07 outubro 2013

CONVITE

O Movimento Internacional
Nós Somos Igreja-Portugal
tem o prazer de Anunciar um
ENCONTRO/DEBATE
Celebrando a Opção pelos Pobres:
A Doutrina Social da Igreja
1º Painel: 17.00
Maria  de Lurdes Paixão- Professora
Carlos Portas – Professor
2º Painel: Testemunhos
Padre Constantino Alves- Bairro da Bela Vista-Setúbal
Isabel Bento - Comunidade de Sant’Egídio
Manuel Brandão Alves – Microcrédito
Paula Policarpo- Associação DariAcordar (Desperdício Alimentar)
Moderadora: Ana Sara Brito
DEBATE
Entrada Livre
Data: 19 de Outubro 2013 – Sábado, 17 horas
Local: Palácio Galveias
Campo Pequeno, 1049-046 Lisboa
Metro: Campo Pequeno
Autocarros 1, 21, 36, 44, 49 e 56

PERDÃO DA DÍVIDA

 
1. Tornou-se uma banalidade e um expediente moralista dizer, com estilo enfático, que as nossas sociedades estão irremediavelmente dominadas por imperativos de produção, produtividade e crescimento dos lucros. Hoje, o poder não é militar, religioso ou ideológico, mas tecno-económico. Os modelos e instrumentos que usa – servidos por gráficos e mais gráficos, números e mais números - dispensam a preocupação com as pessoas e os seus estados de alma ou de corpo.   

Seja como for, num mundo onde tudo se compra e vende, parecerá ridículo falar de “perdão da dívida”, embora seja uma questão inevitável, mesmo para Portugal. Persiste uma crença económica de grande simplicidade que, de forma mais ou menos apurada, reza assim: se cada um procurar apenas o seu interesse, consegue-se um mundo justo e calmo, auto-regulado por essa mão invisível de que falava Adam Smith (1723-1790). A experiência por ele evocada repete-se todos os dias: não é da bondade do homem do talho, do comerciante da cerveja ou do padeiro que esperamos o almoço, mas do interesse que todos eles têm em fazer negócio. Com o dinheiro que ganho, compro o que permite a outros garantir a sua subsistência.

       Esta harmoniosa crença talvez funcionasse bem se toda a criatura tivesse unhas, viola e escola, oportunidades iguais e saúde. Para cada um se tornar providência de si próprio, parece que ainda falta alguma coisa. Por isso, a solidariedade e o voluntariado não servem apenas para alimentar a preguiça.

O próprio Séneca (4 a.C.- 65 d.C.), diante da mentalidade mercantilista do seu tempo, lamentava que já não se perguntasse pelo que as coisas eram, mas quanto custavam. Sublinhava, no entanto, que o gesto capaz de manter o laço que une os seres humanos, enquanto humanos, era o dom da gratuidade. Para Sócrates, só era digna de crédito a palavra que não se exercesse como um negócio. Aristóteles não era menos avisado: o dinheiro não tem filhos e a moeda não serve apenas para marcar o preço das coisas. Como intermediário, mostra que nós existimos em relação complementar, não destrutiva, uns dos outros.

2. Max Weber escreveu, em 1904, uma obra célebre, “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Situando a condição cristã na gestão da criação confiada por Deus aos seus filhos, a Reforma protestante parecia libertar e santificar o espírito empreendedor.

João Calvino (1509-1564) autorizou o empréstimo com juros, proibido até então pela Igreja Católica, mas praticado pelos judeus, durante a Idade Média, a principal actividade financeira que lhes era autorizada. Ao romper com este tabu no seio do cristianismo, o reformador de Genebra afastou o entrave ao desenvolvimento da livre empresa. A sua reflexão integrava os interesses do conjunto da economia: o dinheiro, na sociedade, religa as pessoas entre si; parado é estéril, mas o empréstimo, com juros, coloca-o em circulação. O dinheiro é tão produtivo como qualquer outra mercadoria.

Calvino é acusado de ter libertado os demónios da busca selvagem do lucro, mas ele tomou algumas precauções – sem dúvida insuficientes - para defender os pobres dos usurários. O empréstimo, para o consumo do necessitado, deve ser sem juros e sem esperar o reconhecimento do devedor.

         Diante das derivas que fazem da Reforma a religião do dinheiro, o filósofo protestante, Jacques Ellul, cunhou uma fórmula muito sugestiva: é preciso profanar o dinheiro. Lembra que importa retirar ao dinheiro Mamon, de que fala o Evangelho, as suas promessas ilusórias e reduzi-lo à sua função de simples instrumento material de troca. Como realizar este empreendimento profanador? Numa sociedade dominada pelo dinheiro idolatrado, J.Ellul convida os cristãos a introduzir a esfera do dom e da gratuidade.

3. Não seria eticamente aceitável fazer despesas com o propósito de as não pagar. Mas o “perdão da dívida”, desde as épocas mais recuadas até aos tempos mais recentes, nada tem de insólito. A própria Alemanha, depois de guerras criminosas, beneficiou largamente desse gesto ancestral.

Há 60 anos, 20 países, entre eles a Grécia, Irlanda e Espanha, decidiram perdoar mais de 60% da dívida da Alemanha Ocidental. Segundo uma análise de Éric Toussaint - historiador e presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo -, a dívida antes da guerra ascendia a 22,6 mil milhões de marcos, com juros. A dívida do pós-guerra foi estimada em 16,2 mil milhões. No acordo assinado, em Londres, estes montantes foram reduzidos para 7,5 mil e 7 mil milhões respetivamente. Isto equivale a uma redução de 62,6%. O historiador alemão, Albrecht Ritschl, confirmou que existiu um perdão de dívida gigantesco ao país, que no caso do credor Estados Unidos foi quase total. Em 1953, os Estados Unidos ofereceram à Alemanha um haircut, reduzindo o seu problema de dívida a praticamente nada (Cf. Dinheiro Vivo 28/02/2013).

Pedir o perdão da dívida pode ter inconvenientes. Não lutar por ele, é continuar com o país estrangulado. Na Eucaristia, os cristãos confessam que é no perdão que Deus manifesta o seu poder. Demos essa oportunidade a Angela Merkel.
         Frei Bento Domingues, O.P.
         06.10.2013
       in Público

03 outubro 2013

Nem todo o Povo de Deus concorda com a canonização de João Paulo II.


Nem todo o Povo de Deus concorda com a canonização de João Paulo II.
A opinião do Movimento Internacional Nós Somos Igreja

Hoje, o Papa Francisco anunciou no Consistório o dia da canonização do Papa João Paulo II, 27 de Abril de 2014 - juntamente com o Papa João XXIII.

A decisão relativa ao Papa João Paulo II não é consensual na Igreja Católica. O Movimento Internacional Nós Somos Igreja já exprimiu a sua opinião num comunicado à imprensa no dia 16 de Janeiro de 2011.

O Papa João Paulo II foi um papa muito controverso. A sua fatalidade reside na discrepância entre o seu compromisso em reformar e em dialogar com o mundo e o seu regresso ao autoritarismo dentro da Igreja.

Foi o seu pendor para o autoritarismo espiritual que contribuiu para a maior tragédia do seu papado: o abuso sexual de milhares de crianças em todo o mundo. Ao manter a hierarquia da igreja numa posição superior à das necessidades do povo, João Paulo II perpetuou um ambiente tóxico no qual era permitido aos presbíteros, muitas vezes repetidamente, abusar sexualmente de crianças desde que o comportamento criminoso fosse mantido em segredo, preservando a imagem pública de uma liderança impoluta.

Talvez um dos melhores reflexos deste comportamento se revele na sólida ligação de João Paulo II à Legião de Cristo e ao seu fundador, Marcial Maciel. Maciel é acusado de décadas de abusos graves contra mulheres e jovens, muitos dos quais foram parcialmente branqueados graças à legislação que João Paulo II aprovou, em 1983, para a congregação religiosa de Maciel, a qual exigia secretismo e proibição de criticar o seu fundador.

Foi igualmente esta necessidade de João Paulo II em manter o controlo hierárquico que conduziu ao decréscimo da Teologia, com um impacto muito negativo na vida das pessoas. A sua tentativa de desacreditar a Teologia da Libertação deixou milhares de pessoas empenhadas na libertação sem o pleno apoio teológico e eclesial que mereciam, enquanto padeciam sob regimes políticos brutais.

O autoritarismo espiritual de João Paulo II revelou-se, igualmente, na sua tentativa de suprimir as conversas sobre a igualdade de género, a qual, por sua vez, privou o mundo católico dos dons naturais que as mulheres trariam à liderança da Igreja. A sua posição contra as pessoas lésbicas, homossexuais, bissexuais e transsexuais (LGBT) torna-o cúmplice de igrejas e governos locais, que continuam a negar igualdade civil e moral às pessoas LGBT. Além do mais, a sua denúncia repetida da utilização do preservativo dificultou as escolhas morais de milhões de pessoas de todo o mundo que tentavam impedir o alastramento do VIH/SIDA e promover a saúde sexual.
            O Movimento Internacional Nós Somos Igreja está convicto de que a beatificação e inevitável canonização não deveriam ser avaliadas pelo facto de um "milagre" poder ser atribuído a determinada pessoa mas antes pelo facto de a vida de alguém encarnar verdadeiramente os valores de Cristo, que buscou não o poder, mas o bem-estar do povo de Deus.
Tradução de Luisa Vasconcelos Abreu 

29 setembro 2013

FRANCISCO, UM AMIGO LÁ DE CASA

     
1. A ressurreição do obviamente humano e cristão, nos gestos e nas palavras do Papa Francisco, depois dos artificiosos muros levantados, nas últimas décadas, por condenações e propaganda - ocultando crimes financeiros e comportamentos pedófilos - tornou-se a mais pacífica, profunda e surpreendente revolução do nosso tempo. Este processo exemplar tem uma história.

        Não esqueçamos que o anúncio do Vaticano II aconteceu de modo totalmente inesperado. João XXIII, sem consultar ninguém, desarrumou séculos de “tridentinismo”. O desenvolvimento do Magistério pontifício, depois do concílio de Trento (1543-1563), acentuado no séc. XIX e prolongado na primeira metade do séc. XX, atingiu, com Pio XII, o paroxismo. A centralização romana multiplicou intervenções repressivas, alimentadas por delacções e processos tenebrosamente secretos. Por outro lado, depois da declaração da “infalibilidade papal” no Vaticano I (1869-1870), embora muito circunscrita, tudo o que vinha de Roma passou a ter uma auréola sagrada: era indiscutível.

2. A turbulência desencadeada antes, durante e depois do Vaticano II só se compreende tendo em conta esse longo e complexo tempo eclesial de resistência, criatividade e repressão. Ninguém de bom senso poderia supor que tudo se resolveria com a aplicação de documentos conciliares ao conjunto da Igreja situada em universos geográficos, culturais, religiosos, económicos e políticos tão diversos.

A reforma desejada, na linha aberta por João XXIII, foi sistematicamente adiada em vários domínios e, mais do que isso, contrariada. Os processos instaurados pela Congregação para a Doutrina da Fé ao pensamento cristão mais inovador pareciam querer restaurar um  tempo de má memória. A debandada de padres, religiosos, religiosas e militantes católicos foi uma tristeza. Quando se falava da necessidade de um novo concílio, a resposta disponível era sempre a mesma: ainda não foi posto em prática o Vaticano II como se vai entrar na aventura de um terceiro?

O próprio “Ano da Fé” serviu para abafar os questionamentos que o cinquentenário do Concílio poderia levantar. Optou-se por fazer dele um assunto de arquivo, em vez de uma provocação para o século XXI.

Bento XVI mostrou-se incapaz de reformar a Cúria - a que pertenceu durante muitos anos – e de convocar um novo Concílio. Preferiu demitir-se e provocar um conclave electivo, tornando possível outro caminho.

3. Nestes últimos anos, foram muitos os grupos e movimentos, de homens e mulheres, de religiosos, religiosas, de padres, de teólogos, teólogas que manifestaram a urgência de reformas na Igreja, em diversos sectores de vida, organização, ministérios e actividades. A divulgação das notícias, das análises e das propostas, a nível local e geral, alargou e aprofundou a consciência eclesial de muitos cristãos. Parece que essas iniciativas não encontraram muito eco na Cúria romana e nos últimos Papas. Por vezes serviram, até, para levantar, nas paróquias e nas dioceses, a suspeita de que se tratava de pessoas e grupos pouco católicos, de reduzido amor à Igreja, de falta de respeito pelos seus pastores e indignos de se reunirem nos espaços das congregações religiosas e das paróquias. Nenhum desses movimentos teve muito tempo para conferir o que este Papa estava a concretizar ou não, ao nível das reformas desejadas e formuladas. O próprio Papa não teve de esperar pela realização de algumas propostas e medidas que preconizou. Em seis meses de pontificado não aconteceu nada de extraordinário e aconteceu tudo o que é essencial. O Papa Francisco manifestou, por atitudes, gestos e palavras que deseja ser um homem cristão ao serviço de uma Igreja de todos – todos somos Igreja - que sirva o mundo a partir dos mais pobres e excluídos. Não fez um tratado acerca do que deve ser um papa, um bispo, um padre, um cristão no mundo de hoje. Começou por ser isso tudo, à vista de toda a gente.

Teve, com certeza, de se converter ao longo da vida – ainda se confessa, com verdade, um pecador – para matar as tentações de carreirismo eclesiástico e tornar-se um pároco simples que considera o mundo todo, de crentes e não crentes, como a sua paróquia. Perdeu a pose episcopal, cardinalícia, papal. As pessoas começaram a considera-lo da sua família, um amigo lá de casa. Um amigo incómodo que levanta questões aos instalados no dinheiro e no poder.

Foi à Sardenha dizer que o mundo tem um falso centro, o ídolo Dinheiro, que instala a cultura do descarte: descartam-se os idosos e os jovens, uns porque não podem trabalhar e outros porque não têm trabalho, condição da dignidade, pois significa levar pão para casa e amar.

Deus colocou, no centro do mundo, a mulher e o homem, a família humana. Para denunciar, de modo eficaz, o actual centro idolátrico do mundo, é preciso não ser ingénuo. Bastará a astúcia da serpente e a bondade da pomba?

Continuaremos a conversar com o amigo lá de casa.

Frei Bento Domingues, O.P.

29.09.2013

in Público

28 setembro 2013

Cinquenta Minutos de Paz

                                      Digo Eu
Cinquenta Minutos de Paz
Hoje, a T. apanhou-me de surpresa. Não é que eu saiba ou possa adivinhar o que ela me vai dizer, sempre que lhe atendo o telefone, todas as manhãs. A verdade é que não há grandes novidades nas nossas vidas de mulheres reformadas, sozinhas em casa, a dormir em cama vazia. As conversas vão seguindo quase sossegadas, a não ser quando há algum acontecimento muito emocional, como foi o caso de a T. se ter apaixonado no último verão ou de ter chorado um dia inteiro, por causa de um minúsculo bikini que usou na praia.
Podemos falar de sonhos ou de desejos, de projectos ou intenções. Combinamos um cinema, uma exposição, um café. Evitamos lembrar os telejornais, que nos atiram a matar as mais hediondas notícias. Não queremos mais ouvir a insensibilidade dos poderes, a incompetência dos partidos políticos, o empobrecimento injusto, o achatamento dos salários e das reformas. Recusamos a palavra “troika.” Tristes tempos, desabafamos a duas vozes, muitas vezes.
Hoje a T. disse-me o bom dia do costume, fez uma pausa para bem colocar a voz naquele tom que julga adequado aos assuntos realmente importantes.
E perguntou-me: -Tu és feliz?
-Espera aí, respondi-lhe. E muito depressa:- Acho que sim. Não sei. Tenho de pensar.
Ao mesmo tempo, disse eu para comigo própria que não é fácil responder a sério à pergunta, com um sorrisinho leve, que sim, sou feliz.
– Sabes que ser feliz está na moda?-  insistiu a T.
– Não sei eu outra coisa! – respondi no mesmo instante, para passar a comentar com ela a situação do nosso querido país, nesta questão existencial.
– Fazem inquéritos a torto e a direito, tentou a T. interromper-me. Mas eu, teimosamente, repeti-lhe os dados sobre a Felicidade há uns dias divulgados. E não senti nenhuns escrúpulos por quebrar a nossa regra de falarmos ao telefone dispensando as notícias deprimentes. Bem deprimentes.
Então, relembrei eu à T. que no Relatório Mundial sobre a Felicidade da ONU, Portugal desceu doze posições para o 85º lugar entre 156 países avaliados. Dinamarca, Noruega e Suiça são os primeiros e Togo, Benim e Republica Centro Africana vêm no fim. A agravar o quadro, também nos foi anunciado que 15 por cento dos portugueses sofre de ansiedade, e que somos o país europeu com maior taxa de depressão.
A T. reagiu, se calhar os dados do Relatório estão certos, a verdade é que os portugueses voltaram do mês de agosto ainda mais tristes, e depois destes números, pior ainda. E passou a falar-me sobre o que já nos últimos meses me tinha dito, ela própria tem andado à procura dessa tão desejada felicidade e acha que está a abrir-se para lá chegar. Saúde, alguma sorte, algum dinheiro para pagar as contas e um pouco mais, ela tem. Deixou de sentir tentação de consumos desnecessários, cuida da alimentação, anda muito a pé, carrega pesos por disciplina, tem sido mais atenta àqueles que estão à sua volta, encontra em si novos sentimentos de amor e compaixão.
A T., tão exuberante, tão excessiva, anda em fase de austeridade exterior e de reflexão interior. Aqui está um grande acontecimento. Ela, há muitos anos afastada da Igreja, descobre-se a viver uma espiritualidade que desconhecia. Foi ensinada a ter medo do inferno, a enunciar os pecados mortais, a ficar muda e quieta nas missas, sem perceber a complicação dos sermões de domingo. Não se considera uma convertida, porque nasceu e foi criada em puro ambiente de cultura cristã.
A personalidade do Papa Francisco, a maneira tão directa como fala, a justiça e a paz que pede para toda a humanidade impressionaram a T. Hoje, garante que outra dimensão a ilumina. Na rotina de todos os dias, ela sente que ganhou uma medida maior deste mundo. –Ter fé é não estar só, diz-me.
Enquanto a oiço, correm no meu pensamento as minhas horas felizes. – Sou feliz, sim. Nem sempre. Mas sim, sou feliz.
E dou-lhe o exemplo de um momento bom. Cinquenta minutos de paz, de beleza, de espiritualidade pura, que vivi no segundo sábado de setembro. O Concerto para Órgão na Igreja de São Vicente de Fora. Lisboa esplendorosa às 5 horas da tarde. E eu lá dentro, a par dos tantos outros homens e mulheres tão diversos, unidos no prazer absoluto da harmonia.   
Leonor Xavier
         in Jornal Sénior
         26.09.2013
 


26 setembro 2013

PASSEIO SOCRÁTICO

     
Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não; minha aula é à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”. “Não”, ela retrucou, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, indaguei. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’”

A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional). Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globocolonizador, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

 Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”
         Frei Betto, O.P.
        
         Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo e outros, de “O desafio ético” (Garamond), entre outros livros.

in http://www.freibetto.org/index.php/artigos/41-passeio-socratico-frei-betto



 

 

22 setembro 2013

CATÓLICOS NÃO CRISTÃOS

    
1. Não forjei este título, algo paradoxal, mas que exprime um fenómeno tristemente actual. Não designa os cristãos não católicos. Os membros das Igrejas protestantes, anglicanas e ortodoxas consideram-se e chamam-se cristãos. Quando dizemos que não são católicos é para significar que não estão em plena comunhão com o bispo de Roma, embora essas Igrejas também se considerem católicas.

Que se entende aqui por católico não cristão? Para o teólogo Martín G. Ballester, de quem recebi esta designação, trata-se de alguém que se atribui o título de católico de forma excludente. Considera-se a medida do verdadeiro católico e só pode ser católico quem fôr como ele. Católico é o seu pronto-a-vestir.

Segundo Ballester, esses católicos costumam ser beligerantes. Reforçam a sua identidade na condenação do outro, isto é, naquilo que os separa. Procuram inimigos seja onde fôr, pois o que lhes dá vida é precisamente o inimigo. Além de beligerantes são intransigentes, incapazes de reconhecer algo de bom em quem não pensa como eles.

Este é o retrato do católico fundamentalista, sectário, em contradição com a própria palavra católico, que significa universal, resultado de uma ruptura com a situação vivida na igreja dos começos, desde a crise helenista, descrita pelos Actos dos Apóstolos, que levou à morte o diácono Estevão (Act. 7-15). Foi neste contexto de universalização que, em Antioquia, os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de cristãos (Act. 11, 25-26).

2. Jesus era judeu e os seus discípulos também. Teve alguns contactos, especialmente com estrangeiras, que o encheram de espanto, mas não foi um homem viajado como, por exemplo, S. Paulo. Abriu, no entanto, um caminho universalista no interior do seu povo. Não via o mundo a partir dos detentores do poder económico, político e religioso, mas a partir dos excluídos de todas essas formas de poder.

É esta a razão da recusa em aceitar que lhe chamassem Messias, Cristo. Só foi possível e necessário que os primeiros escritos da igreja o designassem assim – Jesus Cristo – porque a palavra, devido à prática histórica de Jesus de Nazaré, tinha mudado radicalmente de sentido. Nesse comportamento, essa designação deixou de pertencer ao vocabulário do poder e passou a significar serviço, generosidade extrema, vida dada.

São cristãos os que não se servem da Igreja para ter poder. É curioso notar que foram as mulheres, que nada pediram a Jesus – e que, durante o seu processo de condenação, nunca o abandonaram –, que ele encarregou de evangelizar os discípulos, isto é, de o seguirem só pela mística do serviço.

3. Ao que parece, o Papa Francisco criou mais um problema no Vaticano. Com a sua mania de ver o mundo a partir dos pobres e excluídos – dizem que ainda não descobriu que, na Igreja, as mulheres são as mais excluídas – ressuscitou a Teologia da Libertação, com décadas de suspeitas e repetidas censuras. Noticiários e comentários lamentam que ele não compreenda que a hora é do triunfo do capitalismo. Ao receber Frei Gustavo Gutiérrez, um dominicano peruano, considerado o pai da Teologia da Libertação, estaria a ser vítima de um comportamento regressivo. Julgava-se que esse método teológico estivesse para sempre enterrado e, com mais algum tempo, poderia merecer, quando muito, uma nota de roda pé nos tratados e manuais dos seminários e faculdades de teologia.

O Arcebispo de Lima e Primado do Perú, o Cardeal Juan Luis Cipriani, ao saber do encontro do Papa com Gustavo Gutiérrez, manifestou, numa radiomensagem, a sua indignação. Tinha exigido a este teólogo que rectificasse temas que continuam pendentes. Pelos vistos, esse dominicano preferiu outras companhias, o que é irritante.

O Arcebispo Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – nomeado por Bento XVI – acaba de fazer coincidir a publicação de uma obra, assinada por ele e por Gutiérrez, com o encontro do Papa com este teólogo maldito que, em declarações para o Vatican Insider, assinala que este Papa lhe faz lembrar João XXIII. O “que lhe interessa é o Evangelho, não exatamente uma teologia, no máximo uma teologia próxima da Teologia da Libertação. Falar da importância do pobre, do compromisso, da solidariedade com os pobres... isso é do Evangelho! E o Papa, no seu modo de actuar, manifesta-se muito evangélico”.

O referido Cardeal de Lima, J. Luis Cipriani, não aguenta o que aconteceu: “estou a ver que isto parece uma nova primavera de Gustavo Gutiérrez”.

Não está só. Igor Alexandre explicita a indignação de muitos: “uma múmia inca ressuscita artificialmente para afugentar os vivos. Gustavo Gutiérrez malvado, emissário do passado escabroso e marxistoide, regressa para se vingar dos que permaneceram fiéis à doutrina. Será evolução? Nenhuma. É só uma mudança de pele como os ofídios. Do grandote «tentón» Müller, um luterano até à medula, nada há a estranhar. Onde se juntam os abutres, aí esta o morto. (…) Avizinha-se um conluio de demónios teólogos da libertação”.

Gustavo Gutiérrez não gosta que lhe chamem o pai da Teologia da Libertação: “gostaria de ser conhecido como um daqueles que contribuiu para a libertação da Teologia”. Ao Papa Francisco ninguém vai exigir que se torne o teólogo que nunca foi, mas é normal que contribua para que as práticas de Teologia vivam em liberdade e paz na Igreja.
 
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público
22.09.2013