02 março 2014

O SER HUMANO TEM CURA (1)

    
  1. Este título contraria a conhecida sentença antropológica de José Saramago induzida da História e da observação quotidiana: o ser humano não tem cura. A patologia de que sofre parece resultar de um defeito de fabrico. É um animal que leva muito tempo para nascer e, em comparação com os outros mamíferos, vem mal equipado para enfrentar o mundo envolvente.

Uma criança vem ao mundo com enormes vantagens potenciais quanto a inteligência, emoções, linguagem, criatividade estética e capacidade técnica. É uma personalidade em gestação, um centro de relações com uma comunidade de conhecimento e de afectos que a precedeu e a torna apta para sonhar, projectar e realizar o que nunca existiu ou para destruir um património de milênios. As neurociências e as nanotecnologias prenunciam uma caixa de surpresas nos subterrâneos da mente, sem um alarme ético a avisar que nem tudo o que é possível fazer deve ser concretizado.  

Sem entrar nesse vasto mundo de conjecturas, olhando para o passado e para o nosso presente, cresce a sensação de que nunca mais ganharemos juízo. A Europa, por exemplo, talvez nunca tenha conhecido, como nos últimos 60 anos, um tempo tão longo de paz. No séc. XX, foi devastada por duas guerras mundiais. No entanto, foi possível reconstruir-se e gozar uma época de desenvolvimento. Caiu o muro que a dividia. Alimentou a ideia de que a democracia seria não só uma aspiração, mas uma realidade praticável, numa Europa solidária.

      2. Quando, porém, a Europa parecia curada, não houve paciência para estudar e calcular as consequências de cada uma das instituições que criava, dos tratados que assinava e das decisões que tomava, para o desenvolvimento de uma consciência europeia dos cidadãos e dos países com identidades próprias, a respeitar e a promover. Uma Europa democrática esquecida da democracia, ignorando as suas raízes e as suas culturas, sem um estilo de acolhimento da emigração que evitasse os guetos, só podia dar no impossível. Sem espírito europeu, nunca haverá União Europeia auto-sustentável.

A pressa em alargar, antes de experimentar e avaliar a Europa dos pequenos passos na direcção certa, perante situações tão díspares, não podia dar bons resultados. Agora, é a pressa em debitar soluções para sair do euro, para ficar no euro, para sair da UE, para continuar na UE, sem que os europeus saibam, em concreto, as vantagens e os riscos de qualquer dessas soluções. Os europeus, trabalhadores e empresários, sem dados concretos sobre a raiz das rejeições ou decisões, como poderão avaliar o que os beneficia ou prejudica? As conversas acerca dos prós e contras da troika são inúteis, se não servirem para colocar os portugueses a pensar e discutir o que lhes convém para depois da troika. As exigências de marketing eleitoral não devem servir para nos esconder os jogos dos mercados, da banca, dos poderes, nacionais e internacionais. Somos nós que precisamos de saber quais são os jogos e as regras a que nos obrigam.

3. Maria João Rodrigues[1], depois de muitos anos a viajar pela Europa, a viver e trabalhar com pessoas de tão diferentes nacionalidades, admira: “a organização dos alemães, o espírito crítico dos franceses, o profissionalismo sofisticado dos britânicos, a criatividade dos italianos, a sabedoria dos nórdicos, a têmpera combativa dos espanhóis, a abertura cultural dos portugueses e por aí adiante”. Ficam as interrogações: Quantas pontes precisaríamos de criar para restaurar a confiança, assegurar uma vida decente hoje e preparar o futuro? Quantas iniciativas europeias serão necessárias para as construir? Quantos europeus quererão falar europeu?

A Europa não é o mundo nem pode ser uma fortaleza, um mar de morte, e o Mediterrâneo, um cemitério. Reconhecido ou negado, o ser humano existe nos seres humanos. Em todos.

Conta Fr. Bartolomeu de Las Casas, na sua História das Índias, que no dia 21 de Dezembro de 1511, Fr. Antón Montesinos subiu ao púlpito, levando mandato de toda a comunidade dominicana da Isla Española[2], para, como voz de Cristo, tomar a defesa pública dos índios explorados: “esta voz, disse ele, declara que todos estais em pecado mortal e nele viveis e morrereis, pela crueldade e tirania que usais com estas inocentes gentes. Dizei-me: com que direito e com que justiça tendes estes índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam nas suas terras, mansas e pacíficas, onde consumistes um número infindável delas, com mortes e estragos nunca ouvidos? Como é que os tendes tão oprimidos e esgotados, sem lhes dar de comer nem curar as suas doenças, que pelos excessivos trabalhos a que os sujeitais, vos morrem, melhor será dizer, os matais, para arrancarem e conseguirem ouro todos os dias. (…) Estes não são homens? Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis isto? Não sentis isto? Como estais adormecidos num sono tão profundo e letárgico? (…)

O ser humano tem cura, mas precisa de tomar os remédios. Quais?

Frei Bento Domingues O. P.

02.03.2014



[1] A Europa ainda é possível, Presença, 2013.pp 133
[2] Isla Española, actual República Dominicana

23 fevereiro 2014

Há esperança de graça na praça

   
Chama-se Ana. Lembrei-me dela quando, no dia 2, ouvi na igreja falar da velha Ana e do velho Simeão. Uma pregação distante da realidade desta outra Ana mas, ainda assim, com possibilidades de alguma aproximação. Diz-se que a velha Ana tinha 84 anos, um número mágico formado por sete vezes doze. O número doze significaria o povo judeu e o número sete a universalidade. Como é evidente a Ana da praça não tem uma projeção tão importante, mas para um grande número de pessoas também representa muita esperança. Uma esperança em coisas talvez triviais mas sem as quais não há currículo que valha à vida. Por casualidade soube que esta Ana tem neste momento quarenta e nove anos, número que, fazendo as contas, é formado por sete vezes sete. É coisa engraçada a engenhoca dos números. Mas porque é que há esperança na praça e de graça? Porque a Ana vende na praça e porque, mais dia, menos dia, acaba por arranjar tudo aquilo que as pessoas desejam. Nunca deixa ninguém desalentado. Diz sempre: oh querida, hoje não tenho mas vem amanhã; oh filho, isso agora é difícil encontrar, mas vem cá para a semana; oh amor, hoje é quinta, não é? No sábado já podes levar. E diz estas coisas com uma voz tão carinhosa que impressiona. Às vezes apetece-me pedir qualquer coisa que ela não tenha só para ouvir as suas palavras doces e sentir a esperança da promessa que ela faz. Mas não o faço, apenas sorrio com satisfação. Em que é que esta Ana é parecida com a outra, a dois mil anos de distância? Se calhar em nada, ou então em tudo. As duas, como diz o nome, são cheias de graça ou queridas de Deus. E em ambas se destaca uma relação humana acima do que é comum, uma esperança que é animada e uma promessa que é cumprida. Bem sei que o negócio não é amigo do milagre, talvez até lhe seja hostil. Por isso, quando alguém, mesmo dentro do negócio, dá uma oportunidade ao milagre fico admirado. A primeira Ana apresentou o que é considerado o melhor caminho alternativo às injustiças, ao egoísmo, à inimizade, à religião como lugar de condenação. Esta Ana promove um relacionamento amável, um encontro de interesses, a esperança de se alcançar o que se pretende, uma religião que assenta na ligação entre as pessoas. É verdade que não se pode viver sem euros, dólares e todas as outras moedas, mas qual é o seu valor? Há quem as veja como pequenos deuses caseiros, coitados, a quem adoram sem reservas. Mas para que servem esses deuses? Na verdade só terão grandeza se, nas várias dimensões da vida, nos tornarem grandes em humanidade. Esta Ana, como qualquer outra pessoa, trabalha para ganhar a vida. Mas ela vai mais longe, procura satisfazer os desejos e aspirações de quem a procura e nela confia. Por isso, na praça, ela é uma esperança. E de graça. Alguém dirá que ela é sobretudo uma grande vedeta. Talvez, mas o resultado é benéfico para todos e aquilo que não tem preço é provavelmente o melhor. Prosaico? Importante? Sei lá, cada um é que sabe da sua salvação, da sua verdadeira felicidade. É por aí que anda o milagre mesmo por entre negócios.

Frei Matias, O.P.

20.02.2014
    
 

QUEM SÃO OS ZELOTAS?


1. Reza Aslan[1] nasceu no Irão, vive nos USA e é apresentado como um investigador, um académico e um escritor de renome internacional. A sua obra, O Zelota, surge com o propósito de recuperar o Jesus da história, o Jesus antes do cristianismo. A tese é simples: Jesus foi um revolucionário judeu que, há dois mil anos, atravessou a província da Galileia reunindo apoiantes para um movimento messiânico, com o objectivo de estabelecer o Reino de Deus, mas cuja missão falhou quando, após uma entrada provocatória em Jerusalém e um ataque descarado ao Templo, foi preso e executado por Roma pelo crime de sedição.

A ideia de um Jesus zelota não é original, mesmo em português já dispúnhamos de Jesus. O Galileu Armado[2]. Desde o séc. XVIII, até à actualidade, a bibliografia sobre o Jesus da história é tão vasta que é preciso coragem para alguém se apresentar com um contributo verdadeiramente novo. A Reza Aslan não lhe faltou coragem, mas como é costume dizer, o que tem de bom não é muito original e quando pretende ser original não é muito interessante. A leitura é agradável.

Ainda não há muitos anos, era frequente ouvir dizer - a quem não estava de boas relações com as instituições eclesiásticas -, Jesus Cristo, sim! Igreja, não! Agora, em certos meios, procura-se de tal modo o Jesus da história que se ignora o Cristo da fé. O próprio Aslan conclui, de forma paradoxal, a sua narrativa com estas palavras significativas: Jesus de Nazaré – Jesus, o homem- é tão cativante, tão carismático e tão louvável, como Jesus, o Cristo. É, em suma, alguém em quem vale a pena acreditar.

2. Hoje, temos edições de todos os textos primitivos, os conhecidos, que se referem a Jesus Cristo: canónicos, apócrifos e dos adversários. António Piñero[3] é um dos obreiros desse empreendimento, em Espanha. Desenhou, além disso, os 100 Rostos de Jesus Cristo e responsabilizou-se por esse atrevimento. Publicou, entre outros, um livro muito didático para que um grande público pudesse conhecer, com rigor, Israel e o mundo no qual nasceu e cresceu Jesus de Nazaré.

Quem eram, afinal, os zelotas? O vocábulo significa ”gente caracterizada pelo zelo pela Lei”. Assim, sabemos que existiram sempre zelotas na história de Israel, desde o Exílio até ao ano I. O conceito genérico correspondia a um movimento sócio-religioso de defesa de um património religioso, nacional ou internacional, que se sentia em perigo. Nesse sentido, podemos dizer que hoje são zelotas os defensores fanáticos da sharia, ou lei islâmica, os fundamentalistas muçulmanos e também podem ser designados como zelotas, os membros de alguns grupos integristas católicos.

Mais em concreto, entendemos por zelotas os membros do movimento religioso e político, de resistência anti-romana, começado por Judas, o Galileu, no ano VI d.C.. Os seus seguidores estão ligados por uma doutrina de fundo, meramente farisaica, da escola de Samay, vivida de forma radical nos seus aspectos sociais e políticos. Esta ideologia concretizava-se no movimento nacionalista, militante e fanático, que Flávio Josefo chama a “quarta filosofia”(seita/partido) dos judeus. Os outros três movimentos são os saduceus, fariseus e essénios. Tinham um lema que os orientava nas suas acções: Israel não pode admitir nem honrar ninguém como rei ou senhor, além do Deus único.

Os zelotas não toleravam, por isso, nenhum poder estrangeiro em Israel. Pagar impostos ao Império Romano era perpetuar a idolatria num país santo, cujo único dono era Iavé. Os zelotas empreendiam acções que hoje designaríamos por terroristas, tanto contra os romanos como contra os judeus seus amigos e colaboradores. Pensavam, no entanto, que o ser humano não devia deixar só nas mãos de Deus a libertação de Israel. Eles próprios deveriam agir recorrendo à luta armada.

Uma definição, tão geral como a exposta, permite considerar que também houve zelotas, por conta própria, já no ano I e desde então até às guerras judaicas contra Roma. Dito isto, é preciso afirmar que os zelotas, como partido religioso e presença social viva, não existiam no começo do séc. I. Flávio Josefo não fala deles de forma detalhada até ao ano 66 d.C., quando conquistaram Jerusalém, em oposição a outros judeus moderados, tornando-se um movimento populista contrário aos ricos. Uma das primeiras medidas que tomaram foi destruir todos os arquivos onde se encontravam todas as dívidas contraídas pelo povo.

Os sicários foram, provavelmente, grupos de zelotas independentes.

3. Recolhi estas indicações para não sermos apressados a designar Jesus como um zelota. Aí voltaremos. No entanto, num sentido amplo, ao longo da história da Igreja houve muito zelo mal esclarecido, a ponto de entregar à perdição quem não pertencia à Igreja ou dela era excluído. Hoje, com o zelo por certas tradições eclesiásticas, por certo tipo de exegese bíblica e respeitos dogmáticos, carregamos os católicos com fardos absurdos e, depois, permitimos caminho largo onde deveria ser estreito.

Frei Bento Domingues, O.P.

23.02.2014

in Público



[1] O Zelota, Quetzal, 2014
[2] José Montserrat Torrens, Jesus O Galileu Armado, Jesus O Galileu Armado Esfera do Caos, 2008
[3] Jesús de Nazaret. El hombre de las cien caras, Madrid, Edaf, 2012; Ciudadano        Jesús. Respuestas a todas las preguntas. Madrid, Atanor, 2012.  
 

16 fevereiro 2014

CÓDIGO GENÉTICO (3)

     
1. Os seres humanos só podem viver como humanos acolhendo, criando e recriando, desconstruindo e reconstruindo as narrativas simbólicas da sua condição inacabada. Apesar de todas as máquinas de desumanização, nunca esgotaremos a música, a poesia, a literatura, a pintura, a beleza das civilizações antigas e modernas.

É próprio da linguagem simbólica viver em figurações materiais, finitas, historicamente marcadas, em passagem permanente ao intemporal, ao infinito, superando-se na sua própria configuração concreta, limitada. A religião e as artes vivem do mesmo fundo de intranquilidade. Apesar de todas as tensões, têm, no impulso de transcendência, uma alma comum, que só morre ou se eclipsa quando instrumentalizada.

 Como escreveu Fernando Pessoa, a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Mas também não a pode substituir.

“A vida é breve, a morte é certa”, gritava durante toda a Quaresma, um ancião, meu vizinho. A religião é a revolta contra os limites, a simbólica da absoluta transcendência, a voz do impossível. A morte não é remédio para a falta de vida. Diz apenas que o nosso exílio teve mais ou menos lágrimas. Morremos inacabados. O silêncio de Deus na cruz de Cristo é a sua linguagem, perante as diabólicas tentações messiânicas. Ao entregar o seu espírito nas mãos do Pai, Jesus recebe o Espírito da ressurreição, a fonte de uma Igreja sem fronteiras que O poderá reconhecer na diversidade das culturas, pois é Ele que sempre a precede.

2. O código genético do Cristianismo, na sua nascente e nas suas configurações históricas, brota do monoteísmo trinitário que as religiões do Livro – Judaísmo e Islão - consideram impuro e ao qual não pode renunciar sem cair no deus abstracto do deísmo, da metafísica das Luzes e que infeccionou a catequese e a pregação do séc. XIX.

No Vaticano II, D. Hakim, bispo grego-melquita de Akka, denunciou os esquemas da teologia latina, por ignorarem a catequese e a teologia orientais de Cirilo de Jerusalém, de Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa, de Máximo Confessor e de João Crisóstomo. Com a mesma preocupação, na Assembleia Geral do Conselho Mundial das Igrejas, em Upsala (1968), o notável bispo I. Hazim (1920-2012), mais tarde Patriarca de Antioquia, fez uma intervenção inesquecível.

“Eis a novidade: a ressurreição de Jesus Cristo, o mistério pascal,  não se explica pelo passado, mas pelo futuro.

Deus vem ao mundo, ao seu encontro; está diante de nós e chama, sacode, faz crescer, liberta. Qualquer outro deus é um falso deus, um ídolo. Está na hora de a nossa consciência moderna o enterrar. Esse deus multiforme, que habita na velha consciência do ser humano, está como que por trás do ser humano, como uma causa. Manda, organiza, faz regredir, aliena. Nada tem de profético, pelo contrário, vem sempre depois como a única razão do inexplicável, ou como o último recurso dos irresponsáveis. Esse falso transcendente é tão velho como a própria morte.

A novidade criadora vem ao mundo com o mundo. Essa novidade não se inventa nem se prova, revela-se, mostra-se. Diante dela, ou se diz sim ou se diz não. Vem como um acontecimento.

Esta é a acção do Espírito Santo que introduz a novidade no mundo. Sem Ele, Deus fica longe; Cristo habita no passado; o Evangelho não passa de letra morta; a Igreja não seria mais do que mera organização; a autoridade, dominação; a missão, propaganda; o culto, evocação mágica e todo o agir cristão, pura moral de escravos”.

Este cristão, mostrou que o seu discurso não era retórica vazia. Depois da sua eleição como patriarca, disse o que gostaríamos de ouvir a toda a hierarquia: "Serei julgado se não levar a Igreja e cada um de vós no meu coração. Não me é possível falar convosco como se fosse diferente de vós. Nenhuma diferença nos separa. Sou uma parte de vós; estou em vós e peço-vos que estejais em mim. Pois o Senhor vem e o Espírito desce sobre os irmãos reunidos, unidos em comunhão, manifestando uma diversidade de carismas na unidade do Espírito."

3. Depois do Vaticano II, a teologia latina revisitou a teologia oriental. Passou a respirar, simbolicamente, com dois pulmões. Leonardo Boff, no contexto da teologia da libertação, tentou repensar o mistério sacrossanto da Trindade, que sempre o tinha desafiado. Publicou várias obras para responder a esta questão: se Deus não é a solidão do Uno, ao revelar-se e entregar-se como comunidade, quais as consequências para entender a nossa história una e plural?

Não lhe bastou afirmar que Deus era a melhor comunidade. Foi mais longe: Não há nenhuma razão teológica que nos obrigue a parar na encarnação do Filho. Sustentei a tese que o Pai se personalizou em São José, o Filho se encarnou em Jesus e o Espírito Santo se espiritualizou em Maria. Assim temos a família divina inteiramente presente na família humana.

As reticências que estas Josefologia e Mariologia suscitam, obrigam a continuar a investigação: afinal, que implicações espirituais tem a fé na misteriosa trindade de Deus, na transformação da nossa vida na Igreja e na sociedade?

Frei Bento Domingues, O. P
        16.02.2014
         in Público

14 fevereiro 2014

Entrevista a Frei Bento Domingues


Após 22 anos de críticas semanais no jornal Público, o teólogo dominicano, Bento Domingues, transformou-se no maior analista da Igreja Católica em Portugal.

Nesta entrevista, feita pelo jornalista Manuel Vilas Boas, frei Bento Domingues explica porque critica os dois últimos papas: não lhes perdoa o silenciamento que impuseram a mais de uma centena de teólogos.
 
Na opinião do teólogo dominicano, a demissão do papa alemão deveu-se à incapacidade manifesta para governar uma instituição em crise avassaladora.

Manuel Vilas Boas
in TSF
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3680513

COMUNICADO DO MOVIMENTO INTERNACIONAL ‘NÓS SOMOS IGREJA’ – PORTUGAL


ACERCA DA ENTREVISTA DO PATRIARCA MANUEL CLEMENTE A UM CANAL DE TV EM 7 FEV. 2014

 
A palavra e o gesto do Papa Francisco têm tocado milhões de crentes e não crentes no mundo, quando fala de uma Igreja que é comunidade de pessoas, diversas e iguais em dignidade, direitos e responsabilidades. Pessoas que procuram ser fiéis ao mandamento de Jesus Cristo “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Neste contexto, assistimos, no passado dia 7 de Fevereiro, no canal TVI 24, a uma entrevista ao Patriarca D. Manuel Clemente. A entrevista provocou perplexidades ao Movimento Internacional Nós Somos Igreja - Portugal. Por isso, através deste comunicado, se exprimem estas perplexidades, para um possível e desejado debate.
Correctamente, D. Manuel afirmou sobre os mais velhos que a dignidade, a irrepetibilidade e a indispensabilidade de cada ser humano é fundamental, certo de que “a família continua a ser a base para a resolução dos problemas”. Mas sobre os direitos das minorias, afirmou que deveriam ser referendados, sem medir o alcance desta proposta. Imaginemos que os países em que os cristãos são uma minoria referendavam os seus direitos? Ou, em Portugal, se referendassem os direitos das minorias que aqui vivem?
Sobre a adopção de uma criança por duas pessoas do mesmo sexo, disse que essas pessoas não são uma família, sem desenvolver mais o tema. Sobre o aborto insistiu, afirmando-o fácil de mais em Portugal, exprimindo assim uma obsessão que já mereceu críticas do Papa Francisco.
Sobre o Inquérito do Vaticano, a propósito do Sínodo da Família, D. Manuel declarou que as respostas dos católicos portugueses acentuam a procura de informação e de formação, quando está demonstrado, através de estudos e estatísticas, que o entendimento e a vivência da sexualidade são questões acerca das quais o Povo de Deus não se revê nas posições complicadas e contraditórias de alguma hierarquia. Correspondendo à posição de D. Manuel Clemente, que se diz disponível para troca de ideias com opiniões diversas, através deste Comunicado o Nós Somos Igreja espera possível e desejado debate com o Patriarca de Lisboa, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

BLOCO DE NOTAS

 
1. O Estado português, mediante o seu governo, deveria exigir uma grande indemnização à Toika, pois ela própria confessa que a receita da austeridade aplicada prejudicou muitos sectores da economia nacional. Se um médico prescreve uma receita, é para curar uma doença. Se ele se enganar e, sobretudo, se avisado persistir na receita, pode ser obrigado a pagar uma indemnização à vítima. Os representantes do FMI, da CE e do BCE, em Portugal, solidarizaram-se com a auto-crítica da senhora C. Lagarde. E não acontece nada?!

2. Os testes internacionais do PISA evidenciam excelentes melhorias nos resultados do nosso sistema escolar, desde o ano 2000. Avisam que alterações à linha seguida podem prejudicar estes bons resultados. As opções quanto à investigação científica e ao ensino superior revelam a sua boa orientação através dos muitos prémios nacionais e internacionais. As medidas da Troika podem prejudicar o caminho percorrido. A grande emigração de jovens diplomados afecta o futuro do país.

3. O desemprego jovem, ou de longa duração, não encoraja a vontade de pôr crianças neste mundo. Este é, talvez, a pior das austeridades.

4. A privatização de empresas fundamentais e lucrativas não é a melhor forma de arranjar dinheiro para pagar a dívida.

5. A nível global, há 35 mil milhões de dólares estacionados em paraísos fiscais. Este montante, que é equivalente a toda a riqueza a criar em Portugal nos próximos 135 anos, mina o comércio internacional e cria uma bola de neve de batota fiscal, com consequências danosas para a economia mundial (João Pedro Martins).

6. A revista Time elegeu o Papa como a figura do ano. Como explicou o seu chefe de redacção, ele situou-se no centro dos mais importantes debates do nosso tempo: sobre a riqueza e a pobreza, equidade e justiça, transparência, modernidade, globalização, papel das mulheres, natureza do casamento e as tentações do poder. No programa Prós e Contras, do dia 9.12.2013, sobre as intervenções do Papa Francisco, com honrosas excepções, martelou-se a ideia de que ele não trouxe nada de novo. Além disso, não sabe nada de economia, doutro modo não diria que esta economia mata. Insistiu-se no facto da Igreja (creio que confundida com a hierarquia) ter um problema de comunicação. Esta Papa é um bom comunicador, mas é melhor ler as encíclicas de Bento XVI e espera-se que escreva um documento a sério sobre a pobreza.

Este método de desclassificação da mensagem e do mensageiro quando não nos agradam é muito velho. Vem direitinho em S. Lucas: (…) não podeis servir a Deus e ao Dinheiro. Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam tudo isto e zombavam dele. Jesus disse-lhes: vós sois como os que querem passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; O que é elevado para os homens, é abominável diante de Deus (Lc 16, 13-15).

7. No já referido programa surgiu outro tema, que tem tanto de interessante como de aberrante. Refere-se às motivações do Papa, ao preocupar-se com os pobres, os excluídos, as vítimas da história. Insistiu-se que era por causa de Cristo que o Papa chamava a atenção para esse mundo. Não era por causa dos excluídos. Era por razões teológicas e cristãs, por motivos sobrenaturais.

Eu já tinha conhecido um professor de teologia moral que sustentava, perante os alunos, que o amor dos pais pelos filhos só tinha mérito se os amasse por amor a Deus. Os filhos não contavam por serem filhos. Agora, o amor, a dedicação, o socorro dos aflitos só valem se forem uma prática em nome de Cristo. Sem Cristo isso não vale nada.

Espero que o Papa tenha excelentes motivações sobrenaturais. Mas este socorrismo sobrenatural tem, pelo menos, o inconveniente de contradizer o capítulo 25 de S. Mateus e a parábola do Samaritano. Sem nenhum motivo teológico invocado, o Senhor da história diz que aqueles que socorreram os que precisavam, só porque precisavam, sem outro motivo, foi ao próprio Deus que serviram. Jesus escolheu o exemplo de um samaritano – membro do povo adversário de Israel – para o contrapor ao comportamento do sacerdote e do levita, que viram a vítima de um assalto na valeta e passaram adiante.

8. O Papa Francisco, desde o começo das suas atitudes e intervenções até à recente Exortação Apostólica tem proposto a revisão da teologia, da pastoral e das espiritualidades mais recentes e mais em voga. Em muitos casos, tem sido um universo de clérigos e leigos de olhos fechados. Por causa de Deus não vêem o mundo. De facto, nem é por causa de Deus. Já no Genesis, Deus fazia perguntas aborrecidas: que fizeste ao teu irmão? Segundo o Novo Testamento, todo o bem que se faz - só porque o outro precisa - é o encontro com o Absoluto. E até se pode invocar o nome de Deus em vão: não é quem diz Senhor, Senhor que entrará no Reino dos Céus. O seguimento de Jesus nem sempre é por bons motivos: os filhos de Zebedeu, que tinham largado tudo para o seguirem, procuravam fazer carreira política. Desconfio muito de uma religião despreocupada com a transformação dos mundos da injustiça. É uma religião sem ética. É miserável a religião que não é afectada pela miséria daqueles que nada podem fazer pelo seu futuro. A solidariedade que favorece a preguiça é um roubo.

Bom ano!

Frei Bento Domingues, O.P.

12.12.2013

in Mensageiro de Santo António