14 abril 2013

O SER HUMANO NÃO TEM CURA

1. Hoje, na Europa, já não temos religião cristã suficiente para a culpar de todos os nossos males. A repetida e gasta retórica da “morte de Deus” também já não assusta nem seduz. Decretou-se, em nome da autonomia da razão, que o ser humano, ser de relações múltiplas, deve viajar sozinho e por sua conta e risco.

Acentuou-se, desde o humanismo dos séculos XV e XVI, a viragem antropológica que atingiu na modernidade, com o proclamado acesso do ser humano à idade adulta (I. Kant), uma confiança muito celebrada e algo exagerada na ideologia do imparável “progresso”, entretanto sob acusação. Foram as próprias ciências humanas que acabaram por humilhar o “narcisismo do homem”, na expressão de S. Freud. A cosmologia mostrou a sua condição periférica e a biologia fez dele apenas o resultado da evolução da vida; para a sociologia, não vai além do resultado das condições sociais e para a psicologia, são as pulsões inconscientes que o comandam. É, afinal, a vaidade de pouca coisa.

Além do mais, o ser humano, embora tenha chegado muito tarde ao palco do mundo, pelos crimes que junta às suas grandes realizações, não pode esperar ser o último a desaparecer. Ao mostrar-se mais apressado em criar problemas a si mesmo e à natureza do que em curar a sua persistente vontade de dominação destruidora, sobretudo pela sua falta de sabedoria, parece uma espécie sem remédio. Ao consentir na transmutação de todos os valores, afunda-se no niilismo, na “morte do homem” e pensa numa saída pela porta do “pós-humano”. O recurso da falta de sentido da boa medida é o delírio, às vezes, perigoso.
            
2.Vivemos hoje, a muitos níveis, num clima paradoxal. Crescem, por um lado, universidades, centros de investigação científica partilhada e redes culturais que, todos os dias, nos revelam imagens maravilhosas dos êxitos das tecnociências. Por outro, guerras e ameaças de guerra multiplicam as  tragédias e misérias. As ameaças nucleares, reais ou fictícias, ajudam a encobrir a vergonhosa expansão de negócios das armas.

Quando se pensava que a Europa tinha optado definitivamente pela rota da cooperação e da paz, deparamos com o regresso da desconfiança, de velhos ressentimentos, com o retorno aos nacionalismos fatais, à desagregação que anunciam o caos, se nada de substancial for feito a tempo. A propaganda, os caminhos e os processos que levaram à União Europeia fizeram sonhar com o paraíso.

Imaginar, pensar e construir um projecto de integração tão espantoso e tão difícil exigia lucidez e sabedoria política para integrar, sem esmagar povos de histórias e culturas tão diferentes, e não apenas saídas de burocracias míopes. A moeda única não pode, só por si, gerar automaticamente o “espírito europeu”. 

Sem a criação contínua da Europa, como empreendimento de sabedoria, de ética e beleza, todos passarão a colocar na balança apenas o que cada país tem a ganhar ou perder em euros. Ao esquecer no sótão da sua construção o horizonte e a alma da paz que a suscitou, a Europa perde--se na hegemonia dos interesses de uma Alemanha com pouco respeito pela memória das vítimas da sua loucura colectiva. Não muito longínqua.

Tive a consolação de ler, na semana passada, um texto luminoso de Maria João Rodrigues, “Que mensagem para a Europa?” (Público,10.04). Não é, apenas, um contributo para a unidade dos europeus. É também uma serena e integradora mensagem para que a nossa política governamental não dispense os portugueses. Por outro lado, o poder europeu e a troika podem exigir de nós rigor, mas sem nos esmagar. No artigo referido, competência é irmã da sabedoria.
       
3. É velha, revelha e mítica, a alternância entre projectos megalómanos e a depressão. A divina exaltação do ser humano (Gn 1, 1-31) acabou num desastre de tais dimensões que o próprio Deus já não sabia o que fazer. “O Senhor reconheceu que a maldade dos homens era grande na Terra, que todos os seus pensamentos e desejos pendiam sempre para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o Homem sobre a Terra, e o seu coração sofreu amargamente. O Senhor disse: eliminarei da face da Terra o Homem que Eu criei e, juntamente com o Homem, os animais domésticos, os répteis e as aves dos céus, pois estou arrependido de os ter feito” (Gn 6, 5-8). Arrependido, mas não desesperado. Tinha uma estratégia alternativa, pois Noé era agradável aos olhos do Senhor (Gn 6, 9). Com a arca começou outra história e renovou-se a Aliança.

A Bíblia tem duas narrativas da criação. São narrativas poéticas que não pretendem explicar o mundo, mas sugerir, de forma muito bela, o seu sentido. A ciência, pelo contrário, fala de processos naturais. Apresenta a evolução como fruto de adaptações e mutações, não sendo fruto do azar, mas da selecção natural.

Só quem não consegue distinguir poesia e ciência pode ver contradições onde, de facto, não existem.

O grande conflito que atravessa todo o AT é teológico. O ser humano não é Deus nem seu rival, é criatura. Precisa de sabedoria, do sentido da boa medida, na relação com a natureza e com os outros, para não cair na loucura. A ordem para não comer da “Árvore da Vida”, é para não comer da árvore do veneno. É dizer que não vale tudo. O ser humano tem cura, se tiver juízo.

Frei Bento Domingues, O.P.

14 de Abril de 2013
in Público

07 abril 2013

A RESSURREIÇÃO CONTINUA

1. Desde a sua eleição, a 13 de Março 2013, o Papa Francisco alterou as espectativa sobre a renovação da Igreja. Do Vaticano, nos últimos anos,  só chegavam más notícias. Bento XVI, em vez de varrer a Cúria, trabalhava na sua obra teológica, depois de  ter silenciado a dos outros.
Se não for travado e não for uma táctica, o caminho do Papa Francisco pode trazer boas surpresas. A começar pelo próprio nome. Não passa  pela cabeça a ninguém que a figura de S. Francisco de Assis possa abençoar aquela Cúria,  as suas intrigas palacianas  e as supostas lavagens de dinheiro. O nome de um poeta anarquista e maltrapilho para nome de Papa romano roça o surrealismo. 
Não foi apenas a displicência em relação a vestes, sapatos e cerimoniais consagrados que  ressuscitou a intuição de João XXIII e João Paulo I. Foram iniciativas concretas, a partir da periferia, que indicaram que não se estava apenas  a procurar uma Igreja pobre para os pobres, mas que a igreja não existe para si mesma. O seu lugar é fora de portas.
A 5ª Feira Santa, consagrada a exaltar a instituição da Eucaristia e a ordenação sacerdotal, excluia a presença de mulheres. O próprio lava-pés, reproduzindo, de forma fundamentalista, a referência aos 12 apóstolos, canonizava uma interpretação clerical e não  exprimia a radicalidade do gesto de Jesus. A tranferência desta celebração da Basílica para o centro de correcção juvenil Casal del Marmo, a norte de Roma, onde se encontram detidos 46 jovens, estrangeiros, muçulmanos e ateus, é verdadeiramente pascal: no simbólico número doze há duas mulheres entre os apóstolos. É a destruição de um mito.
2. Goste-se ou não, as celebrações da Páscoa obrigam os cristãos a confrontarem-se com um fenómeno insólito, que sempre procuraram disfarçar. As narrativas da Ressurreição foram todas escritas por homens, atribuídas a Mateus, Marcos, Lucas e João. Era de supor que o maior destaque fosse dado aos apóstolos, mas não é. São as mulheres que recebem o encargo de os evangelizar, de lhes anunciar o que há de mais importante no Evangelho, a ressurreição.
Este é o facto. Não basta dizer que Cristo assim quis e pronto. Seria o elogio da arbitrariedade. Ele devia ter as suas razões para agir deste modo. Quais poderiam ser? 
Foi Jesus que escolheu e chamou os seus discípulos. Acabou por descobrir que eles não O entendiam, nem estavam interessados no seu projecto. No Evangelho de S. Marcos, a grande discussão que os animava, no âmbito da tomada do poder, centrava-se na distribuição de lugares. (Mc 4, 34 par.). Dois deles encheram-se de coragem e colocaram ao Mestre as suas exigências: quando triunfares, como rei messiânico, nós queremos os dois primeiros lugares. Esta pressa produziu uma grande indignação nos outros. Depois de uma reunião, receberam todos a mesma resposta: aquele que quiser ser o primeiro, de entre vós, seja o servo de todos (Mc 10, 35-45). 
Alimentaram sempre a esperança de que Jesus acabaria por perceber que esse rumo só o podia levar ao desastre. Pedro tentou, até à última, mostrar-lhe que tinha mesmo de mudar.
Os apóstolos, quando viram o Mestre derrotado na cruz, aperceberam-se de que tinham andado enganados. Acabara-se o tempo das ilusões e cada um voltou à sua vida. Já tinham perdido muito tempo.
3. Segundo os quatro Evangelhos, as mulheres nunca foram chamadas para o discipulado. Seguiram Jesus, por sua própria iniciativa, descobrindo que por ali corria a vida verdadeira e liberta. Nunca pediram nada em troca do muito que fizeram a Jesus e ao seu movimento. Andavam e serviam por puro amor (Lc 7-8).
A mulher, por ser mulher, na sociedade em que Jesus nasceu e foi educado, não contava - “não contando mulheres e crianças” - e, no casamento, estava dependente da vontade do marido. O estatuto da mulher dependia do homem (Mt 19).
Seria anacrónico dizer que Jesus era um feminista e inscrevê-lO num movimento nascido nos finais do século XIX. A questão não é essa. Apesar da missão que lhes foi confiada nas narrativas da ressurreição, teima-se em negar às mulheres, por serem mulheres, qualquer papel na Igreja, privilegiando sempre os homens. Não é muito difícil perceber porquê.
Aquilo que Jesus exigia aos discípulos, a disponibilidade para o serviço, não o conseguiu, como vimos. Com aquelas mulheres Jesus nunca teve esse problema. As que O seguiram nunca Lhe faltaram. Nunca pediram nem esperaram nada em troca. Não foram, apenas, testemunhas do seu percurso até Calvário. Não O largaram mesmo no sepulcro, quando tudo parecia perdido. Deixaram-se seduzir e isso lhes bastou. Jesus e o seu projecto passaram a fazer parte das suas vidas, para sempre.
É fácil de perceber que era com mulheres desta têmpera que o Ressuscitado poderia contar para converter os discípulos ao caminho do serviço gratuito. Mesmo depois da ressurreição, o que continuava a interessar os Apóstolos era o poder. Foram directos ao assunto. Jesus não se deixou impressionar, colocou este caso nas mãos do Pai e do Espírito Santo e uma nuvem o ocultou (Act 1, 6).
Frei Bento Domingues
in Público

27 março 2013

Celebrando o dia da Anunciação de Nossa Senhora


        Palavras de abertura na sessão de Poesia

Na minha qualidade de membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, cabe-me agradecer muitíssimo ao Pe Tolentino de Mendonça, cuidador e animador deste espaço mítico conhecido como a Capela do Rato. Espaço aberto às muitas moradas que tem a Igreja e que o Pe Tolentino respeita e acolhe, estando sempre atento aos sinais dos tempos. Assim aceitou com entusiasmo a ideia que lhe foi proposta pela Leonor Xavier – ou seja organizar uma sessão de poesia em que evocamos e celebramos as mulheres como Povo de Deus - a sua criatividade, a sua liberdade, a sua capacidade. Também eu agradeço a todas as que aceitaram participar, crentes e não crentes, disponibilizando o seu tempo e o seu talento para nosso deleite, assim como a presença de quem veio para ouvir e desfrutar.
O Movimento Nós Somos Igreja escolheu o dia 25 de Março, quando se comemora a Anunciação a Nossa Senhora, como Dia Internacional de Oração pela Ordenação das Mulheres. Como sabemos, a reflexão de muitas teólogas e teólogos, indicam que o impedimento de admitir as mulheres ao sacramento da Ordem baseia-se na sociologia e na tradição. Aliás, todos os inquéritos de opinião feitos a católicos praticantes, em Portugal, ou noutros países, dão respostas largamente favoráveis a tal acolhimento das mulheres para o serviço – palavra que em boa hora tem sido repetidamente utilizada e interpretada pelo Papa Francisco. O poder é, evidentemente, serviço, repete o Papa. Fique bem claro que quando falamos da ordenação das mulheres pensamos que, antes, é essencial proceder a uma reforma profunda do próprio sacerdócio. É uma questão presente nas preocupações de incontáveis católicas e católicos e, embora, ainda ontem, o Pe Tolentino, numa entrevista ao jornal Público, tenha afirmado que «a questão está fechada» acrescentou que a «Igreja é fiel ao Espírito e ao que este lhe vai dizendo e vive num processo de renovação permanente.»
Para terminar sublinho que face ao novo papa, às suas palavras e gestos, tem havido um coro de aprovação e esperança, como não se via desde João XXIII (parecendo indicar que afinal todas e todos desejamos ardentemente reformas na instituição-Igreja). E já que temos um papa Jesuíta oiçam o que a 34ª Congregação da Ordem escreveu em 1995, em Roma: «Estamos conscientes do prejuízo que tem causado no Povo de Deus a alienação da mulher, a qual, nalgumas culturas, já não se sente à vontade na Igreja e não pode, por isso, transmitir plenamente os valores católicos às suas famílias, amigos e colegas. (….) Como resposta, primeiro pedimos a Deus a graça da conversão. Temos sido parte de uma tradição civil e eclesial que ofendeu a mulher. Como muitos outros homens, temos tendência a convencer-nos que o problema não existe.”
Tenho a certeza que este Papa vai perceber que o problema existe.        
Obrigada.
        Ana Vicente
        25 de Março 2013
Dia Internacional de Oração pela Ordenação das Mulheres

24 março 2013

SEMANA DAS ALIANÇAS MALDITAS

         
          1. Páscoa ou férias da Páscoa? Para uma minoria cristã, a Semana Santa significa a celebração do processo de transformação espiritual da vida humana. Para os mais idosos, acorda recordações inesquecíveis de infância, diferentes, segundo as tradições de cada zona do país. Para os marcados pela secularização, o turismo ainda pode aconselhar a Semana Santa em Braga ou em Sevilha, mas as “fugas” dependem das modelizações da crise na vida de cada um e nas famílias. A fuga mais geral é ficar em casa.
          Na Igreja Católica, embora sabendo que uma andorinha não faz a Primavera, vive-se um momento de esperança. A facilidade e a rapidez com que simples e breves sinais preanunciaram mudanças indispensáveis, mostram até que ponto estávamos e estamos saturados de “Inverno”. Dentro e fora Igreja, a urgência de um outro rumo global só a não deseja quem cresce à custa do afundamento dos outros. A miopia financeira nunca perceberá que não é o império do Dinheiro que salvará o mundo.
          2. Os cristãos estão avisados, desde há dois mil anos: para evitar as mudanças de rumo na sociedade, no estado e na religião são possíveis as alianças mais contraditórias. S. Lucas, depois de apresentar, no seu Evangelho, o desfecho do currículo de Jesus, escreveu um segundo volume, os Actos dos Apóstolos, para que a Igreja e o mundo não esqueçam o esquema de uma história exemplar: Verdadeiramente, coligaram-se nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, que ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com as nações pagãs e os povos de Israel (Act 4, 27).
         Pedro, ao recolocar a verdade dos factos diante do Sinédrio de Jerusalém não é um vencido, é um judeu atrevido: sabei, todos vós, assim como todo o povo de Israel, que é pelo nome de Jesus Cristo Nazareno, aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou de entre os mortos, é pelo seu nome e por nenhum outro que este homem está curado diante de vós. É ele a pedra que vós, os construtores rejeitastes e que se tornou a pedra angular. Pois não há sob o céu outro nome pelo qual possamos ser salvos (Act 4, 8-12). 
          O que terá levado S. Pedro a esta afirmação aparentemente tão exclusivista? Antes de Cristo, ao lado de Cristo e depois de Cristo não aconteceu nada para a salvação do sentido da vida dos seres humanos? A verdadeira história só tem 2000 anos?
          Jesus é, de facto, uma particularidade histórica contingente, com data e lugar de nascimento e, como tal, não pode ser considerada uma realidade absoluta. O ser humano pode encontrar o caminho para Deus, sem passar por Jesus de Nazaré. Na história humana nasceram muitas religiões sem qualquer referência cristã. Deus é absoluto, mas nenhuma religião pode pretender ser absoluta. Todas têm fronteiras. Então, de onde viria o atrevimento de S. Pedro, sempre preocupado em dar razão da sua esperança?
          É importante desfazer um equívoco grave, para não se cair numa interpretação que nega o próprio sentido das narrativas e das cristologias do Novo Testamento. Supõe-se que esses textos foram escritos para afirmar privilégios e fundar um povo, uma Igreja de privilegiados: Cristo é único e é nosso; se o quiserem encontrar têm de passar por nós!
          O que é particular à pessoa de Jesus, a sua absoluta característica, não tem nada a ver com esse equívoco: Jesus, na sua prática histórica, remete para um Deus que não é propriedade privada nem Dele nem de ninguém. É o Deus do livre amor por todos os seres humanos, sem restrição. O Deus de Jesus também não pode ser privatizado nem sequer pelos cristãos. Por outro lado, Jesus, na sua prática histórica, surge polarizado por todos os seres humanos, sejam ou não povo de Israel. É a partir da periferia que caminha para o centro. Tudo e em tudo, dentro e fora das religiões, só tem sentido se fôr para o bem de toda a humanidade.
         O itinerário de Jesus, testemunhado pelas narrativas evangélicas, é o de alguém que está, continuamente, voltado para o Deus de todos. Em Jesus não há rivalidade entre a dedicação a Deus e a entrega à libertação humana. É um Deus humanado.
          3. No século XX não foi possível superar, inteiramente, um cristianismo dolorista. A alternativa seria um cristianismo burguês ou hedonista. Perante judeus e gregos, S. Paulo não se cansou de repetir: Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1Cor 2, 2). Não haverá perguntas a fazer a esta declaração? Creio que sim.
          Jesus não morreu nem de acidente, nem de doença nem de velho. Foi condenado à pena capital, à morte na cruz, que não desejava. A celebração da Semana Santa, as narrativas da Paixão tentam explicar porque é que o crime aconteceu. Se Jesus não amava o sofrimento, se detestava a cruz, porque é que Ele não fugiu, não renegou? A sua fidelidade à emancipação humana era maior que a sua dor.
          O mais importante está, todavia, no que aconteceu na própria cruz. No momento em que é excluído da vida, Ele oferece futuro aos que lhe dão a morte. Ele morre com o mundo vivo no seu coração.
          A aliança de Jesus é com todos os que são contra a morte.
          Frei Bento Domingues, o. p.
          in Público 24.03.2013

OS 30 PEDIDOS QUE SÃO FRANCISCO FAZ AO NOVO PAPA FRANCISCO

1. Não deixe que as pessoas ou a mídia façam culto à sua personalidade;
2. Coloque o dinheiro do vaticano a serviço dos pobres;
3. Divulgue ao mundo o dinheiro que entra e que sai da Igreja – transparência total.
4. Resgate a dignidade das mulheres na Igreja de forma que elas também possam decidir e não só os homens.
5. Não faça pactos de privilégios com os poderes dominantes.
6. Não persiga teólogos e teólogas, como tem acontecido, mas incentive a liberdade de pensamento.
7. Peça perdão a Deus e à toda comunidade eclesial  pelas omissões que a  Igreja Argentina cometeu no tempo da ditadura;
8. Defenda  as pessoas perseguidas pelas ditaduras.
9. Peça perdão às pessoas homossexuais, caso as tenha ofendido.
10. Readmita padres casados nos seus ministérios.
11. Não tolere nem encubra casos de pedofilia e assédio sexual.
12. Abra as portas aos casais de segundo matrimônio.
13. Apoie moralmente e financeiramente os filhos e esposas (não reconhecidos),  de padres e bispos ativos no ministério.  
14. Não seja apenas pobre, mas faça radical opção prefencial pelos pobres, lembrando que 50 mil pessoas morrem diariamente, de fome e miséria.
15. Acabe com a disputa de poder na Cúria Romana – que seja um lugar que acolha, articule e responda os gritos da humanidade atual.
16. Não condene ou tenha preconceito com a religiosidade popular.
17. Escute mais e faça menos discursos
18. Não permaneça em palácios – vá aos presídios, países pobres, populações em situação de guerra, massas refugiadas – é lá que o Mestre está.
19. Não confie em grupos espiritualistas que lhe prometem muito dinheiro e representam elites.
20. Não exerça poder judicial sobre todas as igreja – lembre-se que de tua missão como pastor e servidor.
21. Trabalhe por uma Igreja mais participativa (colegialidade) – a atual está vertical e centralizada no poder
22. Não mantenha os leigos e leigas na condição de inferioridade na Igreja – não proíba de criar Conferências Nacionais de Leigos em seus países, como tem acontecido.
23. Reabra o debate sobre moral sexual na Igreja – o que vemos são, de um lado, escândalos sexuais e, de outro, discursos conservadores e moralistas.
24. Retire esta norma do celibato obrigatório, que está provocando tantos desvios na Igreja
25. Não se coloque como representante de uma  religião que se sinta superior às outras– isso prejudica o diálogo fraterno entre os diferentes.
26. Supere esta crise de identidade que faz com que a Igreja se pregue a si mesma – a identidade vem pelo testemunho e coerência de vida.
27. Produza menos documentos e use mais o estilo do Evangelho: simples, direto, desafiador, iluminador...
28. Não nomeie bispos e cardeais sem consulta ampla na Igreja local – essa prática secreta tem atentado contra igrejas locais vivas, contra caminhadas e histórias exemplares.
29. Faça mudança nas liturgias – elas estão se tornando ritos vazios, sacerdotais e pouco participativos e sem relação com os problemas da vida – o Mistério Pascal não mercê isso.
30. Não oculte a história da Igreja América Latina, seus profetas e mártires pela causa da libertação,  – foi um sinal do Reino de Deus entre nós.

(contribuição dos brasileiros e brasileiras) - 15.03.2013 
Texto enviado do Brasil por Roberval Freire

23 março 2013

How long will the honeymoon over Pope Francis last?

Since the moment of his election March 13, Pope Francis has been warmly embraced by his own flock and even the media and the wider public in a way his bookish predecessor, Benedict XVI, was not.
Polls show that anywhere from 73 percent to 88 percent of American Catholics say they are happy with the selection of Francis, as opposed to about 60 percent who were happy with the choice of Benedict -- and many of those are extremely pleased with the new pope.
Such an effusive welcome is especially good news for Catholic leaders who spent years fending off criticism of Vatican dysfunction under Benedict and a cloud of scandal and crisis at home. And the hot start for Francis is also crucial in building up a reservoir of good will that will be needed when the new pope refuses to bend on unpopular teachings or commits a gaffe of his own.
Yet even as the former Cardinal Jorge Bergoglio basks in this broad approval as Pope Francis, some constituencies in the Catholic church are cautious or even angry at his election, and their concern has only grown in the early days of his pontificate.
'Something is profoundly wrong'
Chief among the critics are the liturgical traditionalists who reveled in Benedict's exaltation of old-fashioned ways, and are now watching in horror as Francis rejects the extravagant vestments and high-church rituals that were in en vogue for the past eight years.
"Of all the unthinkable candidates, Jorge Mario Bergoglio is perhaps the worst," an Argentine Catholic wrote in a post at Rorate Caeli, a blog for aficionados of the old Latin Mass rites. "It really cannot be what Benedict wanted for the Church."
"Something is profoundly wrong when the winds of change can blow so swiftly through an immutable institution of God's own making," agreed Patrick Archbold at Creative Minority Report, another conservative site.
Given that traditionalists are some of the most devoted and vocal Catholics in the church and that they retain both contacts and influence in the upper ranks of the hierarchy, their pessimism could spell trouble for Francis.
'A Pope Francis problem'
The same could be said of politically conservative Catholics, especially those from the U.S. who have enjoyed access and approval in Rome for decades under both Benedict and the late John Paul II.
Their concerns, while expressed in more muted tones, are tied to a number of markers: Francis is a Jesuit, for one thing, and even though he is considered a relatively conservative member of the Society of Jesus, the Jesuits are considered notorious by the Catholic right.
Their list of alleged faults is long -- they advocate engagement with the world, they have shown a willingness to criticize the hierarchy, and they have embraced a radical commitment to the poor. That last one is a priority for Francis as he sharply critiqued unfettered capitalism and austerity politics, even taking on the name of St. Francis of Assisi, the patron saint of the poor.
Indeed, the new pope "would likely be considered too liberal for a prime time speaking slot at the 2016 (Democratic) convention," Charles Camosy, a theologian at Fordham University in New York, wrote in a Washington Post column titled, "Republicans have a Pope Francis problem."
St. Francis is also an icon of environmentalism, which the new pope has similarly embraced. That discomfits some conservatives, as does praise for Francis from liberation theologians like Leonardo Boff and Jon Sobrino. Rumors are already afoot that Francis might beatify slain Salvadoran Archbishop Oscar Romero, who was killed by a right-wing death squad for speaking out against injustice.
Not only that, but Francis allowed Vice President Joe Biden and former House Speaker Nancy Pelosi, both Democrats who support abortion rights, to receive Communion at his installation Mass.
While Francis is as orthodox as Benedict on the church's doctrines of sexual ethics, he has shown what is to some a disconcerting willingness to seek pragmatic solutions to difficult issues, such as when he supported civil unions for gay couples in Argentina in an unsuccessful bid to thwart a gay marriage law.
Skepticism on the left
On the other side of the spectrum, however, some left-wing Catholics are leery of Francis or openly criticize him for what they see as his antagonism to gay rights. They also question his track record on sex abuse by clergy and his disputed role during Argentina's "Dirty War" in the 1970s, when some say he was not sufficiently vocal in speaking out against the military junta.
"The election of a doctrinally conservative pope, even one with the winning simplicity of his namesake, is especially dangerous in today's media-saturated world where image too often trumps substance," the feminist theologian Mary Hunt wrote at Religion Dispatches.
"A kinder, gentler pope who puts the weight of the Roman Catholic hierarchical church behind efforts to prevent divorce, abortion, contraception, same-sex marriage -- as Mr. Bergoglio did in his country -- is ... scary," Hunt said.
By contrast, mainstream Catholics, and Catholic Democrats in particular, have welcomed Francis' election not only because of his appealing common touch but also because his statements on behalf of the poor may hold out a chance for leveling the playing field in the church's internal culture wars.
The new pope's words about fighting economic exploitation and "being a poor church, for the poor" are so insistent that they could put the church's social justice teachings back on par with its doctrines on abortion and sexual ethics, which have been so prominent for so long that some complain they outweigh any other tenets.
Still, even Catholic progressives could wind up disappointed as Francis begins to unveil his appointments and policies, just as traditionalists and conservatives could be cheered or at least reassured that all is not lost.
As Fr. James Keenan, a Boston College theologian, says, the Jesuits have an unwritten rule that a new superior should spend the first hundred days of his office learning about the community before making any changes. That means the critics need to make their voices heard now, because the clock is ticking.

A tempestade fustiga a barca de Pedro

         
Qualquer discurso sobre o Papa pode suscitar controvérsia
   
Causa alguma impressão o alarido à volta da resignação de Bento XVI. Porque se foge à realidade das coisas e há uma concentração em «doutrinas» para justificar as atitudes, mesmo que estejamos todos a ver claramente outras razões. Para a não renúncia do Papa João Paulo II inventou-se a «teologia» do sofrimento e da cruz até ao fim, mesmo que nos fizesse impressão ver um homem em degradação num cargo de alta responsabilidade.
Muitos dos que defenderam a não resignação de João Paulo II, choraram por ele e rezaram para que se mantivesse até ao fim, agora rezam e choram porque este Papa é o mais corajoso de todos, porque vai embora com a Igreja Católica mergulhada numa crise profunda. Em que ficamos perante estas incongruências ou «hipocrisias religiosas» como muito bem denunciou Bento XVI na homilia de Quarta Feira de Cinzas depois de já ter um pé fora do Papado.
 Porque se vai embora Bento XVI? - Porque a «barca de Pedro» está a ser fustigado pelo vento do tempo e ele não tem forças nem saúde. Compreende-se. Se Bento XVI mantivesse a teologia de quando era professor de Teologia antes de ser cardeal e se seguisse o espírito reformista do Concílio Vaticano II, talvez hoje ele pudesse acabar os seus dias neste mundo com mais tranquilidade e quiçá ficar até ao fim como Papa…
A sua recusa à mudança foi tal que fez da Igreja Católica uma «fortaleza», incentivando tudo o que fosse conservador e algumas formas de igreja de cariz integrista: Movimentos Carismáticos, cada um na sua capelinha; Comunidades Neocatecumenais; Cursilos; Movimento de Focolares; Comunhão e Libertação, Opus Dei... Estes e outros foram apoiados, eram geradores de «santos» contra qualquer manifestação reformista que intentasse alguma investida contra a «fortaleza» Igreja Católica. Por isso, foram esquecidos os movimentos - e perseguidos nalguns casos - das Comunidades Eclesiais de Base; os da Ação Católica; as congregações religiosas femininas que pensavam à luz do Vaticano II e empenhadas em levar adiante a sua opção preferencial pelos mais pobres.
 Tudo o que cheirasse a alguma reforma devia ser banido, condenado, porque fazia soprar a vela da «Barca de Pedro» e isso era inconcebível. A multidão de teólogos e teólogas silenciados/condenadas é bem revelador.
O Papa Bento XVI detestava os «tempos modernos», várias vezes se referia à «ditadura do relativismo» para ser combatido como inimigo da Igreja ao invés de tomar isso como um «sinal dos tempos» para ser rezado e interpretado à luz do Vaticano II. Tudo o que estivesse fora do seu programa restaurador recebia o rótulo de relativismo e era imediatamente condenado. A Teologia da Libertação, «coisa» de comunistas e marxistas para combater. Mas, salta dúvidas quanto a este aspeto, é a teologia da «opção preferencial pelos pobres», que mais mártires fez no século passado. Não interessa reparar nisso. Estes que derramaram o seu sangue na luta a favor dos marginalizados contra os poderosos deste mundo não o fizeram a sério? - Sejamos sérios na análise.
A par desta teologia emergiram outras para serem condenadas e combatidas só porque sim. A Teologia do Pluralismo religioso, a Teologia Feminista, a Teologia Moral renovada segundo o pensamento do padre Bernard Häring, a Teologia do Concílio Vaticano II, as várias congregações religiosas sobretudo femininas defensoras do sacramento da Ordem para a mulher (não é estranho existirem sete sacramentos e a mulher só pode receber 6, será esta a vontade de Jesus?).
         E foi-se um Papa concentrado em fazer da Igreja Católica uma «fortaleza» com «armas» restauracionistas para combater os inimigos, mas esqueceu-se que poderia rebentar por dentro. Venha o tempo novo com o Espírito Santo concertar o que a humanidade por si só não pode fazer.

        
José Luís Rodrigues, Padre
in dnotícias.pt