02 fevereiro 2014

CÓDIGO GENÉTICO (1)

       
         1. Fui interpelado acerca do texto do Domingo passado com duas perguntas pouco inocentes: haverá um baptismo para homens e outro para mulheres e será possível abordar o baptismo cristão sem falar da democracia na Igreja?
         As tentativas de “resposta” só podem ser de ordem histórica e teológica. Na Idade Média, perante a floresta de símbolos que povoavam o imaginário sagrado do culto, das devoções e superstições, foram recortadas sete celebrações fundamentais, os sete sacramentos. No registo do pensamento analógico, são entendidos como irradiações da Páscoa de Cristo, nas etapas mais típicas e estruturantes da vida sacramental da Igreja. O baptismo é a porta de entrada, personalizada e comunitária, num processo vital da graça transfiguradora da existência humana no seu devir espiritual, do nascimento à morte, na esperança da ressurreição. A omnipresença da graça não suprime a liberdade humana nem o mistério da iniquidade actuante na nossa história
        No código genético cristão, não se conhece um baptismo para homens e outro para mulheres. Sendo assim, elas perguntam: qual é a deficiência natural ou sobrenatural de que sofremos para não podermos ser chamadas a receber o sacramento da ordem integrado pelo diaconado, presbiterado e episcopado?
        Referem-se a uma situação de facto na Igreja católica romana e nas Igrejas ortodoxas. Para muitas teólogas e teólogos católicos trata-se de uma anomalia antiga que já vai sendo tempo de superar. Não existe nenhuma maldição de Cristo a dizer que as mulheres ficavam para sempre excluídas da possibilidade de serem chamadas aos ditos “ministérios ordenados”. As Igrejas protestantes, que assinaram o acordo baptismal com a Igreja católica romana e ortodoxa, estão a seguir um caminho diferente.
        2. Pode-se falar do Baptismo, sem abordar a questão da democracia na Igreja? Era a segunda pergunta. A democracia não é uma invenção moderna. Amartya Sen (1933 -), considerado o mais humanista dos economistas, presta homenagem à Grécia que, no séc. VI (a. C.), adoptou um sistema eleitoral e cultivou o debate público. Os gregos, aliás, gostavam muito mais do diálogo com os persas, os indianos e os egípcios do que com os godos e visigodos. Alexandre Magno passou mais de um ano na Índia e os intelectuais da época estavam fascinados pelo Oriente que recebeu da Grécia o sistema eleitoral antes da França, da Alemanha ou da Grã-Bretanha. Seis séculos antes da Magna Carta inglesa, o Japão estava dotado de uma Constituição que impunha ao imperador consultas antes de decidir. A Índia vive uma antiga tradição de debate público, onde tudo poderia ser discutido.
       A democracia, tal como a conhecemos hoje, é o produto da modernidade, do século das Luzes, sendo a sua história e a sua geografia muito mais vastas e antigas. Sem uma persistente educação para a cidadania e para a tornar uma atitude, uma tarefa permanente, uma forma de vida pessoal nas suas múltiplas relações, acaba por se esvaziar e ficar resumida a alguns momentos rituais que até eles tendem a desaparecer.
       Recordo isto para dizer o seguinte: Desde o Vaticano II, os documentos da doutrina social da hierarquia católica, são abundantes e insistentes na defesa da democracia política, económica, social e cultural. O que diz respeito a todos deve ser tarefa de todos, para benefício de todos, segundo as capacidades de cada um. Para serem democráticas, as instituições não devem sufocar, antes estimular, a criatividade social, em todas as suas manifestações. Não podem contribuir para uma sociedade de privilégios, de monopólios, de opressão dos mais fracos pelos mais fortes. Os conflitos são inevitáveis. A controvérsia é normal. Os cidadãos não são clonáveis. A democracia é o regime da cooperação.
       Esses documentos rompem com os receios e ataques do magistério eclesiástico do séc. XIX e princípios do séc. XX. A generosidade actual não se estende a uma gestão democrática da Igreja. Repete-se que a Igreja não é uma democracia.
       3. Importa, no entanto, não fechar demasiado depressa esse dossier. A concepção hierárquica neoplatónica vê a Igreja como uma pirâmide, um sistema escalonado: Deus, Cristo, o papa, os bispos, os padres e os diáconos, seguidos dos religiosos e, finalmente os “leigos”, primeiro os homens, depois as mulheres e as crianças. Nesse esquema, o Espírito Santo vai de férias. Ao “Vigário de Cristo”, com a sua infalibilidade definida no Vat. I, basta-lhe exigir obediência.
      Quando se diz que a Igreja não é uma democracia continua-se a pensar na pirâmide, esquecendo que os seus membros, homens e mulheres, renascidos de um só baptismo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, formam uma vasta comunhão de fraternidades de profetas e sacerdotes do povo cristão ao serviço da humanidade inteira, na sua unidade plural.
       A Igreja cristã não vive num vazio sociocultural e político. Não pode viver num gueto. Embora deva manter um distanciamento crítico em relação às estruturas socio-políticas – não são o Reino de Deus realizado –, mas uma gestão democrática do seu governo será sempre preferível, em qualquer circunstância, a um regime autoritário. Do código genético baptismal, não constam os genes de ditadura na Igreja.

       Frei Bento Domingues, O. P.

       02.02.2014

       in Público                                                                         
    

01 fevereiro 2014

OS DEZ MESES DO PAPA FRANCISCO

         
1. No dia 11 de Dezembro de 2013, a Revista Time elegeu o Papa Francisco como a pessoa do ano. É raro que um novo protagonista consiga tanta atenção no palco do mundo e em tão pouco tempo. Cativou milhões que tinham perdido a esperança na Igreja. Nancy Gibbs, directora da Time, sintetizou as razões substanciais da escolha feita: “em nove meses, ele soube colocar-se no centro das discussões essenciais da nossa época: a riqueza e a pobreza, a equidade e a justiça, a transparência, a modernidade, a globalização, o papel da mulher, a natureza do casamento, as tentações do poder”.

Tentei, na Revista 2 do Público (22.12.2013), fazer um balanço desses nove meses. Não o renego nem julgo que haja mudanças de rumo. Pelo contrário. No entanto, o percurso é cada vez mais surpreendente e, para o mundo conservador, dentro e fora da Igreja, há sempre medo do dia seguinte. É o sentido desta reflexão.

Quando Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, aceitou ser Bispo de Roma, Papa da Igreja Católica Romana, não estava garantido o sucesso do caminho que escolheu. A renúncia de Bento XVI, mas querendo ficar por perto, era mais do que ambígua. Esteve muito tempo na Cúria, com imensas ocasiões para actuar e deixou apodrecer a situação até ao impossível. Ficar por perto, para quê? Não se entende, mas também não adianta levantar suposições inverificáveis ou fazer processos de intenção.

O Papa Francisco sabia que a primeira coisa que lhe era pedida pela opinião pública era uma operação de limpeza da Cúria pontifícia. O mais urgente seria varrer a casa: pôr a andar os que não queriam ou já não podiam mudar e formar um governo novo. Tinha-se tornado insuportável, para qualquer católico decente, ver a insistência dos meios de comunicação em narrativas de tenebrosos escândalos financeiros da banca do Vaticano e as revoadas de padres e até de bispos acusados de pedofilia. Consta que as indeminizações exigidas a certas dioceses deixaram-nas na absoluta penúria. Era evidente que as carradas de publicações moralistas, revestidas de pinceladas teológicas e de unção espiritualista, assinadas pelos papas, tinham perdido qualquer encanto. As periódicas campanhas temáticas, distribuídas pelas dioceses, tinham esgotado a sua precária eficácia. As viagens dos papas eram caras e entendidas como fuga às reformas de fundo, sempre adiadas.

Que fazer então?

2. O Papa tomou algumas decisões, mas não caiu na tentação de governar por decretos. Era preciso mudar tudo, a começar por ele próprio e do modo mais rápido e simples. Foi o que fez logo na primeira saudação, à janela do Vaticano e nunca mais parou: “Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe deu e às necessidades actuais da evangelização” (Evangelli Gaudium, n. 32).

Nos meios conservadores, há muitas vozes contra as suas movimentações e declarações: este papa está a estragar a Igreja e a minar a sua doutrina mais segura; é tão descontraído a falar das coisas mais sérias que não parece o supremo guardião das certezas, mas um semeador de dúvidas; não sendo economista, atreve-se a dizer que esta economia de exclusão e de desigualdade mata; atacou o capitalismo como uma nova tirania; os alertas contra a corrupção, dentro e fora do Vaticano, colocaram-no na mira das máfias.

Em termos de balanço provisório destes dez meses de Papa, convém não perder de vista a história. A Igreja Católica Romana, mediante a ousadia inesperada e descontraída do velho Papa João XXIII, tinha começado uma grande revolução religiosa, no mundo contemporâneo. Ao convocar o Concílio Vaticano II, apontou um caminho que devolvia a palavra à Igreja, não identificada com a hierarquia, mas com o povo da graça de Deus, no qual, todos são sujeitos, em comunhão, na vida da Igreja.

Para as gerações mais novas, sejam leigos ou clérigos, a memória actuante desse acontecimento dos anos 60 do século passado (1962-1965), perdeu-se. Mesmo os que o acompanharam e seguiram com entusiasmo acabaram por ter a sensação de que tudo aquilo tinha sido num belo sonho sem futuro. Eram os “vencidos do catolicismo” do poema de Ruy Belo e dos comentários de João Bénard da Costa. Para os que consideraram o Vaticano II como um desastre para a Igreja, o importante era esquecer esse concílio.

Tanto os que se sentiram defraudados, como os que consideravam que o Concílio tinha sido uma má ideia, as reacções pró e contra não tiveram a mesma intensidade e as mesmas manifestações, em todos os grupos. No entanto, a mentalidade restauracionista do pós-concilio tentou agir de forma global: nomear bispos conservadores para todo o lado, sobretudo para a América Latina, publicar um novo Direito Canónico e um Catecismo Católico que os equipasse para recorrer à doutrina, sã e segura, e às boas orientações pastorais.

Importante também era eliminar as correntes teológicas – da Europa Central, Estados Unidos, América Latina, Ásia e África – que pudessem questionar essa normalização. No terreno, ficou quase só a Teologia do cardeal Ratzinger e dos que a repetiam. Ele era o teólogo da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, o próprio Papa.

Enquanto tudo se passava no campo teológico e na administração eclesiástica, os ecos públicos desse mal-estar eram sempre limitados. Tudo mudou, quando os meios de comunicação começaram a encher-se de casos terríveis de pedofilia e da lavagem de dinheiro, como já referimos. Aí já não era possível alimentar hipocrisias. Os que procuraram fazer esquecer o que o Vaticano II tinha de mais inovador e pensavam recuperar o prestígio da Igreja, mediante operações restauracionistas ou de movimentos de santidade privilegiada, ficaram sem qualquer estratégia. João Paulo II deixou-se imolar pelo sacrifício e Bento XVI chegou à conclusão que não tinha saídas para nada. Entretanto, o cristianismo, em vários países da América Latina, enchia as Igrejas Pentecostais.

 3. No dia 8 de Agosto, o Papa Francisco publicou um conjunto de novas regras sobre o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, que passou pela criação de uma Comissão de Segurança Financeira no Vaticano com a finalidade de coordenar as Autoridades competentes da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano em matéria de prevenção e de combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e à proliferação de armas de destruição maciça. A Carta Apostólica foi publicada em forma de Motu Proprio, o que significa, nas regras do Vaticano, que é uma iniciativa pessoal do Papa. Os artigos acerca da finalidade da referida Comissão denunciam que os escândalos atribuídos ao Instituto para as Obras de Religião (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano, não eram criações dos meios de comunicação.

No passado dia 4 de Dezembro, prosseguiram os trabalhos da segunda série de reuniões do Conselho dos cardeais, instituído pelo Papa Francisco a 30 de Setembro, para o coadjuvar no governo da Igreja universal e para estudar um projecto de revisão da constituição apostólica Pastor bonus sobre a Cúria romana. Declarou que o importante é uma Igreja mais misericordiosa, pobre e missionária.

Muitas vezes, decretos e comissões servem para adiar o inadiável. Este Papa começou por assumir e continua a incarnar aquilo que propõe aos outros membros da Igreja. Para ele, a Igreja não é a hierarquia. Esta é apenas um conjunto de serviços instituídos para escutar, animar e orientar as comunidades cristãs. Mas a hierarquia, antes de ensinar, tem de aprender. As comunidades cristãs têm de viver na transformação do mundo, a partir dos excluídos, dos pobres, de todas as periferias.

O Papa Francisco está, pela sua prática e pelas suas declarações, a ajudar os católicos, as outras igrejas, as outras religiões, os agnósticos e os ateus a olhar o mundo, não a partir dos multimilionários e dos movimentos da Bolsa, mas a partir dos frutos de miséria gerados pela idolatria do dinheiro, do lucro a qualquer preço. Para pronunciar a muito glosada expressão, “esta economia mata”, não precisa de nenhum curso nas mais famosas faculdades de economia e gestão, católicas ou não. Basta ter os olhos abertos. Se ele não tomasse atitudes, não abordasse a questão do desemprego e da situação dos idosos e das crianças pobres, não fazia a ruptura com o mundo das estatísticas, o mundo dos números que abstraem das pessoas. Se fosse mais um fanático das redes e da Internet, teria apenas um contacto virtual com os pobres, sem cheiros e sem incómodos. Com este tipo de intervenções, M. Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de manifestar a sua radical discordância com a economia que mata, mas por outro lado, consta que, em algumas instituições universitárias da igreja, a orientação do ensino da economia, da finança, da gestão e da política, preparam os alunos para esse homicídio.

4. Escolheu as más companhias dos que certa doutrina da Igreja do passado, sem misericórdia, tinha classificado como pecadores ou, pelo menos, em situação irregular, impróprios para se aproximarem da comunhão sacramental. Atacou as obsessões do moralismo incapaz de escutar os homossexuais, as uniões de facto, os divorciados recasados. Para ele não vale tudo, mas o que não vale, de modo nenhum, é uma Igreja que não sabe acolher, não se deixa interrogar, uma Igreja sem a inteligência do coração e sem luta pela justiça social.

Algumas pessoas escandalizam-se com o lugar que ele dá às crianças e aos adolescentes “problemáticos”. A verdade é que deixou que uma criança de seis anos ocupasse a Sede Apostólica, que um bebé lhe tirasse o solidéu e já chegou a colocar este boné sagrado na cabeça de uma miúda.

Há dois mil anos, os apóstolos aborreciam-se ao verem as crianças seduzidas por Jesus e procuravam afastá-las. Agora, dizem que o Papa está a profanar as vestes sagradas. O Papa sabe que as crianças são, diariamente, vítimas de exploração e de maus-tratos, sobretudo, as crianças e os adolescentes que vivem na rua: 120 milhões no mundo inteiro e 30 milhões só na África.

A Capela Sistina é conhecida, venerada e visitada pela sua extraordinária beleza. Aí reúnem-se os cardeais para escolher o futuro bispo de Roma, o papa. Mais importante do que eleger um papa é celebrar um baptismo, a transformação cristã da vida. O Papa Francisco resolveu estabelecer a verdadeira hierarquia no Vaticano. Para celebrar o Baptismo de Jesus, contado nos Evangelhos, baptizou o filho de uma mãe solteira e a filha de um casal, casado apenas pelo civil, nessa Capela (12.01.2014). Não é muito usual. Perante varias mães, pais e 32 crianças, chamou a atenção para a nova orquestra: “Hoje o coro vai cantar, mas o coro mais belo é o das crianças. Algumas delas irão chorar porque têm fome ou porque não estão confortáveis. Estejam à vontade, mamãs: se elas tiverem fome, dêem-lhes de comer, aqui elas são as pessoas mais importantes”. Este Papa já tinha afirmado que as mães não deviam ter problemas em dar de mamar aos seus filhos, durante as cerimónias papais.

Dir-se-á que, nestes dez meses, ainda não teve tempo para se dedicar às mulheres, as mais excluídas na orientação da Igreja, apesar de terem sido elas as enviadas pelo Ressuscitado para evangelizarem os Apóstolos e de, por enquanto, ainda serem a grande maioria. Herdou um terreno minado pela Carta Apostólica, de João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis (22.05.1994). As teólogas feministas e os movimentos de mulheres cristãs certamente o irão ajudar a superar esta dificuldade, que nem é das maiores.

Dirigindo-se à Comissão Teológica Internacional (06.12.2013), em vez de lhes recomendar cautela e ortodoxia, incitou os teólogos a serem pioneiros do diálogo da Igreja com as culturas; a situarem-se como profetas nas fronteiras e não ficando para trás, na caserna. O magistério e os teólogos devem estar atentos às expressões autênticas do sensus fidelium.

A sensibilidade cristã dos fiéis não é só dos homens. As mulheres são sempre as esquecidas. O jornal L’ Osservatore Romano acaba de lançar um suplemento sobre Mulheres, Igreja e Mundo, de circulação mensal, de quatro páginas a cores. Mais vale tarde do que nunca.

Não se pode esquecer a forma como respondeu às perguntas dos Superiores Maiores das Congregações Religiosas. Destacou a importância da qualidade e do estilo da formação dos jovens religiosos. Em todas as ocasiões denuncia o clericalismo, com expressões tais que levam alguns a julgar que pertence a uma organização anticlerical! O Papa perdeu a devoção aos monsenhores. Pobres daqueles que já se julgavam na calha.

Nesse Encontro, a convicção mais abrangente é esta: as grandes mudanças da história acontecem quando a realidade é vista, não a partir do centro, mas da periferia. Trata-se, para o Papa, de uma questão hermenêutica: a realidade não se compreende a partir de um centro equidistante de tudo. Para a entender bem, é preciso mover-se da posição central da tranquilidade, da zona de conforto, para as zonas agitadas das periferias. Este é o melhor caminho para escapar ao centralismo e às focagens ideológicas (Cf. http://www.laciviltacattolica.it/; tradução em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526950-qdespertem-o-mundoq-o-).

Bergoglio quer abrir ao mundo, um futuro novo, mesmo a partir do Vaticano. Quem não gosta das suas inovações, irá sempre encontrar algum precedente para desvalorizar estes atrevimentos. O que importa é subverter a desordem estabelecida, que se tinha transformado numa ordem sagrada.

O Papa mandou uma carta aos futuros cardeais: “O cardinalato não significa uma promoção nem uma honra nem uma condecoração, é simplesmente um serviço que exige ampliar o olhar e alargar o coração”.

Anunciou uma viagem à chamada Terra Santa, nas pegadas de Paulo VI (1963). Não é o desafio religioso e político mais fácil que tem pela frente. Que contributo de justiça e paz poderá oferecer a uma região minada por todas as contradições do mundo?

Frei Bento Domingues

           in Seara Nova

Lisboa, 19 de Janeiro de 2014

26 janeiro 2014

BLOCO DE NOTAS

     
1. O Estado português, mediante o seu governo, deveria exigir uma grande indemnização à Toika, pois ela própria confessa que a receita da austeridade aplicada prejudicou muitos sectores da economia nacional. Se um médico prescreve uma receita, é para curar uma doença. Se ele se enganar e, sobretudo, se avisado persistir na receita, pode ser obrigado a pagar uma indemnização à vítima. Os representantes do FMI, da CE e do BCE, em Portugal, solidarizaram-se com a auto-crítica da senhora C. Lagarde. E não acontece nada?!

2. Os testes internacionais do PISA evidenciam excelentes melhorias nos resultados do nosso sistema escolar, desde o ano 2000. Avisam que alterações à linha seguida podem prejudicar estes bons resultados. As opções quanto à investigação científica e ao ensino superior revelam a sua boa orientação através dos muitos prémios nacionais e internacionais. As medidas da Troika podem prejudicar o caminho percorrido. A grande emigração de jovens diplomados afecta o futuro do país.

3. O desemprego jovem, ou de longa duração, não encoraja a vontade de pôr crianças neste mundo. Este é, talvez, a pior das austeridades.

4. A privatização de empresas fundamentais e lucrativas não é a melhor forma de arranjar dinheiro para pagar a dívida.

5. A nível global, há 35 mil milhões de dólares estacionados em paraísos fiscais. Este montante, que é equivalente a toda a riqueza a criar em Portugal nos próximos 135 anos, mina o comércio internacional e cria uma bola de neve de batota fiscal, com consequências danosas para a economia mundial (João Pedro Martins).

6. A revista Time elegeu o Papa como a figura do ano. Como explicou o seu chefe de redacção, ele situou-se no centro dos mais importantes debates do nosso tempo: sobre a riqueza e a pobreza, equidade e justiça, transparência, modernidade, globalização, papel das mulheres, natureza do casamento e as tentações do poder. No programa Prós e Contras, do dia 9.12.2013, sobre as intervenções do Papa Francisco, com honrosas excepções, martelou-se a ideia de que ele não trouxe nada de novo. Além disso, não sabe nada de economia, doutro modo não diria que esta economia mata. Insistiu-se no facto da Igreja (creio que confundida com a hierarquia) ter um problema de comunicação. Esta Papa é um bom comunicador, mas é melhor ler as encíclicas de Bento XVI e espera-se que escreva um documento a sério sobre a pobreza.

Este método de desclassificação da mensagem e do mensageiro quando não nos agradam é muito velho. Vem direitinho em S. Lucas: (…) não podeis servir a Deus e ao Dinheiro. Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam tudo isto e zombavam dele. Jesus disse-lhes: vós sois como os que querem passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; O que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus (Lc 16, 13-15).

7. No já referido programa surgiu outro tema, que tem tanto de interessante como de aberrante. Refere-se às motivações do Papa, ao preocupar-se com os pobres, os excluídos, as vítimas da história. Insistiu-se que era por causa de Cristo que o Papa chamava a atenção para esse mundo. Não era por causa dos excluídos. Era por razões teológicas e cristãs, por motivos sobrenaturais.

Eu já tinha conhecido um professor de teologia moral que sustentava, perante os alunos, que o amor dos pais pelos filhos só tinha mérito se os amasse por amor a Deus. Os filhos não contavam por serem filhos. Agora, o amor, a dedicação, o socorro dos aflitos só valem se forem uma prática em nome de Cristo. Sem Cristo isso não vale nada.

Espero que o Papa tenha excelentes motivações sobrenaturais. Mas este socorrismo sobrenatural tem, pelo menos, o inconveniente de contradizer o capítulo 25 de S. Mateus e a parábola do Samaritano. Sem nenhum motivo teológico invocado, o Senhor da história diz que aqueles que socorreram os que precisavam, só porque precisavam, sem outro motivo, foi ao próprio Deus que serviram. Jesus escolheu o exemplo de um samaritano – membro do povo adversário de Israel – para o contrapor ao comportamento do sacerdote e do levita, que viram a vítima de um assalto na valeta e passaram adiante.

8. O Papa Francisco, desde o começo das suas atitudes e intervenções até à recente Exortação Apostólica tem proposto a revisão da teologia, da pastoral e das espiritualidades mais recentes e mais em voga. Em muitos casos, tem sido um universo de clérigos e leigos de olhos fechados. Por causa de Deus não vêem o mundo. De facto, nem é por causa de Deus. Já no Genesis, Deus fazia perguntas aborrecidas: que fizeste ao teu irmão? Segundo o Novo Testamento, todo o bem que se faz - só porque o outro precisa - é o encontro com o Absoluto. E até se pode invocar o nome de Deus em vão: não é quem diz Senhor, Senhor que entrará no Reino dos Céus. O seguimento de Jesus nem sempre é por bons motivos: os filhos de Zebedeu, que tinham largado tudo para o seguirem, procuravam fazer carreira política. Desconfio muito de uma religião despreocupada com a transformação dos mundos da injustiça. É uma religião sem ética. É miserável a religião que não é afectada pela miséria daqueles que nada podem fazer pelo seu futuro. A solidariedade que favorece a preguiça é um roubo.

Bom ano!

Frei Bento Domingues, O.P.

12.12.2013
         in Mensageiro de Santo António

NÃO ENTERRAR O BAPTISMO

    
     1. Não me lembro nada de ter sido baptizado. Recebi o crisma na adolescência, mas só me recordo de que o grupo em que fui apresentado escapou todo de uma temida palmada ritual do bispo. Com todo o respeito pelos anabaptistas, sou, no entanto, um defensor fervoroso do baptismo de adultos e de crianças, sem pensar que Deus só se dá bem com os baptizados.

   É verdade que, às vezes, regresso desconsolado e apreensivo com o futuro de certas celebrações baptismais. Que irão fazer os pais para promover a progressiva descoberta do sentido e das exigências inscritas no espantoso programa simbólico do baptismo? A Igreja doméstica – a não confundir com certo beatério familiar – deve ser o espaço de uma evolutiva pedagogia da fé cristã que saiba puxar pelo que há de melhor nas pessoas: a descoberta da alegria no acolhimento dos outros, na partilha e na recusa dos caminhos da injustiça.

  Ser cristão é adoptar o projecto de Jesus Cristo, acolhendo o seu espirito de ruptura com as seduções diabólicas da dominação económica, política e religiosa e o renascimento para a liberdade dos filhos de Deus, sem irmãos excluídos da mesa comum. Não se trata de papaguear fórmulas dogmáticas nem de receber instruções moralistas, mas de uma mudança interior, de uma luz divina, no íntimo da consciência, que se inspira na prática de Jesus e dos seus melhores discípulos       

 Hoje, quero recomendar vivamente uma obra sobre o mergulho baptismal –Take the plunge – e a sua confirmação que nos pode ajudar a reencontrar a Fonte e o Sentido em todas as encruzilhadas da vida[1]. O autor é um dominicano inglês, T. Radcliffe, que já tem outras obras publicadas em português. É professor em Oxford e ex-Mestre Geral da Ordem dos Pregadores. No exercício dessa missão percorreu o mundo. Sempre admirei a sua excepcional capacidade de aprender com todos, em todas as situações. Serve-se de tudo para tecer as suas conferências, a sua pregação e os seus livros de teologia, com uma requintada cultura literária, artística, histórica, bíblica, patrística e sempre em registo ecuménico. O inesgotável sentido de humor não o afasta das manifestações de rua na defesa dos empobrecidos e marginalizados.

 2. As crianças são baptizadas desde o começo do Cristianismo e tornou-se tradição de quase todas as Igrejas Cristãs. Já os Actos dos Apóstolos aludem ao baptismo dos adultos e das suas famílias.

No séc. IV, durante algum tempo, existiu uma tendência para adiar o Baptismo. Não se duvidava da importância de baptizar as crianças. A razão era outra. Este era o Sacramento do grande Perdão. Dada a disciplina penitencial da época, não se queria gastar a sua eficácia antes de tempo. O Baptismo não era garantia de um futuro sem pecado e corria-se o perigo de passar o resto da vida em penitência. Muitas pessoas, como o próprio imperador cristão Constantino, adiavam-no até ao último momento e Jacqueline de Romilly foi baptizada aos 95 anos dizendo: já é tempo! Quando Sto Ambrósio foi eleito Bispo, com a idade de trinta e cinco anos, não era baptizado. Teve de receber este sacramento antes da ordenação.

O baptismo das crianças, apesar dos inconvenientes – antigos e modernos - exprime uma realidade divina e humana que poderíamos ser levados a esquecer no baptismo de adultos: afirma a absoluta gratuidade do amor que Deus nos tem; a criança ainda não fez nada para merecer seja o que for, quer de Deus quer dos pais. Ora, se os pais fazem tudo pelos seus filhos mesmo antes de nascerem, quanto mais o Deus que nos amou primeiro.[2] 

Deus não depende dos nossos méritos. Somos nós que dependemos do seu amor. De qualquer modo, os cristãos são confrontados com narrativas de um Deus que se tornou criança e adolescente, antes de surgir homem feito, como no Evangelho de Marcos, a dizer-nos que tudo pode ser diferente, pois somos amados e impõe-se uma reorientação da vida e de todos os seus valores.   
 3. De adultos ou de crianças, o baptismo é para refazer a vida toda. O ser humano não é de uma peça só e de uma só vez. Vai sendo e nunca de forma linear. A sua morada não é o passado, não é o presente. É a esperança, é o futuro. Sem ele, é o suicídio. Não vale a pena idealizar a infância, a adolescência, a idade adulta ou a da reforma. Se há tanta literatura sobre todas estas idades, é porque nenhuma delas é um paraíso. Por razões diversas, quase ninguém está contente com a idade que tem, mas vivemos num tempo em que é difícil ter crianças e ocupar-se dos idosos. Os desempregados não sabem de que terra são: de mendigar têm vergonha e já não têm condições nem de imigrar nem de ficar. O que é próprio do Baptismo cristão é não se conformar com o mundo como está. A sua natureza é pascal, é passagem, não é resignação.
        Celebrar a data do Baptismo para um renovado encontro com a Fonte e com a Luz, para não esquecermos de onde vimos e para onde vamos.
Frei Bento Domingues, O. P.
26.01.2014  
       in Público


[1] Timothy Radcliffe OP, Imersos na vida de Deus. Viver o Baptismo e a Confirmação, Paulinas, 2013

[2] Jer. 1, 5

   

    

          
 

 




 

19 janeiro 2014

CONSCIÊNCIA ECUMÉNICA, CONSCIÊNCIA BAPTISMAL

        
1. A urgência do diálogo ecuménico nasceu, nos finais do séc. XIX, nas chamadas terras de missão, para vencer o contratestemunho das igrejas cristãs divididas que se hostilizavam no anúncio do Evangelho da paz. As vicissitudes do movimento ecuménico já foram historiadas. Em 1948 foi fundado o Conselho Mundial das Igrejas, em Amesterdão, que tem a Sede internacional em Genebra. É a principal organização ecuménica, com mais de 350 igrejas e denominações, presente em mais de 120 países, excedendo os 500 milhões de fiéis. Trabalha-se, desde há algum tempo, na criação de um Fórum Cristão Global que reúna, sem vínculos institucionais, à volta de uma só mesa de diálogo, as grandes famílias cristãs: ortodoxa, católica, anglicana e protestante.
Cada país tem a sua história ecuménica que, muitas vezes, reproduz a burocracia geral, acrescentando um pouco de inércia local. Com o tempo, instaura-se a tolerância mútua. As Igrejas vivem umas ao lado das outras, sem guerras, na indiferença.
Resultado: esquece-se a falta que os outros nos fazem, para comungar em experiências que nos poderiam provocar a descoberta de caminhos para a fé cristã, que nem suspeitamos. A maioria dos cristãos nada sabe das outras tradições eclesiais, a não ser os lugares-comuns de desconfiança mútua, transmitidos em casa ou nas igrejas. A verdadeira falta de ecumenismo entre as igrejas cristãs é uma falta de cristianismo e não apenas de inconvenientes a propósito de baptismos e casamentos que se resolvem de forma mais ou menos burocrática.
Em certas zonas do mundo, o cenário é devastador: matam-se os cristãos sem perguntar pela identidade eclesial. O cristianismo está a ser completamente eliminado. É urgente um ecumenismo global de socorro.
2. Mais abrangente é o Parlamento Mundial das Religiões. Nasceu em Chicago, em 1893, para fomentar o diálogo inter-religioso. Cem anos depois, voltou a reunir-se na mesma cidade. A 4 de Setembro de 1993, foi assinada a Declaração das Religiões para uma Ética Global, preparada pelo teólogo Hans Küng, guiado pela convicção, que tem justificado e desenvolvido, condensada no aforismo: sem paz entre as religiões, não há paz entre as nações. Parte de uma verificação: o mundo está a experimentar uma crise fundamental e global: na economia, na ecologia e na política. Por toda a parte se verifica a falta de grandes visões, o emaranhado de problemas não resolvidos, a paralisação e as lideranças políticas medíocres, com pouca visão interna e externa e, em geral, muito pouco sentido do bem comum. Centenas de milhões de seres humanos sofrem cada vez mais com o desemprego, a fome e a destruição das suas famílias. Crianças morrem, matam e são mortas. Há cada vez mais países abalados pela corrupção na política e nos negócios. Devido aos conflitos sociais, raciais e étnicos, ao abuso de drogas, ao crime organizado e, até, à anarquia torna-se cada vez mais difícil viver em paz nas nossas cidades. Por vezes, mesmo entre vizinhos, vive-se com medo uns dos outros. O nosso
Planeta continua a ser escandalosamente destruído. Embora a esperança de uma paz duradoura entre as nações nos pareça cada vez mais afastada, sabemos que não é por falta de recursos, de ciência e de técnica que se arrastam mundos mergulhados na miséria e na violência. É por falta de vontade política, de sabedoria e de ética.
3. O Movimento Ecuménico português já apresentou serviço: representantes das Igrejas Católica, Lusitana, Presbiteriana, Metodista e Ortodoxa, em Portugal, irão assinar, no próximo dia 25, em Lisboa, uma declaração de reconhecimento mútuo do baptismo. Ainda bem.
A Capela Sistina é conhecida, venerada e visitada pela sua extraordinária beleza. Aí reúnem-se os cardeais para escolher o futuro bispo de Roma, o papa. Mais importante do que eleger um papa é celebrar um baptismo, a transformação cristã da vida. O Papa Francisco resolveu estabelecer a verdadeira hierarquia no Vaticano. No domingo passado, baptizou o filho de uma mãe solteira e a filha de um casal, casado apenas pelo civil, nessa Capela. Não é muito usual. Perante varias mães, pais e 32 crianças, chamou a atenção para a nova orquestra: “Hoje o coro vai cantar, mas o coro mais belo é o das crianças. Algumas delas irão chorar porque têm fome ou porque não estão confortáveis. Estejam à vontade, mamãs: se elas tiverem fome, dêem-lhes de comer, aqui elas são as pessoas mais importantes”. Este Papa já tinha afirmado que as mães não deviam ter problemas em dar de mamar aos seus filhos, durante as cerimónias papais.
Bergoglio quer abrir ao mundo, um futuro novo, mesmo a partir do Vaticano. Quem não gosta das suas inovações, irá sempre encontrar algum precedente para desvalorizar estes atrevimentos. O que importa é subverter a desordem estabelecida, que se tinha transformado numa ordem sagrada.
 O Papa mandou uma carta aos futuros cardeais: “O cardinalato não significa uma promoção nem uma honra nem uma condecoração, é simplesmente um serviço que exige ampliar o olhar e alargar o coração”.

Ai minha Nossa Senhora!

Frei Bento Domingues, O.P.

19.01.2014

in Público

18 janeiro 2014

Os magos da vida airada

      
Quando vi aqueles três rapazes tão compenetrados na sua função disse para alguém ao meu lado: nestes três parece notar-se a influência de uma boa catequese. Não, não pense nisso, são uns valdevinos. Puseram-nos aqui para os terem quietos e controlados. E eles aceitaram? Pergunta bacoca, se estavam lá era porque tinham aceitado. Daí a resposta: oh, a malta deste tipo aceita sempre coisas em que esteja em destaque. Ah, pois, já tinha ouvido isso! E lá iam eles, muito sérios, com as caçoilas dos presentes para o Menino: oiro, incenso e mirra. Ao chegarem junto do presépio, o que levava o incenso pôs um bocadinho num pequeno prato de barro e acendeu-o. Eu, que não me dou muito bem com incensos, achei aquele bastante suave. Fiz mais uma pergunta: o incenso a arder é para fazer crer que os outros presentes também são verdadeiros? Não, não, é para divulgar o incenso da Etiópia. É mais puro, mais suave, mais barato e, ao mesmo tempo, ajudam-se os produtores locais. É o chamado “comércio justo”. Fiquei admirado: ah, sim, já li isso em qualquer lado, é uma boa ideia. Agora, mesmo longe dos grandes centros consegue-se acompanhar as coisas da mesma maneira. Só é preciso mesmo estar atento. Pois é, disse, agora não há distâncias! Entretanto os três magos lá andavam nas suas voltas combinadas. Não se tratava de uma cerimónia especificamente religiosa, era o início da saída para “cantar os reis”, também dito “cantar as janeiras”. Será que são Mateus, o único a referir este episódio, fala de três reis magos? Fui ver: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» (…) Depois de terem ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra”. Pois é, não fala em reis, nem em três. Continuando o diálogo com o meu vizinho, disse: o rapaz que representa o mago africano é o mais magrinho. Isso é intencional? Tem que ver com o facto de naquela zona os negros serem mais altos e magros? Não, nem pensámos nisso. Vai pintado de preto porque anda sempre a meter-se com uns rapazes africanos que estão aí a estudar. Então, hoje, o preto é ele. Pensávamos que não ia aceitar, mas não, até achou divertido. Está visto que hoje não acertei uma. Ainda bem, as motivações das coisas eram bem melhores do que aquelas que eu supunha. No dia seguinte chamavam aos três rapazes os magos da vida airada. Sorrindo, pensei como seriam os outros. Os do presépio andavam à cata de estrelas para conhecerem o desconhecido. Às tantas foram surpreendidos por uma que lhes deu a volta à vida. Destes dizem que são uns cata-ventos. Quem sabe se um dia uma brisa suave ou um vendaval não os levará para lugares cheios de boas surpresas! Quem sabe!

Frei Matias, O.P.
17.01.2014

Where are the African-American cardinals?

         When Pope Francis named 19 new cardinals Jan. 12, many Catholics cheered what seemed to be an emphasis on diversity, with half of the red hats going to bishops from non-European countries, including parts of the developing world.
        
           But Dolores Foster Williams of Chicago was not exactly pleased.

"I didn't note any African-Americans on the list," said the 84-year-old Williams, who has made eradicating racism in the church her life's work.

A retired teacher and the author of Institutional Racism in the Catholic Church, Williams sees the lack of an African-American cardinal as the "undeniable tip of the church racism iceberg."

"The cardinals are the ones who elect the pope, so we have no representation there. Why aren't we at the table?" The answer, she says, is blatant racism and nepotism.

"Caucasian priests who became cardinals were trained either in Diocesan seminaries or Order seminaries, and their upward progressions appear to have been fostered by influential individuals within those domains," Williams wrote on her blog in September.

And the elevation of African cardinals, while important, doesn't count, she says: "Africans and African-Americans are culturally different."

Williams spoke with NCR in December and again this week after the announcement of the new cardinals. With an apron around her waist and a gold cross around her neck, she welcomed me into her South Side of Chicago home, tastefully decorated with African art, and shared her own experiences of racism in the church.

"I'm not looking to make a name for myself," she said. "I'm not interested in being a spokesman for anything, but I feel it should be known. Something should be done."

In her book, Williams details the church's history of institutional racism, from the segregation of the past to the even more insidious, de facto segregated church attendance of today. That, combined with ...

Heidi Schlumpf    |  Jan. 18, 2014 

[Heidi Schlumpf teaches communication at Aurora University outside Chicago.]

in NCR

http://ncronline.org/news/people/where-are-african-american-cardinals