13 julho 2014

QUE TROUXE DE NOVO O PAPA FRANCISCO (3)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Segundo parece, a ladainha continua: as máfias de dentro e de fora das instituições religiosas não vão aceitar as contínuas provocações de Jorge Bergoglio. Agora, a propósito de uma entrevista bem-humorada, acusam-no de querer canonizar K. Marx e baptizar o comunismo(1). O aviso está dado: ou ele muda ou não lhe invejem a sorte!

Creio que é mais interessante procurar entender porque continua a seduzir tanta gente tão diferente e a irritar os mesmos grupos por toda a parte.

Um livro de entrevistas ao bispo de Buenos Aires, publicado anos antes da sua eleição papal, merece atenção(2). Não revela nem um herói nem um santo prefabricado. Foi aprendendo a ser “simples como as pombas e prudente como as serpentes”. Desarmante.

Ele não vem do mundo dos pobres. Foi vendo as consequências e as causas dos escandalosos contrastes sociais, num país cheio de riquezas. Levou tempo a descobrir as monstruosidades da repressão, os requintes das torturas aos presos, as mães dos milhares e milhares de desaparecidos, despejados no mar, etc.

Não se coloca fora daqueles – padres e bispos – que ainda demoraram mais a dar-se conta da urgência em participar na defesa dos direitos humanos e a desmascarar a colaboração de outros com governos criminosos e os seus métodos. Confessa: Eu tive dificuldade em ver, insisto, até que começaram a trazer-me pessoas e tive de esconder o primeiro. Não foi de repente que descobriu as razões pelas quais a Argentina “passou dos 4% de pobres, no princípio dos anos setenta, para mais de 50% durante a crise de 2001”.

Eu próprio estava, nessa data, a trabalhar na Argentina. Testemunhei as dimensões e as consequências da loucura e da irresponsabilidade política, financeira e económica por aquela situação.

Este Papa acabou por ir ver o sofrimento das diversas periferias de Buenos Aires e, por isso, só entende a Igreja em movimento de saída, para o meio dos explorados, seja onde for.

2. A Exortação Apostólica, A Alegria do Evangelho, da qual comecei a falar no passado Domingo, é um dos frutos maduros da progressiva conversão que lhe foi libertando o olhar e desinibindo a voz perante as questões chocantes da Igreja e da sociedade, a nível local e global.

Como Bispo de Roma – o serviço donde derivam todas as outras responsabilidades - não olha para a realidade de maneira neutra e asséptica como um sociólogo. Procura o discernimento evangélico que ajude as comunidades cristãs a desenvolver uma capacidade de cuidadosa atenção aos sinais dos tempos, consciente de que vivemos não apenas numa época de mudanças, mas numa mudança de época.

O texto mais citado do documento referido e que mais polémica tem gerado, é mesmo chocante: ”Assim como o mandamento não matar põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida para o lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social.

Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspetivas, num beco sem saída.

O ser humano é considerado como um bem de consumo que se pode usar e deitar fora. É a promoção da cultura do descartável. Já não se trata de exploração e opressão, mas de uma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na raíz, a pertença à sociedade: quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder, já está fora. Os excluídos nem explorados são, mas resíduos, sobras(3). Esse é o facto. Quais são as causas?

3. O argentino tenta responder. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos, pacificamente, o seu domínio sobre nós e sobre as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano.

Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro(4) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que afecta as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e, sobretudo, a grave carência de uma orientação antropológica, que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo(5).

Para desviar a atenção destas e de outras denúncias concretas, diz-se que já está tudo nos princípios da Doutrina Social da Igreja, que não deve descer muito ao concreto, porque a realidade está sempre a mudar. Quanto mais abstracta fôr, mais eterna se mantém. Também mais inútil.

in Público, 13.07.2014

1. Il Messaggero, 29.06.2014 
2. Francesca Ambrogetti | Sergio Rubin, Papa Francisco, Paulinas 2013 (original 2010). Cf. Nello Scavo, A Lista de Bergoglio, ib., 2013; Arnaud Bédat, Francisco O Argentino, Guerra e Paz, 2014
3. Cf. E.G. 53
4. Cf. Ex 32,1-35
5. Cf. E.G. 55

07 julho 2014

QUE TROUXE DE NOVO O PAPA FRANCISCO (2)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. A sacralização da dimensão humana da Igreja e das respectivas estruturas acaba por impedir a sua reforma permanente e encobrir situações recentes de triste memória.

A Alegria do Evangelho* mostra que o Papa Francisco não tem acções nas indústrias de conserva: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual do que à auto-preservação”.

Este sonho deve concretizar-se em processos de mudança nas paróquias, nos movimentos e nas dioceses. O Bispo deve estimular organismos de diálogo e participação nos quais todos sejam ouvidos e não apenas àqueles que estão sempre prontos a lisonjeá-lo.

Jorge Bergoglio comprometeu-se a praticar aquilo que pede aos outros, isto é, a trabalhar na conversão do Papado e das estruturas centrais da Igreja universal. Importa dar conteúdo à colegialidade e tornar as Conferências Episcopais sujeitos de atribuições concretas, mesmo doutrinais. A centralização excessiva não responde às necessidades actuais da evangelização a partir de situações sociais e culturais tão diversificadas.

Este argentino recusa a consagrada receita da rotina: fez-se sempre assim! É preciso ser ousados e criativos na tarefa de repensar objectivos, estruturas, estilos e métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Sem identificação comunitária dos fins e dos meios, o sonho não passa de uma fantasia (nº 27-33).

2. Donde poderá vir a energia para tanta desenvoltura reformadora? Do encontro com o núcleo essencial do Evangelho. É este que dá sentido, beleza e fascínio ao novo estilo missionário, que faz a triagem entre o principal e o secundário e vence essa obsessão de amontoar doutrinas desconexas impostas à força de insistir no ridículo. 

Bergoglio retoma, do Concílio Vaticano II, uma perspectiva entretanto esquecida: “existe uma ordem ou hierarquia das verdades da doutrina católica, pois o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente”.

Uma das tarefas teológicas mais urgentes consiste em passar, a pente fino, certas posições do magistério eclesiástico declaradas irreformáveis, certamente para evitar questões incómodas. Quem poderá fechar o futuro ao Espírito de Deus?

O Papa retoma o ensino de S. Tomás de Aquino para destacar que também na mensagem moral da Igreja existe hierarquia de virtudes e acções que delas decorrem. ”O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, manifestada através da fé que opera pelo amor”. Relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes, pois compete-lhe debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta na realidade - remediar as misérias alheias. Tudo o resto só existe para secundar e exprimir o Evangelho da graça, do amor e da liberdade que exige e supera a justiça (S. Th. I-II, 66; 106-108).

Bergoglio conhece bem as consequências nefastas nas orientações pastorais, quando esta hierarquia não é respeitada e as virtudes que deveriam ser as mais presentes na pregação e na catequese – a caridade e a justiça - são as mais ausentes! Acontece a mesma coisa quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da palavra de Deus (nº 36-38).

A moral cristã não é uma ética estoica, uma ascese, uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros. É a resposta de amor ao amor que nos amou primeiro.

3. Este Papa resolveu descongelar a liberdade e o pluralismo na interpretação da Palavra revelada, honrando o trabalho dos exegetas e dos teólogos, assim como o pensamento filosófico e as ciências humanas. Serve-se de Tomás de Aquino para rejeitar o sonho de uma doutrina monolítica defendida por todos. O Evangelho é multiforme. 

O empenhamento dessacralizador do novo hóspede da Casa de Santa Marta põe em causa costumes, alguns muito radicados no decurso da história da Igreja, mas que não têm ligação directa ao núcleo de Evangelho. Diz a mesma coisa de normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não são canais de vida. Não tenhamos medo de os rever!

 Recorre a Tomás de Aquino para sublinhar que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus “são pouquíssimos”. A Igreja não deve transformar a nossa religião numa escravatura, quando a misericórdia de Deus quis que ela fosse livre e libertadora. A Igreja de portas abertas e enlameada pelos caminhos de todas as periferias o mundo, encontra os passos de Cristo (nº 37-49)

O guia do Papa, no seu programa reformador, é S. Tomás de Aquino, cuja novidade o espanta. Umberto Eco lembrou que, desde os finais do séc. XIX até aos nossos dias, uma corrente conservadora tentou transformar um incendiário, o condenado do séc. XIII, num bombeiro.

Esperemos que o irrequieto Bergoglio continue a desassossegar as Igrejas, as religiões, a banca, as sociedades, os governos para que se coloquem ao serviço da justiça.

P.S. A Sophia não precisa nada do Panteão. O Panteão Nacional precisa muito da Sophia.

Público, 06.07.2014

* Nesta crónica limitámo-nos a tocar em alguns números do 1º cap. do E.G.

29 junho 2014

Que trouxe de novo o Papa Francisco (1)

Frei Bento Domingues, O. P. 
 
1. Valerá a pena tentar uma resposta à pergunta do título deste texto? Creio que sim. Os incomodados com a intervenção surpreendente deste Papa tendem a desvalorizar, de modo displicente, a sua evidente novidade. Os deslumbrados com as suas prioridades, o seu método e o seu estilo tomam as espectativas do desejo como possibilidades reais de mudança na sociedade e da Igreja. No entanto, as mudanças reais e profundas não se decretam.


Importa, por isso, lembrar alguns momentos, embora de forma muito sumária, da história eclesial que precederam o Papa Francisco, para se poder avaliar o que continua e o que muda. Vivemos no presente, mas o olhar crítico sobre o passado é importante para discernir as opções que podem abrir ou fechar as portas ao futuro.

Em continuidade e ruptura com o século XIX, a primeira metade do século XX foi, no plano da Igreja Católica, um tempo difícil e admirável. Entre anátemas e surtos criadores, foi uma época das grandes redescobertas cristãs, através dos mais diversos movimentos: social, bíblico, litúrgico, teológico, missionário, ecuménico, laical, de arte sacra, de grandes escritores católicos, etc.. No entanto, acabou por ser também o de condenações das iniciativas mais inovadoras, no campo da evangelização do mundo do trabalho e das elaborações teológicas, em confronto com as expressões modernas da cultura.

Deveria fazer parte da formação dos Seminários e das Faculdades de teologia, o testemunho doloroso do mestre da eclesiologia do século XX, Yves Congar.*

2. Ortodoxia, heterodoxia, medo do comunismo, renovação das expressões do catolicismo, polémicas em torno das formas de resistência ao nazismo tornaram o pontificado de Pio XII, nos anos 40 e 50, extremamente complicado para o próprio e para o conjunto da Igreja. Depois dele, muita coisa mudou.

Para João XXIII, a atenção à luz interior, aos “sinais dos tempos”, às vozes que vinham de dentro e de fora do mundo católico, todas falavam da mesma urgência: o aggiornamento da Igreja. Apontou-o como objectivo da convocação do Vaticano II, assumindo o diálogo como método de trabalho - o que diz respeito a todos deve ser tratado por todos –, a recusa dos anátemas como pressuposto geral e nunca aceitar respostas elaboradas antes de estudar as perguntas. O humor e a firmeza no projecto de reforma da Igreja ajudaram-no a não alinhar com os “profetas da desgraça”. De modo gráfico, poder-se-ia dizer que a concepção da Igreja, antes do Vaticano II, era uma pirâmide hierárquica e a celebração da Eucaristia colocava o padre de costas para o povo.

Paulo VI era uma personalidade muito culta que nos deixou gestos e textos admiráveis. Era, porém, um eterno perplexo. Usando a terminologia simplista da época, dir-se-ia que, para não perder os tradicionalistas, acabou por perder os “tradicionalistas e os progressistas”. Por exemplo, na atormentada preparação da encíclica Humane Vitae - usada como uma doutrina definitiva, que ele não desejava – multiplicou as dificuldades, quando pretendia ser uma grande ajuda no discernimento da ética sexual e familiar. Diz-se que para não perder a minoria, acabou por perder a maioria.

João Paulo I foi Papa apenas durante um mês e ficou conhecido como o “Papa do sorriso”. Filho de gente pobre, o seu pai, um socialista, teve de imigrar várias vezes para ganhar o sustento da família. Manteve-se fiel a esse passado, era anti carreirista e recusou ser coroado Papa. Era a aliança da alegria, do bom humor e da coragem. A sua morte repentina adiou, sine die, a reforma da Cúria romana, o seu projecto.

João Paulo II foi o combatente. Veio da Polónia, da ditadura comunista, inimiga da democracia política. A hierarquia da Igreja, por razões de sobrevivência, não podia promover o aggiornamento do Vaticano II na vida interna da Igreja. Contribuiu para abalar o comunismo. Como Papa, percorreu o mundo católico várias vezes, acolhido com entusiasmo, teve um apoio mediático de grande vedeta. O cardeal alemão, J. Ratzinger, Prefeito para a Doutrina da Fé, encarregou-se de extirpar as turbulências teológicas pós-conciliares na Europa e no Terceiro Mundo e, de forma estrondosa, na América Latina. Karl Rahner, um dos teólogos mais importantes, chamou a esse tempo o inverno da Igreja.

Os últimos tempos de João Paulo II foram tristes, não apenas do ponto de vista físico, mas sobretudo pela imagem da Igreja revelada todos os dias nos meios de comunicação: a pedofilia no mundo eclesiástico e os escândalos em torno do Banco do Vaticano. Bento XVI esteve muito tempo na Cúria Romana. Eleito Papa, não podia ignorar o que se tinha passado e continuava. Não podia deixar de condenar tudo isso. Manifestou-se incapaz de enfrentar esse universo, bem mais difícil do que varrer o campo teológico. Demitiu-se.

3. Eleito Papa, o cardeal Bergoglio escolheu o nome de Francisco, o de Assis. Esta escolha encerra o seu programa. Optou pelos pobres nas diferentes periferias do mundo: geográficas, sociais, culturais e existenciais. Os seus gestos e as suas atitudes foram os seus primeiros e mais eloquentes discursos, como veremos nas próximas crónicas.

in Público, 29 Junho 2014

*Cf. Journal d’un théologien 1946 -1956, Cerf, Paris, 2001.

24 junho 2014

Encontro "Casados, Divorciados, Recasados"

Movimento Nós Somos Igreja - Portugal e Instituto S. Tomás de Aquino

17 de Maio, Convento de S. Domingos, Lisboa

Audio disponível


1ºpainel
Isabel Pereira e João Manuel Querido
Teresa Borges
Ana Mira Vaz e João Muñoz de Oliveira
Moderador: Frei Bento Domingues, O.P.

2º painel
Graça Martins e Paulo Melo
Mariana da Cunha e Gonçalo Moita
José Carlos Lima
Moderador: Frei José Nunes, O.P.

O NSI - PT pretende contribuir para o debate que tem sido lançado pelo próprio Papa Francisco e por outros elementos da Cúria relativamente à atitude da Igreja-instituição face aos católicos divorciados e recasados, questão que vai ser retomada no Sínodo sobre a Família.

As conclusões deste Encontro serão enviadas ao CEP (Conferência Episcopal Portuguesa).

22 junho 2014

Um Pecado Muito Original

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Perguntaram-me na Feira do Livro: será verdade que alguns biblistas católicos andam empenhados em dar cabo do pecado original? Respondi que já não era sem tempo, mas que eu não pertencia a essa tribo e que o melhor seria ir bater a outra porta. Após uns dedos de conversa, insistiram em conhecer a minha opinião!

Regressei, com esses interlocutores, aos meus tempos de catequese. Ensinaram-me que as crianças nasciam todas com a alminha suja do pecado original. Os pais deveriam apressar-se a baptizá-las, pois se elas morressem sem esse sacramento não podiam ir para o céu. Só o baptismo era capaz de apagar aquela mancha e abrir as portas do paraíso. Para o inferno não iam, pois não tinham cometido pecados pessoais para tanto castigo. Para o purgatório, também não. É o tempo de dolorosa purificação, com chamas de fogo, mas acaba por terminar no céu. Nesta espantosa geografia do Além estava tudo previsto. As criancinhas seguiriam para o limbo, onde não eram felizes nem infelizes, eram assim-assim.

Neste absurdo organizado, havia uma distribuição bastante lógica dos espaços. O que nunca batia certo era chamar pecado a uma herança considerada inevitável. Inevitável ou quase, pois havia uma excepção: por extraordinário privilégio de antecipação, a mãe de Jesus escapara a essa herança. Chama-se, por isso, a Imaculada Conceição.

Se Deus, porém, já tinha essa fórmula pronta porque não a usava em todos os casos, em vez do espetáculo cinzento do limbo?

É óbvio que pecar implica saber e querer fazer o mal, isto é, vontade livre. O que não podia ser atribuído a um recém-nascido por mais precoce que ele fosse. Chamar pecado a uma herança inevitável excede o mais elementar bom senso.

A nossa herança biológica, nem sempre é a mais favorável à construção de um futuro saudável. Perante algumas doenças, os médicos perguntam se não haverá nenhum caso na família. É frequente, aliás, ouvir dizer de alguém: tem a quem sair! Mas se há qualidades e doenças hereditárias, do ponto de vista ético não pode haver pecados hereditários. Para mim, era evidente que o chamado pecado original, de pecado ó tinha o nome. Mas como escreveu Paul Ricoeur: “nunca será demais afirmar o mal que fizeram às almas, ao longo de séculos de cristandade, a interpretação literal da história de Adão, primeiramente, e depois a confusão desse mito, tratado como história, com a ulterior especulação agostiniana do pecado original”.

2. Bento XVI participou, de algum modo, numa operação de sabotagem da teologia que mandava para o limbo as crianças que morriam sem o baptismo. Resultou. A 19 de Abril de 2007, o Cardeal W. Levada, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, publicou um longo documento da Comissão Teológica Internacional que termina assim: depois de tudo examinado, dispomos de “fundamentos teológicos e litúrgicos sérios para esperar que as crianças que morrem sem baptismo serão salvas e gozarão da visão beatífica”.

Ensinei, durante muitos anos, a teologia de S. Tomás de Aquino sobre os Sacramentos. Defendi uma tese acerca da sua original concepção sobre a presença transformante do Acontecimento pascal na celebração actual dos sacramentos da fé cristã. Na última fase da sua teologia destacou, com vigor, que a vontade salvífica e universal de Deus não está dependente das peripécias dos sacramentos na Igreja. O documento proposto pelo Card. W. Levada, acima citado, apoia-se nessa intuição muito esquecida e, no entanto, absolutamente fundamental (Cf. S. Th. III. q.64,7 e par.).

A linguagem religiosa é polifónica. Tem muitas vozes, mas em todas as suas expressões e modalidades, o seu registo é sempre simbólico: aproxima o distante e distancia a falsa proximidade. O próprio Credo não é um registo de informações, mas uma paradoxal confissão de fé em Deus conhecido como infinitamente desconhecido, uma entrega no amor ao Amor que misteriosamente nos amou primeiro, fonte da nossa recriação contínua e que nenhuma verificação científica pode atestar. É de outra ordem.

3. O P. Carreira das Neves é um biblista infatigável. Ainda estava quente o seu recente livro sobre Lutero (Ed. Presença) e já nos presenteava com a Condição Humana sem Pecado Original (Ed. Franciscana). Passa em revista algumas das referências bíblicas mais congeladas, durante séculos, por leituras historicisantes (Cf.Gen.1-3;Sl.51,7; Rom 5, 12-16) e constrói uma espécie de antologia, exegética e teológica, sobre o chamado pecado original. Para mim, em não existir como se existisse, de modo omnipresente e desde sempre, consiste a sua grande originalidade.

M. Joseph Lagrange (1855-1939), fundador da Escola Bíblica de Jerusalém, gostava de referir o que observou muitas vezes no deserto: à frente de uma longa caravana de gentes e camelos caminhava um burro. Servia-se dessa analogia para dizer que na origem de muitas interpretações bíblicas e teológicas, está, por vezes, uma solene asneira.

Nenhum ser humano nasce no melhor dos mundos nem com os melhores genes, mas não tem que vir ao mundo com má reputação, eticamente caluniado.

in Público, 22.Jun.2014

15 junho 2014

Poderemos Viver Juntos?

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Esta interrogação, mansa e assustadora, faz parte do título de um livro de Alain Touraine que, infelizmente, ainda não perdeu actualidade [1]. Conheci bem o contexto da sua elaboração. Andava eu, na altura, a trabalhar na América Latina, em vários projectos, no meio e no rescaldo de ditaduras tenebrosas, confrontado com os inevitáveis debates em torno da revolução e da democracia.

Vivia entre entusiastas e adversários das comunidades de base e da teologia da libertação. Estava muito ligado a uma corrente que procurava abrir caminhos mais sensíveis à complexidade dos desafios locais e ao quadro internacional. Nas incertezas do tempo, os questionamentos deste sociólogo ajudavam a não perder de vista o essencial.

Isto acontecia já depois de ter participado em iniciativas, ora ousadas ora ingénuas, de teologia prática de inculturação do Evangelho em Africa – sobretudo em Moçambique – e fazendo eco de tudo o que se ensaiava e discutia noutros espaços eclesiais do continente – onde a questão da igualdade e da diferença tinha raízes coloniais, expressões neocoloniais e cruéis guerras civis, comandadas de fora e de dentro de cada país [2].

Evoco esse passado apenas para dizer que, ainda hoje, continuo perplexo perante a pergunta deste texto. A história da humanidade é, de facto, uma cruel história de desumanidade.

Conheci, desde muito novo, a estupidez da violência entre famílias e aldeias vizinhas que chegavam a expressões sangrentas nas feiras e nas romarias da minha zona. O meu pai, “Juiz de Paz”, era de uma paciência sem medida para conciliações e reconciliações sempre efêmeras. Tinha de abandonar, muitas vezes, os trabalhos do campo para ir servir de mediador em desacatos em aldeias bastante afastadas. Nunca quis aprender o “jogo do pau”, jogo aparente e treino real para ajuste de contas.

O que mais me impressionou, desde muito cedo, foram as narrativas de velhos conterrâneos que contavam, à lareira da minha avó, o que tinham passado, em França, na 1ª Grande Guerra. Por causa desses relatos, a minha mãe ofereceu todo o ouro que tinha para o monumento a Cristo Rei, por termos escapado à 2ª Grande Guerra Mundial!

2. Um conjunto de grandes estadistas conseguiu mostrar que, na Europa, era possível, em vez da guerra, construir um futuro de cooperação e de paz. Os dirigentes actuais não estão à altura dessa herança. Regressa a pergunta: iguais e diferentes - poderemos viver juntos?

Alguns souberam cooperar com o belicismo de G. W. Bush – entre eles, Durão Barroso – para levar mais guerra ao Iraque. Agora, perante a violência extrema, no Médio Oriente, a que chamaram “primavera árabe”, a única coisa que sabem patrocinar é o comércio das armas. Importa lembrar que João Paulo II foi dos raros dirigentes que denunciou a loucura do então presidente dos EUA.

O Papa Francisco foi em peregrinação à chamada Terra Santa. Todos louvaram o seu estilo, o seu comportamento e as suas propostas. Encorajou as autoridades a esforçarem-se para diminuir as tensões no Médio Oriente, principalmente na martirizada Síria, e a procurar uma solução equitativa para o conflito israelo-palestino. Convidou, por isso, o Presidente de Israel e o Presidente da Palestina, para irem ao Vaticano, a fim de rezarem juntos pela paz. Destacou que essa peregrinação à Terra Santa foi também a ocasião para confirmar na fé as comunidades cristãs martirizadas e manifestar-lhes a gratidão da Igreja inteira pela presença dos cristãos naquela região e em todo o Médio Oriente.

O convite do Papa foi aceite e cumprido, com a oração e plantação das pacíficas oliveiras no Vaticano. Entretanto, o governo de Israel não achou nada mais interessante para responder ao apelo do Papa do que alargar a ocupação de terras que lhe não pertencem, construindo mais e mais colonatos. O Presidente de Israel ficou bem na fotografia. Já está outro eleito. 

3. Hoje, a Liturgia católica celebra a festa da Santíssima Trindade. As milenares monstruosidades da guerra, sempre reeditadas, podem levar a concluir, na expressão de José Saramago, que o ser humano não tem conserto. Será defeito de fabrico? Sabemos que a própria investigação científica e o desenvolvimento tecnológico foram e são usados para o que há de pior.

Segundo a linguagem simbólica da Bíblia, o ser humano foi modelado à imagem de Deus invisível. É divina a eterna Fonte do nosso parentesco.

Jesus Cristo testemunhou, em expressões escandalosamente familiares, que Deus – limite de todos os conceitos - não é solidão. Quando Tertuliano cunhou a palavra trindade pretendia dizer que Deus é a misteriosa coincidência da máxima unidade na máxima diversidade, a insondável comunhão de relações pessoais de conhecimento e amor.

Graças a esta fonte do nosso parentesco, as tendências de dominação e rivalidade não podem ser reorientadas, sem uma cultura do desenvolvimento humano, nas suas relações múltiplas, que promova o gosto da unidade na diversidade.

A alternativa monoteísta, pura e dura, é excelente para a ditadura.

in Público, 15.06.2014

[1] Iguais e Diferentes - Poderemos viver Juntos? Piaget, 1998.

[2] Jaime Nogueira Pinto, Jogos Africanos, Esfera dos Livros, 2008

14 junho 2014

Jerusalém e Roma

Anselmo Borges

1 A política está em tudo mas não é tudo. A oração também pode ser força política. E condição essencial para a paz é a conversão interior, do coração. Por outro lado, a História não está pré-escrita em parte alguma e, por isso, é preciso construí-la e ao mesmo tempo ter a capacidade de se deixar surpreender por ela. Cá está: quem poderia supor há apenas um mês que seria possível o Presidente de Israel, Shimon Peres, e o Presidente da Palestina, Mahmoud Abbas, encontrarem-se no Vaticano para rezar? Mas o inesperado, o que se diria impossível, aconteceu.

Na sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel, inesperadamente, o Papa Francisco desafiou os dois presidentes para um encontro na "sua casa", no Vaticano, para rezarem pela paz. E essa oração histórica ocorreu nos jardins do Vaticano, no domingo passado, dia 8, com a presença de um quarto convidado, o patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla. O abraço dos dois líderes, palestiniano e israelita, com o Papa como testemunha, fica para a História. "Que Deus te abençoe!", disse Peres a Abbas, saudando-o. E Francisco: "Sim ao diálogo e não à violência; sim à negociação e não à hostilidade; sim ao respeito pelos pactos e não às provocações. Senhor, desarma a língua e as mãos, renova os corações e as mentes: Shalom, paz, salam".

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