08 junho 2014

A entrevista de Francisco no avião

Pe Anselmo Borges

O primeiro obstáculo sou eu", disse o Papa Francisco, já no avião, de regresso ao Vaticano, depois da visita à Jordânia, à Palestina e a Israel. Estava a responder aos jornalistas, que lhe perguntaram pelos obstáculos na reforma da Cúria. Uma resposta com risos, mas também com ironia, pois ele sabe que o cardeal Maradiaga, que preside ao G8 cardinalício, disse recentemente, nos Estados Unidos, que há um cardeal muito conhecido que vai atirando ter sido "um erro" a eleição de Bergoglio e que há muitos, na Cúria e fora dela, que, ao perderem poder e privilégios, verrinam: "O que é que esse argentinozito pretende?" 

Francisco, que, sem receios, dá conferências de imprensa, foi acrescentando que nomeou esse Conselho dos oito cardeais, precisamente para estudar o sistema do Vaticano e reformar a Cúria, sendo um dos pontos-chave o económico, exigindo-se honestidade e transparência no banco do Vaticano. Já se fecharam 1600 contas e o assunto dos 15 milhões relacionados com o cardeal Bertone está a ser investigado. "É inevitável que haja escândalos, porque somos humanos e todos pecadores"; por isso, "as reformas têm de ser contínuas".

01 junho 2014

Francisco no Médio Oriente. "Conseguimos!"

por ANSELMO BORGES

Era uma viagem de alto risco. Acabou por ser uma viagem que os media mundiais chamaram de histórica. Francisco queria que a sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel fosse uma peregrinação. E foi, mas com imensas consequências políticas. Afinal, a política não é tudo, mas está em tudo. O que aí fica quer lembrar momentos significativos da viagem.

Na Jordânia, pediu "uma solução pacífica para a crise síria e uma solução justa para o conflito israelo-palestiniano". Referindo-se concretamente à Síria, lacerada por uma luta fratricida que dura há mais de três anos, com milhões de refugiados, atacou as empresas armamentistas e rezou pela sua conversão: "Que Deus converta os violentos, os que provocam a guerra, os que fabricam e vendem armas, e os torne construtores da paz!"

Defendeu, em Belém, "o direito à existência de dois Estados, gozando de paz e segurança". Na preparação da viagem, já houvera uma referência ao "Estado palestiniano". Ainda em Belém: "A incompreensão entre as partes produz divisões, sofrimentos e êxodo de comunidades inteiras." Aqui, certamente lembrou-se de que a Terra Santa está a ficar sem cristãos, pois no Médio Oriente já só representam 2%, quando há 50 anos eram 10%. E ousou um convite: "Senhor Presidente Mahmoud Abbas, neste lugar onde nasceu o Príncipe da Paz, desejo convidá-lo a si e ao Senhor Presidente Shimon Peres a elevarmos juntos uma intensa oração pedindo a Deus o dom da paz. Ofereço a possibilidade de acolher este encontro na minha casa, no Vaticano." Francisco renovou o convite em Tel Aviv. E Peres e Abbas aceitaram a iniciativa inédita.

A caminho da Basílica da Natividade, em Belém, surpreendeu, quando, ao passar junto ao muro erguido por Israel na Cisjordânia, conhecido como "o muro da vergonha", mandou parar o jipe em que seguia, ficando em oração durante alguns minutos, apoiando a mão e a cabeça no muro, um pouco à maneira do que fazem os judeus no Muro das Lamentações. Este gesto, que causou descontentamento em Israel, foi compensado com uma outra visita-surpresa, quando, a caminho do memorial do Holocausto, símbolo da "monstruosidade" humana, onde perguntou: "Como foste capaz, Homem, deste horror, o que te fez cair tão baixo?" e gritou: "Nunca mais! Nunca mais!", homenageou o memorial às vítimas israelitas dos atentados em Jerusalém. Com estes dois gestos, Francisco estava a dizer que não é com muros nem com o terrorismo que se constrói a paz. Como disse o padre D. Neuhaus, do Patriarcado Latino de Jerusalém, "Francisco tem o perigoso talento de dizer a verdade".

Em Jerusalém, Francisco e Peres clamaram em uníssono: "Não nos cansemos de perseguir a paz com determinação e coerência." O Papa: "Que Jerusalém seja verdadeiramente a cidade da paz, que corresponda à sua identidade, ao seu carácter sagrado e verdadeiro valor como tesouro para toda a humanidade. Que todos possam ter acesso livre aos lugares santos e participar nas celebrações."

E sucederam-se os encontros ecuménicos e inter-religiosos. Com o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, assumiu a urgência da união de todos os cristãos, propondo "um novo modo" de exercer o primado papal, tendo talvez no horizonte a ideia de um primus inter pares (o primeiro entre iguais). Na Esplanada das Mesquitas, encontrou-se com o Grande Mufti, pedindo aos "amigos muçulmanos" um trabalho em conjunto pela justiça e pela paz. "Que ninguém instrumentalize o nome de Deus para a violência!" Depois do muro de Belém, rezou no Muro das Lamentações. E, num encontro com rabinos, um rabino proclamou: "Em Jerusalém, não deve existir mais ódio nem inimizade entre os irmãos."

E os três velhos amigos dos tempos de Buenos Aires - o rabino A. Skorka, o xeque O. Abboud e o agora Papa Francisco - abraçaram-se ali, junto ao Muro, e foi o grande abraço das três religiões abraâmicas. E Skorka, comentando o velho sonho em Jerusalém: "Conseguimos!" E Francisco regressou a casa, com a esperança fundada de em breve serem retomadas negociações sérias em ordem à paz.

in DN, 31.05.14

Corações ao alto

Frei Bento Domingues O. P.

1. A festa litúrgica da Ascensão, neste Domingo, é uma celebração de humor provocado pelo começo do segundo volume de uma obra atribuída a S. Lucas, os Actos dos Apóstolos (Act.), um livro de aventuras que seria uma tentação para a banda desenhada, se as leituras piedosas e convencionais não travassem a imaginação recriadora.

Na verdade, a grande pintura de Fra Angelico, Mantegna, Rembrandt, etc., não perderam o cenário criado por S. Lucas. O músico revolucionário do séc. XX, Olivier Messiaen, compôs L’Ascension, uma impressionante meditação sinfónica.

Este evangelista, no primeiro volume da sua obra, já tinha apresentado o que acontecera a Jesus de Nazaré, depois da sua impressionante ruptura com a ideologia e o método de austeridade de João Baptista.

É verdade que este tinha sido o seu mestre extraordinariamente admirado, a quem havia seguido com fervor e por quem fora baptizado, no rio Jordão, mas acabou por se dar conta que o moralismo era demasiado curto para a revolução que se impunha.

A experiência mística, depois do rito baptismal no Jordão, surgiu como uma iluminação que mudou completamente o rumo da sua vida. Já não conseguia rever-se no Deus da ameaça do seu antigo mestre, mas na Voz que o declarava um fruto do puro Amor.

Nunca posso deixar de sorrir quando alguns católicos trazem ou pedem para trazer água do rio Jordão para o baptismo dos filhos ou dos netos, como se ela fosse dotada de especiais virtudes. O futuro de Jesus não veio dessa água, mas de um banho no Espírito recriador do mundo, a essência do baptismo cristão.

O Evangelho segundo S. Lucas termina na viagem surrealista dos tristes discípulos de Emaús (Lc 24,13-34). São eles que explicam a um estranho e distraído forasteiro (o próprio Mestre) o que naqueles trágicos dias tinha acontecido, em Jerusalém, a Jesus, o nazareno. As mulheres tinham lançado o boato de que ele estava vivo, mas ao certo, ninguém o viu!

Nessa narrativa hilariante, não vêem o Mestre enquanto o vêem; quando o reconhecem, ele torna-se invisível. Lucas não escreve uma história do passado, mas o instante presente da fé dos discípulos de Jesus, sem termo à vista.  

2. O autor dos Act. reforçou o seu pendor surrealista. Depois da ressurreição, Cristo vive com os discípulos. S. Lucas recria cenários, qual deles o mais absurdo, para mostrar que a presença de Cristo nunca foi tão real, mas também nunca foi tão clandestina: uma presença sob forma de ausência e uma ausência sob forma de presença.

Para destacar esse paradoxo, o escritor sente a urgência em fazer entrar outro personagem em cena, realçando a proverbial  incapacidade dos discípulos em entenderem o Mestre, devido à obsessão pelo poder: “Estando reunidos perguntaram-lhe: Senhor, será agora que vais restaurar a realeza em Israel?”

Jesus mostra-se aborrecido e esgotado. Já não aguenta mais: recebereis a força do Espírito e sereis minhas testemunhas até aos confins da terra. Lucas cria logo um cenário radical: dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem escondeu-o!

Em vez de cumprirem a ordem de Cristo, ficaram pasmados a olhar para o céu, esquecendo a terra e a missão. No Evangelho de S. Mateus, referido na liturgia de hoje, o cenário não é muito diferente. Reuniram-se todos para a despedida, e quando O viram adoraram-no; mas não todos. Alguns continuaram com as suas dúvidas.

Jesus, o Ressuscitado, já não está para mais explicações. A única coisa que garante é que ficará sempre com eles até ao fim dos tempos e manda- -os em missão. Não andam por conta própria, mas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Jesus cansou-se, mas não foi para férias como certas fórmulas podem sugerir: sentado à direita de Deus Pai. Teria deixado tudo arrumado, uma igreja organizada para cumprir um mandato de há mais de 2000 anos. Pura ilusão! Jesus não criou um museu, nem ordenou os seus conservadores nem os cicerones, os que guardam o depósito da Fé e sabem o que lá existe e não existe. Os polícias da ortodoxia.

Uma interpretação dessas tem um pequeno inconveniente: esquece o Espírito Santo que desarrumou a vida a Jesus e que desarrumará a vida da Igreja, até ao fim dos tempos. O Espírito Santo não é propriamente um burocrata, mas disso falaremos no Pentecostes.

3. O papa Francisco não é Deus, não é Jesus Cristo, nem é ele a Igreja. Surgiu e foi logo interpretado como alguém apostado em enfrentar reformas, há muito adiadas: a da Cúria Romana, do Banco do Vaticano, do carreirismo eclesiástico, da atração pelo fausto e o seu exibicionismo e liquidar o crime de cobertura à pedofilia.

As reformas pontuais, urgentes, inadiáveis não bastam. É preciso abrir as portas da Igreja a todos e não engaiolar o Espírito. Entrar na alegria da criatividade do Evangelho de cristãos e não cristãos.

Na sua peregrinação à Terra dos conflitos mortais – Jesus Cristo também os conheceu – ninguém podia esperar ver o milagre dos muros a ruir, as armas a cair das mãos e todos envolvidos num grande abraço. O Papa, ao abandonar o calculismo político, não privilegiou nem cristãos, nem muçulmanos nem judeus. Ao ser tudo para todos, abriu portas para o futuro, a nossa morada.

Corações ao alto!

in Público, 01.06.2014

29 maio 2014

Declarações de Maria João Sande Lemos ao DN

O 3º ponto da Petição do Povo de Deus,  do Movimento Internacional Nós Somos Igreja refere:

"Desejamos Uma Igreja  onde os ministérios ordenados sejam reequacionados"

"Nem a Bíblia nem os dogmas estabelecem uma relação compulsiva entre alguns ministérios ordenados e celibato"

Assim foi com grande esperança e alegria que ouvi as declarações do Papa Francisco afirmando que "celibato não é dogma na Igreja Católica", o que é um facto de todos conhecido, mas ser publicamente reconhecido pelo Papa dá uma enorme força a quem considera que se pode conciliar o sacramento do Matrimónio com o sacramento da Ordem.


Não se deve o Vaticano esquecer das centenas de milhares de padres casados que desejam retomar a sua actividade sacerdotal.


Vem confirmar a ideia de que o Papa Francisco está empenhado numa profunda reformulação do sacerdócio procurando acabar com o "clericalismo" que tantas vezes tem criticado.


Mais uma vez vem o Papa Francisco dar-nos ânimo e fazer-nos acreditar que a Igreja Católica procurará ser sempre uma Igreja fraterna, inclusiva e onde a palavra "Comunhão" seja sempre a mais forte!


Maria João Sande Lemos

Membro do Movimento Nós Somos Igreja - Portugal

Lisboa, 27 de Maio

25 maio 2014

"Ah, o famoso bispo do Porto!"

por ANSELMO BORGES

Foi com esta exclamação que João Paulo II, na sua visita ao Porto, se dirigiu a D. António Ferreira Gomes, quando ele, já bispo resignatário, apresentou os seus cumprimentos de despedida.

Morreu há 25 anos. Lembrando a data, o que aí fica quer ser tão-só uma homenagem ao homem e ao bispo, cujo lema era "de joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens" e que, em todas as circunstâncias, foi o exemplo superior do que chamo a voz político-moral da Igreja.

Já na famosa Carta a Salazar, que pagou com um exílio de dez anos, exigia a liberdade de pluralismo partidário e sindical e de greve. E lembrava "dois problemas fundamentais" em ordem à paz: 1. "Os frutos do trabalho comum devem ser divididos com equidade e justiça social entre os membros da comunidade"; 2. Os indivíduos e as classes "nunca estarão satisfeitos enquanto não experimentarem que são colaboradores efectivos, que têm a sua justa quota-parte na condução da vida colectiva, isto é, que são sujeito e não objecto da vida económica, social e política." O equilíbrio financeiro "é óptimo", mas "nunca deve deixar de estar ao serviço do Homem".

Preocupava-o a religião das promessas, a religião utilitária, como testemunhou num diálogo, a meu convite, com Óscar Lopes, reconhecendo que "a religião pode realmente ser ópio do povo", pois, "muitas vezes para o povo a religião no geral não significa nada de transcendente." Ora, "o limiar diferencial da religião cristã começa quando alguém se debruça sobre o outro, quando alguém se volta para o que o transcende, seja o outro neste mundo, seja Deus enquanto o Outro absoluto, sabendo que a relação com o Outro absoluto é exactamente também a relação com o irmão". Por isso, "nenhum homem responsável da Igreja poderá dizer que não quer saber de política ou que nada percebe de política".

DEUS ACTIVISTA DOS DIREITOS HUMANOS? (2)

Frei Bento Domingues O. P.

1. A Amnistia Internacional iniciou, há semanas, a campanha Stop Tortura para denunciar uma situação vergonhosa: 30 anos após a assinatura, na ONU, da Convenção Contra a Tortura, esta prática bárbara continua a crescer, como se fosse a coisa mais normal do mundo. No entanto, na África, nas Américas, na Ásia-Pacífico, na Europa e Ásia Central, no Médio Oriente e Norte de Africa, alarga-se esta extrema forma de desumanidade, perante a indiferença internacional. Nos EUA, nenhum agente da CIA, envolvido em casos de tortura, foi levado a tribunal.

Não se pode atribuir esse comportamento “à ausência de Deus” na esfera pública como, por vezes, se diz. Em todos os continentes, é em seu nome que se oprime, tortura e mata. Tentei mostrar, no Domingo passado, que a palavra Deus pode ser usada para o melhor e para o pior.
 
Hoje, gostaria de chamar a atenção para outra forma de observação e problematização das sociedades actuais, praticada por Boaventura de Sousa Santos, no livro Se Deus fosse um activista dos direitos humanos (Almedina). Foi também publicado com grande ressonância no Brasil, traduzido em Espanha e acolhido com fervor na América Latina. 

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