31 julho 2013

“Pedi e dar-se-vos-á”


À PROCURA DA PALAVRA
P. Vitor Gonçalves
DOMINGO XVII COMUM  Ano C
"…quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo
àqueles que Lho pedem!.”
Lc 11,13 

“Pedi e dar-se-vos-á”

      “Quando sinto o coração apertado por alguma coisa que me aflige, o meu porto de abrigo é começar a rezar o “Pai-Nosso”, muito devagarinho, saboreando cada frase como se estivesse a dizê-la mesmo ao ouvido do Pai.” Enterneceu-me aquela frase no meio da conversa sobre as dificuldades da vida. Quantas vezes também a única oração que Jesus ensinou aos discípulos tem sido para mim um refúgio e um alento. Como se cada frase fosse um apoio na travessia de um mar encapelado.

     Pedir não é fácil. Lembra-nos que somos pobres, que precisamos de algo ou de alguém, e que a nossa condição não é de auto-suficiência. Do nascer ao morrer vivemos sempre a precisar de coisas mas, principalmente uns dos outros. A exaltação do indivíduo na sua independência é fonte de inúmeras frustrações. A felicidade mais plena não é obter algo sozinho, nem deliciar-se com algo maravilhoso a sós. Temos uma necessidade fundamental de comunhão e é ela só se experimenta quando somos pobres, capazes de reconhecer que o outro faz-nos falta para sermos completos. Por isso, pedir, é expressão de humildade e de confiança. E Jesus não se cansa de nos convidar à confiança no Pai, a pedir-lhe o que não podemos dar a nós próprios: a força de vida, o perdão, a paz, a salvação. Mais do que “coisas” a pedir a Deus, o importante é a abertura que a pobreza de pedir gera em nós.   

     “O pão nosso de cada dia” é um imenso convite ao cuidado do presente. Jesus conhece-nos e sabe como nos angustiamos demasiado com o futuro. Sabe que, quando escolhemos o medo, tudo nos parece pouco para prevenir as incontáveis possibilidades negativas que a vida pode trazer. E não há um pouco de omnipotência neste afã de querer controlar o futuro, como se estivesse nas nossas mãos o dia que ainda não veio? Podemos estabelecer uma margem de segurança mas se a nossa confiança se transfere de Deus para ela, preparemo-nos para o medo e para a surpresa. A nossa condição não permite guardar muitas coisas fora do coração (lembram-se do maná que não podia ser guardado para o dia seguinte?). E só o que podemos guardar dentro de nós é que é verdadeiramente nosso. Aí guardamos a fé e o amor. E os amigos que alargam ao infinito o próprio coração!  

     A insistência de Jesus no pedir, no procurar e no bater à porta é significativa. Não nos diz o que pedir, nem o que procurar, nem a que portas bater. Parece que a atitude é mais importante do que o conteúdo. Que mesmo errando no que pedimos ou no que procuramos acabamos por acertar. Pois o pior é ficarmos fechados em nós mesmo, como se não precisássemos, ou zangados por não vir ter connosco aquilo que é para ser procurado. E se o alimento (pão, peixe, ovo) é tão necessário para viver, também o Espírito Santo é essencial para a vida cristã. Como temos pedido o Espírito Santo ao Pai? 

         in Voz da Verdade 28.07.2013

30 julho 2013

[Sobre a Teologia da Libertação] Ratzinger, Boff e Bergoglio

 
Ratzinger e Boff se conhecem desde finais dos anos sessenta. Dez anos depois, o mecenas converteu-se em detetive

Os teólogos Joseph Ratzinger e Leonardo Boff se conhecem desde finais dos anos sessenta, quando este estudava teologia na Alemanha. O apreço era mútuo, ao ponto de Ratzinger dar, de seu próprio bolso, ao novo doutor brasileiro 14.000 marcos para que publicasse sua tese doutoral. Porém, pouco mais de 10 anos depois, a relação mudou: o mecenas converteu-se em detetive. O cardeal Ratzinger, após assumir a presidência da Congregação para a Doutrina da Fé, convocou Boff ao Vaticano e o sentou na cadeira de Galileu para julgar seu livro Igreja: carisma e poder.

O teólogo brasileiro chegou a Roma acompanhado pelos cardeais Aloisio Lorscheider, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, ambos pertencentes à ordem franciscana, a mesma de Boff. O veredito foi a imposição de um tempo de "silêncio obsequioso”, que Boff aceitou, apesar de não estar de acordo, exercendo a virtude da humildade e pronunciando uma frase que tornou-se proverbial: "Prefiro caminhar com a Igreja, que ficar só com minha teologia”. Quando lhe impuseram silêncio, ele respondeu com a canção de Atahualpa Yupanqui: "La voz no la necesito. Sé cantar hasta en el silencio”. Ainda bem que o cardeal não lhe exigiu a devolução do dinheiro que lhe havia doado.

No início dos anos noventa, Boff foi objeto de um novo processo. O Vaticano impôs censura prévia a todos seus escritos. Foi separado da cátedra de Teologia por tempo indeterminado. Foi afastado da Revista Vozes e a Editorial Vozes e suas revistas foram submetidas à censura. De novo, o autor de tamanha negação dos mais elementares direitos humanos era o cardeal Ratzinger.

Cabe recordar que uns dias antes da condenação de 1984 havia aparecido a Instrução da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé sobre ‘Alguns Aspectos da Teologia da Libertação’, que a condenava sem paliativos. Assim, começava a cruzada contra essa corrente teológica, que continuou durante todo o pontificado de João Paulo II. A cruzada ficou mais forte com Bento XVI como papa, que, em 2007, condenou a Jon Sobrino e, em 2009, afirmou que a Teologia da Libertação havia provocado consequências "mais ou menos visíveis” como "rebelião, divisão, dissenso, ofensa e anarquia”, que havia criado entre as comunidades diocesanas "grande sofrimento ou grave perda de forças vivas” e que "suas graves consequências ideológicas conduzem inevitavelmente a trair a causa dos pobres”.

Francisco será capaz de reverter a situação e tornar a condenação sem misericórdia da Teologia da Libertação de seus predecessores em respeitosa acolhida em atitude de diálogo? Reabilitará os teólogos condenados? Reconhecerá como mártires as teólogas e teólogos mortos por amor à justiça que brota da fé?

Sua visita ao Brasil, um dos lugares mais emblemáticos onde se cultiva e se vive a Teologia da Libertação, pode ser uma boa oportunidade. Não deveria deixá-la passar.

Juan José Tamayo

in Adital

Tradução: ADITAL

[Juan José Tamayo é diretor da cátedra de Teología y Ciencias de las Religiones, da Universidad Carlos III de Madri e autor de ‘La teología de la liberación en el nuevo escenario político y religioso’ (Tirant lo Blanc, 2010)].

Entre bispos e elites


À tarde, perante uma plateia de bispos brasileiros, o Papa dedicara o mais longo discurso da sua visita a vários alertas para a hierarquia católica. Defendendo que "o resultado do trabalho pastoral não assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor", instou a Igreja a não se "afastar da simplicidade".

Falou directamente do êxodo de católicos, esse "mistério difícil das pessoas que abandonam a Igreja após deixar-se iludir por outras propostas", numa passagem acutilante: "Talvez a Igreja lhes apareça demasiado frágil, talvez demasiado longe das suas necessidades, talvez demasiado pobre para dar resposta às suas inquietações, talvez demasiado fria para com elas, talvez demasiado auto-referencial, talvez prisioneira da própria linguagem rígida, talvez lhes pareça que o mundo fez da Igreja uma relíquia do passado, insuficiente para as novas questões; talvez a Igreja tenha respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta." E apontou o caminho: uma Igreja "que, na sua noite, não tenha medo de sair", "capaz de interceptar o caminho" dos que a abandonam, "de inserir-se na sua conversa", uma Igreja que "acompanha, pondo-se em viagem com as pessoas", "capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs".

E ainda perante os bispos: "Não reduzamos o empenho das mulheres na Igreja, antes pelo contrário, promovamos o seu papel activo na comunidade eclesial. Perdendo as mulheres, a Igreja corre o risco da esterilidade."

Na véspera, num encontro com elites da sociedade civil no Theatro Municipal, dissera que "entre a indiferença egoísta e o protesto violento há uma opção sempre possível: o diálogo", e que "o futuro exige reabilitar a política, uma das formas mais altas de caridade", referências claras às últimas semanas de protestos no Brasil.
Tudo somado, se algo percorreu os discursos deste Papa no Brasil foi uma defesa da acção: social, política e evangélica. Diante de fiéis argentinos, na Catedral Metropolitana do Rio, incitara: "Eu quero agito nas dioceses, que vocês saiam às ruas. Eu quero que nós nos defendamos de toda a acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, se converte em uma ONG."


Excerto do artigo do Público de hoje, dia 29,

Papa pede aos fiéis que saiam à rua, para uma evangelização global

 









 

 
 


29 julho 2013

O Papa à solta no avião


Numa longa conversa com os jornalistas, a bordo do avião, Francisco explicou por que razão pede tanto que rezem por ele e disse que os homossexuais não deviam ser marginalizados, mas integrados na sociedade.

 

29-07-2013 12:15 por Aura Miguel, a bordo do avião papal que fez a ligação Rio de Janeiro-Roma

 

O Papa à solta no avião

“Não sei qual vai ser o futuro do Banco do Vaticano”

Papa garante que não teve medo durante falhas de segurança

"Cristo prepara uma nova Primavera no mundo através dos jovens"

"Tenham a coragem de ser felizes"

“Sigam em frente e não tenham medo”. Papa pede que não escondam Cristo

O Papa reafirmou, esta segunda-feira, na viagem de regresso a Roma, o ensinamento da Igreja de que as mulheres não podem ser ordenadas ao sacerdócio.

 Numa sessão de perguntas e respostas a bordo do avião papal, com os cerca de 70 jornalistas que viajaram com ele, Francisco disse que gostaria de ver mais mulheres em posições de liderança na Igreja, mas pôs fim a qualquer especulação de que poderá vir, ele próprio,  a introduzir mudanças no que diz respeito à ordenação sacerdotal, realçando que a posição da Igreja é "definitiva", como, aliás, já tinha sido ensinado por João Paulo II.

 "Não podemos limitar o papel das mulheres na Igreja a acólitas ou presidentes de uma organização caritativa. Tem de haver mais", disse Francisco. "Mas em relação à ordenação de mulheres, a Igreja já falou e disse que não. O Papa João Paulo II disse-o com uma fórmula que é definitiva. Essa porta está encerrada”.

Este facto, contudo, não significa que as mulheres sejam menos importantes que os homens na Igreja, disse Francisco, concretizando: "Nossa Senhora, Maria, era mais importante do que os apóstolos, bispos, diáconos e padres". De seguida, Francisco disse crer que "falta explicação teológica sobre isto".

 

A Igreja professa que o sacerdócio masculino foi instaurado por Cristo e que os sucessores dos apóstolos não têm a autoridade de o alterar.

Homossexuais devem ser integrados

Francisco também falou sobre o chamado "lobby gay" que existirá no Vaticano, mas fez questão de esclarecer que os homossexuais em si não devem ser marginalizados, mas sim integrados na sociedade.
            
O Papa apontou para o que ensina o Catecismo da Igreja Católica, esclarecendo que embora a homossexualidade em si, enquanto atracção, não seja condenável, os actos homossexuais são-no e devem ser evitados.
            
“Se uma pessoa é homossexual e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para o julgar?", questionou o Papa a bordo do avião.

 “O Catecismo da Igreja Católica explica isto muito bem. Diz que eles não devem ser marginalizados, mas integrados na sociedade. O problema não é terem esta orientação - devemos ser irmãos. Quando encontramos uma pessoa assim, deve-se distinguir uma pessoa homossexual do facto de fazer um 'lobby', porque não há 'lobbies' bons. O problema está nos 'lobbies' de pessoas gananciosas, 'lobbies' políticos, 'lobbies' maçónicos. Este é o pior problema", disse o Papa, em resposta a uma pergunta sobre a existência de um "lobby" gay no Vaticano.

 Fugas de informação na Santa Sé

O caso Vatileaks, nome dado a uma série de escândalos que envolveram roubos de documentos e fuga de informação da Santa Sé, foi também abordado. O caso foi investigado por ordem do Papa Bento XVI, que depois deu a conhecer as conclusões a Francisco.
 
            O actual Papa começou por elogiar a inteligência do seu antecessor. "Quando fui visitar o Papa Bento, depois de rezar na Capela, fomos para o seu escritório, onde vi uma caixa grande e um envelope grosso. Bento disse-me: 'Naquela caixa grande estão todas as declarações e tudo o que disseram as testemunhas, mas o resumo e juízo final está neste envelope e aqui diz-se que...' Ele guardou tudo na sua cabeça! Que inteligência, tudo na sua memória. Mas não me assustei. O problema é grave, mas não me assustei."
 
            A relação entre os dois Papas foi ainda motivo de elgoios de Francisco, para quem Bento XVI é como um avô: "Gosto tanto dele, tanto. É um homem de Deus, um pregador. Fiquei tão feliz quando ele foi eleito Papa. Quando ele resignou, vi isso como um exemplo de grandeza. Agora vive no Vaticano e alguns me diziam: 'Como é que é possível, dois Papas no Vaticano, não faz nada contra isto?'. Ele é um homem de prudência, não se imiscui. Convido-o várias vezes a vir comigo, como na bênção da Estátua de São Miguel. Para mim é como ter um avô em casa, é como um paizinho. Se tenho alguma dificuldade ou coisa que não percebo, pergunto-lhe se posso fazer assim. Quando foi a questão do Vatileaks falámos de tudo, com muita simplicidade. Ele é um grande, um grande."
             
Em resposta a uma pergunta da Renascença, Francisco explicou por que razão pede insistentemente aos fiéis que rezem por ele. O Papa criou o hábito como padre e diz que é muito importante, uma vez que é pecador como toda a gente. O hábito consolidou-se enquanto bispo, mas agora como Papa é ainda mais importante, realça.

O que o Papa Francisco trouxe até agora de novo

 
          É arriscado fazer um balanço do pontificado de Francisco pois o tempo decorrido não é suficiente para termos uma visão de conjunto. Numa espécie de leitura de cego que capta apenas os pontos relevantes, poderíamos elencar  alguns pontos.

 1. Do inverno ecclesial à primavera: saimos de dois pontificados que se caracterizaram pela volta à grande disciplina e pelo controle das doutrinas. Tal estratégia criou uma espécie de inverno que congelou muitas iniciativas. Com o Papa Francisco, vindo de fora da velha cristandade européia, do Terceiro Mundo, trouxe esperança, alívio, alegria de viver e pensar a fé crista. A Igreja voltou a ser um lar espiritual.

 

  2. De uma fortaleza à uma casa aberta: Os dois Papas anteriores passaram a impressão de que a Igreja era uma fortaleza, cercada de inimigos contra os quais devíamos nos defender, especialmente o relativismo, a modernidade e a pós-modernidade. O Papa Francisco disse claramente: “quem se aproxima da Igreja deve encontrar as portas abertas e não fiscais da afândega da fé; “é melhor uma Igreja acidentada porque foi à rua do que uma Igreja doente e asfixiada porque ficou dentro do templo”. Portanto mais confiança que medo.

     3. De Papa a bispo de Roma: Todos os Pontífices anteriores se entendiam como Papas da Igreja universal, portadores do supremo poder sobre todos as demais igrejas e fiéis. Francisco prefrere se chamar bispo de Roma, resgatando a memória mais antiga da Igreja. Quer presidir na caridade e não pelo direito canônico, sendo apenas o primeiro entre iguais. Recusa o título de Sua Santidade, pois diz que “somos todos irmãos e irmãs”. Despojou-se de todos os títulos de poder e honra. O novo Anuário Pontifício que acaba de sair  cuja página inicial deveria trazer o nome do Papa com todos os títulos, agora aparece apenas assim: Francesco, bispo de Roma.

      4. Do palácio à hospedaria: O nome Francisco é mais que nome; sinaliza um outro projeto de Igreja na linha de São Francisco de Assis: “uma Igreja pobre para os pobres” como disse, humilde, simples, com “cheiro de ovelhas” e não de flores de altar. Por isso deixou o palácio  papal e foi morar numa hospedaria, num quarto simples e comendo junto com os demais hóspedes.

       5. Da doutrina à prática: Não se apresenta como doutor mas como pastor. Fala a partir da prática, do sofrimento humano, da fome do mundo, dos imigrados da África, chegados à ilha de Lampedusa. Denuncia o fetichismo do dinheiro e o sistema financeiro mundial que martiriza inteiros países. Desta postura resgata as principais intuições da teologia da libertação, sem precisar citar o nome. Diz:”atualmente, se um cristão não é revolucionário, não é cristão; deve ser revolucionário da graça”. E continua:”é uma obrigação para o cristão envolver-se na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade”. E disse à Presidenta Cristina Kirchner:”é a primeira vez que temos um Papa peronista” pois nunca escondeu sua predileção pelo peronismo. Os Papas anteriores colocavam a política sob suspeita, alegando a eventual ideologização da fé.

       6. Da exclusividade à inclusão: Os Papas anteriores enfatizaram, especialmento Bento XVI a exclusividade da Igreja Católica, a única herdeira de Cristo fora da qual corre-se risco de perdição. O Francisco, bispo de Roma, prefere o diálogo entre as Igrejas numa perspectiva de inclusão, também com as demais religiões no sentido de reforçar a paz mundial.

        7. Da Igreja ao mundo: Os Papas anteriores davam centralidade à Igreja reforçando suas instituições e doutrinas. O Papa Francisco coloca o mundo, os pobres,  a proteção da Terra e o cuidado pela vida como as questões axiais. A questão é: como as Igrejas ajudam a salvaguardar a vitalidade da Terra e o futuro da vida?

        Como se depreende, são novos ares, nova música, novas palavras para velhos problemas que nos permitem pensar numa nova primavera da Igreja.

Leonardo Boff

26/07/2013

  Leonardo Boff é teólogo e autor de Francisco de Assis e Francisco de Roma, Editora Mar de Ideias, Rio 2013.

28 julho 2013

OS TRABALHOS DO PAPA FRANCISCO


1. Para muita gente, o que parece é e, ao que parece, temos dois papas. Vestem-se ambos de branco, usam ambos um solidéu branco, os sapatos são diferentes. Um escreve a encíclica para o outro a publicar com a sua assinatura, mas declarando que não foi ele que a escreveu. O seu a seu dono, sem se saber quem é o dono. Os meios de comunicação informaram que, para a viagem ao Rio de Janeiro, o Papa Francisco foi-se aconselhar com o ex-Bento XVI. Quem andava assustado com o desembaraço deste Papa, gosta de saber que ele se aconselha com a sisudez de Ratzinger. Para os tempos que correm e para enfrentar os lobos do Vaticano, dois papas não são demais.

Esta parece conversa de quem não quer que se toque no poder da Cúria, nas vergonhas do Banco do Vaticano e se distrai com um regime de indulgências a bom preço e de fácil acesso, a qualquer hora e lugar: basta ver, escutar e twittar.

Penso que o Papa Francisco tem seguido um bom caminho. Julgava-se que João Paulo II, além do contributo dado para a queda do Muro de Berlim, pelas suas imensas viagens, servidas pelos grandes meios de comunicação, tirava a Igreja das sacristias. Fazia dela o grande acontecimento mediático do século e restituía-lhe o seu esplendor perdido. Esquecia-se algo de muito banal: os meios de comunicação são um negócio; ganharam muito com as movimentações mundiais do papa polaco e ganharam imenso com as continuadas denúncias em torno da pedofilia de gente da Igreja e com a lentidão do Vaticano, em reagir a esses escândalos. E isso foi só o começo. Acentuaram-se os rumores em torno do banco do Vaticano: bispos, clérigos e leigos são acusados de fazerem parte de uma máfia de corrupção, cujos contornos estão ainda longe de serem conhecidos. Tudo acontece com a cobertura da Cúria Vaticana, a ponto de não se saber os laços que unem o poder do dinheiro e o poder da Cúria. Quem serve quem e quem encobre quem?

Quando Bento XVI abre um bocadinho do véu descobre que há um mundo ainda mais podre do que ele suspeitava e, perante o qual, manifesta a sua incapacidade. O grande teólogo, o que parecia saber muito dos mistérios de Deus, confessou que os mistérios do Vaticano o ultrapassavam.

2. Disse que o Papa Francisco tinha seguido um bom caminho, pois recusou meter-se naquele vespeiro. Para isso encarregou algumas pessoas de uma preliminar tarefa de limpeza, sabendo que não era uma decisão infalível. Se não desse certo, outras seriam escolhidas. A missão própria do Papa tem de ser outra: encontrar-se com os que sempre ficaram na periferia, do mundo e da igreja, os sem voz nem vez. Vários gestos marcaram, desde logo, essa opção. Nesse sentido, o encontro de Lampedusa é muito mais significativo do que a ida ao Rio, que segue os moldes estabelecidos por Wojtyla, em 1984.

O Papa Francisco mostrou que a reforma central do Vaticano tem de começar por gestos, atitudes, iniciativas, decisões que mostrem o que é e deve ser a Igreja e o Papa. Nenhuma reforma burocrática pode substituir as transformações da consciência de ser Igreja: um povo de mulheres e homens que se vão descobrindo como membros de uma grande família, ao serviço de toda a humanidade. Se o Papa não fôr o primeiro a testemunhar que este é o caminho, será o primeiro a desviar as pessoas do caminho de Cristo. 

3. O Papa não é para suceder a Jesus Cristo, mas para o seguir e tornar presente a sua mensagem no mundo de hoje. Nem ele nem os outros cristãos podem esquecer o que aconteceu nas relações dos discípulos com o Mestre e os principais obstáculos que Jesus teve de vencer, para que eles pudessem entender o seu projecto: só há reino de Deus quando os seres humanos se forem tornando e sentindo cada vez mais irmãos, esboço do mundo como família de Deus.

Jesus constituiu um grupo. Este levou muito tempo a compreender o seu projecto. Em certo sentido, os discípulos só o entenderam depois da ressurreição e do trabalho evangelizador das mulheres, as discípulas que nunca lhe exigiram nada. Eles queriam o poder de dominação. Dois, até se adiantaram para serem os primeiros da sua Cúria, passe o anacronismo (Mc 10, 14-45). Nunca entenderam as posições de Cristo sobre os perigos da riqueza e a incompatibilidade em servir a Deus e ao Dinheiro. O pobre banqueiro do grupo, ao ter esquecido o elementar, trocou Jesus por “30 dinheiros”. A outra dificuldade com que Jesus se debateu foi o do primado das normas e observâncias religiosas, sem ética, sobre as pessoas. Isto valeu o grande princípio: não é o ser humano para o Sábado, mas o Sábado para o ser humano. Este é um princípio universal: vale no campo da economia, da finança, do direito e da pastoral dos sacramentos. Vale no campo civil e religioso.

A reforma da Igreja e das suas instituições exige reflexão teológica de qualidade. Nas últimas crónicas insisti na Paciência com Deus, de Tomáš Halik. Para as férias recomendo a última obra de Timothy Radcliffe, uma teologia cheia de humor. O título em português é um bocado parado: Imersos na Vida de Deus, Viver o Baptismo e a Confirmação, Paulinas, 2013. No original inglês sugere uma piscina ou uma praia: mergulhe (Take the plunge).

Boas férias e até Setembro, se Deus quiser.

Frei Bento Domingues, O.P.

28.07.2013

Carta das CEBs aos Participantes da JMJ

 “Juventude que ousa lutar constrói o poder popular”

Nós juventudes reunidos no Trezinho das Comunidades Eclesiais de Base, na diocese de Crato, em preparação ao 13º Intereclesial que vivenciamos a experiência da Justiça e Profecia a Serviço da Vida no Campo e na Cidade. Assim, queremos anunciar a todas as juventudes de todos os continentes que estarão presentes na Jornada Mundial da Juventude e no 13º Intereclesial de CEBs, que seguindo o testemunho do Cristo libertador procuramos vivenciar uma espiritualidade profética, que se torna visível na opção preferencial pelos pobres e na defesa da vida por uma sociedade do bem viver. Impulsionados pela profecia desta terra e dos mártires que na fidelidade ao Evangelho derramaram seu sangue pela causa do Reino, denunciamos:

·        O atual modelo capitalista que movido pelo lucro que mata nossas juventudes, sobretudo, os negros e negras pobres, e assim, destrói a esperança da continuidade da vida que Deus nos deu.

·        A falta de efetivação de políticas públicas específicas para os jovens do campo e da cidade.

·        Os grandes projetos e mega eventos que com a máscara de “desenvolvimento” para o campo e as cidades, expulsam comunidades de seus territórios destruindo as culturas e tradições que historicamente se formaram.

Repudiamos:

·        A redução da maioridade penal por entendermos que ela não resolverá o problema da violência, visto que a mesma tem causa na desigualdade social e na falta de oportunidade para o desenvolvimento de uma vida digna – “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).

·        A postura de políticos que se utilizam de bens públicos para alimentarem a ganância pelo dinheiro e a impunidade que favorece a prática de tais crimes – “Vóis não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Dt 9).

Por tudo que foi explicitado afirmamos nosso compromisso em:

·        Comungar da luta da juventude negra, indígena, camponesa, pescadores e quilombola, defendendo a sua identidade e territórios.

·        Lutar pela democratização dos meios de comunicação como garantia de espaço e expressão popular, realizando um contraponto da grande mídia que destorce as mais diversas lutas sociais.

·        Assumimos a defesa das mais diversas formas de amar como expressão do gesto em que Jesus acolhe a samaritana (Jo 4), e assim, rompe preconceitos presentes em nós e na sociedade.

Nós, juventudes encantados (as) com o embalo das Comunidades Eclesiais de Base seguiremos firmes na caminhada rumo a uma sociedade em que todos (as) sejam protagonistas de uma nova história.

Juazeiro do Norte, 14 de julho de 2013.