19 março 2013

É cedo para santificar o papa

É cedo para santificar o papa - Clóvis Rossi*


É compreensível que a massa de fiéis reunida na praça de São Pedro, durante a cerimônia fúnebre de João Paulo 2º, decretasse aos gritos: "Santo subito".

Afinal, o pontificado de João Paulo 2º durara 28 anos, tempo mais que suficiente para exibir ao mundo suas qualidades (defeitos também, mas, nessas horas, ninguém pensa em defeitos).

É um exagero, no entanto, a mídia, inclusive a do Vaticano, transformar o noticiário em torno do novo papa em culto à personalidade de Jorge Mario Bergoglio, como reproduzisse para ele o grito de "Santo subito" de oito anos atrás.

Cada detalhe de sua biografia e cada vírgula de suas palavras são apresentados em "odor de santidade", a fragrância que a tradição católica diz que emana dos santos.

Talvez o exagero se deva ao fato de que Bergoglio era um virtual desconhecido para o mundo, o que leva o jornalismo a procurar, em cada pequeno gesto e cada pequena fala, o rosto do novo pontificado.

Está sendo inútil até agora, a menos que se considere que a escolha do nome Francisco seja uma declaração de intenções, a de querer, como disse ontem, "uma igreja pobre, para os pobres". Não conheço um único religioso (ou político) que tenha defendido uma igreja (ou partido ou governo) para os ricos.

Entendo em todo o caso a carência de definições sobre a vasta e complexa agenda da igreja, que, segundo dom Cláudio Hummes, "precisa de uma reforma em todas as suas estruturas".

O papa explicou que "a igreja, embora sendo certamente também uma instituição humana, histórica, com tudo o que isso comporta, não tem uma natureza política, mas essencialmente espiritual".

Os mortais comuns aprendemos a lidar com a política, gostando ou não dela, mas o espiritual é para poucos escolhidos.

O problema é que temas essenciais da agenda da igreja, como o escândalo de pedofilia ou a polêmica em torno do casamento entre pessoas do mesmo sexo, são essencialmente humanos.

O papa precisará mesmo do odor de santidade para levar a cabo o que dom Cláudio definiu como "obra gigantesca" de renovação da igreja. Precisará também da coragem que lhe faltou durante a ditadura militar argentina, como depõe o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel: "Não considero que Jorge Bergoglio tenha sido cúmplice da ditadura, mas creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis".

O passado, portanto, não permite sentir odor de santidade no novo papa, até porque santos se revelam exatamente nos momentos difíceis. No caso da Argentina, durante a ditadura, o que estava em jogo era condenar a barbárie, não calar-se.

Mas é hora de virar a página Bergoglio e abrir a página Francisco. O que começará a dar um rosto -santo ou não- ao novo papado serão as escolhas para os cargos vitais da Cúria, em especial a nomeação para a secretaria de Estado, o segundo cargo no Vaticano -escolha que será todo um programa de governo do novo papa e lhe dará (ou não) os primeiros "odores de santidade".

Fonte:

* Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno "Mundo". É autor, entre outras obras, de "Enviado
Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo" e "O Que é Jornalismo". Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa do caderno "Mundo" e às sextas no site.

17 março 2013

ECONOMIA DO BEM COMUM - MODELO ALTERNATIVO?

       
 1. Quando, perante uma situação insuportável, na Igreja ou na sociedade, no âmbito teológico ou político, se diz que não há alternativa, é sinal de que a ditadura não anda longe. Se não for passagem para uma possível superação, o simples jogo dos “prós e contras” não passa de um entretém. O importante é uma arquitectura que supere e integre o que existe de fecundo entre posições que enlouquecem no isolamento ou no choque frontal.
Na Doutrina Social da Igreja (DSI)[i], o tema do bem comum é incontornável. Para João Paulo II, constituía mesmo o seu ponto-chave.
Para Friedrich A. Hayek, o bem comum é um conceito primitivo que remonta aos instintos ancestrais de tribos de caçadores, no tempo em que as pulsões colectivistas dominavam a consciência humana.
Ao contrário deste célebre autor, a noção de justiça social e de bem comum têm outras fontes, bíblicas e greco-romanas, alimentadas por alguns Padres da Igreja. Tomás de Aquino, na linha de Aristóteles, deu a este conceito a função de princípio da sua arquitectura ético-política.
Já Sto Agostinho[ii] via que a questão social não se resolve com falsos elogios à caridade: “não devemos desejar que haja indigentes para poder exercitar as obras de caridade. Dás pão ao faminto, mas melhor seria que ninguém passasse fome e não fosse necessário socorrer ninguém. […] Todas estas acções são motivadas pela misericórdia. Esquece, porém, os indigentes e logo cessarão as obras de misericórdia; mas acaso se extinguirá a caridade? Mais autenticamente amas o homem feliz a quem não há necessidade de socorrer; mais puro será este amor e muito mais sincero. Porque, se socorres o necessitado, desejas elevar-te acima dele e que ele te fique sujeito, porque recebe de ti um benefício. O necessitado, tu o ajudaste por isso te crês como superior aquele a quem socorreste”.
No pensamento de Tomás de Aquino, recolhido na DSI, o princípio dos princípios é o destino universal dos bens, que não impede a propriedade privada, mas não faz dela um absoluto. É, precisamente, o conceito de bem comum que integra os direitos e os deveres das pessoas, num todo, sem excluir ninguém. Pertence à virtude da justiça garantir que os direitos e deveres de uns não neguem os direitos e deveres de outros.
2. Jacques Maritain[iii] teve o mérito de, nos anos 40, obrigar a debater as relações entre a pessoa e o bem comum, não como excluindo-se, mas como exigindo-se mutuamente. O primado da pessoa é o primado de todas as pessoas, não é o privilégio de algumas. Pertence aos governantes o cuidado do bem comum, para que a política não sirva privilégios, mas a justiça.
Michael Novak[iv], em pleno triunfo do liberalismo, lembrou que a democracia liberal tinha as suas raízes na tradição judaico-cristã e não na teoria racionalista do século XVIII. Pretende que a noção de bem comum é tão familiar aos antigos gregos, aos Padres da Igreja, como à democracia norte americana. Matéria de discussão. De qualquer modo, estamos longe de fazer da noção de bem comum um primitivismo sobrevivendo mal na DSI.
3. Christian Felber[v] é uma personalidade singular. Professor de economia na Universidade de Viena, escreve sobre economia e sociologia, sem deixar de ser bailarino de dança contemporânea. É membro fundador do movimento de justiça global Attac, na Áustria, e iniciador da denominada Banca Democrática. Com um grupo de empresários de sucesso, Felber desenvolveu um modelo conhecido como Economia do Bem Comum ou Economia do bem estar público, como alternativa teórica ao capitalismo de mercado e à economia planificada.
Este tipo de economia deve reger-se por uma série de princípios básicos: confiança, honestidade, responsabilidade, cooperação, solidariedade, generosidade e compaixão, entre outros. Para os seus defensores, as empresas que se guiarem por estes valores deveriam obter vantagens legais que lhes permitissem sobreviver onde imperam as leis do lucro e da competição.
Hoje em dia, mede-se o êxito económico por indicadores monetários: produto interno bruto e lucros que excluem os seres humanos e o seu meio ambiente. Estes indicadores não dizem se há guerra, ditadura, destruição do meio ambiente, etc. De igual modo, uma empresa que obtém lucros – e deve-os obter - não diz em que condições vivem os seus trabalhadores, o que produzem, ou como o produzem.
Pelo contrário, o balanço do bem comum de uma empresa mede-se pelo modo como nela se vive: a dignidade humana, a solidariedade, a justiça social, a sustentabilidade ecológica, a democracia com todos os que nela participam e com os seus clientes.
Tudo isto poderia ser apenas o mundo de boas intenções. As suas realizações em vários países mostram que são possíveis alternativas ao capitalismo de mercado e à economia planificada.
O que Felber diz das abissais desigualdades de salário na Alemanha, onde os altos executivos ganham 5.000 vezes mais do que o salário mínimo legal, deveria ser proibido por lei. Não só na Alemanha. (www.economia-del-bien-comun.org).
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público


[i]  Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Principia, 2005
[ii] Sobre a Epístola de S. João aos Partos, Tratado VIII, nº 5
[iii] La Personne et le Bien commun, 1946
[iv]  Free Persons and the Common Good, Madison Books, 1989
[v]  La economía del bien común, Versão Kindle, 2012

De volta ao sagrado

Acostumados com papas geograficamente distantes, mais figuras míticas do que figuras de carne e osso, a eleição de um papa argentino põe os católicos brasileiros em face de uma proximidade perturbadora. O Cardeal Jorge Mario Bergoglio, eleito com o nome profético de Francisco, é figura central da Igreja Católica na Argentina. Uma Igreja que tem débitos graves com a opinião política e a consciência de seu país pela falta de clareza no seu relacionamento com a ditadura militar, com as prisões, a tortura, os desaparecimentos e mortes até mesmo de religiosos. Uma Igreja de história oposta à da Igreja Católica no Brasil, que não raro abrigou os perseguidos e falou firmemente em nome das vítimas. Igreja que defendeu os índios contra a onda genocida na ocupação da Amazônia, em nome de sua condição humana e de sua diferença antropológica. Igreja que abrigou a causa dos posseiros e dos trabalhadores rurais, alcançados pela onda de desenraizamentos e miséria decorrentes de uma política fundiária perversa. Verso e reverso, a Igreja de lá e a Igreja de cá.
Lá não havia separação entre o Estado e a Igreja, o catolicismo foi religião oficial do Estado até a nova Constituição de 1994. Ao ser economicamente mantida pelo Estado, a Igreja argentina teve seu clero convertido em corpo de funcionários públicos disfarçados. Uma Igreja mutilada e cerceada na vocação profética. Aqui, a República teve a lucidez política de separar o Estado da Igreja.
Provavelmente, Francisco  carregará nos ombros o fardo imenso da falta de clareza de suas ações e omissões durante os anos medonhos da ditadura militar argentina. Mas carregará, também, o belo sentido evangélico da dura repreensão pública que dirigiu aos párocos que se recusam a batizar os bebês extramatrimoniais, os filhos de mães solteiras. Além da crítica aberta ao neoliberalismo e seus devastadores efeitos sociais.
É inútil um acerto de contas com a história pessoal de um homem que morreu ao fim do Conclave para renascer com outro nome na “loggia” da Basílica de São Pedro no começo da noite escura e chuvosa do dia 13 de março e para enfrentar o silêncio da multidão surpreendida pelo inesperado. Porque os papas não nascem papas. É nesses desencontros que se dá o chamamento, é por eles que o Espírito se manifesta, como certeza na contradição. A circunstância, o momento e até o acaso os elegem. Vi, na casa camponesa e pobre em que nascera Angelo Giuseppe Roncali, em Sotto-il-Monte, Bérgamo, Itália, o bilhete ferroviário de volta do Cardeal Patriarca de Veneza, que fora a Roma eleger o sucessor do gélido Pio XII. Descobriu na Capela Sistina que sua viagem era só de ida. Ficou em Roma como Papa João XXIII e ali está sepultado como beato. O Cardeal Albino Luciani, quando assomou ao balcão, minutos após sua inesperada eleição como João Paulo I, disse assustado: “tive medo”. Não fora para ficar.
Francisco é o que será e não apenas o que foi. A circunstância lhe abrirá o caminho desse renascimento. Cada papa se realiza em seu percurso, que é muito mais o da circunstância da História do que o da pessoa. De qualquer modo, leva consigo a herança de uma biografia que o ilumina ou persegue em sua nova identidade. Bergoglio é um cardeal de trajetória diferente: nascido e criado em cortiço, filho de ferroviário, estudou química antes da opção sacerdotal, namorou uma vizinha, lê Dostoiewski, faz sua própria comida, desloca-se em transporte público e esteve do lado errado durante a ditadura. Enfim, tem seus defeitos, o que deve ajudá-lo no destino que o surpreendeu, o de pastor do reencontro da Igreja com sua missão profética.
A adoção do nome do pobre de Assis é coerente com seu modo de vida franciscano. Sugere um retorno ao franciscanismo, à opção pelos pobres. No gesto promissor de inclinar a cabeça e pedir que o povo da praça orasse por ele, para que fosse abençoado, compartilhou a função sacerdotal com os fieis antes de abençoá-los. Indica, assim, sua concepção do sagrado, que pode mudar muita coisa.
Essas reorientações não são escolhas apenas suas. Quando do terremoto de Aquila, Bento XVI ali esteve e foi rezar no túmulo de Celestino V, o papa eremita e pobre que renunciara, escandalizado com os abusos na Igreja, e ali depositou o pálio papal. Uma antecipação fortemente simbólica de sua própria renúncia. Na escolha do Sacro Colégio, é possível ver uma inquietação. No embate entre o monarca e o profeta, entre o poder e o Espírito, aparentemente estamos vivendo mais um episódio histórico do reencontro da Igreja com o sagrado.
O sagrado tem se revelado uma necessidade radical da sociedade contemporânea, sobretudo dos jovens, uma atenuante para a brutalidade de um cotidiano demarcado pela anomia e pela alienação. É no espaço do sagrado que, historicamente, o homem tem se encontrado consigo mesmo. Despedaçado e aniquilado pelas irracionalidades e pela materialidade econômica da vida moderna, busca, conservadoramente, no sagrado a inteireza de um renascimento.

José de Souza Martins*

Publicado em O Estado de S. Paulo
[Caderno Aliás, A Semana Revista],
Domingo, 17 de março de 2013, p. J5.


* José de Souza Martins é sociólogo e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP.
É autor de Exclusão Social e a Nova Desigualdade (Paulus, 2012); Reforma Agrária: o Impossível Diálogo (Edusp, 2002); A Sociedade Vista do Abismo - Novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais, (Vozes,  2012); A Política do Brasil Lúmpen e Místico (Contexto, 2011)

[Novo Papa] A geopolítica do segredo

Passadas as primeiras horas do impacto da eleição do Cardeal Bergoglio de Buenos Aires, das emoções primeiras de termos um papa latino-americano, com expressão amável e cordial a vida presente nos convida a refletir.
Apesar de seu valor, os meios de comunicação têm também o poder de amortizar as mentes e de impedir que perguntas críticas aflorem ao pensamento das pessoas. Nesses dois últimos dias que precederam a eleição papal, muitas pessoas no Brasil e no mundo foram tomadas pelas transmissões em direto de Roma. Sem dúvida um acontecimento histórico desses não se repete todos os meses! Mas, que interesses tiveram as grandes empresas de telecomunicações em transmitir os inúmeros detalhes da escolha do novo Papa? A quem servem os milhões de dólares gastos nas transmissões ininterruptas até a chegada da fumaça branca? Do lado de quem se situam esses interesses? Que interesses tem o Vaticano em abrir as possibilidades para essas transmissões? Essas perguntas talvez inúteis para muitos, continuam a ser significativas para alguns grupos preocupados com o crescimento da consciência humanista de muitos/as de nós.
São em grande parte as empresas de telecomunicações as responsáveis pela manutenção do segredo nas políticas eleitorais do Vaticano. O segredo, os juramentos e as penalidades por não respeitá-los são parte integrante do negócio. Criam impactos e fazem notícia. Não se trata de uma tradição secular sem conseqüências para a vida do mundo, mas de comportamentos que acabam viciando a busca de diálogo entre os grupos ou excluindo grupos de um necessário diálogo. Nenhuma crítica a esse sistema perverso que continua usando o Espírito Santo para a manutenção de posturas ultraconservadoras revestidas de ares de religiosidade e bondosa submissão é feito. Nenhum espaço para que vozes dissonantes possam se manifestar mesmo com o risco de serem apedrejadas é aberto na oficialidade das transmissões. Uma ou outra vez se percebe uma pequena ponta crítica se esboçando, mas logo é abafada pelo "status quo” imposto pela ideologia dominante. Do novo papa Francisco se contou que usava transportes públicos, estava próximo dos pobres, fazia sua comida e que a escolha desse nome o assemelhavam ao grande santo de Assis. Foi imediatamente apresentado como uma figura simples, cordial e simpática. Na imprensa católica nada se falou das suspeitas de muitos em relação a sua postura nos tempos da ditadura militar, de suas atuais posturas políticas, de suas posições contrárias ao matrimonio igualitário, ou mesmo contra o aborto legal. Nada se falou de suas conhecidas críticas em relação à teologia da libertação e de seu desinteresse pela teologia feminista. A figura bondosa e sem ostentação eleita pelos cardeais assistidos pelo Espírito Santo encobriu o homem real com suas inúmeras contradições. Hoje os jornais (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo) delinearam perfis diferentes do novo papa e temos uma percepção mais realista de sua biografia. Além disso, foi possível intuir que sua eleição é sem dúvida parte de uma geopolítica de interesses divididos e de equilíbrio de forças no mundo católico. Um artigo de Julio C. Gambina da Argenpress publicado via internet ontem (13 de março de 2013) assim como outras informações enviadas por grupos alternativos da Nicarágua, Venezuela, Brasil e, sobretudo da Argentina confirmaram minhas suspeitas. A cátedra de Pedro e o Estado do Vaticano devem mover suas pedras no xadrez mundial para favorecer as forças dos projetos políticos do norte e dos seus aliados do sul. O sul foi de certa maneira co-optado pelo norte. Um chefe político da Igreja, vindo do sul vai equilibrar as pedras do xadrez mundial, bastante movimentadas nos últimos anos pelos governos populares da América latina e pelas lutas de muitos movimentos entre eles os movimentos feministas do continente com reivindicações que atormentam o Vaticano. Se, é no sul que alguma coisa nova está acontecendo politicamente nada melhor do que um papa do sul, um latino-americano para enfrentar esse novo momento político e conservar as tradições da família e da propriedade intactas. Sem dúvida uma afirmação desse tipo quebra o encanto do momento da eleição e a emoção de ver a multidão na Praça de São Pedro irrompendo em aplausos e gritos de alegria diante da figura do papa Francisco. Muitos dirão que essas críticas tiram a beleza de um acontecimento tão emocionante quanto a eleição de um papa. Talvez, mas creio que são críticas necessárias.
A tão badalada preservação da evangelização como prioridade da Igreja parece ser a preservação de uma ordem hierárquica do mundo onde as elites governam e os povos aplaudem nas grandes praças públicas, se emocionam, rezam e cantam para que as bênçãos divinas caiam sobre as cabeças dos novos governantes político-religiosos. O mesmo catecismo com poucas variações continua a ser reproduzido. Não há reflexão, não se despertam as consciências, não se convida ao pensamento, mas a conservação de uma doutrina quase mágica. Por um lado é a sociedade do espetáculo que nos invade para que entremos na disciplina da ordem/desordem contemporânea com certa dose de romantismo e por outro a sociedade assistencialista identificada à evangelização. Sair às ruas para dar de comer aos pobres e rezar com os prisioneiros embora tenha algo de humanitário não resolve o problema da exclusão social presente nos muitos países do mundo.
Escrever sobre a "geopolítica do segredo” em tempos de euforia mediática é como estragar a festa dos vendilhões do Templo felizes com suas barracas cheias de terços, escapulários, vidros de água benta e imagens grandes e pequenas de muitos santos. O problema é que se abrimos o segredo desmancha-se o charme da fumaça branca, se quebra o suspense de um conclave secreto que fecha ao povo católico o acesso às informações às quais temos direito, se desnudam os corpos purpurados com suas histórias tortuosas.
Quebrar o segredo é quebrar a falsidade do sistema político-religioso que governa a Igreja Católica Romana. É tirar as máscaras que nos sustentam para afinal abrir nossos corações para a real interdependência e responsabilidade entre todos nós. Os jogos de poder são cheios de astúcias, ilusões e até de boa fé. Somos capazes de nos impressionar com um gesto público de carinho ou de simpatia sem nos perguntarmos sobre o que de fato constituiu a história dessa pessoa. Nem nos perguntamos sobre as ações de seu passado, de seu presente e suas perspectivas de futuro. É apenas o momento da aparição da figura simpática vestida de branco que nos impressiona. Somos capazes de nos emocionarmos frente a um carinhoso "bona cerra” papal (boa noite) e irmos para cama como crianças bem comportadas abençoadas pelo bondoso papai. Já não somos mais órfãos visto que a orfandade paterna numa sociedade patriarcal é insuportável mesmo por poucos dias.
Nós somos cúmplices da manutenção desses poderes tenebrosos que nos encantam e nos oprimem ao mesmo tempo. Nós, sobretudo os que têm mais lucidez nos processos políticos e religiosos, somos responsáveis pela ilusão que esses poderes criam na vida de milhares de pessoas, sobretudo veiculadas pelos meios de comunicação religiosos. Somos capazes de nos enternecer de tal forma que nos esquecemos dos jogos do poder, das manipulações invisíveis, da arte teatral cultivada e tão importante nessas ocasiões.
Não podemos fazer previsões sobre os rumos do futuro da governança da Igreja Católica Romana. Mas à primeira vista não parece que podemos esperar grandes mudanças nas estruturas e políticas atuais. As mudanças significativas virão se as comunidades cristãs católicas assumirem de fato a direção do presente do cristianismo, ou seja, se elas forem capazes de dizer a partir das necessidades de suas vidas como o Evangelho de Jesus poderá ser traduzido e vivido em nossas vidas hoje.
A geopolítica do segredo tem interesses altíssimos a defender. É parte de um projeto mundial de poder aonde as forças da ordem se vêm ameaçadas pelas revoluções sociais e culturais em curso em nosso mundo. Manter o segredo é justificar que há forças superiores às forças históricas da vida e que estas são mais decisivas que os rumos que podemos dar à nossa luta coletiva por dignidade, pão, justiça e misericórdia em meio aos muitos reveses e tristezas que nos acometem em meio do caminho.
Termino essa breve reflexão na esperança de que possamos não apagar a luz da liberdade que vive em nós e seguirmos bebendo das fontes de nossos sonhos de dignidade com lucidez sem nos impressionarmos com as surpresas que podem parecer grandes novidades. Afinal é apenas mais um papa que inscreve seu nome nessa instituição que apesar de sua história de altos e baixos mereceria ser transformada e repensada para os dias de hoje.
Mudanças podem sempre acontecer e é preciso estar abertos aos pequenos sinais de esperança que irrompem por todos os lados mesmo das instituições as mais anacrônicas de nosso mundo.

14.03.13 - Mundo
Ivone Gebara
Escritora, filósofa e teóloga
Adital


16 março 2013

‘Habemus Papam’: Francisco

O papa Francisco – nome adotado pelo cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio - ao ser eleito novo chefe da Igreja Católica terá pela frente difíceis desafios. O maior deles, imprimir colegialidade ao governo da Igreja e reformar a Cúria Romana.

Para mexer nesse ninho de cobras, terá de remover presidentes de congregações (que, no Vaticano, equivalem a ministérios) e nomear para dirigi-las prelados que, hoje, vivem fora de Roma e são, portanto, virtualmente imunes à influência da "famiglia curiale”, a que, de fato, exerce o poder na Igreja.

Para modificar a estrutura monárquica da Igreja, Francisco terá de repensar o estatuto das nunciaturas, valorizar as conferências episcopais e o sínodo dos bispos e, quem sabe, criar novas instituições, como um colégio de leigos capaz de representar a Igreja como Povo de Deus, e não como sociedade clericalizada pretensamente perfeita.

Não será surpresa se, em breve, o novo papa promover o seu primeiro consistório, elevando ao cardinalato bispos e arcebispos dos cinco continentes (e talvez até padres e leigos, os chamados "cardeais in pectore”, que não são de conhecimento público).

Tal iniciativa deverá incluir o atual arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. Paira certa incongruência no fato de a arquidiocese carioca não ter, há anos, cardeal titular, como há em São Paulo. Sobretudo considerando que o Rio acolherá, em julho próximo, a Jornada Mundial da Juventude, à qual o novo pontífice estará presente.

A imagem da Igreja Católica está manchada, hoje, por escândalos sexuais e falcatruas financeiras. Não se espere do novo papa atitudes ousadas enquanto Bento XVI lhe fizer sombra na área do Vaticano. Mas seria uma irresponsabilidade o papa Francisco não abrir, no interior da Igreja, o debate sobre a moral sexual.

Nesse tema, são muitas as questões a serem aprofundadas, a começar pela seleção dos candidatos ao sacerdócio. Já há uma instrução de Roma aos bispos para que não sejam aceitos jovens notoriamente afeminados – o que me parece uma discriminação incompatível com os valores evangélicos. Equivale a impedir o ingresso na carreira sacerdotal de candidatos heterossexuais dotados de uma masculinidade digna de Don Juan.

O problema não é questão de aparência, e sim de vocação. Se a Igreja pretende ampliar o número de padres terá que, necessariamente, retomar o padrão dos seus primeiros séculos e distinguir vocação ao sacerdócio de vocação ao celibato.

Aqueles que se sentem em condições de se abster de vida sexual (já que apenas aos anjos é dado prescindir da sexualidade) devem abraçar a via monástica, religiosa, ainda que alguns se tornem sacerdotes para o serviço comunitário. Já ao clero diocesano seria facultado escolher a vida matrimonial, como ocorre hoje nas Igrejas ortodoxa e anglicana, e com os pastores de Igrejas protestantes.

O caminho mais curto e mais sábio seria o papa admitir a reinserção de padres casados no ministério sacerdotal. Eles são milhares. No mundo, calcula-se cerca de 100 mil; no Brasil, 5 mil. Muitos gostariam de voltar ao serviço pastoral com direito a administrar sacramentos e celebrar missa.
A medida mais inovadora seria permitir o acesso de mulheres ao sacerdócio. Não há precedente na história da Igreja, exceto em países socialistas onde, clandestinos, bispos despreparados ordenaram mulheres cujo sacerdócio, ao vir à lume, não foi reconhecido por Roma.

Nos evangelhos há mulheres notoriamente apóstolas, embora não figurem na lista canônica dos doze apóstolos. Em Lucas 8, 1, constam os nomes de mulheres pertencentes à comunidade apostólica de Jesus: Maria Madalena, Joana, Susana "e várias outras”.

A samaritana (João 4) foi apóstola, no sentido rigoroso do termo – a primeira pessoa a anunciar Jesus como o Messias. E Maria Madalena, a primeira testemunha da ressurreição de Jesus.

Facultar às mulheres o acesso ao sacerdócio implica modificar um dos pontos mais anacrônicos da ortodoxia católica, que ainda hoje considera a mulher ontologicamente inferior ao homem. É a famosa pergunta em aula de teologia: pode o escravo se tornar padre? Sim, desde que liberto, pois como homem goza da plenitude humana. Já a mulher, ser inferior ao homem, está excluída desse direito, pois não goza da plenitude humana.

Outros desafios se apresentam ao novo papa, como o diálogo inter-religioso. Nos últimos pontificados Roma deu passos significativos para melhorar as relações do catolicismo com o judaísmo, levando o papa a visitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém, e isentando os judeus da pecha de assassinos de Jesus.

No entanto, retrocedeu quanto à relação com os muçulmanos. Em sua visita à Universidade de Regensburg, na Alemanha, em 2006, Bento XVI cometeu a infelicidade de citar uma história do século XIV em que o imperador bizantino pede a um persa que lhe mostre "o que Maomé trouxe de novo, e você só encontrará coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que pregava". Embora a intenção do papa fosse condenar o uso da violência pela religião –no qual a Igreja da Inquisição foi mestra– a comunidade islâmica, com razão, se sentiu ofendida.

Ao visitar os EUA, em 2008, Bento XVI esteve numa sinagoga de Nova York, sem, no entanto, dirigir-se a uma mesquita, o que teria demonstrado sua imparcialidade e abertura à diversidade religiosa, além de combater o preconceito estadunidense de que muçulmano rima com terrorista.

Há que aprofundar o diálogo com as religiões do Oriente, como o budismo e as tradições espirituais da Índia. E buscar melhor aproximação com os cultos animistas da África e os ritos indígenas da América Latina.

É chegada a hora de a Igreja Católica admitir a pertinência das razões que provocaram sua ruptura com as Igrejas Ortodoxas e a de Lutero com Roma. E, num gesto ecumênico, buscar a unidade na diversidade, de modo a testemunharem uma única Igreja de Cristo.

Convém reconhecer, como propõe o Concilio Vaticano II, que as sementes do Evangelho vigoram também em denominações religiosas não cristãs, ou seja, fora da Igreja Católica há sim salvação.

O papa Francisco terá que optar entre os três dons do Espírito Santo oferecidos aos discípulos de Jesus: sacerdote, doutor ou profeta. A ser um sacerdote como João Paulo II, teremos uma Igreja voltada a seus próprios interesses como instituição clerical, com leigos tratados como ovelhas subservientes e desconfiança frente aos desafios da pós-modernidade.

A ser um doutor como Bento XVI, o novo pontífice reforçará uma Igreja mais mestra do que mãe, na qual a preservação da doutrina tradicional importará mais do que encarnar a Igreja nos novos tempos em que vivemos, incapaz de ser, como São Paulo, "grego com os gregos e judeu com os judeus”.

Assumindo seu múnus profético, como João XXIII, o papa Francisco se empenhará numa profunda reforma da Igreja, para que nela transpareça a palavra e o testemunho de Jesus, no qual Deus se fez um de nós.

"Habemus papam!” Já sabemos quem: Francisco. É a primeira vez na história que um papa adota o nome daquele que sonhou que a Igreja desabava e cabia a ele reconstruí-la. O tempo dirá a que veio.

Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais

[Frei Betto é escritor, autor de "A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. http://www.freibetto.org/ - twitter:@freibetto.Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].
in Adital

14.03.13 - Mundo

The real winner of the 2013 conclave: St. Francis of Assisi


          
Although 76-year-old Cardinal Jorge Mario Bergoglio of Buenos Aires was the one who stepped out onto the balcony overlooking St. Peter's Square clad in white Wednesday night, there's a good argument that the real winner of the 2013 conclave wasn't in Rome, and wasn't even alive to see the result.
In effect, the landslide winner was actually St. Francis of Assisi.
The case for the 2013 papal election as a tribute to the most iconic saint in Catholic tradition rests on three points.
The O'Malley boom
The biggest surprise of the pre-conclave period was the emergence of Cardinal Sean O'Malley of Boston as a crowd favorite. As I said during CNN's broadcast of the Mass Pro Eligendo Romano Pontifice, if the custom of papal election by popular acclamation were still around, it's entirely possible O'Malley might be the one sitting on the Throne of Peter.
O'Malley was the runaway winner of an online poll for the next pope sponsored by the Italian newspaper Corriere della Sera, reflecting popular sentiment in Italy. In the week prior to the opening of the conclave, I couldn't get into a cab, walk into a restaurant or return to my hotel without some Italian volunteering the opinion that the 68-year-old Capuchin with the brown habit and the beard would be a great choice.
As that buzz began to build, most media commentators assumed it was based on O'Malley's profile as a reformer on the church's clerical abuse scandals. When you asked typical Italians, however, that's not usually where they began. The first thing they would usually say is O'Malley is a Franciscan and therefore a "man of the people."
Franciscans are rock stars in Italy and always have been. In the popular imagination, they're the polar opposite of stereotypes of princes of the church hungry for wealth, power and control. Franciscans are perceived as simple, humble men, able both by word and deed to connect with the hopes and dreams of ordinary folks.
The O'Malley boom illustrated that what the Catholic "street" wanted was a new Francis, a pope to bring his love affair with "Lady Poverty" to the church's highest office.
(Some observers suggested O'Malley became a sensation because he reminded people of Padre Pio, the famed Capuchin visionary and stigmatic. Padre Pio certainly packs a punch in the culture, but he's beloved because he incarnated the spirit of Francis of Assisi.)
The choice of name
When Bergoglio was announced, commentators immediately seized on several surprising aspects of the result:
  • He had not been identified as one of the leading candidates heading into the conclave.
  • He's the first pope from outside Europe in at least 1,000 years, depending on how one defines "Europe."
  • He's the first pope from Latin America.
  • He's the first Jesuit pope.
Those are all noteworthy points, but the most arresting thing about the new pope is his decision to take the name of Francis in honor of the great patron of the earth, of simplicity and of the poor.
In itself, the selection of Bergoglio rates as surprising but not stunning. He wasn't on anybody's "A list" of papal candidates, and cardinals themselves have said they didn't go into the conclave thinking he was the clear choice. Yet he was there in the background, lurking on most B and C lists, especially since he drew strong support back in 2005.
(As a footnote, Time magazine touted me in a March 14 piece as "the man who picked the pope" because I published a profile of Bergoglio in my "Papabile of the Day" series March 3. In truth, I profiled more than 20 contenders and styled Bergoglio as a definite fallback possibility. I had him on the list, but not at the top.)
It wasn't much of a surprise that the cardinals turned to a non-European and a Latin American, since many of them had said out loud that's what they wanted. As for picking a Jesuit, there have been other popes from religious orders, and sooner or later, it was bound to fall on the Society of Jesus.
The name, however, was a stunner.
No matter how long his papacy lasts, the new pontiff's very first decision will probably rate as among his boldest. Over the years, I've talked to historians of the papacy who regarded "Francis" as a name no pope could, or should, ever take. It's like "Jesus" or "Peter," they argued -- there's only one, so it would be borderline sacrilegious for a pope to claim it for himself.
On TV, I tried to explain what the name "Francis" conjures up in the Catholic imagination. For most Catholics, I said, there are two faces of the church. There's the institutional church, with its rules and dogma, its wealth and power, its hierarchical chain of command. Then there's the church of the spirit, a humble and simple community of equals with a special love for the least of this world. Ideally, the two go together, but in any case, they're distinct.
By taking the name "Francis," the pope effectively said the spirit of that second face of the church needs to shine through anew in the first.
Already, the new pope has sent small but unmistakable signals that simplicity and humility will be hallmarks of his reign: asking the crowd in the square to bless him before he blessed them; dropping by his Roman hotel to pay his bill; taking the bus with the cardinals as they left the Casa Santa Marta rather than the usual papal limousine. His first act after donning his papal vestments and returning to the Sistine Chapel wasn't to plant himself on the papal throne, but to walk over to 76-year-old Cardinal Anthony Okogie of Nigeria, who entered the conclave in a wheelchair, and give him a special greeting.
What has made this pope an early hit, in other words, is the sense that Francis is more than a name, but rather a statement about the kind of pope he wants to be.
(There was some early confusion about whether the pope meant to honor Francis of Assisi or St. Francis Xavier, the great Jesuit missionary. The cardinals later explained that when Bergoglio announced his name inside the Sistine Chapel, he added that he did so in honor of Francis of Assisi.)
A mandate for reform
Heading into the conclave, an anti-establishment mood was clear among many of the cardinals who were preparing to elect a successor to Benedict XVI. The diagnosis was that Benedict's support team had dropped the ball over the last eight years in terms of business management and the cardinals were looking to shake things up.
In part, that voter discontent expressed itself as a strong bias against any Italian candidate. One cardinal told me on background that in a different conclave, Angelo Scola of Milan might well have been elected pope, but in this atmosphere, no Italian was going to get 77 votes.
(As a humorous aside, the Italian bishops' conference accidentally sent out an email moments after the "Habemus papam" announcement congratulating Scola. The gaffe will go down as their "Dewey Defeats Truman" moment.)
Over and over, cardinals said they wanted a serious reform of the Roman Curia, pushing it toward greater transparency, accountability and efficiency.
At the same time, they knew they weren't just hiring a CEO. Better business management in the church is important, but somehow it must be grounded in the Gospels. That's the sense in which St. Francis was a great reformer, the one whom God asked to "rebuild his church," and reform in this Franciscan sense is what the cardinals seem to be hoping "Papa Bergoglio" can deliver.
Henri De Lubac once wrote that the difference between St. Francis and Martin Luther is the difference between a reform aimed at holiness and a reform aimed at criticism. In choosing Bergoglio, the cardinals seem to have opted for the former.
Whether the new pope can pull it off is anyone's guess. The cardinals thought they were voting for reform eight years ago when they elected Joseph Ratzinger, a man who was in the Roman Curia but not of it. It didn't play out that way, and now the cardinals have turned to another pope well into his 70s, this time a true outsider.
The former pope embraced Benedict as his patron, signifying a scholarly and quasi-monastic style. This pope has chosen Francis, suggesting an earthier and more popular way of living the faith, one that emphasizes closeness to the poor. Both Benedict and Francis were great reformers, but the approach is different.
Francis in the streets, Francis in the new pope's name, and Francis in the mandate the pope has been issued. All in all, not a bad month for the "little poor man" of Assisi. Now the spotlight shines on the pope who carries his name and all the expectations it arouses.
in NCR

[John L. Allen Jr. is NCR senior correspondent. His email address is jallen@ncronline.org. Follow him on Twitter @johnlallenjr.]

UM NOVO PAPA

     
1. Desde o passado dia 13, o Vaticano tem novo inquilino. Surgiu à janela o primeiro Papa jesuíta, vestido de dominicano, com nome franciscano, muito bem-disposto, feliz pelo ministério que lhe foi confiado, sem a estola do poder e, antes de distribuir bênçãos, pediu para ser abençoado.
Na Companhia de Jesus, aliás, como nas outras ordens religiosas, apesar do que se diz, os seus membros não são todos clonados. Conhecer um, não é conhecer todos. Como dizia um jesuíta brasileiro meu amigo, eu trabalho com os pobres contra a opressão de que são vítimas. Outros ensinam nos colégios e nas universidades donde não sairão necessariamente os defensores dos excluídos.
Mário Jorge Bergoglio nasceu em 1936. Prestou relevantes serviços à Companhia de Jesus, na Argentina, foi Provincial num tempo terrível de ditaduras militares e da louca história dos desaparecidos e despejados de helicóptero, no alto mar. Essa história envolveu muitas figuras da Igreja, embora ainda esteja escrita debaixo das emoções de terríveis memórias. Não é de admirar que o comportamento de Bergoglio possa, agora, voltar a ser evocado, por motivos evidentes, sem a devida distância, para uma apreciação isenta.
2. O novo Papa conhece bem não só a Argentina, mas toda a América Latina e os seus problemas sociais, económicos, políticos e religiosos. Não é, porém, uma pessoa que vem do fim do mundo e se encontra, de repente, no Vaticano.
Como cardeal fez parte da Comissão para a América Latina, da Congregação para o Clero, do Pontifício Conselho para a Família, da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, do Conselho Ordinário da Secretaria-Geral para o Sínodo dos Bispos, da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica.
O Papa Francisco está, por isso, em condições excelentes para conhecer os métodos usados no Vaticano para conhecer o mundo e governar a Igreja, mas também sabe de que se queixam os que, noutros Continentes, a começar pela América Latina, não se sentem representados pela engrenagem da Cúria. Não pode fingir que ignorava a complexidade da problemática que o espera e as limpezas que tem de fazer no Vaticano, para que este não continue a escandalizar o mundo.
3. O despojamento com que se apresentou e o nome que escolheu podem sugerir que não vai entrar no jogo do culto da personalidade, nem vai ceder à “papolatria”, nem a designações que o afastem da figura de “servo dos servos de Deus”. A Igreja não é dele, nem ele é a Igreja. Tem, com os outros bispos do mundo inteiro e os seus padres, de servir um povo sacerdotal, profético, livre, composto de mulheres e homens, chamados todos à transformação da vida e à transfiguração da Terra.
Tem muito que fazer, pode contar com o Espírito Santo e com a oração da Igreja inteira. A oração não é para convencer o Espírito Santo, nem para O responsabilizar por tudo o que acontece na condução da Igreja. Os Papas também se confessam. Essa beatice seria, aliás, um mau serviço a Deus e ao Papa. A oração é para nos abrir ao desígnio libertador de Deus e escutar o rumor do mundo.
4. Há, de certeza, muita gente que está de acordo, outra em desacordo e, outra ainda, de acordo numas coisas e noutras não, acerca de tudo o que consta sobre as posições teológicas, éticas e pastorais do novo Papa. Não sei como poderia ser de outra maneira. Será importante que não use o seu ministério para levar avante as suas convicções pessoais e o que julga que é a sã doutrina. Seria terrível que não tivesse convicções profundas e bem alicerçadas, para não andar ao sabor da moda.
Todos os cristãos recebem, no baptismo, uma unção nos ouvidos e na boca. Há mais ouvidos do que boca. Este Papa será fiel ao Vaticano II se adoptar o método de João XXIII. Não é para repetir o que aconteceu há cinquenta anos. É para algo que um célebre Cardeal jesuíta, Carlo Maria Martini, Arcebispo de Milão, desejava que o próprio Bento XVI tivesse realizado: um novo Concílio. É preciso colocar a Igreja inteira, em todos os continentes, países, dioceses, paróquias e movimentos a escutarem a voz de Deus nos sinais dos tempos e na voz de todos os seres humanos, nas suas alegrias, nas suas tristezas, nas suas esperanças e nos seus desesperos. Não importa se um processo destes vai levar muito ou pouco tempo, pois o próprio processo é um caminho de fé e de nova evangelização. O Papa ao visitar os países, as dioceses, as paróquias, deve dispensar os gastos e o espavento das habituais viagens de um chefe de estado.
      Se são visitas pastorais, siga o estilo sugerido pela metáfora do Bom Pastor.
      Frei Bento Domingues, O.P.
      in Público