18 janeiro 2014

Where are the African-American cardinals?

         When Pope Francis named 19 new cardinals Jan. 12, many Catholics cheered what seemed to be an emphasis on diversity, with half of the red hats going to bishops from non-European countries, including parts of the developing world.
        
           But Dolores Foster Williams of Chicago was not exactly pleased.

"I didn't note any African-Americans on the list," said the 84-year-old Williams, who has made eradicating racism in the church her life's work.

A retired teacher and the author of Institutional Racism in the Catholic Church, Williams sees the lack of an African-American cardinal as the "undeniable tip of the church racism iceberg."

"The cardinals are the ones who elect the pope, so we have no representation there. Why aren't we at the table?" The answer, she says, is blatant racism and nepotism.

"Caucasian priests who became cardinals were trained either in Diocesan seminaries or Order seminaries, and their upward progressions appear to have been fostered by influential individuals within those domains," Williams wrote on her blog in September.

And the elevation of African cardinals, while important, doesn't count, she says: "Africans and African-Americans are culturally different."

Williams spoke with NCR in December and again this week after the announcement of the new cardinals. With an apron around her waist and a gold cross around her neck, she welcomed me into her South Side of Chicago home, tastefully decorated with African art, and shared her own experiences of racism in the church.

"I'm not looking to make a name for myself," she said. "I'm not interested in being a spokesman for anything, but I feel it should be known. Something should be done."

In her book, Williams details the church's history of institutional racism, from the segregation of the past to the even more insidious, de facto segregated church attendance of today. That, combined with ...

Heidi Schlumpf    |  Jan. 18, 2014 

[Heidi Schlumpf teaches communication at Aurora University outside Chicago.]

in NCR

http://ncronline.org/news/people/where-are-african-american-cardinals

15 janeiro 2014

Loris Capovilla, o poder de um símbolo

   
O novo cardeal foi secretário pessoal do papa João XXIII
Entre os novos cardeais escolhidos pelo papa Francisco em seu primeiro consistório aparece uma figura simbólica: a de Loris Capovilla, de 99 anos, que foi secretário pessoal do papa João XXIII, o papa do século passado com quem Francisco guarda a maior semelhança.
Ninguém até agora tinha lembrado de dar o barrete de cardeal àquele que foi a figura chave, o confidente e o criador da imagem do chamado “papa bom”. Ele tinha sido relegado ao esquecimento, e, desde se aposentar como arcebispo, vivia em Sotto il Monte, a cidadezinha na qual nasceu o futuro papa João XXIII, filho de camponeses. E ali Capovilla, durante anos e quase em silêncio, fez um trabalho discreto de ajuda e conselho aos mais necessitados.
 Dias depois de eleito, o papa Francisco telefonou a Capovilla e lhe disse, brincando: “O senhor tem voz de jovem”.
 Hoje ele o nomeou cardeal. O escolheu como símbolo, muito ao seu estilo.
 O reconhecimento dado a Capovilla pelo papa jesuíta possui forte valor simbólico, porque foi como ressuscitar um papa que não apenas foi um dos mais contestados pela Cúria Romana, como também um dos mais amados, até mesmo pelos não católicos.
 Quando, já idoso e em um momento crítico da política mundial, João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, foi visto como louco pelos cardeais conservadores, como Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova. Eles chegaram a estudar a possibilidade de buscar sua deposição.
Capovilla é a única testemunha ainda viva dos maiores segredos do pontificado breve, mas fecundo de João XXIII, o pontífice que dizia …
Juan Arias  Rio de Janeiro  12 JAN 2014 - 20:52 BRST

12 janeiro 2014

Francis uses red hats to offer lesson on global church

     
Popes bestow red hats, the symbol of the cardinal’s office, for a variety of reasons. In some cases it’s to signal the importance of a particular office, or to reward loyal performance over a lifetime, or to confirm the importance of a particular diocese.

 For his first crop of new cardinals, Pope Francis also seems to be using red hats to teach. In effect, the first pontiff from the developing world is offering a lesson in the realities of life in a global church.

The obvious take-away from the 19 new cardinals announced by Francis on Jan. 12 is that ten come from outside Europe, with only four Vatican officials (three Italians and one German), just two other new residential European cardinals, and only one from North America.

There will be no new cardinals from the United States in Francis’ first consistory, the event in which new cardinals are created.(The two obvious places where new cardinals might have been named in the U.S., Los Angeles and Philadelphia, both still have retired cardinals under the age of 80, and popes traditionally have been reluctant to name two cardinal-electors in the same diocese.)

By way of contrast, there are four Latin Americans among the cardinal-electors, one from the Caribbean (Haiti), two Africans, and two Asians.

Notably, there are two new cardinals for the two of the three largest Catholic countries on earth by population, with Orani João Tempesta, O.Cist., Archbishop of Rio de Janeiro in Brazil, and Orlando B. Quevedo, O.M.I., Archbishop of Cotabato in the Philippines.

Catholics in both nations had long complained they were under-represented in the College of Cardinals relative to their Catholic populations. (The other nation in the top three in terms of Catholic population is Mexico.)

The new geographic spread among the cardinals is a reflection of the broad north/south shift in the Catholic population that’s been underway for decades, and that was symbolized in March by the election of a pope from “the ends of the earth” as Francis put it in introducing himself on the balcony overlooking St. Peter’s Square.

Of the 1.2 billion Catholics in the world today, fully two-thirds live in the southern hemisphere, a share that’s expected to reach three-quarters by mid-century.

With just under 70 million Catholics, the United States accounts for around six percent …

by John L. Allen Jr.     |  Jan. 12, 2014

in NCR

http://ncronline.org/blogs/ncr-today/francis-uses-red-hats-offer-lesson-global-church

UM PAPA ANTICLERICAL?

   
1. A religião é uma das grandes dimensões mentais e culturais dos seres humanos. Hoje, no Ocidente, é uma realidade controversa, mas não apagada. O acolhimento ao Papa Francisco não resulta apenas, nem sobretudo, de qualquer estratégia publicitária. Nele, as pessoas vêem uma das expressões mais genuínas da atitude de Jesus Cristo, no meio do seu povo.

O divórcio entre as Igrejas e o mundo moderno não foi provocado, apenas, pela má vontade dos incréus e dos anticlericais. O anticlericalismo foi, muitas vezes, o reverso do clericalismo. Nasci numa zona do país em que não se podia viver sem padre, desde o baptismo ao funeral. Passava-se o tempo a dizer mal deles por causa do seu autoritarismo e da arbitrariedade ameaçadora dos seus comportamentos pouco pastorais. Não eram especialmente maus, mas apenas o resultado da formatação recebida.

Hoje já não se repetem estas palavras de Pio X[1], mas elas modelaram gerações: “só na hierarquia reside o direito e a autoridade necessários para promover e dirigir todos os membros para os fins da sociedade. Em relação ao povo, este não tem outro direito a não ser o de se deixar conduzir e seguir docilmente os seus pastores”.

A Civiltà Cattolica[2], na época da definição da infabilidade do papa, escrevia: “a infabilidade do papa é a infabilidade do próprio Jesus Cristo […]. Quando o papa pensa, é o próprio Deus que pensa nele”.

2. O Vaticano II ainda estava longe. O século XX, sobretudo em alguns países, foi um tempo de grandes movimentos de renovação do catolicismo: missionário, ecuménico, bíblico, teológico, social, litúrgico, laical, etc. Foi, também, uma época de condenações, sobretudo das experiências mais arrojadas, como por exemplo, a suspensão dos padres operários e dos teólogos que trabalhavam em diversas frentes culturais do mundo moderno.

O Concílio alterou, profundamente, as concepções eclesiológicas que justificavam o autoritarismo da hierarquia. Dizia-se mesmo que a eclesiologia se tinha transformado numa hierarquiologia. Agora, o papa, o bispo, o padre deixavam de ser considerados uma hierarquia de poderes sobre a Igreja, mas de serviço às comunidades. Estimular a sua criatividade, na diversidade dos seus carismas e funções, era a principal tarefa dos ministérios ordenados que, por sua vez, deviam suscitar iniciativas, segundo as necessidades de tempo e de lugar. Eram bons princípios, boas práticas, mas sem meios, nem vontade, de organizar a vida da Igreja, segundo essas orientações. Veio, depois, um longo inverno na Igreja e foram ressuscitados modos de agir autoritários que paralisaram reformas urgentes.

3. Veio o Papa Francisco. Como já disse noutras ocasiões, não apareceu com o Direito Canónico na mão, para dizer o que era para continuar na mesma e o que era para reformar, como se fosse um burocrata. Veio participar numa reforma que envolvesse a Igreja toda, embora destacando responsabilidades e neutralizando forças de obstrução. Não no estilo de mandar fazer. Começou por ser ele a agir conforme aquilo que depois tem vindo a propor, em diversas circunstâncias. A perspectiva geral foi dada na Exortação Apostólica e em várias entrevistas. Não se pode esquecer a forma como respondeu às perguntas dos Superiores Maiores das Congregações Religiosas. Destacou a importância da qualidade e do estilo da formação dos jovens religiosos. Em todas as ocasiões denuncia o clericalismo, com expressões tais que levam alguns a julgar que pertence a uma organização anticlerical! O Papa perdeu a devoção aos monsenhores. Pobres daqueles que já se julgavam na calha.

Nesse Encontro, a convicção mais abrangente é esta: as grandes mudanças da história acontecem quando a realidade é vista, não a partir do centro, mas da periferia. Trata-se, para o Papa, de uma questão hermenêutica: a realidade não se compreende a partir de um centro equidistante de tudo. Para a entender bem, é preciso mover-se da posição central da tranquilidade, da zona de conforto, para as zonas agitadas das periferias. Este é o melhor caminho para escapar ao centralismo e às focagens ideológicas. Os temas do citado diálogo com os superiores das congregações religiosas foram os da coragem, da profecia, do clericalismo e dos conflitos. Nada poderá substituir a leitura da gravação feita pela Civiltà Cattolica[3].

Dirigindo-se à Comissão Teológica Internacional (06.12.2013), em vez de lhes recomendar cautela e ortodoxia, incitou os teólogos a serem pioneiros do diálogo da Igreja com as culturas; a situarem-se como profetas nas fronteiras e não ficando para trás, na caserna. O magistério e os teólogos devem estar atentos às expressões autênticas do sensus fidelium.

A sensibilidade cristã dos fiéis não é só dos homens. As mulheres são sempre as esquecidas. O jornal L’ Osservatore Romano acaba de lançar um suplemento sobre Mulheres, Igreja e Mundo, de circulação mensal, de quatro páginas a cores. Mais vale tarde do que nunca.
            Frei Bento Domingues, O.P.
12.01.2014         
in Público



[1] Cf. Ramon Maria Nogués, Dioses, Creencias y Neuronas, Fragmenta Ed., 2011, pg. 280
[2] Ibid. pg 281 
[3] http://www.laciviltacattolica.it/ ; tradução em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526950-qdespertem-o-mundoq-o-
 
 
 
 
 
 
 

05 janeiro 2014

MENSAGEM DO PAPA SOBRE A PAZ

       
1. Entre os mais idosos, alguns talvez ainda tenham gosto em se lembrar e outros, vontade de esquecer que no dia 8 de Dezembro de 1967 foi criado, pelo papa Paulo VI, o Dia Mundial da Paz. Ficou decidido, no entanto, que seria celebrado, daí em diante, no primeiro dia do ano civil. Assim continua, embora as Nações Unidas tenham marcado, em 1981, o Dia Internacional da Paz para o dia 21 de Setembro. Não se sobrepõem. 

Em Portugal, a decisão de Paulo VI teve um impacto significativo durante a guerra colonial, porque se inscreveu nos ecos do Vaticano II e da Pacem in Terris de João XXIII, que tinham alargado, aprofundado e provocado iniciativas de oposição católica ao Estado Novo[i]. Destacamos: no Porto, suscitou a criação da comissão diocesana de Justiça e Paz, com múltiplas intervenções; em Lisboa, as vigílias na Igreja de S. Domingos, em 1969, e na Capela do Rato, de 1972 para 1973, tornaram-se marcos históricos pela ressonância conseguida. A vigília da Capela do Rato provocou a intervenção da Pide, várias prisões e aceso confronto, na Assembleia Nacional, entre os deputados Miller Guerra e Francisco Casal Ribeiro.

As mensagens anuais constituem peças importantes da posição dos papas perante as questões da guerra e da paz. Ao se tornarem um ritual, o seu verdadeiro impacto depende, apenas, do que as Igrejas locais fizeram desses notáveis documentos.

2. Que irá acontecer com a mensagem do Papa Francisco, “A Fraternidade, fundamento e caminho da Paz”?

Da trilogia da Revolução Francesa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, a última foi sempre a mais esquecida. Nas Igrejas Cristãs, todos são filhos de Deus, mas raramente os reconhecemos como nossos irmãos.

Qual é então a situação da população mundial?

Os números são conhecidos: 1% da população mundial concentra 43% da riqueza, enquanto 50% fica apenas com 2%. Neste mundo há 871 milhões de pessoas com fome; mais de 1.000 milhões encontram-se na indigência e cerca de 3.000 milhões na pobreza. Neste mundo, 900 milhões não têm água potável, 1.000 milhões não têm acesso à luz eléctrica e 2.160 milhões não possuem instalações sanitárias.

Já estamos tão habituados à linguagem dos números, a propósito de tudo e de nada, que em vez de nos aproximarem da realidade vivida, afastam-na. O Papa Francisco podia recitar todos estes números e dizer, com verdade, estes são todos membros da nossa família. Ele sabe que por aí não iria longe. Também não parece muito interessado em juntar textos doutrinários aos dos outros Papas e engrossar as bibliotecas piedosas. Passaram nove meses sobre a sua eleição. Não foi a eleição de Sua Santidade, mas a de um pecador em processo de conversão, chamando os cardeais, os bispos, os padres a essa condição para poderem servir e dinamizar as comunidades cristãs. Não ficou por aí. Escolheu o caminho do exemplo, mas não para dar exemplo. Se espantou o mundo com os seus gestos, foi por causa da sua autenticidade, sem recurso ao marketing religioso. De repente, vimos o Papa como imaginamos que terá sido Jesus Cristo, há dois mil anos. Desde a quinta-feira santa, o seu caminho tem sido o encontro com a periferia do mundo, o lugar da Igreja.

Para uns, isto é uma alegria, um convite a fazer o mesmo. Para outros, é uma descoberta. Não falta quem veja no método do Papa Francisco, uma crítica ao caminho que se estava a percorrer, semeado de escândalos. Claro que é o começo de uma reforma urgente, mas que ele não quer apenas propor, mas praticar na sua pessoa, nas suas decisões, da forma mais fraterna e mais alegre com aquelas e aqueles que ninguém escolheria para irmãos.

3. O Papa, pela ordem natural das coisas, tem muito pouco tempo para realizar o que lhe parece mais urgente. O mais urgente é ajudar o conjunto da Igreja a rectificar a sua orientação, a inclinar-se para o lado certo. Não é a substituição da Igreja pelo Papa. É fazer com que os papas, os bispos, os cardeais, os padres tenham uma prática de dinamizadores e não substitutos dos membros da Igreja: tornarmo-nos no que somos, todos irmãos (Mt 23, 8-9), a viver e a trabalhar, na sociedade e na igreja, como num bem de família.

Que se saiba, o mundo não está para acabar já. O Papa Francisco ainda vai deixar muito por fazer. Mas, pela sua maneira de ser e actuar, já começou o mais importante: não é fatal que a igreja e o mundo tenham de continuar a ser como até aqui.

Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?

De qualquer modo, Bergoglio não é o primeiro a andar em contramão. Foi precedido por boa companhia. Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam Jesus dizer que não se pode servir a Deus e ao Dinheiro e zombavam dele (Lc 16, 13-15).
Temos pela frente um novo ano e muitos desafios na Igreja e na Sociedade. 


[i] João Miguel Almeida, A Oposição Católica ao Estado Novo (1958-1974), Edições Nelson de Matos, Lisboa, 2008
05.01.2014
Frei Bento Domingues, O. P.
in Público
 
 
 
 

04 janeiro 2014

Natal 2013 - Na periferia



Querido/as Amigo/as de mais perto ou de mais longe

Desculpareis que, porventura, vos retribua com uma mensagem de feição menos personalizada. Todos e todas a mereceriam. Até só pelo facto de se lembrarem que eu ainda existo. Na fragilidade das condições técnicas em que vos escrevo e na felicidade da abundância daqueles e daquelas que se me fizeram presentes nestes dias, no quadro de afazeres pastorais em que me envolvo, difícil seria responder a cada um/a.

Hoje é dia 23. Partilho convosco o que têm sido estes dias de introito para o Natal, celebrado, como nos alerta O Papa Francisco, na periferia do mundo.

Toda a manhã de hoje foi ocupada com uma visita a uma comunidade da Paróquia, situada na área da intervenção dos chineses que aqui exploram areias pesadas e já trazem perturbações várias à pacatez destas comunidades: Disso falaremos noutro dia.

Tudo estava preparado para "ter missa". Uma hora teria sido suficiente, e tudo ficaria despachado e arrumado. Todos ficariam contentes e o padre voltaria a casa com a consciência tranquila e satisfeita!

Mas foi diferente. Ao chegar, apesar do friso festivo que me aguardava, logo intuí que era preciso ir mais fundo. À raiz! Não fiquei na epiderme das insistentes cantaroladas saudações à visita que chegava. Com a preciosa ajuda do Animador Paroquial (que já me acompanhava desde casa) mais a do Animador de Zona (que entretanto a nós se juntara, tratámos de fazer um diagnóstico da comunidade tão numerosa, mas carente: carente de organização, a contrastar com outras. Com algumas pessoas com competências a desenvolver, mas ainda sub-aproveitadas.

Teríamos umas 200 pessoas adultas. Muitas crianças e adolescentes. Havia que dar o toque da conversão que o desafio do nascimento de Jesus, neste nosso mundo, implica.

Assim se construiu uma linda conversa com a comunidades sobre as fraquezas e os pecados a corrigir. Felizmente, um quadro preto, feito numa parede interna da própria capela, numa comunidade com 90% (se não mais) de iletrados, serviu de ícone. Uma jovem mãe, desejosa de ser alfabetizada foi, sim, o ícone vivo, nesta nossa conversa de mais de 1 hora, precedendo a celebração penitencial seguida de eucaristia.

Vislumbrei, sem surpresa, o intenso trabalho que temos de fazer para que esta Igreja, integrada por tanta gente, rodeada de muçulmanos/as, apareça, como dizemos na noite de Natal, um sinal de que "O Povo que andava nas trevas viu uma grande Luz!". Antes de mais luz para dentro de si mesma, para que possa aparecer como Luz para a imensa maioria muçulmana que a envolve!

No dia 21 tive outra celebração com outra comunidade: a nota mais saliente foi ter conseguido vencer o "braço de ferro" com gente que parecia teimar em não arranjar esteiras para atapetar o espaço celebrativo, e se sentava no chão (por acaso já de cimento e não de terra) como se fosse cabrito. Desde que eu cheguei, há 19 meses, que isso era ponto assente. A beleza das esteiras locais tem de emprestar aos nossos espaços litúrgicos, dentro das capelas, ou debaixo das árvores, ou ao luar, como aconteceu na noite de Natal de há 1 ano, a dignidade de filhos de Deus que somos a título privilegiado. Parece que não teriam entendido à primeira. Foram 2 horas de paciente explicação em que se misturou a catequese, a noção de dignidade e as noções de saúde. E, assim, quem morava mais perto ou tinha biciclete, correu a casa buscar as esteiras necessárias. Excelente!

Xonte! Apwiya! Munlevelele!

Perdão! Senhor!

Terminaria muito bem, também com a celebração penitencial e a confissão dos pecados em comunidade (como ilustra a imagem) seguida de eucaristia.

No dia 22, ontem, estava programada uma "inauguração" noutra comunidade. Inauguração de quê: da nova cobertura da capela, agora de chapas de zinco. Havia convidados das comunidades vizinhas e, pela 1ª vez, vi o "governante" local, o chefe de posto, por sinal um católico que, dir-me-ia ele ao apresentar-se, foi batizado nesta nossa missão nos idos anos 60. Talvez seja um filho regressado… Vamos ver.

Nesta caso, foi espantoso como tão rapidamente pudemos transformar a liturgia, pondo a ênfase numa aturada celebração penitencial que abriu caminho para uma magnífica celebração da eucaristia, à sombra de uma majestosa mangueira (que não deixou cair nenhuma manga na cabeça de ninguém) e, finalmente, para a "bênção" da capela com nova cobertura, satisfazendo os anseios justificados desta comunidade que, a custo, conseguiu juntar umas dezenas de milhares de meticais e, assim, resolver o problema à sua própria custa!

Foram, todas elas, celebrações inteiramente contextualizadas, pacientes, indo ao fundo das raízes, tanto antropológicas como éticas e morais. Encantador, ainda, como os grupos corais, que até tinham preparado o seu canto noutra direcção, tão facilmente se readaptaram, tanto no canto penitencial como da exultação de acção de graças, no fim.

Em cada um destes dias, terminamos com uma deliciosa refeição de exima (massa de farinha de milho que os italianos chamarão polenta), acompanhada, a meu pedido expresso, não de galinha ou cabrito ou porco, mas de mathapa: agora de folha de mandioca por ser, neste tempo, a mais comum, enriquecida com um pouco de feijão pequeno, ou ervilha) e com saborosíssimo tempero de amendoim e/ou de coco. É, assim, um Natal na periferia do mundo, vislumbrando, nestas pobrezas e nesta riquezas, a plenitude de José e Maria encantados com as maravilhas que vislumbravam e não entendiam por completo! Guardavam no coração!

Já vos cansei, enquanto escrevia este abrir de coração, à beira do Índico, aqui a meus pés, ao fundo da larguíssima avenida principal de Angoche que teve por nome colonial "António Enes" e, desde há dias, tem um presidente reeleito, não temos dúvidas, com gritantes ilícitos eleitorais. Porque os Herodes ainda não foram varridos da face da terra!

Que o vosso Natal seja tão genuíno como o meu, vo-lo desejo do coração!

Que o novo ano de 2014 seja, para cada um/a de nós, mais abençoado do que este que agora terminamos em que os desafios à Fé e à Esperança só o Papa Francisco - a surpresa de Deus para todos neste ano - conseguiu dispor-nos, mais uma vez, a acolher.

Zé Luzia
NOTA: Recebi este mail do Padre José Luzia e, como gostei imenso deste Natal tão enriquecedor, pedi-lhe para o partilhar no nosso blogue, ao que ele acedeu prontamente. Lamentavelmente o blogue não aceitas as fotos que vinham incluídas.

Programa das Conferências 2013/2014 no Mosteiro das Monjas Dominicanas - Lumiar

ATENÇÃO
A Conferência de dia 11 de Janeiro foi alterada e será dia 8 de Março e a desse dia será a 11 de Janeiro 
 
A relação
Um modo quotidiano e profético de viver o Evangelho
Horário - 15:30 Conferência
Seguido de debate e convívio
EUCARISTIA
12 de Outubro - Trindade e relação: novos modos de propor Deus
                                                                                Alexandre Palm
 
9 de Novembro - Com que sabedoria habitaremos o coração da vida?
                                                                 José Tolentino Mendonça
 
14 de Dezembro - A fé vive de afetos: variações sobre um tema vital
                                                                             José Frazão S.J.
 
11 de Janeiro – Quando a fortaleza se vive na fragilidade
                                               Mateus Cardoso Peres O.P.
 
8 de Fevereiro - A caridade dá que fazer
                                                                              Manuela Silva
 
8 de Março "O pórtico da segunda virtude" (de Charles Péguy)  lido e comentado por
                                                          Luís Miguel Cintra
 
12 de Abril -  Construir uma relação igual e diversa: um testemunho
                                                         
Sara Martinho e Rita Quintela
 
10 de Maio - A errante sonoridade de Deus:
                           revisitando José Augusto Mourão
                                                                           Alfredo Teixeira
 
14 de Junho - Olhai os lírios do campo
                                                             José Tolentino Mendonça