20 julho 2013

PACIÊNCIA COM DEUS (2)

       
1. Dizem-me que Deus deveria mandar encerrar as suas agências de publicidade, pois onde mantêm o monopólio do mercado religioso, a sua invocação foi-se tornando um susto, uma ameaça; onde há liberdade religiosa, cada uma pretende ser a única com garantia sobrenatural, todas a fazer de conta que a divindade é sua propriedade privada e exclusiva.

S. Mateus, ao fazer uma imaginária avaliação do sentido da história humana, contou uma parábola que denuncia a cegueira religiosa: a relação mais realista com Deus acontece, sem se dar por ela, quando se vai, sem cálculo, sem expectativa de recompensa, em socorro de quem precisa, só e simplesmente porque precisa. Deus não é uma presença ostensiva. É uma clandestinidade imensa. É, de facto, necessária muita paciência para O reconhecer nos tempos, lugares e percursos humanos, pois acontece de forma imprevisível (Mt 25, 31-47).

Prometi, por isso, voltar ao celebrado livro, Paciência Com Deus, de Tomáš Halík, (Paulinas Editora). É um suave diluente das certezas eclesiásticas reconstruidas, de modo estridente, nos anos 80-90, com encíclicas, catecismos, direito canónico e drásticas medidas disciplinares. Recupera, com mansidão, a memória interdita dos “padres operários”, o sentido da teologia da libertação, os caminhos ocultos de Deus na sociedade secular ocidental, sem se perder nas disputas e desavenças entre “conservadores” e “progressistas”. Isso não significa, porém, que o seu ideal seja um certo “Cristianismo não eclesiástico - irreal, vago e desligado da história ou da sociedade - e, ainda menos, uma religiosidade enevoada e esotérica, estilo “New Age”. Procura, sobretudo, que a ideia ambígua do “crente padrão” não sirva para desclassificar os que procuram um caminho.

O tecido desta obra é construído por tudo o que tem sido desvalorizado, ocultado, marginalizado ou desfigurado na apologética eclesiástica e pelos “autoconvencidos da religião”. A sua companhia preferida é a dos místicos que viveram a noite da fé, mesmo na hora da morte, como Terezinha de Jesus e dos classificados como cépticos, agnósticos e ateus, todos os que encaram a vida como uma viagem ou têm dificuldade em viajar pelos tropeços que lhes lançaram para o caminho.

  2. O próprio autor manifesta as preocupações que o levaram a escrever. Conta que, certo dia, viu na parede da estação do metro, em Praga, a inscrição: “Jesus é a resposta”, provavelmente escrita por alguém no regresso de alguma fogosa reunião evangélica. Outra pessoa acrescentara, com toda a propriedade: ”Mas qual era a pergunta?”

Isto fez-lhe lembrar o comentário do filósofo Voegelin: para os cristãos o que mais conta não é terem as respostas certas, mas terem-se esquecido de qual era a pergunta, para a qual eles próprios eram a resposta. Há que confrontar perguntas e respostas para devolver um verdadeiro sentido às nossas afirmações. A verdade acontece ao longo do diálogo. Temos de passar de respostas aparentemente definitivas para infinitas interrogações. Ter fé significa passar para uma caminhada infindável, entrar para o coração do inesgotável mistério, poço sem fundo.

Com a sua teologia descontraída e a sua “piedade tímida”, não estará o autor da Paciência com Deus, a enfraquecer e a desmobilizar as ardentes campanhas lançadas com o rótulo de Nova Evangelização e de Jornadas Mundiais da Juventude? Certamente que não. O que realmente o preocupa é aquilo que essas campanhas são tentadas a ignorar ou a descuidar: o tempo de escuta e de atenção a quem anda por outros caminhos, por carreiros e lugares “mal frequentados”. O próprio Jesus já tinha sido acusado de andar em más companhias.

3. Concordo, diz Halík, com os ateus em muitas coisas, em quase tudo… excepto no que diz respeito à sua não crença de que Deus existe. Perante o bulício mercantil de artigos religiosos de todo o género, eu, com a minha fé cristã, por vezes, sinto-me mais próximo dos cépticos, dos ateus, dos agnósticos, críticos de religião. Com certo tipo de ateus partilho um sentimento de ausência de Deus no mundo. Contudo, considero a sua interpretação de tal sentimento demasiado precipitada, como que uma expressão de impaciência. Muitas vezes, também me sinto oprimido com o silêncio de Deus e pela sensação do afastamento divino. Percebo que a natureza ambivalente do mundo e dos inúmeros paradoxos da vida pode dar origem a expressões tais como “Deus morreu”, para explicar o facto do ocultamento de Deus. Consigo, apesar disso, encontrar outras interpretações possíveis da mesma experiência e outra atitude possível frente ao “Deus ausente”. Conheço três formas de paciência (mútua e internamente interligadas), para confrontar a ausência de Deus. São elas: a fé, a esperança e o amor. 

No entanto, se, para Halík, a paciência é aquilo que considera a principal diferença entre fé e ateísmo, não esquece que o ateísmo, o fundamentalismo religioso e o entusiamo por uma fé demasiado fácil, têm em comum a rapidez com que se abstraem do mistério ao qual chamamos Deus. Além disso, há tantos tipos de ateísmo como de fé. Eis a questão a que é preciso

Frei Bento Domingues, O.P.

14.07.2013

08 julho 2013

OS DEMÓNIOS DO VATICANO

        
O Papa Francisco foi muito simpático em publicar um escrito de Bento XVI, a Lumen fidei, para que este tivesse a consolação de não deixar as três virtudes teologais só em duas. Certamente que não considerou esse texto de todo inútil, mas também não esteve nem para o refazer, nem para o acrescentar. No Angelus de ontem, domingo dia 7, lembrou que se contentou em dar-lhe um final. Sublinhou, no entanto, que “a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro” e “pode iluminar as perguntas” da sociedade actual, na qual muitas vezes é “impossível distinguir o bem do mal”.
Agrada-me que o Papa comece por acolher perguntas e espero que nunca se lembre de elaborar respostas definitivas. Disso já tivemos que baste!
Nas questões teológicas sobre a Revelação e a Fé, contam muito os critérios e os sinais de credibilidade. Neste momento, a grande interrogação não se liga à problemática da Encíclica Lumen fidei, mas à credibilidade das contas do banco do Vaticano. A descrição que Pablo Ordaz apresenta no El País (7 de Julho), salvando o nome de Gotti Tedeschi, supernumerário do Opus Dei e antigo colaborador de Bento XVI, deixa muito mal muita gente e uma rede de interesses defendida a “capa y espada” por destacados representantes de organizações religiosas ultraconservadoras – Comunhão e Libertação “se lleva la palma ” – muito bem situadas no Governo, seja qual fôr a cor, e nos chamados poderes fortes.
O Papa Francisco faz bem em não dar nenhuma cobertura seráfica a esse bando de ladrões. Mas não basta. Tem de ir até ao ponto de varrer a casa completamente e, depois, não esquecer o que diz Jesus, no Evangelho: depois da casa varrida voltam os demónios, aqueles que têm as costas defendidas pelos slogans do costume: o mal disto não somos nós e encostam-se ao mau nome do passado como se fosse uma garantia de credibilidade para o presente e para o futuro.
Frei Bento Domingues, O.P.
09.07.2013

07 julho 2013

À PROCURA DA PALAVRA

À PROCURA DA PALAVRA
P. Vitor Gonçalves
DOMINGO XIV COMUM Ano C
"Ide: Eu vos envio como cordeiros
para o meio de lobos."
Lc 10, 13


Como cordeiros...?”


         A linguagem pastoril que Jesus tantas vezes utiliza tem uma clareza que certamente os discípulos entenderam, mas não é isenta de ambiguidades. Se a imagem de cordeiros aponta para uma missão pacífica no meio de um mundo agreste e violento, é verdade que há também muito "lobo vestido de cordeiro". E se isso pode significar simples falsidade (será assim tão simples?), quando o "ser lobo" tem a ver com saque e rapina, com mais fortes que devoram os mais fracos, não estamos longe de ver representados estes papéis na política e na economia dos nossos tempos. Sem ir à dureza do provérbio latino de que "o homem é lobo para os outros homens", sabemos como vivem em nós a paz e a violência, o bem e o mal. Aquilo que alimentarmos dentro de nós acabará por se manifestar na nossa vida.

         A pedagogia de Jesus é clara: o anúncio do Reino e o dom da paz realiza-se por uma presença desarmada e pobre dos seus discípulos. Desarmada quer dizer de "mãos vazias", em atitude de dar e receber, sem a "violência" que, muitas vezes, a abundância de meios também revela. Porque é grande o perigo de ir ao encontro de outros em atitude de conquista, com poderes e riquezas julgados indispensáveis mas que acabam por ser obstáculo ao essencial cristão: o encontro com Cristo e a vida transformada pelo seu amor. Não são os meios para a evangelização importantes? Sim, se não se tornarem "fins", e estiverem subordinados à essencial pobreza que Jesus propõe. Não é a riqueza, quando se torna acumulação do quer que seja, uma das maiores violências?

         Estes cento e poucos dias do Papa Francisco têm sido uma constante interpelação para mim e creio que para muitos. Quer pelos gestos simples mas decididos e coerentes (bem dizia uma irmã sua após a eleição, mais ou menos por estas palavras: "se ele continuar a ser o mesmo, o Vaticano vai ter muito trabalho com ele"), quer pelo "mini-magistério" diário das suas missas na Casa de Santa Marta, onde mora, com palavras que interpelam e pedem vida cristã renovada, o convite à pobreza e à autenticidade são incontornáveis. Como condição para a verdadeira alegria, aquela de que também fala Jesus no evangelho de hoje, "porque os vossos nomes estão inscritos no céu". É a alegria dos pobres, dos que não usam a violência, dos que continuam a servir sem procurar glória nem proveitos egoístas, dos que não se gastam em palavras mas dão o corpo pela verdade. A verdade de Deus amar este mundo! É assim que somos "cordeiros"?

in Voz da Verdade 07.07.2013

PACIÊNCIA COM DEUS (1)

    

                                           PACIÊNCIA COM DEUS (1)
                                     Frei Bento Domingues, O.P.
1. pessoas que falam da vontade de Deus e dos seus desígnios, com tanta certeza e desenvoltura, que até parece que Deus lhes lê o seu jornal todas as manhãs. Fico, depois, perplexo com o recurso ignorante a certas construções teológicas acerca da vida interna da SS. Trindade, como se andassem nos corredores de um museu de antiguidades. Não posso deixar de admirar essa arrojada arquitectura mental, cheia de subtilezas, para que o mistério da divina unidade na trindade das pessoas não surja como um absurdo, no contexto da sua recepção na cultura grega. Admito que esta concepção possa ajudar a acolher e cultivar a unidade plural nas nossas sociedades e no mundo em geral. Não tenho, todavia, paciência para a racionalização neutralizante da vida das metáforas. Ao perderem a sua energia poética passam a ser conceitos de nada. Tenho diante de mim, uma curiosa imagem com três cabeças numa só. Coitada. Prefiro a sobriedade enigmática dos textos do Novo Testamento.
Ninguém pode, no entanto, ser proibido de imaginar o mundo divino segundo os recursos das suas tradições culturais e religiosas, com a liberdade e ousadia criadoras dos artistas de cada época. A beleza do livro de Rebecca Hind[1] resulta da recolha esmerada de expressões artísticas na diversidade do mundo religioso. Nesta imensa diversidade, nenhuma obra pode pretender ser a expressão adequada de Deus e muito menos a sua fotografia. A verdadeira arte não fecha o mundo. Sugere universos que não cabem em conceitos e representações definidas. Não fixa, abre a imaginação. Fruto de uma grande viagem, este livro ajuda a visitar mundos que nunca podem ser circunscritos. Apenas modestamente sugeridos.
Entre todas as artes, aquela que menos distrai do infinito divino, por absoluta ausência de referente, é a grande música. A de J. S. Bach nasceu para nos dar o sentimento de Deus e dos mistérios cristãos. K. Barth prometeu que, ao chegar ao céu, iria pedir aos anjos para tocarem Mozart. Eduardo Lourenço, como sempre, sabe escrever destas coisas como ninguém[2].
2. Sob o ponto de vista cultural, viveu-se, no Ocidente, durante muito tempo, na ideia de que Deus tinha morrido e que nada o poderia ressuscitar. Como alguém observou, a notícia era exagerada. Passou-se, depois, à conversa sociológica do retorno do sagrado, da religiosidade flutuante, a propósito de tudo e de nada. A Europa laica acolheu, entretanto, uma imigração muito diversificada que alterou o seu panorama religioso e está a obrigar a rever os simplismos com que estava habituada a abordar esses universos.
A laicidade comporta três princípios fundamentais, com acentuações diferentes, segundo os países: a liberdade de ter, não ter ou mudar de religião; a defesa da igualdade de direitos e deveres, sejam as pessoas crentes ou não; finalmente, o princípio da autonomia do político e do religioso. Neste sentido, a laicidade tem sido considerada um fenómeno religioso europeu, com história diferente, segundo os países. Se a chamada Primavera Árabe tivesse podido beber nestes princípios fundamentais, em vez de os combater, não continuaria a invocar Deus para destruir os adversários, dentro e fora de portas.
3. Com um título algo surpreendente, Paciência Com Deus, Tomáš Halík[3], escreveu um livro que recebeu o galardão de “Melhor Livro Europeu de Teologia” de 2009/10 e, nos EUA, foi destacado como o “Livro do Mês”, em Julho de 2010.  
O autor nasceu em Praga, em 1948, licenciou-se em Ciências Sociais e Humanas na mesma cidade, em 1972; estudou teologia na clandestinidade e foi ordenado padre, em 1978. Só depois da queda do Muro de Berlim, pôde completar os seus estudos de teologia. De assessor do cardeal Tomásek, figura emblemática da “Igreja do Silêncio”, foi conselheiro de Václav Havel. Além de várias vezes premiado, é professor convidado de prestigiadas universidades, Oxford, Cambridge e Harvard.
T. Halík escreveu uma obra de teologia, num estilo pouco habitual. Os grandes teólogos que ajudaram e elaborar os textos do Vaticano II e a lançar a teologia em novos horizontes, já são raros e idosos. Não admira que seja saudada uma teologia que continua a apresentar-se com perguntas antes de respostas feitas e que incita o pensamento a caminhar pelo mundo do desassossego, das interrogações e dúvidas, o território onde se vive a “paciência de Deus”, desse Deus que interrogou o interessante Zaqueu desta obra:  “A fé – se fôr uma fé viva – tem de respirar; tem os seus dias e as suas noites. Deus não fala apenas através das suas palavras, mas também através do seu silêncio. Fala às pessoas não só através da sua proximidade, mas também do seu afastamento. Tu esqueceste-te de escutar a minha voz nos que experimentam o meu silêncio, a minha distância, nos que olham do outro lado, do vale de trevas, para o monte do meu mistério, escondido numa nuvem. Aí é que me devias ter procurado. A esses é que devias ter acompanhado, fazendo-os aproximar-se um pouco mais do limiar da minha casa. Era essa a porta especialmente preparada para ti.
Voltarei a esta problemática.
07.07.2013
in Público


[1] 1000 Faces de Deus, Dinalivro,2004
[2] Tempo da Música, Música do Tempo, Gradiva, 2012
[3]  Paulinas Editora, 2013

Que futuro para Portugal?

Sei que não devo alongar-me nesta alocução protocolar, mas não me perdoaria a mim mesma se deixasse fugir esta oportunidade sem uma palavra relativamente à situação particular do nosso País e às suas perspectivas de futuro.
É certo que as palavras anteriores subentendem essa preocupação e a leitura que vou fazendo da realidade. Reflectem o desgosto por estar a assistir a um processo evitável de empobrecimento colectivo em bem-estar e qualidade de vida para a generalidade dos cidadãos e cidadãs de todas as idades, por constatar que para vastos sectores da população portuguesa se estão a atingir níveis inesperados de precariedade material e risco de pobreza; o desemprego assume, cada vez mais, carácter estrutural dentro do actual modelo económico e atinge, hoje, um número anormalmente elevado e crescente de pessoas e famílias inteiras, algumas das quais privadas de qualquer apoio social, esgotado que foi o período fixado para o subsídio de desemprego.
Vejo com apreensão que crescem as desigualdades na repartição do rendimento e da riqueza e acumulam-se no topo da pirâmide incalculáveis fortunas socialmente improdutivas, o que, além do seu carácter de injustiça social, vem alimentando uma perigosa tensão sociopolítica e uma maior propensão à anomia social, com consequências sérias que prejudicam a desejada coesão social. estas situações estão diagnosticadas e estatisticamente avaliadas.
Convém, porém, ter presente que, por detrás dos números, que as estatísticas revelam, estão pessoas de carne e osso que se sentem descartadas e desconsideradas nos seus postos de trabalho, inseguras quanto aos seus rendimentos no futuro, injustiçadas nos seus direitos fundamentais. Há uma dívida social de que pouco se fala, mas que não cessa de crescer, enquanto os recursos disponíveis na economia são, em boa parte, aspirados pelos encargos com os juros pagos por dívidas aos credores.
A actividade produtiva em alguns sectores definha e, apesar de iniciativas pontuais de inovação e de êxito nos mercados internacionais, falta uma estratégia de conjunto, tecnicamente bem fundamentada e devidamente concertada a nível político, capaz de valorizar os recursos potenciais do País, incluindo os seus recursos humanos, de conhecimento e de organização e capaz de os adequar às necessidades da população e dos seus territórios e ao bem comum.
Se quisermos arrepiar caminho, teremos de começar por colocar no lugar certo as finalidades que, como povo, desejamos alcançar. Grande desafio este para a Ciência Económica que, assumindo-se como uma ciência de meios, não raro se dispensa de explicitar os objectivos visados e, menos ainda, se preocupa em os avaliar criticamente, à luz de critérios de Ética e de Justiça social.
No caso presente, esta é uma questão crucial para a política económica nacional e para o futuro do País. Uma certa obsessão com a dívida soberana e com o equilíbrio das contas públicas, custe o que custar, tem impedido que se estabeleçam objectivos e metas de desenvolvimento e se aclarem os contornos desse desenvolvimento e do modelo que lhe subjaz.
A tarefa estaria facilitada se, no âmbito da União Europeia, em que Portugal está integrado como estado membro de pleno direito, e particularmente se, no espaço da zona euro a que também pertence, soprassem ventos mais favoráveis dos que os actuais e fossem mais aperfeiçoadas as estruturas de governação e mais democrático o seu funcionamento. Todavia, mesmo com ventos adversos, não só é possível continuar a navegar como o navegador experiente sabe aproveitá-los em favor do rumo que deseja alcançar. É, pois, de navegadores informados e experientes que o país carece.
Ao contrário do que por vezes se procura fazer crer, Portugal é um País rico em recursos potenciais ainda por explorar; a sua população, sobretudo a mais jovem, adquiriu nas últimas décadas bons níveis de conhecimento científico e elevada qualificação profissional; dispõe de uma razoável organização social, incluindo uma vasta e diversificada rede de instituições de economia solidária e social; pode beneficiar de valiosos contactos à escala mundial desde que valorizados por uma diplomacia assertiva e convertidos em sinergias positivas; tem uma longa história como Nação e um vasto e rico património cultural. Todos estes recursos devem ser assumidos e colectivamente valorizados. Neles residem as perspectivas de um futuro melhor e não podem, por isso, ficar de fora do perímetro de uma Ciência Económica que incorpore a devida preocupação de utilidade social.
Reconheço que não está nas atribuições da Universidade substituir-se aos responsáveis políticos, aos governos e demais órgãos de soberania, mas como parte integrante da sociedade civil, particularmente qualificada que é, deve assumir a responsabilidade de fazer ouvir a sua voz produzindo conhecimento e tornando-o disponível à comunidade.
Aceito com humildade a atribuição do grau de doutor honoris causa que a Universidade Técnica de Lisboa entendeu por bem atribuir-me e faço votos de que esta sessão pública seja um contributo positivo, ainda que modesto, para construir um futuro mais esperançoso, para os nossos concidadãos e concidadãs, na rota da prosperidade, da justiça, da liberdade, da democracia e da paz.
Muito obrigada!
21 Junho 2013
Manuela Silva
NOTA: Parte final da intervenção da Dra Manuela Silva durante a Cerimónia de Atribuição do Grau de Doutor Honoris Causa da UTL.

Primeiras impressões sobre a encíclica Lumen Fidei



"A Encíclica Lumen Fidei não traz nenhuma novidade espetacular que chamasse a atenção da comunidade teológica, do conjunto  dos fiéis e do grande publico. É um texto de alta teologia, rebuscado no estilo e carregado de citações bíblicas e dos Santos Padres", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

Segundo ele, "A parte mais rica se encontra no n. 45 quando se explana o Credo. Ai se faz uma afirmação que desborda a teologia e tangencia a filosofia: ”o fiel afirma que o centro do ser, o coração mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina” (n.45). E completa: ”o Deus-comunhão é capaz de abraçar a história do homem e introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão” (n. 45).

"Mas se constata na Encíclia uma dolorosa lacuna - constata o teólogo - que lhe subtrae grande parte da relevância: não aborda as crises da fé do homem de hoje, suas dúvidas, suas perguntas que nem a fé pode responder". Pois, conclui Leonardo Boff, "crer é sempre crer apesar de… A fé não elimina as dúvidas e as angústias de um Jesus que grita na cruz:”Pai, por que me abandonaste”? A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo existe um sentido, mas escondido em Deus".

Eis o artigo.

A  Carta Encíclica Lumen Fidei vem como autoria do Papa Francisco. Mas notoriamente foi escrita  pelo Papa anterior, agora emérito, Bento XVI. Confessa-o claramente  o Papa Francisco: “assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto alguma nova contribuição”(n.7). E assim deveria ser, pois caso contrário não teria a nota do magistério papal. Seria apenas um texto teológico de alguém que, um dia, foi Papa.

Bento XVI queria escrever uma trilogia sobre as virtudes cardeais. Escreveu sobre a esperança e o amor. Mas faltava sobre a fé, o que fez agora com pequenos complementos do Papa Francisco.

A Encíclica não traz nenhuma novidade espetacular que chamasse a atenção da comunidade teológica, do conjunto  dos fiéis e do grande publico. É um texto de alta teologia, rebuscado no estilo e carregado de citações bíblicas e dos Santos Padres. Curiosamente cita autores da cultura ocidental como Dante, Buber, Dostoiewsky, Nietzsche, Wittgensstein, Romano Guardini e o poeta Thomas Eliot. Vê-se claramente a mão de Bento XVI, especialmente, em discussões refinadas de difícil compreensão até para os teólogos, manejando expressões gregas e hebraicas, com soe fazer um doutor e mestre.

É um texto dirigido para dentro da Igreja. Fala da luz da fé  para quem já se encontra dentro no mundo iluminado pela fé. Nesse sentido é uma reflexão intrasistêmica.        

Ademais possui uma diccção tipicamente ocidental e européia. No texto só falam autoridades européias. Não se toma em consideração o magistério das igrejas continentais com suas tradições, teologias, santos e testemunhos da fé. Cabe apontar esse solipsismo pois na Europa vivem apenas 24% dos católicos; o resto se encontra fora, 62% dos quais no assim chamado Terceiro e Quarto Mundo. Posso me imaginar um católico sulcoreano, ou indiano, ou angolano ou moçambicano ou mesmo um andino lendo esta Encíclica. Possivelmente todos estes entenderão muito pouco do que lá se escreve, nem se encontram espelhados naquele tipo de argumentação.

O fio teológico que perpassa a argumentação é típico do pensamento de Joseph Ratzinger como teólogo: a preponderância do tema da verdade, diria, de forma quase obsessiva. Em nome desta verdade, se contrapoõe frontalmente com a modernidade. Tem dificuldade em aceitar um dos temas mais caros do pensamento moderno: a autonomia do sujeito e o uso que faz da luz da razão. J. Ratzinger a vê como uma forma de substituir a luz da fé.

Não demonstra aquela atitude tão aconselhada pelo Concílio Vaticano II que seria: nos confrontos com as tendências culturais, filosóficas e ideológicas contemporâneas, cabe primeiramente identificar a pepitas de verdade que nelas existem e a partir dai organizar o diálogo, a crítica e a complementariedade. Seria blasfemar contra o Espírito Santo imaginar que os modernos somente pensaram falsidades e inverdades.

Para Ratzinger o próprio amor vem submetido à verdade, sem a qual não superaria o isolamento do “eu”(n.27). Contudo sabemos que o amor tem a suas próprias razões e obedece a outra lógica, diversa sem ser contrária, àquela da verdade. O amor pode não ver claramente, mas ve com mais profundidade a realidade. Já Agostinho na esteira de Platão dizia que só compreendemos verdadeiramente o que amamos. Para Ratzinger, o “amor é a experiência da verdade” (n.27) e “sem a verdade a fé não salva”(n.24).

Esta afirmação é problemática em termos teológicos pois toda a Tradição, especialmente, os Concílios tem afirmado que somente salva “aquela verdade, informada pela caridade” (fides caritate informata). Sem o amor a verdade é insuficiente para alcançar a salvação. Numa linguagem pedestre diria: o que salva não são prédicas verdadeiras mas práticas efetivas.

Todo documento do Magistério é feito por muitas mãos, tentando contemplar as várias tendências teológicas aceitáveis. No final o Papa confere o seu jeito e lhe dá o aval. Isso vale também para este documento. Na sua parte final, provavelmente, pela mão do Papa Francisco, nota-se uma notável abertura que se compagina mal com as partes anteriores, fortemente doutrinárias. Nelas se afirma  enfaticamente que a luz da fé ilumina todas as dimensões da vida humana. Na parte final a atitude é mais modesta:”A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite e isto basta para o caminho” (n.57). Com exatidão teológica se sustenta que “a profissão de fé não é prestar assentimento a um conjunto de verdades abstratas mas fazer a vida entrar em comunhão plena com o Deus vivo” (45).

A parte mais rica, no meu entender, se encontra no n. 45 quando se explana o Credo. Ai se faz uma afirmação que desborda a teologia e tangencia a filosofia: ”o fiel afirma que o centro do ser, o coração mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina” (n.45). E completa: ”o Deus-comunhão é capaz de abraçar a história do homem e introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão” (n. 45).

Mas se constata na Encíclia uma dolorosa lacuna que lhe subtrae grande parte da relevância: não aborda as crises da fé do homem de hoje, suas dúvidas, suas perguntas que nem a fé pode responder: Onde estava Deus no tsunami que dizimou milhares de vidas ou em Fukushima? Como crer depois dos massacres de milhares de indígenas feitos por cristãos ao longo de nossa história, dos milhares de torturados e assassinados pelas ditaduras militares dos anos 70-80? Como ainda ter fé depois dos milhões de mortos nos campos nazistas de extermínio? A encíclica não oferece nenhum elemento para respondermos a estas angústias. Crer é sempre crer apesar de… A fé não elimina as dúvidas e as angústias de um Jesus que grita na cruz:”Pai, por que me abandonaste”? A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo existe um sentido, mas escondido em Deus. Quando se revelará?




06 julho 2013

Roma e a Teologia da Libertação: fim da guerra

O que escreverei aqui não tem nenhum sentimento de revanche. Repito o que disse ao então Card. Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, no final do julgamento a que fui submetido no edifício da ex-Inquisição, à direita de quem vem da Via della Concilizione no dia 7 de setembro de 19845: a última palavra sobre o significado da Teologia da Libertação não a tem o Sr., Cardeal, nem eu, mas a Deus e a verdade da história que, no seu tempo, virá à luz. E parece que está vindo à lume agora, quando o atual Presidente da Congregação da Doutrina da Fé o arcebispo (não é ainda Cardeal) Gerhard Ludwig Müller escreveu um livro conjuntamente com um dos fundadores da Teologia da Libertação o peruano Gustavo Gutiérrez com o significativo título Da parte dos pobres: Teologia da Libertação, Teologia da igreja, Padua 2013. Ai se confessa claramente que o combate contra a TL estava ligada a interesse ideológicos, próximos do capitalismo e do status quo imperante na América. Curiosamente, o combate contra a TL se fundava na acusação, revelada como falsa, de que se inspirava no marxismo e representava o cavalo de Tróia pelo qual entraria o marxismo na América Latina. O corifeu desta falsificação foi o Card. Alfonso Lopez Trujillo de Medellin, hoje falecido, e em sua medida, tambem o Card. Eugênio Salles do Rio de Janeiro, também falecido. Publico este texto especialmente para leitura daqueles que neste blog insistem em acusar a TL e a mim pessoalmente de marxistas, comunistas e outras  desqualificações. A luz tem mais direito que as trevas. E aquilo que foi verdade naqueles dias turbulentos em que éramos perseguidos pelos Orgãos de Segurança dos Militares e publicamente difamados por nossos próprios irmãos de fé, continua verdade hoje e oxalá sempre: os pobres gritam por serem oprimidos; pertence à missão da fé cristã ouvir este grito e fazer o que puder para que eles, conscientizados e organizados, possam sair daquela infame situação que não agrada a ninguém, nem a Deus. LB
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“O movimento eclesial teológico da América Latina, conhecido como “teologia da libertação”, que depois do Vaticano II encontrou eco em todo o mundo, deve ser considerado, na minha opinião, entre as correntes mais significativas da teologia católica do século XX”.
Quem consagra a Teologia da Libertação com esta elogiosa e peremptória avaliação histórica não é nenhum representante sul-americano das estações eclesiais do passado. O “certificado” de validade chega diretamente do arcebispo Gerhard Ludwig Müller, atual Prefeito do mesmo dicastério vaticano – a Congregação para a Doutrina da Fé – que durante os anos 1980, seguindo o impulso do Papa polonês e sob a direção do então cardeal Ratzinger, interveio com duas instruções para indicar os desvios pastorais e doutrinais que também incluíam os caminhos que as teologias latino-americanas haviam tomado.
A reportagem é de Gianni Valente e publicada no sítio Vatican Insider, 21-06-2013. A tradução é do Cepat.
A avaliação sobre a Teologia da Libertação não é uma declaração que escapou acidentalmente ao atual custódio da ortodoxia católica. O juízo, meditado, aparece nas densas páginas do volume do qual foi tirada a frase: uma antologia de ensaios escrita a quatro mãos, impressa na Alemanha, em 2004, e que agora está sendo publicada na Itália com o título “Da parte dos pobres, Teologia da Libertação, Teologia da Igreja” (Ediciones Messaggero, Padua, Emi).
Atualmente, o livro irrompe como um ato para encerrar as guerras teológicas do passado e os resíduos bélicos que de tempos em tempos brilham para espairecer alarmas que representam ora interesses, ora pretextos. O livro é escrito pelo atual responsável pelo ex-Santo Ofício e pelo teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, pai da Teologia da Libertação e inventor da própria fórmula utilizada para definir essa corrente teológica, cujas obras foram submetidas a exames rigorosos durante muito tempo pela Congregação para a Doutrina da Fé em sua longa estação ratzingeriana, embora nunca tenha sido condenado.
O livro representa o resultado de um longo caminho comum. Müller nunca ocultou suaproximidade com Gustavo Gutiérrez, que conheceu em 1998 em Lima durante um seminário de estudos. Em 2008, durante a cerimônia para o doutorado honoris causa concedido ao teólogo Müller pela Pontifícia Universidade Católica do Peru, o então bispo de Regensburg definiu como absolutamente ortodoxa a teologia de seu mestre e amigo peruano. Nos meses anteriores à nomeação de Müller como presidente do dicastério doutrinal, foi exatamente sua relação com Gutiérrez que foi evocada por alguns como prova da não idoneidade do bispo teólogo alemão para o posto que ocupou (durante 24 anos) o então cardeal Ratzinger.
Nos ensaios da antologia, os dois autores-amigos se complementam reciprocamente. SegundoMüller, os méritos da Teologia da Libertação vão além do âmbito do catolicismo latino-americano. O Prefeito indica que a Teologia da Libertação expressou no contexto real da América Latina das últimas décadas a orientação para Jesus Cristo redentor e libertador que marca qualquer teologia autenticamente cristã, justamente a partir da insistente predileção evangélica pelos pobres. “Neste continente”, reconhece Müller, “a pobreza oprime as crianças, os idosos e os doentes”, e induz muitos a “considerar a morte como uma escapatória”. Desde as suas primeiras manifestações, a Teologia da Libertação‘obrigava’ as teologias de outras partes a não criar abstrações sobre as condições reais da vida dos povos ou dos indivíduos. E reconhecia nos pobres a “própria carne de Cristo”, como agora repete o Papa Francisco.
Justamente com a chegada do primeiro Papa latino-americano surge com maior força a oportunidade para considerar esses anos e essas experiências sem os condicionamentos dos furores e das polêmicas daquela época. Mesmo afastando-se dos ritualismos dos “mea culpa” postiços ou das aparentes “reabilitações”, hoje é muito mais fácil reconhecer que certas veementes mobilizações de alguns setores eclesiais contra a Teologia da Libertação eram motivadas por certas preferências de orientação política mais que pelo desejo de guardar e afirmar a fé dos apóstolos.
Os que pagaram a fatura foram os teólogos peruanos e os pastores que estavam completamente submergidos na fé evangélica do próprio povo, que acabaram “triturados” ou na sombra mais absoluta. Durante um longo período, a hostilidade demonstrada para com a Teologia da Libertação foi um importante fator para favorecer brilhantes carreiras eclesiásticas.
Em um dos textos, Müller (que numa entrevista de 27 de dezembro de 2012 havia expressado a hipótese do cenário de um Papa latino-americano depois de Ratzinger) descreve sem meias palavras os fatores político-religiosos e geopolíticos que condicionaram certas “cruzadas” contra a Teologia da Libertação: “Com o sentimento triunfalista de um capitalismo que, provavelmente, se considerava definitivamente vitorioso”, refere o Prefeito do dicastério doutrinal vaticano, “misturou-se também a satisfação de ter negado desta maneira qualquer fundamento ou justificação da Teologia da Libertação. Acreditava-se que o jogo com ela era muito simples, lançando-a no mesmo conjunto da violência revolucionária e do terrorismo dos grupos marxistas”.
Müller também cita o documento secreto, preparado para o presidente Reaganpelo Comitê
de Santa Fé, em 1980 (ou seja, quatro anos antes da primeira Instrução sobre a Teologia da Libertação), no qual se solicitava ao governo dos Estados Unidos da América que agisse com agressividade contra a
“Teologia da Libertação”, culpada por ter transformado a Igreja Católica em “arma política contra a propriedade privada e o sistema da produção capitalista”.
É desconcertante neste documento”, destaca Müller, “a desfaçatez com que seus autores, responsáveis por ditaduras militares brutais e por poderosas oligarquias, fazem de seus interesses pela propriedade privada e pelo sistema produtivo capitalista o parâmetro do que deve valer como critério cristão”.
Após terem passado décadas de batalhas e contraposições, justamente a amizade entre os dois teólogos (o Prefeito da Doutrina da Fé e aquele que durante um tempo foi perseguido pelo mesmo dicastério doutrinal) alimenta finalmente uma ótica capaz de distinguir as obsoletas armações ideológicas do passado da genuína fonte evangélica que impulsionava muitas das rotas do catolicismo latino-americano depois do Concílio.
Segundo Müller, Gutiérrez, com seus 85 anos (e que pretende viajar à Itália e passar por Roma em setembro), expressou uma reflexão teológica que não se limitava às conferências nem aos cenáculos universitários, mas que se nutria da seiva das liturgias celebradas pelo sacerdote com os pobres, nas periferias de Lima. Ou seja, essa experiência básica graças à qual – como disse sempre simples e biblicamente o próprio Gutiérrez– “ser cristão significa seguir a Jesus”. É o próprio Senhor, acrescenta Müller ao comentar a frase de seu amigo peruano, quem “nos dá a indicação de nos comprometermos diretamente com os pobres. Fazer prevalecer a verdade nos leva a estar do lado dos pobres”.
Gianni Valente
Domingo, 23 de junho de 2013
in: http://leonardoboff.wordpress.com/2013/07/04/roma-e-a-teologia-da-libertacao-fim-da-guerra/