23 junho 2013

Trapos e afins

     
Sabemos que tinha uma túnica sem costura que no final da sua vida foi sorteada. Recomendou que não levássemos duas, nem alforges carregados de inutilidades. Calçava sandálias como os amigos aos quais avisou que sacudissem o pó destas quando não fossem bem recebidos. E mais não sabemos…
Supomos que se vestiria como qualquer homem do seu tempo e condição de carpinteiro. De forma adequada àquele clima, às circunstâncias e à época. Provavelmente vestiu a túnica mais bonita para ir ao casamento dos amigos em Caná, pois era dia de festa. De resto não temos memória de grandes ou pequenos problemas de guarda-roupa (acaso existisse nessa altura!)
XXI séculos depois, acumulámos regras e modas diferenciadoras que se vão transformando conforme os ventos da História. Nenhuma no entanto se aproximou sequer da versão simples e prática daquele judeu palestino tão especial que marcou a humanidade mostrando que é possível viver-se de outro modo, mais fraterno e simples.
“O hábito não faz o monge” diz a sabedoria popular. É bem verdade. Não é a forma mas o conteúdo que importa. Porquê então dar tanta importância às diferentes formas de vestir “os uniformes” da estrutura, em vez de nos centrarmos sobre o que é realmente relevante?
Um dos elementos que chamou a atenção, de maneira positiva, dos meios de comunicação social após a eleição do Papa Francisco, foi a simplicidade da sua veste branca comparada com a parafernália de adereços do antecessor; desde a cadeira até à imagem do Papa, quase da cabeça aos pés, tudo se tornou mais simples. E as pessoas acharam isso simpático. É apenas forma, mas pode ser um sinal exterior de uma mudança mais funda no sentido da aproximação da vida real; a roupa é só o efeito visual!
50 Anos depois do Concílio Vaticano II, e das mudanças que dele decorreram, ainda hoje há alguma polémica sobre se os padres e freiras devem ou não usar uma forma de vestir distintiva dos demais. Das sotainas, batinas, ao “clegyman” (fato completo), do cabeção, à cruz na lapela, dos “hábitos” das ordens religiosas, etc.… No que diz respeito às modas eclesiásticas (ainda) masculinas, são expressão de umas quantas variantes do mesmo pre/conceito; que estes homens devem mostrar-se bem diferentes dos restantes, acima deles, mais próximos do divino.
Já ouvi os argumentos mais delirantes a favor de tais distinções de vestes; por exemplo, de que ficam mais protegidos do assédio feminino, ou outro de quase igual teor, se houver um acidente na rua, alguém pode logo identificar e chamar o padre para dar os últimos sacramentos ao moribundo…
Quanto às “freiras com hábito” outro argumento inconsistente é o reverso do anterior para os padres. Assim os homens na rua não se metem com elas e estão por isso mais protegidas. Outro argumento risível é de que se tirarem o hábito vestem-se tão mal que se vê logo que são freiras, e de hábito não ofendem o bom gosto! Ou ainda, toda a gente respeita o “hábito” porque no fundo sabem que elas estão a ajudar o próximo e podem andar por zonas perigosas sem ninguém lhes fazer mal.
Em resumo, podem considerar-se estes argumentos como falácias de que vestes religiosas implicam necessariamente ser-se boa pessoa e por isso mais respeitável do que o resto da humanidade.
Além disso ocultam a diferença entre usar sempre roupa distintiva e usá-la em determinadas circunstâncias quando tal é necessário. Um médico não anda no meio da rua de bata e estetoscópio ao pescoço, um padre não anda paramentado fora da cerimónia religiosa a que preside, um bombeiro, um militar veste a farda quando está de serviço.
Acontece que Jesus Cristo, ele próprio, não mandou ninguém diferenciar-se pela roupa, estatuto social ou afins, mas apenas por uma pequenina grande diferença que é constituída por gestos concretos de amor ao próximo. Para o fazer qualquer roupa serve, desde que seja adequada à circunstância!
A meu ver o exemplo de Cristo remata de forma simples e prática o debate anacrónico sobre trapos, uniformes e afins…
Outra coisa é “roupa (e não só) adequada à circunstância”; o que se aplica de modo particular aos leigos. Ir à missa vestido como quem vai para a vida social do Bairro Alto, ou estar a mandar SMS durante a homilia e/ou a mascar pastilha elástica é tudo menos o adequado à circunstância…Quanto mais não seja são fatores que distraem outras pessoas do que é efetivamente importante.
Sem cair nos excessos pré conciliares de antigamente há um justo meio-termo e não é o que dantes se chamava em linguagem popular “a roupinha de Ver a Deus” ou “a roupa domingueira”.
Há um ponto de equilíbrio de geometria variável (um chavão em moda) dependente do contexto, tempo e lugar; supõe inserção na cultura local e simplicidade e é aplicável a padres, freiras e leigos pois todos são parte do mesmo Povo de Deus na igualdade do Baptismo. Este Papa já mostrou ser possível mudar este aspeto do “visual” e foi bem recebido. Faltamos nós, todos os outros, pois Nós também Somos Igreja.
E como em cada semana há um domingo, podemos começar por preencher certos requisitos; para o espírito, preparar as leituras do dia, para o corpo, escolher uma roupa apresentável e quanto a tecnologias, desligar o telemóvel pois Deus não nos fala por aí! Bom, pelo menos para já, mas há sempre quem espere este tipo de milagres.
AFF     15-6-2013    

22 junho 2013

Comunicado do IMWAC nos primeiros 100 dias de papado do Papa Francisco

International Movement We Are Church – IMWAC
Movimiento Internacional Somos-Iglesia
Movimento Internacional Nós Somos Igreja
Movimento Internazionale Noi siamo Chiesa
Mouvement international Nous sommes Eglise
Internationale Bewegung Wir sind Kirche
Contactos nos países membros: www.imwac.net/413/index.php/contact/contacts

Roma, Innsbruck, Munique, 18 de Junho

PARA DIVULGAÇAO IMEDIATA

O Movimento Nós Somos Igreja: Uma nova oportunidade para o Espírito na Hierarquia da Igreja

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja nos primeiros 100 dias de papado do Papa Francisco (21 Junho 2013)

Passados 100 dias desde que o Papa Francisco entrou em funções o Movimento Internacional Nós Somos Igreja (IMWAC) continua à espera de mudanças na liderança da Igreja. “ Damos as boas-vindas a todos os passos dados em direcção a uma maior fidelidade ao Evangelho", diz o Nós Somos Igreja.
O Nós Somos Igreja apela a todas as comunidades católicas para que tenham uma visão nova e crítica da organização que os lidera, assim como do sistema de privilégios medievais que nela predominam.
As grandes crises da Igreja Católica Romana estão longe de ter acabado mas, pelo menos, agora, vemos uma boa oportunidade de a nossa Igreja, uma comunidade global de 1.2 biliões de fiéis, encontrar modos autênticos e convincentes de divulgar o Evangelho de Jesus.
Francisco, Bispo de Roma, demonstrou uma aproximação que não é doutrinária, mas pastoral, que os fiéis há muito aguardavam. Esperamos que os seus gestos simples, mas fortes, de um ministério misericordioso e benevolente, possam mudar a atitude de todo o clero e dos que ainda mantêm formas obsoletas de prática religiosa.
A mudança no estilo de liderança deve ser acompanhada de reformas substanciais de acordo com o Concílio Vaticano II (1962-65), para reverter a restauração dos tempos pré-Vaticano II, dos últimos 50 anos. De outro modo, a frustração e perda de credibilidade, dentro e fora da Igreja Católica Romana, será imensa.
As novas formas de diálogo, a descentralização e gestão colegial, na linha dos ensinamentos do Vaticano II e uma nova visão do papel das mulheres na nossa Igreja são temas essenciais a ser enfrentados neste momento histórico. 
O Movimento Nós Somos Igreja apoia todos os passos para combater o Eurocentrismo e desejamos converter a nossa igreja numa Igreja mais de acordo com o Evangelho: uma Igreja na periferia, uma Igreja pobre e uma Igreja dos Pobres.  A nossa Igreja deve dedicar-se à paz universal e à ecologia baseada na justiça e nos direitos humanos. Para ser credível, deve também respeitar e promover os direitos humanos dentro da Igreja.
Sabemos que este será um longo processo de transformação. Apoiamo-lo e continuaremos a contribuir com os nossos pontos de vista, baseados numa sólida investigação teológica, esperando que lhes seja prestada mais atenção do que anteriormente. Também reconhecemos os importantes contributos de teólogos proféticos e das pessoas que trabalham na pastoral que foram silenciados durante as últimas décadas. Eles devem agora ser totalmente reabilitados.
Contudo, não pretendemos sobrestimar os sinais positivos dados por Francisco, ou subestimar a forte resistência da Cúria, interesses culturais e económicos que têm sido tão poderosos na Igreja há tanto tempo. Estamos cientes das fortes pressões externas exercidas sobre o Papa Francisco.
Apelamos ao Papa Francisco para que seja forte e corajoso e desejamos que tenha todo o apoio que necessita. Esperamos que, neste pontificado, se inicie um processo de transformação da Igreja Católica Romana e de toda a Cristandade para encontrar um papel novo e mais positivo numa comunidade humana global e em rápida mudança.

O Nós Somos Igreja está pronto para apoiar este novo caminho em direcção a uma Igreja do Povo de Deus, verdadeiramente fraterna.

Movimento Internacional Nós Somos Igreja


         O Movimento Internacional Nós Somos Igreja (IMWAC), fundado em Roma em 1996, encontra-se representado em mais de 20 países e reúne grupos reformistas semelhantes de todo o mundo, em todos os continentes.  Nós Somos Igreja é um movimento internacional dentro da Igreja Católica Romana e pretende a sua renovação com base no Concílio Vaticano II.  Nós Somos Igreja iniciou o seu trabalhado em 1995, na Áustria, com um referendo eclesial.

18 junho 2013

UM DEUS IRREMEDIAVELMENTE MASCULINO?

       
1. Consta que, nas “redes sociais”, circulam campanhas para correr com o Papa Francisco. Como João Paulo I não se soube defender das consequências de ter ressuscitado o estilo das atitudes, palavras e gestos de João XXIII, diz-se que o papa Francisco pode sair-se mal com o seu “populismo”, diversamente interpretado. Para uns, não passa de uma táctica para esconder o seu velho conservadorismo; para outros, é o caminho escolhido para ganhar apoios em todo o mundo, dentro e fora da Igreja Católica, para liquidar, de vez, o poder da Cúria Romana. Porque não pôr a hipótese de se tratar, sobretudo, de um modo de ser, de uma característica de personalidade? 
 A acusação mais grave contra este papa não se prende com questões de estilo, mas, sobretudo, de carácter teológico. O Pontífice romano teria falado de Deus, como Pai e Mãe, como Mãe, ou como Rosto materno de Deus.
 Esse género de antropomorfismos estiveram muito em uso em certas comunidades cristãs da América Latina e atraíram o sorriso atrevido de João Paulo I. Não agradou muito aos seus sucessores. Regressou agora, de forma descontraída, mas embateu com as rotinas de uso corrente no âmbito das religiões monoteístas: Deus é masculino, podemos chamar-lhe pai; mãe, nunca! Servir para pai e mãe, um deus unissexo, não fica bem na boca de um papa!
Na tradição da teologia mística do famoso Pseudo-Dionísio, o Areopagita (séc. V-VI), dizer Deus é referir-se à profundidade infinita e inapreensível do mistério. Nenhum nome lhe pode ser verdadeiramente adequado. Ao ser evocado na linguagem simbólica, sabe-se que esta vem dos abismos do silêncio e carrega, em cada afirmação, uma negação para vencer a tentação da idolatria. Quando alguém se fixa em representações de um deus unissexo ou pluri-sexual não se salta para fora dessa prisão. Só é possível chamar a Deus Pai e Mãe ou referir-se ao rosto materno de Deus, quando se vive na raiz da linguagem metafórica. Esta remete para a Realidade que não cabe em nenhum conceito nem se esgota em nenhuma experiência. O cristianismo não pode esquecer as suas raízes: o amor crucificado que não renuncia à pátria da alegria. Às expressões de “espiritualidades apoetadas”, de meladas facilidades, aconselharia uma cura na poesia de Herberto Helder, de Paul Celan, de Angelus Silesius ou na mística do Mestre Eckhart.
  2. As atitudes e as palavras do Papa Francisco não são nem herméticas, nem lamechas. São bem-humoradas. Mostrou-o, mais uma vez, no dia 7 de Junho, na Aula Paulo VI, no encontro onde recebeu delegações dos colégios jesuítas da Itália e da Albânia. O cenário exigia solenidade, exaltação de grupo e aproveitamento apologético. Logo à partida, o Papa, olhando para a assembleia, destruiu um discurso preparado, de cinco páginas, que lhe pareceu completamente inadequado e aborrecido. Limitou-se a fazer um pequeno resumo e optou pelo diálogo. Faziam-lhe perguntas e ele respondia. As perguntas das crianças iam bem preparadas e tocavam na sua opção de ter renunciado ao luxuoso apartamento no Vaticano e a um grande carro. O importante foi a resposta. Não deu uma lição de grande asceta. Fixou-se em algo muito mais simples: não gosta de viver só. Gosta de viver no meio das pessoas. É uma questão de personalidade e contou o que, com humor, respondeu a um professor: por razões de ordem psiquiátrica.
3. No referido encontro, nem só as crianças tinham perguntas: Como adultos das escolas jesuítas, diga-nos algumas palavras sobre como poderá ser jesuítico e evangélico o nosso compromisso, o nosso trabalho, hoje, em Itália e no mundo?” A resposta não podia ser mais directa nem mais incisiva: ”Nós, cristãos, não podemos fazer de Pilatos, lavar as mãos. Temos de nos meter na política porque a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Diz-se que a política está muito suja, mas eu pergunto, está suja porquê? Será porque os cristãos não se metem nela com espírito evangélico? É a pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros. Mas eu, o que faço? Isto é um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever cristão”.
Não basta dizer que os cristãos se devem meter na política. Importa reflectir sobre as razões que os movem nessa participação activa. O Papa destaca uma coincidência entre a razão política – a busca do bem comum – e a maior virtude teologal - a caridade. No entanto, tudo pode ser corrompido. Os antigos diziam que o melhor se pode tornar péssimo, optima péssima. Por isso, acrescenta o Papa Francisco: na política, mas com espírito evangélico. Para servir e não para se servir.
A política, hoje, está dominada pela finança e pelos seus jogos, locais e globais. O prestígio, no âmbito político, resulta de uma carreira brilhante no mundo da finança. Santiago Onzoño, da IE Business School, recorda que os grandes professores de finanças, sobretudo os que vivem nos Estados Unidos, estão a descobrir as virtudes da modéstia e da humildade. Estamos perante uma ciência ainda na fase da infância.
Em Portugal, continuam na fase da arrogância, de quem vive no segredo dos mercados, dos seus inescrutáveis desígnios e nos ditam as suas indiscutíveis leis. Ser cristão ou não é igual.

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público

16 de Junho 2013
 

15 junho 2013

O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS MAL PINTADO

      
1. Na passada sexta-feira foi celebrada a festa do Sagrado Coração de Jesus. A origem desta devoção deve-se a Santa Margarida Maria de Alacoque, religiosa da Ordem da Visitação, que manifestou ter recebido extraordinárias revelações pessoais de Jesus Cristo, entre 1673 e 1675.
Depois, a partir de Portugal, a Beata Maria do Divino Coração, condessa de Droste zu Vischering, obteve do Papa Leão XIII, em 1899, a consagração do mundo a esta invocação. Várias congregações religiosas, femininas e masculinas, assim como igrejas, paróquias, basílicas e outros monumentos passaram a ser designados como do Sagrado Coração de Jesus. A devoção das nove primeiras sextas-feiras de cada mês, acompanhada de doze promessas de garantia, teve um grande êxito, em vários países.
Em Lisboa, existe uma igreja paroquial dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, obra dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, que recebeu o prémio Valmor em 1975 e é monumento nacional, desde 2010. Apesar de todas as diligências, o Sagrado Coração de Jesus não conseguiu, na altura, encontrar nenhum grande artista que o quisesse pintar ou esculpir. Fui ao Google verificar se teria havido algum esquecimento. Entre as mais de quatrocentas imagens visitadas não encontrei uma que lá pudesse figurar, sem atentar contra a qualidade daquela arquitectura. Aliás, a reprodução de tais imagens é sempre a multiplicação da fealdade. Não é apenas um defeito português, é uma importação. A revista L’ Art Sacré, dos padres dominicanos Marie-Alain Couturier e Pie Régamey, na secção campo contra campo, as imagens do Sagrado Coração de Jesus eram sempre apresentadas como a desfiguração da autêntica arte sacra. Eles apostaram no génio, em artistas como Matisse, Rouault, Léger, Bonnard, Chagall, Braque, Corbusier, entre outros, mas o Coração de Jesus continuou como está no Google.
Porque será que algumas das expressões mais belas do Antigo e do Novo Testamento tenham sido transformadas em insuportáveis figuras que apresentam entre as mãos, sobre o peito, a extracção de um coração ensanguentado, num realismo que é a própria negação do caminho simbólico, caminho da transcendência? Que terá isso a ver com a promessa bíblica evocada no baptismo, “dar-vos–ei um coração novo e infundirei em vós um espírito novo. Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne“? Será a troca de uma pedra da calçada por um naco de carne humana?
Como encontrar nas ditas imagens do “sagrado coração de Jesus” a beleza deste apelo? “ Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”
Sem sensibilidade para a linguagem simbólica, o pseudo-realismo torna-se grotesco.
2. Os textos da solenidade da sexta-feira passada são, precisamente, a orquestração literária deste apelo. Ezequiel era um profeta, testemunha da situação do povo a que pertencia, um povo no exílio, que se julgava abandonado. Ezequiel era também um grande poeta, alguém que salta para fora das evidências empíricas de uma cultura pastoril. Tem à mão uma realidade partilhada: a dos rebanhos e a dos pastores. Não vai fazer comparações. Vai colocar Deus a falar e a agir como nunca nenhum pastor o tinha feito. As metáforas são indispensáveis, mas podem ser perigosas. Ao servir-se de uma relação de pastor com as suas ovelhas, aplicada aos seres humanos, pode incorrer num equívoco. Ninguém gosta de ser ovelha, seja qual for o senhor. Tomada à letra, essa expressão é degradante, não é de cidadãos. Para não ofender as ovelhas, quando encontramos seres humanos servis, chamamos-lhes carneiros.
A parábola do Bom Pastor (Lc 15,3-7) faz a ponte entre o Antigo e o Novo Testamento, pois a metáfora só vale para o pastor, para aquele que cuida das ovelhas, sem pensar no lucro que lhe dão, mas pelo amor que lhes tem. Usa, por isso, de uma irracionalidade: deixar em perigo noventa e nove, o rebanho todo, para ir atrás de uma desgarrada. Ao extremar as atitudes, até ao absurdo, indica que está a falar de outra coisa que não cabe no registo do razoável, que está fora da lógica dos números. Para Deus cada pessoa é insubstituível. Em todo o lado, noventa e nove são noventa e nove e uma apenas uma. Na lei dos grandes números mais um ou menos um não é relevante.
3. Paulo, na segunda leitura (Rom 5,5b-11), não fala em parábolas, nem constrói grandes teorias psicológicas ou filosóficas sobre o amor. Só lhe interessa mostrar que a lógica do comportamento de Deus em relação a nós, salta para fora do amor razoável. Segue a loucura da sua própria gratuidade. Não tem porquês. É a respiração do seu modo de ser. Não olha para quem merece ou não merece ser amado. É o amor que nos tem que nos pode tornar amáveis, se nele consentirmos. Mas o seu amor é anterior a tudo. Neste ponto coincide com S. João: Deus é amor, o amor que nos amou primeiro.
               
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público
09.06.2013

12 junho 2013

Mulheres como Igreja e na Igreja

        
Voltando ao tema mulheres como Igreja e na Igreja. Vejamos o que nos diz São Mateus que nos leva a propor a plena igualdade das duas faces da humanidade, na sua intensa variedade:
Vejamos:
Mateus 1, 21: ‘Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.’
O povo será salvo dos seus pecados. Nesse povo estão obviamente incluídas as mulheres e os homens. Ambos serão salvos. Estão ao mesmo nível. Se tal não fosse o caso, teria que ser referido.
Mateus 3, 2: ‘ Dizia: ‘Convertei-vos,  porque está próximo o Reino do Céu.’
Quer as mulheres quer os homens devem afastar-se do pecado, devem converter-se ao bem,  e o Reino dos céus a ambos vai acolher.
Mateus 6, 14-15: ‘De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas o Pai Celestial também lhes perdoará a vocês. Mas, se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também lhes não perdoará a vocês.’
Quer as mulheres quer os homens devem praticar o perdão, quer as mulheres quer os homens têm que evitar o ódio. Os níveis de exigência com que nos deparamos são iguais para ambos os sexos.
Mateus 22, 36-39: ‘Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Jesus disse-lhe: ‘Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.’
Mulheres e homens têm que amar, amar completamente, perdidamente. Não há distinções – ou seja, quer umas quer outros são capazes de amor e, em última análise, são feitos para o amor, por mais que possam pecar contra o amor. Não há uma bitola para o amor das mulheres e outra para o dos homens, o que seria curial se houvesse qualquer diferença ontológica entre os sexos.
Mateus 23, 37: ‘Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os seus pintainhos sob as asas, e tu não quiseste!’
Mais uma vez, não se introduziu distinção de género na metáfora dos ‘filhos’. A todos abarca, o feminino e o masculino, pois se não o fizesse, mais uma vez teria que ser enunciado. Evoca-se a imagem da galinha, uma representação muito positiva da função maternal atribuída a Deus.
Finalmente, vejamos Mateus 26, 26-28: ‘Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: ‘Tomai, comei: Isto é o meu corpo. Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: ‘Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados. Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira, até ao dia em que beber o vinho novo convosco no Reino de meu Pai.’
 Neste quadro os discípulos simbolizam-nos a todos, homens e mulheres, que somos convidados a comer e a beber o corpo de Jesus. O sangue foi derramado para o perdão dos pecados da humanidade. Ou seja, dos nossos pecados.
Ana Vicente
11.06.2013


02 junho 2013

A POSTERIDADE DE JOÃO XXIII

          
1. O Movimento Internacional Nós Somos Igreja-Portugal, no passado Sábado 25 de Maio, promoveu um Encontro-Debate sobre “A revolução de João XXIII”. No próximo dia 3, dia do cinquentenário da sua morte, será  evocado na Celebração da Eucaristia do Convento de S. Domingos às 19.15h.
Na história da Igreja Católica no século XX existe um antes e um depois da revolução de João XXIII. Concretizada na inesperada convocatória do Concílio Vaticano II e no estilo absolutamente original do seu desenrolar durante a primeira sessão.
No dia 11 de outubro de 1962, o Concílio Vaticano II, idealizado pelo Papa João XXIII, "teve os seus trabalhos oficialmente inaugurados, contando com a presença de 2.540 padres conciliares, número este inédito para a História da Igreja: 1060 europeus (dos quais 423 italianos, 144 franceses, 87 espanhóis, 59 polacos, 29 portugueses…), 408 asiáticos, 351 africanos, 416 norte-americanos, 620 latino-americanos e 74 da Oceania". Mas, mesmo assim, "estavam ainda ausentes do Concílio muitos bispos de dioceses que viviam sob regimes autoritários", na sua maioria de ideologia comunista. "O número de participantes variou muito de acordo com as sessões, nunca porém estando abaixo de 80% do total dos padres conciliares".
Pela primeira vez na História, "os peritos [...] foram ouvidos na elaboração dos textos conciliares, trazendo consigo uma imensa riqueza de tradições e culturas". Estes peritos, que não tinham direito a voto, são também chamados de consultores teológicos e tinham uma grande influência no Concílio. Várias dezenas de observadores protestantes e ortodoxos também foram convidados e estiveram presentes nas 4 sessões do Concílio.
Foram tão polémicas e tão comentadas algumas decisões de Paulo VI, de João Paulo II e de Bento XVI que levaram a esquecer o Vaticano II, a própria figura de João XXIII e, sobretudo, a de João Paulo I, que importa revisitar, pois o ruído exterior em torno das estranhas circunstâncias da sua morte, as declarações que fez, aparentemente pouco ortodoxas e a reforma temida da Cúria, tornaram ainda mais breve um Pontificado que durou apenas um mês (26.08 a 28.09.1978). Este Papa do Sorriso parecia-se demasiado com João XXIII. No dia 27 de Agosto, perante uma enorme multidão centrada na Praça de S. Pedro, esclareceu: Não tenho nem a sabedoria de coração do Papa João, nem a preparação e a cultura do Papa Paulo, mas estou no seu lugar e, portanto, disposto a servir a Igreja.
Tinha uma grande experiência pastoral e o seu carisma foi rapidamente associado ao de João XXIII, que não só fugia à diplomacia vaticana, mas se atreveu a declarar: logo que fui eleito papa desatei a ler o anuário pontifício para conhecer a organização da Santa Sé. Fala, sorri, diverte-se (diz amar a virtude do divertimento), parece-se com S. Francisco de Assis. Cita publicamente Júlio Verne a Montaigne e lê um poema de amor francês diante de uns jovens noivos. Na altura da primeira audiência geral, a 6 de Setembro, pede que se reze para que a nossa viatura não tombe num fosso. Recomenda, aos seus ouvintes, que sejam humildes e sempre humildes. NO seu último discurso, a 23 de Setembro, lembra aos Romanos, em S. João de Latrão, que se sirvam das suas pobres forças. Invocou a Deus como Pai e Mãe e queria dar exemplo de um cristianismo que fosse no quotidiano lúcido e sorridente. Também ele, como João XXIII, não era um papa como os outros, mas era a continuação do que havia de mais genuíno no Vaticano II que ele queria tornar popular, isto é, assumido pelo povo e a recriar, em novas situações, numa história que se lembra de muita coisa, mas que se esquece dos pobres. Os que falam do bom Papa João para dizer que era um bem intencionado, um bonzinho que não captava a complexidade da Igreja e do mundo, também quiseram fazer de João Paulo I, do Albino Luciani um santo ingénuo. A única coisa que desejo é que o Papa Francisco se inspire nestes dois predecessores e continue a sua posteridade.
Frei Bento Domingues, O.P.
1 de Junho de 2013

O SEGREDO DA ALEGRIA DE JOÃO XXIII (2)

         
1. É próprio do moralismo destilar maldições sobre as mais autênticas alegrias humanas. Instalou-se, há muitos séculos, em certas correntes do cristianismo e reaparece, periodicamente, como se fosse a sua versão mais genuína pelo seu “desprezo do mundo”. É, na verdade, uma importação estranha à poética pregação de Cristo que respira, em cada gesto e em cada parábola, o gosto da plenitude da vida (Jo 20,30-31).
A evasão gnóstica foi denunciada por S. João ao falar de Cristo como Aquele que ouvimos, vimos com os nossos olhos e nossas mãos apalparam da Palavra da vida (…) E isto vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa (1 Jo 1, 1-4). A pregação e a intervenção da Igreja só valem na medida em que forem Evangelho, isto é, revelação de que, da parte de Deus, todos somos amados, mas com um encargo: amai-vos uns aos outros (Jo 15, 12-17).
Dir-se-á que qualquer um, em dia sim, poderia escrever algo parecido. Esqueci, nas transcrições referidas, uma frase que perturba essa veleidade: ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos. Não fica por aqui: sois meus amigos se esta for a vossa prática. Se os bons sentimentos não chegam para a boa literatura, também não são as boas intenções que nos salvam.
2. João XXIII agradeceu sempre a Deus ter nascido com bom feitio, mas nunca se contentou com o seu contagiante bom humor, testemunhado nos fioretti, que sobre ele foram publicados. Recorde-se a resposta que deu a quem lhe perguntou quantas pessoas trabalhavam no Vaticano: mais ou menos metade.
No Resumo das grandes graças feitas a quem tem pouca estima por si próprio, mas recebe as boas inspirações e as aplica com humildade e confiança, podemos ler:
«Primeira Graça: Aceitar com simplicidade e honra o peso do pontificado, com a alegria de poder dizer que nada fiz para o provocar, absolutamente nada; antes, com a preocupação diligente e consciente de não ter chamado a atenção sobre a minha pessoa; muito contente, durante as variações do Conclave, quando via alguma possibilidade de diminuir no meu horizonte e voltar-me para outras pessoas, verdadeiramente digníssimas e venerandas, em minha opinião.
Segunda Graça: Surgirem, no meu espírito, como simples e de execução imediata, algumas ideias, nada complexas, pelo contrário bastante simples, mas de vasto alcance e responsabilidade em relação ao futuro e com sucesso imediato. Exemplos da expressão: colher as boas inspirações do Senhor, “simpliciter et confidenter”!
Sem ter pensado nisso antes, terem saído de mim, numa primeira conversa com o meu Secretário de Estado, a 20 de Janeiro de 1959, palavras sobre o Concílio Ecuménico, o Sínodo Diocesano e a remodelação do Código de Direito Canónico, contrariamente a todas as minhas suposições ou pensamentos sobre este ponto.
O primeiro a ficar surpreendido com esta minha proposta fui eu próprio, sem que alguma vez me tivesse dado indicações a este respeito.
E dizer que tudo, depois, me pareceu tão natural no seu imediato e continuo desenrolar!
Depois de três anos de preparação laboriosa, é certo, mas também feliz e tranquila, eis-me agora nas faldas da Santa Montanha.
Que o Senhor nos ampare para conduzirmos tudo a bom termo».
3. João XXIII poderia dizer, como o poeta: o Concílio aconteceu-me. Numa nota escrita em 1959 pode ler-se: “Este é o mistério da minha vida. Não procureis outra explicação. Repeti sempre a frase de S Gregório Nanzianzeno: voluntas tua pax nostra”.
Ao longo de toda a sua vida, como testemunha o seu Diário, o que procurou, em primeiro lugar, foi cultivar a humildade para estar disponível, livre, para o que Deus quisesse fazer dele. Cada passo nesta direcção era um motivo de alegria. Ele gostava da sua família, gostou da vida no seminário, de ser padre, de ser bispo, de ser papa e de descobrir que tudo foram etapas para chegar ao ponto de sentir que o mundo inteiro era a sua família. Nessa altura, sentiu-se na onda de Deus. Não era uma conquista ideológica ou teológica, mas o fruto de ter amado todos aqueles com quem viveu e a quem foi enviado: Bulgária, Turquia, Grécia, França. Descobriu, não só outras faces da Igreja Católica, mas também a Igreja Ortodoxa, o Islão e o mundo laico. Foi um acolhimento transformador, dele próprio e dos outros. Tornou-se um pontífice, uma pessoa que faz pontes, que põe mundos em contacto.
Ao ler o Diário de João XXIII parece que tudo lhe acontece sem premeditação, mas não sem método: “o esforço vigilante de reduzir tudo, princípios, preocupações, posições, trabalho, ao máximo de simplicidade e de calma; o podar atentamente a minha vida daquilo que apenas é folhagem inútil e gavinha e dirigir-me à verdade, à justiça e à caridade, sobretudo à caridade. Qualquer outro sistema não é mais do que atitude e busca de afirmação pessoal que se trai e se torna embaraçante e ridícula. (…) Deixo aos outros a superabundância da astúcia e da chamada perícia diplomática e continuo a contentar-me com a minha bonomia e simplicidade de sentimentos, de palavra e de trato. O resultado final é sempre favorável a quem permanece fiel à doutrina e aos exemplos do Senhor”.
Frei Bento Domingues, O. P.
02.06.2013
in Público