09 fevereiro 2014

CÓDIGO GENÉTICO (2)


1. Nada é inocente, nada está irremediavelmente perdido, tudo precisa de nascer de novo, a começar pelas palavras da fé cristã e dos seus rituais. A dignidade essencial do ser humano manifesta-se, precisamente, na capacidade de se interrogar, de se corrigir, de mudar de rumo, de não se conformar com o mundo tal como se apresenta. A história do cristianismo está carregada de ambiguidades, de equívocos, de pecados, mas a conversão faz parte do seu caminho de reencontro com o seu “código genético”.

É legítimo dizer, ainda que de modo esquemático, que o cristianismo foi-se afirmando face à cultura e à religiosidade antigas, seguindo um duplo caminho, nem sempre linear, como afirma Isidro Lamelas. Em relação ao judaísmo, rompeu com as práticas rituais e prescrições legais impostas pela religião da Lei, mas não deixou de assimilar muitos dos seus hábitos litúrgicos e cultuais. A prioridade da fé sobre as obras, pelo menos na perspectiva de S. Paulo, implicava, segundo uns, uma ruptura total com a religião de Moisés, enquanto outros preferiam sublinhar a continuidade entre a fé de Abraão e a nova fé em Cristo. No extremo da primeira tendência, temos Marcião e os seus seguidores; no outro extremo, encontramos o judeo-cristianismo persistente, em muitas versões.

No respeitante ao mundo pagão, também foi duplo o critério seguido. Por um lado, foram rejeitadas as suas práticas e convicções religiosas, na medida em que não eram compagináveis com a revelação bíblica. Por isso, os primeiros cristãos foram acusados de ateísmo. Por outro lado, foi assumida a natural religiosidade pagã como preparação para acolher a “verdadeira religião”, identificada com o cristianismo. Enquanto, porém, no paganismo a religião se resume ao culto que, por sua vez, não se distinguia da cultura (vida social e política), no cristianismo, a fé precede o culto, sem se confundir com nenhum tipo de cultura ou sistema religioso[1].

2. O duro e persistente conflito que opôs o cristianismo ao judaísmo e ao paganismo explica-se pela clara destrinça que Jesus Cristo e a sua herança vieram estabelecer entre fé e religião.

A fé cristã não assenta, de facto, nem num Livro sagrado nem na observância da Lei e na reverência ao “Deus dos Pais”, dos antepassados. A sua referência existencial é a experiência do encontro com Jesus real reconhecido como Cristo, Filho de Deus (Abba) e que partilha connosco o seu Espírito de amor filial ( Rom. 8, 14-17).          

Como lembrei no Domingo passado, é num credo trinitário que renascem, por uma radical transformação espiritual, os que acedem ao Baptismo cristão: ”Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Essa invocação é tão decisiva que, no começo da Eucaristia, é sempre com ela que marcamos o nosso corpo celebrante. O desejo de quem preside à Eucaristia retoma as palavras de Paulo (2Cor.13,13): A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco!

Compreende-se que para o Judaísmo e para o Islão, o Cristianismo continue a ser considerado uma religião politeísta ou, pelo menos, um monoteísmo impuro. No cristianismo de rito latino, tirando a atracção que a fé trinitária exerce em algumas correntes místicas, não vai muito além de uma misteriosa fórmula abstracta, de uma matemática estranha, sem influência real, concretizada apenas no nome ligado a algumas pessoas, igrejas ou hospitais. A rede de subtilezas dos teólogos parece o fruto de uma ociosidade mal empregue. O grande filósofo da modernidade, I. Kant, confessava a inutilidade religiosa e ética do dogma da Trindade.

3. Resta portanto a questão de fundo: adianta ou não a fé trinitária das igrejas cristãs implicada na Incarnação do Verbo? Sem ela que perdem os cristãos, as igrejas e a sociedade? Será mesmo assim tão essencial para viver e entender o sentido da vida?

Segundo o filósofo, teólogo e politólogo dominicano, Paul Blanquart[2], a simbólica trinitária é um modelo social e uma forma de pensar e repensar o mundo e a sociedade. É o modelo da perfeita democracia: na indestructível unidade de Deus, as pessoas são todas iguais, todas activas, todas diferentes, sem subordinação e em comunhão. É a existência simultânea do uno e do múltiplo.

Se o ser humano, no mundo, é criado à imagem de Deus, não é indiferente que esse Deus seja pura solidão ou uma comunhão de pessoas. Na experiência humana, se insistimos apenas na unidade, esquecendo as diferenças, temos uma unidade vazia. Se, pelo contrário, insistirmos nas diferenças, pomos em causa a igualdade. A simbólica trinitária serve para, no plano mental e na realidade social, promover a máxima unidade na máxima diversidade. Se nesse modelo, não existe a subordinação das pessoas, também não existe a vontade de poder de umas sobre as outras, existe a alegria da comunhão nas diferenças.

Não é por acaso que Paulo, nas suas cartas, é pela unidade da Igreja na multiplicidade de carismas. Não existe nenhum carisma para abafar os outros.

Não podemos deixar de ouvir a voz de Leonardo Boff, que entende a Trindade como a melhor comunidade. Fica para a próxima.

Frei Bento Domingues, O. P

09.02.2014

in Público



[1] Sim, Cremos. O credo comentado pelos Padres da Igreja, UCP, 2013
[2] Paul Blanquart, Une Histoire de La Ville, Découverte, 2005

À PROCURA DA PALAVRA,


DOMINGO V COMUM   Ano A

"Vós sois a luz do mundo.

Não se pode esconder uma cidade situada num monte.”

Mt 5, 13

 O sal e a luz não se guardam

       Porque a sede de felicidade é de todos, Jesus iniciou o sermão da montanha com a proposta surpreendente das bem-aventuranças. Pequenos-grandes segredos para uma vida que se abre aos outros e que faz dos obstáculos oportunidades de crescimento. Palavras que ecoaram no coração dos que as escutaram, e pelas quais Jesus pautou a sua vida e a dos seus discípulos. Pronunciadas no presente não são ideais impossíveis de alcançar mas o modo como Deus já olha para cada um de nós. "Sal da terra" e "luz do mundo" não são títulos que se hão-de obter num futuro longínquo, depois de provas realizadas, mas realidades que Jesus reconhece já na multidão de "ovelhas sem pastor", de gente pobre e simples que o segue e escuta. Deus ama-nos no tempo presente, e é no presente que revela a grandeza do dom de cada um.

Recentes dados de um estudo europeu revelam um aumento generalizado da corrupção que afecta também o nosso país: "a corrupção está generalizada, piorou nos últimos três anos e afecta o dia-a-dia de mais um terço da população" (Público 03.02.2014). Surpreendente é também a conclusão de Stanton Samenow que tem procurado entender como funciona o cérebro de ladrões, assassinos e burlões: "os criminosos julgam-se íntegros (...). Um homem pode cometer centenas de crimes brutais, mas na sua mente é uma pessoa boa e decente." (Sábado 30.01.2014). Os ouvintes de Jesus e nós entendemos que o sal não só realça o sabor da comida mas também impede a corrupção dos alimentos. Mas para isso é necessário que se misture com os alimentos, assim como os valores de nada servem se permanecem como um ideal que não se põe em prática. Tanto o pensar como o agir se corrompem quando os valores éticos e morais se ficam nas boas intenções, e quando a própria fé se adapta à perda do sentido do valor da vida e dos outros. Creio que foi Gabriel Marcel, um filósofo existencialista cristão, que escreveu: "quem não vive como pensa, acaba por pensar como vive."

 Aprendemos que a luz "viaja" a mais de 300.000 quilómetros por segundo. E que, segundo o Génesis foi a primeira obra da criação. Mas é na sua falta para ver e para pensar, e para tudo o que diz respeito à vida que nos damos conta de como tudo depende dela. Que significa sermos "luz do mundo" e que responsabilidade nos confia Jesus? Primeiro que tudo é urgente revelar a abundância de vida nova e amor que Deus oferece para levar a todos, e que tantas vezes guardamos sem saborear, possuímos sem nos deixarmos contagiar. Depois sermos simples e pobres para descobrir a luz que existe em todos, que dignifica todos e a todos eleva como farol no meio das tempestades. Por fim, que acaba por ser um novo princípio, concretizar a luz em obras boas, pequenos gestos cheios de um grande amor (como dizia Madre Teresa de Calcutá), que iluminam e incendeiam os caminhos do mundo. Pouca luz vêm os que teimam em fechar os olhos (e candidatam-se a uns belos trambolhões)!

P. Vitor Gonçalves

in Voz da Verdade 09.02.2014

08 fevereiro 2014

Tradução do Comunicado do IMWAC



O recente comunicado contra o Vaticano, emitido pelo Comité para a Implementação da Convenção dos Direitos da Criança, confirma, com a autoridade imanente a uma estrutura das Nações Unidas, aquilo que já é sabido há algum tempo e que as vítimas de abusos sexuais têm vindo a denunciar, há anos.

 O Movimento Internacional Nós Somos Igreja (IMWAC) tem sido parte da mobilização internacional referente a este assunto tão grave e partilha a posição do Comité, no que respeita à forma como o Vaticano tem lidado, na maioria dos casos, com o tema dos padres pedófilos, na Igreja Católica. As tentativas de minimizar a responsabilidade vários dirigentes da Igreja estão em contradição com a realidade; relatórios e julgamentos ocorridos em diferentes países mostram-no agora com clareza.

Sabemos que a responsabilidade por esta situação não é apenas de padres ou bispos, mas também das instâncias centrais da Igreja. O Vaticano teve a grave responsabilidade de ter tentado lavar a roupa suja em casa e, assim, foi mal lavada ou nem sequer lavada e decididamente tarde demais.
O Papa Francisco tem de ser intransigente e agir rapidamente. A decisão de criar uma comissão ad hoc é totalmente inadequada. É necessária uma directiva que imponha às Conferências de Bispos dos diversos países o dever de transparência e  divulgação. As autoridades da Igreja devem ser obrigadas a aceitar, pedir e apoiar a acusação, pelo sistema judiciário, de alegados perpetradores. Estas obrigações foram , e ainda são, teimosamente recusadas pelo CEI, a Conferência Italiana de Bispos, como foi confirmado no recente encontro do seu Conselho Permanente, apesar de, em Itália, se terem cometido tantos crimes como em qualquer outra parte do mundo. Como crentes no Evangelho e membros desta Igreja lamentamos profundamente esta situação, que nos causa sofrimento, e não a esquecemos nas nossas orações,

 
 
Traduzido pela Conceição Brito Lopes, a quem desde já  muito agradecemos
 

 

07 fevereiro 2014

Comunicado do IMWAC


NOTA: Posteriormente enviaremos a tradução

International Movement We Are Church – IMWAC
Movimiento internacional Somos-Iglesia
Movimento Internacional Nós somos Igreja
Movimento Internazionale Noi siamo Chiesa
Mouvement international Nous sommes Eglise
Internationale Bewegung Wir sind Kirche
 

 

FOR IMMEDIATE RELEASE

 

The recent statement against the Vatican of the Committee for the implementation of the Convention on the Rights of the Child confirms, with the authority of a structure of the United Nations, what has been known for some time and what the victims of sexual abuses have denounced for years.
The International Movement We Are Church (IMWAC) has been part of the international mobilization on this very serious issue and share the position of the Committee, concerning how the Vatican has dealt, in the majority of cases, with the issue of pedophile priests in the Catholic Church. The attempts to minimize the responsibility of too many Church leaders are at odds with reality; reports and judgments from different countries make now this very clear.
We know that the responsibility for this situation is not of individual priests or bishops only, but goes back to the central structures of the Church. The Vatican had the serious responsibility of having tried to wash the dirty linen at home, and in this way they were washed badly or not at all, and certainly too late.
Pope Francis needs to be intransigent and to take action very quickly. The decision to establish an ad hoc committee is completely inadequate. There is a need for a directive, which should impose to the Bishops' Conferences in the different countries obligations of transparency and publicity.  Church authorities should be obliged to accept, request and support the prosecution of the alleged perpetrators by the judiciary.
These obligations were, and are still, stubbornly refused by the CEI, the Italian Bishops Conference, as confirmed in the recent meeting of its Permanent Council, despite that pedophilia crimes have been committed by the clergy in Italy not less than in other countries.
As believers in the gospel and members of this Church we are deeply saddened by this situation, which makes us suffer and for which we pray.

* * *







The International Movement We Are Church, founded in Rome in 1996, is represented in more than twenty countries on all continents and is networking world-wide with similar-minded reform groups. We Are Church is an international movement within the Roman-Catholic Church and aims at renewal on the basis of the Second Vatican Council (1962-1965). We Are Church was started in Austria in 1995 with a church referendum.

02 fevereiro 2014

UMA NOVA VEDETA POUCO APRECIADA NO VATICANO


As sacristias costumam ser mais pequenas e mais reservadas do que as igrejas. Os laicos foram, muitas vezes, acusados de quererem trancar a igreja na sacristia. Era uma forma de dizer que os incréus não gostam de encontrar os padres, os bispos, e os papas no espaço público: a Deus o que é de Deus – os espaços sagrados - e a César o que é de César, tudo o resto. Esta vontade de separar confunde tudo. Agora, a confusão é outra e bendita: o Papa Francisco, sem iniciativas vaticanas, surge como a personalidade do ano na revista Time e é a capa da última revista Rolling Stone.

 No seu interior, e também na edição online, a revista publica um longo perfil do Papa Francisco, com o subtítulo “Por dentro da suave revolução do Papa”. No artigo, o pontífice é descrito como sendo radicalmente diferente do antecessor e responsável por mudanças na forma como católicos e não católicos vêem a igreja.

Depois do papado desastroso de Bento […], o domínio que Francisco tem em competências básicas como sorrir em público pareceram um pequeno milagre para o católico típico. Mas ele tinha mudanças bem mais radicais em mente, escreve o jornalista Mark Binelli, que enumera factos que vão da renúncia ao palácio que tradicionalmente os Papas habitam até à postura muito mais suave em relação aos homossexuais. O texto lembra como Francisco respondeu a uma questão sobre padres homossexuais com uma outra pergunta: “Quem sou eu para julgar?”.

O Vaticano fez constar que não gostou. Como poderia gostar, se não acha graça nenhuma aos atrevimentos do Papa Francisco? O que lhe agradava era a clonagem do anterior.

O que, porém, importa destacar é o seguinte: o que os incréus não gostavam nem gostam é da clericalização da sociedade, onde sejam os papas, os bispos e os padres a mandar até nos costumes e nas consciências: fazer do mundo uma grande sacristia. Como este Papa surge sem vontade de se impor e dominar as consciências, mas apenas como alguém que desperta, com alegria, as pessoas para a solidariedade, passou a dar sentido, em todas as situações, à palavra Evangelho, que, muitas vezes, os comentários nas missas tornavam uma tristeza. Tomás de Aquino, que ele cita bastantes vezes, sustenta que a tristeza é a pior das paixões, a alteração psicológica a que hoje chamamos depressão. O modo do Papa ser Igreja, tornou-se uma alegria disponível para todas as pessoas que precisam de um ombro, de ser acolhidas.

Há 2000 anos havia uma surpreendente criatura que fazia um estranho convite: Vinde a Mim vós todos que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei.

Os seus genes não foram perdidos.
              Frei Bento Domingues, O.P.
         01.01.2014

CÓDIGO GENÉTICO (1)

       
         1. Fui interpelado acerca do texto do Domingo passado com duas perguntas pouco inocentes: haverá um baptismo para homens e outro para mulheres e será possível abordar o baptismo cristão sem falar da democracia na Igreja?
         As tentativas de “resposta” só podem ser de ordem histórica e teológica. Na Idade Média, perante a floresta de símbolos que povoavam o imaginário sagrado do culto, das devoções e superstições, foram recortadas sete celebrações fundamentais, os sete sacramentos. No registo do pensamento analógico, são entendidos como irradiações da Páscoa de Cristo, nas etapas mais típicas e estruturantes da vida sacramental da Igreja. O baptismo é a porta de entrada, personalizada e comunitária, num processo vital da graça transfiguradora da existência humana no seu devir espiritual, do nascimento à morte, na esperança da ressurreição. A omnipresença da graça não suprime a liberdade humana nem o mistério da iniquidade actuante na nossa história
        No código genético cristão, não se conhece um baptismo para homens e outro para mulheres. Sendo assim, elas perguntam: qual é a deficiência natural ou sobrenatural de que sofremos para não podermos ser chamadas a receber o sacramento da ordem integrado pelo diaconado, presbiterado e episcopado?
        Referem-se a uma situação de facto na Igreja católica romana e nas Igrejas ortodoxas. Para muitas teólogas e teólogos católicos trata-se de uma anomalia antiga que já vai sendo tempo de superar. Não existe nenhuma maldição de Cristo a dizer que as mulheres ficavam para sempre excluídas da possibilidade de serem chamadas aos ditos “ministérios ordenados”. As Igrejas protestantes, que assinaram o acordo baptismal com a Igreja católica romana e ortodoxa, estão a seguir um caminho diferente.
        2. Pode-se falar do Baptismo, sem abordar a questão da democracia na Igreja? Era a segunda pergunta. A democracia não é uma invenção moderna. Amartya Sen (1933 -), considerado o mais humanista dos economistas, presta homenagem à Grécia que, no séc. VI (a. C.), adoptou um sistema eleitoral e cultivou o debate público. Os gregos, aliás, gostavam muito mais do diálogo com os persas, os indianos e os egípcios do que com os godos e visigodos. Alexandre Magno passou mais de um ano na Índia e os intelectuais da época estavam fascinados pelo Oriente que recebeu da Grécia o sistema eleitoral antes da França, da Alemanha ou da Grã-Bretanha. Seis séculos antes da Magna Carta inglesa, o Japão estava dotado de uma Constituição que impunha ao imperador consultas antes de decidir. A Índia vive uma antiga tradição de debate público, onde tudo poderia ser discutido.
       A democracia, tal como a conhecemos hoje, é o produto da modernidade, do século das Luzes, sendo a sua história e a sua geografia muito mais vastas e antigas. Sem uma persistente educação para a cidadania e para a tornar uma atitude, uma tarefa permanente, uma forma de vida pessoal nas suas múltiplas relações, acaba por se esvaziar e ficar resumida a alguns momentos rituais que até eles tendem a desaparecer.
       Recordo isto para dizer o seguinte: Desde o Vaticano II, os documentos da doutrina social da hierarquia católica, são abundantes e insistentes na defesa da democracia política, económica, social e cultural. O que diz respeito a todos deve ser tarefa de todos, para benefício de todos, segundo as capacidades de cada um. Para serem democráticas, as instituições não devem sufocar, antes estimular, a criatividade social, em todas as suas manifestações. Não podem contribuir para uma sociedade de privilégios, de monopólios, de opressão dos mais fracos pelos mais fortes. Os conflitos são inevitáveis. A controvérsia é normal. Os cidadãos não são clonáveis. A democracia é o regime da cooperação.
       Esses documentos rompem com os receios e ataques do magistério eclesiástico do séc. XIX e princípios do séc. XX. A generosidade actual não se estende a uma gestão democrática da Igreja. Repete-se que a Igreja não é uma democracia.
       3. Importa, no entanto, não fechar demasiado depressa esse dossier. A concepção hierárquica neoplatónica vê a Igreja como uma pirâmide, um sistema escalonado: Deus, Cristo, o papa, os bispos, os padres e os diáconos, seguidos dos religiosos e, finalmente os “leigos”, primeiro os homens, depois as mulheres e as crianças. Nesse esquema, o Espírito Santo vai de férias. Ao “Vigário de Cristo”, com a sua infalibilidade definida no Vat. I, basta-lhe exigir obediência.
      Quando se diz que a Igreja não é uma democracia continua-se a pensar na pirâmide, esquecendo que os seus membros, homens e mulheres, renascidos de um só baptismo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, formam uma vasta comunhão de fraternidades de profetas e sacerdotes do povo cristão ao serviço da humanidade inteira, na sua unidade plural.
       A Igreja cristã não vive num vazio sociocultural e político. Não pode viver num gueto. Embora deva manter um distanciamento crítico em relação às estruturas socio-políticas – não são o Reino de Deus realizado –, mas uma gestão democrática do seu governo será sempre preferível, em qualquer circunstância, a um regime autoritário. Do código genético baptismal, não constam os genes de ditadura na Igreja.

       Frei Bento Domingues, O. P.

       02.02.2014

       in Público                                                                         
    

01 fevereiro 2014

OS DEZ MESES DO PAPA FRANCISCO

         
1. No dia 11 de Dezembro de 2013, a Revista Time elegeu o Papa Francisco como a pessoa do ano. É raro que um novo protagonista consiga tanta atenção no palco do mundo e em tão pouco tempo. Cativou milhões que tinham perdido a esperança na Igreja. Nancy Gibbs, directora da Time, sintetizou as razões substanciais da escolha feita: “em nove meses, ele soube colocar-se no centro das discussões essenciais da nossa época: a riqueza e a pobreza, a equidade e a justiça, a transparência, a modernidade, a globalização, o papel da mulher, a natureza do casamento, as tentações do poder”.

Tentei, na Revista 2 do Público (22.12.2013), fazer um balanço desses nove meses. Não o renego nem julgo que haja mudanças de rumo. Pelo contrário. No entanto, o percurso é cada vez mais surpreendente e, para o mundo conservador, dentro e fora da Igreja, há sempre medo do dia seguinte. É o sentido desta reflexão.

Quando Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, aceitou ser Bispo de Roma, Papa da Igreja Católica Romana, não estava garantido o sucesso do caminho que escolheu. A renúncia de Bento XVI, mas querendo ficar por perto, era mais do que ambígua. Esteve muito tempo na Cúria, com imensas ocasiões para actuar e deixou apodrecer a situação até ao impossível. Ficar por perto, para quê? Não se entende, mas também não adianta levantar suposições inverificáveis ou fazer processos de intenção.

O Papa Francisco sabia que a primeira coisa que lhe era pedida pela opinião pública era uma operação de limpeza da Cúria pontifícia. O mais urgente seria varrer a casa: pôr a andar os que não queriam ou já não podiam mudar e formar um governo novo. Tinha-se tornado insuportável, para qualquer católico decente, ver a insistência dos meios de comunicação em narrativas de tenebrosos escândalos financeiros da banca do Vaticano e as revoadas de padres e até de bispos acusados de pedofilia. Consta que as indeminizações exigidas a certas dioceses deixaram-nas na absoluta penúria. Era evidente que as carradas de publicações moralistas, revestidas de pinceladas teológicas e de unção espiritualista, assinadas pelos papas, tinham perdido qualquer encanto. As periódicas campanhas temáticas, distribuídas pelas dioceses, tinham esgotado a sua precária eficácia. As viagens dos papas eram caras e entendidas como fuga às reformas de fundo, sempre adiadas.

Que fazer então?

2. O Papa tomou algumas decisões, mas não caiu na tentação de governar por decretos. Era preciso mudar tudo, a começar por ele próprio e do modo mais rápido e simples. Foi o que fez logo na primeira saudação, à janela do Vaticano e nunca mais parou: “Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe deu e às necessidades actuais da evangelização” (Evangelli Gaudium, n. 32).

Nos meios conservadores, há muitas vozes contra as suas movimentações e declarações: este papa está a estragar a Igreja e a minar a sua doutrina mais segura; é tão descontraído a falar das coisas mais sérias que não parece o supremo guardião das certezas, mas um semeador de dúvidas; não sendo economista, atreve-se a dizer que esta economia de exclusão e de desigualdade mata; atacou o capitalismo como uma nova tirania; os alertas contra a corrupção, dentro e fora do Vaticano, colocaram-no na mira das máfias.

Em termos de balanço provisório destes dez meses de Papa, convém não perder de vista a história. A Igreja Católica Romana, mediante a ousadia inesperada e descontraída do velho Papa João XXIII, tinha começado uma grande revolução religiosa, no mundo contemporâneo. Ao convocar o Concílio Vaticano II, apontou um caminho que devolvia a palavra à Igreja, não identificada com a hierarquia, mas com o povo da graça de Deus, no qual, todos são sujeitos, em comunhão, na vida da Igreja.

Para as gerações mais novas, sejam leigos ou clérigos, a memória actuante desse acontecimento dos anos 60 do século passado (1962-1965), perdeu-se. Mesmo os que o acompanharam e seguiram com entusiasmo acabaram por ter a sensação de que tudo aquilo tinha sido num belo sonho sem futuro. Eram os “vencidos do catolicismo” do poema de Ruy Belo e dos comentários de João Bénard da Costa. Para os que consideraram o Vaticano II como um desastre para a Igreja, o importante era esquecer esse concílio.

Tanto os que se sentiram defraudados, como os que consideravam que o Concílio tinha sido uma má ideia, as reacções pró e contra não tiveram a mesma intensidade e as mesmas manifestações, em todos os grupos. No entanto, a mentalidade restauracionista do pós-concilio tentou agir de forma global: nomear bispos conservadores para todo o lado, sobretudo para a América Latina, publicar um novo Direito Canónico e um Catecismo Católico que os equipasse para recorrer à doutrina, sã e segura, e às boas orientações pastorais.

Importante também era eliminar as correntes teológicas – da Europa Central, Estados Unidos, América Latina, Ásia e África – que pudessem questionar essa normalização. No terreno, ficou quase só a Teologia do cardeal Ratzinger e dos que a repetiam. Ele era o teólogo da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, o próprio Papa.

Enquanto tudo se passava no campo teológico e na administração eclesiástica, os ecos públicos desse mal-estar eram sempre limitados. Tudo mudou, quando os meios de comunicação começaram a encher-se de casos terríveis de pedofilia e da lavagem de dinheiro, como já referimos. Aí já não era possível alimentar hipocrisias. Os que procuraram fazer esquecer o que o Vaticano II tinha de mais inovador e pensavam recuperar o prestígio da Igreja, mediante operações restauracionistas ou de movimentos de santidade privilegiada, ficaram sem qualquer estratégia. João Paulo II deixou-se imolar pelo sacrifício e Bento XVI chegou à conclusão que não tinha saídas para nada. Entretanto, o cristianismo, em vários países da América Latina, enchia as Igrejas Pentecostais.

 3. No dia 8 de Agosto, o Papa Francisco publicou um conjunto de novas regras sobre o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, que passou pela criação de uma Comissão de Segurança Financeira no Vaticano com a finalidade de coordenar as Autoridades competentes da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano em matéria de prevenção e de combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e à proliferação de armas de destruição maciça. A Carta Apostólica foi publicada em forma de Motu Proprio, o que significa, nas regras do Vaticano, que é uma iniciativa pessoal do Papa. Os artigos acerca da finalidade da referida Comissão denunciam que os escândalos atribuídos ao Instituto para as Obras de Religião (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano, não eram criações dos meios de comunicação.

No passado dia 4 de Dezembro, prosseguiram os trabalhos da segunda série de reuniões do Conselho dos cardeais, instituído pelo Papa Francisco a 30 de Setembro, para o coadjuvar no governo da Igreja universal e para estudar um projecto de revisão da constituição apostólica Pastor bonus sobre a Cúria romana. Declarou que o importante é uma Igreja mais misericordiosa, pobre e missionária.

Muitas vezes, decretos e comissões servem para adiar o inadiável. Este Papa começou por assumir e continua a incarnar aquilo que propõe aos outros membros da Igreja. Para ele, a Igreja não é a hierarquia. Esta é apenas um conjunto de serviços instituídos para escutar, animar e orientar as comunidades cristãs. Mas a hierarquia, antes de ensinar, tem de aprender. As comunidades cristãs têm de viver na transformação do mundo, a partir dos excluídos, dos pobres, de todas as periferias.

O Papa Francisco está, pela sua prática e pelas suas declarações, a ajudar os católicos, as outras igrejas, as outras religiões, os agnósticos e os ateus a olhar o mundo, não a partir dos multimilionários e dos movimentos da Bolsa, mas a partir dos frutos de miséria gerados pela idolatria do dinheiro, do lucro a qualquer preço. Para pronunciar a muito glosada expressão, “esta economia mata”, não precisa de nenhum curso nas mais famosas faculdades de economia e gestão, católicas ou não. Basta ter os olhos abertos. Se ele não tomasse atitudes, não abordasse a questão do desemprego e da situação dos idosos e das crianças pobres, não fazia a ruptura com o mundo das estatísticas, o mundo dos números que abstraem das pessoas. Se fosse mais um fanático das redes e da Internet, teria apenas um contacto virtual com os pobres, sem cheiros e sem incómodos. Com este tipo de intervenções, M. Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de manifestar a sua radical discordância com a economia que mata, mas por outro lado, consta que, em algumas instituições universitárias da igreja, a orientação do ensino da economia, da finança, da gestão e da política, preparam os alunos para esse homicídio.

4. Escolheu as más companhias dos que certa doutrina da Igreja do passado, sem misericórdia, tinha classificado como pecadores ou, pelo menos, em situação irregular, impróprios para se aproximarem da comunhão sacramental. Atacou as obsessões do moralismo incapaz de escutar os homossexuais, as uniões de facto, os divorciados recasados. Para ele não vale tudo, mas o que não vale, de modo nenhum, é uma Igreja que não sabe acolher, não se deixa interrogar, uma Igreja sem a inteligência do coração e sem luta pela justiça social.

Algumas pessoas escandalizam-se com o lugar que ele dá às crianças e aos adolescentes “problemáticos”. A verdade é que deixou que uma criança de seis anos ocupasse a Sede Apostólica, que um bebé lhe tirasse o solidéu e já chegou a colocar este boné sagrado na cabeça de uma miúda.

Há dois mil anos, os apóstolos aborreciam-se ao verem as crianças seduzidas por Jesus e procuravam afastá-las. Agora, dizem que o Papa está a profanar as vestes sagradas. O Papa sabe que as crianças são, diariamente, vítimas de exploração e de maus-tratos, sobretudo, as crianças e os adolescentes que vivem na rua: 120 milhões no mundo inteiro e 30 milhões só na África.

A Capela Sistina é conhecida, venerada e visitada pela sua extraordinária beleza. Aí reúnem-se os cardeais para escolher o futuro bispo de Roma, o papa. Mais importante do que eleger um papa é celebrar um baptismo, a transformação cristã da vida. O Papa Francisco resolveu estabelecer a verdadeira hierarquia no Vaticano. Para celebrar o Baptismo de Jesus, contado nos Evangelhos, baptizou o filho de uma mãe solteira e a filha de um casal, casado apenas pelo civil, nessa Capela (12.01.2014). Não é muito usual. Perante varias mães, pais e 32 crianças, chamou a atenção para a nova orquestra: “Hoje o coro vai cantar, mas o coro mais belo é o das crianças. Algumas delas irão chorar porque têm fome ou porque não estão confortáveis. Estejam à vontade, mamãs: se elas tiverem fome, dêem-lhes de comer, aqui elas são as pessoas mais importantes”. Este Papa já tinha afirmado que as mães não deviam ter problemas em dar de mamar aos seus filhos, durante as cerimónias papais.

Dir-se-á que, nestes dez meses, ainda não teve tempo para se dedicar às mulheres, as mais excluídas na orientação da Igreja, apesar de terem sido elas as enviadas pelo Ressuscitado para evangelizarem os Apóstolos e de, por enquanto, ainda serem a grande maioria. Herdou um terreno minado pela Carta Apostólica, de João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis (22.05.1994). As teólogas feministas e os movimentos de mulheres cristãs certamente o irão ajudar a superar esta dificuldade, que nem é das maiores.

Dirigindo-se à Comissão Teológica Internacional (06.12.2013), em vez de lhes recomendar cautela e ortodoxia, incitou os teólogos a serem pioneiros do diálogo da Igreja com as culturas; a situarem-se como profetas nas fronteiras e não ficando para trás, na caserna. O magistério e os teólogos devem estar atentos às expressões autênticas do sensus fidelium.

A sensibilidade cristã dos fiéis não é só dos homens. As mulheres são sempre as esquecidas. O jornal L’ Osservatore Romano acaba de lançar um suplemento sobre Mulheres, Igreja e Mundo, de circulação mensal, de quatro páginas a cores. Mais vale tarde do que nunca.

Não se pode esquecer a forma como respondeu às perguntas dos Superiores Maiores das Congregações Religiosas. Destacou a importância da qualidade e do estilo da formação dos jovens religiosos. Em todas as ocasiões denuncia o clericalismo, com expressões tais que levam alguns a julgar que pertence a uma organização anticlerical! O Papa perdeu a devoção aos monsenhores. Pobres daqueles que já se julgavam na calha.

Nesse Encontro, a convicção mais abrangente é esta: as grandes mudanças da história acontecem quando a realidade é vista, não a partir do centro, mas da periferia. Trata-se, para o Papa, de uma questão hermenêutica: a realidade não se compreende a partir de um centro equidistante de tudo. Para a entender bem, é preciso mover-se da posição central da tranquilidade, da zona de conforto, para as zonas agitadas das periferias. Este é o melhor caminho para escapar ao centralismo e às focagens ideológicas (Cf. http://www.laciviltacattolica.it/; tradução em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526950-qdespertem-o-mundoq-o-).

Bergoglio quer abrir ao mundo, um futuro novo, mesmo a partir do Vaticano. Quem não gosta das suas inovações, irá sempre encontrar algum precedente para desvalorizar estes atrevimentos. O que importa é subverter a desordem estabelecida, que se tinha transformado numa ordem sagrada.

O Papa mandou uma carta aos futuros cardeais: “O cardinalato não significa uma promoção nem uma honra nem uma condecoração, é simplesmente um serviço que exige ampliar o olhar e alargar o coração”.

Anunciou uma viagem à chamada Terra Santa, nas pegadas de Paulo VI (1963). Não é o desafio religioso e político mais fácil que tem pela frente. Que contributo de justiça e paz poderá oferecer a uma região minada por todas as contradições do mundo?

Frei Bento Domingues

           in Seara Nova

Lisboa, 19 de Janeiro de 2014