22 agosto 2013

“Olá, sou o Papa Francisco, podemos tratar-nos por tu”

  
Ao contrário de Bento XVI, Francisco telefona directamente para qualquer pessoa.
 Stefano Cabizza, 19 anos, estudante de engenharia em Pádua, Itália, escreveu uma carta ao Papa Francisco. O líder da Igreja Católica respondeu-lhe, com uma chamada telefónica. “Sou o Papa Francisco, podemos tratar-nos por tu”, disse, quando Stefano atendeu a chamada, no domingo.
 “Rimo-nos e brincámos durante oito minutos. Disse-me que Jesus e os apóstolos se tratavam também por tu. Pediu-me que rezasse muito por ele, deu-me a bênção e senti despertar em mim uma grande força”, contou Stefano, segundo o jornal Gazzettino de Veneza.
Ao contrário de Bento XVI, Francisco telefona directamente para qualquer pessoa. É uma grande mudança nos hábitos do Vaticano, afirma uma fonte da secretaria de Estado.
 Recentemente, por exemplo, o Papa ligou a um italiano que ficou paralisado depois de um acidente de carro e que acabara de perder um irmão num assalto. Questionou-o sobre o significado da vida. Outras vezes liga para amigos, crentes e não crentes, em Itália ou na Argentina. E até telefona para jornalistas, que conheceu enquanto cardeal, para saber novidades de um familiar doente, do resultado de um exame ou celebrar um aniversário.
Adepto do contacto directo e privilegiando os jovens, como deu mostras nas Jornadas Mundiais da Juventude, que decorreram no Brasil, o Papa recebeu esta semana um grupo de mais de 200 alunos, católicos e budistas, de uma escola japonesa. Falou-lhes da importância do diálogo e da tolerância inter-religiosa, sem qualquer menção aos confrontos de que são palco países como o Egipto ou a Síria. “Qual é a atitude mais favorável ao diálogo? A empatia, a capacidade de conhecer pessoas e culturas em paz, a capacidade de fazer perguntas inteligentes, de ouvir e de falar. É este diálogo que faz a paz. Todas as guerras e todas as lutas estão relacionadas com a falta de diálogo”, observou.
AFP  
in Público   
22/08/2013 - 12:56

21 agosto 2013

A Cúria Roma é reformável?

       
A Cúria Romana é constituída pelo conjunto dos organismos que ajudam o Papa a governar a Igreja, dentro dos 44 hectares que circundam a basílica de São Pedro. São um pouco mais de três mil funcionários. Nasceu pequena no século XII; mas, transformou-se num corpo de peritos em 1588, com o Papa Sisto V, forjada especialmente para fazer frente aos Reformadores Lutero, Calvino e outros. Em 1967, Paulo VI e, em 1998, João Paulo II, tentaram, sem êxito, a sua reforma.
É considerada uma das administrações governativas mais conservadoras do mundo e tão poderosa que praticamente retardou, engavetou e anulou as mudanças introduzidas pelos dois Papas anteriores e bloqueou a linha progressista do Concílio Vaticano II (1962-1965). Incólume, continua, como se trabalhasse não para tempo mas para a eternidade.
Entretanto, os escândalos de ordem moral e financeira ocorridos dentro de seus espaços, foram de tal magnitude que surgiu o clamor de toda Igreja por uma reforma, a ser levada avante, como uma de suas missões, pelo novo Papa Francisco. Como escrevia o príncipe dos vaticanólogos, infelizmente já falecido, Giancarlo Zizola (Quale Papa 1977): "quatro séculos de Contrarreforma haviam quase extinto o cromossoma revolucionário do cristianismo das origens; a Igreja se havia estabilizado como um órgão contrarrevolucionário”(p.278) e negadora de tudo quanto aparecesse como novo. Num discurso aos curiais no dia 22 de fevereiro de 1975, o Papa Paulo VI chegou a acusar a Cúria Romana de assumir "uma atitude de superioridade e de orgulho diante do colégio episcopal e do Povo de Deus”.
Combinando a ternura franciscana com o rigor jesuítico, conseguirá o Papa Francisco dar-lhe um outro formato? Sabiamente cercou-se de 8 cardeais experimentados, de todos os continentes, para acompanhá-lo e realizar esta ciclópica tarefa com as purgas que necessariamente deverão ocorrer.
Por detrás de tudo há um problema histórico-teológico que dificulta enormemente a reforma da Cúria. Ele se expressa por duas visões conflitantes. A primeira, parte do fato de que, depois da proclamação da infalibilidade do Papa em 1870 com a consequente romanização (uniformização) de toda a Igreja, houve uma concentração máxima na cabeça da pirâmide: no Papado com poder "supremo, pleno e imediato” (Canon 331). Isso implica que nele se concentram todas as decisões, cujo fardo é praticamente impossível de ser carregado por uma única pessoa, mesmo com poder monárquico absolutista. Não se acolheu nenhuma descentralização, pois significaria uma diminuição do poder supremo do Papa. A Cúria então se fechou ao redor do Papa, tornando-o seu prisioneiro, por vezes bloqueando iniciativas desagradáveis ao seu conservadorismo tradicional ou simplesmente engavetando os projetos até serem esquecidos.
A outra vertente conhece o peso do papado monárquico e procura dar vida ao sínodo dos bispos, órgão colegial, criado pelo Concílio Vaticano II, para ajudar o Papa no governo da Igreja Universal. Ocorre que João Paulo II e Benedito XVI, pressionados pela Cúria que via nisso uma forma de quebrar o centralismo do poder romano, transformaram-no apenas num órgão consultivo e não deliberativo. Celebra-se a cada dois ou três anos; mas, sem qualquer consequência real para a Igreja.
Tudo indica que o Papa Francisco, ao convocar 8 cardeais para junto com ele e sob sua direção, proceder a reforma da Cúria, crie um colegiado com o qual pretende presidir a Igreja. Oxalá alargue este colegiado com representantes não só da Hierarquia mas de todo o Povo de Deus, também com mulheres já que são a maioria da Igreja. Tal passo não parece impossível.
A melhor forma de reformar a Cúria, no juízo de especialistas das coisas do Vaticano e também de alguns hierarcas, seria uma grande descentralização de suas funções. Estamos na era da planetização e da comunicação eletrônica em tempo real. Se a Igreja Católica quiser se adequar a esta nova fase da humanidade, nada melhor do que operar uma revolução organizativa. Por que o dicastério (ministério) da Evangelização dos Povos não pode ser transferido para a África? O do Diálogo Inter-religioso para a Ásia? O de Justiça e Paz para a América Latina? O da Promoção da Unidade dos Cristãos para Genebra, próximo ao Conselho Mundial de Igrejas? E alguns, para as coisas mais imediatas, permaneceriam no Vaticano. Através de videoconferências, skype e outras tecnologias de comunicação, poder-se-ia manter um contacto imediato e diuturno. Desta forma evitar-se-ia a criação de um antipoder, do qual a Cúria tradicional é grande especialista. Isso tornaria a Igreja Católica realmente universal e não mais ocidental.
Como o Papa Francisco vive pedindo que rezem por ele, temos que, efetivamente, rezar e muito para que esse desiderato se transforme em realidade para benefício de todos cristãos e dos que se interessam de alguma forma pela Igreja.
 
Leonardo Boff
16-08-2013
Adital
 
 
 

16 agosto 2013

Não à reforma da cúria em segredo!


Comunicado do Movimento Nós Somos Igreja

Com a primeira reunião dos oito cardeais no início de Outubro de 2013 o Papa Francisco dará início à reforma da cúria, a qual se reveste da maior importância para o futuro da Igreja Católica Romana. Não deveria decorrer em segredo, mas sim com transparência e em franco diálogo com as igrejas locais.

No dia 14 de Abril de 2013, o Papa Francisco anunciou a reforma da cúria e constituiu uma comissão mundial de oito cardeais. O Papa espera que as primeiras sugestões desta comissão sejam expressas no início de Outubro. Até ao momento, não foi atribuída qualquer tarefa pontifícia a este organismo. Até agora, nenhum dos cardeais envolvidos proferiu qualquer comentário. Mas a reforma da cúria, como primeiro passo de uma reforma estrutural integral da Igreja Católica Romana, é tão importante que o essencial deveria ser debatido publicamente.

É por isso que o MOVIMENTO INTERNACIONAL NÓS SOMOS IGREJA coloca as seguintes perguntas agora, antes da reunião da comissão, que deverá realizar-se no início de Outubro de 2013:

1. Quais os objectivos da planeada reforma, quais os conceitos subjacentes e quais as propostas concretas dos cardeais?

2. Os cardeais consultaram previamente as conferências episcopais e as organizações laicas dos seus países e continentes?

3. Que acções serão tomadas relativamente aos escândalos mundiais de abusos e de ocultações?

A nomeação de uma comissão consultiva internacional é um passo importante para uma liderança eclesial mais cooperativa e participativa, dadas as inúmeras e graves crises (Vatileaks, Banco do Vaticano, Sociedade de S. Pio X, falta de cooperação, etc.) e as decisões erradas tomadas pelos líderes da Igreja. Mas é preciso ir mais longe. A Cúria Romana cimentou o seu poder absoluto ao longo dos séculos!

É importante que a tão necessária reforma aumente não apenas a eficácia da cúria, mas contribua igualmente para um espírito de transparência, de modo a que a pluralidade colegial e as estruturas democráticas da Igreja institucional consigam progredir (por ex. “a separação de poderes”: independência legislativa, executiva e judicial). As mulheres, que constituem mais de metade dos membros da Igreja, quase não têm representatividade nem participam nas decisões. É preciso desenvolver novas estruturas de comunicação e liderança que correspondam às exigências do Evangelho e satisfaçam as necessidades de uma rede mundial de comunidades de fiéis oriundas de diversos contextos culturais. É preciso indagar como foi possível organizar, no Vaticano, um lobby de homossexuais, como afirmou o Papa Francisco, e saber o que é preciso fazer para evitar futuros lobbies deste tipo. É preciso esclarecer como é possível existir no Vaticano qualquer tipo de lobby.

O próprio Papa Francisco mencionou “vinho novo em odres velhos” e referiu-se à tradição da Igreja que permite a renovação teológica e estrutural através do diálogo com pessoas de diversas culturas (cf. a homília do Papa de 6 de Julho de 2013). Razões pelas quais se esperam dele decisões fundamentais durante o seu papado, que implicarão o abandono de princípios e doutrinas obsoletos a fim de garantir um futuro vivo e saudável para a Igreja Católica. É preciso reunir, o mais rapidamente possível, uma comissão de peritos em história da Igreja, teologia sistemática e exegese, que aborde as questões relacionadas com os problemas dogmáticos.

Respeitando naturalmente a tradição e a continuidade, devem ser promovidas uma nova cultura e estrutura fundamentais e o processo deve caraterizar-se pelo diálogo, pela comunhão, pela reforma e pela abertura – segundo o Concílio Vaticano II (1962-65), o qual continua a ser fonte de directrizes válidas e preciosas. Para o Vaticano, isto significa mais comunicação em vez de controlo, mais espiritualidade e abertura de espírito em vez de sanções.

O Movimento Nós Somos Igreja acredita que as decisões fundamentais devem incidir:

1. Na descentralização das decisões tomadas na Igreja e na concessão de mais direitos e responsabilidades às igrejas locais

2. Na representação em Roma de todas as igrejas existentes no mundo

3. Na emancipação das mulheres a todos os níveis

4. Na responsabilidade colegial e no abandono de estruturas absolutistas e monárquicas

5. Na implementação de direitos humanos na Igreja

6. Num código de conduta, incluindo a responsabilização da hierarquia da Igreja perante o povo de Deus.

Tradução de Luísa Vasconcelos Abreu
12 de Agosto de 2013

15 agosto 2013

No reform of the curia behind closed doors!


Statement by the We Are Church Movement.

With the first meeting of the eight Cardinals at the beginning of October 2013 Pope Francis will start the reform of the curia. It is of the utmost importance to the future of the Roman Catholic Church. It should not take place behind closed doors, but transparently and as an open dialogue with the local churches.

On the 14th of April, 2013 Pope Francis announced a reform of the curia. He constituted a worldwide commission of eight cardinals. The Pope expects the first suggestions of this commission to be handed in by the beginning of October. So far no pontifical task has been announced for this body. So far none of the Cardinals involved has made any comment. But the reform of the curia as a first step to a structural reform of the whole Roman Catholic Church is so important that the basics should be discussed in public.

That is why the INTERNATIONAL MOVEMENT WE ARE CHURCH asks the following questions now, before the first meeting of the commission at the beginning of October 2013:

1. What are the objectives of the intended reform, what concepts are behind it and what are the Cardinals’ concrete proposals?

2. Did the cardinals consult their national and continental bishops’ conferences and lay organisations beforehand?

3. What action is there going to be in the face of the worldwide scandals of abuse and cover-ups?

Nominating an international advisory committee is an important step to a more cooperative and participatory Church leadership, given the many serious crises (Vatileaks, Bank of the Vatican, Society of St Pius X, lack of cooperation and so on) and wrong decisions made by the church leaders. But further steps have to be taken. The Roman Curia has hardened to an absolute power over the past centuries!

It is important that the much needed reform not only increases the efficacy of the curia but helps the spirit of transparency; so that collegial plurality and democratic structures in the institutional Church have a chance to develop (e.g. ‘separation of powers’: independence of legislature, executive and judiciary). Women, who constitute more than half of the church members, are hardly ever represented or involved in decision making. New structures of communication and leadership have to be developed. They should correspond with the demands of the Gospel and meet the requirements of a worldwide net of communities of the faithful in different cultural settings. It has to be asked how a lobby of homosexuals could have been established in the Vatican, as Pope Francis said, and what action is to be taken to prevent such future lobbying. The question of why any form of lobbying exists in the Vatican should be answered.

Pope Francis himself talked about „new wine in old wineskins“ and referred to the tradition of the Church that allows renewal of theology and structure by means of dialogue with people from different cultures  (c.f. the Pope’s sermon on the 6th of July, 2013). That is why he is expected to make fundamental decisions during his papacy. These will entail the abandonment of obsolete principles and doctrines in order to secure the future well being of the Catholic Church.  A commission of experts in church history, systemic theology and exegesis has to be convened as soon as possible to addresses concerns over dogmatic questions.

With all due respect for tradition and continuity, a fundamentally new culture and structure must be developed, and the process should be characterized by dialogue, communion, reform and openness – according to the Second Vatican Council (1962-65), which still provides valid and precious guide lines. For the Vatican this means, more communication instead of control, more spirituality and open-mindedness instead of sanctions.

The We Are Church movement believes that key decisions must be about:

1. Decentralization of decision-making in the church and the giving of more rights and responsibility to the Church at local levels

2. Representation in Rome of all churches in the world

3. Emancipation of women at all levels

4.Collegial responsibility and the abandonment of absolutist and monarchical structures

5. The implementation of human rights in the Church

6. A code of behaviour, including accountability of church leaders to the people of God.

12 August 2013

11 agosto 2013

Comentário de um membro do IMWAC

       
We have a Pope that we could not have any influence upon being elected. We have to live with him and be Church. It does not depend on the Pope to bring about the changes that we log for. A Pope has a lot of power to modify certain things in the Church, which are important. But the sensus fidelium has a very important role to play as well. Don't we believe that the Holy Spirit is in all baptized, not only in the Pope?

It is symptomatic for the state of our institutional Church that we are in awe and admiration to witness a Pope who says and does things which are closer to what the Gospel reports about the historical Jesus: that he was simple and with the poor, and not a prince in a court where he had diplomatic relationships with all powerful in the world. Shouldn't this be the way a Pope, bishop or priest should be like Jesus, rather than having a male body?

To reform a bureaucratie is very difficult. It has a big inertia. I am rather happy that he wants to reform the Curia and has chosen a team to do so. But when I look at this team I am rathe sceptical. Cardinal Marz has done a lot of harm to church reform people here in Germany. He is a Prince of the Church and the fact that he was appointed by Ratzinger to the See of Munich is a sign that he can count on him. Pell from Australia played an obscure role as to sexual abuse cover up and scandal. Maradiaga from Honduras supported the Coup d'etat in his country. French reform Catholics fought against the Catholic university delivering a Dr. honoris causa to him. The Chilean Cardinal, who was in the central team (secretary) of those who managed Aparecida, somehow holds the responsability for the changes that were made to the official text voted for in Aparecida. (The bishops had voted for a version and it was changed on different important points after the vote, Ratzinger did not read this second version but signed it, so that it became the official one. Our friend Heichelbech from France has put on his blog together an impressive documentation about this matter). Etc.....

The booklets on "bioethics" that were distributed during WJD in Brazil are bad propaganda for anti-choice people and various of te facts resented are scientifically wrong.

All over the world ultra bishops continue to rule in very questionable ways. They are behave like prices and do not care that the Pope asks for a change.

This shows that the Pope cannot control what happens all over the globe. It is up to us to move on and build up a different church.

I am happy that he puts poverty and the dignity of the excluded in the first place.

10 agosto 2013

Uma Igreja mais pastoral e menos administrativa. Entrevista com João Batista Libânio

     
"O Papa Francisco centra no encontro pessoal, no diálogo, na transparência da presença, no sorriso, na acolhida das pessoas, no estímulo a não temer medo e testemunhar a fé cristã”, avalia o teólogo.

"A teologia do Papa se distingue dos anteriores pelo acento na dimensão pastoral”, assinala João Batista Libânio em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, ao comentar a visita de Francisco ao Brasil durante a Jornada Mundial da Juventude.

Na sua avaliação, "os dois Papas anteriores se empenharam em transmitir nas viagens, com a consciência da própria responsabilidade da unidade e da guarda do depósito da fé, a doutrina oficial da Igreja. E falavam longamente de temas teológicos ou da moral. O Papa Francisco fez outra opção. Preferiu o discurso direto, próximo das pessoas a tocá-las pela transparência da presença e por teologia simples, acessível com toque pessoal e afetivo. Para ele, sem sentir e ouvir as pessoas, as falas não atingem”.

Para o teólogo, Bergoglio aposta na mudança das estruturas da Igreja "pela força do élan missionário, servindo as pessoas em comunidade”, o que "implica renovação interna da Igreja e diálogo com o mundo”, e alerta para "o risco da ideologização da pregação do evangelho. Sempre presente, sob diversas formas: reducionismo socializante, psicologização, atitude gnóstica e pelagiana. Haja discernimento!”.

João Batista Libânio é padre jesuíta, escritor e teólogo. É doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de inúmeros livros, dentre os quais Teologia da revelação a partir da Modernidade (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), Qual o caminho entre o crer e o amar? (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e Qual o futuro do Cristianismo? (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como avalia a visita do Papa ao Brasil?

João Batista Libânio - Chamaram realmente a atenção na pessoa do Papa em visita ao Brasil, antes de tudo, a simplicidade, o despojamento da pompa que costuma cercar tais visitas, a tranquila alegria do rosto acolhedor. Mostrou-se próximo das pessoas, especialmente das crianças e dos pobres. Não temeu, em momento nenhum, a cercania do povo. Circulava com vidro abaixado precisamente para saudar a gente e sentir-lhe o calor humano. Devolvia o mesmo afeto que recebia.

IHU On-Line - Qual foi o discurso mais importante do Papa Francisco no Brasil? Por quê?

João Batista Libânio - A importância dos discursos depende do ângulo de análise. Prefiro distinguir vários tipos de discursos, cada um com valor próprio e incomparável. Antes de tudo, falou aos jovens. Destinatário principal da viagem. Na maioria dos discursos referiu-se a eles. Três pontos me pareceram fundamentais. Antes de tudo, mostrou-se preocupado com eles na situação de crise em que estão por razões do desemprego, de exclusão por parte do sistema, do assédio da cultura presentista e do prazer e do dinheiro, sem falar do desânimo que os ameaça diante da corrupção, da política em curso. Em face de tal situação, fala-lhes de esperança, de utopia, de coragem, de não ter medo de enfrentar a realidade, dando testemunho da própria fé. E, finalmente, incentiva-os à ação, a sair às ruas, a protestar e a criar uma sociedade e Igreja novas. Chama-os "porta do futuro”.

Outros dois discursos parecidos na tônica se deram também fisicamente vizinhos. A visita a Manguinhos e ao hospital de dependentes químicos. Aí predomina o olhar da compaixão, do cuidado, do afeto, da palavra de incentivo e coragem na luta. De novo, revela fina atenção às pessoas que sofrem.

Há os discursos à sociedade, aos políticos, aos intelectuais. Recorda-lhes a responsabilidade de manter a memória da história do povo e a esperança de construir o futuro de sociedade justa, fraterna, solidária. E insiste fortemente na importância do diálogo.

Três discursos visaram antes ao interno da Igreja: ao CELAM, aos Bispos do Brasil e aos religiosos. Aos religiosos lembrou três pontos fundamentais: a origem da vocação que vem de Deus, a missão de anunciar o evangelho e a promoção da cultura do encontro. Sobre os dois discursos maiores aos Bispos do Brasil e do CELAM veremos mais a baixo

IHU On-Line - Teologicamente, o que é possível compreender pela Teologia do Povo, adotada por Bergoglio? Em que consiste a teologia do papa?

João Batista Libânio - A teologia do Papa se distingue dos anteriores pelo acento na dimensão pastoral. Evitando todo corte artificial e equivocado entre dimensão teológica e pastoral, como nos adverte K. Rahner – toda teologia é pastoral, toda pastoral é teologia -, a diferença retrata acentos diversos. Em que ela consiste? Os dois Papas anteriores se empenharam em transmitir nas viagens, com a consciência da própria responsabilidade da unidade e da guarda do depósito da fé, a doutrina oficial da Igreja. E falavam longamente de temas teológicos ou da moral. O Papa Francisco fez outra opção. Preferiu o discurso direto, próximo das pessoas a tocá-las pela transparência da presença e por teologia simples, acessível com toque pessoal e afetivo. Para ele, sem sentir e ouvir as pessoas, as falas não atingem. Por isso, mostrou-se atento aos sinais do povo e falava, reagindo a eles.

IHU On-Line - Alguns especialistas estão chamando Francisco de Wojtyla de esquerda. Como vê essa interpretação?

João Batista Libânio - Não creio que a distinção esquerda e direita sirva para o caso. Prefiro dizer que João Paulo II estava preocupado com a doutrina, com a verdade, com o perigo dos erros no campo da fé. O Papa Francisco centra no encontro pessoal, no diálogo, na transparência da presença, no sorriso, na acolhida das pessoas, no estímulo a não temer medo e testemunhar a fé cristã.

IHU On-Line - O papa Francisco reiterou a necessidade de uma "conversão pastoral”. Como vê essa mensagem aos bispos do Brasil e do CELAM?

João Batista Libânio - Conversão pastoral significa precisamente isso: proximidade do sofrimento, das angústias, da vida das pessoas e daí falar-lhes palavras de conforto, de estímulo, de coragem, de esperança, a partir da fé em Jesus Cristo e na Igreja. Repetiu em várias circunstâncias quase à guisa de refrão duas frases: Não tenham medo e mantenham a esperança viva! Espera, portanto, da Igreja institucional que saia dos rincões fechados e vá às ruas encontrar e dialogar com as pessoas em seus problemas e dificuldades. Portanto, uma Igreja mais pastoral que administrativa a visar ao encontro e diálogo com povo e não à organização. Eis a conversão pastoral!

IHU On-Line - Quais foram os pontos mais contundentes do discurso do papa para os Bispos da CNBB e do CELAM?

João Batista Libânio - Ao falar para os bispos, tomou como metáfora do discurso o evento das aparições de Nossa Senhora Aparecida. Usa expressões fortes do agir de Deus nela: humildade, surpresa, reconciliação. Toca-nos esperar a lentidão de Deus, o reconhecimento do mistério que habita o povo, em vez de enveredar-nos pelo caminho da racionalização apressada. Em lugar da riqueza dos recursos, desenvolvamos a criatividade do amor.

Insiste em não ceder ao medo, desencanto, desânimo, lamentações! Em seu lugar, coragem, ousadia, sair às ruas, dialogar com as pessoas, ouvi-las nas mais diversas situações, sem preconceitos, sem juízos prévios, caminhando a seu lado.

Entre si, que os bispos mantenham a colegialidade, solidariedade, diversidade sem forjar unanimidade que violente as riquezas regionais. Na sociedade, cabe à Igreja anunciar com clareza e liberdade o Evangelho.

Aos bispos do CELAM, fala de seu papel de colaborar solidária e subsidiariamente para promover, incentivar e dinamizar a colegialidade episcopal e a comunhão entre as Igrejas. Discurso bem diferente da verticalidade romana tão acentuada nos últimos tempos. Apoia-se em dois pontos importantes: o patrimônio herdado do Encontro de Aparecida e a renovação em curso das Igrejas particulares.

Chamou a atenção logo no início, ao recordar a Conferência de Aparecida, ao clima de partilha entre os bispos de suas preocupações, à oração e ao ambiente religioso com a "música de fundo” do cântico, das orações e da participação dos fieis peregrinos. Sentiam os bispos a presença do "Povo de Deus”. No horizonte, estava a Missão Continental. E tudo isso aconteceu em Santuário Mariano, em que se sentia a presença da Virgem Maria.

Ele aposta na mudança das estruturas da Igreja, não pela via "do estudo de organização do sistema funcional eclesiástico”, mas pela força do élan missionário, servindo as pessoas em comunidade. Isso implica renovação interna da Igreja e diálogo com o mundo.

Alerta para o risco da ideologização da pregação do evangelho. Sempre presente, sob diversas formas: reducionismo socializante, psicologização, atitude gnóstica e pelagiana. Haja discernimento! Alude aos fatores negativos do funcionalismo e do clericalismo que pedem a conversão pastoral de que se falou acima. Rejeita fortemente a Igreja autocentrada, autorreferenciada e insiste na proximidade e no encontro com o povo, como maneira de a Igreja atuar. Nesse discurso, o silêncio que pesava sobre a realidade das CEBs é rompido, colocando-as, porém, não no contexto diretamente da libertação, mas da piedade popular e da superação do clericalismo.

IHU On-Line - Considerando que Francisco participou da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, que postura a Igreja de Roma deve adotar em relação à Igreja do Brasil?

João Batista Libânio - Difícil de responder. Não sei até que ponto ele conseguiu no pouco tempo de convivência em Aparecida e em outros encontros conhecer a Igreja do Brasil. Pelo discurso que fez parece que vai insistir numa Igreja simples, próxima do povo, desclericalizada, voltada para o diálogo, saindo de si e assumindo o espírito missionário. Desagrada-o a Igreja autorreferenciada, voltada para dentro, para a sua organização em vez de ir ao encontro do Povo. Noutras palavras, prefere que o clero seja antes pastoral que jurídico, antes perto do povo que habitando palácios.

IHU On-Line - O papa tem organizado várias comissões para reformar a Cúria Romana. Que tipo de reforma vislumbra?

João Batista Libânio - Só depois das primeiras decisões que tomar, ao ouvir a Comissão, teremos ideia por que caminho irão as reformas. Aguardemos.

IHU On-Line - O Papa declarou na entrevista de volta a Roma que uma Igreja sem mulheres é como um Colégio Apostólico sem Maria, contudo, não é favorável à ordenação de mulheres e disse ainda que é preciso uma profunda teologia da mulher. Como avalia essas declarações, especialmente num contexto latino-americano, em que há uma expectativa em torno da ordenação de mulheres?

João Batista Libânio - O Papa Francisco não começa o pontificado como se a Igreja não tivesse nenhuma história e tradição que merecesse ser respeitada. Doutro lado, percebe que no passado se cristalizaram estruturas hoje caducas. O jogo difícil lhe é pedido de discernimento, aliás carisma dos jesuítas, de manter a tradição em tensão com a inovação. A ordenação das mulheres é um dos casos difíceis. É sabido que houve ordenações de diaconisas no início da Igreja, mas não de presbíteras. Até onde os conceitos de então são idênticos aos de hoje? O texto de João Paulo II fechando a questão da ordenação presbiteral da mulher tem tom bem incisivo, mas não definitivo no sentido dogmático do termo. Até onde um outro Papa pode abri-lo? Questão em discussão para sim e para não. Afirmações contundentes de papas anteriores manifestaram-se mais tarde equivocadas. Se o leitor tiver curiosidade neste ponto, consulte a obra de GONZÁLEZ FAUS, I.. A autoridade da verdade: momentos obscuros do magistério eclesiástico. São Paulo: Loyola, 1998.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

João Batista Libânio - Os gestos e as palavras do Papa Francisco no Brasil ficarão gravadas, como alguém que veio estar perto de nós e não descarregar sobre nós conhecimentos doutrinais, normas, fazendo valer sua autoridade de Papa. Simplicidade, proximidade, alegria, esperança, coragem, não ter medo, saída de nós para encontrar e dialogar com todos: eis as palavras chaves que nos deixou.

Adital

Quinta, 08 de agosto de 2013.

Papa Francisco e a teologia da mulher: algumas inquietações.

Por Ivone Gebara

Diante da aclamação geral e da apreciação positiva da primeira visita do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), qualquer ensaio crítico pode não ser bem-vindo. Mas, depois de tantos anos de luta "ai de mim se eu me calar!”. Por isso, vão aqui algumas poucas linhas e breves reflexões, só para partilhar algumas percepções a partir do lugar das mulheres.

Não quero comentar os discursos do papa Francisco e nem a alegria que muitos de nós tivemos ao sentir a simpatia, o carinho e a proximidade de Francisco. Não quero falar de algumas posições coerentes anunciadas em relação às estruturas da Cúria Romana. Quero apenas tecer dois breves comentários. O primeiro é em relação à entrevista do papa no avião de volta a Roma, quando perguntado sobre a ordenação das mulheres e respondeu que a questão estava fechada, portanto NÃO. E acrescentou que uma "teologia da mulher” precisava ser feita e que a Virgem Maria era superior aos apóstolos, portanto nada de almejar um lugar diferente para as mulheres.

O segundo comentário tem a ver com a identificação do novo catolicismo juvenil com certa tendência carismática muito em voga na Igreja Católica hoje. Isto deveria nos levar a perguntas bastante sérias para além de nossa sede de ter líderes inspirados que falem ao nosso coração e dispensem os discursos teológicos racionalistas e dogmáticos do passado.

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