06 julho 2013

Scandal and reform in Rome; the 'Francis effect'; papal simplicity; and more

 

Scandal and reform in Rome; the 'Francis effect'; papal simplicity; and more
John L. Allen Jr.  |  Jul. 5, 2013
Note: This column was written before today's release of Lumen fidei ("The Light of Faith"), the first encyclical from Pope Francis, as well as the announcement that Popes John XXIII and John Paul II will be canonized together. Watch NCR Today for analysis. Also watch for reaction to Francis' visit Monday to the southern Mediterranean island of Lampedusa, a major point of arrival for undocumented immigrants from Africa and the Middle East seeking to reach Europe.
There's something oddly fitting about the fact that Wimbledon is going on at the same time that each day seems to bring a fresh development on the Vatican bank front because contrasting signs of scandal and reform are rocketing back and forth in Rome like tennis balls during a heated volley.
Consider what June and early July have brought:
  • News broke June 14 that Msgr. Nunzio Scarano, an accountant for the Administration of the Patrimony of the Apostolic See, which handles the Vatican's property and investments, was under investigation by Italian authorities for alleged money-laundering. The probe reportedly focused on accounts he held at the Institute for the Works of Religion, better known as the Vatican bank. The Vatican quickly said Scarano had been suspended from his position earlier in the month.
  • One day later, Pope Francis appointed Msgr. Battista Ricca as the new prelate, or personal delegate of the pope, for the Vatican bank. Ricca had been the director of the Casa Santa Marta, where Francis has chosen to reside, and the appointment was hailed as a sign that the pope had tapped someone of personal trust to keep an eye on things.
  • On June 26, the Vatican announced that Francis had set up a five-member commission to investigate the Vatican bank, giving it full authority to interview personnel and collect information. The body includes two Americans: Msgr. Peter Wells of the Secretariat of State and former Ambassador to the Holy See Mary Ann Glendon.
  • Two days later, June 28, Italian police arrested Scarano along with an Italian secret service agent and a financier, charging all three with plotting to smuggle almost $30 million into Italy on behalf of a family of Italian shipping magnates. Wiretaps and emails collected during the probe suggested that Scarano, known in Rome as "Monsignor 500" for the 500-euro bills he flashed around, had a cozy relationship with officials of the Vatican bank and used his accounts to conceal the origins of his money.
  • On Monday, the Vatican announced that the top two day-to-day officials at the bank, director Paolo Cipriani and vice-director Massimo Tulli, had resigned, effective immediately, in order to "increase the pace" of the bank's "transformation." The statement also said that officials of the Washington, D.C.-based Promontory Group, global experts on anti-money-laundering efforts, will be brought in to advise the bank.
  • During his homily at his daily Mass at the Casa Santa Marta the next morning, Francis said it's important to "flee from sin" without nostalgia or fear of change. Although he never referred to the bank scandals, many observers couldn't help reading his comments in that context.
  • The same day, Italian investigators said a criminal probe against Cipriani and Tulli had flagged at least 13 suspect transactions between 2011 and 2012, for which the two men could theoretically face up to three years in jail. They also revealed wiretaps that showed Scarano advising friends who needed something from the Vatican bank to deal directly with Tulli, describing him as amenable.
  • On Wednesday, respected journalist Sandro Magister dropped hints that Ricca, the pope's newly appointed prelate, could face pressure to resign because of skeletons in the closest from his time as a diplomat in Uruguay from 1999 to 2000. Magister said Francis was informed of the rumors during a late June meeting with Vatican envoys, writing that they fall into the category of "pink power" and "scandalous conduct."
  • Also on Wednesday, the Vatican announced that its new financial watchdog agency, the Financial Intelligence Authority, has been admitted as a full member of the Egmont Group, a global network of 130 financial intelligence units. According to Swiss lawyer René Brülhart, director of the Vatican agency, the decision marks "a recognition of the Holy See's and the Vatican City State's systematic efforts in tracking and fighting money laundering and financing of terrorism."
  • On Thursday, the Vatican released its consolidated financial statement for 2012, showing a profit of $2.85 million for the Holy See and almost $30 million for the Vatican City State, despite a 7.45 percent decline in contributions from both individual faithful and religious orders. As in past years, the Vatican bank provided a contribution of just over $70 million to fund papal activity. (The Holy See's annual budget is around $330 million.)
Honestly, it's enough to make your head spin. A Wimbledon final on center court has nothing on the baseline-to-baseline intensity of this match between signs of change and reminders of just how deep the hole goes.
Although the story is still a moving target, three early conclusions seem possible.
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First, Francis appears to want a reform that goes beyond ...
Para ler o artigo na íntegra vá a:

02 julho 2013

Director do Banco do Vaticano e adjunto demitem-se


Director do Banco do Vaticano e adjunto demitem-se

Demissões acontecem dias depois da detenção de um padre suspeito de corrupção e de fraude.

O director-geral e o vice-director do Instituto de Obras Religiosas, conhecido como Banco do Vaticano, apresentaram a sua demissão esta segunda-feira. A Santa Sé e o conselho de administração já aceitaram a saída de ambos, que acontece dias depois da detenção de um padre suspeito de corrupção e da nomeação, por parte do Papa Francisco, de uma comissão independente que vai propor mudanças para “harmonizar melhor o banco com a missão da Igreja”.
O actual presidente do IOR, Ernst von Freyberg, vai assegurar interinamente as funções até agora desempenhadas por Paolo Cipriani e Massimo Tulli. O alemão anunciara nos últimos dias um inquérito interno a partir do caso de monsenhor Nunzio Scarano, preso na sexta-feira a bordo de um avião, acusado de fraude e corrupção por ter planeado a transferência para Itália de 20 milhões de euros que uma família amiga detinha na Suíça.

“Depois de um dia de tensões e de consultas, e após ter ficado expressa a vontade de Francisco, [Cipriani e Tulli] preferiram pôr os seus cargos à disposição”, escreve o vaticanista Andrea Tornielli no Vatican Insider, o site do diário La Stampa dedicado ao Vaticano.

Antes de nomear a comissão independente, o Papa já escolhera o padre Battista Ricca, um amigo, para supervisionar a gestão do banco.

Segundo o que a imprensa italiana já revelou sobre as acusações contra Scarano, que era até Maio membro da Administração do Património da Sé Apostólica (organismo que gere os bens do Vaticano), não há certezas sobre o envolvimento do IOR na planeada transferência. Mas o caso levantou questões sobre a possibilidade de o IOR autorizar com demasiada facilidade movimentações de grandes quantias de dinheiro.,

O IOR tem sido abalado nas últimas décadas por vários escândalos e desde 2010 que está sob investigação por suspeitas de violar a legislação contra o branqueamento de capitais. Francisco, tal como Bento XVI antes dele, garantiu que tudo fará para o reformar.

30 junho 2013

Conferências no Lumiar — a Relação

Divulgamos aqui as conferências no Mosteiro de Santa Maria do Lumiar, este ano dedicadas ao tema "A Relação — Um modo quotidiano e profético de viver o Evangelho". Clique nas imagens para aumentar.




Quer assinar está carta a enviar ao Papa Francisco?

Amig@s: como sabem, o Papa Francisco pediu a um grupo de Cardeais, dos quatro cantos do mundo, para se encontrarem com ele, em Outubro, para falarem sobre como reformar o governo na Igreja. Isto é uma coisa que ele não teria feito se o presente sistema monárquico estivesse a funcionar tendo em vista o  bem supremo do Povo de Deus. Claramente não é esse o caso e, por isso, com igual clareza o Papa está aberto a que lhe façam algumas sugestões.
No nosso novo sítio, lançado na 6ª feira, 20 de Junho, ousamos lembrar o Papa Francisco e os seus cardeais de uma ideia que chegou a ser considerada, mas que não foi promulgada, no Concílio Vaticano II, e que raramente foi utilizada na Igreja pós-conciliar: dar voz ao povo de Deus, dar voto e  cidadania, numa Igreja que é demasiadamente clerical.
Como realizar isso? Caminho mais directo: encorajar o povo de cada diocese, em todo o mundo,  a eleger os seus próprios bispos. Esses bispos-servos, (não bispos Lordes), seriam responsáveis perante o povo que os elegeu e, em  devido tempo, estabeleceriam uma Igreja responsável do, por e para o povo de Deus. Nós dizemos tudo isso na Petição: http://www.CatholicChurchReform.com.
O nosso sítio vai ainda mais longe. Nele, pedimos a tod@s @s que concordarem com este objectivo para assinarem esta carta a incitar o Papa e o seu grupo de cardeais-conselheiros a colocar a eleição directa dos bispos, na agenda de Outubro. Planeamos entregar esta carta ao Papa pouco tempo antes do seu encontro com os cardeais. Pode ajudar-nos a recolher um milhão de assinaturas ao assinar a nossa carta ao Papa ao pedir aos/às vossos/vossas amig@s para fazerem o mesmo. Tornámos isso fácil. Veja a carta ao Papa: http://www.CatholicChurchReform.com.
Não pensamos que o Papa Francisco seja pessoa para ignorar um milhão ou mais de assinaturas. Ou mesmo só uma.
Para assinar vá a: http://www.catholicchurchreform.com/letter.html

         Kaiser
ROBERT BLAIR KAISER
14249 N. THIRD AVENUE
PHOENIX, AZ 85023
602-942-1650 - home
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POBREZA ESCANDALOSA E POBREZA VIRTUOSA

     
1. O Papa Francisco não tem precisado das habituais campanhas de marketing destinadas à construção de uma vedeta, para consumo dos meios de comunicação social. Os gestos simples, calorosos e alegres de proximidade surgem como o seu modo de ser. O que lhe importa é deslocar os olhos das pessoas para o mundo dos pobres, excluídos e marginalizados, denunciando as opções económicas e financeiras que aprofundam o abismo entre os muito pobres e a dominação de interesses incontrolados, a nível local e global. Alerta para o carreirismo eclesiástico e o seu aburguesamento, ataca o moralismo hipócrita que, a coberto de preceitos e normas canónicas, oprime a consciência dos fiéis, em vez de os acolher, libertar e responsabilizar. Nota-se, na sua prática, a preocupação de ajudar a Igreja a tornar-se um rosto humano de Deus e a advogada da dignidade divina dos ofendidos. Destaca os que servem a Igreja e a sociedade sem nada pedirem em troca.
Estas atitudes podem tornar-se um incentivo para a reforma da Igreja no seu todo, das cúrias diocesanas e vaticana, assim como das congregações religiosas e movimentos católicos. Não servem para substituir o grande vazio mundial de lideranças humanistas e espirituais, nem para promover o culto da personalidade, a papolatria.
A forma como o papa Francisco acaba de evocar a figura de S. João Baptista mostra que não entende a Igreja como o sol do mundo. A Igreja é apenas a lua. Não é a fonte da Luz, precisa de ser iluminada. Como João Baptista, é a voz da Palavra que escuta e medita, não é a Palavra.            
2. Pertence, por isso, à verdade da Igreja ser radicalmente pobre. Nasce e alimenta-se da graça divina nas expressões da história humana, segundo a diversidade das culturas e tradições religiosas. Nas comunidades cristãs tudo é fruto de um dom para que cultivem a gratuidade nos serviços que prestam à sociedade: recebestes de graça, dai de graça.
As comunidades cristãs não são a salvação, mas sacramento, sinal e instrumento da salvaguarda e da cura da natureza. O alfa, o ómega e o coração do mundo é o Mistério infinito no qual vivemos, nos movemos e existimos. A Igreja existe para nos acordar para o essencial.           
O contributo destes breves meses de pontificado está de acordo com a liturgia do passado domingo: Jesus não recusou o papel profético que o povo reconheceu nele, mas recusou o de Messias. Porque terá sido e por que terá essa recusa um alcance permanente para a Igreja?
O profeta é um clarividente, um lúcido que procura que todos vivam com lucidez. O seu propósito não é ter poder, mas contribuir para que o povo e os governantes não se enganem, não enganem, nem se deixem enganar. Descubram onde está a verdadeira vida. Para o autêntico profeta, a paz é filha do direito, da justiça, da verdade e da sabedoria.
A figura do Messias, pelo contrário, é a de quem resolve, de forma “teocrática”, milagrosa, os problemas económicos, sociais e políticos. O Messias é um caudilho que manipula a opinião pública para conseguir e manter o poder. Os textos evangélicos encaram as tentações messiânicas como diabólicas: não deixam Deus ser Deus, nem os seres humanos responsabilizarem-se pela sua história. Deus é um tapa buracos e os seres humanos paus mandados de forças obscuras.
Jesus só foi reconhecido Cristo (Messias), – aliás um Messias crucificado -, porque venceu a tentação caudilhista. Defendeu a causa dos pobres, denunciou a idolatria do dinheiro e os ricos avarentos, provocou a conversão dos “zaqueus”, dispondo-os a restituir os frutos da corrupção, sem nunca se tornar sectário.     
3. Não se espera que a Igreja seja uma academia, um centro de investigação, um conjunto de faculdades dedicadas ao ensino da economia, das finanças, da gestão e das ciências políticas. Desde o Papa Leão XIII, foi-se constituindo, embora avaliada de formas diferentes, a chamada Doutrina Social da Igreja que, de facto, é a doutrina social dos papas. É desejável que, no seio das comunidades cristãs, muitas pessoas se dediquem, com todo o afinco, a cultivar ciências, artes e sabedorias para produzir e distribuir, da forma mais justa e mais respeitadora da natureza, tudo o que torna a vida humana mais digna de ser vivida. Neste sentido, é normal, que numa Igreja pluralista, surjam pensadores da realidade social de várias orientações, mas que possam confrontar-se e dialogar[I].
Jesus Cristo não deixou à Igreja, em herança, nenhum tratado de ciências sociais. Como quem diz, se delas precisarem, inventem-nas por vossa conta e risco, mas sem a minha assinatura. Deixou-nos, no entanto, indicações preciosas: todas as instituições são para alimentar e dignificar a vida humana; é escandaloso colocar a vida humana ao serviço do dinheiro e das suas instituições.
Mais escandaloso ainda, é continuar a plantar árvores que só podem dar frutos de injustiça e miséria, pobreza escandalosa.
Frei Bento Domingues, O.P.
30.06.2013


[I]  Jeffrey Sachs, O Fim da Pobreza, Casa das Letras, 2005; Coord. Lucy Williams, O Direito Internacional da Pobreza, Sucuru, 2010; Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, Economia dos Pobres, Temas e Debates, 2012; Tim Jackson, Prosperidade sem Crescimento, Tinta da China, 2013.

29 junho 2013

A samaritana Olívia

       
A dona Olívia fazia-me lembrar a samaritana sem nome. Aquela dos cinco maridos com um sexto do qual se comenta não ser dela. Embora se diga que a leitura dessa passagem do evangelho (Jo 4, 1-30) não deve ser literal nem lida no singular, a sua singularidade não deixa de conter muitas verdades de outras tantas realidades. A dona Olívia também teve cinco espécies de maridos, e as línguas que tendem a falar do que já é muito falado, diziam que esses eram só os conhecidos. Em rigor nenhum deles era marido, eram homens com quem viveu e a quem serviu na vida. Tal como o da samaritana, o sexto também não era dela e esse poderá ter sido mais que um. O quinto era um viúvo, ainda primo afastado que não sabia o que fazer para continuar vivo depois de a mulher ter morrido. Com ar de abandonado foi ter com a Olívia que o acolheu a ele, a um frigorífico e a uma máquina de lavar roupa. Em pouco tempo o homem parecia outro. Diziam: até já parece um homem casado. A ela não a elogiavam, nem sequer a mencionavam. Era preferível não o fazerem, pois iriam dizer que não tinha vergonha nenhuma. O quarto, o João padeiro, também tinha ficado viúvo. Tratava-a muito bem, e ela a ele melhor ainda. Entendiam-se e ele, como diziam, era amigo dela. Deixou-lhe uma pequena fortuna, para ela grande, na qual punha a sua segurança para quando fosse mais velha. Mas entregou-a ao cuidado dos filhos e alguns deles encarregaram-se de lhe abrir um caminho de saída, sem regresso, do banco para as suas dívidas. O terceiro homem apareceu na terra como vindo de lado nenhum, talvez de alguma gruta na serra ou das águas do rio. Havia muitas histórias a seu respeito: que tinha fugido a um crime, que abandonou mulher e filhos por não ter com que os sustentar, e os mais complacentes diziam simplesmente que tinha vindo parar ali à procura de trabalho. Vindo de lado nenhum agarrou-se ao lugar e à dona Olívia por alguns anos. Depois, tal como veio assim desapareceu sem deixar sinais de para onde. Os comentários mais benevolentes diziam: deve ter morrido. O segundo era um sapateiro que também tinha vindo em busca de trabalho e ali passou os dias de alguns anos ao lado da dona Olívia. Brilhante no exercício da profissão, dizia que ainda tinha forças para gastar meias solas com ela apesar de ela ser mais nova. Ela precisava de companhia e ele de uma lareira, de cobertores no inverno e de caldo quente. Ou, como diziam, precisava de tudo. O primeiro era mais ilustre. Homem já maduro, tinha um bonito cavalo que o transportava pelos caminhos de Deus e dos homens. Ela, ainda muito jovem, pouco mais que adolescente, já tinha as mãos ásperas do muito trabalho num tempo em que se geria mais a vontade de comer do que a comida. Ele, senhor de muitos bens que lhe davam pelo seu dedicado serviço, sentia debaixo do chapéu um denso peso na cabeça. A Olívia achava que ele era rico e lhe podia satisfazer muitas necessidades. Ele pensava o mesmo dela no que tocava a necessidades. Entre a troca e a partilha tiveram uma filha. Ela era simplesmente Olívia, ele era padre. Ele deixou de sentir na cabeça o peso do celibato, ela deixou de sentir um vazio na boca do estômago. Nem tudo foi assim tão simples, porque a vida é boa e bela segundo a perspectiva de onde se olha para ela. A vida da dona Olívia foi bastante colorida e diversificada, mas nem sempre boa. Nos últimos tempos ouvi-lhe dizer que desde há uns anos o seu verdadeiro marido era Jesus. Foi nesse momento que me veio à mente a Samaritana. Parece que também para ela, Jesus foi de algum modo o sétimo marido. Que dizer de uma e de outra? Eu não digo nada, que poderei dizer? Aí estão os dias e as noites na sua diversidade como juízes daquilo que somos e fazemos. A Samaritana já partiu para a luz eterna há dois mil anos. A dona Olívia partiu há dois meses. Era muito bonita, delicada e transparecia nela a serenidade contida no significado do seu nome. Sorrio quando penso que ao chegar a esse lugar sem lugar, envolto pela graça de Deus, terá ouvido uma voz a chamá-la: anda cá mulher, não há vida mais parecida com a tua que a minha. Que assim seja!
Frei Matias, O.P.
Junho 2013

23 junho 2013

O PACTO DAS CATACUMBAS

         
1. João XXIII, um mês antes da abertura do Concílio Vaticano II, na radiomensagem de 11 de Setembro de 1962, espantou os próprios católicos com a declaração: “hoje, a Igreja é especialmente a Igreja dos pobres”. Em número, esta afirmação não podia ser mais exacta. Porque terá, então, levantado tanta celeuma? Creio que, passados cinquenta anos, continua a ser estranha. O Papa Francisco acaba de surpreender muita gente, com gestos e atitudes, que já deveriam ser uma prática corrente. É certo que o Vaticano II alterou uma eclesiologia piramidal. Mas não podia mudar a mentalidade e representações que foram cimentadas ao longo de séculos. Ainda hoje, quando se fala de Igreja não pensamos logo em comunidades cristãs. Pensamos em padres e na hierarquia eclesiástica presidida pelo Papa, rodeado por um conjunto cardeais, com sede no Vaticano. Essa não é a imagem mais directa da pobreza. Verdadeira ou falsa, não é apenas a propaganda anticlerical a dizer que a Igreja é rica e está ao serviço dos ricos e poderosos.
A Igreja teve um começo pobre e Jesus Cristo não deixou grande fortuna aos seus discípulos. Ao longo dos tempos, a santidade da Igreja será avaliada pela capacidade de fazer sua a causa dos pobres.
Importa distinguir a pobreza escolhida, da pobreza imposta. Uma é virtude, a outra, uma violência. Há austeridade que é frugalidade, simplicidade de vida. Há programas de austeridade para os outros, que tornam a vida impossível aos pobres e remediados.
Ninguém se faz cristão para ser rico, mas sendo rico, terá mais motivos para ajudar a libertar os que são vítimas da pobreza imposta. A partilha com os mais pobres é virtude. Dado o destino universal dos bens criados, em caso de necessidade urgente, não é roubo apropriar-se daquilo que está na posse de outrem. O direito à propriedade privada, em caso de necessidade, deve ceder diante do direito à vida (Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II q. 65, 7; 2Cor. 8, 9-15).
2. O Cardeal Gerlier referindo-se às tarefas do Concílio, retomou as palavras de João XXIII para dizer: se não as examinarmos e estudarmos, tudo o resto corre o risco de não servir para nada. Dois meses depois da abertura do Vaticano II, o Cardeal Lercaro, já na aula conciliar, referindo-se à mesma questão, afirmou com desencanto: em dois meses de trabalho e investigação verdadeiramente generosa, humilde e fraterna, todos nós sentimos que falta alguma coisa ao Concílio.
Na altura, não lhe ligaram muito. No entanto, vários bispos aperceberam-se de que, uma Igreja voltada para os pobres, ainda estava longe da sensibilidade da maioria. Decidiram reunir-se, confidencialmente, com regularidade e sem sectarismos. Poucos dias antes do encerramento do Concílio, um bom grupo de padres conciliares celebrou a Eucaristia nas catacumbas de santa Domitila.
Rezaram para serem fiéis ao “Espírito de Jesus”. Ao terminar a celebração, assinaram o que foi chamado o Pacto das Catacumbas, que desafiava os irmãos no episcopado a levarem uma vida de pobreza e a serem uma Igreja “serva e pobre”: Nós, bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, conscientes das deficiências da nossa vida de pobreza segundo o Evangelho, motivados uns pelos outros, […], com humildade e com consciência da nossa fraqueza, mas também com a determinação e a força da graça de Deus, comprometemos ao que segue…”.
Na aula conciliar a causa dos pobres não esteve ausente (LG 8 e GS1), mas como diz Jon Sobrino, de forma comedida.
3. No documento Pobreza da Igreja, Medillin (1968), os bispos latino-americanos assumem o Pacto das Catacumbas. Constatam as queixas dos pobres: “a hierarquia, o clero e os religiosos são ricos e aliados dos ricos”. Embora se confunda, com frequência, a aparência com a realidade, reconhecem que vários factores contribuíram para criar a imagem de uma Igreja institucional rica: os grandes edifícios, as casas de párocos e religiosos, quando são superiores às do bairro em que vivem; carros próprios, por vezes luxuosos; a maneira de se vestir, herdada de épocas passadas.
“No contexto de pobreza e até miséria em que vive a maioria do povo latino-americano, os bispos, sacerdotes e religiosos têm o necessário para a vida e também uma certa segurança, enquanto os pobres carecem do indispensável e se debatem no meio de angústia e incerteza”.
A posteridade de Medillin, com as vicissitudes da Teologia da Libertação e as intervenções paralisantes da Congregação para a Doutrina da Fé, ao tempo do Cardeal Ratzinger, matou muitas esperanças, muitos cristãos e até o Bispo Oscar Romero.
Nas teologias actuais, a Igreja dos pobres não é um tema muito apetecido e o referido Pacto voltou para as catacumbas.
O Papa Francisco retomou os gestos e a linguagem da ressurreição da Igreja dos pobres e para os pobres. Que não se canse e continue a provocar-nos...

Frei Bento Domingues, O.P.
23.06.2013