14 março 2013

Teologia

Continuando o texto do mês anterior sobre mulheres como Igreja e na Igreja - Por teologia entenda-se o estudo e o pensamento que se centra em Deus, na Sua essência, e na relação entre Deus, os seres humanos e toda a restante criação. Ora nenhuma corrente ou escola teológica séria pode, hoje em dia, argumentar que há uma diferença ontológica entre as mulheres e os homens. Somos, mulheres e homens, filhas e filhos e Deus, criados à sua imagem. São Tomás de Aquino, dando voz à tradição aristotélica, escreveu que as mulheres eram imperfeitas na sua natureza, apesar de terem acesso à graça de Deus. Quem é que hoje em dia propõe que as mulheres não são seres humanos em plenitude? Ou que existem imperfeições no processo de criação das mulheres? É, alias, na teologia que vamos encontrar o pleno valor da real igualdade dos seres humanos, seja qual for o sexo a que pertencem, para além de todas as outras diferenças que existem entre as pessoas. É esta uma consequência da fidelidade e obediência às leis de Deus, no campo ético e moral. As condições, os desafios e as exigências são precisamente iguais para ambos os sexos. Ambos são chamados à santidade, e ambos são capazes de pecar. Na teologia da salvação não se apresentam excepções nem desculpas pelo facto de se ter nascido mulher. O número de mulheres e homens teólogas/os que já produziram pensamento valioso acerca da igualdade fundamental de ambos os sexos é muito vasta e variada e pode ser estudada pelos que querem aprofundar os seus conhecimentos nesta área. Como escreveu Laure Aynard: ‘É imensa a perda de substância evangélica que pode ser atribuída à atitude patriarcal da Igreja instituição nos últimos 19 séculos.’[1]

Também Teresa Martinho Toldy,  teóloga feminista portuguesa conclui:
 ‘A Igreja é a comunidade da transmissão, na qual todos os crentes, mulheres e homens, têm lugar: a Palavra circula, actua, torna-se vida, quando é comunicada e recebida. Ela é a nossa herança – de todos: mulheres e homens – anúncio de um futuro que irrompe já no presente, que se torna força para a transformação do quotidiano, que denuncia todas as injustiças e rasga o horizonte para um mundo novo…[2]

O que se torna maravilhoso nesta caminhada teológica é a percepção de que não estamos a começar nada de novo mas antes a continuar as tarefas de tantas pessoas, silenciosas ou proclamadoras, que desde o nascimento do cristianismo, entraram no deserto à procura da Terra Prometida.

Ana Vicente
Março 2013


[1] Laure Aynard, La Bible au Féminin: de l’ancienne tradition à un christianisme hellénisé, Paris:  Cerf, 1990.
[2] Teresa Martinho Toldy, Deus e a Palavra de Deus na Teologia Feminista, Lisboa: Paulinas, 1998, p. 435.

10 março 2013

NÃO É A QUARESMA QUE CONTA, MAS A PÁSCOA

1. A religião é o mundo que toma a direcção de Deus; o cristianismo é Deus que toma a direcção do mundo. Os seres humanos que crêem Nele seguem a Sua direcção.
Esta é a posição do teólogo Urs von Balthazar. Parece-me justa, mas atrapalha a mística de olhos fechados, a preferida dos tempos que correm. Nesta quaresma, em Portugal, chegámos demasiado depressa às expressões de “sexta-feira santa”: em muitas cidades do país, saíram à rua multidões que já não podiam esconder mais uma imensa desilusão e enorme tristeza. Seria importante saber qual foi o impacto destes acontecimentos nas celebrações dominicais e nas vias-sacras, entretanto muito revalorizadas. Bento XVI, no passado dia 14, num encontro com o clero de Roma, ao recordar as descobertas e opções do Concílio Vaticano II, destacou a importância de se ter começado pela reforma litúrgica. O Mistério Pascal é o centro da vida e do tempo cristão, do tempo pascal e do domingo, dia da Ressurreição. Do encontro com o Ressuscitado saímos para o mundo. Neste sentido, é uma pena que, hoje, o domingo se tenha transformado em fim-de-semana, quando na verdade é o primeiro dia, é o dia do início.
Uma das perguntas inevitáveis é esta: para que mundo, nos envia a ressurreição dominical? Mas antes, quem é este nós?
J. Ratzinger, quando ainda era Papa, recordou que foi a redescoberta da teologia do Corpo Místico, (Mystici Corporis ) que fez crescer a fórmula: “Nós somos a Igreja, a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente isto é válido no sentido que o nós, o verdadeiro «nós» dos crentes, juntamente com o «Eu» de Cristo é a Igreja”.
Para que mundo nos envia esse “nós” que a Eucaristia dominical celebra? É o mundo a alterar durante a semana: na família, no trabalho, na escola, no desporto e no lazer, na solidariedade, no voluntariado, etc.. Com uma particularidade: levar estes celebrantes a ver o mundo a partir dos excluídos. Ir da periferia para o centro. Se começarem no centro, nunca mais chegam à periferia. Seja como fôr, foi o método seguido por Jesus. Estragou o sábado a muita gente.
2. Dada a situação do país, para além do imenso esforço de solidariedade das comunidades cristãs, é preciso uma grande convocatória em prol da justiça para que haja paz. Como disse Sto Agostinho, na “Cidade de Deus”: Eliminada a justiça, que são os Estados senão grandes salteadores?  
Para que não haja nem a tentação, nem a imagem de uma tentação, de que a Igreja quer mandar na sociedade ou no Estado, quer fazer política partidária ou formar um partido confessional, o caminho dessa convocatória deve envolver as paróquias, os movimentos, as congregações religiosas, padres e Bispos. Todos juntos teremos de responder à pergunta: se estamos no Ano da Fé para acolher o Vaticano II, que fazer para que o documento “A Igreja no mundo contemporâneo” se transforme no fermento das nossas igrejas locais perante os problemas sociais, económicos, financeiros, culturais em que nos encontramos?
O objectivo desta convocatória não é criar uma alternativa política, mas alterar a política, alterando a mente e o comportamento dos cristãos face às exigências do bem comum. Depois, é deixar a consciência de cada um em liberdade.
3. Jesus Cristo lembrou aos seus contemporâneos que, para aquilo que os interessava, sabiam ler os sinais do tempo: quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: vem chuva, e assim acontece. Quando sopra o vento do sul, dizeis: vai fazer calor, e isto sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e porque não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? (Lc 12, 54-59)
Um dos desafios importantes do Vaticano II foi, precisamente, este: as Igrejas devem capacitar-se para saberem ler os sinais dos tempos. Hoje, as sociedades dispõem de serviços meteorológicos com muitas e úteis funções: para viajar, para a agricultura, para prever alterações na natureza e nos cuidados a ter com o meio ambiente, para não sermos vítimas dos males que semeamos.  Existem, também, muitos centros de investigação da sociologia das religiões. Podemos conhecer o seu número, as características de cada uma, a sua geografia, se estão a crescer ou a diminuir, se são pacíficas ou agressivas.
Segundo a Fé cristã, e não só, em Deus vivemos, nos movemos e existimos. Não em regime de fuga do mundo, mas numa história em contínuas transformações que afectam não só a vida, mas a sua própria interpretação. Somos do Eterno no tempo e os tempos não são todos iguais, não têm todos as mesmas características. Os horizontes mentais vão sendo modificados por novas descobertas científicas, geográficas e culturais. Seja no plano religioso, seja na vida profana, é inevitável a pergunta que a encarnação da fé cristã levanta: no seio das realidades terrestres em que passamos a maior parte do nosso tempo, que sentido têm as nossas actividades, para a construção o reino de Deus?
A teologia dos sinais dos tempos exige esta investigação.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público

08 março 2013

Mais um 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres

"Dantes era pior, tens de admitir." Ao aproximar-se mais um 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, continuamos a ouvir esta frase ou variantes da mesma, dita por mulheres ou homens. Respondo que essa mesma frase podia ser dita nos anos que se seguiram ao alargamento do sufrágio às mulheres. Seria igualmente verdadeira. Seria igualmente insatisfatória. O objectivo da igualdade de género está longe de ser alcançado.

Em todo o mundo, e em Portugal quase semanalmente, maridos/amantes/namorados despeitados continuam a matar as mulheres que fingiram amar, porque elas ousaram pôr fim à relação ou porque não cozinharam o jantar a tempo e horas (foram 33 em 2012). A violação de mulheres e meninas transformou-se numa arma de guerra, num acto de formação para o negócio da prostituição ou simplesmente o direito ao uso de uma vagina, que não está lá para outro fim.

Observa-se um noticiário televisivo e constata-se que na União Europeia - apesar de tudo, e de longe, a zona do mundo onde melhor se respeitam os direitos humanos, quer das mulheres quer dos homens -, como em todas as zonas do mundo, com algumas raras excepções, o poder político e económico se encontra cansantivamente concentrado em mãos masculinas em percentagens assustadoras, e com os resultados nada brilhantes com os quais convivemos diariamente. Alegro-me com a lei da paridade que existe em Portugal, mas então porquê só duas mulheres ministras?

Os meios de comunicação social, cujos conteúdos já são, muitas vezes, construídos por mãos femininas, dão, insistentemente, espaço e voz a sábios quase exclusivamente do sexo masculino, que sobre tudo se pronunciam e sobre tudo são especialistas. Foi necessário aparecer um "falso" para se constatar que, afinal, emitia opiniões semelhantes aos outros. Há mesmo jornais e revistas onde não é possível encontrar mulheres colunistas - não se apercebem as/os decisoras/es do absurdo da situação? Saberão que em Portugal, a maior parte dos licenciados e dos doutorados são mulheres? Que a maioria dos desempregados são homens?

Tal acontece num programa tão simbólico como é o Prós e Contras, onde Fátima Campos Ferreira admitiu, recentemente, que a ausência de mulheres estava a ser criticada, defendendo-se com o facto de muitas recusarem os convites. Uma razão que com vontade e persistência se ultrapassa facilmente. O suplemento do PÚBLICO, o Inimigo Público, é frequentemente atravessado por um discurso antifeminista primário - já não é aceitável fazer piadas racistas mas as sexistas, venham elas.

Mas é indiscutivelmente na área religiosa onde o estatuto minoritário atribuído às mulheres se torna mais chocante. Até porque os valores éticos comuns a todas as religiões monoteístas apelam à justiça, à equidade, à fraternidade. Na Igreja Católica, o poder de decisão encontra-se exclusivamente em mãos masculinas - em total contradição com a mensagem fundadora contida nos Evangelhos. Neste mês de Março assistimos à escolha de um novo Papa, pessoa que, segundo a tradição, deveria actuar como "o servo dos servos de Deus". Escolhido apenas por cardeais de entre um grupo de 118 pares, este conjunto de senhores idosos (alguns ainda mais idosos do que eu) ultrapassa, inexplicavelmente, o estatuto e a função dos bispos espalhados pelo mundo, já sem falar da comunidade de crentes. Parecem ignorar que o mundo lá fora está em movimento e é constituído por mulheres, homens e crianças, nas suas infinitas variedades, mas revestidos da igual dignidade conferida pelo Criador. Alegremo-nos, contudo, porque, em todas as religiões, as mulheres, em grande número, estão a questionar as interpretações das autoridades masculinas. A resistência é forte mas o poder da ética é imenso.
Ana Vicente
Público 07.03.2013

03 março 2013

PERFIL DO PAPA OU PERFIL DA IGREJA?

1. Até à eleição do novo Papa, não se pode estranhar o interesse pelas curiosidades mais normais, mais cómicas, doentias ou perversas, quer acerca de Joseph Ratzinger e da sua nova etapa de vida, quer sobre a pessoa desejável para estar à frente do Vaticano.
Quanto a Ratzinger, ver-se-á se vai ou não poder cumprir a promessa de permanecer escondido do mundo. Vestido de branco, de azul ou de preto, que interessa? Para o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, foi importante esclarecer que poderá continuar a vestir-se de branco, mas que as suas vestes serão simples e diferentes das usadas pelo Papa, mas nada disse sobre as futuras relações com a Prada.
Os mais espirituais e cultos estão interessados nas orações que vai rezar, na música que irá tocar, nos livros que tem para ler e nos que vai escrever. Poderá vir a ser conselheiro do novo Papa? Aqueles que insistem em lhe chamar Papa Emérito (também haverá emérita infalibilidade?) não se apercebem que estão a defender a coexistência de dois Papas. Será normal que venham a surgir narrativas, mais ou menos romanceadas, acerca da vida secreta de J. Ratzinger, no seu retiro. A imaginação das pessoas não vai arrefecer.
Por mim, espero que seja muito feliz e que não surja nenhum vidente a revelar quanto ele continua a sofrer com as desgraças da Igreja.
Será preciso deitar água fria nas preocupações acerca do perfil do futuro eleito. Não porque não sejam importantes, mas ainda é mais importante passá-las para segundo plano. A insistência na configuração do novo Pontífice leva, facilmente, a pensar que basta um bom Papa para ficarem resolvidos todos os problemas. Quem assim pensa esquece que, no século passado, o Vaticano teve grandes figuras à sua frente, uma delas foi mesmo um santo genial, João XXIII, que nunca perdeu o bom humor, pois sabia que o aggiornamento da Igreja não podia ser só obra sua. De João Paulo I, só ficámos com um mês de sorrisos e o projecto de dar uma volta à Cúria Romana.
2. A primeira característica do perfil do novo Papa – passe a repetida expressão – será a de alguém que entenda, de forma prática, que aquilo que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos. Não interessa uma pessoa decidida a fazer a reforma da Igreja, segundo o seu ponto de vista particular. O que importa é alguém preocupado em encontrar um método que mobilize e implique o povo cristão na alteração do actual modelo de governo da Igreja. Não interessa caiar um sepulcro.
Dizendo isto, fica tudo por dizer, pois é urgente encontrar o caminho que nas paróquias, nos movimentos, nas Congregações religiosas, na nomeação dos Bispos, no exercício da colegialidade, na vida das dioceses e nas suas diversas instâncias realize o confronto do projecto de Jesus - segundo o que dele podemos observar no Novo Testamento, na história da Igreja e não apenas na dos Papas -, com as urgências do mundo actual, na sua grande diversidade, submetido a processos de globalização, que acabam por acentuar o abismo entre pobres e ricos. 
Seria ridículo sonhar com um método que colocasse a Igreja de quarentena, parada até que a reforma esteja pronta. É em andamento que as transformações se vão realizando e nunca se pode começar do zero. O sonho de uma Igreja, sem mancha nem ruga, constituída por pequenos grupos de santos e puros, seria a perversão das perversões.
3. Uma das grandes vergonhas pelas quais a Igreja, no seu conjunto, passou, e está a passar, tem a ver com a pedofilia que envolveu várias figuras da hierarquia católica. Sem o combate a este flagelo, nenhum programa de um novo Papa, ou melhor de um novo governo da Igreja, terá qualquer credibilidade. O melhor é erradicar as instituições que possam encobrir esse tipo de práticas e não consentir que pessoas que tenham essas tendências possam ter qualquer acção pastoral que as coloque junto de crianças.
O programa de um novo governo da Igreja não pode estar polarizado apenas por esta questão. Existem, actualmente, vários projectos em curso, na Igreja católica. Destaco a redescoberta de uma memória, ora esquecida ora atraiçoada, o Vaticano II. A Nova Evangelização é um horizonte que o Ano da Fé procura activar.
João Paulo II, durante o seu pontificado, tentou que a Igreja tivesse uma visibilidade mundial através das suas viagens e intervenções. Por maiores que sejam as críticas ao seu método, não há dúvida que a Igreja passou a fazer parte de todos os noticiários. Durante esse tempo, foram neutralizadas todas as vozes, experiências e iniciativas que seguiam ou propunham outros caminhos. O Cardeal Ratzinger, um teólogo do Concílio e de mérito reconhecido, assustado com a pluralidade crítica de expressões teológicas, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregou-se de as neutralizar.
Neste momento, já não estamos nos anos 80/90. Estamos no século XXI. De que é que precisa a Igreja para escutar os desafios do mundo de hoje e participar na descoberta de novos caminhos para uma civilização que já não sabe de que terra é?

Frei Bento Domingues, O.P.
in Público
3.03.2013 

NÃO BASTA UM NOVO PAPA

1. A preocupação única com o perfil do próximo Papa é ambígua. Pode dar a ideia de que as qualidades do novo Papa, humanas e sobrenaturais, irão resolver, por si só, as questões com que se debatem as comunidades católicas no mundo inteiro.
Na memória de muitos católicos, e não só, a eleição de João Paulo II era uma primavera de promessas: novo, desportista, actor, assistente de movimentos juvenis, com uma capacidade de comunicação espantosa, confessava que o caminho da Igreja era a do ser humano e vinha de um país de leste.
Quando ficou irremediavelmente doente, as suas grandes qualidades foram celebradas, de novo, na sua capacidade sacrificial. Para esta mentalidade, renunciar seria uma traição ao vitalício carisma papal. Veio Bento XVI e, de repente, o importante era o Papa teólogo, capaz de dialogar com o pensamento moderno e, para alguns devotos, o maior pensador do século XX. O Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, não tinha mostrado grande respeito pelos seus colegas teólogos, nem capacidade ou vontade de diálogo com todos aqueles que tinham uma hermenêutica diferente do Vaticano II. Ele defendia a da continuidade, dizendo que os outros eram por uma hermenêutica da ruptura. Reduziu, de facto, a teologia a um comentário do Magistério. 
 Tendo, porém, criado um vazio à sua volta, no mundo teológico, não associou ao seu governo as Conferências Episcopais, nem valorizou o papel dos Sínodos dos Bispos. Acabou por ficar confinado ao mundo da Cúria, com ferrugem de séculos, segundo D. António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro.
Seja como for, pelo que consta, o seu legado na reforma da Cúria não parece brilhante, nem sequer aos olhos de Bento XVI.
2. É normal que os católicos desejem para Papa uma pessoa com muita capacidade de liderança, que goste mais de escutar do que de falar ou impor a sua vontade, um cristão em permanente conversão, um servo dos servos de Deus. Que use, com verdade, a bela e antiga metáfora de Sumo Pontífice: ser exímio em fazer pontes, ser ecuménico, ser dialogante, com crentes e não crentes.
Se desejarmos apenas isso, acabaremos por ficar frustrados. Personalidades assim não se podem encomendar, sobretudo num grupo já de si tão restrito, o dos cardeais eleitores: estes eram 117 até ao último Domingo. 61 europeus; 19 latino-americanos; 14 norte-americanos; 11 africanos; 11 asiáticos e 1 da Oceânia. Na Europa, 28 são italianos.
A verdadeira questão não é a das características individuais do Papa. A questão é a do papado, isto é, a do sistema de governo da Igreja Católica.
Os Papas apresentam-se como sucessores de S. Pedro. Pedro era casado e, talvez, a sua mulher o acompanhasse nas suas viagens missionárias. (1 Cor 9,5).
No Novo Testamento aparecem quatro listas de Apóstolos e, nas quatro, Pedro figura em primeiro lugar. O texto-chave sobre a sua primazia é o de Mt. 16, 17-19: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Jesus não o tratou sempre assim: arreda-te de mim Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens (Mc 8,27-33). Durante o processo de Jesus, traiu o Mestre três vezes. Paulo enfrentou a sua hipocrisia, em Antioquia (Gal 2, 11-14). No entanto, a referência a Pedro é clara, mas quem escolheria, hoje, para Papa alguém com estas características?
3. Seria um abuso responsabilizar S. Pedro pela história do papado e pela sua configuração actual. Segundo parece, o primeiro Bispo de Roma a ser chamado Papa, foi João I, no séc. VI, embora fosse um termo do vocabulário cristão, de carinho pelos pastores das comunidades.
Nas circunstâncias actuais, nos limites da escolha de um novo Papa, seria desejável ver alguém eleito disposto a fazer uma reforma do governo da Igreja Católica. Antes de mais, que se lembre da ausência de representação de metade da Igreja, denunciada pelo Cardeal Suenens, no Vaticano II: as mulheres. Acabar com a forma actual de sigilo na escolha dos Bispos. A eleição do Papa seria mais representativa se fosse escolhido a partir de representantes das Conferências Episcopais do mundo católico. Os movimentos laicais, na sua diversidade, deveriam dispor de canais de representação. As Congregações Religiosas, femininas e masculinas, não poderiam ficar de fora, dado o seu carisma de carismas na Igreja.  
Certamente estou a esquecer muita coisa. Pouco importa agora. Pretendo apenas ver restaurado e aplicado um princípio antigo do direito: o que diz respeito a todos deve ser tratado por todos, segundo as modalidades possíveis, em cada época e nas diversidades das culturas.
Os direitos humanos são secularizações de valores cristãos: Liberdade, igualdade, fraternidade. É sintomático que a fraternidade nunca tenha tido muita aceitação, mas sem ela a liberdade e a igualdade serão sempre abstractas.
 

Frei Bento Domingues, O.P.
in Público de 28.02.2013


Uma decisão com interpelações incómodas

Admirei Bento XVI e fiquei contente, desde a primeira hora, com a sua eleição. Talvez porque os contactos de proximidade que tivera antes me mostrassem um homem humilde, superior, sereno, lúcido, atento. Encontrei-o em três sínodos dos bispos, na visita regulamentar dos bispos à Congregação a que presidia, no seu andar discreto, atravessando cada manhã a Praça de S. Padro a caminho do seu trabalho. Apesar da fama pouco abonatória que o seu múnus lhe acarretara, a minha dor pelas decisões que nem sempre consegui entender atenuava-se com o conhecimento da pessoa, do seu currículo de teólogo, da lucidez dos seus escritos, das suas intervenções nos sínodos e, por fim, do rigor dos seus juízos, exigidos pela unidade e defesa da fé.
Ao ser eleito, sabendo que ele conhecia bem a Cúria Romana, tive esperança de que viria por ele, finalmente, a sua urgente reforma. Sabia que a clareza do seu pensamento e a vasta cultura de que era portador, dariam caminho à Igreja, necessitada de luz orientadora e governo maleável, então a contas com um mundo perturbado, um laicismo exacerbado, as muitas mazelas próprias, públicas e ocultas. Vi como ele soube dar atenção ao essencial do Evangelho, à vastidão da cultura emergente, como denunciou o carreirismo clerical romano. Assumiu, com humildade, o grave problema da pedofilia. Não teve receio de mostrar o valor profético de Lutero, um proscrito de muitos séculos. Foi corajoso ao enfrentar perigos e ameaças em terreno onde não eram palavras vãs. Fez viagens de que, pela idade e pelo rigor dos programas, se podia dispensar, incarnando, de modo vigoroso, o seu dever de pastor universal. Falou claro aos bispos ao partilhar com eles as dificuldades da evangelização, e foi sempre muito cordial com eles nos seus encontros públicos e privados. Mostrou atenção ao sofrimento das pessoas pelas dificuldades morais sentidas ante problemas que se generalizavam. Sentiu-se interpelado por situações na Igreja que o punham a ele mesmo na ribalta e em contradição com situações de bispos, que lhe mereciam o maior respeito. Soube interpretar o Vaticano II com sabedoria e mostrou que, nos seus documentos, está a fonte da renovação necessária. No seu estilo, mostrou grande amor à Igreja e à sua missão no mundo. Respeitou chefes religiosos e políticos, sem deixar dúvidas sobre a seriedade e a verdade das suas palavras e gestos.
Apesar de tudo, inesperadamente, decidiu deixar, com total liberdade, o governo da Igreja, alegando o que estava à vista: idade avançada, saúde com limitações, cansaço insuperável, exigências do bem da Igreja. Deixou problemas em aberto, talvez porque, no seu pensamento, não havia ainda chegado a hora do enfrentamento.
Este gesto é um sinal a exigir discernimento. Muitos, mesmo estranhos à vida da Igreja que não à sua missão na história, o vêm lendo com perspicácia que falta, talvez, a alguma gente de dentro. Conhecendo Bento XVI, não é difícil admitir quanto terá sofrido com a situação da Cúria Romana, a estrutura criada para apoio ao Papa no governo da Igreja. Fez algumas reformas significativas, mas sentiu-se impotente ante os conflitos, manobras e até traições, que se foram levantando a seus olhos, a ponto de tolher o seu caminho. Fala-se de favorecimentos e corrução no Vaticano e há sempre algum fundamento neste falar livre. A reforma da Cúria não se faz sem o Papa e a colaboração séria dos que aí trabalham. Esta colaboração parece ainda faltar.
O trabalho da Igreja onde está implantada depende muito dos bispos e o Papa pôde ver, nas suas viagens apostólicas e nos grupos que chegavam a Roma, o trabalho insano que estes realizam em toda a parte. E, se não fazem mais, para além das suas limitações naturais, é porque encontram as dificuldades de um centralismo romano controlador que, à revelia do Vaticano II, cada dia cresce e bloqueia iniciativas, sem consultas prévias. O Colégio Apostólico, essencial à missão da Igreja e ao seu dia a dia, vai-se desvalorizando. As Conferências Episcopais nunca foram queridas, nem amadas, pelos poderosos da Cúria Romana e, nos seus países, salvo exceções meritórias, mais somam bispos que esforços organizados de evangelização e de presença eclesial na sociedade.
Mas, o Papa não poderia ter enfrentado esta situação, se na realidade ela lhe era dificultadora da sua missão? Se reconheceu a sua impotência, é porque nem sempre conhecer o caminho se tem capacidade para o percorrer. O poder inconcebível da Cúria Romana e a sua ferrugem de séculos não se apalancam facilmente. Mas é preciso enfrentar a situação, e desde já. A impotência confessada de Bento XVI, assim o exige.
A Igreja tem de se interrogar, a todos os níveis, sobre o significado deste gesto tão interpelador, como incómodo. Não pode, porém, deixar de se confrontar com as grandes preocupações de Bento XVI: o conhecimento aprofundado e o seguimento total de Jesus Cristo, o Senhor e Mestre; a verdade vivida e testemunhada a todo o custo; a evangelização, a pedir um novo fôlego; a prática da caridade, lei prioritária e insubstituível dos cristãos e comunidades; o espírito de serviço ao Povo de Deus e desprendimento de privilégios da hierarquia, uma premência de todos os dias; o diálogo com o mundo e a cultura emergente, uma exigência sem hiatos; a presença fraterna junto dos que mais sofrem, um dever; a esperança cristã, pano de fundo de todas as lutas e projetos pastorais e apostólicos…
Desde o Vaticano II, a Igreja contou com papas que testemunharam, com a sua vida e ação, a fidelidade à Obra de Deus, as urgências do Evangelho, a preocupação incansável com o mundo das pessoas. Assim vai continuar. Por certo, será escolhido um crente, venha de onde vier, capaz de sentir as preocupações do Evangelho, das pessoas concretas e dos tempos que correm. Porém, a Igreja não é só o Papa e ninguém pode subir à varanda, para que aí, bem instalado, apenas veja e critique o que, a seu gosto, se passa ou não se passa. O gesto de Bento XVI foi de amor à Igreja e de desinstalação, para nos dizer que, na comunidade eclesial, não há compromissos por procuração, nem aceita, como o carisma, a crítica fácil, alheia à vida e à missão.
Mais do que de especulações fáceis e de ditos inconscientes, o tempo que corre até à eleição do novo papa, é, para todos os cristãos e suas comunidades, tempo de reflexão, oração, enraizamento do compromisso que nasce da fé Tempo de exame de consciência sobre o amor efetivo à Igreja conciliar e às normais exigências da missão.

Opinião | António Marcelino| 21/02/2013
Correio do Vouga

24 fevereiro 2013

O PAPA NÃO É A CABEÇA DA IGREJA

1. Quando a anormalidade se torna normal, o reencontro com a mais pura normalidade surge como algo de extraordinário. É certamente essa secular situação que explica o espanto, ora sincero ora fictício, diante da clarividente renúncia de Bento XVI. Além disso, as canonizações rituais dos titulares de certas funções na Igreja e a intensa promoção do culto da personalidade acabam por se exprimir numa beata retórica de finados: “Que iria ocorrer agora? Como continuaria sem ele o Ano da Fé?”
É precisamente porque estamos no chamado Ano da Fé, que importa não a desfigurar com expressões ridículas resvalando para a idolatria. Os católicos sabem que o Papa não é a Igreja, nem a cabeça da Igreja e que a si próprio se designa como “servo dos servos de Deus”. Como diz S. Paulo, seguindo a verdade no amor, cresceremos em tudo em direcção Àquele que é a cabeça, Cristo; Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que plenifica tudo em todos (Ef. 4, 15; 1, 22-23 e par.).
O apóstolo escolheu e usou estas imagens para que ninguém, na Igreja, pretenda substituir Jesus Cristo, fundamento da unidade eclesial na pluralidade dos seus carismas, por qualquer culto idolátrico. Como os papas não são sucessores de Cristo, é de elementar decência teológica denunciar qualquer expressão de papolatria.
2. S. Tomás de Aquino teve o cuidado de lembrar que o terminal da Fé cristã não é o articulado do Credo, fruto das Igrejas cristãs, mas o próprio Mistério de Deus e, por isso, acrescentou que, em rigor, nem sequer é na Igreja que acreditamos, mas no Espírito Santo, que santifica a Igreja (Cf. ST II-II q. 1 a 1 ad 2; a. 9 ad 5).
Seria, no entanto, abusivo concluir: se o que importa é o Espírito Santo, então não se preocupem nem com a qualidade humana e espiritual da hierarquia eclesiástica, nem com as formulações da fé cristã. Deus providenciará!
Um tal sobrenaturalismo seria uma ofensa à própria teologia de Tomás de Aquino. Bento XVI, no dia 27 do mês passado, véspera da festa deste santo, aludiu a uma das suas mais ousadas buscas de harmonia, embora carregada de tensões, sobretudo em momentos de grandes viragens culturais: a fé cristã não eclipsa a razão; oferece-lhe até, no seu interior, uma nova paisagem e novos campos de investigação. Como diz no seu hino eucarístico, de poética modernidade, quantum potes tantum aude (atreve-te quanto puderes).
A graça não substitui a natureza, nem a natureza dispensa a graça do infinito amor. Importa derrotar as representações que substituem uma tensão existencial por uma persistente rivalidade: se damos muito a Deus, roubamos o ser humano, se concedemos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Yves Congar, no diagnóstico da situação religiosa dos anos 30 do século passado, escreveu de forma lapidar: a uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião. Jesus Cristo é a radical superação desta rivalidade. Ele incarna a abertura humana ao Mistério de Deus e a abertura divina ao Mistério do Mundo. O encontro da finitude humana, do não divino, com a infinita profundidade divina, faz parte da identidade cristã.
3. Como escreveu E. Schillebeeckx, um dos grandes teólogos do séc. XX: não existe automatismo da graça. Os católicos acreditam que o Espírito de Cristo actua no mundo, na vida da Igreja e na acção ministerial das suas lideranças, mas também sabem que o povo crente e, dentro dele, a hierarquia eclesiástica podem, de diversas formas, acolher ou recusar os dons do Espírito. Quem não está atento à multiforme mediação eclesial da acção do Espírito Santo - porque supõe que goza do monopólio da verdade - acaba por se subtrair à sua influência.
Sempre que o magistério oficial deixa de estar atento às diversas instâncias de mediação que estruturam, o povo cristão corre o perigo de não escutar os reais apelos do Espírito de Deus. Quem ignora estas mediações sucumbe à tentação do facilitismo ou da negligência e torna-se vítima de cegueira e de surdez ideológicas.
Um apelo do Magistério ao Espírito Santo, sem ter em conta as mediações eclesiais, informando-se cuidadosamente antes de assumir as suas próprias responsabilidades, é um apelo em vão. Retirar-se para escutar os murmúrios do Espírito é, sem dúvida necessário, mas não basta nem dispensa o estudo das situações concretas de um mundo em mudança. A omnipresença do mistério da graça não suprime, automaticamente, a presença do mistério da iniquidade na história do mundo, das religiões e das Igrejas cristãs, no passado e na actualidade.
O Estado do Vaticano não é a Igreja Católica. Na opinião pública, até parece que sim. As frequentes narrativas sobre a corrupção e o crime organizado que afectariam algumas das suas instâncias exigem uma informação limpa, acerca de tudo o que vem minando a sua credibilidade e a do papado. As comunidades católicas, espalhadas pelo mundo, têm direito a essa informação. Não se pode esquecer que sem ética, as invocações místicas são mistificações. O Vaticano só se justifica como instrumento de liberdade da missão da Igreja. Atraiçoa-se quando se deixa dominar pelo carreirismo e por endeusados negócios de banqueiros, nas suas vertigens criminosas.
Poderemos esperar uma gestão mais democrática da Igreja?
Frei Bento Domingues, O.P.

          in Público