05 maio 2013

A DITADURA DO MEDO

1.Estamos na era do medo irremediável ou nas vésperas de "novos céus e nova terra", como canta o Apocalipse e que a liturgia continua a proclamar (Ap. 21,1-5)?
O medo, fruto da apreensão de um mal como ameaça eminente e à qual não se vê como resistir, pode ter várias causas e muitos rostos. Enquanto tal, é paralisante. O próprio Jesus, ao sentir-se ameaçado de morte pelo Sinédrio, deixou de andar em público entre os judeus (Jo 11,54).
Só quando venceu o medo dentro dele próprio, enfrentou o perigo, embora, em plena oração no Jardim das Oliveiras, tenha sido assaltado por extrema angústia. As mulheres foram as únicas que, depois do desastre, venceram o medo. Os discípulos viveram trancados, enquanto o Espírito Santo não os modificou até à raiz e abriu o seu judaísmo ao mundo pagão, ao mundo dos gentios. Isto não aconteceu sem um grande debate no Concílio de Jerusalém. É o tema da Missa de hoje.
Os Evangelhos, ao colocarem na boca de Jesus um repetido "não temais", dizem que não era a audácia que os animava.
O medo paralisa, o amor é criativo. É ele o mandamento novo, o mandamento da inovação. Onde abunda o amor desaparece o temor, diz S. João.
2. D. Manuel Martins tinha falado da ditadura do medo na sociedade portuguesa actual, devido ao desemprego crescente num modo avassalador: medo de perder o emprego, medo de não conseguir emprego, medo da miséria. A rendição a todas as condições de trabalho de empregadores sem escrúpulos, que nem sequer pagam a quem trabalha, foi denunciada pela Caritas, no primeiro de Maio. No mesmo dia, o Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos lembrou algo de mais universal: a riqueza do mundo pertence, apenas, a 1% de privilegiados. Nos cinco continentes, há duzentos milhões de desempregados. O Papa Francisco alerta: "Quantas pessoas, em todo o mundo, são vítimas deste tipo de escravidão, na qual é a pessoa que serve ao trabalho, enquanto deveria ser o trabalho a oferecer um serviço à pessoa para que ela tenha dignidade. Peço aos irmãos e irmãs na fé e a todos os homens e mulheres de boa vontade uma decidida tomada de posição contra o tráfico de pessoas, no âmbito do qual está o "trabalho escravo".
Na Quaresma de 2010, ao pedir um gesto fraterno, Jorge Mario Bergoglio escreveu: estamos em risco! Como sociedade, acostumamo-nos, pouco a pouco, a ouvir e a ver a crónica negra de cada dia; habituamo-nos, também, a tocá-la e a senti-la à nossa volta sem que isso mexa connosco; produz, quando muito, um comentário superficial e descomprometido. A chaga está na rua, no bairro, em nossa casa; no entanto, como cegos e surdos convivemos com a violência que mata, destrói famílias e bairros; aviva guerras e conflitos em muitos lugares e olhamos para isso como mais uma imagem. O sofrimento de tantos inocentes deixou de nos incomodar, o desprezo dos direitos das pessoas e dos povos, a pobreza e a miséria, o império da corrupção, da droga assassina, da prostituição imposta e infantil passaram a ser moeda corrente sem realizarmos que, mais cedo ou mais tarde, teremos de pagar a factura (cf. Vida Nueva n.º 2.844 pg. 50).
Isto não é uma fatalidade. É assim, porque nós consentimos.
3. Segundo as narrativas da criação, de carácter poético, teológico e ético, o ser humano é uma criatura criadora, prodigiosa, mas também capaz da maior destruição. Não vale a pena recuar para qualquer mito de paraíso perdido. De facto, somos nós que, hoje, herdamos frutos da criação humana de milhares e milhares de anos e, também, da sua desfiguração. Somos responsáveis pelo nosso presente e pelo futuro. Compreender o que está a acontecer é a nossa tarefa de cristãos. No século XIX, Pio IX não compreendeu o sentido do mundo moderno. Fixou o olhar, apenas, no que julgava inaceitável e escreveu os anátemas do Syllabus.
Leão XIII (1810-1903) inaugurou a Doutrina Social da Igreja (DSI). Com João XXIII (1881-1963) e o Vaticano II, dá-se uma grande mudança nessa doutrina: passa-se do anátema ao diálogo. João Paulo II, que viajava pelo mundo deixando a Cúria à solta, preocupado com o comunismo marxista que tinha sofrido na Polónia e com os trágicos mal-entendidos acerca da Teologia da Libertação, vai dar outra viragem à DSI, afinal a doutrina social dos Papas. Situou-a no campo da teologia moral (A Solicitude Social da Igreja, n.º 41).
Qual pode ser o perigo deste modo de a interpretar? A DSI não pode cingir-se ao protesto, ao desejo, ao discernimento moral. Não pode deixar de ter em conta as mudanças provocadas pelas novas ciências e pelas tecnologias inteligentes, que alteram os próprios dados da questão social. É para essa nova realidade que Jeremy Rifkin, na sua obra A Terceira Revolução Industrial, chama a atenção.
Importa que a DSI passe a ser reelaborada com o contributo de especialistas das ciências sociais. Qual é o papel da Doutrina Social dos Papas nas Universidades Católicas e das investigações das Universidades Católicas na elaboração da DSI? Mas, para se poder chamar, com verdade, DSI tem de seguir a eclesiologia do Vaticano II (Lumen Gentium, 36 e a Gaudium et Spes). A Igreja é constituída pelas mulheres e homens que se reconhecem em Jesus Cristo. Todos juntos, não teremos medo.
Frei Bento Domingues, O.P.
5 de Maio de 2013

28 abril 2013

UM PAÍS NÃO É UM CONVENTO

1. A palavra reforma evoca muitas significações para além da mais corrente, isto é, a quantia - ora de fome, ora milionária - atribuída a pessoas aposentadas. A desejada reforma da Cúria vaticana é de outro género. Neste sentido, designa as medidas adoptadas para que uma instituição degradada volte à sua forma primordial. Nas épocas de decadência das Ordens Religiosas, por exemplo, a ideia de reforma era o sonho de um novo começo, através de um retorno à fonte do projecto inicial. Voltava-se às antigas observâncias, por vezes de forma anacrónica, mas com a intenção de encontrar o espírito fundacional. O regresso às primeiras expressões da pobreza era sempre a marca de uma reforma autêntica. Ao perderem o despertador da austeridade voluntária, as instituições religiosas fingiam ver na progressiva abundância dos seus bens, um sinal de bênção divina.
Fora da escolha livre e alegre do caminho da pobreza, a “vida religiosa” torna-se uma caricatura do Evangelho, uma prisão. Há critérios para avaliar a autenticidade das reformas na Igreja no seu conjunto ou nas Ordens Religiosas, pois como escreveu Yves Congar, existem verdadeiras e falsas reformas.
Reformar não consiste em reproduzir materialmente o passado. O “aggiornamento” é um modo de criatividade no seio das contradições da actualidade. Reproduzir a letra, sem o impulso do espírito, é a morte de qualquer reforma. João XXIII percebeu isto como ninguém, num contexto histórico assustador. Treinou-se, ao longo de toda a vida, nas situações mais diversas, a nunca esquecer que era apenas um aldeão, Angelo Giuseppe Roncalli, de Sotto Il Monte, de uma família pobre que nunca ganhou nada com ele ser padre, bispo, cardeal ou papa. 
A pobreza voluntária, a “dama pobreza” de S. Francisco de Assis, só tem sentido como afirmação de liberdade. Quem se faz pobre ou se mantém pobre, por vontade própria, diz a si mesmo e aos outros que não são as coisas, nem o desejo de possuir que mandam na sua vida. As austeridades são apenas instrumentos para moderar a desagregação dos apetites e aprender a hierarquizar os desejos. O culto da austeridade pela austeridade é uma doença. A escolha de uma vida moderada é uma sabedoria. Como dizia Sto Agostinho, mais vale precisar de pouco do que possuir muito.
2. Noutro registo muito diferente, em alguns países, foi imposto, como castigo, um regime de austeridade cada vez mais violento. Teve um momento de expressão estético-medicinal, cortar nas gorduras do Estado e das organizações, mediante um rigoroso programa de emagrecimento. Estas receitas tentavam corrigir erros – despesas sem sustentação - com outros maiores, paralisando e insultando as populações.
        Onde foram aplicadas, essas medidas cegas arruinaram a vida dos povos e impediram as reformas virtuosas, as produtivas. A obsessão pela austeridade nos decisores políticos não era inevitável. Foi uma opção. Quem o diz é o Nobel da Economia, Paul Krugman. Neste momento, são as próprias teorias económicas e financeiras que propuseram este caminho aos países, sobretudo aos preguiçosos do sul da Europa, que revelaram a sua debilidade. Nem o Excel foi poupado.
 Com a ideia fixa de que não havia alternativa, Portugal contraiu uma doença degenerativa, a “espiral da recessão”. O próprio presidente da Comissão Europeia perdeu a confiança nos “conselheiros tecnocratas” que, “nos dizem qual o melhor modelo, mas que quando perguntamos como o implementar, dizem que isso já não é com eles. Isto não pode acontecer a nível europeu” (Cf. Expresso on line 22.04).
A política de austeridade não atingiu apenas os seus limites. Lançou no desemprego milhões de pessoas. Não se devia poder brincar com o destino colectivo dos povos. A reforma da política de um país ou da UE não é a reforma espiritual de um convento. Pobreza voluntária é uma escolha virtuosa. Empobrecimento e miséria impostos por políticas erradas é crime, segundo a doutrina social da Igreja, cujo primado é o “bem comum”, ao serviço da dignidade das pessoas.
3. Os portugueses desempregados foram internamente humilhados e ofendidos como um povo de lamechas: quem não estava bem que emigrasse. De repente, Portugal era uma empresa na qual os que tinham trabalho deviam trabalhar mais horas e reformar-se mais tarde. Os outros eram dispensados, com a obrigação de não produzirem nada e procurarem viver de esmolas.
      Durante muito tempo, as lideranças da Igreja Católica tentaram mostrar que se estava a construir uma Europa esquecida das suas raízes cristãs. Com razão. Mas também elas se esqueceram de colocar os seus “cientistas sociais” a conceber e a trabalhar na construção de uma Europa possível, de pequenos passos, em bases sólidas, para que as ideologias e instrumentos mundiais da ganância não dominassem as suas políticas em regime de globalizada especulação financeira.
Nenhuma congregação faz votos de enriquecimento, mas acabam sempre por enriquecer. Não seria melhor adaptarem-se aos tempos modernos e desenvolver grandes empreendimentos, em nome de boas causas, católicas ou não católicas, na linha da religião da prosperidade, bênção divina?
Valha-nos Deus, ninguém tem culpa de que Jesus não tivesse jeito nenhum para o negócio. 
Frei Bento Domingues 
in Público

25 abril 2013

ASSOCIAÇÃO REDE DE CUIDADORES

COMUNICADO À IMPRENSA


      Em face das notícias ontem veiculadas sobre o arquivamento, por parte do Ministério Público, de casos de abuso sexual envolvendo pelo menos cinco sacerdotes na Diocese de Lisboa, a Associação Rede de Cuidadores, que tomou a iniciativa de participar, em tempo oportuno, àquela entidade, informações por si recebidas sobre aquele tema, vem dar nota da sua posição:
1.   A Rede de Cuidadores é uma associação não-governamental sem fins lucrativos, direcionada para a prevenção de maus tratos a crianças e adolescentes, seja qual for a origem dos eventuais agentes, mormente quando há suspeitas de abusos sexuais.
2.   Quando considera existirem suspeitas fundadas, dá nota do que conhece aos órgãos competentes titulares da ação penal em Portugal.
3.   No caso em referência resultou que, da investigação efetuada, o Ministério Público concluiu que o decurso do tempo impediu o procedimento criminal por, à luz da legislação aplicável, terem já prescrito os alegados crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual, parte deles visando menores.
4.   Como se deduz de uma leitura atenta do comunicado, o Ministério Público não afirma que os alegados crimes não tenham ocorrido mas que, por o Código Penal em vigor na data apurada como sendo a da efetivação dos citados comportamentos criminosos, só aceitar a sua denúncia pelas vítimas, ou seus legítimos representantes, até 6 meses após completarem os 16 anos de idade, os mesmos foram arquivados.
5.   Estranha-se por isso (e lamenta-se) que o porta-voz da Conferência Episcopal se congratule com o arquivamento por pessoas concretas terem sido ilibadas apenas... porque a lei aplicável era mais permissiva do que a atualmente em vigor.
6.   Tanto quanto ao mundo dos leigos é permitido saber, não é esta a posição expressa no Direito Canónico, onde não existem prazos de prescrição para crimes desta natureza.
7.   Considera assim a REDE que o citado porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa está a ter uma posição descuidada face aos grandiosos desígnios espirituais e sociais que, por missão, à Igreja cabem, nomeadamente quanto à busca da verdade e do aperfeiçoamento dos seres humanos.
8.   Espera pois a REDE que pelo facto de, em face do arquivamento, formalmente não terem existido os abusos que aos órgãos próprios relatou, que a Igreja Católica Portuguesa, perante os relatos que lhe têm chegado, por várias vias e datas, tenha a coragem de acionar o que a este propósito determina a Lei Canónica, além de tomar os devidos cuidados para evitar situações análogas (tendencialmente reincidentes, em todo o mundo), perpetradas pelos mesmos ou outros sujeitos.
9.   Entretanto a Rede de Cuidadores continuará a trabalhar atenta às instituições onde estes fenómenos estão naturalmente facilitados e continua a recordar aos dirigentes da Igreja Católica Portuguesa que enfiar a cabeça na areia nunca resolve quaisquer problemas humanos. Só a verdade é libertadora.
Lisboa, 23 Abril 2013
O Presidente da Rede de Cuidadores
                                          Álvaro Andrade de Carvalho

21 abril 2013

Dois ouvidos e uma boca

1. Há mudança de clima no interior da Igreja Católica e na sua relação com a grande diversidade de mundos em que vive. Pelo menos, assim parece. Foram celebrados os 50 anos do Vaticano II, está a ser revisitada a Encíclica Pacem in Terris e não vai ser ocultado o sentido da consternação mundial pela morte do Papa João XXIII (3.06.1963). A este respeito, conta a grande filósofa de origem judaica, Hannah Arendt, que a sua criada, estando ele já no leito de morte, lhe diz: ”Minha senhora, este papa era um verdadeiro cristão, mas como pôde um verdadeiro cristão sentar-se no trono de S. Pedro? Ninguém se terá apercebido de quem ele era?”
Para os lefebvristas estas datas serão sempre para esquecer ou combater. Para os que se identificam com elas, já não têm de as celebrar com nostalgia. Sentem que o longo inverno está a passar e que é possível retomar o caminho. Os mais cautelosos avisam que uma andorinha não faz a Primavera e os mais novos não sabem do que os mais velhos andam a falar. Talvez acabem por descobrir.
Para já e para novos e velhos, aconteça o que acontecer no futuro, o Papa Francisco começou bem. Os gestos, as atitudes e as palavras do Papa já indicaram que é possível virar uma página triste na história eclesiástica, precisamente a página de interregno entre o Concílio e as urgências da hora actual. Ao trazer as margens para o centro da Igreja, ele situou-se no coração do mundo contemporâneo. A conversa da Igreja corre sempre muito mal quando é a de eclesiásticos entretidos com eclesiásticos, sejam seminaristas, estudantes de teologia, párocos, cónegos, monsenhores e bispos preocupados com as suas carreiras e avaliando a cotação das suas clientelas. Essas sacristias nunca poderão entender o horizonte do mundo como espaço da Igreja.
Não se pode esquecer que na celebração do baptismo existe o ritual da sagrada unção dos ouvidos e da boca. Lembra à nova criatura e a quantos a acompanham que temos dois ouvidos para escutar as vozes e as mensagens de Deus que nos chegam de dentro e de fora, de todos os mundos, por mais estranhos que se apresentem. Só temos, porém, uma boca. Significa que só vale a pena falar de doutrinas e normas depois de muito escutar e observar, com bondade. O povo de Deus é constituído por aqueles que só Deus conhece e pelas mulheres e homens que, celebrando o baptismo, escutam o que Ele diz à Igreja através de todos os seres humanos, crentes, agnósticos ou ateus.
2. Não vai longe o tempo em que se começou a descobrir a importância da inculturação da fé cristã no seu duplo movimento: o que ela recebe das diferentes culturas e a graça do Evangelho que oferece para as fecundar. É um diálogo existencial, por obras, atitudes e palavras. O Papa Francisco, pela sua prática mais recente, parece querer retomar esse antigo percurso, muitas vezes esquecido.
Encontramos, com efeito, na Eucaristia deste IV Domingo da Páscoa, Paulo e Barnabé, duas grandes figuras dos Actos dos Apóstolos, a começarem a apresentação do testemunho Jesus Cristo nos dias e lugares que, enquanto judeus, lhes eram mais familiares: nas Sinagogas aos Sábados. Sob o ponto de vista físico, religioso e cultural estavam em casa. Passava-se tudo em família e com êxito. Parecia que estavam todos no mesmo comprimento de onda (Act.13, 13-43). Na semana seguinte, verificaram com amargura que tinha acabado o encanto, a primavera da receptividade à nova mensagem.
Paulo e Barnabé não se deram por vencidos. Onde outros poderiam ver uma derrota, eles descobriram uma nova oportunidade, que sublinharam, aliás, com ironia: “era primeiro a vós que devíamos anunciar a palavra de Deus. Como a rejeitais e não vos julgais dignos da vida eterna, nós nos voltamos para os gentios”.
Sob o ponto de vista bíblico, não era uma traição. Frei Francolino Gonçalves[1], professor da Escola Bíblica de Jerusalém e membro da Comissão Pontifícia Bíblica, nos seus estudos sobre o Antigo Testamento (AT), chegou à conclusão que, no seu conjunto, é o resultado da fusão de duas religiões de Iavé muito diferentes. Começaram até por ser concorrentes e acabaram por se fundir, dando lugar a uma síntese. De facto, a religião que estamos mais habituados a ler no AT funda-se na história das relações entre Iavé e Israel, mas essa é a mais recente. A mais antiga funda-se na obra criadora de Iavé e, por isso, tem o universo como horizonte e nada tem de nacionalista. É radicalmente universalista, dirige-se a todo e qualquer ser humano que a descobre e manifesta na observação do cosmos, da natureza e da cultura. Pode ser um bom caminho para um diálogo inter-religioso.
3. Já passou um mês sobre a data da eleição de J. M. Bergoglio. Não passou o tempo dos sorrisos, mas são precisas decisões, reformas, especialmente da Cúria. Já escolheu 8 cardeais para as estudar. Nos dias 1, 2 e 3 de Outubro, terão a primeira reunião. A sua diversidade continental mostra que o centro da Igreja já não é a Europa, nem mesmo o Ocidente. Espera-se que, até Outubro, estejam de ouvidos bem abertos para escutar as vozes que têm sido e continuam a ser caladas.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público


[1] Iavé, Deus de Justiça e de Bênção, Deus de Amor e de Salvação, ISTA, nº 22 - 2009, pp. 107-152.

As cicatrizes da Etelvina

Ainda não conhecia ninguém com este nome e já gostava dele. Há muito tempo. Quando um dia me cruzei no acaso da vida com a Etelvina, começámos por saber que os dois tínhamos ouvido várias vezes a canção do Sérgio Godinho com o nome dela. Mas se a vida é um espaço infinito com uma infinita diversidade de estrelas, há muita gente a quem toca ser cometa errante. Depois de meia eternidade a Etelvina voltou a passar por aqui. Tal como a da canção, a sua vida raras vezes teve tréguas. Não é que isso seja invulgar, mas com a Etelvina também foi assim. Após algumas narrativas das suas voltas e revoltas, apercebi-me de que trazia muitas cicatrizes dos embates com outros habitantes do espaço astral. Cicatrizes da vida, diz-se. Sim, cicatrizes da vida, mas de uma vida que nunca se resignou a morrer ou a ficar na morte. Cicatrizes que provam ser o mesmo aquele que desce aos infernos e aquele que emerge de novo para a vida. Neste caso, aquela, a Etelvina. Pensei então: quando voltar para casa vou ler outra vez a narrativa do encontro de Jesus com Tomé (Jo 24, 29). Embora sabendo que cicatrizes e chagas não são a mesma coisa, fui verificar com mais atenção o desafio feito à racionalidade daquele apóstolo. As chagas e as cicatrizes são a prova de um combate talvez perdido mas não derrotado. E são a prova de que há uma vida que não morre, ou que de modo nenhum pode ficar na morte. Há quem diga que as cicatrizes da alma são mais difíceis de ver. Não são. As da Etelvina estavam quase à vista por detrás de um véu que cobria o seu rosto de serenidade e transparência. Já não eram cicatrizes de sofrimento, eram marcas de uma saída vitoriosa de maus-tratos em casa, desconsideração na sociedade, descriminação no trabalho. E, no meio disso, um longo episódio de profunda tristeza. Também tinha algumas marcas no corpo sobre as quais não me atrevi a perguntar nada. Aliás, não tinha que perguntar nada de nada. Bastava-me ver que ela agora era uma mulher ressuscitada, com uma paz interior, uma compreensão das dificuldades dos outros, um olhar benevolente sobre a vida que só pode ser próprio de quem se ergueu das profundezas do sofrimento. Tive a sorte de não passar pela descrença de Tomé, de não me ter sido dito para meter as mãos nas chagas, de não ter que ver para crer ou, talvez melhor, de crer para ver. Mas o sentimento final é semelhante. A Etelvina não é a mesma, mas é a mesma Etelvina. Já não é uma só pessoa, uma única mulher, mas muitas mulheres e muitas pessoas numa mulher única. Não deveria ser preciso passar pelo sofrimento ou por tantos sofrimentos para se ressuscitar, mas é extraordinário, admirável e necessário que se ressuscite de uma descida à escuridão do mal e da morte. De uma morte para a vida ou de uma vida morta. Por isso, Etelvina, adeus até um dia destes. De vez em quando irei bater à tua janela para ver através dela os campos da eternidade.
Frei Matias, O.P.

17 abril 2013

Uma oração em cada dedo

Uma oração em cada dedo
CONVITE À ORAÇÃO DO BISPO BERGOGLIO (PAPA FRANCISCO)
1. O Polegar é o mais próximo de nós.
Então comecemos a rezar por aqueles que nos são mais próximos. São os mais facilmente lembrados. Rezar pelos nossos entes queridos é uma doce obrigação!


2. O dedo seguinte é o indicador.
Rezemos por aqueles que ensinam, instruem e curam. Isto inclui mestres, professores, médicos e padres, pois necessitam de apoio e sabedoria para indicar a direção correta a outros. Tenhamo-los sempre presentes nas nossas orações.


3. O próximo dedo é o mais alto.
Lembremo-nos dos nossos líderes. Rezemos pelo presidente, governantes, deputados, e também pelos empresários e gestores. São pessoas que dirigem os destinos da nossa nação, influenciam a opinião pública, e para isso precisam da orientação de Deus.


4. O quarto dedo é o dedo anelar.
Embora muitos fiquem surpreendidos, é o nosso dedo mais fraco, como pode dizer qualquer professor de piano. Deve lembrar-nos de rezar pelos mais fracos, com muitos problemas ou prostrados pela doença pois precisam da nossa oração dia e noite. Nunca é demais rezar por eles. Lembremo-nos também de rezar pelos que são casados.


5. E finalmente o nosso dedo mindinho.
É o dedo menor de todos, e que corresponde à forma como cada um deve ver-se a si diante de Deus e dos outros. A Bíblia diz; "os últimos serão os primeiros". O nosso dedo mindinho deve lembrar-nos de rezarmos por nós-mesmos. Quando estivermos a rezar pelos outros quatro grupos, as nossas próprias necessidades estarão na perspetiva correta, e então poderemos rezar melhor pelas nossas necessidades pessoais.
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Adaptação sobre versão brasileira e revisão de AFF.
AFF 15-04-2013
NOTA do NSI-PT: Não foi possível incluir as imagens das mãos juntas e dos dedos

14 abril 2013

Tradição


Retomando o tema das Mulheres como Igreja e na Igreja: Olhemos agora para o segundo pilar em que assenta a proposta da total igualdade de mulheres e homens: a Tradição. Tradição significa a passagem, a rota, a transmissão, dos ensinamentos e da memória,  que são passados de geração em geração – com tudo o que tal implica de mutação e mudança, tanto quanto diz respeito ao corpus dos ensinamentos e à memória propriamente ditos, como à interpretação que deles fazemos. Acresce que a tradição não termina no nosso tempo pessoal e histórico. A tradição tem futuro. Invocar a tradição para perpetuar já nem sequer um estatuto de desigualdade para as mulheres na Igreja mas um estatuto de subordinação, apresenta-se como uma leitura muito errónea da tradição que nos leva a outras tradições há muito repudiadas pela instituição-Igreja, quando antes eram aceites, encorajadas, e assumidas, como seja a escravatura ou a perseguição tenaz de crentes de outras religiões.  Voltando às criaturas mulheres, essa mesma tradição deu valor a algumas mulheres, começando por Maria de Nazaré, pelo que as contradições no discurso oficial da Igreja institucional são tão gritantes como absurdas. A história da santidade de tantas mulheres, a história de mulheres fundadoras ou renovadoras de ordens religiosas, é tão rica e vasta na tradição e história da Igreja-instituição, e é a parte tão integrante dessa mesma tradição, que se torna impossível compreender o estatuto minoritário atribuído às mulheres. Quem tem transmitido a fé, de geração em geração? Quem tem sempre estado na primeira linha do trabalho missionário?  Se as mulheres são tão excepcionais e especiais, como tantas vezes nos é dito pela instituição, porque então ocupamos um lugar ‘exterior’, um lugar à parte, um lugar não-visível nos processos de decisão?
O conhecimento de que dispomos actualmente, baseado na sociologia, antropologia e psicologia (a ciência é mais um dom de Deus) permite-nos afirmar que os papéis e as funções, as qualidades e os defeitos que geralmente atribuímos aos homens e às mulheres mais não são do que uma construção social e, nessa medida, um constante processo de mudança e transformação. As ideias aceites acerca do que é próprio do feminino e do masculino, para além das diferenças biológicas que se relacionam com o imenso dom de Deus que constitui a sexualidade e a reprodução, nada devem à natureza e tudo à cultura. É por isso que se torna falacioso considerar que tradição é igual a ‘sempre foi assim e por isso assim deve ficar’ e utilizá-la para justificar a exclusão das mulheres do sacramento da ordem, por exemplo. Uma outra teóloga, Rosemary Radford Ruether, escreveu o seguinte:
 
Se as mulheres não podem representar Cristo, como é que Cristo pode representar as mulheres? Ou, dito de outra maneira, se as mulheres não podem ser ordenadas, então também não podem ser baptizadas. O que tudo isto significa é que a Igreja está a ser desafiada de uma nova forma para tornar coerentes a sua teologia, para pôr em sintonia a sua antropologia, a sua cristologia, a sua soteriologia. Se as mulheres são consideradas iguais em natureza e em graça, já não há base para declarar que não podem representar Cristo sacramentalmente.[1]

Ana Vicente

Abril 2013


[1] Rosemary Radford Ruether, ‘Women’s Differences and Equal Rights in the Church’, Concilium, Londres, 1996, p.15.