20 setembro 2013

E-mail enviado ao Cardeal Marx, em 15 de Setembro de 2013, pelo NSI-Portugal

E-mail enviado ao Cardeal Marx, em 15 de Setembro de 2013, pelo NSI-Portugal, integrado numa iniciativa do IMWAC e de diversos movimentos católicos reformistas europeus.

O Cardeal Marx pertence ao grupo dos 8 Cardeais que irá apresentar ao Papa Francisco o projecto de reforma, tendo no seu âmbito a Europa.

Dear Cardinal Marx,

The 'We are Church' Movement in Portugal is very hopeful about the will being expressed by Pope Francis and other Church authorities to move forward with a profound reform of the Curia in order that our Church should better follow the challenge that Jesus laid before all humanity - to love others as we love ourselves, and to love God above everything else.  

We feel that your 2013 October Meeting is of the utmost importance to the future of the Roman Catholic Church and will be a first step in the structural reform of the whole Roman Catholic Church.

We sincerely hope that the Reform commission will listen to and work with bishops’ conferences across the world, as well as with religious orders and, of course, with the great majority of the members of the Church, that is to say the women, men and children who every day give witness to their Christian faith.

It is important that the much needed reform not only increases the efficacy of the Curia but helps the spirit of transparency; so that collegial plurality and democratic structures in the institutional Church have a chance to develop (e.g. ‘separation of powers’: independence of legislature, executive and judiciary). Women, who constitute more than half of the church members, are hardly ever represented or involved in decision making. New structures of communication and leadership have to be developed. They should correspond with the demands of the Gospel and meet the requirements of a worldwide net of communities of the faithful in different cultural settings.

The We Are Church movement believes that key decisions must be about:

1.     Decentralization of decision-making in the church and the giving of more rights  and responsibility to  the Church at local levels

2.     Representation in Rome of all churches in the world

3.     Emancipation of women at all levels

4.     Collegial responsibility and the abandonment of absolutist and        monarchical structures

5.     The implementation of human rights in the Church

6.     A code of behaviour, including accountability of church leaders to the people of God. 

Thanking you very much for all your efforts, please be assured we will keep you in our prayers,

We are Church Group - Portugal





 

07 setembro 2013

Francisco: 4. sobre temas em debate

     
Sobre a lei do celibato dos padres, sobre a ordenação das mulheres, sobre a comunhão dos divorciados recasados, sobre o preservativo, sobre o casamento homossexual, sobre o aborto, sobre a eutanásia, o que pensa o Papa Francisco?

"O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa, porque no momento da concepção reside o código genético da pessoa. Já ali se encontra um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico." "A vida humana deve ser defendida sempre desde a concepção."

Quanto ao preservativo, não ignorará que Bento XVI já abrira a porta, pelo menos em certos casos.

 Sobre o celibato sabe por experiência própria. Quando era seminarista, ficou deslumbrado por uma rapariga. "Surpreendeu-me a sua beleza, a sua luz intelectual... e, bom, andei baralhado durante algum tempo, a dar voltas à cabeça." Ainda era livre, porque era seminarista. Teve de repensar a sua escolha.

"Voltei a escolher o caminho religioso - ou a deixar que ele me escolhesse. Seria estranho que não se passasse este tipo de coisas." Quando aparece um padre a dizer que engravidou uma mulher, "ouço-o, procuro transmitir-lhe paz e aos poucos faço-o perceber que o direito natural é anterior ao seu direito como padre". No catolicismo ocidental (no Oriente, os padres podem casar-se), "o tema está a ser discutido", mas "por enquanto mantém-se firme a disciplina do celibato". "Trata-se de uma questão de disciplina, não de fé. É possível mudar."

Quanto à mulher na Igreja, "pensem: a Virgem é mais importante do que os apóstolos", "a mulher na Igreja é mais importante do que os bispos e os padres", "é necessária uma profunda teologia da mulher". Mas, "quanto à ordenação das mulheres, a Igreja falou e diz não. Disse-o João Paulo II, com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada".

 

Quanto à comunhão das pessoas que voltaram a casar-se, é preciso pensar que a Igreja é mãe e misericórdia e "creio que o problema deve ser estudado no quadro da pastoral matrimonial." Não esquecer que a Igreja ortodoxa tem uma práxis diferente, "dá uma segunda possibilidade."

Sobre o lobby gay no Vaticano. "Quando nos encontramos com uma pessoa assim, deve-se distinguir entre o facto de ser gay e o facto de fazer lobby, porque nenhum lobby é bom. Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?" O Catecismo da Igreja Católica "explica isto de forma muito boa: não se deve marginalizar estas pessoas. É preciso integrá-las na sociedade. O problema não é ter esta tendência. Devemos ser irmãos. O problema é fazer lobby. Lobby desta tendência ou lobby dos avaros, dos políticos, dos maçons".

Ainda cardeal, sobre o casamento homossexual. "Sabemos que, em tempos de mudanças históricas, o fenómeno da homossexualidade aumentava. No entanto, no nosso tempo, é a primeira vez que se levanta o problema jurídico de a associar ao casamento, o que considero uma menos valia e um recuo antropológico. Digo-o, porque esta questão ultrapassa o plano religioso, é antropológica. Quando o chefe do Governo da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri, não apelou da sentença de uma juíza de primeira instância autorizando o casamento, senti que tinha algo a dizer, e, como forma de orientação, senti-me obrigado a manifestar a minha opinião. Foi a primeira vez em 18 anos de bispo que fiz uma crítica a um funcionário. Em momento algum falei depreciativamente dos homossexuais, mas intervim apontando uma questão legal." "Se houver uma união de tipo privado, não há um terceiro ou uma sociedade que sejam afectados. Ora, se dermos à homossexualidade a categoria matrimonial, os homossexuais ficam habilitados à adopção, e poderá haver crianças afectadas. Qualquer pessoa precisa de um pai masculino e de uma mãe feminina que ajudem a representar a sua identidade."

Quanto à eutanásia, é preciso distingui-la da obstinação terapêutica. "As pessoas não são obrigadas a conservar a vida através de cuidados extraordinários. Isso pode ir contra a dignidade do indivíduo. Diferente é a eutanásia activa; esta é equivalente a matar."
 
ANSELMO BORGES 7 de Setembro de 2013 17 comentários
in DN

O que pensa Francisco: 3. sobre as religiões


Qual é o determinante da religião, de tal modo que se pode garantir que ela vai ter sempre futuro? "Quando queremos ser sensatos, sinceros com aquilo que sentimos, manifesta--se uma inquietação profunda face ao Transcendente." Essa inquietação, que é "inerente à natureza humana", "chega mesmo a aparecer em pessoas que não ouviram falar de Deus ou que tiveram nas suas vidas posições antirreligiosas ou imanentistas e que, de repente, se deparam com algo que as transcendeu. Enquanto essa inquietação existir, existirá a religião, haverá formas de religação a Deus". A religião autêntica está em busca permanente. Por isso, uma religião puramente ritualista está destinada a morrer: enche-nos de ritos, mas "deixa--nos um vazio no coração".
A procura religiosa não terminou, continua forte, também em movimentos populares de piedade, "maneiras de viver o religioso de forma popular". O que está é "um pouco desorientada, fora das estruturas institucionais". O desafio maior para os líderes religiosos é o de "uma atracção através do testemunho", excluindo o proselitismo. É preciso procurar a autenticidade, mas, "quando isso significa apenas o prescritivo, cumprir regras, cai-se num purismo que também não é religioso".
Porque há várias religiões? "Deus faz-se sentir no coração de cada pessoa. Também respeita a cultura dos povos. Cada povo vai captando essa visão de Deus, tradu-la de acordo com a cultura que tem e vai elaborando, purificando, vai-lhe dando um sistema."
A relação religiosa autêntica implica um compromisso: "É necessário envolvermo-nos no mundo, mas sempre com base na experiência religiosa", evitando o risco de "agir como uma ONG". Quem acredita em Deus tem, nessa experiência, uma missão de justiça para com os seus irmãos, "uma justiça criativa, porque inventa coisas: educação, promoção social, cuidados, alívio, etc."
A fé tem de dialogar com a cultura. Mais: deve "criar cultura", uma cultura diferente das "culturas idólatras" da nossa sociedade: "o consumismo, o relativismo e o hedonismo são exemplo disso". "Uma fé que não se torna cultura não é uma verdadeira fé." Também dialoga - Bergoglio é químico - com a ciência, que, "dentro da sua autonomia, vai transformando incultura em cultura", devendo estar atenta, pois "a sua própria criação pode escapar-lhe das mãos".
A globalização a defender tem de ser "como a figura de um poliedro, onde todos se integram, mas cada um mantém a sua peculiaridade, que, por sua vez, vai enriquecendo os outros". "A globalização que uniformiza é essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal, mas não é humana."
Defende o Estado laico: "A convivência pacífica entre as diferentes religiões vê-se beneficiada pela laicidade do Estado, que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do factor religioso na sociedade."
Apontou o ecumenismo como uma das prioridades do seu pontificado: "Desejo assegurar a minha vontade firme de prosseguir com o diálogo ecuménico." Continuará igualmente o diálogo inter-religioso: "A Igreja Católica é consciente da impor-tância que tem a promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas. Quero repetir: promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas." Como sinal disso, enviou uma mensagem pessoal aos muçulmanos, por ocasião do fim do Ramadão, advogando "o respeito mútuo", pondo fim às "críticas e difamações" por parte das duas religiões.
 O diálogo é activo e exerce-se de múltiplos modos. A Igreja Católica "também é consciente da responsabilidade de todos pelo nosso mundo, pela criação inteira, que devemos amar e guardar. E podemos fazer muito pelo bem dos mais pobres, dos mais débeis, dos que sofrem, para promover a justiça e a reconciliação, para construir a paz. Mas, acima de tudo, devemos manter viva no mundo a sede de absoluto, não permitindo que prevaleça uma visão da pessoa humana unidimensional, segundo a qual o ser humano se reduz ao que produz e ao que consome: trata-se de uma das ciladas mais perigosas do nosso tempo".

ANSELMO BORGES 31 agosto 2013 143 comentários
in DN

24 agosto 2013

"Sair da concepção clerical ou papal da Igreja. Um desafio".


"Creio que há uma mudança que está se operando em parte do clero, do episcopado e de muitos fiéis, sobretudo mulheres na direção de uma nova ética sexual. O fermento está na massa. É preciso esperar que a levede lentamente”, diz a teóloga.
Confira a entrevista.
 
“O papa usou uma tática de não tocar de forma clara nos assuntos litigiosos na Igreja numa primeira visita. (...) Quis ser acolhido como Papa com um novo jeito de ser mais próximo e afetivo e sem as pompas que caracterizam a vida dos pontífices seus predecessores”, avalia Ivone Gebara em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Para ela, Francisco age como “se acreditasse que com ele uma nova era na Igreja Católica Romana pudesse ser inaugurada. Mas, não podemos esquecer que o Papa Francisco é o mesmo cardeal Bergoglio de Buenos Aires e suas posições contrárias ao casamento gay, ao aborto, aos anticoncepcionais são bem conhecidas do povo argentino”. E aponta: “E mais, a teologia e a ética sexual oficial da Igreja Católica ainda se referem a um mundo pré-moderno onde os avanços da ciência não tivessem afetado a cultura e a moralidade das pessoas”.
A teóloga afirma que a resposta do papa aos jornalistas referente à ordenação das mulheres a “surpreendeu”. “A surpresa não foi o ‘não’ em relação à ordenação, mas quando afirmou a necessidade de uma ‘teologia da mulher’ na Igreja”, menciona.
E esclarece: “Com essa resposta evidenciou um desconhecimento da luta e da produção teológica das mulheres por muitas décadas. E isto é preocupante para um pontífice que está à frente de uma Igreja majoritariamente feminina. Não sei se o desconhecimento é real ou se corresponde a uma postura política em relação ao movimento de mulheres no mundo e na Igreja. Nesse sentido avalio a visita como deixando a desejar, sobretudo que a maioria dos jovens presentes na Jornada Mundial da Juventude era de mulheres”.
Ivone Gebara é doutora em Filosofia, pela Universidade Católica de São Paulo, e em Ciências Religiosas, pela Université Catholique du Louvain, na Bélgica. Ela lecionou durante 17 anos no Instituto de Teologia do Recife - ITER, até sua dissolução, decretada pelo Vaticano, em 1989.
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - Como avalia a visita do Papa ao Brasil?
 
Ivone Gebara - Quando fazemos uma avaliação de alguém, sobretudo, de um personagem público como o Papa Francisco, nos damos conta da parcialidade de nossas avaliações. Cada pessoa avalia a outra a partir de um ponto de vista ou de uma expectativa ou de uma frustração. No fundo nenhuma avaliação é completa, mesmo as que se pretendem ser avaliações gerais. Não fujo à regra. Repito como tantos outros analistas que a figura do Papa Francisco é muito simpática, sua proximidade das pessoas e seu esforço de usar uma linguagem mais simples e compreensível são dignos de nota. Além disso, tem tomado posições importantes em relação ao governo da Igreja especialmente em resposta aos escândalos do Vaticano assim como posições significativas na linha da denúncia da injustiça social como quando esteve na Ilha de Lampedusa no sul da Itália. As posições de alguém são sempre interligadas às ações presentes e do passado.
Minha avaliação toca também o meu compromisso em relação à causa das mulheres que se expressa de diferentes formas e nos diferentes contextos. A resposta que deu aos jornalistas na volta à Itália quando perguntado sobre a ordenação das mulheres me surpreendeu. A surpresa não foi o “não” em relação à ordenação, mas quando afirmou a necessidade de uma ‘teologia da mulher’ na Igreja. Com essa resposta evidenciou um desconhecimento da luta e da produção teológica das mulheres por muitas décadas. E isto é preocupante para um pontífice que está à frente de uma Igreja majoritariamente feminina. Não sei se o desconhecimento é real ou se corresponde a uma postura política em relação ao movimento de mulheres no mundo e na Igreja. Nesse sentido avalio a visita como deixando a desejar, sobretudo que a maioria dos jovens presentes na Jornada Mundial da Juventude era de mulheres.
 
IHU On-Line - Diferente dos outros papas, Francisco não abordou em seus discursos questões de gênero e moral, por exemplo. O que o silêncio do papa sinaliza?
Ivone Gebara - Creio que o papa usou uma tática de não tocar de forma clara nos assuntos litigiosos na Igreja numa primeira visita. A meu ver, mas posso estar enganada, quis ser acolhido como Papa com um novo jeito de ser mais próximo e afetivo e sem as pompas que caracterizam a vida dos pontífices seus predecessores. É como se acreditasse que com ele uma nova era na Igreja Católica Romana pudesse ser inaugurada. Mas, não podemos esquecer que o Papa Francisco é o mesmo cardeal Bergoglio de Buenos Aires e suas posições contrárias ao casamento gay, ao aborto, aos anticoncepcionais são bem conhecidas do povo argentino. E mais, a teologia e a ética sexual oficial da Igreja Católica ainda se referem a um mundo pré-moderno onde os avanços da ciência não tivessem afetado a cultura e a moralidade das pessoas. Por exemplo, os insistentes conselhos da Igreja contra os preservativos e anti-concepcionias revelam o quanto esses conselhos são anacrônicos em relação ao mundo de hoje. E mais, como esse tipo de exigência provoca o surgimento de comportamentos dúbios em muitas pessoas no que se refere a moral sexual. Cada um age conforme suas necessidades e crenças e a Igreja institucional age a partir de princípios ignorando a vida real das pessoas.
IHU On-Line - Questionado sobre o fato de não ter mencionado esses assuntos em seus discursos, Francisco disse que os jovens já sabem qual é a posição da Igreja em relação a tais temas. Como a senhora vê essa resposta? Vislumbra alguma mudança na doutrina da Igreja ou na maneira de abordar esses temas?
 
Ivone Gebara - Creio que no calor do grande espetáculo das falas do papa e do ambiente de convivência dos jovens, esses assuntos capitais não foram tocados por Francisco e não houve igualmente insistência dos jovens para isso, ao menos publicamente. Penso que o papa não desconhece o fato de que os problemas acima enumerados são fundamentalmente problemas da juventude e não dos mais velhos. O mesmo se poderia dizer das drogas. Entretanto, se a resposta não foi dada diretamente pelo Papa, aliás, uma resposta que seria bastante conhecida, foi dada por alguns grupos de Igreja talvez até apoiados por autoridades episcopais.
Em muitas sacolas entregues aos jovens havia um manual de moral sexual em diferentes línguas e, por incrível que pareça, um pequeno feto em forma de boneca assim como um pequeno terço em que cada conta representava um fetinho. Eu quase não acreditei. Precisei ver com meus próprios olhos para confirmar. Queriam instruir os jovens contra o aborto dessa forma realista, violenta e desrespeitosa dos corpos e das dores humanas.
Sinto que precisamos crescer em humanidade, precisamos nos aproximar de forma desarmada das questões e dores alheias. Com o sistema legalista de pureza apresentado por muitos grupos e pessoas da Igreja corremos o risco de acirrar as diferentes formas de violência e a mentira nas relações humanas.
Apesar disso, creio que há uma mudança que está se operando em parte do clero, do episcopado e de muitos fiéis, sobretudo mulheres na direção de uma nova ética sexual. O fermento está na massa. É preciso esperar que a levede lentamente.
 
IHU On-Line - Considerando os primeiros meses da atuação do Papa Francisco, o que é possível vislumbrar acerca de seu pontificado?
Ivone Gebara - Creio que ele começa com um ponto positivo. Há uma inegável aceitação de sua pessoa e uma esperança em relação a reformas na Igreja Católica. Mas sabemos bem que embora líderes sejam importantes às estruturas de poder e outras, mudam apenas com o empenho coletivo. Nesse sentido creio que os grupos católicos espalhados pelo mundo deveriam manifestar-se mais, fazer propostas e enfrentar a realidade plural da Igreja. Creio que essa realidade plural deveria ter direito de cidadania respeitada. É difícil dizer isso quando desenvolvemos ao longo de séculos a ideia da Igreja una, santa e apostólica. O convite ao respeito das diferenças, o convite à inclusão parecem ser apelos lançados em nosso século nas mais diferentes instituições. E as instituições religiosas não podem deixar de ouvi-los.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
Ivone Gebara - Gostaria de reforçar a ideia de que a Igreja também somos nós. Isto significa sair de uma concepção clerical ou papal da Igreja. Em outros termos, a Igreja não são apenas os bispos e não é apenas o Papa. Não são eles que nos entregam a fé. Não são eles que nos dão Jesus Cristo. Não são eles que nos levam a aderir aos valores que sustentam a vida. Eles têm uma função, sem dúvida, mas a realidade da fé se inscreve em cada pessoa, depois se sustenta na comunidade de fiéis capazes de ser uns para os outros justiça, misericórdia, compaixão e ajuda mútua na manutenção da vida. Sair da valorização dos esquemas hierárquicos e buscar a responsabilidade coletiva nas pequenas e grandes ações é um real desafio para todas/os nós.

Entrevista especial com Ivone Gebara
Sábado, 17 de agosto de 2013 

NCR receives Hilton Foundation grant for coverage of sisters NCR Staff | Aug. 22, 2013


The Conrad N. Hilton Foundation has awarded a grant of $2.3 million over three years that will allow the National Catholic Reporter Publishing Co. to embark on a groundbreaking project to give greater voice to countless Catholic sisters around the globe. With the use of the Hilton Foundation grant, NCR plans to build a network of editors and reporters not only to write about women religious, but to help them develop their own communication skills by working with them as columnists who report their own missions and challenges.

"We've been standing with sisters from the beginning, and I consider the grant encouragement to go on telling their stories," said NCR Board Chair Annette E. Lomont.

"The work of these women religious is one of the least-told stories in the church," NCR Publisher Tom Fox said Thursday. "It's really an exciting challenge to bring these stories and voices to greater awareness. It also recognizes the changing nature of our global church."

Through this project, Lomont said, NCR hopes to fulfill the wishes of Conrad N. Hilton, who in his will directed his foundation to "give aid to the Sisters, who devote their love and life's work for the good of mankind."

NCR plans to create a website dedicated to the sisters' stories and voices and will include some of its content on NCR 's other media platforms. Moreover, the new website will serve as a tool that sisters can use to build and enhance their own communication networks.

Founded in 1964, NCR is a lay-led independent news organization that covers the Catholic church as well as a wide range of issues facing Catholics around the world.

"In preparing to celebrate our 50th anniversary next year, I found in the second issue a special feature called 'Sisters Forum.' It was a column in which sisters -- women religious -- could speak to each other about issues of importance to them," said NCR Editor Dennis Coday.

"This says two things: First, the sisters have been a special part of NCR from the very beginning, and the Hilton Foundation grant will enable us to continue that tradition. Second, today, as it did 50 years ago, NCR recognizes that telling stories about sisters is only half the task. The sisters must speak for themselves as well. Today, we are taking the 'Sister Forum' to the digital age."


 

O que pensa Francisco: 2. sobre a Igreja

     
Para o Papa Francisco, a Igreja não é uma empresa, uma multinacional ou uma ONG. Ela é "a família de Deus", do Deus que é amor, misericórdia e que perdoa sempre, se houver arrependimento. Deus está a caminho, "quando o procuramos e deixamos que ele nos procure. A experiência religiosa primordial é a do caminho. A vida cristã é uma espécie de atletismo, de conflito, de corrida, em que temos de nos desfazer das coisas que nos afastam de Deus".
No caminho, há perigos e tentações. Francisco acredita na existência do Diabo (como símbolo do mal ou uma entidade pessoal?): "O Demónio é, teologicamente, um ser que optou por não aceitar o plano de Deus. A obra-prima do Senhor é o homem; alguns anjos não o aceitaram e rebelaram-se. O Demónio é um deles. No Livro de Job é o tentador, que nos leva à suficiência, à soberba. Jesus define-o como o pai da mentira. Os seus frutos são sempre a destruição, a divisão, o ódio, a calúnia. E, na minha experiência pessoal, sinto-o de cada vez que sou tentado a fazer algo que não é aquilo que Deus me pede. Acredito que o Demónio existe. Talvez o seu maior sucesso nestes tempos tenha sido fazer-nos acreditar que não existe." De qualquer modo, "uma coisa é o Demónio e outra é demonizar as coisas ou as pessoas. O homem é tentado, mas não é por esse motivo que deveremos demonizá-lo". Mas o ser humano é um ser caído, o que "se explica a partir da queda da natureza depois do pecado original". Portanto, "as pessoas podem fazer algo de mau devido à sua própria natureza, ao seu "instinto", que se potencia devido a uma tentação exógena."
O fundamentalismo não é o que Deus quer, e ele não consiste apenas em matar em nome de Deus, o que é "uma blasfémia". "Por exemplo, quando eu era pequeno, na minha família havia uma certa tradição puritana; não éramos fundamentalistas, mas estávamos nessa linha. Se alguém do nosso círculo próximo se divorciava ou se separava, não entrávamos na sua casa; e também acreditávamos que os protestantes iam todos para o inferno, mas lembro-me de uma vez em que estava com a minha avó, uma grande mulher, e passaram precisamente duas mulheres do Exército de Salvação. Eu, que tinha uns cinco ou seis anos, perguntei-lhe se eram monjas. Ela respondeu-me: "Não, são protestantes, mas são boas." Esta foi a sabedoria da verdadeira religião."
Não se admite um clero de burocratas e carreiristas. Por exemplo, é "uma hipocrisia" negar o baptismo a crianças de pais não casados. E há o ecumenismo e o diálogo inter-religioso práticos: o das pessoas "que não partilham a minha fé, mas que partilham o amor pelo irmão". A verdadeira liderança religiosa é conferida pelo serviço. "Para mim, esta ideia é válida para a pessoa religiosa de qualquer confissão. Assim que deixa de servir, o religioso transforma-se num mero gestor, no agente de uma ONG. O líder religioso partilha, sofre, serve os seus irmãos." Foi esta dinâmica que o levou, já Papa, num gesto surpreendente, a Lampedusa, com esta mensagem: "A globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar. Peçamos ao Senhor a graça de chorar sobre a nossa indiferença, sobre a crueldade que há no mundo, em nós, também naqueles que no anonimato tomam decisões socioeconómicas que abrem o caminho a dramas como este."
Para a pedofilia, tolerância zero. "O problema não está associado ao celibato. Se um padre for pedófilo, é-o antes de ser padre. Ora, quando isso acontece, nunca se poderá tolerar. Não se pode assumir uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. Na diocese, nunca me aconteceu, mas, uma vez, um bispo telefonou-me para me perguntar o que se deveria fazer numa situação semelhante, e eu disse-lhe que lhe retirasse a autorização, que não lhe permitisse exercer mais o sacerdócio e que desse início a um julgamento canónico no tribunal."
A humildade é garantia de que o Senhor está presente. "Quando alguém tem todas as respostas para todas as perguntas, é uma prova de que Deus não está com ele." A Igreja tem uma herança a preservar e que não pode negociar, mas é preciso, com tempo, "dar respostas com a herança recebida às novas questões de hoje."
Padre Anselmo Borges
in DN
24-08-2013