17 novembro 2013

SONDAGEM OU DINAMIZAÇÃO DA IGREJA?

     
      Segundo o Pew Research Center (PRC), o centro de sondagens mais respeitado, em assuntos religiosos, em cada dez pessoas, oito são religiosas. Mais de 80% da população mundial faz parte de uma religião organizada. A religião mais numerosa continua a ser o cristianismo. Conta com 32% da população mundial. Segue-se o islão com 23% e o hinduísmo com 15%. Enquanto o cristianismo e o islão estão em vários pontos do mundo, o hinduísmo concentra-se quase exclusivamente na Índia. Metade de todos os cristãos é católica romana, 37% são protestantes e 12% ortodoxos.
Estas realidades estão sempre em recomposição, mas indicam que as religiões não estão para acabar tão cedo. Têm-se revelado até mais resistentes do que as repetidas desqualificações críticas a que têm sido submetidas. Muitas vezes com razão. De reveladoras do sentido da vida, de fontes de renovação da esperança, de resistentes ao niilismo, abrindo horizontes ilimitados tornaram-se, por manipulações várias, instrumentos do medo. Deixaram-se envolver em absurdas guerras e torturas, dando campo livre ao fanatismo em nome de Deus.
De religião para religião, as formas de expressão simbólica e ritual, as normas que as regem, as exigências éticas a que obedecem são muito diversas. As interrogações, as perplexidades e as dúvidas suscitadas pelo mistério de existir nem sempre desaguam nas respostas que as diferentes religiões codificaram. O Espírito de Deus sopra onde, quando e como quer. De qualquer modo, as formas religiosas e as suas instituições são para o ser humano e não o contrário. O teste de autenticidade das celebrações litúrgicas, das vivências espirituais e das experiências místicas, dentro e fora das instituições, prova-se na relação com os excluídos.
2. Os números, no campo religioso, só por si, não revelam – podem até ocultar – a saúde espiritual ou as crises que o atravessam. No mundo católico, há muitas vozes a reclamar mudanças e também se nota que algumas temem que o Papa Francisco comece a duvidar da infabilidade do seu magistério. Ninguém espera que, ao procurar saber como vivem e pensam os membros da Igreja, seja para fazer o rol dos erros a combater, uma espécie de reedição actualizada do Syllabus de Pio IX (1864). É mais provável que ele acredite que o sentido da responsabilidade pela vida cristã não seja um monopólio de bispos e padres e queira conhecer a sensibilidade actual dos católicos.
 O melhor lugar para fazer a leitura dos sinais dos tempos não é, necessariamente, o Vaticano. Há muitos mundos no mundo, muitas comunidades cristãs e muitas sensibilidades católicas. Não há nenhum boletim meteorológico especializado em indicar a temperatura da fé, nas diferentes regiões da terra. Nada como escutar as experiências das pessoas, das famílias, dos grupos, das comunidades espalhadas pelo mundo. Não basta.
3. Está convocada, para Outubro de 2014, a III Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos destinada a enfrentar os desafios da família, no nosso tempo. Será que os bispos e o Papa já não acreditam na doutrina que elaboraram, tão segura e clara, a partir da indissolubilidade do matrimónio? Será que pretendem informar-se da sorte desta doutrina, na sociedade e na Igreja?
Se fosse apenas uma questão de informação, nada como encomendar um inquérito a um instituto internacional especializado, com garantias científicas. Se fosse para dar a conhecer a Doutrina católica, não era preciso tanta pergunta. O que se pretende afinal?
Era costume dizer que onde está o bispo, está a Igreja. Com os Bispos reunidos em Sínodo com o Papa, não é preciso interrogar a Igreja!
Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho. É por isso que não se trata aqui apenas de um inquérito de opinião. É, sobretudo, a oportunidade de que a leitura dos sinais dos tempos referentes à situação actual da família seja feita pelo conjunto da Igreja. O processo desencadeado faz supor que o Papa e os Bispos nada querem fazer sem as comunidades cristãs. A não ser assim, estariam a enganar o laicado e a desobedecer ao grande princípio: aquilo que a todos diz respeito deve ser tratado por todos.
Não julgo que este processo possa dar azo a cisões na comunidade católica. Se todos puderem falar e ouvir chegar-se-á à conclusão de que a Igreja sempre foi construída por várias tendências. A arte dos pastores consiste em encontrar os meios, os caminhos de diálogo para estimular a comunhão na diferença.
Muito cedo na Igreja foi preciso reunir um concílio, para ser possível extrair do conflito novos horizontes e novas práticas, no seio da mesma Igreja (Act 15). Vai sendo tempo de pensar no Vaticano III. Que este Sínodo sobre a problemática actual da família seja um bom ensaio.

in Público 17.11.2013

10 novembro 2013

ENTERRAR O TRIDENTINISMO

    
1. “Tridentino” é, segundo os dicionários, um adjectivo relativo à cidade italiana de Trento ou ao concílio aí realizado, no séc. XVI (1545-1563), para tratar dos problemas do mundo católico, abalado pelo movimento da Reforma protestante, um rio de muitos afluentes. Este demorado concílio, duas vezes interrompido, alimentou, durante muito tempo, polémicas preconceituosas e ideológicas, entre adversários e apologistas. Com o acesso directo às fontes documentais, oficiais e privadas, além da maior atenção aos factores políticos e sociais que o influenciaram, foi-se atenuando o “mito” da decadência defendida por uns e a apologia divinizante de outros. O rigor possível do conhecimento histórico torna a sua revisitação importante para distinguir o que lhe pertence e o que são criações da sua posteridade.
 Este concílio chegou tarde - já estava consumada a cisão na igreja do Ocidente – e começou a ser tão lento na reforma, devido à inercia da cúria romana, que o jesuíta Roberto Belarmino chegou a defender a celebração de um novo. No entanto, durante séculos, o prestígio e a autoridade do concílio de Trento foi sempre crescendo e, levado pelas circunstâncias, exerceu uma função reguladora de toda a vida eclesial. Os papas, do fim do século XVI e seguintes, orientaram tudo para que a Igreja visse no Concílio de Trento a regra última da fé e da disciplina, o filtro indispensável para o conhecimento da verdade. Nele estava englobado e assumido tudo o que havia de bom no passado e a solução de todos os problemas doutrinários e institucionais do presente e do futuro, da Igreja e do mundo. Num manuscrito, conservado na biblioteca universitária de Bolonha, uma mão anónima escreveu: quem estuda este (concílio) a fundo pode dizer que conhece todos os concílios que foram celebrados no passado, porque, em síntese, os contem a todos.
A Igreja pós-tridentina foi adquirindo uma tal solidez que, na fase aguda da separação protestante, ninguém a teria julgado possível. É do conhecimento geral que este tridentinismo conseguiu penetrar, de maneira notável, em certas zonas do meio reformado.
2. Recorrer à expressão tridentinismo soa mal e não figura no dicionário, mas é uma descoberta feliz de G. Alberigo, um grande historiador italiano. Serve para designar o sistema ligado ao prestígio do referido concílio que, na Igreja Católica, fez depender tudo – governo, teologia e disciplina – do poder absoluto do papado romano e da sua cúria. Em nome da unidade religiosa e da obediência ao sucessor de Pedro, reprimia o que o pudesse pôr em causa, considerando a emancipação política, cultural e religiosa do mundo moderno apenas um somatório de erros que o envenenava[1].
Para Yves Congar, trata-se de um sistema simultaneamente teológico e jurídico, centrado na cúria romana, bem organizada e poderosa. Não era apenas um centro de decisão. Depois da supressão das universidades ou centros religiosos de estudos e mediante a instauração de colégios teológicos, em Roma, teve como consequência a própria centralização da teologia. Dominava a formação dos espíritos através de manuais latinos, vigiava as publicações e o ensino, deixando pouco espaço à criatividade e à originalidade. Esta teologia pós-tridentina construiu uma eclesiologia que era, sobretudo, uma hierarquiologia sob o signo da afirmação da autoridade, em clima de controvérsia. No plano do culto e da piedade, predominavam o sacramentalismo, as práticas exteriores e o aumento de novas formas de devoção, favorecidas pela enorme distribuição de indulgências[2].
3. A tendência a concentrar tudo no papado, na teologia do magistério e nas suas proposições irreformáveis teve expressões ultra- ridículas, estudadas, com muito cuidado, por J-M. Tillard[3]. O papa é o sucessor de Deus, pastor de todos os fiéis e enviado para assegurar o bem-comum da Igreja universal e o bem de cada uma das Igrejas. Não esqueçamos que o próprio Pio IX dizia: a tradição sou eu! São expressões extremas do ultramontanismo que, pela boca de Lamennais, confessava: “sem papa não há Igreja; sem Igreja não há cristianismo, sem cristianismo não há sociedade: por isso, a vida das nações europeias tem a sua fonte, a sua única fonte, no poder pontifício”.
Não podemos recuperar aqui as afirmações recolhidas por Yves Congar sobre a autoridade, na eclesiologia do séc. XIX. G. Alberigo julgava que o tridentinismo tinha morrido no Vaticano II. De facto, ressuscitou nos anos 80, com as chamadas proposições irreformáveis do magistério, mesmo quando não traziam o certificado da “infalibilidade”. É a teologia que sofre e imigra. Espero que tenha sido das últimas décadas de esterilidade teológica.
Ao que parece, o Papa Francisco quer voltar a dar a palavra a todos os católicos e ouvir todas as pessoas de boa vontade.
Frei Bento Domingues, O.P.
           10.11.2013
 
 
 
   
 

[1] Cf Novas perspectivas sobre o Concílio de Trento.Concilium 07.09.1965, pg 58-72; Du concile de Trente au tridentinisme,  Irénikon, 54,1981.pg 192-210
[2] Yves Congar, Eglise et Papauté, Cerf, Paris,1994, pg 51-64 ; Cf Bernard Sesboüé/Christoph Theobald, La Parole du Salut, T. 4, Désclées, 1996, pg 176 ss
[3] J.-M. Tillard, O.P., L’évêque de Rome ,Cerf, 1982                                 
 
 

BISPOS PORTUGUESES: QUEM IDES OUVIR?

        
Dentro da actualidade religiosa católica, o tema do momento é o questionário do papa Francisco, enviado a 18 de Outubro a todas as Conferências Episcopais (CEs) e integrado num documento intitulado “Desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Através de 38 questões frontais, Francisco quer conhecer bem a realidade familiar, quer se trate de uniões entre o mesmo sexo, planeamento familiar, divorciados e recasados, etc. Como dizia o óptimo Editorial da newsletter católica La Vie de 5 deste mês, a novidade desta consulta não é que Roma queira ouvir os bispos, é que queira ouvir os próprios católicos. E permite-se até “brincar”, a propósito de uma das questões acerca da “lei natural”. No fundo, escreve, o que Francisco quer saber é se as católicas tomam a pílula ou se actuam de acordo com os ensinamentos da polémica Humanae vitae. E acrescenta: “É certo que não é propriamente isto que se diz. Mas quase”.
        Questão de extrema importância é a metodologia que as CEs vão usar para ouvir os fiéis. A nossa Assembleia Plenária dos Bispos vai reunir apenas para a semana. Penso que a questão da metodologia será abordada de modo muito lateral. Em conversa com o secretário de um bispo português, fiquei aterrada. Para ele, a consulta não tem nada de mais e já tem sido feita noutras questões: manda-se o documento para movimentos católicos e para os párocos, estes consultam os conselhos pastorais (8 pessoas? 12?), devolvem ao bispo as respostas e... acabou-se. Protestei: “Mas, desse modo, as intenções do inquérito são sabotadas! Quer-me dizer que eu não poderei expressar a minha voz?”. Embora me parecesse incomodado com o facto de lhe falar em exclusões, o secretário continuou a raciocinar segundo a sua formatação de base: “Os conselhos pastorais já são representativos das outras pessoas da paróquia, logo, você já está representada, por delegação”. Sentindo o meu descontentamento, lá atirou as últimas responsabilidades para a CE.
Saliente-se que a CE de Inglaterra e País de Gales deu tal importância ao inquérito que, desde 31 de Outubro, disponibilizou uma óptima plataforma online onde pode ser respondido. Mais: a intenção é enviar para as respectivas CEs as respostas que recebam de outros países (e já têm respostas provindas de Portugal). O Reino Unido teve um cisma entre cristãos. Talvez por isso a parte católica sinta aí mais a necessidade da transparência e de ouvir os seus fiéis.
Que eu saiba, o exemplo anglo-saxónico ainda não foi seguido por outras CEs. Mas, no passado dia 5, o importante portal espanhol de informação religiosa, Religión Digital, colocou também o inquérito online, comprometendo-se a enviar as respostas para as devidas entidades religiosas. É “a forma segura e eficaz” de responder, dizem. Obviamente, temem a sabotagem. Os textos do seu Director, José Manuel Vidal, fazem transparecer cada vez mais esta preocupação. Ainda do lado espanhol, saliento as respostas frontais, por vezes ternas, de José Arregi, ex-franciscano, ao “Querido papa Francisco” (cf. o seu blog), ou as de Jesús Bastante, chefe de redacção de Religión Digital.
Na carta que acompanhou o envio do Documento, pedia-se uma distribuição imediata e “o mais ampla possível”, mas esta última expressão é objecto de polémica. Para os bispos mais conservadores, basta consultar os “habituais” e passar adiante. Mas pode-se aceitar que seja essa a vontade de Francisco, que nos tem surpreendido por ir ter com as “periferias”, tenham elas o nome de Lampedusa ou de uma qualquer grávida solteira desesperada?
Este não é um inquérito qualquer. Se passar à margem dos católicos individuais, penso que desse modo se atraiçoarão as próprias intenções de Francisco, assim como as de tantos católicos que, através dele, sentem mais próxima de si a ternura de Cristo. Como afirma Thomas Reese no National Catholic Reporter do passado dia 7, Francisco já perguntou, noutro contexto: “Será que os conselhos diocesanos e paroquiais possibilitam verdadeiras oportunidades para que os leigos participem no aconselhamento, organização e planeamento pastorais?”.
 
Entretanto, para o caso de a nossa CE não querer ouvir de facto a voz de cada um dos seus católicos – ainda por cima, nem sequer tenho, como muitos, paróquia que assuma como minha -, posso desde já informar que, correspondendo a um pedido da minha parte, o Director de Religión Digital disponibiliza a plataforma online acima referida a todos os portugueses que a queiram usar (pode-se escrever em português). “Será un placer”, disse-me, para que “vaya creciendo el tsunami de participación del pueblo de Dios en las decisiones de la Iglesia”.
Laura Ferreira dos Santos
Docente aposentada da Universidade do Minho (laura.laura@mail.telepac.pt)
in Público 10.11.2013
NOTA: Religión Digital http://www.periodistadigital.com/religion/
Para responder ao inquérito:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



 



 
 
 

 
 



03 novembro 2013

NÃO DEIXEM TUDO PARA O PAPA

       
1. Se uns católicos projectam sobre o novo Papa os seus desejos de mudança, outros receiam a sua desenvoltura.

Bergoglio já mostrou que conhece as diversas correntes espirituais e culturais do catolicismo, nos diversos países. O que ainda não sabemos - apesar de alguns gestos e entrevistas importantes -, é o método da sua liderança. Situando-se no seio de uma Igreja, toda ela chamada a ser aprendiza e testemunha do Evangelho no mundo, seguirá o método de João XXIII. Se passar o tempo a invocar o poder papal para exercer o seu magistério, reprimindo as correntes teológicas que não o reproduzam, será mais do mesmo. Foi esse o lamentável estilo adoptado, embora com acentos diferentes, durante 150 anos, mais precisamente, desde a encíclica programática Mirari vos, de Gregório XVI (1832), que procurava levantar um dique contra o mundo moderno.  
 
Espero que o papa Francisco vença a tentação de desenhar o futuro de modo voluntarista, apoiado apenas nas suas concepções pré-estabelecidas e invocando imperativos da divina tradição. Vimos, na crónica do passado Domingo, as consequências da tentativa de parar o tempo, mediante a declaração intimidatória de João Paulo II, sobre a “ordenação sacerdotal” das mulheres.

          Na expressão de K. Rahner, esse comportamento estava situado no Inverno da Igreja. Para este teólogo, as autoridades eclesiásticas de Roma, em 1985,  davam a impressão de favorecer mais um retorno medroso aos “bons tempos passados”, do que tomar consciência clara da situação actual do mundo e da humanidade, com espírito evangélico, no seguimento do Concílio Vaticano II.

          Se as mulheres começarem, em breve, a fazer parte da instituição do cardinalato, será um bom sinal. Ninguém poderá adiantar qualquer argumento teológico contra tal decisão e esta poderá contribuir para desbloquear o debate sobre o papel das mulheres nas comunidades cristãs. Não esperemos, no entanto, que o papa possa resolver tudo com uma penada. Embora os regimes democráticos funcionem ainda muito mal, na Igreja Católica nem sequer foram ensaiados, salvo em alguns nichos.                             

          2. O grande historiador, Giuseppe Alberigo, orientou um número especial da Concillium (108, 1975), dedicado à renovação da Igreja e à reconfiguração do serviço petrino. Naquela data, não foi tido em conta. Parece-me que chegou o momento de o revisitar com proveito. Na altura, a meta a atingir com esse dossier consistia em formular alguns pontos operacionais capazes de concretizar, no seio da Igreja, uma imagem realista e praticável daquilo que poderia ser e fazer o papado, no seio da Igreja dos últimos decénios do séc. XX. Como já foi referido, meteu-se pelo meio um longo inverno. Não se pretendia, de modo nenhum, ter identificado o ponto central e decisivo da renovação da Igreja. Pelo contrário. É necessário manter viva a consciência de que o papado romano constitui, apenas, um factor da Igreja e nem sequer é o mais decisivo. Por outro lado, parece igualmente importante abandonar o “globalismo” paralisador, muito difundido, que em nome da necessidade de levar em conta todas as componentes da problemática eclesial, nos impede de as considerar, uma a uma, com realismo e oportunidade.

Recolocar os ministérios eclesiais dentro do Povo de Deus, como fez o Vaticano II, constitui o fundamento e o critério de uma nova fase na história do papado. Torna-se incontornável e urgente a reapropriação do papado romano por parte da Igreja, superando tanto a animosidade anti-romana, como a imagem mitificada do papa.

Temos um longo e complexo caminho pela frente. Esse caminho pressupõe uma efectiva capacidade da Igreja para exprimir, mediante formas adequadas e responsáveis – sem servilismos nem arrogância – indicações pertinentes sobre o espaço e conteúdos do serviço que o Papa deve prestar.

3. Alberigo, no seu contributo, destacou e desenvolveu a seguinte tese: é preciso que a consciência eclesial se compenetre de que o estatuto do papado romano não é, nem do ponto de vista teológico nem histórico, um dado indiscutível e imutável.

Se fizermos uma reavaliação da possibilidade de modos, estilos e conteúdos diferentes daqueles que se tornaram mais habituais e constantes, ver-se-á que, quase tudo aquilo que se sabe do papado romano, depende das circunstâncias históricas. Estas sofreram repetidas e profundas modificações, ao longo dos tempos.

Quando os papas são apresentados sob um único denominador comum, figuras tão diferentes e contrastadas como as de Gregório Magno, Gregório VII, Paulo III, Pio IX e João XXIII, acabam por conduzir a história da Igreja a uma história do papado e ao triunfo de uma uniformidade construída. Nenhum papa é a Igreja. Não deixemos tudo para este iluminado e desarmante argentino.

Frei Bento Domingues, O.P.

03.11.2013

in Público

27 outubro 2013

Não fechar o futuro

   
1. Repetia-me, há dias, um amigo, um anticlerical de velha tradição: se for verdade que um jesuíta, conservador e autoritário, se converteu em irmão de Francisco de Assis e que os cardeais fizeram dele o Papa da Igreja Católica Romana, não posso continuar a dizer que não há milagres…

         Muitos católicos, humilhados pelas narrativas de escândalos ocultados durante muitos anos, voltaram a socorrer-se de um velho adágio: Deus escreve direito por linhas tortas. Alguns dos que, entretanto, tinham ido dar uma volta por outras paragens religiosas ou agnósticas, estão de regresso. Não faltam os que estão na expectativa. Aqueles que sempre defenderam as opções da hierarquia, mesmo nas situações mais absurdas, organizam-se, agora, para impedir os estragos que este papa, sem devoção pelo Vaticano e demasiado inconveniente nas pinturas que faz do carreirismo eclesiástico, está a causar ao mundo católico. Este movimento até já tem a sua oração: “Senhor, antes que seja tarde, ilumina-o ou elimina-o”.

Persiste, todavia, nessas reações contrastadas, o grande equívoco que João XXIII quis desfazer, ao convocar o Vaticano II: a tendência inveterada de identificar a Igreja com a hierarquia. Fala-se muito, e com razão, na urgência de reformar a Cúria, mas debatem-se pouco as funções que deve desempenhar, a composição que deve ter, a duração dos mandatos, assim como as modalidades de prestar contas à Igreja, de forma periódica.

Jorge Bergoglio estava consciente de que teria de conduzir esse processo com prudência, a virtude cardeal das decisões corajosas, ponderadas e sábias, a não confundir com o medo de tocar na máquina dos interesses instalados, dispostos a boicotar qualquer tentativa de reforma eficaz. Um reformador não é um tonto com iniciativa.

O papa resolveu começar imediatamente a reforma pela cúpula, para que a Igreja não continue a meter tanta água. Tinha de ser ele a romper com o estilo palaciano e retomar, na prática, a sentença de Santo Agostinho: “para vós sou bispo, convosco sou cristão”.

Se não mostrasse, em concreto, o seu modo de ser cristão, bispo e papa, não tinha autoridade para fazer exigências radicais à Cúria, cujos “eminentíssimos cardeais precisam de uma eminentíssima reforma”, para usar a expressiva linguagem de D. Frei Bartolomeu dos Mártires no Concílio de Trento. Isso explica as suas prioridades: celebrou a 5ª Feira Santa numa prisão de jovens, foi à ilha-cemitério de Lampedusa, às favelas do Rio de Janeiro e aos pobres da Sardenha. Estabeleceu o centro na periferia. Mostra assim que só pode viver a sua missão apostólica na defesa dos excluídos por um sistema mundial, que tem como fruto a globalização da indiferença, a nossa vergonha!

2. Se, com essas iniciativas, estivéssemos perante um fenómeno de populismo e idolatria papal, não seria o próprio Bergoglio a dizer: já basta de Francisco, Francisco, Francisco!

O que o papa procura é centrar as suas preocupações na reconstrução de uma Igreja que seja um nós aberto ao mundo. Herdou, porém, uma questão gritante que papas anteriores, com argumentos duvidosos, afirmaram estar definitivamente encerrada. A pergunta sempre adiada é clara: qual o papel das mulheres numa Igreja, onde são a maioria? O sinal inequívoco de que entrámos num tempo novo será dado pela resposta que se encontrar, com as mulheres, para esta questão. Enquanto os homens não perceberem que elas próprias têm uma contribuição insubstituível a dar para a inteligência do sentido da fé, das suas expressões sacramentais e organizativas, continuaremos, na prática, com o comportamento que Jesus violou: sem contar mulheres e crianças.

A este propósito, convém conhecer um texto que procurou fechar um debate que estava aberto, a Carta Apostólica de João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis (22.05.1994).

Reza assim: “ainda que a doutrina sobre a ordenação sacerdotal, reservada exclusivamente aos homens, tenha sido conservada pela Tradição constante e universal da Igreja e seja firmemente ensinada pelo Magistério nos documentos mais recentes, hoje em dia, é considerada por várias tendências, aberta ao debate. Chega-se mesmo a atribuir um valor puramente disciplinar à posição tomada pela Igreja, de não admitir as mulheres à ordenação sacerdotal”.

João Paulo II não quis deixar o debate aberto: “É por isso, para que não subsista nenhuma dúvida sobre uma questão de grande importância, que diz respeito à constituição divina da própria Igreja, declaro, em virtude da minha missão de confirmar os meus irmãos (cf. Lc 22, 32), que a Igreja não tem, de maneira nenhuma, o poder de conferir a ordenação sacerdotal a mulheres e que esta posição deve ser definitivamente sustentada por todos os fiéis da Igreja” (cf. DC, 19.06.1994).

3. João Paulo II perdeu uma bela ocasião para convocar um concílio, cuidadosamente preparado com as mulheres e no qual elas tivessem uma presença significativa. Ao ter feito a opção que fez, perdeu a oportunidade de rever palavras, gestos, conceitos e interpretações acerca dos ministérios ordenados, que não significaram a mesma coisa ao longo de dois mil anos. Nenhum papa tem poder para encerrar a Igreja e o Mundo de forma definitiva.

Frei Bento Domingues, O.P.

27.10.2013
in Público

26 outubro 2013

O que é que o Papa Francisco já trouxe à Igreja Portuguesa?

     Resposta de Ana Vicente a uma pergunta da Rosa Pedroso Lima, para artigo do Expresso

    
Melhor clarificar o que entendemos por Igreja – para além de ser uma instituição, a Igreja, segundo os Evangelhos e o Concílio Vaticano II (e também em sintonia com o discurso do Papa Francisco) é constituída pelo conjunto das pessoas baptizadas, as quais têm uma enorme responsabilidade na busca da fidelidade à mensagem de Jesus Cristo. 

Para já, a nosso ver,  o Papa Francisco trouxe à Igreja Portuguesa, quer à instituição, quer ao conjunto do Povo de Deus, uma nova respiração, um sopro do Espírito Santo, uma recolocação das prioridades. Será que vamos ser capazes de o ouvir e de traduzir em actos os imensos desafios que ele nos apresenta? Será que nós e as autoridades eclesiásticas compreenderemos que novos tempos são chegados, em que há que derrubar tantas hierarquias, tantas exclusões, tantas condenações, tanto medo da partilha do poder e do serviço, tanta obsessão por uma moral sexual ininteligível? Passar a centrar o nosso dia a dia como cristãs e cristãos no amor ao próximo, na misericórdia, na opção de acabarmos de uma vez para sempre com a pobreza aviltante, que neste país ou no mundo em geral, tem quase sempre cara de mulher. O Papa Francisco veio interrogar as nossas consciências: é possível convivermos com sistemas económicos que sustentam essa pobreza, que fazem da produção e venda do armamento a maior indústria mundial, fomentando guerras em tantos locais ?

O entusiasmo e o acolhimento que as palavras e os gestos do Papa Francisco têm desencadeado em milhões de pessoas, crentes e não crentes, exprimem, cremos nós, que o Povo de Deus deseja ardentemente uma igreja mais fraterna, mais igualitária, mais amável, com uma nova atitude face às mulheres, uma igreja onde o sacerdócio seja repensado e reformado, uma igreja que valorize a sexualidade, elemento constitutivo do ser humano, criado por Deus, uma igreja empenhada nos direitos humanos, dentro e fora da instituição. Para já, a esperança é imensa.  
Ana Vicente – Movimento Internacional ‘Nós Somos Igreja’ – Portugal
Outubro 2013
 

24 outubro 2013

Aveiro: Integração de divorciados e recasados

      
Aveiro, 23 out 2013 (Ecclesia) - Um grupo de leigos da Diocese de Aveiro passou “à ação”, com o apoio do seu bispo, e reflete, com iniciativas públicas e abrangentes, a integração de divorciados e recasados na Igreja.
“O caminho percorrido até ao momento permite constatar que existe uma grande falta de informação, associada a ideias preconcebidas que importa desmistificar e esclarecer”, explicam, em texto publicado no Semanário digital ECCLESIA.
Esta iniciativa partiu da pergunta - “Procuramos estar próximo, ajudar e escutar os casais em crise, separados, divorciados ou divorciados recasados?” – que surgiu numa reunião de equipas de Nossa Senhora, em fevereiro de 2012, e que desafiou/motivou este grupo, da Diocese de Aveiro, a reunir-se e refletir com o apoio de D. António Francisco dos Santos, o bispo diocesano.
O grupo de reflexão alargou-se com a entrada de “um casal não pertencente ao movimento e de uma católica divorciada”.
As “recentes” declarações do Papa Francisco, sobre pastoral familiar, foram “amplamente comentadas” na página do Grupo em www.facebook.com/recasados.
Segundo o artigo, este facto indica que “há ainda uma grande caminhada a fazer para a integração destes casais na Igreja, que não se pode focalizar na impossibilidade de comunhão sacramental”.
Numa segunda fase desta iniciativa, o grupo de leigos revela que poderão passar por contactos “mais diretos e pessoais”, com casais divorciados e recasados, e pela “eventual criação de equipas” próprias como as «Equipes Réliance», com génese em França.
Para a primeira fase, com a orientação de D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro, que faleceu recentemente, foram programadas três reuniões públicas, que envolvessem toda a diocese, em termos territoriais e humanos, e falta realizar uma que responderá à pergunta: ‘Divorciados, recasados integrados na Igreja?’.
Estas reuniões têm “o objetivo de sensibilizar leigos e sacerdotes para a premência desta discussão”.
A primeira reunião, com o tema ‘Divorciados, recasados abandonados pela Igreja?’, “evidenciou a predisposição que existe na Igreja para discutir esta problemática” e reuniu, em Aveiro, mais de cem participantes em setembro de 2012.
A questão «Divorciados, recasados acolhidos na Igreja?» foi o mote do segundo encontro que reuniu cerca de 80 pessoas em Recardães, Águeda, em maio deste ano: “O testemunho de caminhada em Igreja de um casal nesta situação e a experiência de acolhimento de um pároco da diocese contribuíram para um diálogo muito rico e construtivo”, revela o grupo de leigos.
CB