nome de Jesus Cristo Nazareno, teve uma resposta atrevida: “porque não há sob o Céu outro nome, dado aos seres humanos, pelo qual devemos ser salvos” (Act. 4, 12). Isto parece uma apologética barata e de mentalidade exclusivista: a verdade e o bem são propriedade nossa e só nossa. Se assim fosse, estaríamos no mercado da concorrência das religiões.
Nada disto tem a ver com o que, de facto, se passou com Jesus e por que motivo uma estranha coligação – dos chefes das nações pagãs e dos povos de Israel -, o levou à cruz.
Jesus não tinha trazido ao mundo nenhuma ciência, nem nenhuma técnica que pudessem ser reproduzidas para o progresso da humanidade. O seu contributo, nesse campo, é nulo. Então porque será que Pedro o tem por indispensável e insubstituível?
A intervenção e a palavra de Jesus estavam centradas em ajudar a descobrir o essencial: que haverá de mais humano em qualquer ser humano que ninguém tem direito de ofender, quer por razões do Céu, quer da Terra? Ele descobriu e denunciou dois poderes geradores de permanente dominação desumanizadora: a religião e o dinheiro. O seu combate às formas e preceitos mais sagrados da religião em que foi educado valeu-lhe uma desautorização completa. É pelo diabo, por Beelzebu, que ele faz até o bem que faz, pois se fosse um homem de Deus, guardava o Sábado, a instituição mais sagrada do seu povo (Mt. 12, 22-32).
Ninguém pode servir a Deus e ao Dinheiro. Esta sentença é muito repetida e esquecida. Já os fariseus, amigos do dinheiro, zombavam da incompetência financeira de Jesus (Lc. 16, 14).
É, no entanto, muito possível que o Nazareno continue a ter razão. Quem estiver possuído pela vontade de ter cada vez mais dinheiro, mais poder de dominação, quem se deixar possuir pelo lucro a qualquer preço, pelo perverso prazer de ter dinheiro, quem deixar que ele tome conta do seu coração, vive em suprema idolatria. O essencial do ser humano evaporou-se. A gratuidade do dom que Deus é e à imagem do qual o ser humano se realiza como humano, desapareceu do horizonte.
Não me parece nada que Jesus seja uma causa perdida. Penso o contrário. As civilizações humanas são feitas da construção de impérios de dominação e do estrondo da sua ruína. Quando se esquece que todas as ciências, técnicas e formas de desenvolvimento só valem na medida em que servem o que não tem preço, o que não é meio para algo mais valioso, perde-se o essencial.
Que poderemos dar em troca do ser humano?

Frei Bento Domingues, O.P.

Publicado no Público que, mais uma vez, deturpou esta crónica não incluindo a última frase    

23 dezembro 2012

SERÁ JESUS CRISTO UMA CAUSA PERDIDA? (1)

1. Em 1834, Gaia e Vila Nova juntaram-se. Em 1984 esta união passou a cidade. Porque tinha sido fronteira entre o estado árabe e o cristão, a partir do séc. VII D.C., agora diz-se, no humor da Ribeira portuense, que um “mouro” resolveu finalmente ultrapassar o rio, pois não se resigna a ficar para sempre apenas como ex-presidente do terceiro município mais populoso do país.
Antes ainda de ser vila e cidade, Gaia já estava coroada por um grande centro religioso, o Mosteiro agostinho da Serra do Pilar. Ir ao Porto e ignorar esta bendita serra, é como ir ao Rio de Janeiro e esquecer o que se vê do alto do Corcovado. Entretanto, em Portugal, a partir do séc. XIX, desenvolveu-se o fascínio militar pelo sagrado. Também este célebre mosteiro é agora uma caserna. Ainda assim, o belo edifício da antiga Igreja, de planta circular, reúne uma criativa, fervorosa e lúcida comunidade católica, não paroquial, que me acolheu num debate muito participado sobre o Concílio Vaticano II e numa admirável celebração litúrgica. É pena que esta comunidade disponha de espaços tão reduzidos para as iniciativas sociais que desenvolve, consequência de uma fé cristã empenhada na alegria dos mais carenciados.
Hoje, Vila Nova de Gaia já não é só o esplendor da vista sobre a foz do Douro, sobre as torres e telhados do Porto, ou a presença restaurada do Mosteiro de São Domingos das Donas, Corpus Christi, junto ao Cais e às memórias das caves do vinho mundialmente conhecido, assim como o novo passeio à beira rio e à beira mar que se prolonga até Espinho; é também a maior concentração de grandiosos supermercados e a nova capital da religião da prosperidade, o Cenáculo do Espírito Santo, da IURD, em construção avaliada no módico custo de doze milhões de euros (PUBLICO 17.12.12). Espero que o infigurável Espírito Santo não se esqueça das exigências da expressão humana da divina beleza.
2. Observam-me que se está apenas a retomar a velha e nova crença das religiões do Oriente e do Ocidente: se Deus é Deus, todos os gastos são poucos para afirmar a sua infinita grandeza. Quando a grandeza e a beleza dos templos é confrontada com a miséria das populações, aparece sempre alguém a dizer: os pobres morrem, a arte, mistério do tempo, fica para o futuro. Serão, muitas vezes, o único refúgio da vida alienada.
Parece evidente que a estética se consuma na beleza das formas, sem se importar com a vida concreta das pessoas. O equilíbrio entre a vida da arte e a arte da vida não parece inquietar ninguém, porque custa interrogar os poderes – económicos, políticos e religiosos - sobre a raíz dessas aparentes, e talvez falsas, incompatibilidades. Se a arte não tem, nem tem de ter, porquê nem para quê, a economia, a política e as religiões não se podem dissociar do bem comum das pessoas. Nenhuma mão invisível do egoísmo o pode guiar para o bem geral da sociedade.
Seja como for, grande parte do um património artístico é também um riquíssimo património religioso. É inevitável a pergunta: serão esses jogos simbólicos os mais adequados a exprimir a fé cristã e, sobretudo, a de quantos fizeram voto de pobreza voluntária, tornando-se disponíveis para lutarem contra a miséria e a humilhação impostas aos “sem vez nem voz”? Qual será a preferida morada de Deus, os templos da sua eleição? A conversa de Jesus com a maravilhada samaritana é incontornável (Jo 4, 21-24). Vejamos porquê.   
3. Jesus nasceu, segundo S. Lucas, numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala estalagem (Lc 2, 7). Nunca prometeu grandes luxos aos seus seguidores, com a desculpa de que, de seu, não tinha nem uma pedra onde reclinar a cabeça. Uma igreja “serva e pobre” será sempre um caminho pouco apetecível.
Jesus viveu em Nazaré onde trabalhou e passou a discípulo de João Baptista, por quem foi baptizado, como lembrei no passado domingo. O percurso do seu mestre desenvolveu-se à margem da religião do templo de Jerusalém. Embora tivesse grande admiração por ele, Jesus teve uma experiência espiritual que O levou a afastar-se de João e a seguir outro rumo. Jesus deu-se conta de que Deus não era uma ameaça, um deus da ira. Era, literalmente, uma bênção, uma declaração de amor incondicional, não só para ele próprio, mas para todas as pessoas do mundo, sem sair da sua terra. Só foi duas vezes ao estrangeiro.
Fazia parte de uma sociedade organizada com grupos e partidos política, religiosa e moralmente classificados.
O estatuto de subordinação total da mulher era imposto pelos homens. Tornaram-no tão detestável e arbitrário, que se compreende bem que agradecessem a Deus não terem nascido mulheres. A religião oficial era, aliás, um sistema de exclusão. Ao multiplicar as prescrições do que se devia fazer e evitar, em nome de Deus, a grande maioria não podia deixar de estar sempre em falta. Salvava-se a casta dos puros para apontar o dedo aos que eles classificavam como pecadores. A contínua acusação contra Jesus residia, precisamente, nisso: estar à mesa com pecadores e publicanos, isto é, estar em comunhão com os que, supostamente, Ele deveria excomungar.
Jesus não morreu de doença, de acidente ou de velho. Porque terá sido morto e continua vivo?
Bom Natal.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 23.12.2012