30 junho 2013

Conferências no Lumiar — a Relação

Divulgamos aqui as conferências no Mosteiro de Santa Maria do Lumiar, este ano dedicadas ao tema "A Relação — Um modo quotidiano e profético de viver o Evangelho". Clique nas imagens para aumentar.




Quer assinar está carta a enviar ao Papa Francisco?

Amig@s: como sabem, o Papa Francisco pediu a um grupo de Cardeais, dos quatro cantos do mundo, para se encontrarem com ele, em Outubro, para falarem sobre como reformar o governo na Igreja. Isto é uma coisa que ele não teria feito se o presente sistema monárquico estivesse a funcionar tendo em vista o  bem supremo do Povo de Deus. Claramente não é esse o caso e, por isso, com igual clareza o Papa está aberto a que lhe façam algumas sugestões.
No nosso novo sítio, lançado na 6ª feira, 20 de Junho, ousamos lembrar o Papa Francisco e os seus cardeais de uma ideia que chegou a ser considerada, mas que não foi promulgada, no Concílio Vaticano II, e que raramente foi utilizada na Igreja pós-conciliar: dar voz ao povo de Deus, dar voto e  cidadania, numa Igreja que é demasiadamente clerical.
Como realizar isso? Caminho mais directo: encorajar o povo de cada diocese, em todo o mundo,  a eleger os seus próprios bispos. Esses bispos-servos, (não bispos Lordes), seriam responsáveis perante o povo que os elegeu e, em  devido tempo, estabeleceriam uma Igreja responsável do, por e para o povo de Deus. Nós dizemos tudo isso na Petição: http://www.CatholicChurchReform.com.
O nosso sítio vai ainda mais longe. Nele, pedimos a tod@s @s que concordarem com este objectivo para assinarem esta carta a incitar o Papa e o seu grupo de cardeais-conselheiros a colocar a eleição directa dos bispos, na agenda de Outubro. Planeamos entregar esta carta ao Papa pouco tempo antes do seu encontro com os cardeais. Pode ajudar-nos a recolher um milhão de assinaturas ao assinar a nossa carta ao Papa ao pedir aos/às vossos/vossas amig@s para fazerem o mesmo. Tornámos isso fácil. Veja a carta ao Papa: http://www.CatholicChurchReform.com.
Não pensamos que o Papa Francisco seja pessoa para ignorar um milhão ou mais de assinaturas. Ou mesmo só uma.
Para assinar vá a: http://www.catholicchurchreform.com/letter.html

         Kaiser
ROBERT BLAIR KAISER
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PHOENIX, AZ 85023
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POBREZA ESCANDALOSA E POBREZA VIRTUOSA

     
1. O Papa Francisco não tem precisado das habituais campanhas de marketing destinadas à construção de uma vedeta, para consumo dos meios de comunicação social. Os gestos simples, calorosos e alegres de proximidade surgem como o seu modo de ser. O que lhe importa é deslocar os olhos das pessoas para o mundo dos pobres, excluídos e marginalizados, denunciando as opções económicas e financeiras que aprofundam o abismo entre os muito pobres e a dominação de interesses incontrolados, a nível local e global. Alerta para o carreirismo eclesiástico e o seu aburguesamento, ataca o moralismo hipócrita que, a coberto de preceitos e normas canónicas, oprime a consciência dos fiéis, em vez de os acolher, libertar e responsabilizar. Nota-se, na sua prática, a preocupação de ajudar a Igreja a tornar-se um rosto humano de Deus e a advogada da dignidade divina dos ofendidos. Destaca os que servem a Igreja e a sociedade sem nada pedirem em troca.
Estas atitudes podem tornar-se um incentivo para a reforma da Igreja no seu todo, das cúrias diocesanas e vaticana, assim como das congregações religiosas e movimentos católicos. Não servem para substituir o grande vazio mundial de lideranças humanistas e espirituais, nem para promover o culto da personalidade, a papolatria.
A forma como o papa Francisco acaba de evocar a figura de S. João Baptista mostra que não entende a Igreja como o sol do mundo. A Igreja é apenas a lua. Não é a fonte da Luz, precisa de ser iluminada. Como João Baptista, é a voz da Palavra que escuta e medita, não é a Palavra.            
2. Pertence, por isso, à verdade da Igreja ser radicalmente pobre. Nasce e alimenta-se da graça divina nas expressões da história humana, segundo a diversidade das culturas e tradições religiosas. Nas comunidades cristãs tudo é fruto de um dom para que cultivem a gratuidade nos serviços que prestam à sociedade: recebestes de graça, dai de graça.
As comunidades cristãs não são a salvação, mas sacramento, sinal e instrumento da salvaguarda e da cura da natureza. O alfa, o ómega e o coração do mundo é o Mistério infinito no qual vivemos, nos movemos e existimos. A Igreja existe para nos acordar para o essencial.           
O contributo destes breves meses de pontificado está de acordo com a liturgia do passado domingo: Jesus não recusou o papel profético que o povo reconheceu nele, mas recusou o de Messias. Porque terá sido e por que terá essa recusa um alcance permanente para a Igreja?
O profeta é um clarividente, um lúcido que procura que todos vivam com lucidez. O seu propósito não é ter poder, mas contribuir para que o povo e os governantes não se enganem, não enganem, nem se deixem enganar. Descubram onde está a verdadeira vida. Para o autêntico profeta, a paz é filha do direito, da justiça, da verdade e da sabedoria.
A figura do Messias, pelo contrário, é a de quem resolve, de forma “teocrática”, milagrosa, os problemas económicos, sociais e políticos. O Messias é um caudilho que manipula a opinião pública para conseguir e manter o poder. Os textos evangélicos encaram as tentações messiânicas como diabólicas: não deixam Deus ser Deus, nem os seres humanos responsabilizarem-se pela sua história. Deus é um tapa buracos e os seres humanos paus mandados de forças obscuras.
Jesus só foi reconhecido Cristo (Messias), – aliás um Messias crucificado -, porque venceu a tentação caudilhista. Defendeu a causa dos pobres, denunciou a idolatria do dinheiro e os ricos avarentos, provocou a conversão dos “zaqueus”, dispondo-os a restituir os frutos da corrupção, sem nunca se tornar sectário.     
3. Não se espera que a Igreja seja uma academia, um centro de investigação, um conjunto de faculdades dedicadas ao ensino da economia, das finanças, da gestão e das ciências políticas. Desde o Papa Leão XIII, foi-se constituindo, embora avaliada de formas diferentes, a chamada Doutrina Social da Igreja que, de facto, é a doutrina social dos papas. É desejável que, no seio das comunidades cristãs, muitas pessoas se dediquem, com todo o afinco, a cultivar ciências, artes e sabedorias para produzir e distribuir, da forma mais justa e mais respeitadora da natureza, tudo o que torna a vida humana mais digna de ser vivida. Neste sentido, é normal, que numa Igreja pluralista, surjam pensadores da realidade social de várias orientações, mas que possam confrontar-se e dialogar[I].
Jesus Cristo não deixou à Igreja, em herança, nenhum tratado de ciências sociais. Como quem diz, se delas precisarem, inventem-nas por vossa conta e risco, mas sem a minha assinatura. Deixou-nos, no entanto, indicações preciosas: todas as instituições são para alimentar e dignificar a vida humana; é escandaloso colocar a vida humana ao serviço do dinheiro e das suas instituições.
Mais escandaloso ainda, é continuar a plantar árvores que só podem dar frutos de injustiça e miséria, pobreza escandalosa.
Frei Bento Domingues, O.P.
30.06.2013


[I]  Jeffrey Sachs, O Fim da Pobreza, Casa das Letras, 2005; Coord. Lucy Williams, O Direito Internacional da Pobreza, Sucuru, 2010; Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, Economia dos Pobres, Temas e Debates, 2012; Tim Jackson, Prosperidade sem Crescimento, Tinta da China, 2013.

29 junho 2013

A samaritana Olívia

       
A dona Olívia fazia-me lembrar a samaritana sem nome. Aquela dos cinco maridos com um sexto do qual se comenta não ser dela. Embora se diga que a leitura dessa passagem do evangelho (Jo 4, 1-30) não deve ser literal nem lida no singular, a sua singularidade não deixa de conter muitas verdades de outras tantas realidades. A dona Olívia também teve cinco espécies de maridos, e as línguas que tendem a falar do que já é muito falado, diziam que esses eram só os conhecidos. Em rigor nenhum deles era marido, eram homens com quem viveu e a quem serviu na vida. Tal como o da samaritana, o sexto também não era dela e esse poderá ter sido mais que um. O quinto era um viúvo, ainda primo afastado que não sabia o que fazer para continuar vivo depois de a mulher ter morrido. Com ar de abandonado foi ter com a Olívia que o acolheu a ele, a um frigorífico e a uma máquina de lavar roupa. Em pouco tempo o homem parecia outro. Diziam: até já parece um homem casado. A ela não a elogiavam, nem sequer a mencionavam. Era preferível não o fazerem, pois iriam dizer que não tinha vergonha nenhuma. O quarto, o João padeiro, também tinha ficado viúvo. Tratava-a muito bem, e ela a ele melhor ainda. Entendiam-se e ele, como diziam, era amigo dela. Deixou-lhe uma pequena fortuna, para ela grande, na qual punha a sua segurança para quando fosse mais velha. Mas entregou-a ao cuidado dos filhos e alguns deles encarregaram-se de lhe abrir um caminho de saída, sem regresso, do banco para as suas dívidas. O terceiro homem apareceu na terra como vindo de lado nenhum, talvez de alguma gruta na serra ou das águas do rio. Havia muitas histórias a seu respeito: que tinha fugido a um crime, que abandonou mulher e filhos por não ter com que os sustentar, e os mais complacentes diziam simplesmente que tinha vindo parar ali à procura de trabalho. Vindo de lado nenhum agarrou-se ao lugar e à dona Olívia por alguns anos. Depois, tal como veio assim desapareceu sem deixar sinais de para onde. Os comentários mais benevolentes diziam: deve ter morrido. O segundo era um sapateiro que também tinha vindo em busca de trabalho e ali passou os dias de alguns anos ao lado da dona Olívia. Brilhante no exercício da profissão, dizia que ainda tinha forças para gastar meias solas com ela apesar de ela ser mais nova. Ela precisava de companhia e ele de uma lareira, de cobertores no inverno e de caldo quente. Ou, como diziam, precisava de tudo. O primeiro era mais ilustre. Homem já maduro, tinha um bonito cavalo que o transportava pelos caminhos de Deus e dos homens. Ela, ainda muito jovem, pouco mais que adolescente, já tinha as mãos ásperas do muito trabalho num tempo em que se geria mais a vontade de comer do que a comida. Ele, senhor de muitos bens que lhe davam pelo seu dedicado serviço, sentia debaixo do chapéu um denso peso na cabeça. A Olívia achava que ele era rico e lhe podia satisfazer muitas necessidades. Ele pensava o mesmo dela no que tocava a necessidades. Entre a troca e a partilha tiveram uma filha. Ela era simplesmente Olívia, ele era padre. Ele deixou de sentir na cabeça o peso do celibato, ela deixou de sentir um vazio na boca do estômago. Nem tudo foi assim tão simples, porque a vida é boa e bela segundo a perspectiva de onde se olha para ela. A vida da dona Olívia foi bastante colorida e diversificada, mas nem sempre boa. Nos últimos tempos ouvi-lhe dizer que desde há uns anos o seu verdadeiro marido era Jesus. Foi nesse momento que me veio à mente a Samaritana. Parece que também para ela, Jesus foi de algum modo o sétimo marido. Que dizer de uma e de outra? Eu não digo nada, que poderei dizer? Aí estão os dias e as noites na sua diversidade como juízes daquilo que somos e fazemos. A Samaritana já partiu para a luz eterna há dois mil anos. A dona Olívia partiu há dois meses. Era muito bonita, delicada e transparecia nela a serenidade contida no significado do seu nome. Sorrio quando penso que ao chegar a esse lugar sem lugar, envolto pela graça de Deus, terá ouvido uma voz a chamá-la: anda cá mulher, não há vida mais parecida com a tua que a minha. Que assim seja!
Frei Matias, O.P.
Junho 2013

23 junho 2013

O PACTO DAS CATACUMBAS

         
1. João XXIII, um mês antes da abertura do Concílio Vaticano II, na radiomensagem de 11 de Setembro de 1962, espantou os próprios católicos com a declaração: “hoje, a Igreja é especialmente a Igreja dos pobres”. Em número, esta afirmação não podia ser mais exacta. Porque terá, então, levantado tanta celeuma? Creio que, passados cinquenta anos, continua a ser estranha. O Papa Francisco acaba de surpreender muita gente, com gestos e atitudes, que já deveriam ser uma prática corrente. É certo que o Vaticano II alterou uma eclesiologia piramidal. Mas não podia mudar a mentalidade e representações que foram cimentadas ao longo de séculos. Ainda hoje, quando se fala de Igreja não pensamos logo em comunidades cristãs. Pensamos em padres e na hierarquia eclesiástica presidida pelo Papa, rodeado por um conjunto cardeais, com sede no Vaticano. Essa não é a imagem mais directa da pobreza. Verdadeira ou falsa, não é apenas a propaganda anticlerical a dizer que a Igreja é rica e está ao serviço dos ricos e poderosos.
A Igreja teve um começo pobre e Jesus Cristo não deixou grande fortuna aos seus discípulos. Ao longo dos tempos, a santidade da Igreja será avaliada pela capacidade de fazer sua a causa dos pobres.
Importa distinguir a pobreza escolhida, da pobreza imposta. Uma é virtude, a outra, uma violência. Há austeridade que é frugalidade, simplicidade de vida. Há programas de austeridade para os outros, que tornam a vida impossível aos pobres e remediados.
Ninguém se faz cristão para ser rico, mas sendo rico, terá mais motivos para ajudar a libertar os que são vítimas da pobreza imposta. A partilha com os mais pobres é virtude. Dado o destino universal dos bens criados, em caso de necessidade urgente, não é roubo apropriar-se daquilo que está na posse de outrem. O direito à propriedade privada, em caso de necessidade, deve ceder diante do direito à vida (Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II q. 65, 7; 2Cor. 8, 9-15).
2. O Cardeal Gerlier referindo-se às tarefas do Concílio, retomou as palavras de João XXIII para dizer: se não as examinarmos e estudarmos, tudo o resto corre o risco de não servir para nada. Dois meses depois da abertura do Vaticano II, o Cardeal Lercaro, já na aula conciliar, referindo-se à mesma questão, afirmou com desencanto: em dois meses de trabalho e investigação verdadeiramente generosa, humilde e fraterna, todos nós sentimos que falta alguma coisa ao Concílio.
Na altura, não lhe ligaram muito. No entanto, vários bispos aperceberam-se de que, uma Igreja voltada para os pobres, ainda estava longe da sensibilidade da maioria. Decidiram reunir-se, confidencialmente, com regularidade e sem sectarismos. Poucos dias antes do encerramento do Concílio, um bom grupo de padres conciliares celebrou a Eucaristia nas catacumbas de santa Domitila.
Rezaram para serem fiéis ao “Espírito de Jesus”. Ao terminar a celebração, assinaram o que foi chamado o Pacto das Catacumbas, que desafiava os irmãos no episcopado a levarem uma vida de pobreza e a serem uma Igreja “serva e pobre”: Nós, bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, conscientes das deficiências da nossa vida de pobreza segundo o Evangelho, motivados uns pelos outros, […], com humildade e com consciência da nossa fraqueza, mas também com a determinação e a força da graça de Deus, comprometemos ao que segue…”.
Na aula conciliar a causa dos pobres não esteve ausente (LG 8 e GS1), mas como diz Jon Sobrino, de forma comedida.
3. No documento Pobreza da Igreja, Medillin (1968), os bispos latino-americanos assumem o Pacto das Catacumbas. Constatam as queixas dos pobres: “a hierarquia, o clero e os religiosos são ricos e aliados dos ricos”. Embora se confunda, com frequência, a aparência com a realidade, reconhecem que vários factores contribuíram para criar a imagem de uma Igreja institucional rica: os grandes edifícios, as casas de párocos e religiosos, quando são superiores às do bairro em que vivem; carros próprios, por vezes luxuosos; a maneira de se vestir, herdada de épocas passadas.
“No contexto de pobreza e até miséria em que vive a maioria do povo latino-americano, os bispos, sacerdotes e religiosos têm o necessário para a vida e também uma certa segurança, enquanto os pobres carecem do indispensável e se debatem no meio de angústia e incerteza”.
A posteridade de Medillin, com as vicissitudes da Teologia da Libertação e as intervenções paralisantes da Congregação para a Doutrina da Fé, ao tempo do Cardeal Ratzinger, matou muitas esperanças, muitos cristãos e até o Bispo Oscar Romero.
Nas teologias actuais, a Igreja dos pobres não é um tema muito apetecido e o referido Pacto voltou para as catacumbas.
O Papa Francisco retomou os gestos e a linguagem da ressurreição da Igreja dos pobres e para os pobres. Que não se canse e continue a provocar-nos...

Frei Bento Domingues, O.P.
23.06.2013

Trapos e afins

     
Sabemos que tinha uma túnica sem costura que no final da sua vida foi sorteada. Recomendou que não levássemos duas, nem alforges carregados de inutilidades. Calçava sandálias como os amigos aos quais avisou que sacudissem o pó destas quando não fossem bem recebidos. E mais não sabemos…
Supomos que se vestiria como qualquer homem do seu tempo e condição de carpinteiro. De forma adequada àquele clima, às circunstâncias e à época. Provavelmente vestiu a túnica mais bonita para ir ao casamento dos amigos em Caná, pois era dia de festa. De resto não temos memória de grandes ou pequenos problemas de guarda-roupa (acaso existisse nessa altura!)
XXI séculos depois, acumulámos regras e modas diferenciadoras que se vão transformando conforme os ventos da História. Nenhuma no entanto se aproximou sequer da versão simples e prática daquele judeu palestino tão especial que marcou a humanidade mostrando que é possível viver-se de outro modo, mais fraterno e simples.
“O hábito não faz o monge” diz a sabedoria popular. É bem verdade. Não é a forma mas o conteúdo que importa. Porquê então dar tanta importância às diferentes formas de vestir “os uniformes” da estrutura, em vez de nos centrarmos sobre o que é realmente relevante?
Um dos elementos que chamou a atenção, de maneira positiva, dos meios de comunicação social após a eleição do Papa Francisco, foi a simplicidade da sua veste branca comparada com a parafernália de adereços do antecessor; desde a cadeira até à imagem do Papa, quase da cabeça aos pés, tudo se tornou mais simples. E as pessoas acharam isso simpático. É apenas forma, mas pode ser um sinal exterior de uma mudança mais funda no sentido da aproximação da vida real; a roupa é só o efeito visual!
50 Anos depois do Concílio Vaticano II, e das mudanças que dele decorreram, ainda hoje há alguma polémica sobre se os padres e freiras devem ou não usar uma forma de vestir distintiva dos demais. Das sotainas, batinas, ao “clegyman” (fato completo), do cabeção, à cruz na lapela, dos “hábitos” das ordens religiosas, etc.… No que diz respeito às modas eclesiásticas (ainda) masculinas, são expressão de umas quantas variantes do mesmo pre/conceito; que estes homens devem mostrar-se bem diferentes dos restantes, acima deles, mais próximos do divino.
Já ouvi os argumentos mais delirantes a favor de tais distinções de vestes; por exemplo, de que ficam mais protegidos do assédio feminino, ou outro de quase igual teor, se houver um acidente na rua, alguém pode logo identificar e chamar o padre para dar os últimos sacramentos ao moribundo…
Quanto às “freiras com hábito” outro argumento inconsistente é o reverso do anterior para os padres. Assim os homens na rua não se metem com elas e estão por isso mais protegidas. Outro argumento risível é de que se tirarem o hábito vestem-se tão mal que se vê logo que são freiras, e de hábito não ofendem o bom gosto! Ou ainda, toda a gente respeita o “hábito” porque no fundo sabem que elas estão a ajudar o próximo e podem andar por zonas perigosas sem ninguém lhes fazer mal.
Em resumo, podem considerar-se estes argumentos como falácias de que vestes religiosas implicam necessariamente ser-se boa pessoa e por isso mais respeitável do que o resto da humanidade.
Além disso ocultam a diferença entre usar sempre roupa distintiva e usá-la em determinadas circunstâncias quando tal é necessário. Um médico não anda no meio da rua de bata e estetoscópio ao pescoço, um padre não anda paramentado fora da cerimónia religiosa a que preside, um bombeiro, um militar veste a farda quando está de serviço.
Acontece que Jesus Cristo, ele próprio, não mandou ninguém diferenciar-se pela roupa, estatuto social ou afins, mas apenas por uma pequenina grande diferença que é constituída por gestos concretos de amor ao próximo. Para o fazer qualquer roupa serve, desde que seja adequada à circunstância!
A meu ver o exemplo de Cristo remata de forma simples e prática o debate anacrónico sobre trapos, uniformes e afins…
Outra coisa é “roupa (e não só) adequada à circunstância”; o que se aplica de modo particular aos leigos. Ir à missa vestido como quem vai para a vida social do Bairro Alto, ou estar a mandar SMS durante a homilia e/ou a mascar pastilha elástica é tudo menos o adequado à circunstância…Quanto mais não seja são fatores que distraem outras pessoas do que é efetivamente importante.
Sem cair nos excessos pré conciliares de antigamente há um justo meio-termo e não é o que dantes se chamava em linguagem popular “a roupinha de Ver a Deus” ou “a roupa domingueira”.
Há um ponto de equilíbrio de geometria variável (um chavão em moda) dependente do contexto, tempo e lugar; supõe inserção na cultura local e simplicidade e é aplicável a padres, freiras e leigos pois todos são parte do mesmo Povo de Deus na igualdade do Baptismo. Este Papa já mostrou ser possível mudar este aspeto do “visual” e foi bem recebido. Faltamos nós, todos os outros, pois Nós também Somos Igreja.
E como em cada semana há um domingo, podemos começar por preencher certos requisitos; para o espírito, preparar as leituras do dia, para o corpo, escolher uma roupa apresentável e quanto a tecnologias, desligar o telemóvel pois Deus não nos fala por aí! Bom, pelo menos para já, mas há sempre quem espere este tipo de milagres.
AFF     15-6-2013    

22 junho 2013

Comunicado do IMWAC nos primeiros 100 dias de papado do Papa Francisco

International Movement We Are Church – IMWAC
Movimiento Internacional Somos-Iglesia
Movimento Internacional Nós Somos Igreja
Movimento Internazionale Noi siamo Chiesa
Mouvement international Nous sommes Eglise
Internationale Bewegung Wir sind Kirche
Contactos nos países membros: www.imwac.net/413/index.php/contact/contacts

Roma, Innsbruck, Munique, 18 de Junho

PARA DIVULGAÇAO IMEDIATA

O Movimento Nós Somos Igreja: Uma nova oportunidade para o Espírito na Hierarquia da Igreja

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja nos primeiros 100 dias de papado do Papa Francisco (21 Junho 2013)

Passados 100 dias desde que o Papa Francisco entrou em funções o Movimento Internacional Nós Somos Igreja (IMWAC) continua à espera de mudanças na liderança da Igreja. “ Damos as boas-vindas a todos os passos dados em direcção a uma maior fidelidade ao Evangelho", diz o Nós Somos Igreja.
O Nós Somos Igreja apela a todas as comunidades católicas para que tenham uma visão nova e crítica da organização que os lidera, assim como do sistema de privilégios medievais que nela predominam.
As grandes crises da Igreja Católica Romana estão longe de ter acabado mas, pelo menos, agora, vemos uma boa oportunidade de a nossa Igreja, uma comunidade global de 1.2 biliões de fiéis, encontrar modos autênticos e convincentes de divulgar o Evangelho de Jesus.
Francisco, Bispo de Roma, demonstrou uma aproximação que não é doutrinária, mas pastoral, que os fiéis há muito aguardavam. Esperamos que os seus gestos simples, mas fortes, de um ministério misericordioso e benevolente, possam mudar a atitude de todo o clero e dos que ainda mantêm formas obsoletas de prática religiosa.
A mudança no estilo de liderança deve ser acompanhada de reformas substanciais de acordo com o Concílio Vaticano II (1962-65), para reverter a restauração dos tempos pré-Vaticano II, dos últimos 50 anos. De outro modo, a frustração e perda de credibilidade, dentro e fora da Igreja Católica Romana, será imensa.
As novas formas de diálogo, a descentralização e gestão colegial, na linha dos ensinamentos do Vaticano II e uma nova visão do papel das mulheres na nossa Igreja são temas essenciais a ser enfrentados neste momento histórico. 
O Movimento Nós Somos Igreja apoia todos os passos para combater o Eurocentrismo e desejamos converter a nossa igreja numa Igreja mais de acordo com o Evangelho: uma Igreja na periferia, uma Igreja pobre e uma Igreja dos Pobres.  A nossa Igreja deve dedicar-se à paz universal e à ecologia baseada na justiça e nos direitos humanos. Para ser credível, deve também respeitar e promover os direitos humanos dentro da Igreja.
Sabemos que este será um longo processo de transformação. Apoiamo-lo e continuaremos a contribuir com os nossos pontos de vista, baseados numa sólida investigação teológica, esperando que lhes seja prestada mais atenção do que anteriormente. Também reconhecemos os importantes contributos de teólogos proféticos e das pessoas que trabalham na pastoral que foram silenciados durante as últimas décadas. Eles devem agora ser totalmente reabilitados.
Contudo, não pretendemos sobrestimar os sinais positivos dados por Francisco, ou subestimar a forte resistência da Cúria, interesses culturais e económicos que têm sido tão poderosos na Igreja há tanto tempo. Estamos cientes das fortes pressões externas exercidas sobre o Papa Francisco.
Apelamos ao Papa Francisco para que seja forte e corajoso e desejamos que tenha todo o apoio que necessita. Esperamos que, neste pontificado, se inicie um processo de transformação da Igreja Católica Romana e de toda a Cristandade para encontrar um papel novo e mais positivo numa comunidade humana global e em rápida mudança.

O Nós Somos Igreja está pronto para apoiar este novo caminho em direcção a uma Igreja do Povo de Deus, verdadeiramente fraterna.

Movimento Internacional Nós Somos Igreja


         O Movimento Internacional Nós Somos Igreja (IMWAC), fundado em Roma em 1996, encontra-se representado em mais de 20 países e reúne grupos reformistas semelhantes de todo o mundo, em todos os continentes.  Nós Somos Igreja é um movimento internacional dentro da Igreja Católica Romana e pretende a sua renovação com base no Concílio Vaticano II.  Nós Somos Igreja iniciou o seu trabalhado em 1995, na Áustria, com um referendo eclesial.