15 dezembro 2013

Nunca ter medo da ternura, entrevista ao Papa Francisco

    
"Never be afraid of tenderness"

In this exclusive interview, Pope Francis speaks about Christmas, hunger in the world, the suffering of children, the reform of the Roman Curia, women cardinals, the Institute for the Works of Religion (IOR), and the upcoming visit to the Holy Land
Ti consigliamo:
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“For me Christmas is hope and tenderness...”. Francis talks to “La Stampa” and “Vatican Insider” about his first Christmas as Bishop of Rome. We’re in Casa Santa Marta in the Vatican; it’s 12:50 in the afternoon on Tuesday 10 December. The Pope receives us in a room next to the dining hall. The meeting lasts an hour and a half. Twice during the course of the interview, the peaceful look which the whole world has grown accustomed to seeing on Francis’ face fades away when he talks about the innocent suffering of children and the tragedy of hunger in the world.

During the interview the Pope also speaks about relations with other Christian denominations and about the “ecumenism of blood” which unites them in persecution, he touches on the issue of the family to be addressed at the next Synod, responds to those in the USA who criticised him and called him “a Marxist” and discusses the relationship between Church and politics.

What does Christmas mean for you?

“It is the encounter Jesus. God has always sought out his people, led them, looked after them and promised to be always be close to them. The Book of Deuteronomy says that God walks with us; he takes us by the hand like a father does with his child. This is a beautiful thing. Christmas is God’s meeting with his people. It is also a consolation, a mystery of consolation. Many times after the midnight mass I have spent an hour or so alone in the chapel before celebrating the dawn mass. I experienced a profound feeling of consolation and peace. I remember one night of prayer after a mass in the Astalli residence for refugees in Rome, it was Christmas 1974 I think. For me Christmas has always been about this; contemplating the visit of God to his people.”

What does Christmas say to people today?

“It speaks of tenderness and hope. When God meets us he tells us two things. The first thing he says is: have hope. God always opens doors, he never closes them. He is the father who opens doors for us. The second thing he says is: don’t be afraid of tenderness. When Christians forget about hope and tenderness they become a cold Church, that loses its sense of direction and is held back by ideologies and worldly attitudes, whereas God’s simplicity tells you: go forward, I am a Father who caresses you. I become fearful when Christians lose hope and the ability to embrace and extend a loving caress to others. Maybe this is why, looking towards the future, I often speak about children and the elderly, about the most defenceless that is. Throughout my life as a priest, going to  the parish, I have always sought to transmit this tenderness, particularly to children and the elderly. It does me good and it makes me think of the tenderness God has towards us.”

How is it possible to believe that God, who is considered by religions to be infinite and all-powerful, can make Himself so small?

“The Greek Fathers called it syncatabasis, divine condescension that is: God coming down to be with us. It is one of God’s mysteries. Back in 2000, in Bethlehem, John Paul II said God became a child who was entirely dependent on the care of a father and mother. This is why Christmas gives us so much joy. We don’t feel alone any more; God has come down to be with us. Jesus became one of us and suffered the worst death for us, that of a criminal on the Cross.”

Christmas is often presented as a sugar-coated fairy tale. But God is born into a world where there is also a great deal of suffering and misery.

“The message announced to us in the Gospels is a message of joy. The evangelists described a joyful event to us. They do not discuss about  the unjust world and how God could be born into such a world. All this is the fruit of our own contemplations: the poor, the child that is born into a precarious situation. The (first) Christmas was not a condemnation of social injustice and poverty; it was an announcement of joy. Everything else are conclusions that we draw. Some are correct, others are less so and others still are ideologized. Christmas is joy, religious joy, God’s joy, an inner joy of light and peace. When you are unable or in a human situation that does not allow you to comprehend this joy, then one experiences this feast with a worldly joyfulness. But there is a difference between profound joy and worldly joyfulness.”

This is your first Christmas in a world marked by conflict and war...
        “God never gives someone a gift they are not capable of receiving. If he  gives us the gift of Christmas, it is because we all have the ability to understand and receive it. All of us from the holiest of saints to the greatest of sinners; from the purest to the most corrupt among us. Even a corrupt ...

        Para ler a entrevista na íntegra ir a: http://www.lastampa.it/2013/12/14/esteri/vatican-insider/en/never-be-afraid-of-tenderness-5BqUfVs9r7W1CJIMuHqNeI/pagina.html
        andrea tornielli (vatican insider)
        in Vatican Insider
         14/12/2013
        Para ler esta entrevista em castelhano ir a: http://www.lastampa.it/2013/12/14/esteri/vatican-insider/es/jams-tener-miedo-a-la-ternura-r8lpFUAxsH2v9Ypu21FPeI/pagina.html




 

O ADVENTO DA TERCEIRA IGREJA


1. Nasci numa época em que muito do clero português cultivava mais o medo do pecado do que o amor da virtude. A sua pregação – sobretudo a dos padres da vinagreira – estava centrada na ameaça do inferno e a confissão oscilava entre um precário alívio, a tortura e o escrúpulo.


As insólitas atitudes do Papa Francisco, a forma e o fundo da sua Exortação Apostólica, recusam fazer da fé cristã uma tristeza. Estão a irritar não só a alta finança, mas também os movimentos que tentam recuperar esse tipo de práticas religiosas – contra o Vaticano II -, com o auxílio de eclesiásticos vestidos e calçados a preceito.


Estamos no Domingo da Alegria, como se todos os Domingos não fossem para celebrar a Páscoa, a vitória sobre a morte. Não foi por acaso que o Papa sentiu necessidade de recordar o que esquecemos e está escrito para sempre, em S. João: isto vos escrevemos para que a vossa alegria seja completa[1] - Evangelii Gaudium.


Estamos a precisar de uma Igreja que seja uma alegria para o mundo actual. O padre Bill Grimm sustenta que está a chegar a 3ª Igreja[2]. Para ele, a primeira foi o movimento das discípulas e discípulos de Jesus Cristo, das gerações que se seguiram e das incursões missionárias, fora do universo judaico. Estava centrada, essencialmente, no Mediterrâneo. Foi ela que nos legou o Novo Testamento, os elementos fundamentais do culto cristão e os primeiros exemplos de diálogo com as religiões, as culturas e as filosofias desse mundo. A segunda centrou-se na Europa. Foi a Igreja da cristandade, pouco ou nada tolerante para o que lhe era exterior. O outro era o inimigo ou o objecto de proselitismo. Aí vivemos, mas estamos a caminho de uma 3ª Igreja, sem centro geográfico e sem fronteiras de raças, nações e culturas, mundial.

2. As estatísticas estão a contar a história. Em 1910, 80% dos cristãos do mundo viviam na Europa e na América do Norte. Hoje, um século mais tarde, a maioria vive na África, na Ásia e na América Latina. Em apenas cinco anos, entre 2004 e 2009, o número de católicos na Ásia aumentou 11%.

Os cristãos ocidentais quase não se aperceberam de como o seu cristianismo foi moldado por tradições religiosas e culturas anteriores à pregação do Evangelho na Europa. Hoje, são as Igrejas de África, Ásia, América Latina e Pacífico que estão a ser moldadas por religiões e culturas que os mensageiros do Evangelho aí encontraram. Isso significa que as ideias de Deus, de adoração, de santidade, de ministério e comunidade – de tudo o que faz a Igreja – estão, de forma gradual, a tornar-se diferentes do que tem sido “normal” durante mais de um milénio e meio.

O Advento da 3ª Igreja processa-se, no meio de crenças ou descrenças variadas, com pouco ou sem poder político, social e cultural. Este movimento está a levar a novos estilos de liturgia, de teologia, de comunidade, de evangelização.

Como os cristãos da 3ª Igreja, em especial na Ásia, são muitas vezes uma minoria impotente e perseguida, tendem a ver o papel da Igreja e as suas formas institucionais a partir de uma perspectiva diferente do Ocidente, onde a Igreja só há pouco começou a perder o poder político, moral e intelectual.

3. Perante este fenómeno, são diversas as reacções das pessoas nas Igrejas do Ocidente. Umas alegram-se por ver o Espírito Santo trabalhar em novas formas, em novos lugares. Outras, com medo do desconhecido, recusam-se a aceitar novas experiências, como se o Ocidente fosse feito só de bons exemplos a imitar. Grande parte da história católica, desde o Vaticano II, pode ser interpretada como uma série de tentativas para perpetuar o que B. Grimm chamou a 2ª Igreja e evitar as mudanças que se anunciam com o Advento de uma nova Igreja. Goste-se ou não, está a nascer outra realidade. Vai levar tempo, mas por fim o cristianismo será diferente em todo o mundo.

A tentação conservadora consiste em tornar definitivo o provisório: foi sempre assim e assim há-de continuar. Como seria bom mudar se tudo ficasse na mesma.

No entanto, os começos do cristianismo anunciavam uma subversão sem limites culturais, religiosos, geográficos, sociais e históricos. Paulo fez a declaração fundadora: Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Ga.3, 28). Isto está atrasado. Houve muitos ziguezagues. Temos a alegria de que a Igreja, na qual o Papa Francisco está a trabalhar, tem futuro, se não o deixarmos sozinho.
Frei Bento Domingues, O.P.



[1] Jo 15, 11; 16, 22-24; 1Jo 1, 1-4; 2Jo 12
[2] Cf. Rev. Além-Mar 12.2013, pg 11

15.12.2013
in Público

 
 
 
 
 

14 dezembro 2013

We are at a crossroads for women in the church

The American Academy of Religion and its companion association, the Society of Biblical Literature, is known for gathering forward-thinking theologians across denominations for the sake of cross-pollinating the best of religious research and thinking. So it's not surprising that at this year's Nov. 22-24 conference in Baltimore that part of the conference agenda was a panel of speakers whose own interests might give us all a snapshot view of Pope Francis and the challenges he faces in dealing with various current questions.
 
The sweeping composition of the panel -- both lay and religious, Catholic and not, male and female -- highlighted specific issues facing the church and the early responses of this present pope to areas of ecumenism, liberation theology, tradition, spiritual formation and, in my own case, women's issues and religious life.
 
In today's column, in the interest of broadening the conversation, I'll share the remarks I made as part of that panel.

***

The 20th-century Jesuit philosopher Pierre Teilhard de Chardin wrote: "The only task worthy of our efforts is to construct the future." My concern today is how to construct a new future for women around the world through the global outreach of the church.
 
The 6th-century philosopher Boethius reminds us that every age that is dying is simply a new age coming to life. A second insight that gets my attention comes from Woody Allen 15 centuries later: "I'm not afraid of dying; I just don't want to be there when it happens."
 
Both messages are clear: First, continuity can go too far. Second, to fail to face the moment we're in can fail the future that's coming with or without us and whether we like it or not.

Point: This is a crossover moment in history.

This is the moment when history discovered women.
 
        In fact, intelligent men as well as intelligent women realize now that feminism is not about femaleness. It's not about female chauvinism either, or feminismo machismo. And it's …
      
        Benedictine Sister Joan Chittister

        in NCR
        Para ler o artigo na íntegra vá a:

 

8 de Dezembro

 
Pio IX proclamou em 8 de Dezembro o dogma da Imaculada Conceição, isto é, ao contrário de toda a humanidade, Maria nasceria sem o "pecado original " definido em Trento 1546. Ratzinger (outra vez ele) reconhece que, se é verdade o evolucionismo, "não há lugar para qualquer pecado original". Não pode haver dogmas que não sejam revelados. Por isso, seguindo Santo Agostinho, basearam-se na epístola aos romanos, de S. Paulo. Porém, trata-se dum erro de tradução do grego para o latim: "eph"ho" não é "in quo", isto é, todos têm pecado porque pecam e não porque Adão pecou. Para confirmar, a própria Virgem diz a Bernardete, em Lourdes (1858): "Sou a Imaculada Conceição." Esta verdade é ignorada por todos os textos canónicos. Em 1870 é proclamada a infalibilidade papal no contexto da resistência aos liberalismos. Como a morte é consequência do pecado original (Adão e Eva nasceram sem ele e só morreram por ele), Maria não morrerá (dogma da Assunção, 1950), ao contrário de Jesus, que morreu. No Vaticano II escapou-se, por pouco, a fazer de Maria uma deusa co-redentora (a redenção da humanidade seria, a meias, de Jesus e de Maria) por 1114 votos contra 1074. O cardeal Congar acusou os bispos marianolatras de aldrabice. "A Virgem Maria, que nos devia unir, é causa de divisão... A mariologia só vive disso. É um verdadeiro cancro dentro da Igreja", acrescentou.

J.Carvalho, Lisboa

Público 11.12.2013

Cartas à Directora

08 dezembro 2013

O DISCURSO DO MÉTODO DO PAPA FRANCISCO

   
1. O Papa está a tornar-se a referência dos que precisam de energia espiritual para resistir à idolatria do dinheiro, à tirania dos mercados, à especulação financeira, à economia que mata, às políticas que consideram os doentes e os velhos um estorvo e o desemprego uma fatalidade.

         Como não há coragem, nem dentro nem fora da Igreja, para o mandar calar de vez, os seus adversários encomendaram a jornalistas e comentadores de serviço, a sua desvalorização: este Papa não diz nada de novo; repete o que está dito e redito, desde o séc. XIX, na Doutrina Social da Igreja, não passa de um populista.

Os desconsolados com o Papa Francisco não são contra a solidariedade. Sabem o que fazer para que nunca haja falta de pobres. Insuportável é o método do seu discurso e actuação: convocar toda a Igreja a olhar este mundo a partir dos excluídos, mudar o centro da sua missão para a periferia e organizar-se a partir daí.

Sonho, diz o Papa na Exortação Evangelli Gaudium, com a opção missionária capaz de transformar os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial num canal de evangelização e não apenas um instrumento da sua auto-preservação. Pertence ao Bispo promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária na sua diocese. Deverá estimular e procurar um amadurecimento dos organismos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico e de outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir todos e não apenas alguns, sempre prontos a lisonjeá-lo.

 “Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe deu e às necessidades actuais da evangelização” (n. 32).

O Papa pede o abandono de um critério pastoral muito cómodo e muito usado: “fez-se sempre assim”. Convida todos, sem contemplações, a serem ousados e criativos na tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Vai mais longe: ”Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a traduzir-se em mera fantasia” (n.33).

2. Recorre ao Vaticano II para afirmar a hierarquia das verdades da doutrina católica, dado que nem todas têm o mesmo vínculo com o fundamento da fé cristã. Isto é tão válido para os dogmas de fé, como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral (n.36). Invoca S. Tomás de Aquino para dizer que na mensagem moral da Igreja há uma hierarquia nas virtudes e acções que dela procedem. A misericórdia é a maior de todas as virtudes.

Esta falta de hierarquia na pregação e na catequese gera distorções muito graves. É o que acontece quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da palavra de Deus (n.37-38). A defesa de uma doutrina monolítica não respeita a riqueza inesgotável do Evangelho. Impõe-se um constante discernimento para não atravancar o caminho com mensagens e costumes que já não são um serviço na transmissão do Evangelho: não tenhamos medo de os rever! Realça, na linha de Tomás de Aquino, que os preceitos dados por Cristo e pelos apóstolos ao povo de Deus são pouquíssimos, para não tornar pesada a vida aos fiéis nem transformar a nossa religião numa servidão. A misericórdia de Deus quis que ela fosse livre. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. (n. 43-47)

3. É para chegar a todos, sem excepção, que a Igreja assume este dinamismo missionário. Mas, a quem deverá privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto os amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo os pobres e os doentes, aqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não têm como retribuir (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é o sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar, sem rodeios, que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Nunca os deixemos sozinhos! (n. 48)

Prefiro uma Igreja ferida e enlameada por ter saído pelos caminhos, a uma Igreja doente de tão fechada sobre si mesma, acomodada e agarrada às suas próprias seguranças. Mais do que o temor de falhar, devemos ter medo de continuar encerrados nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos tornam juízes implacáveis, em hábitos que nos deixem tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta. Jesus repete-nos, sem cessar: Dai-lhes vós mesmos de comer (Mc 6, 37). (49)

Este resumo da primeira parte da Exortação E.G. mostra que o método deste Papa não é o de repetir, mas de inovar e provocar inovações.

            Frei Bento Domingues, O.P.

08.12.2013

in Público

03 dezembro 2013

Um embaraço chamado Papa Francisco


Andava desconfiado de que alguns dirigentes da Igreja Portuguesa e uma parte da elite católica estavam embaraçados com o que o Papa Francisco dizia. O mote dessas reações, sempre que do Vaticano saía uma frase para a primeira página dos jornais, foi repetidamente este: "Mas a Igreja sempre disse isto. Não há aqui novidade. O Santo Padre limita-se a sublinhar algo que já há muito faz parte da nossa doutrina."

O entusiasmo mediático com Francisco é assim recebido, por estas pessoas, com uma cerebral e analítica contextualização, contrastante com a verve emocional com que os mesmos protagonistas popularizaram e glorificaram as intervenções de João Paulo II.

Essa minha desconfiança reforçou-se com a notícia elaborada pela Agência Ecclesia sobre o "Evangelii Gaudium", conhecido na semana passada, escrito pelo Papa.

O texto do órgão de informação da Igreja Católica enfatiza que esta "exortação apostólica refere-se a uma 'conversão do papado' e questiona uma 'centralização excessiva, que complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária'".
 
O Papa, conta a agência, "repete o desejo de 'uma Igreja pobre', 'ferida e suja' após sair à rua'". "Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos", diz Francisco, citado nessa notícia, que continua: "A exortação sublinha a necessidade de fazer crescer a responsabilidade dos leigos, mantidos 'à margem nas decisões' por um 'excessivo clericalismo', bem como a de 'ampliar o espaço para uma presença feminina mais incisiva'".

O Papa, refere o despacho, já no fim, "denuncia o atual sistema económico, preso a um 'mercado divinizado', e lamenta os "ataques à liberdade religiosa'". Francisco, conclui o texto, "deixa claro que a Igreja não vai mudar a sua posição na defesa da vida e pede ajuda para as vítimas de tráfico e de novas formas de escravidão".

Tirar poder ao topo da Igreja, torpedear a ostentação ou aumentar a intervenção das mulheres e dos leigos já me parece ser algo à beira do revolucionário. Mas que dizer de partes que a notícia da Ecclesia não releva, citadas por todas as agências noticiosas e por todos os jornais do mundo, quando se lê, no link do site da agência, o texto completo que Francisco escreveu?

Deixo só uma frase para demonstrar as razões da minha desconfiança: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa." Esta clareza do pensamento de Francisco não é nova para a Igreja, certo, mas é, aposto, a que incomoda mais nestes tempos decadentes.
por PEDRO TADEU

DN 03.12.2013

01 dezembro 2013

O ADVENTO INESPERADO

   
1. Hoje, é o primeiro Domingo do Advento, um tempo dedicado a preparar a celebração do nascimento de Jesus. A selecção de leituras bíblicas está feita, os cânticos escolhidos. É previsível o que será dito nas homilias. Se alguma surpresa surgir só poderá vir do Papa Francisco.
Tinha acabado de escrever este parágrafo, quando me telefonaram do Diário de Notícias a pedir um primeiro comentário à Exortação papal Evangelii Gaudium. Acabava de chegar de Ponta Delgada, onde tinha ido participar na XIX Semana Bíblica Diocesana. Cheguei sem saber absolutamente nada acerca dos últimos atrevimentos do Bispo de Roma que, como li depois, se confessa aberto a novas sugestões, pois não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo (16). 
         A crónica que tinha preparado era provocada pelo crescimento dos nossos multimilionários e pelos da ilha Hainan (China), nas suas faustosas e ridículas exibições. Um deles, Xing Libin, gastou no casamento da filha, 8.455 milhões de euros, e além desta miséria só lhe ofereceu seis Ferraris. Esta humilhação, esta ofensa directa ao mundo da pobreza e da miséria enojou-me. A indignação do Papa brota da mesma fonte donde vem a sua alegria: a intimação do Evangelho a mudar as comunidades católicas e o mundo.
        Esta tentativa de mobilização de toda a Igreja para uma evangelização nova é também o enterro do estilo rançoso que, vindo de muito antes, lançou e acompanhou, durante anos, a chamada “nova evangelização”.
Não resisto a transcrever algumas passagens deste longo documento - nunca enfadonho - sobre o tema que eu tinha destinado para esta crónica. Tentarei, em breve, partilhar outra leitura deste conjunto de notas franciscanas unidas pela alma que em todas palpita e dá ritmo ao conjunto.
A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar (202).
2. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. (…) Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, “sobras” (53).                                                                                        
           Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue, por si mesmo, produzir maior equidade e inclusão social, no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos darmos conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda nada (54).
3. As mulheres não vão gostar de ler, neste belo documento, que o sacerdócio está reservado aos homens e que esta é uma questão que não se põe em discussão. Quem a retirou da discussão foi João Paulo II, em 1994, mas continua a ser cada vez mais discutida. O Papa Francisco considera, por outro lado, que aí está um grande desafio para os Pastores e para os teólogos, que poderiam ajudar a reconhecer melhor o que isto implica, no que se refere ao possível lugar das mulheres onde se tomam decisões importantes, nos diferentes âmbitos da Igreja (104).
As mulheres não se vão esquecer de lhe lembrar que já existem muitas teólogas e que a Comissão Pontifícia Bíblica, em 1993, reconheceu a abordagem feminista da Bíblia. Em Portugal, também existe a Associação de Teologias Feministas. Elas, como outras organizações, não deixarão de apresentar sugestões ao Papa Francisco para novos documentos, como aliás, ele não cessa de lembrar (16).

Sem a participação activa das mulheres não há Igreja de Jesus Cristo.
Frei Bento Domingues, O.P.

in Público

01.12.2013