23 dezembro 2013

OS NOSSOS ECONOMISTAS PODEM AJUDAR O PAPA

       
1. Certas atitudes e palavras do Papa Francisco, já muito glosadas, denunciam uma economia que mata. Isto nem deveria causar grande surpresa, pois os frutos denunciam a árvore. Os efeitos de certas práticas económicas produzem um mundo onde o abismo entre os muito ricos e os pobres não cessa de crescer. Mesmo em Portugal, segundo consta nos meios de comunicação, os multimilionários aumentaram a sua riqueza, mas o conjunto da população nem por isso.

Não há aqui nenhuma desconsideração por todos aqueles que têm engenho e arte de constituírem empresas que dão trabalho, lucros e repartição dos ganhos. Têm a noção de que o êxito da empresa é obra de todos e é para benefício de todos. Há outros casos de fortunas pouco produtivas e de fuga ao fisco, que parecem só pensar no luxo pessoal ou familiar e em caprichos. Façamos uma viagem. Consta que, na ilha Hainan (China), a regra são as faustosas e ridículas exibições do novo-riquismo. Um desses ricos, Xing Libin, gastou no casamento da filha, 8.455 milhões de euros, e além desta insignificância ainda lhe ofereceu uns míseros seis Ferraris.

No Novo Testamento também se fala de quem se banqueteava luxuosamente todos os dias, enquanto à porta só um cão cuidava da fome e das feridas de um pobre.

Dir-se-á que o mundo é assim, sempre foi assim e sempre assim será. O próprio Jesus verificava que não eram os pobres que faltavam ao Judas.

Este Papa parece que quer continuar com a mania de Jesus de não suportar uns à mesa e outros à porta. Resolveu denunciar as economias e as políticas que fabricam pobres e não têm imaginação para mudar este mundo numa terra fraterna. A globalização que existe é a da indiferença. Economistas portugueses já esclareceram que o Papa fala assim porque não percebe nada de economia. Se passasse uma temporada na Universidade Católica portuguesa, nas faculdades de economia e gestão, podia aprender a falar com mais cuidado, para não lhe acontecer o que aconteceu a Jesus, que caiu na asneira de dizer o seguinte:

Ninguém pode servir a dois senhores; ou há-de aborrecer a um e amar o outro, ou dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro. Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam as suas palavras e zombavam dele. Jesus disse-lhes: Vós pretendeis passar por justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os vossos corações. Porque o que os homens têm por muito elevado é abominável aos olhos de Deus. 

Os novos fariseus da economia católica portuguesa estão prontos a corrigir o Evangelho de S. Lucas.

Frei Bento Domingues, O.P.

Natal 2013

22 dezembro 2013

História Verdadeira de Natal, anos 40

 “Menino, peço-te a graça/ de não fazer mais poema/de Natal./ Um dois ou três ainda passa…/ industrializar o tema, eis o mal.”
Carlos Drummond de Andrade

Eu acredito nos mistérios que determinam certas histórias de vida, tão diferentes e aventurosas, que nos fazem pensar que ficção e realidade sejam a mesma coisa. Esta história passa-se numa aldeia, no norte de Portugal. Ali morava, muito pobre, sustentada pelo trabalho da terra, uma mulher mãe de cinco filhos, todos rapazes: Abel, Amadeu, João, Cristóvão, Joaquim. Contava-se que essa mulher tinha o dom especial para adivinhar as coisas, as boas e as más, ou as duas, que às vezes há males que vêm por bem, como se costuma dizer. Ela tinha uns sonhos muito claros, que não se lhe apagavam de repente. E quando nasceu o filho mais pequeno, Joaquim, já ela vestia o luto do marido.

Nesta altura, o povo sabia que os portugueses se repartem entre os que ficam e os que vão, que sempre assim foi e assim será, talvez a nossa terra fosse pequena de mais para a têmpera de quem aqui nasceu recusando a pobreza, na aventura de enfrentar o desconhecido mundo. As famílias viviam então o vazio dos filhos que tomavam o rumo de África ou do Brasil, nessa altura os rapazes daquelas terras não pensavam senão nos imensos espaços abertos, onde toda a liberdade poderia acontecer-lhes. Sabiam-no até os mais simples, porque de pais para filhos se contavam casos de viagens, debandadas e desaparecimentos, cartas de chamadas, travessias de mar, porque os padres lhes acrescentavam outras morais de salvação de alma, porque não havia uma aldeia onde não se esperasse ansiosa e doloridamente a carta, o recado, a notícia de vida ou de morte. “Espero que todos estejam de saúde, que eu bem graças a deus, o dinheiro, estou a juntá-lo, feliz Natal que muito me lembro de todos nesta quadra e com estas duas letras vai um abraço” era o que mais as famílias nas mais remotas serranias queriam poder ler, em voz alta. Como se cada homem tivesse o destino marcado, todos os mais novos desejavam que chegasse a sua vez de irem embora da terra, porque o mundo é grande e está além do pôr-do-sol de cada dia.

Desde que nasceu, Joaquim foi o mais perfeito dos irmãos, o mais esperto, o mais dócil e meigo. Mas tinha que ser. A mãe padecia de sonhos. Um homem sem cara, a dizer-lhe: “Quem to leva to traz”. Com a sabedoria certa das mães, ela acreditava. E temia. Até que aconteceu. Nas vésperas daquele Natal, já noite feita, a mãe a preparar a consoada. Alguém bate à porta.

É o padrinho de Joaquim. Veio de surpresa à terra, veio fechar um negócio, veio levar o pequeno Joaquim para o Brasil. Dar-lhe educação, ensinar-lhe ofício, fazer dele um homem. “Deixe-me ir, minha mãe.”

Mais um Natal e outro e muitos se passaram, sem cartas nem notícias. E de repente, nesta noite de Natal, ouvem-se pancadas na  porta. Joaquim, feito homem, veio tratar de um comércio. “Sou eu, minha mãe. Fui e voltei. Amanhã vou de torna viagem, para lá.”   

Leonor Xavier  
12.2013




















 

 

 

JESUS NÃO FAZ ANOS DIA 25

       
1. Não há ano zero. Sabemos que, sob o Império Romano, o tempo era contado a partir da fundação de Roma. Quando, no séc. VI d.C., a Igreja romana decidiu contar os anos a partir do nascimento de Jesus Cristo, deparou com um problema. A festa já era celebrada no dia 25 de Dezembro. Ficou determinado que o ano I começaria no 1º de Janeiro seguinte, que corresponderia ao ano 754 da fundação de Roma. O ano anterior (753) foi designado o ano I a.C.. Resultado: passamos do – 1 para o +1.

Os cristãos começaram a celebrar a Páscoa muito cedo, mas só encontramos referências ao Natal a partir do ano 354. Ao escolher celebrar a festa do Natal a 25 de Dezembro estava-se, de facto, a cristianizar a festa pagã do Sol invictus, que marca o renascer do sol, depois do solstício de Inverno. Bela inculturação.

Para Jesus, como para qualquer ser humano da Antiguidade, excepto príncipes e alta linhagem, é ignorada a data exacta do nascimento. Há uma hipótese em 365 de que tenha sido a 25. Quanto ao ano, estamos um pouco melhor, pois sabemos que Jesus nasceu nos últimos tempos de Herodes, o Grande[i], que morreu em 750 da fundação de Roma, o que corresponde a menos 4 do calendário actual. No séc. VI, um monge, um certo Dionísio, o Pequeno, ao fazer o cálculo enganou-se em cerca de quatro anos, mas as contas não foram alteradas. Daí que o nascimento de Jesus, calculado segundo a numeração actual, deve ser situado aproximadamente, cinco ou seis anos antes. Não há qualquer indicação acerca do mês.

Valerá a pena toda essa contabilidade? Serve, pelo menos, para não deixar que a figura de Jesus resvale para o puro mito, como diziam alguns autores dos séculos XVIII e XIX. É imensa a literatura em torno da problemática do Cristo da fé e do Jesus da história. Jesus não deixou nada escrito e não sabemos o que os seus discípulos contaram.

2. Deixando de lado todo o conjunto de textos apócrifos, temos quatro narrativas do Evangelho consagradas no cânone: Marcos, Mateus, Lucas e João, com muito em comum, mas também com diferenças. Marcos pretende mostrar que Jesus é Filho de Deus. A preocupação de Mateus é situar Jesus Cristo na linha dos descendentes de David, como membro da casa de Abraão, numa perspectiva de cumprimento da esperança messiânica de Israel. Lucas, como ele próprio diz, conhece os trabalhos realizados por outros narradores, mas a sua intenção é de ir mais ao fundo. Sente necessidade de tudo investigar desde a origem para garantir ao amigo Teófilo a certeza da sua fé. Para a narrativa de João, escrita 40 a 50 anos depois da de Marcos, a partir de uma comunidade composta de cristãos vindos do judaísmo e do paganismo, Jesus é a luz do mundo.

Há quem diga que, de Jesus, só temos interpretações. É claro que os evangelistas não procuraram fazer a sua biografia, segundo os critérios actuais da elaboração histórica. Interessava-lhes a significação da presença de Jesus Ressuscitado nas comunidades, mediante a criatividade do seu espírito que procura fazer novas todas as coisas. Não podem, no entanto, apagar alguns dados históricos. Jesus nasceu por volta do ano 4 a.C.. Viveu, em Nazaré, a sua vida de infância e de adulto, mais ou menos, até aos 27 anos. Durante algum tempo foi discípulo de João Baptista. A partir de determinada altura, seguiu o seu próprio caminho, de taumaturgo e pregador peripatético, à maneira de alguns filósofos. As suas posições nem sempre coincidiam com as dos fariseus, saduceus, essénios, baptistas, herodianos e zelotas. Com a pregação do Reino de Deus desencadeou um movimento popular político-religioso que cedo chegou aos ouvidos dos sacerdotes e saduceus, levantando suspeitas e interrogações no Sinédrio.

Jesus ter-se-á rodeado de 12 homens – número simbólico - que se tornaram seus discípulos e admiradores, só que nem sempre o compreendiam. Por volta dos 30 anos fez uma viagem a Jerusalém para celebrar a Páscoa. A sua pregação e acção profética no Templo suscitam complicações religiosas e políticas. Celebra uma ceia pascal de despedida com os discípulos. É preso e julgado pelo Sinédrio como blasfemo, com sentença de pena de morte. Entregue ao governador romano da Judeia, Pôncio Pilatos, é condenado à morte por crucifixão. O papel das mulheres discípulas tem de ter sido muito relevante, pois as narrativas masculinas não as conseguiram ocultar.

3. Segundo os textos do Novo Testamento, houve muita competição entre os discípulos e interpretações diversas do papel de Jesus, na história humana. Provocou cristologias muito arriscadas, segundo os contextos religiosos e culturais. Ninguém se apresentou como seu concorrente ou para o substituir. Tudo o que ficou escrito é sempre a respeito de Jesus, o Cristo, que será nosso contemporâneo até ao fim dos tempos. Cada pessoa e cada geração poderão perguntar-se: que tem ele a ver comigo, que tenho eu a ver com ele? O Evangelho ainda não está todo escrito. Está a acontecer. O encontro marcado com o Senhor da história depende do encontro com as vítimas da história. Ele não vive só no céu e no sacrário. É o clandestino que vive em todos os que aceitam a sua companhia.

Frei Bento Domingues, O.P.
in Público
        22.12.2013


[i] Mt 2, 1; Lc 1, 5

OS NOVE MESES DO PAPA FRANCISCO

       
1. No passado dia 11, a Revista Time elegeu o Papa Francisco como a pessoa do ano 2013. É raro que um novo protagonista consiga tanta atenção no palco do mundo e em tão pouco tempo. Cativou milhões que tinham perdido a esperança na Igreja. Nancy Gibbs, directora da Time, sintetizou as razões substanciais da escolha feita: “em nove meses, ele soube colocar-se no centro das discussões essenciais da nossa época: a riqueza e a pobreza, a equidade e a justiça, a transparência, a modernidade, a globalização, o papel da mulher, a natureza do casamento, as tentações do poder”.

 Quando Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, aceitou ser Bispo de Roma, Papa da Igreja Católica Romana, não estava garantido o sucesso do caminho que escolheu. A renúncia de Bento XVI, mas querendo ficar por perto, era ambígua. Esteve muito tempo na Cúria, com imensas ocasiões para actuar e deixou apodrecer a situação até ao impossível. Ficar por perto, para quê?

O Papa Francisco sabia que a primeira coisa que lhe era pedida pela opinião pública era uma operação de limpeza da Cúria pontifícia. O mais urgente seria varrer a casa: pôr a andar os que não queriam ou já não podiam mudar e formar um governo novo. Tinha-se tornado insuportável, para qualquer católico decente, ver a insistência dos meios de comunicação em narrativas de tenebrosos escândalos financeiros da banca do Vaticano e as revoadas de padres e até de bispos acusados de pedofilia. Era evidente que as carradas de publicações moralistas, revestidas de pinceladas teológicas e de unção espiritualista, assinadas pelos papas, tinham perdido qualquer encanto. As periódicas campanhas temáticas, distribuídas pelas dioceses, tinham esgotado a sua precária eficácia. As viagens dos papas eram caras e entendidas como fuga às reformas de fundo, sempre adiadas. Que fazer então?

2. O Papa tomou algumas decisões, mas não caiu na tentação de governar por decretos. Era preciso mudar tudo, a começar por ele próprio e do modo mais rápido e simples. Foi o que fez logo na primeira saudação, à janela do Vaticano e nunca mais parou.

Nos meios conservadores, há muitas vozes contra as suas movimentações e declarações: este papa está a estragar a Igreja e a minar a sua doutrina mais segura; é tão descontraído a falar das coisas mais sérias que não parece o supremo guardião das certezas, mas um semeador de dúvidas; não sendo economista, atreve-se a dizer que esta economia de exclusão e de desigualdade mata; atacou o capitalismo como uma nova tirania; os alertas contra a corrupção, dentro e fora do Vaticano, colocaram-no na mira das máfias.

 Para tentar um balanço de nove meses de Papa, convém não perder de vista a história. A Igreja Católica Romana, mediante a ousadia inesperada e descontraída do velho Papa João XXIII, tinha começado uma grande revolução religiosa, no mundo contemporâneo. Ao convocar o Concílio Vaticano II, apontou um caminho que devolvia a palavra à Igreja, não identificada com a hierarquia, mas com o povo da graça de Deus, no qual, todos são sujeitos, em comunhão, na vida da Igreja.

 Para as gerações mais novas, sejam leigos ou clérigos, a memória actuante desse acontecimento dos anos 60 do século passado (1962-1965), perdeu-se. Mesmo os que o acompanharam e seguiram com entusiasmo acabaram por ter a sensação de que tudo aquilo tinha sido num belo sonho sem futuro. Eram os “vencidos do catolicismo” do poema de Ruy Belo e dos comentários de João Bénard da Costa. Para os que consideraram o Vaticano II como um desastre para a Igreja, o importante era esquecer esse concílio.

Tanto os que se sentiram defraudados, como os que consideravam que o Concílio tinha sido uma má ideia, as reacções pró e contra não tiveram a mesma intensidade e as mesmas manifestações, em todos os grupos. No entanto, a mentalidade restauracionista do pós-concílio tentou agir de forma global: nomear bispos conservadores para todo o lado, sobretudo para a América Latina, publicar um novo Direito Canónico e um Catecismo Católico que os equipasse para recorrer à doutrina, sã e segura, e às boas orientações pastorais.

Importante também era eliminar as correntes teológicas – da Europa Central, Estados Unidos, América Latina, Ásia e África – que pudessem questionar essa normalização. No terreno, ficou quase só a Teologia do cardeal Ratzinger e dos que a repetiam. Ele era o teólogo da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, o próprio Papa.

Enquanto tudo se passava no campo teológico e na administração eclesiástica, os ecos públicos desse mal-estar eram sempre limitados. Tudo mudou, quando os meios de comunicação começaram a encher-se de casos terríveis de pedofilia e da lavagem de dinheiro, como já referimos. Aí já não era possível alimentar hipocrisias. Os que procuraram fazer esquecer o que o Vaticano II tinha de mais inovador e pensavam recuperar o prestígio da Igreja, mediante operações restauracionistas ou de movimentos de santidade privilegiada, ficaram sem qualquer estratégia. João Paulo II deixou-se imolar pelo sacrifício e Bento XVI chegou à conclusão que não tinha saídas para nada. Entretanto, o cristianismo, em vários países da América Latina, enchia as Igrejas Pentecostais.

3. No dia 8 de Agosto, o Papa Francisco publicou um conjunto de novas regras sobre o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, que passou pela criação de uma Comissão de Segurança Financeira no Vaticano com a finalidade de coordenar as Autoridades competentes da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano em matéria de prevenção e de combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e à proliferação de armas de destruição maciça. A Carta Apostólica foi publicada em forma de Motu Proprio, o que significa, nas regras do Vaticano, que é uma iniciativa pessoal do Papa. Os artigos acerca da finalidade da referida Comissão denunciam que os escândalos atribuídos ao Instituto para as Obras de Religião (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano, não eram criações dos meios de comunicação.

 No passado dia 4 de Dezembro, prosseguiram os trabalhos da segunda série de reuniões do Conselho dos cardeais, instituído pelo Papa Francisco a 30 de Setembro, para o coadjuvar no governo da Igreja universal e para estudar um projecto de revisão da constituição apostólica Pastor bonus sobre a Cúria romana. Declarou que o importante é uma Igreja mais misericordiosa, pobre e missionária.

Muitas vezes, decretos e comissões servem para adiar o inadiável. Este Papa começou por assumir e continua a incarnar aquilo que propõe aos outros membros da Igreja. Para ele, a Igreja não é a hierarquia. Esta é apenas um conjunto de serviços instituídos para escutar, animar e orientar as comunidades cristãs. Mas a hierarquia, antes de ensinar, tem de aprender. As comunidades cristãs têm de viver na transformação do mundo, a partir dos excluídos, dos pobres, de todas as periferias.

O Papa Francisco está, pela sua prática e pelas suas declarações, a ajudar os católicos, as outras igrejas, as outras religiões, os agnósticos e os ateus a olhar o mundo, não a partir dos multimilionários e dos movimentos da Bolsa, mas a partir dos frutos de miséria gerados pela idolatria do dinheiro, do lucro a qualquer preço. Para pronunciar a muito glosada expressão, “esta economia mata”, não precisa de nenhum curso nas mais famosas faculdades de economia e gestão, católicas ou não. Basta ter os olhos abertos. Se ele não tomasse atitudes, não abordasse a questão do desemprego e da situação dos idosos e das crianças pobres, não fazia a ruptura com o mundo das estatísticas, o mundo dos números que abstraem das pessoas. Se fosse mais um fanático das redes e da Internet, teria apenas um contacto virtual com os pobres, sem cheiros e sem incómodos.

 4. Escolheu as más companhias dos que certa doutrina da Igreja do passado, sem misericórdia, tinha classificado como pecadores ou, pelo menos, em situação irregular, impróprios para se aproximarem da comunhão sacramental. Atacou as obsessões do moralismo incapaz de escutar os homossexuais, as uniões de facto, os divorciados recasados. Para ele não vale tudo, mas o que não vale, de modo nenhum, é uma Igreja que não sabe acolher, não se deixa interrogar, uma Igreja sem a inteligência do coração e sem luta pela justiça social.

Algumas pessoas escandalizam-se com o lugar que ele dá às crianças e aos adolescentes “problemáticos”. A verdade é que deixou que uma criança de seis anos ocupasse a Sede Apostólica, que um bebé lhe tirasse o solidéu e já chegou a colocar este boné sagrado na cabeça de uma miúda.

Há dois mil anos, os apóstolos aborreciam-se ao verem as crianças seduzidas por Jesus e procuravam afastá-las. Agora, dizem que o Papa está a profanar as vestes sagradas. O Papa sabe que as crianças são, diariamente, vítimas de exploração e de maus-tratos, sobretudo, as crianças e os adolescentes que vivem na rua: 120 milhões no mundo inteiro e 30 milhões só na África.

Dir-se-á que, nestes nove meses, ainda não teve tempo para se dedicar às mulheres, as mais excluídas na orientação da Igreja, apesar de terem sido elas as enviadas pelo Ressuscitado para evangelizarem os Apóstolos e de, por enquanto, ainda serem a grande maioria. Herdou um terreno minado pela Carta Apostólica, de João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis (22.05.1994). As teólogas feministas e os movimentos de mulheres cristãs certamente o irão ajudar a superar esta dificuldade, que nem é das maiores.

 Ter escolhido o caminho de Jesus Cristo, em pleno século XXI, corre riscos e as ameaças já começaram. Mas seguindo por esse caminho também poderá dizer: eu venci o mundanismo.

       Frei Bento Domingues, O.P. 
 
       Revista 2 do Público de 22.12.2013
       Pg 12-15
 
 

        
 


      

19 dezembro 2013

Controversial Theologian Hans Küng: 'I Don't Cling to This Life'

Hans Küng fought his whole life for the reforms being weighed by the Vatican today. In a SPIEGEL interview, the elderly Swiss theologian discusses Pope Francis' chances to revolutionize the church, why John Paul II shouldn't be canonized and what he hopes to learn in heaven.

SPIEGEL: Professor Küng, will you go to heaven?
Küng: I certainly hope so.
SPIEGEL: Some would say you're going to hell because you are a heretic in the eyes of the church.
Küng: I'm not a heretic, but a critical reform theologian who, unlike many of his critics, uses the gospel instead of medieval theology, liturgy and church law as his benchmark.
SPIEGEL: Does hell even exist?
Küng: Alluding to hell is a warning that a person can completely neglect his purpose in life. I don't believe in an eternal hell.
SPIEGEL: If hell means losing one's purpose in life, it must be a pretty secularist notion.
Küng: Sartre says that hell is other people. People create their own hell -- in wars like the one in Syria, for example, as well as with unbridled capitalism.
SPIEGEL: In his essay "Fragment on the Subject of Religion," Thomas Mann admitted that he thought about death almost every day of his life. Do you?
Küng: Actually, I expected that I would die at an early age because I thought that, given the wild life I live, I wouldn't make it to my 50th birthday. Now I'm surprised to be 85 and still alive.
SPIEGEL: You went skiing for the last time in 2008. How does it feel to know that you're doing something for the last time?
Küng: It certainly makes me feel a little melancholy to think about that last time, when I standing up there in Lech, up in the Arlberg range. I love the clear, cold air in the Alps. It's where I used to air out my often tortured brain. But I accept my fate. In fact, I'm happy that I was still able to go skiing at 80.
SPIEGEL: You are an elderly, sick man. You have acute hearing loss, osteoarthritis and macular degeneration, which will destroy your ability to read.
Küng: That would be the worst thing, no longer being able to read.
SPIEGEL: You were diagnosed with Parkinson's disease a year ago.
Küng: Nevertheless, I still work very hard every day. And yet I interpret all of these things as warning signs of my impending death. My handwriting is getting small and often illegible, almost as if it were disappearing. My fingers are failing. It's a fact that my general condition ...
 
By Markus Grill
in Spiegel on line International
December 12, 2013

Part 1:  'I Don't Cling to This Life'
Part 2:  Pope Francis 'Has Introduced a Paradigm Shift'
http://www.spiegel.de/international/zeitgeist/controversial-theologian-hans-kueng-on-death-and-church-reform-a-938501-2.html 
Part 3:  'Churchgoers Are Largely in Support of Church Reform'
http://www.spiegel.de/international/zeitgeist/controversial-theologian-hans-kueng-on-death-and-church-reform-a-938501-3.HTML
 
 


 

 



18 dezembro 2013

A beleza prostituída

Aqui no bairro onde neste momento moro, o dia é de noite. Ao anoitecer, um enxame de raparigas e rapazes, bonitos e alegres, começa a encher o cruzamento de algumas ruas como se fosse uma colmeia. Não moram cá e, por isso, nem pensam que aqui vive gente. As raparigas da rua a quem geralmente chamam prostitutas, também são diferentes conforme as horas do dia ou da noite. De manhã, quando até as pedras da calçada estão de ressaca, essas raparigas, já mulheres, são as mais pobres, tristes e com semblante de desempregadas. Delas não se sabe nem o nome. Uma é coxa, outra é vamp, uma é muda, outra é estante, sei lá! Há uma a quem chamam beleza. Não ganham quase nada, mas que outras coisas poderão ou saberão fazer depois de tantos anos a fazerem o que alguns homens quiseram! Sempre achei a beleza mais triste e melancólica. Um dia pediu-me uma sopinha quente e falou-me da sua dor ciática. Pude compreendê-la e, por isso, senti-me à vontade para lhe perguntar se não tinha mais nada, porque a achava com ar abatido. Pergunta irreflectida, pois apercebi-me de que ela pensou que eu estava a referir-me à sida. Mais educada do que eu disse-me que não, que estava tudo bem. Algum tempo depois já tinha melhorado da ciática mas eu continuava a pensar que ela não estava bem. Tem ido à sua médica? Eu sabia que o seu médico era médica. Respondeu que sim, que estava tudo bem. Meses depois de algumas pequenas trocas de palavras, abeirou-se de mim para me dizer se lhe podia dar alguma coisa para o lanche. Tirei do bolso o que lhe podia dar e foi então que me contou mais demoradamente algumas coisas da sua história. Verdades ou não, nunca as tinha ouvido por uma razão com duas faces: ela terá pensado que eu tinha mais que fazer do que estar a perder tempo com ela, eu pensava que falar com ela seria fazer-lhe perder a oportunidade de encontrar algum dos tão escassos clientes. Entre outras coisas disse-me que não tivesse medo de falar com ela, mas que estava muito mal dos pulmões e que andava naquela vida desde os 15 anos porque a sua mãe a abandonou. Perguntei-lhe de onde era a sua mãe e ela disse-me, num tom de quem pede desculpa, que era de origem marroquina e que eram muçulmanas. Que não levasse a mal. Pus-lhe a mão no ombro dizendo-lhe em poucas palavras o que no momento me pareceu adequado. De um modo suave e lento foi-me retirando a mão do ombro. Falhei mais uma vez, afinal aquele gesto para ela devia ter outro significado. A partir daí só a ouvi e olhei, e mesmo assim com um sentimento de à rasca. Há pouco tempo tive um choque, ainda que anunciado. Há pouco disseram-me que a beleza está internada, mas ninguém sabe dizer onde. A beleza está internada! Sentado e a tentar perceber onde estará, só me vem à mente aquela rapariga sem nome do evangelho de Marcos (14, 3-9), a quem chamo Maria dos perfumes quando me refiro a ela. Aquela que lavou com as suas lágrimas os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos. Dela Jesus disse: “Garanto-vos que em qualquer parte do mundo onde for pregada a Boa Nova, será contado o que esta mulher acaba de fazer e assim ela será recordada”. Bem sei que não é a mesma coisa, mas tenho fé que também esta, que dizem chamar-se Maria de Fátima, será acolhida no paraíso de modo muito especial: talvez viajando no carro de fogo do profeta Elias ou no cavalo alado do profeta Maomé. Afinal Maria é a Mãe de Jesus e Fátima a filha do Profeta.

Frei Matias, O.P.

18.12.2013

17 dezembro 2013

Um homem bom

       A Lista de Bergoglio fala do tempo em que o actual Francisco passava os dias entre o breviário e maneiras de despistar a polícia.
       B.J. Harrison (conselheiro da família Corleone, acerca do então recém-eleito João Paulo I): O Papa está a fazer exactamente o que disseste que faria, está a limpar a casa.
       Michael Corleone: Devia ter cuidado: É perigoso ser um homem honesto.
       In O Padrinho (III)
       Uma das cenas de O Padrinho que mais me marcou foi a da confissão de Michael Corleone (MC). Recordo a cena: MC vai falar de negócios com um cardeal - futuro João Paulo I - que, lendo o seu sofrimento existencial, o desafia: “Não quererá confessar-se?”. MC, perplexo, escusa-se com os 30 anos que tinham passado desde a última confissão. Aliás, de que serviria a confissão se não se arrependesse? O cardeal atalha: “Ouvi dizer que é um homem prático. Que tem a perder?”. E leva-o para um lugar do jardim, cheio de flores, onde costuma ouvir os seus padres em confissão. Depois de hesitar, MC começa: traíra a mulher (ouvem-se os sinos pela primeira vez), traíra-se a si próprio (quantos católicos conseguirão acusar-se deste pecado?), matara homens e ordenara a morte de outros, e até mandara matar o seu próprio irmão. Aqui, MC chora. A cada hesitação, o cardeal incentivara-o: “Go on, my son”.
       Já em casa, conta a boa nova à irmã: que se confessara. Perante a estranheza dela, diz-lhe: “É que era um homem bom, um verdadeiro padre. Poderá mudar as coisas”.
       Fui-me recordando desta cena à medida que, ao longo dos meses, ia lendo sobre o “novo estilo” do Papa Francisco. Não seria também ele dos poucos a conseguir que um MC se confessasse, por ser um “homem bom”? Mas uma dúvida subsistia em mim, como em muitos outros: sabendo-se que a Igreja argentina colaborara tanto com o ditador Videla (e com os que se lhe seguiram) e que, na altura do golpe de estado (1976), o agora Papa Francisco era Provincial dos Jesuítas, poderia ele estar inocente quanto a um eventual colaboracionismo com um regime que, como escreve o jornalista italiano Nello Scavo em A Lista de Bergoglio (2013), “teve como consequência o desaparecimento de, pelo menos, 30 mil pessoas, a apropriação de mais de 500 filhos[as] de condenados[as] à morte, a detenção de milhares de activistas políticos, o exílio de aproximadamente dois milhões de pessoas, além dos 19 mil fuzilados nas ruas”? Quanto à prisão e tortura de dois jesuítas, antigos professores de Bergoglio (e um deles até fora seu director espiritual), Franz Jalics (ainda vivo) e Orlando Yori, o que fizera o seu Provincial por (ou contra) eles? Confesso que a leitura de Scavo me trouxe um grande alívio e uma grande admiração pela atitude discreta mas firme do então P. Jorge. Independentemente da posição religiosa de quem a ele recorria – e por vezes, em vez de confiar apenas na oração, ajudava mesmo quem colocava resistências a uma ajuda provinda de “padres” -, dir-se-ia que ajudou todos os que pôde, escondendo-os nas instalações dos Jesuítas a pretexto da efectuação de um retiro espiritual, conduzindo ele próprio o carro quando levava suspeitos (mesmo que se tratasse de uma mulher), usando, nas cartas, linguagem críptica para iludir a censura, recorrendo aos telefones de rua para evitar escutas, tentando saber do paradeiro de desaparecidos e libertá-los, tecendo redes de ajuda em que, como é costume nas organizações de resistência, uma pessoa se limita a fazer um acto concreto, sem saber o antes e o depois. Admiro-lhe a coragem, os nervos de aço, a perspicácia, a capacidade de acolhimento e de ternura, a fé.
       Scavo fala “sobre a coragem daquelas noites sem receio da caça aos infractores. Sobre dias passados entre o breviário e os postos de bloqueio, pensando em maneiras de  evitar os controlos, de despistar a polícia, de enganar os generais. Para levar sãos e salvos, para lá da fronteira, os adolescentes destinados aos matadouros clandestinos. [...] Talvez rezasse entre uma curva e a seguinte.” E entre uma página e outra desta Lista notável, admiro também o desprendimento de quem, basicamente, só dela falou vagamente em comissões de inquérito. Um “homem bom”, que decerto conseguiria também despertar em MC o melhor de si mesmo.
       Docente aposentada da Universidade do Minho     
          (laura.laura@mail.telepac.PT)