23 novembro 2013

A advogada da lua


Já se completaram quarenta anos sobre o aparecimento de um álbum de música com o nome The dark side of the moon. Título interessante a chamar a atenção para uma realidade escondida, esquecida, desconhecida. Letras simples e música diferente com o nome de rock progressivo. Eram os Pink Floyd. Em tempos de progressismo e algum progresso havia também grandes involuções. Nesse mesmo ano deu-se a hecatombe do 11 de Setembro no Chile, acontecendo também na Argentina, Uruguai e noutros lugares. Mas também aconteceu o 25 de Abril em Portugal e a queda de ditaduras em países como a Espanha e a Grécia. Nada mais simbólico que a lua, ao mesmo tempo realidade e metáfora, para exprimir acontecimentos tão opostos no planeta terra a quem a lua nunca mostra o seu lado negro. Ao menos ela tem o sentido da decência e boa educação sem hipocrisia. Não há muito tempo alguém dirigiu até mim um jovem casal para os ajudar num trabalho de comunicação social sobre questões religiosas relacionadas com a Serra da Lua, perto de Lisboa. Lá disse o que sabia e eles já sabiam muito: o solstício de verão com tradições culturais e religiosas sobrepostas nos cumes femininos, dizem, da misteriosa serra de Sintra. E há uns dias uma rapariga disse-me com uma atitude descontraída e divertida: entre tantas coisas e causas, veja lá que até já começo a sentir-me advogada da lua. E explicou: há um lado da lua que não pode ser visto da terra, lado escuro ou escondido. À conta disso começaram as analogias ao lado oculto do ser humano, o tal avesso ou negro. Com a passagem para as sociedades patriarcais o macho sol também passou a ter supremacia. Daí o lado solar ser o bonitinho da fita. A lua e as características femininas que lhe são atribuídas foram difamadas. Não pode ser, acho que me vou tornar também advogada da lua. Esta afirmação tem um toque do subtil humor que lhe é próprio mas também contém uma firme opinião. Depois de pensar em tudo isto fui ler o texto do final do ano litúrgico em que se celebra o fim dos tempos (Lc 21): “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia apoderar-se-ão das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas”. Isto é assustador, mas na perspectiva dos evangelhos não deverá ser. Ainda há gente assustada com o fim do mundo ou à espera do fim dos tempos. Outra, com pensamentos um pouco antiquados dirá que se trata de fantasias, escritos arcaicos para controlar as pessoas através do medo, ou então alucinações diante da ideia da finitude. Dado o realismo das personagens que andam pelos evangelhos, não me parece nada disso, pelo contrário creio que se trata de um discurso para o mundo presente, aquele em que estamos, e com uma perspectiva bastante positiva. Na verdade a maioria de nós já assistiu a vários acontecimentos desses, fins de tempos e fins de mundos. Em determinados momentos é um pouco arrepiante, mas acaba por ser sempre uma abertura para outros mundos e outros tempos. Por vezes negros, é certo, mas muitas vezes iluminados de futuro. A lua é realmente uma boa metáfora: ora lua cheia ou quarto crescente, ora quarto minguante ou lua nova. Na dança ou no ritmo das luas habita a esperança do fim dos tempos negros e o recomeço de um mundo ou de tempos em que as figueiras brotarão novamente, as videiras terão cachos mais uma vez e o ser humano acolherá o sol como resplendor a iluminar um certo futuro. O sol, digo eu, numa expressão simplista, pois devemos ter em consideração que “o luar é a luz do sol que está sonhando”. Sendo assim vou mudar de expressão: deve ser especialmente agradável ter o futuro iluminado pelo aveludado mistério da lua nas suas várias fases e no seu lado inacessível ao nosso olhar. Mistério onde podemos sonhar, imaginar e também edificar um mundo a vir, ainda que sobre os escombros de mundos acabados.

Frei Matias, O.P.

21.11.2013

22 novembro 2013

Questionário para o Sínodo da Família


  Resposta ao Inquérito sobre a Família

 Como tem sido noticiado, de 5 a 19 de Outubro de 2014, os bispos do mundo inteiro estarão reunidos no Vaticano, em Assembleia Geral extraordinária, para debater o tema “Os Desafios Pastorais da Família no contexto da Evangelização.” Extraordinário, surpreendente e precursor de um novo tempo na Igreja é o apelo do Papa Francisco ao Povo de Deus, em forma de convite, para que responda ao inquérito sobre a realidade familiar. À oportunidade de expressão que nos é dada, temos o dever de corresponder, cumprindo. Desde já.

O NSI-PT sugere a tod@s @s interessad@s  que respondam a este inquérito  através do blogue Religionline pois poderão fazê-lo até ao fim de Dezembro e expressar as vossas opiniões, como pode ver abaixo. 

Os responsáveis do blogue RELIGIONLINE, António Marujo, Joaquim Franco e Manuel Pinto, comprometem-se a fazer chegar todas as respostas recebidas através deste meio à Conferência Episcopal Portuguesa, ao cardeal Péter Erdõ, relator da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, e aos bispos Lorenzo Baldasseri e Bruno Forte, respectivamente secretário-geral do Sínodo e secretário especial da assembleia de 2014, e ainda à Nunciatura da Santa Sé em Lisboa.

 
 Para responder ao questionário para o Sínodo da Família, vá ao site Religionline:
 
http://religionline.blogspot.pt/2013/11/sinodo-dos-bispos-catolicos-sobre.html
 
 
Curtas indicações práticas: (1) no início, acrescentámos alguns dados de identificação, que sugerimos sejam também respondidos; (2) cada resposta tem espaço suficiente para textos longos, mas será bom que as respostas sejam tão sucintas quanto possível; (3) no final do inquérito, há uma caixa com indicação "enviar", que remete as respostas directamente para um mail deste blogue; (4) as respostas devem ser dadas até final de Dezembro.

   PARA RESPONDER AO INQUÉRITO, também pode ir a a:


 

 


 

17 novembro 2013

Ideologia do género


Li com interesse o texto emitido pela Conferência Episcopal a propósito da ideologia do género, mas também com alguma perplexidade: numa altura em que o Papa Francisco declara que necessitamos de uma teologia mais profunda sobre as mulheres e sobre a sua missão no mundo e na Igreja, os nossos bispos, todos do género masculino, por razões culturais, ou seja de género, que agora não temos tempo de abordar, acharam necessário produzir um documento longo e complexo. Quem o vai ler?

Nele procuram combater o que intitulam de ‘ideologia do género’.  Poderei afirmar que tal é, até, positivo porque é sinal que começam, finalmente, a reconhecer, mesmo que inconscientemente, por enquanto,  que a Igreja como instituição, desde há quase 2000 anos, atribui às mulheres uma especificidade especial de género, que não de sexo. Especificidade essa que nos atribui qualidades e características,  que mais uma vez surgem neste documento, baseadas em construções sociais,  ou de género, e não por respeito pela obra de Deus. Esta especificidade de género que nos tem sido atribuída pela parte masculina da Igreja tem servido para justificar a nossa menoridade na esfera eclesial.

Porque somos mulheres, ou seja do género feminino, estamos excluídas dos lugares de serviço, dos lugares de decisão, dos ministérios ordenados. Somos tão maravilhosas e, no entanto, não servimos para certas funções. Ao lermos os Evangelhos não encontramos nada deste temor de Jesus face às mulheres – tudo o contrário. Jesus muito claramente veio dizer por palavras e por actos que reconhecia e admirava a obra de Deus – a plena igualdade de mulheres e homens, a plena inclusão de todas as criaturas, o pleno respeito pela diversidade.  O amor pela pessoa à minha frente, seja qual for o seu sexo, a sua idade, a sua condição, a sua orientação sexual -  o principal dos mandamentos. A minha perplexidade continua – porque terão tanto medo de nós? Há tanto a fazer pelo bem de todas as pessoas. Porque perdem tempo com a suposta ameaça da ‘ideologia do género’?

Ana Vicente – Membro do Movimento Internacional ‘Nós Somos Igreja’ - Portugal
14.11.2013

SONDAGEM OU DINAMIZAÇÃO DA IGREJA?

     
      Segundo o Pew Research Center (PRC), o centro de sondagens mais respeitado, em assuntos religiosos, em cada dez pessoas, oito são religiosas. Mais de 80% da população mundial faz parte de uma religião organizada. A religião mais numerosa continua a ser o cristianismo. Conta com 32% da população mundial. Segue-se o islão com 23% e o hinduísmo com 15%. Enquanto o cristianismo e o islão estão em vários pontos do mundo, o hinduísmo concentra-se quase exclusivamente na Índia. Metade de todos os cristãos é católica romana, 37% são protestantes e 12% ortodoxos.
Estas realidades estão sempre em recomposição, mas indicam que as religiões não estão para acabar tão cedo. Têm-se revelado até mais resistentes do que as repetidas desqualificações críticas a que têm sido submetidas. Muitas vezes com razão. De reveladoras do sentido da vida, de fontes de renovação da esperança, de resistentes ao niilismo, abrindo horizontes ilimitados tornaram-se, por manipulações várias, instrumentos do medo. Deixaram-se envolver em absurdas guerras e torturas, dando campo livre ao fanatismo em nome de Deus.
De religião para religião, as formas de expressão simbólica e ritual, as normas que as regem, as exigências éticas a que obedecem são muito diversas. As interrogações, as perplexidades e as dúvidas suscitadas pelo mistério de existir nem sempre desaguam nas respostas que as diferentes religiões codificaram. O Espírito de Deus sopra onde, quando e como quer. De qualquer modo, as formas religiosas e as suas instituições são para o ser humano e não o contrário. O teste de autenticidade das celebrações litúrgicas, das vivências espirituais e das experiências místicas, dentro e fora das instituições, prova-se na relação com os excluídos.
2. Os números, no campo religioso, só por si, não revelam – podem até ocultar – a saúde espiritual ou as crises que o atravessam. No mundo católico, há muitas vozes a reclamar mudanças e também se nota que algumas temem que o Papa Francisco comece a duvidar da infabilidade do seu magistério. Ninguém espera que, ao procurar saber como vivem e pensam os membros da Igreja, seja para fazer o rol dos erros a combater, uma espécie de reedição actualizada do Syllabus de Pio IX (1864). É mais provável que ele acredite que o sentido da responsabilidade pela vida cristã não seja um monopólio de bispos e padres e queira conhecer a sensibilidade actual dos católicos.
 O melhor lugar para fazer a leitura dos sinais dos tempos não é, necessariamente, o Vaticano. Há muitos mundos no mundo, muitas comunidades cristãs e muitas sensibilidades católicas. Não há nenhum boletim meteorológico especializado em indicar a temperatura da fé, nas diferentes regiões da terra. Nada como escutar as experiências das pessoas, das famílias, dos grupos, das comunidades espalhadas pelo mundo. Não basta.
3. Está convocada, para Outubro de 2014, a III Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos destinada a enfrentar os desafios da família, no nosso tempo. Será que os bispos e o Papa já não acreditam na doutrina que elaboraram, tão segura e clara, a partir da indissolubilidade do matrimónio? Será que pretendem informar-se da sorte desta doutrina, na sociedade e na Igreja?
Se fosse apenas uma questão de informação, nada como encomendar um inquérito a um instituto internacional especializado, com garantias científicas. Se fosse para dar a conhecer a Doutrina católica, não era preciso tanta pergunta. O que se pretende afinal?
Era costume dizer que onde está o bispo, está a Igreja. Com os Bispos reunidos em Sínodo com o Papa, não é preciso interrogar a Igreja!
Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho. É por isso que não se trata aqui apenas de um inquérito de opinião. É, sobretudo, a oportunidade de que a leitura dos sinais dos tempos referentes à situação actual da família seja feita pelo conjunto da Igreja. O processo desencadeado faz supor que o Papa e os Bispos nada querem fazer sem as comunidades cristãs. A não ser assim, estariam a enganar o laicado e a desobedecer ao grande princípio: aquilo que a todos diz respeito deve ser tratado por todos.
Não julgo que este processo possa dar azo a cisões na comunidade católica. Se todos puderem falar e ouvir chegar-se-á à conclusão de que a Igreja sempre foi construída por várias tendências. A arte dos pastores consiste em encontrar os meios, os caminhos de diálogo para estimular a comunhão na diferença.
Muito cedo na Igreja foi preciso reunir um concílio, para ser possível extrair do conflito novos horizontes e novas práticas, no seio da mesma Igreja (Act 15). Vai sendo tempo de pensar no Vaticano III. Que este Sínodo sobre a problemática actual da família seja um bom ensaio.

in Público 17.11.2013

10 novembro 2013

ENTERRAR O TRIDENTINISMO

    
1. “Tridentino” é, segundo os dicionários, um adjectivo relativo à cidade italiana de Trento ou ao concílio aí realizado, no séc. XVI (1545-1563), para tratar dos problemas do mundo católico, abalado pelo movimento da Reforma protestante, um rio de muitos afluentes. Este demorado concílio, duas vezes interrompido, alimentou, durante muito tempo, polémicas preconceituosas e ideológicas, entre adversários e apologistas. Com o acesso directo às fontes documentais, oficiais e privadas, além da maior atenção aos factores políticos e sociais que o influenciaram, foi-se atenuando o “mito” da decadência defendida por uns e a apologia divinizante de outros. O rigor possível do conhecimento histórico torna a sua revisitação importante para distinguir o que lhe pertence e o que são criações da sua posteridade.
 Este concílio chegou tarde - já estava consumada a cisão na igreja do Ocidente – e começou a ser tão lento na reforma, devido à inercia da cúria romana, que o jesuíta Roberto Belarmino chegou a defender a celebração de um novo. No entanto, durante séculos, o prestígio e a autoridade do concílio de Trento foi sempre crescendo e, levado pelas circunstâncias, exerceu uma função reguladora de toda a vida eclesial. Os papas, do fim do século XVI e seguintes, orientaram tudo para que a Igreja visse no Concílio de Trento a regra última da fé e da disciplina, o filtro indispensável para o conhecimento da verdade. Nele estava englobado e assumido tudo o que havia de bom no passado e a solução de todos os problemas doutrinários e institucionais do presente e do futuro, da Igreja e do mundo. Num manuscrito, conservado na biblioteca universitária de Bolonha, uma mão anónima escreveu: quem estuda este (concílio) a fundo pode dizer que conhece todos os concílios que foram celebrados no passado, porque, em síntese, os contem a todos.
A Igreja pós-tridentina foi adquirindo uma tal solidez que, na fase aguda da separação protestante, ninguém a teria julgado possível. É do conhecimento geral que este tridentinismo conseguiu penetrar, de maneira notável, em certas zonas do meio reformado.
2. Recorrer à expressão tridentinismo soa mal e não figura no dicionário, mas é uma descoberta feliz de G. Alberigo, um grande historiador italiano. Serve para designar o sistema ligado ao prestígio do referido concílio que, na Igreja Católica, fez depender tudo – governo, teologia e disciplina – do poder absoluto do papado romano e da sua cúria. Em nome da unidade religiosa e da obediência ao sucessor de Pedro, reprimia o que o pudesse pôr em causa, considerando a emancipação política, cultural e religiosa do mundo moderno apenas um somatório de erros que o envenenava[1].
Para Yves Congar, trata-se de um sistema simultaneamente teológico e jurídico, centrado na cúria romana, bem organizada e poderosa. Não era apenas um centro de decisão. Depois da supressão das universidades ou centros religiosos de estudos e mediante a instauração de colégios teológicos, em Roma, teve como consequência a própria centralização da teologia. Dominava a formação dos espíritos através de manuais latinos, vigiava as publicações e o ensino, deixando pouco espaço à criatividade e à originalidade. Esta teologia pós-tridentina construiu uma eclesiologia que era, sobretudo, uma hierarquiologia sob o signo da afirmação da autoridade, em clima de controvérsia. No plano do culto e da piedade, predominavam o sacramentalismo, as práticas exteriores e o aumento de novas formas de devoção, favorecidas pela enorme distribuição de indulgências[2].
3. A tendência a concentrar tudo no papado, na teologia do magistério e nas suas proposições irreformáveis teve expressões ultra- ridículas, estudadas, com muito cuidado, por J-M. Tillard[3]. O papa é o sucessor de Deus, pastor de todos os fiéis e enviado para assegurar o bem-comum da Igreja universal e o bem de cada uma das Igrejas. Não esqueçamos que o próprio Pio IX dizia: a tradição sou eu! São expressões extremas do ultramontanismo que, pela boca de Lamennais, confessava: “sem papa não há Igreja; sem Igreja não há cristianismo, sem cristianismo não há sociedade: por isso, a vida das nações europeias tem a sua fonte, a sua única fonte, no poder pontifício”.
Não podemos recuperar aqui as afirmações recolhidas por Yves Congar sobre a autoridade, na eclesiologia do séc. XIX. G. Alberigo julgava que o tridentinismo tinha morrido no Vaticano II. De facto, ressuscitou nos anos 80, com as chamadas proposições irreformáveis do magistério, mesmo quando não traziam o certificado da “infalibilidade”. É a teologia que sofre e imigra. Espero que tenha sido das últimas décadas de esterilidade teológica.
Ao que parece, o Papa Francisco quer voltar a dar a palavra a todos os católicos e ouvir todas as pessoas de boa vontade.
Frei Bento Domingues, O.P.
           10.11.2013
 
 
 
   
 

[1] Cf Novas perspectivas sobre o Concílio de Trento.Concilium 07.09.1965, pg 58-72; Du concile de Trente au tridentinisme,  Irénikon, 54,1981.pg 192-210
[2] Yves Congar, Eglise et Papauté, Cerf, Paris,1994, pg 51-64 ; Cf Bernard Sesboüé/Christoph Theobald, La Parole du Salut, T. 4, Désclées, 1996, pg 176 ss
[3] J.-M. Tillard, O.P., L’évêque de Rome ,Cerf, 1982                                 
 
 

BISPOS PORTUGUESES: QUEM IDES OUVIR?

        
Dentro da actualidade religiosa católica, o tema do momento é o questionário do papa Francisco, enviado a 18 de Outubro a todas as Conferências Episcopais (CEs) e integrado num documento intitulado “Desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Através de 38 questões frontais, Francisco quer conhecer bem a realidade familiar, quer se trate de uniões entre o mesmo sexo, planeamento familiar, divorciados e recasados, etc. Como dizia o óptimo Editorial da newsletter católica La Vie de 5 deste mês, a novidade desta consulta não é que Roma queira ouvir os bispos, é que queira ouvir os próprios católicos. E permite-se até “brincar”, a propósito de uma das questões acerca da “lei natural”. No fundo, escreve, o que Francisco quer saber é se as católicas tomam a pílula ou se actuam de acordo com os ensinamentos da polémica Humanae vitae. E acrescenta: “É certo que não é propriamente isto que se diz. Mas quase”.
        Questão de extrema importância é a metodologia que as CEs vão usar para ouvir os fiéis. A nossa Assembleia Plenária dos Bispos vai reunir apenas para a semana. Penso que a questão da metodologia será abordada de modo muito lateral. Em conversa com o secretário de um bispo português, fiquei aterrada. Para ele, a consulta não tem nada de mais e já tem sido feita noutras questões: manda-se o documento para movimentos católicos e para os párocos, estes consultam os conselhos pastorais (8 pessoas? 12?), devolvem ao bispo as respostas e... acabou-se. Protestei: “Mas, desse modo, as intenções do inquérito são sabotadas! Quer-me dizer que eu não poderei expressar a minha voz?”. Embora me parecesse incomodado com o facto de lhe falar em exclusões, o secretário continuou a raciocinar segundo a sua formatação de base: “Os conselhos pastorais já são representativos das outras pessoas da paróquia, logo, você já está representada, por delegação”. Sentindo o meu descontentamento, lá atirou as últimas responsabilidades para a CE.
Saliente-se que a CE de Inglaterra e País de Gales deu tal importância ao inquérito que, desde 31 de Outubro, disponibilizou uma óptima plataforma online onde pode ser respondido. Mais: a intenção é enviar para as respectivas CEs as respostas que recebam de outros países (e já têm respostas provindas de Portugal). O Reino Unido teve um cisma entre cristãos. Talvez por isso a parte católica sinta aí mais a necessidade da transparência e de ouvir os seus fiéis.
Que eu saiba, o exemplo anglo-saxónico ainda não foi seguido por outras CEs. Mas, no passado dia 5, o importante portal espanhol de informação religiosa, Religión Digital, colocou também o inquérito online, comprometendo-se a enviar as respostas para as devidas entidades religiosas. É “a forma segura e eficaz” de responder, dizem. Obviamente, temem a sabotagem. Os textos do seu Director, José Manuel Vidal, fazem transparecer cada vez mais esta preocupação. Ainda do lado espanhol, saliento as respostas frontais, por vezes ternas, de José Arregi, ex-franciscano, ao “Querido papa Francisco” (cf. o seu blog), ou as de Jesús Bastante, chefe de redacção de Religión Digital.
Na carta que acompanhou o envio do Documento, pedia-se uma distribuição imediata e “o mais ampla possível”, mas esta última expressão é objecto de polémica. Para os bispos mais conservadores, basta consultar os “habituais” e passar adiante. Mas pode-se aceitar que seja essa a vontade de Francisco, que nos tem surpreendido por ir ter com as “periferias”, tenham elas o nome de Lampedusa ou de uma qualquer grávida solteira desesperada?
Este não é um inquérito qualquer. Se passar à margem dos católicos individuais, penso que desse modo se atraiçoarão as próprias intenções de Francisco, assim como as de tantos católicos que, através dele, sentem mais próxima de si a ternura de Cristo. Como afirma Thomas Reese no National Catholic Reporter do passado dia 7, Francisco já perguntou, noutro contexto: “Será que os conselhos diocesanos e paroquiais possibilitam verdadeiras oportunidades para que os leigos participem no aconselhamento, organização e planeamento pastorais?”.
 
Entretanto, para o caso de a nossa CE não querer ouvir de facto a voz de cada um dos seus católicos – ainda por cima, nem sequer tenho, como muitos, paróquia que assuma como minha -, posso desde já informar que, correspondendo a um pedido da minha parte, o Director de Religión Digital disponibiliza a plataforma online acima referida a todos os portugueses que a queiram usar (pode-se escrever em português). “Será un placer”, disse-me, para que “vaya creciendo el tsunami de participación del pueblo de Dios en las decisiones de la Iglesia”.
Laura Ferreira dos Santos
Docente aposentada da Universidade do Minho (laura.laura@mail.telepac.pt)
in Público 10.11.2013
NOTA: Religión Digital http://www.periodistadigital.com/religion/
Para responder ao inquérito:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



 



 
 
 

 
 



03 novembro 2013

NÃO DEIXEM TUDO PARA O PAPA

       
1. Se uns católicos projectam sobre o novo Papa os seus desejos de mudança, outros receiam a sua desenvoltura.

Bergoglio já mostrou que conhece as diversas correntes espirituais e culturais do catolicismo, nos diversos países. O que ainda não sabemos - apesar de alguns gestos e entrevistas importantes -, é o método da sua liderança. Situando-se no seio de uma Igreja, toda ela chamada a ser aprendiza e testemunha do Evangelho no mundo, seguirá o método de João XXIII. Se passar o tempo a invocar o poder papal para exercer o seu magistério, reprimindo as correntes teológicas que não o reproduzam, será mais do mesmo. Foi esse o lamentável estilo adoptado, embora com acentos diferentes, durante 150 anos, mais precisamente, desde a encíclica programática Mirari vos, de Gregório XVI (1832), que procurava levantar um dique contra o mundo moderno.  
 
Espero que o papa Francisco vença a tentação de desenhar o futuro de modo voluntarista, apoiado apenas nas suas concepções pré-estabelecidas e invocando imperativos da divina tradição. Vimos, na crónica do passado Domingo, as consequências da tentativa de parar o tempo, mediante a declaração intimidatória de João Paulo II, sobre a “ordenação sacerdotal” das mulheres.

          Na expressão de K. Rahner, esse comportamento estava situado no Inverno da Igreja. Para este teólogo, as autoridades eclesiásticas de Roma, em 1985,  davam a impressão de favorecer mais um retorno medroso aos “bons tempos passados”, do que tomar consciência clara da situação actual do mundo e da humanidade, com espírito evangélico, no seguimento do Concílio Vaticano II.

          Se as mulheres começarem, em breve, a fazer parte da instituição do cardinalato, será um bom sinal. Ninguém poderá adiantar qualquer argumento teológico contra tal decisão e esta poderá contribuir para desbloquear o debate sobre o papel das mulheres nas comunidades cristãs. Não esperemos, no entanto, que o papa possa resolver tudo com uma penada. Embora os regimes democráticos funcionem ainda muito mal, na Igreja Católica nem sequer foram ensaiados, salvo em alguns nichos.                             

          2. O grande historiador, Giuseppe Alberigo, orientou um número especial da Concillium (108, 1975), dedicado à renovação da Igreja e à reconfiguração do serviço petrino. Naquela data, não foi tido em conta. Parece-me que chegou o momento de o revisitar com proveito. Na altura, a meta a atingir com esse dossier consistia em formular alguns pontos operacionais capazes de concretizar, no seio da Igreja, uma imagem realista e praticável daquilo que poderia ser e fazer o papado, no seio da Igreja dos últimos decénios do séc. XX. Como já foi referido, meteu-se pelo meio um longo inverno. Não se pretendia, de modo nenhum, ter identificado o ponto central e decisivo da renovação da Igreja. Pelo contrário. É necessário manter viva a consciência de que o papado romano constitui, apenas, um factor da Igreja e nem sequer é o mais decisivo. Por outro lado, parece igualmente importante abandonar o “globalismo” paralisador, muito difundido, que em nome da necessidade de levar em conta todas as componentes da problemática eclesial, nos impede de as considerar, uma a uma, com realismo e oportunidade.

Recolocar os ministérios eclesiais dentro do Povo de Deus, como fez o Vaticano II, constitui o fundamento e o critério de uma nova fase na história do papado. Torna-se incontornável e urgente a reapropriação do papado romano por parte da Igreja, superando tanto a animosidade anti-romana, como a imagem mitificada do papa.

Temos um longo e complexo caminho pela frente. Esse caminho pressupõe uma efectiva capacidade da Igreja para exprimir, mediante formas adequadas e responsáveis – sem servilismos nem arrogância – indicações pertinentes sobre o espaço e conteúdos do serviço que o Papa deve prestar.

3. Alberigo, no seu contributo, destacou e desenvolveu a seguinte tese: é preciso que a consciência eclesial se compenetre de que o estatuto do papado romano não é, nem do ponto de vista teológico nem histórico, um dado indiscutível e imutável.

Se fizermos uma reavaliação da possibilidade de modos, estilos e conteúdos diferentes daqueles que se tornaram mais habituais e constantes, ver-se-á que, quase tudo aquilo que se sabe do papado romano, depende das circunstâncias históricas. Estas sofreram repetidas e profundas modificações, ao longo dos tempos.

Quando os papas são apresentados sob um único denominador comum, figuras tão diferentes e contrastadas como as de Gregório Magno, Gregório VII, Paulo III, Pio IX e João XXIII, acabam por conduzir a história da Igreja a uma história do papado e ao triunfo de uma uniformidade construída. Nenhum papa é a Igreja. Não deixemos tudo para este iluminado e desarmante argentino.

Frei Bento Domingues, O.P.

03.11.2013

in Público