14 março 2013

A IGREJA CATÓLICA NO SÉCULO XXI

1. A Igreja Católica é um mundo de muitos mundos, em todos os continentes e nas suas diversas culturas, com cerca de 1 bilião e duzentos milhões de membros. O século XXI é muito tempo, mas curto para o seu potencial crescimento. Não é a única figura da transcendência e da humanização do mundo. Não é a única Igreja cristã, mas para ser fiel a si mesma, terá de ser cada vez mais católica, intercultural, acolhedora e dialogante.
Não se poderá tornar a dizer, como no Concílio “geral” realizado em Florença-Ferrara, em 1442: “A Santa Igreja crê firmemente, confessa e proclama que ninguém fora da Igreja Católica - e não apenas os pagãos, mas também os judeus, os heréticos e os cismáticos - pode tomar parte na vida eterna, mas que irá para o fogo eterno”, preparado para o diabo e para os seus anjos (Mt 25. 41), salvo se, antes do fim da sua vida, se tornar seu membro”.
Hoje, serão poucos os católicos que se reconhecem em tal declaração. Durante séculos, muitos a subscreveram sem hesitar e até pegaram em armas para a defender. A mudança foi-se preparando antes e tornou-se radical no Vaticano II: ”aqueles que, ignorando, sem culpa, o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, procuram Deus de coração sincero e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também podem alcançar a salvação eterna“ (Lumen Gentium nº 16).
2. Neste Concílio, a Igreja Católica descentrou-se para Cristo, para as outras Igrejas Cristãs, para as outras religiões, para o mundo contemporâneo, sem anátemas ou anexações. João Paulo II sustentou, no início do seu pontificado, que o caminho da Igreja faz-se na caminhada do ser humano, em todas as suas expressões. Pediu perdão pelos pecados e crimes dos seus membros, cometidos ao longo dos séculos.
Numa célebre conferência de preparação do Vaticano II, Yves Congar dizia que a Igreja, a partir do presente, deve ter um olhar para o passado e outro para o futuro (ante et retro oculata). Quem nunca olha para trás, para os antepassados, nunca saberá olhar para a frente, para a sua posteridade.
A nossa experiência do tempo e a nossa existência no tempo estão centradas no presente, não sem alguma ambiguidade. Já na antiguidade greco-latina se dizia: ”só o presente é nosso, não o que foi ultrapassado, nem o que ainda é esperado; um já desapareceu e o outro não temos a certeza que venha a ser”. Falavam assim pela exigência de agir, aqui e agora, combatendo a nostalgia e a antecipação. Nos tempos modernos, com a ideia do progresso, surgiu uma inflação do conhecimento histórico e uma grande atracção pelo género literário da utopia. Era preciso medir os avanços e como avançar para o futuro: conhecer para ultrapassar. Esqueçamos o passado e voltemo-nos para o futuro. De facto, o passado será sempre o futuro do futuro.
A relação da Igreja com o tempo é mais complexa. A tradição tem sido, muitas vezes, confundida com tradições que impediam e impedem reformas fundamentais. São uma permanente tentação restauracionista. Nenhuma Igreja cristã pode, sem traição, deixar de acolher o Novo Testamento. É uma referência incontornável, exposta, no entanto, a regras de interpretação, para não se cair no fundamentalismo.
A ideia de reforma permanente e de tradição não são incompatíveis: há verdadeiras e falsas reformas, como há verdadeiras e falsas tradições e, sobretudo, muita ignorância da história.
A Igreja vive, actua e celebra a Fé no presente. A Eucaristia dominical foi sempre entendida como a Páscoa semanal. Celebra a presença clandestina de Cristo na vida, nos trabalhos, nas lutas de toda a semana e relança um tempo novo em transformação. As únicas relíquias de Cristo são as comunidades cristãs, que não se esgotam na transformação da vida e da sociedade, mas precisam também de belas e verdadeiras liturgias fraternas, onde a vida é transfigurada ou atraiçoada.
3. A Igreja cresce na base, numa rede imensa de comunidades. Este tempo de crise de lideranças das Igrejas, a nível local e de governo central, oferece uma grande oportunidade para a revisão do seu passado e a construção do seu futuro, no século XXI. Não é preciso começar do zero. O Vaticano II foi um começo revolucionário, mas continua, em grande parte, por cumprir e sofreu traições cujas consequências estamos, agora, a sentir amargamente.
Importa, antes de mais, alterar o modo da “nomeação” dos Bispos: eles são das comunidades e para as comunidades, na sua imensa diversidade cultural. Não são nem devem ser gestores nomeados pela administração de uma empresa multinacional. O Papa deveria ser eleito por representantes das conferências episcopais, por delegados dos vários movimentos laicais, das múltiplas congregações religiosas e por outras formas a estudar, para obter o seguinte resultado: o que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos.
A liberdade de expressão na Igreja deve ser promovida de forma a incentivar a investigação científica e a criação cultural, responsabilizando as comunidades por um grande espírito de comunhão, na diversidade. A pluralidade é a expressão da diversidade de carismas. A Igreja não pode desejar ser um mundo à parte – não Te peço que os livres do mundo, mas que os livres do mal (Jo 17, 15 ) - uma alternativa, mas tem de trabalhar na transformação da sociedade para que os valores cristãos, laicizados, de liberdade, igualdade e fraternidade, não sejam sistematicamente esvaziados. 
Como diz a Carta a Diogneto (século II): “com efeito, os cristãos não se distinguem das outras pessoas nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Estejam onde estiverem, não habitam cidades peculiares, nem falam um dialecto estranho, nem vivem uma vida fora do comum”.
O que será a Igreja Católica do século XXI? Quem poderá saber? Espero que viva em reforma permanente e que, no seu rosto, os seres humanos, todos os seres humanos, descubram e sintam que são amados por um Amor eterno (Lc 10 17-38).

Frei Bento Domingues, O.P.
Nota: Este artigo do Frei Bento foi publicado no último Expresso

Jesus barrado no conclave dos Cardeais

Cardeais da Igreja Católica vieram de todas as partes do mundo, cada qual carregando as angústias e as esperanças de seus povos, alguns martirizados pela Aids e outros atormentados pela fome e pela guerra. Mas todos mostravam certo constrangimento e até vergonha, pois vieram à luz os escândalos, alguns até criminosos, ocorridos em muitas dioceses do mundo, com os padres pedófilos; outros implicados na lavagem de dinheiro de mafiosos e superricos italianos que para escapar dos duros ajustes financeiros do governo italiano, usavam o bom nome do Banco Vaticano para enviar milhões de Euros para a Alemanha e para os USA. E havia ainda escândalos sexuais no interior da Cúria bem como intrigas internas e disputas de poder.
Face à gravidade da situação, o Papa reinante sentiu que lhe faltavam forças para enfrentar tão pesada crise e constatando o colapso de sua própria teologia e o fracasso do modelo de Igreja, distanciado do Vaticano II, que, sem sucesso, tentou implementar na cristandade, acabou honestamente renunciando. Não era covardia de um pastor que abandona o rebanho; mas a coragem de deixar o lugar para alguém mais apropriado para sanar o corpo ferido da Igreja-instituição.
Finalmente chegaram todos os Cardeais, alguns retardatários, à sede de São Pedro para elegerem um novo Papa. Fizeram várias reuniões prévias para ver como enfrentariam este fato inusitado da renúncia de um Papa e o que fariam com o volumoso relatório do estado degenerado da administração central da Igreja. Mas em fim decidiram que não podiam esperar mais e que em poucos dias deveriam realizar o Conclave.
Juntos rezaram e discutiram o estado da Terra e da Igreja, especialmente a crise moral e financeira que a todos preocupava e até escandalizava. Consideraram, à luz do Espírito de Deus, qual deles seria o mais apto para cumprir a difícil missão de "confirmar os irmãos e as irmãs na fé”, mandato que o Senhor conferira a Pedro e a seus sucessores e recuperar a moralidade perdida da instituição eclesiástica.
Enquanto lá estavam, fechados e isolados do mundo, eis que apareceu um senhor que pelo modo de vestir e pela cor de sua pele parecia ser um semita. Veio à porta da Capela Sistina e disse a um dos Cardeais retardatários: "posso entrar com o Senhor, pois todos os Cardeais são meus representantes e preciso urgentemente falar com eles”.
O Cardeal, pensando tratar-se de um louco, fez um gesto de irritação e disse-lhe benevolamente: "resolva seu problema com a guarda suíça”. E bateu a porta. Então, este estranho senhor, calmamente se dirigiu ao guarda suíço e lhe disse: "posso entrar para falar com os Cardeais, meus representantes”?
O guarda o olhou de cima para baixo e não acreditando no que ouvira, pediu, perplexo, que repetisse o que dissera. E ele o fez. O guarda com certo desdém lhe disse: "aqui entram somente cardeais e ninguém mais”.
Mas esta figura enigmática insistiu: "eu até falei com um dos Cardeais e todos eles são meus representantes, por isso, me permito de estar com eles”.
O guarda, com razão, pensou estar diante de um paranóico destes que se apresentam como Cesar ou Napoleão. Chamou o chefe da guarda que tudo ouvira. Este o agarrou pelos ombros e lhe disse com voz alterada: ”Aqui não é um hospital psiquiátrico. Só um louco imagina que os Cardeais são seus representantes”.
Mandou que o entregassem ao chefe de polícia de Roma. Lá, no prédio central, repetiu o mesmo pedido: "preciso falar urgentemente com meus representantes, os Cardeais”. O chefe de polícia nem se deu ao trabalho de ouvir direito. Com um simples gesto determinou que fosse retirado. Dois fortes policiais o jogaram numa cela escura.
De lá de dentro continuava a gritar. Como ninguém o fizesse calar, deram-lhe murros na boca e muitos socos. Mas ele, sangrando, continuava a gritar: "preciso falar com meus representantes, os Cardeais”. Até que irrompeu cela adentro um soldado enorme que começou a golpeá-lo sem parar até que caísse desmaiado. Depois amarrou-lhe os braços com um pano e o dependurou em dois suportes que havia na parede. Parecia um crucificado. E não se ouviu mais gritar: "preciso falar com meus representantes, os Cardeais”.
Ocorre que este misterioso personagem não era cardeal, nem patriarca, nem metropolita, nem arcebispo, nem bispo, nem padre, nem batizado, nem cristão, nem católico. Era um simples homem, um judeu da Galileia. Tinha uma mensagem que poderia salvar a Igreja e toda a humanidade. Mas ninguém quis ouvi-lo. Seu nome é Jeshua.
Qualquer semelhança com Jesus de Nazaré, de quem os Cardeais se dizem representantes, não é mera coincidência; mas, a pura verdade.
"Veio para os seus, e os seus não o receberam” observou mais tarde e tristemente um seu evangelista.

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital
11/03/2013
 

Teologia

Continuando o texto do mês anterior sobre mulheres como Igreja e na Igreja - Por teologia entenda-se o estudo e o pensamento que se centra em Deus, na Sua essência, e na relação entre Deus, os seres humanos e toda a restante criação. Ora nenhuma corrente ou escola teológica séria pode, hoje em dia, argumentar que há uma diferença ontológica entre as mulheres e os homens. Somos, mulheres e homens, filhas e filhos e Deus, criados à sua imagem. São Tomás de Aquino, dando voz à tradição aristotélica, escreveu que as mulheres eram imperfeitas na sua natureza, apesar de terem acesso à graça de Deus. Quem é que hoje em dia propõe que as mulheres não são seres humanos em plenitude? Ou que existem imperfeições no processo de criação das mulheres? É, alias, na teologia que vamos encontrar o pleno valor da real igualdade dos seres humanos, seja qual for o sexo a que pertencem, para além de todas as outras diferenças que existem entre as pessoas. É esta uma consequência da fidelidade e obediência às leis de Deus, no campo ético e moral. As condições, os desafios e as exigências são precisamente iguais para ambos os sexos. Ambos são chamados à santidade, e ambos são capazes de pecar. Na teologia da salvação não se apresentam excepções nem desculpas pelo facto de se ter nascido mulher. O número de mulheres e homens teólogas/os que já produziram pensamento valioso acerca da igualdade fundamental de ambos os sexos é muito vasta e variada e pode ser estudada pelos que querem aprofundar os seus conhecimentos nesta área. Como escreveu Laure Aynard: ‘É imensa a perda de substância evangélica que pode ser atribuída à atitude patriarcal da Igreja instituição nos últimos 19 séculos.’[1]

Também Teresa Martinho Toldy,  teóloga feminista portuguesa conclui:
 ‘A Igreja é a comunidade da transmissão, na qual todos os crentes, mulheres e homens, têm lugar: a Palavra circula, actua, torna-se vida, quando é comunicada e recebida. Ela é a nossa herança – de todos: mulheres e homens – anúncio de um futuro que irrompe já no presente, que se torna força para a transformação do quotidiano, que denuncia todas as injustiças e rasga o horizonte para um mundo novo…[2]

O que se torna maravilhoso nesta caminhada teológica é a percepção de que não estamos a começar nada de novo mas antes a continuar as tarefas de tantas pessoas, silenciosas ou proclamadoras, que desde o nascimento do cristianismo, entraram no deserto à procura da Terra Prometida.

Ana Vicente
Março 2013


[1] Laure Aynard, La Bible au Féminin: de l’ancienne tradition à un christianisme hellénisé, Paris:  Cerf, 1990.
[2] Teresa Martinho Toldy, Deus e a Palavra de Deus na Teologia Feminista, Lisboa: Paulinas, 1998, p. 435.

10 março 2013

NÃO É A QUARESMA QUE CONTA, MAS A PÁSCOA

1. A religião é o mundo que toma a direcção de Deus; o cristianismo é Deus que toma a direcção do mundo. Os seres humanos que crêem Nele seguem a Sua direcção.
Esta é a posição do teólogo Urs von Balthazar. Parece-me justa, mas atrapalha a mística de olhos fechados, a preferida dos tempos que correm. Nesta quaresma, em Portugal, chegámos demasiado depressa às expressões de “sexta-feira santa”: em muitas cidades do país, saíram à rua multidões que já não podiam esconder mais uma imensa desilusão e enorme tristeza. Seria importante saber qual foi o impacto destes acontecimentos nas celebrações dominicais e nas vias-sacras, entretanto muito revalorizadas. Bento XVI, no passado dia 14, num encontro com o clero de Roma, ao recordar as descobertas e opções do Concílio Vaticano II, destacou a importância de se ter começado pela reforma litúrgica. O Mistério Pascal é o centro da vida e do tempo cristão, do tempo pascal e do domingo, dia da Ressurreição. Do encontro com o Ressuscitado saímos para o mundo. Neste sentido, é uma pena que, hoje, o domingo se tenha transformado em fim-de-semana, quando na verdade é o primeiro dia, é o dia do início.
Uma das perguntas inevitáveis é esta: para que mundo, nos envia a ressurreição dominical? Mas antes, quem é este nós?
J. Ratzinger, quando ainda era Papa, recordou que foi a redescoberta da teologia do Corpo Místico, (Mystici Corporis ) que fez crescer a fórmula: “Nós somos a Igreja, a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente isto é válido no sentido que o nós, o verdadeiro «nós» dos crentes, juntamente com o «Eu» de Cristo é a Igreja”.
Para que mundo nos envia esse “nós” que a Eucaristia dominical celebra? É o mundo a alterar durante a semana: na família, no trabalho, na escola, no desporto e no lazer, na solidariedade, no voluntariado, etc.. Com uma particularidade: levar estes celebrantes a ver o mundo a partir dos excluídos. Ir da periferia para o centro. Se começarem no centro, nunca mais chegam à periferia. Seja como fôr, foi o método seguido por Jesus. Estragou o sábado a muita gente.
2. Dada a situação do país, para além do imenso esforço de solidariedade das comunidades cristãs, é preciso uma grande convocatória em prol da justiça para que haja paz. Como disse Sto Agostinho, na “Cidade de Deus”: Eliminada a justiça, que são os Estados senão grandes salteadores?  
Para que não haja nem a tentação, nem a imagem de uma tentação, de que a Igreja quer mandar na sociedade ou no Estado, quer fazer política partidária ou formar um partido confessional, o caminho dessa convocatória deve envolver as paróquias, os movimentos, as congregações religiosas, padres e Bispos. Todos juntos teremos de responder à pergunta: se estamos no Ano da Fé para acolher o Vaticano II, que fazer para que o documento “A Igreja no mundo contemporâneo” se transforme no fermento das nossas igrejas locais perante os problemas sociais, económicos, financeiros, culturais em que nos encontramos?
O objectivo desta convocatória não é criar uma alternativa política, mas alterar a política, alterando a mente e o comportamento dos cristãos face às exigências do bem comum. Depois, é deixar a consciência de cada um em liberdade.
3. Jesus Cristo lembrou aos seus contemporâneos que, para aquilo que os interessava, sabiam ler os sinais do tempo: quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: vem chuva, e assim acontece. Quando sopra o vento do sul, dizeis: vai fazer calor, e isto sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e porque não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? (Lc 12, 54-59)
Um dos desafios importantes do Vaticano II foi, precisamente, este: as Igrejas devem capacitar-se para saberem ler os sinais dos tempos. Hoje, as sociedades dispõem de serviços meteorológicos com muitas e úteis funções: para viajar, para a agricultura, para prever alterações na natureza e nos cuidados a ter com o meio ambiente, para não sermos vítimas dos males que semeamos.  Existem, também, muitos centros de investigação da sociologia das religiões. Podemos conhecer o seu número, as características de cada uma, a sua geografia, se estão a crescer ou a diminuir, se são pacíficas ou agressivas.
Segundo a Fé cristã, e não só, em Deus vivemos, nos movemos e existimos. Não em regime de fuga do mundo, mas numa história em contínuas transformações que afectam não só a vida, mas a sua própria interpretação. Somos do Eterno no tempo e os tempos não são todos iguais, não têm todos as mesmas características. Os horizontes mentais vão sendo modificados por novas descobertas científicas, geográficas e culturais. Seja no plano religioso, seja na vida profana, é inevitável a pergunta que a encarnação da fé cristã levanta: no seio das realidades terrestres em que passamos a maior parte do nosso tempo, que sentido têm as nossas actividades, para a construção o reino de Deus?
A teologia dos sinais dos tempos exige esta investigação.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público

08 março 2013

Mais um 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres

"Dantes era pior, tens de admitir." Ao aproximar-se mais um 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, continuamos a ouvir esta frase ou variantes da mesma, dita por mulheres ou homens. Respondo que essa mesma frase podia ser dita nos anos que se seguiram ao alargamento do sufrágio às mulheres. Seria igualmente verdadeira. Seria igualmente insatisfatória. O objectivo da igualdade de género está longe de ser alcançado.

Em todo o mundo, e em Portugal quase semanalmente, maridos/amantes/namorados despeitados continuam a matar as mulheres que fingiram amar, porque elas ousaram pôr fim à relação ou porque não cozinharam o jantar a tempo e horas (foram 33 em 2012). A violação de mulheres e meninas transformou-se numa arma de guerra, num acto de formação para o negócio da prostituição ou simplesmente o direito ao uso de uma vagina, que não está lá para outro fim.

Observa-se um noticiário televisivo e constata-se que na União Europeia - apesar de tudo, e de longe, a zona do mundo onde melhor se respeitam os direitos humanos, quer das mulheres quer dos homens -, como em todas as zonas do mundo, com algumas raras excepções, o poder político e económico se encontra cansantivamente concentrado em mãos masculinas em percentagens assustadoras, e com os resultados nada brilhantes com os quais convivemos diariamente. Alegro-me com a lei da paridade que existe em Portugal, mas então porquê só duas mulheres ministras?

Os meios de comunicação social, cujos conteúdos já são, muitas vezes, construídos por mãos femininas, dão, insistentemente, espaço e voz a sábios quase exclusivamente do sexo masculino, que sobre tudo se pronunciam e sobre tudo são especialistas. Foi necessário aparecer um "falso" para se constatar que, afinal, emitia opiniões semelhantes aos outros. Há mesmo jornais e revistas onde não é possível encontrar mulheres colunistas - não se apercebem as/os decisoras/es do absurdo da situação? Saberão que em Portugal, a maior parte dos licenciados e dos doutorados são mulheres? Que a maioria dos desempregados são homens?

Tal acontece num programa tão simbólico como é o Prós e Contras, onde Fátima Campos Ferreira admitiu, recentemente, que a ausência de mulheres estava a ser criticada, defendendo-se com o facto de muitas recusarem os convites. Uma razão que com vontade e persistência se ultrapassa facilmente. O suplemento do PÚBLICO, o Inimigo Público, é frequentemente atravessado por um discurso antifeminista primário - já não é aceitável fazer piadas racistas mas as sexistas, venham elas.

Mas é indiscutivelmente na área religiosa onde o estatuto minoritário atribuído às mulheres se torna mais chocante. Até porque os valores éticos comuns a todas as religiões monoteístas apelam à justiça, à equidade, à fraternidade. Na Igreja Católica, o poder de decisão encontra-se exclusivamente em mãos masculinas - em total contradição com a mensagem fundadora contida nos Evangelhos. Neste mês de Março assistimos à escolha de um novo Papa, pessoa que, segundo a tradição, deveria actuar como "o servo dos servos de Deus". Escolhido apenas por cardeais de entre um grupo de 118 pares, este conjunto de senhores idosos (alguns ainda mais idosos do que eu) ultrapassa, inexplicavelmente, o estatuto e a função dos bispos espalhados pelo mundo, já sem falar da comunidade de crentes. Parecem ignorar que o mundo lá fora está em movimento e é constituído por mulheres, homens e crianças, nas suas infinitas variedades, mas revestidos da igual dignidade conferida pelo Criador. Alegremo-nos, contudo, porque, em todas as religiões, as mulheres, em grande número, estão a questionar as interpretações das autoridades masculinas. A resistência é forte mas o poder da ética é imenso.
Ana Vicente
Público 07.03.2013

03 março 2013

PERFIL DO PAPA OU PERFIL DA IGREJA?

1. Até à eleição do novo Papa, não se pode estranhar o interesse pelas curiosidades mais normais, mais cómicas, doentias ou perversas, quer acerca de Joseph Ratzinger e da sua nova etapa de vida, quer sobre a pessoa desejável para estar à frente do Vaticano.
Quanto a Ratzinger, ver-se-á se vai ou não poder cumprir a promessa de permanecer escondido do mundo. Vestido de branco, de azul ou de preto, que interessa? Para o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, foi importante esclarecer que poderá continuar a vestir-se de branco, mas que as suas vestes serão simples e diferentes das usadas pelo Papa, mas nada disse sobre as futuras relações com a Prada.
Os mais espirituais e cultos estão interessados nas orações que vai rezar, na música que irá tocar, nos livros que tem para ler e nos que vai escrever. Poderá vir a ser conselheiro do novo Papa? Aqueles que insistem em lhe chamar Papa Emérito (também haverá emérita infalibilidade?) não se apercebem que estão a defender a coexistência de dois Papas. Será normal que venham a surgir narrativas, mais ou menos romanceadas, acerca da vida secreta de J. Ratzinger, no seu retiro. A imaginação das pessoas não vai arrefecer.
Por mim, espero que seja muito feliz e que não surja nenhum vidente a revelar quanto ele continua a sofrer com as desgraças da Igreja.
Será preciso deitar água fria nas preocupações acerca do perfil do futuro eleito. Não porque não sejam importantes, mas ainda é mais importante passá-las para segundo plano. A insistência na configuração do novo Pontífice leva, facilmente, a pensar que basta um bom Papa para ficarem resolvidos todos os problemas. Quem assim pensa esquece que, no século passado, o Vaticano teve grandes figuras à sua frente, uma delas foi mesmo um santo genial, João XXIII, que nunca perdeu o bom humor, pois sabia que o aggiornamento da Igreja não podia ser só obra sua. De João Paulo I, só ficámos com um mês de sorrisos e o projecto de dar uma volta à Cúria Romana.
2. A primeira característica do perfil do novo Papa – passe a repetida expressão – será a de alguém que entenda, de forma prática, que aquilo que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos. Não interessa uma pessoa decidida a fazer a reforma da Igreja, segundo o seu ponto de vista particular. O que importa é alguém preocupado em encontrar um método que mobilize e implique o povo cristão na alteração do actual modelo de governo da Igreja. Não interessa caiar um sepulcro.
Dizendo isto, fica tudo por dizer, pois é urgente encontrar o caminho que nas paróquias, nos movimentos, nas Congregações religiosas, na nomeação dos Bispos, no exercício da colegialidade, na vida das dioceses e nas suas diversas instâncias realize o confronto do projecto de Jesus - segundo o que dele podemos observar no Novo Testamento, na história da Igreja e não apenas na dos Papas -, com as urgências do mundo actual, na sua grande diversidade, submetido a processos de globalização, que acabam por acentuar o abismo entre pobres e ricos. 
Seria ridículo sonhar com um método que colocasse a Igreja de quarentena, parada até que a reforma esteja pronta. É em andamento que as transformações se vão realizando e nunca se pode começar do zero. O sonho de uma Igreja, sem mancha nem ruga, constituída por pequenos grupos de santos e puros, seria a perversão das perversões.
3. Uma das grandes vergonhas pelas quais a Igreja, no seu conjunto, passou, e está a passar, tem a ver com a pedofilia que envolveu várias figuras da hierarquia católica. Sem o combate a este flagelo, nenhum programa de um novo Papa, ou melhor de um novo governo da Igreja, terá qualquer credibilidade. O melhor é erradicar as instituições que possam encobrir esse tipo de práticas e não consentir que pessoas que tenham essas tendências possam ter qualquer acção pastoral que as coloque junto de crianças.
O programa de um novo governo da Igreja não pode estar polarizado apenas por esta questão. Existem, actualmente, vários projectos em curso, na Igreja católica. Destaco a redescoberta de uma memória, ora esquecida ora atraiçoada, o Vaticano II. A Nova Evangelização é um horizonte que o Ano da Fé procura activar.
João Paulo II, durante o seu pontificado, tentou que a Igreja tivesse uma visibilidade mundial através das suas viagens e intervenções. Por maiores que sejam as críticas ao seu método, não há dúvida que a Igreja passou a fazer parte de todos os noticiários. Durante esse tempo, foram neutralizadas todas as vozes, experiências e iniciativas que seguiam ou propunham outros caminhos. O Cardeal Ratzinger, um teólogo do Concílio e de mérito reconhecido, assustado com a pluralidade crítica de expressões teológicas, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregou-se de as neutralizar.
Neste momento, já não estamos nos anos 80/90. Estamos no século XXI. De que é que precisa a Igreja para escutar os desafios do mundo de hoje e participar na descoberta de novos caminhos para uma civilização que já não sabe de que terra é?

Frei Bento Domingues, O.P.
in Público
3.03.2013 

NÃO BASTA UM NOVO PAPA

1. A preocupação única com o perfil do próximo Papa é ambígua. Pode dar a ideia de que as qualidades do novo Papa, humanas e sobrenaturais, irão resolver, por si só, as questões com que se debatem as comunidades católicas no mundo inteiro.
Na memória de muitos católicos, e não só, a eleição de João Paulo II era uma primavera de promessas: novo, desportista, actor, assistente de movimentos juvenis, com uma capacidade de comunicação espantosa, confessava que o caminho da Igreja era a do ser humano e vinha de um país de leste.
Quando ficou irremediavelmente doente, as suas grandes qualidades foram celebradas, de novo, na sua capacidade sacrificial. Para esta mentalidade, renunciar seria uma traição ao vitalício carisma papal. Veio Bento XVI e, de repente, o importante era o Papa teólogo, capaz de dialogar com o pensamento moderno e, para alguns devotos, o maior pensador do século XX. O Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, não tinha mostrado grande respeito pelos seus colegas teólogos, nem capacidade ou vontade de diálogo com todos aqueles que tinham uma hermenêutica diferente do Vaticano II. Ele defendia a da continuidade, dizendo que os outros eram por uma hermenêutica da ruptura. Reduziu, de facto, a teologia a um comentário do Magistério. 
 Tendo, porém, criado um vazio à sua volta, no mundo teológico, não associou ao seu governo as Conferências Episcopais, nem valorizou o papel dos Sínodos dos Bispos. Acabou por ficar confinado ao mundo da Cúria, com ferrugem de séculos, segundo D. António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro.
Seja como for, pelo que consta, o seu legado na reforma da Cúria não parece brilhante, nem sequer aos olhos de Bento XVI.
2. É normal que os católicos desejem para Papa uma pessoa com muita capacidade de liderança, que goste mais de escutar do que de falar ou impor a sua vontade, um cristão em permanente conversão, um servo dos servos de Deus. Que use, com verdade, a bela e antiga metáfora de Sumo Pontífice: ser exímio em fazer pontes, ser ecuménico, ser dialogante, com crentes e não crentes.
Se desejarmos apenas isso, acabaremos por ficar frustrados. Personalidades assim não se podem encomendar, sobretudo num grupo já de si tão restrito, o dos cardeais eleitores: estes eram 117 até ao último Domingo. 61 europeus; 19 latino-americanos; 14 norte-americanos; 11 africanos; 11 asiáticos e 1 da Oceânia. Na Europa, 28 são italianos.
A verdadeira questão não é a das características individuais do Papa. A questão é a do papado, isto é, a do sistema de governo da Igreja Católica.
Os Papas apresentam-se como sucessores de S. Pedro. Pedro era casado e, talvez, a sua mulher o acompanhasse nas suas viagens missionárias. (1 Cor 9,5).
No Novo Testamento aparecem quatro listas de Apóstolos e, nas quatro, Pedro figura em primeiro lugar. O texto-chave sobre a sua primazia é o de Mt. 16, 17-19: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Jesus não o tratou sempre assim: arreda-te de mim Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens (Mc 8,27-33). Durante o processo de Jesus, traiu o Mestre três vezes. Paulo enfrentou a sua hipocrisia, em Antioquia (Gal 2, 11-14). No entanto, a referência a Pedro é clara, mas quem escolheria, hoje, para Papa alguém com estas características?
3. Seria um abuso responsabilizar S. Pedro pela história do papado e pela sua configuração actual. Segundo parece, o primeiro Bispo de Roma a ser chamado Papa, foi João I, no séc. VI, embora fosse um termo do vocabulário cristão, de carinho pelos pastores das comunidades.
Nas circunstâncias actuais, nos limites da escolha de um novo Papa, seria desejável ver alguém eleito disposto a fazer uma reforma do governo da Igreja Católica. Antes de mais, que se lembre da ausência de representação de metade da Igreja, denunciada pelo Cardeal Suenens, no Vaticano II: as mulheres. Acabar com a forma actual de sigilo na escolha dos Bispos. A eleição do Papa seria mais representativa se fosse escolhido a partir de representantes das Conferências Episcopais do mundo católico. Os movimentos laicais, na sua diversidade, deveriam dispor de canais de representação. As Congregações Religiosas, femininas e masculinas, não poderiam ficar de fora, dado o seu carisma de carismas na Igreja.  
Certamente estou a esquecer muita coisa. Pouco importa agora. Pretendo apenas ver restaurado e aplicado um princípio antigo do direito: o que diz respeito a todos deve ser tratado por todos, segundo as modalidades possíveis, em cada época e nas diversidades das culturas.
Os direitos humanos são secularizações de valores cristãos: Liberdade, igualdade, fraternidade. É sintomático que a fraternidade nunca tenha tido muita aceitação, mas sem ela a liberdade e a igualdade serão sempre abstractas.
 

Frei Bento Domingues, O.P.
in Público de 28.02.2013