29 maio 2014

Declarações de Maria João Sande Lemos ao DN

O 3º ponto da Petição do Povo de Deus,  do Movimento Internacional Nós Somos Igreja refere:

"Desejamos Uma Igreja  onde os ministérios ordenados sejam reequacionados"

"Nem a Bíblia nem os dogmas estabelecem uma relação compulsiva entre alguns ministérios ordenados e celibato"

Assim foi com grande esperança e alegria que ouvi as declarações do Papa Francisco afirmando que "celibato não é dogma na Igreja Católica", o que é um facto de todos conhecido, mas ser publicamente reconhecido pelo Papa dá uma enorme força a quem considera que se pode conciliar o sacramento do Matrimónio com o sacramento da Ordem.


Não se deve o Vaticano esquecer das centenas de milhares de padres casados que desejam retomar a sua actividade sacerdotal.


Vem confirmar a ideia de que o Papa Francisco está empenhado numa profunda reformulação do sacerdócio procurando acabar com o "clericalismo" que tantas vezes tem criticado.


Mais uma vez vem o Papa Francisco dar-nos ânimo e fazer-nos acreditar que a Igreja Católica procurará ser sempre uma Igreja fraterna, inclusiva e onde a palavra "Comunhão" seja sempre a mais forte!


Maria João Sande Lemos

Membro do Movimento Nós Somos Igreja - Portugal

Lisboa, 27 de Maio

25 maio 2014

"Ah, o famoso bispo do Porto!"

por ANSELMO BORGES

Foi com esta exclamação que João Paulo II, na sua visita ao Porto, se dirigiu a D. António Ferreira Gomes, quando ele, já bispo resignatário, apresentou os seus cumprimentos de despedida.

Morreu há 25 anos. Lembrando a data, o que aí fica quer ser tão-só uma homenagem ao homem e ao bispo, cujo lema era "de joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens" e que, em todas as circunstâncias, foi o exemplo superior do que chamo a voz político-moral da Igreja.

Já na famosa Carta a Salazar, que pagou com um exílio de dez anos, exigia a liberdade de pluralismo partidário e sindical e de greve. E lembrava "dois problemas fundamentais" em ordem à paz: 1. "Os frutos do trabalho comum devem ser divididos com equidade e justiça social entre os membros da comunidade"; 2. Os indivíduos e as classes "nunca estarão satisfeitos enquanto não experimentarem que são colaboradores efectivos, que têm a sua justa quota-parte na condução da vida colectiva, isto é, que são sujeito e não objecto da vida económica, social e política." O equilíbrio financeiro "é óptimo", mas "nunca deve deixar de estar ao serviço do Homem".

Preocupava-o a religião das promessas, a religião utilitária, como testemunhou num diálogo, a meu convite, com Óscar Lopes, reconhecendo que "a religião pode realmente ser ópio do povo", pois, "muitas vezes para o povo a religião no geral não significa nada de transcendente." Ora, "o limiar diferencial da religião cristã começa quando alguém se debruça sobre o outro, quando alguém se volta para o que o transcende, seja o outro neste mundo, seja Deus enquanto o Outro absoluto, sabendo que a relação com o Outro absoluto é exactamente também a relação com o irmão". Por isso, "nenhum homem responsável da Igreja poderá dizer que não quer saber de política ou que nada percebe de política".

DEUS ACTIVISTA DOS DIREITOS HUMANOS? (2)

Frei Bento Domingues O. P.

1. A Amnistia Internacional iniciou, há semanas, a campanha Stop Tortura para denunciar uma situação vergonhosa: 30 anos após a assinatura, na ONU, da Convenção Contra a Tortura, esta prática bárbara continua a crescer, como se fosse a coisa mais normal do mundo. No entanto, na África, nas Américas, na Ásia-Pacífico, na Europa e Ásia Central, no Médio Oriente e Norte de Africa, alarga-se esta extrema forma de desumanidade, perante a indiferença internacional. Nos EUA, nenhum agente da CIA, envolvido em casos de tortura, foi levado a tribunal.

Não se pode atribuir esse comportamento “à ausência de Deus” na esfera pública como, por vezes, se diz. Em todos os continentes, é em seu nome que se oprime, tortura e mata. Tentei mostrar, no Domingo passado, que a palavra Deus pode ser usada para o melhor e para o pior.
 
Hoje, gostaria de chamar a atenção para outra forma de observação e problematização das sociedades actuais, praticada por Boaventura de Sousa Santos, no livro Se Deus fosse um activista dos direitos humanos (Almedina). Foi também publicado com grande ressonância no Brasil, traduzido em Espanha e acolhido com fervor na América Latina. 

 Ler mais...

23 maio 2014

Excomunhão de Martha e Gert Heizer

Por celebrar eucaristias em sua casa como se praticava nos tempos das comunidades de base, ou seja, sem a presença dum padre ordenado, dois católicos austríacos, Martha e Gert Heizer, receberam uma notificação da Diocese de Innsbruck de que tinham sido excomungados. Ambos recusaram receber a notificação por porem em causa a integridade dos procedimentos.

Martha e Gert Heizer mais não fazem do que coerentemente unir a prática e o ensinamento de Jesus para tornar o Evangelho mais acessível e mais compreensível a todos. Este é o caminho que a igreja terá que seguir no futuro usando os chamados viri probati (e por que não as mulieres probatae) para permitir a celebração da missa, um momento de fé da comunidade cristã, por todos os baptizados e baptizadas, ou seja, por todos os membros do povo de Deus. Pelo mundo existem muitas situações idênticas, por exemplo, na América Latina, onde a presença do sacerdote nem sempre está garantida.

Em comunicado de imprensa, Martha e Gert Heizer mostraram-se "profundamente chocados por se encontrarem na mesma categoria dos padres pedófilos". Na sua opinião, "este procedimento mostra como a Igreja Católica precisa de renovação".

Martha Heizer, pedagoga e professora de religião, agora reformada, foi um dos elementos do grupo que lançou em 1995 a Petição do Povo de Deus e é actualmente a coordenadora do Movimento Nós Somos Igreja Internacional”.

O Movimento “Nós Somos Igreja - Portugal” exprime a sua solidariedade com Martha e Gert Heizer e confirma o seu lugar dentro da igreja de que fazem parte, defendendo a fé e a mensagem do Evangelho, e não somente o direito canónico.

Sobre o assunto, leia também o comunicado do NSI - Itália.

21 maio 2014

A Laura disse-me adeus

Não sei se os mistérios são silenciosos, mas a Laura é um mistério no seu silêncio. Não porque não queira falar mas porque não está habituada. Salvo erro, terá passado a infância num ambiente de poucas falas e como não consegue exprimir-se bem, fica calada. Apenas olha e sorri. O sorriso é agradável e o olhar amável. Uma canção cantada em espanhol diz que “olhos azuis são mentideiros”. Não sei se há nisto alguma verdade, em todo o caso não me parece que seja tanto assim, talvez a dificuldade esteja em saber ler o que dizem ou querem dizer os olhos azuis. É o que acontece com a Laura. Anda pela rua, as pessoas gostam dela, é tranquila e parece não precisar de mais nada além de alguma comida e roupa. Eu já a conhecia mas não sabia o seu nome. O Joaquim, que veio aqui arranjar umas coisas, ao sair para a rua é que disse: olha a Laura anda por aqui! Esta gaja não tem parança. Eu às vezes também uso a palavra gaja, mas à Laura não conseguiria nomeá-la assim. Nunca a vejo pedir nada, mas há sempre gente que lhe estende a mão a dar qualquer coisa. É engraçado ser ao contrário do que é costume. Ela agradece com dignidade sem vénias, o que me agrada. A quem poderei comparar a Laura na Bíblia? Não sei, mas entre a Rute e Maria Madalena penso que tem um pedacinho de muitas. Os sábios talvez me pudessem ajudar nisto, mas também não é muito importante. Prefiro fazer de outra maneira, meter a Laura na Bíblia e juntá-la a todas as outras. Há uns tempos falei um pouquinho com ela e vi que tem uma energia interior e uma lucidez que o pouco vocabulário que usa não consegue transmitir suficientemente. Depois disso deixei de a ver durante algumas semanas. Dizem que foi cuidar do pai, obeso e mal alimentado, doente no corpo e na alma. Não sei o que aconteceu ao pai, mas há dias quando ia a virar uma esquina vi um braço no ar. Fiquei muito contente, a Laura disse-me adeus. Fui ter com ela e percebi-lhe que tinha estado em Fátima e tinha gostado muito. Perguntei-lhe se gostava da nossa Senhora de Fátima e ela disse-me em poucas palavras que a nossa Senhora é só uma, tanto faz ser em Fátima como noutro lado qualquer, mas que, sim, gosta muito de nossa Senhora. Que é a mãe de Jesus e é muito importante. Armado em teólogo barato disse-lhe que Jesus é mais importante. E ela: eu bem sei que Jesus é mais importante, mas olha que uma mãe é quem nos pode ensinar melhor a conhecer um filho. Oh Laura, onde é que aprendeste isso? Não aprendi muito, tiro mais da minha cabeça. Quer-se dizer, eu aprendi algumas coisas com umas irmãzinhas que iam lá ao bairro, mas depois fiquei a tirar coisas da minha cabeça. Não perguntei que bairro era nem quem eram as irmãzinhas, às vezes fico meio aparvalhado no meio da vida. Talvez o Joaquim me soubesse dizer, mas não lhe vou perguntar para não o ouvir chamar gaja à Laura. Na verdade que importa o nome do bairro! Basta-me saber que às vezes passo pelo bairro da alma em que a Laura vive. Talvez um dia encontre por lá as irmãzinhas.

Frei Matias

18 maio 2014

Fátima e a crise

Anselmo Borges

O que move tanta gente a pé para Fátima? Trinta e cinco mil, este ano, segundo consta. No fundo, diria que é a Mãe. Ele há tanto sofrimento - físico, psicológico, moral, próprio, dos filhos, do marido, da mulher, da mãe, do pai... E a Mãe não há-de entender e socorrer?

Depois, lá chegados, homens e mulheres, agradecem à Mãe as graças, gritam lá no mais íntimo, suplicam, choram, cumprem as promessas, de joelhos ou mesmo arrastando-se. E a gente comove--se. E é preciso respeitar o sofrimento das pessoas e manifestar--lhes compaixão activa na sua dor. Quem se atreverá, perante o sofrimento, por vezes extremo, a ridicularizar, em vez de tentar compreender e ajudar?

Mas, dito isto, deve-se acrescentar que é preciso evangelizar Fátima e o Deus de Fátima, mesmo sabendo que se trata de uma tarefa quase impossível. Foi o famoso antigo bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, que me contou que, encontrando-se em Fátima, se deparou com uma senhora que, de joelhos, se arrastava a custo para a Capelinha das Aparições. Na tentativa de demovê-la, pois o Evangelho não é a favor de promessas nem do sacrifício pelo sacrifício, foi-lhe dizendo que Deus não queria aquilo e que ele, bispo, até podia substituir a promessa, por exemplo, pela ajuda a uma obra social. Insistiu, sublinhando até que assumia a responsabilidade. Mas a senhora atirou-lhe: "Vá com Deus, senhor bispo. Não foi a si que eu fiz a promessa." O bispo voltou-se para dentro de si e ter-se-á interrogado como é que o Evangelho tem dificuldade em entrar na Igreja.