18 outubro 2014

"Agora, o Sínodo da Igreja universal deve continuar"


Este dia final do Sínodo Extraordinário iniciou um processo há muito desejado de diálogo amplo e aberto em toda a Igreja. Este processo não pode ser interrompido.

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja apoia todos os esforços para continuar este diálogo em toda a Igreja mundial, até ao debate no Sínodo de  outubro de 2015. Ao contrário do Sínodo atual, o de 2015 deve anunciar a plena aplicação das ciências teológicas e a participação ativa dos fiéis. Só então poderão ser encontradas respotas informadas e realistas para as muitas questões prementes que persistem.

Já é tempo de os fundamentos da doutrina sexual da Igreja serem desenvolvidos de acordo com a ciência moderna. Isto deve levar, e vai levar, a um abandono das doutrinas incorretas ou desatualizadas e ao desenvolvimento da doutrina.

Acreditamos na importância dos seguintes pontos:
  • Um regresso à primazia da consciência individual (cardeal John Henry Newman),
  • Uma visão nova e holística da sexualidade, possibilitando uma abordagem razoável às questões da homossexualidade e parcerias homossexuais,
  • Uma interpretação inspiradora dos textos bíblicos relevantes e da mensagem de Jesus,
  • uma compreensão sofisticada do casamento como um sacramento, seguindo o concílio de Trento
O Movimento Internacional Nós Somos Igreja espera ainda que que a  discussão subsequente entre os bispos, em 2015, possa produzir:
  • Um novo acolhimento aos divorciados e casais recasados, seguindo o exemplo das Igrejas Ortodoxas e dos bispos do Alto Reno, tornado público em 1993,
  • Uma postura ativa por parte da Igreja Católica Romana contra a criminalização dos homossexuais, que são perseguidos em muitos países, chegando mesmo a incorrer em pena de morte,
  • Uma visão do casamento e das diversas formas de família como comunidades de vida, que assumem a responsabilidade no amor e na solidariedade,
  • Apoio, especialmente para as famílias que têm de viver, por razões sociais ou políticas, em condições muito degradadas.
Após anos de supressão de diálogo na igreja local, o papa Francisco deu um passo notável ao pedir a todos os membros da Igreja para responder ao questionário pré-sinodal. O "Instrumentum Laboris" oferece uma visão global que é impossível de ignorar.

A beatificação do Papa Paulo VI, a ter lugar no último dia do Sínodo, reconhece o seu grande trabalho na abertura da Igreja ao mundo e a continuidade que deu ao trabalho do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu predecessor. No entanto, ele também estabeleceu doutrina sobre questões matrimoniais e sexuais tendo em conta a política da Igreja e ignorando a grande maioria dos votos da Comissão de Controle de Nascimento convocada por ele. Em 1998, a Encíclica "Humanae Vitae" resultou em grande perda de credibilidade para a Igreja como instituição e para a sua doutrina sobre a sexualidade humana. Isso não deve continuar após este Sínodo.

CONTACTOS EM ROMA:
Christian Weisner, cell phone: + 49-172-5 18 40 82, media@we-are-church.org


CONTACTOS NA AUSTRIA:
Dr. Martha Heizer, Chair of International Movement We are Church
cell phone: +43 650 4168500, martha.heizer@inode.at

13 outubro 2014

El Sínodo mantiene la esperanza de un cambio positivo en la historia de la Iglesia

Comunicado do Movimento Internacional Nós Somos Igreja (em breve com tradução portuguesa)

El Movimiento Internacional Somos Iglesia acoge con satisfacción el hecho de que el Papa Francisco haya lanzado hoy un nuevo proceso valiente de diálogo amplio y abierto en la Iglesia Católica. Con el comienzo del Sínodo estamos seguros de que el proceso estará acompañado por el Espíritu Santo y no se podrá detener.

Somos Iglesia pide a los cardenales y obispos que participan en el Sínodo que  no pierdan el tiempo con discusiones fundamentalistas sino que busquen honestamente y de forma conjunta soluciones pastorales a las muchas preguntas apremiantes. La doctrina teológica y las necesidades pastorales no deben ir una en contra de las otras.

Después de años de opresión de todo diálogo dentro de la iglesia, fue un notable desarrollo que el Papa Francisco invitase  a todos los creyentes, al "pueblo de Dios",  para responder a un cuestionario de preparación para el Sínodo. Los resultados procedentes de todo el mundo que el documento "Instrumentum laboris" claramente muestra no pueden ser ignorados: La enseñanza tradicional de la Iglesia ha perdido el contacto con la vida real y con los diferentes tipos de vida familiar de nuestro tiempo. Lo que ellos llaman "situaciones irregulares o no aceptadas" es una realidad generalizada en todas las partes del mundo. "La realidad es más importante que la idea" (Evangelii Gaudium 231).

·         Es hora de que la base teológica de la enseñanza sexual de la iglesia se desarrolle de nuevo teniendo en cuenta las los planteamientos de las ciencias humanas modernas. Incluso el cuestionario cuyas respuestas resume el  "Instrumentum laboris" encuentra la comprensión tradicional de la ley natural "muy problemática, si no totalmente incomprensible".

·         Es hora de que el " sensus fidelium " (el "sentido de los fieles"), así como la primacía de la conciencia individual (Cardenal John Henry Newman) sean re-descubiertos como el punto clave de la vida y la enseñanza cristianas.

·         Es hora de que los líderes de la iglesia se abran a un nuevo enfoque para las parejas homosexuales y las parejas divorciadas y vueltas a casar - no sólo por misericordia, sino por justicia. ¿Por qué no seguir el ejemplo de las Iglesias ortodoxas con las parejas formadas por personas que han vuelto a casarse?

·         Ya es hora de que la iglesia apoye a todas las familias que viven en situaciones muy pobres y duras debidas a los sistemas económicos neoliberales,  de manera auténtica y creíble.

Esta primera reunión del Sínodo cuenta entre sus participantes con una abrumadora mayoría de cardenales y obispos que fueron nombrados por los dos papas anteriores. Hay muy pocas mujeres, expertos y auditores en el Sínodo. Hasta ahora, los miembros de los grupos de reforma no han sido invitados al sínodo , aunque Somos Iglesia propuso una serie de expertos al cardenal Lorenzo Baldisseri . Por lo tanto el proceso del Sínodo no puede y no debe limitarse al aula sinodal. El Movimiento Internacional Somos Iglesia apoyará los procesos de diálogo abierto que haya en los distintos  países hasta la segunda reunión del Sínodo en octubre de 2015.

Dr. Martha Heizer (Coordinadora), el teléfono celular en Roma: +43 650 4168500, martha.heizer@inode.at
Christian Weisner, teléfono celular en Roma: + 49-172-5 18 40 82, media@we-are-church.org

Religião reflexiva

Frei Bento Domingues O.P.

O prémio Nobel da Paz perdeu-se na guerra. Se quiser reencontrar a sua missão, talvez tenha, com o Papa Francisco, uma bela oportunidade de se reabilitar.

1. As sociedades modernas foram fundadas sobre a excomunhão política de qualquer referência religiosa. Embora com vários desenhos, o cenário está identificado.

A institucionalização da autonomia da esfera secular fez-se para suspender a intolerância e a violência associadas às guerras de religião e ao poder absoluto em nome de Deus. A intervenção política ficaria, em princípio, entregue à responsabilidade de todos os cidadãos. Pertencia-lhes escolher as instituições em que desejavam viver. Os indivíduos poderiam ter convicções religiosas, mas estas deveriam cingir-se ao domínio privado e não poderiam ser invocadas na configuração das instituições próprias do agir político ou militar. Era urgente mandar para a reforma o “Deus dos Exércitos” do Antigo Testamento, do regime de Cristandade e do Islão.

Nesse terreno brotaram várias expressões de crenças ateístas, invocando a desalienação religiosa. Diz-se que o patrocínio de alguns conhecidos “mestres da suspeita” lhes emprestou credibilidade. Deus morria para se poder assistir ao nascimento de uma humanidade confiante nas suas próprias capacidades, sem muletas. A investigação da natureza e das suas leis não precisava da hipótese Deus.

O resultado não foi, em tudo, glorioso. Em nome de um futuro sem heranças obscurantistas, desatenderam-se dimensões essenciais da vida humana.

As consequências dessa miopia foi a perda de muita memória cultural criadora e o esquecimento da origem cristã de muitos conceitos e valores fulcrais da modernidade. Precisavam, certamente, de ser libertados da dominação das Igrejas e de se tornarem parte de uma saudável laicidade do espaço público livre. Mas um espaço público que recusa a participação no debate democrático, das diferentes correntes culturais, filosóficas, éticas e religiosas, esquece a complexidade da condição humana e arrisca-se a cair nas piores armadilhas fundamentalistas político-religiosas, como está à vista.

A recente e presente debilidade cultural de muitos dirigentes e decisores europeus favorece o que deveria evitar e não fez nem faz o que é da sua responsabilidade. A falta de sabedoria e de ética política e social mata a vocação europeia.        

2. J.-M. Ferry, depois de um longo percurso filosófico, marcado pela tradução para francês da obra do filósofo alemão, Jürgen Habermas e de contributos essenciais para configurar e repensar o projecto europeu, desenhou o tripé ético e espiritual para a respiração cultural da política numa sociedade contemporânea: recuperou a noção de civilidade, como princípio de socialização mediatizado pelo reconhecimento das diferentes sensibilidades; conjugou-a com a de legalidade, isto é, com a limitação da violência social ou política pela mediação do direito e pela publicidade, concebida como comunicação de experiências sociais e das decisões na discussão argumentada.

As noções deste tripé precisavam de ser esmiuçadas para testar o seu alcance prático. Neste momento, interessa-me sobretudo a sua última proposta, a religião reflexiva [1].

A preocupação de J.-M-Ferry é uma ética para as relações internacionais. É alarmante a situação política do mundo actual e do estado primitivo das relações diplomáticas. Trabalha na construção de uma ética reconstrutiva da reconciliação que complete a ética argumentativa do entendimento mútuo que tem desenvolvido, pois é urgente abrir uma nova época na história dos povos e das suas recíprocas relações.

A religião reflexiva procura reformular os imperativos mais universais da moral kantiana, à luz do que lhe é mais íntimo, mas ainda pouco explicitado: a proposta de uma filosofia da actualidade histórica. Para o conseguir desenvolve uma questão decisiva para o judeo-cristianismo e para a modernidade europeia: o laço da filosofia, da teologia e da história. Filosofia e teologia não são objectos de conhecimento só para eruditos. São instrumentos de conhecimento para todos. A ética reconstrutiva é uma ética da responsabilidade que lança os fundamentos de uma filosofia da história.

Temos de procurar apreender e reconstruir o sentido na história universal, sem procurar nem postular um sentido da história universal.

3. Se, neste momento, a voz de um papa se libertou, de forma clara e explícita, do espírito de dominação eclesiástica e assume a causa dos oprimidos, deve haver liberdade para, no espaço público, escutar e debater esta voz, para que ninguém a tente anexar ou manipular. Os temas não são apenas de interesse mundial e local. O que Bergoglio anda a fazer é uma convocatória de todos os seres humanos de boa vontade, sejam ateus, laicos ou religiosos, para o que a todos diz respeito: um futuro de paz e cooperação de onde ninguém seja excluído. Não havendo, nesta convocatória, nada que seja para proveito próprio ou de grupo, talvez mereça mais atenção do que uma assembleia de negócios.

O prémio Nobel da Paz perdeu-se na guerra. Se quiser reencontrar a sua missão, talvez tenha, com o Papa Francisco, uma bela oportunidade de se reabilitar.

[1] J. – M. Ferry, La religion réflexive, Paris, Cerf, 2010

05 outubro 2014

Convidados para jantar, proibidos de comer (3)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Um leitor destas crónicas lamenta a minha perda de tempo com assuntos de moral familiar e, em particular, com a discutida participação dos católicos divorciados recasados na comunhão eucarística. As próprias espectativas de mudança, no próximo Sínodo dos Bispos, são o resultado da preguiça católica em pensar pela própria cabeça. Andar a pedir ordens ao clero é infantilismo cultivado. Cada católico deve ser tutor de si próprio. Eu deveria limitar-me a recordar a célebre resposta de I. Kant (de 1784) à pergunta: o que é o iluminismo?
A resposta é conhecida: “O iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude [1]! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento. Eis a palavra de ordem do iluminismo”.   
 
Recordou-me ainda que o Vaticano II (1962-1965) foi o começo de uma clara escuta de alguns ecos da modernidade, há muito esquecidos: a consciência como primeira instância moral (GS 16); a declaração sobre a liberdade religiosa (Dignitatis Humanae), destacando que a própria objectividade  da verdade moral “não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra  nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte” (n.1).     

Inteiramente de acordo, mas vamos por partes. Kant tem razão: a recusa preguiçosa de cada pessoa se servir do próprio entendimento e andar sempre a recorrer a um “director de consciência” é um exercício de infantilismo e, por outro lado, uma atitude obscurantista de quem alimenta essa dependência. No entanto, seria igualmente infantil não alimentar o próprio entendimento com as investigações dos outros. O culto da auto-ignorância para ser dono das suas decisões éticas, é uma parvoíce. Somos seres de relação em todas as dimensões. Não somos apenas responsáveis diante da nossa consciência, mas também pela consciência que podemos ter do nosso mundo e do mundo dos outros.      

2. Louis Dingemans (1922-2004), sociólogo e teólogo, era um dominicano belga que aprofundou, com um grupo de trabalho interdisciplinar, a situação eclesial dos divorciados recasados [2].   

Para a validade de uma celebração católica do casamento sempre foi exigido o consentimento livre dos esposos e, como dizia Kierkegaard, o amor nunca é tão grande como quando se assume como um dever recíproco. A multiplicidade de uniões infelizes e divórcios, a fragilidade dos amores humanos ainda não conseguiram estancar o sonho e o desejo de muitas pessoas se aliarem para construírem uma história comum, que não esteja dependente dos humores de cada dia. Encontram-se até pessoas “pouco praticantes” que pedem para se casar pela Igreja e não é apenas pelas fotografias. Como diz L. Dingemans, parece que têm uma vaga percepção de que o casamento, sendo uma loucura, precisa do Deus do Evangelho, protector dos loucos, sentindo que todo o verdadeiro amor é de origem divina.    

Muito ou pouco praticantes, por culpa ou sem culpa de um ou de ambos, o facto é que existem rupturas sem remédio. Surgem, depois, novas uniões. Pondo de lado a leviandade e os caprichos de muitos casos, também existem divorciados recasados que nesses processos complicados aprofundaram e redescobriram a sua fé, que desejam alimentar.

Como já vimos em artigos anteriores, não são católicos excomungados. Pelo contrário, são convidados a participar na vida da Igreja e a frequentarem a Eucaristia. Mas são proibidos de comungar: convidados para uma refeição e impedidos de comer. À primeira não se entende esta incongruência e à segunda, ainda menos. Invoca-se um estado permanente de violação da aliança matrimonial. Razão apresentada: existe uma contradição objectiva de ordem simbólica, pois a aliança entre Deus e a Humanidade, entre Cristo e a sua Igreja é actualizada pelo laço entre marido e mulher. O autor citado mostra, de forma analítica, que este é um argumento falacioso. Deus é sempre fiel, mas os seres humanos não são Deus. Podem falhar e a misericórdia de Deus nunca falha.

3. É bom não esquecer uma oração da missa do Domingo passado: Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e vos compadeceis, derramai sobre nós a vossa graça.
O Papa Francisco, que tem muita graça em receber a graça de Deus, resolveu, na audiência geral do passado dia 10, propor que a Igreja, em todas as suas expressões, seja uma escola da misericórdia. Não estávamos habituados. Era mais associada a um ministério com tribunais lentos e sem piedade.

[1] Atreve-te a pensar
[2] Cf. dossier  chrétians qui sont dévorcés et remariés,Centre Dominicain de Froismont, Bélgica ; Louis Dingemans, Mariage et alliance. L’ambiguïté d’un symbole, Rev. Lumière et Vie, n 206 (1992), pg 25-38 ; Jesus face au divorce, Racine|Fidélité, 2004

Público, 05.10.2014

03 outubro 2014

Jesus e a Igreja ainda interessam à sociedade portuguesa?

Texto de Ana Vicente

No dia 19 de Setembro 2014 houve uma HOMENAGEM A FREI BENTO DOMINGUES O.P., que se realizou no Auditório 2, Fundação Calouste Gulbenkian. O programa era aliciante e o homenagedo merecia. O tema geral era CIDADANIA, CULTURA E TEOLOGIA NA PRAÇA PÚBLICA. Por isso encheu-se a sala e transbordou ainda. Participei num painel cujo título era

JESUS E A IGREJA AINDA INTERESSAM À  SOCIEDADE PORTUGUESA?

Juntamente com o Pastor Dimas de Almeida e com o Prof.  Miguel Oliveira da Silva.

A moderação foi de Maria Conceição Moita.

Eis o texto que preparei e que apresentei numa versão um pouco mais resumida.

Agradecimentos pelo convite a António Marujo, Julieta Mendes Dias e Guilhermina Gomes e saudações pela iniciativa – Excelente ideia a edição dos dois volumes para memória futura. Saúdo também a excelente Fundação Gulbenkian, na pessoa do seu presidente, Dr Artur Santos Silva.

Começo por agradecer ao Frei Bento o precioso apoio que tem dado ao longo destes anos ao Movimento Internacional Nós Somos Igreja – Portugal.

O Frei Bento veio ao mundo para nos animar, fazer rir e pensar. Conheço-o há mais de de 50 anos e sou disso testemunha fidedigna. Vou contar uma história que se passou em 1995, pouco tempo depois da grande Conferência Internacional das Nações Unidas sobre as Mulheres, em Pequim. Estavamos em Leiria, perante uma sala imensa, com cerca de 200 pessoas presentes, incluindo o Bispo da diocese. Debatia-se, obviamente, os direitos das mulheres. A dada altura o Frei Bento perguntou à assistência: ‘sabem porque é que as mulheres não podem ser ordenadas?’ e respondeu à sua própria pergunta: ‘porque as mulherzinhas não têm cabeça.’ Imaginem o espanto que se espalhou pela sala.

Ou seja,  passou e continua a passar pela terra deixando muitas marcas – faz a diferença, fazendo ecoar uma frase muito utilizada no mundo anglo-saxónico – todos devemos e podemos fazer a diferença – é só uma questão de querer e de ter a noção de que temos muitos talentos, úteis para nós próprias e para as outras.

28 setembro 2014

Convidados para jartar, proibidos de comer (2)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Aconselharam-me a ter cuidado com o modo como são abordadas as problemáticas levantadas pelo Sínodo sobre a Família, pois a Igreja não pode dar a imagem de que tanto abençoa casamentos como divórcios ou recasamentos.       
Observação sábia. Não me parece, no entanto, que nos encontremos perante esse perigo. Receio algo diferente: que o descuido dos católicos com a significação da complexidade do que está acontecer possa levar à indiferença, à banalização ou a diagnósticos e remédios que matam.
As religiões são expressões públicas e sociais da fé. O legalismo e o ritualismo tendem a envenenar a sua vida concreta. Chegam a querer substituir-se à liberdade de Deus e à consciência humana. A lei e o ritual pretendem traçar o caminho a Deus e aos seres humanos: ou passam por ali ou não passam.      
Jesus rompeu com essa concepção fundamentalista. O encontro de Deus connosco não segue apenas nem principalmente o traçado das cerimónias do culto. O serviço desinteressado dos mais necessitados é o seu  teste inequívoco (Mt 25, 34-38). O próprio catolicismo precisa de ser continuamente evangelizado.
Sendo esta a realidade cristã, para que perder tempo com os rituais litúrgicos? Talvez porque somos humanos.
2. Tomás de Aquino, no comentário à primeira carta de S. Paulo aos Coríntios (c 15), sobre a ressurreição, tem uma posição arrepiante para os espiritualistas: a salvação da minha alma não é a minha salvação, pois a minha alma não é o meu eu (anima mea non est ego).  
Ao dizer isto não tenta oferecer uma explicação da vida depois da morte, da qual não sabe nada. Parte da convicção de que a morte não pode ser a última palavra do itinerário humano. A salvação não pode ser entendida como a reanimação de um cadáver.         
O ser humano é uma viva corporeidade espiritual e um espírito corporal. São duas dimensões de uma única e mesma realidade. Esta perspectiva recusa qualquer dualismo, pois não se trata de um anjo caído no mundo. Numa óptica cristã, a expressão “salvação das almas” tem inconvenientes antropológicos, cristológicos e litúrgicos insuperáveis. As celebrações sacramentais implicam uma corporeidade sensitiva e expressiva marcada pela cultura e pela história. A inculturação litúrgica não é um luxo. É uma condição de verdade.         
Nos debates do seu tempo, acerca da definição dos sacramentos cristãos, Tomás de Aquino inscreveu-a no vasto mundo da simbólica, em todos os seus registos. A diminuição da consistência sensível dos signos sacramentais é um atentado à sua significação divina e humana. A sua primeira eficácia depende da capacidade de evocação - uma exterioridade que acorda para uma interioridade -, para um acontecimento de graça, de transformação da vida. O enfraquecimento da densidade simbólica é meio caminho andado para a mecânica da magia: faz-se o truque e acontece.
A celebração dos sacramentos implica uma tríplice significação: a evocação de um acontecimento do passado, a sua eficácia presente e a abertura a um futuro sem clausura. Na Eucaristia, o sacramento dos sacramentos, quando lemos as narrativas evangélicas, começamos sempre por dizer: Naquele tempo. Não é para nos instalar no passado, mas para o confrontar com o nosso presente. Não temos de resolver questões de há dois mil anos, mas perguntar: que haverá, no que aconteceu há dois mil anos, que nos possa ajudar a desassossegar o nosso presente?
Temos a ideia de que o passado passou e acabou. S. Tomás, ao abordar os mistérios da vida de Cristo, perguntava: como poderão esses acontecimentos salvar o nosso tempo? A resposta tem sentido: Jesus estava completamente na onda de Deus e, por isso, a sua intervenção histórica, o amor que a percorria, atinge todos os tempos e lugares.  
3. Tantas voltas para quê? No Tablet (1), o cardeal Walter Kasper, é confrontado com o acesso dos católicos recasados à comunhão eucarística. Sabe muito bem que há situações diferentes, mas o que, em última análise, deve contar nas atitudes de toda a Igreja é a misericórdia. Não está a dizer nada de novo, não só do ponto de vista bíblico, como na sistematização teológica. A misericórdia efectiva é o que de melhor podemos dizer de Deus (2)
Todos estão de acordo que a simbólica da Eucaristia é a da refeição partilhada. Não há quem negue que o sacramento da Eucaristia, do princípio ao fim, é a maior celebração da misericórdia, do perdão, da reconciliação. Na própria consagração do vinho diz-se, explicitamente: Tomai, todos, e bebei: Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança que será derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim.  
Como esquecer a memória das refeições de Jesus com os classificados como pecadores (Mc 2, 15-17; Mt 9, 10-013; Lc 5, 29-32)?
Surge a interrogação: Porque come ele com os publicanos e com os pecadores? Ouvindo isto, Jesus responde: Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores. Ironia divina.
Continuaremos.

Público, 28.09.2014



(1) The case for mercy, Jornal The Tablet, ed. de 20 de Setembro, entrevista mensal
(2) Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, 21, 3

21 setembro 2014

Convidados para jantar, proibidos de comer (1)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. No contexto da preparação do Sínodo dos Bispos, convocado para o Vaticano pelo Papa Francisco, a realizar de 5 a 9 de Outubro, sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização, é normal que se tenham intensificado, nos diferentes continentes, os confrontos de tendências pastorais e teológicas sobre os antigos e novos modelos de família. Na realidade, desde o Vaticano II, não houve pausa nas controvérsias sobre as implicações da celebração católica do casamento. Não serão extintas no próximo Sínodo dos Bispos. O Papa Francisco não pode nem deve fazer tudo sozinho e tem de contar com os pedregulhos que os adversários da sua orientação lhe colocaram e colocam no caminho.

Não estamos na situação dos primeiros cristãos. Eles julgavam que o fim do mundo estava mesmo a chegar, como se pode ver nas cartas de S. Paulo aos Tessalonicenses. Os próprios textos do NT acusam uma certa evolução acerca do casamento, pois as comunidades cristãs tiveram de responder a desafios que Jesus não pode nem podia humanamente prever. Para lhe serem fiéis tiveram de inovar.
Por outro lado, se a identidade cristã da família não tivesse nada a ver com a pluralidade de mundos em mudança e tivesse sido configurada na eternidade, de uma vez para sempre, nem sequer seria precisa tanta despesa na preparação, nas viagens e na estadia, em Roma, dos 253 participantes dessa Assembleia, que continua mais representativa da hierarquia eclesiástica do que dos fiéis.
     
2. O próprio Jesus nasceu na história de uma família com a qual nem sempre teve uma relação tranquila. A esse respeito, as narrativas de S. Marcos sobre a família de Nazaré são pouco piedosas.         

Depois do cenário da constituição dos Doze para a pregação, Jesus voltou para casa. A multidão era tanta que os familiares nem se podiam alimentar. Perante esse facto, “os seus saíram para o deter, dizendo, ele está louco”.    

Chegaram os escribas, os intérpretes da Lei de Moisés, confirmaram a sentença e manifestaram que era diabólica a causa daquela loucura: Beelzebu está nele e “é pelo príncipe dos demónios que ele expulsa os demónios”.   

O final desse texto regressa, de forma insólita, à questão da sua família: “Chegaram então a sua mãe e os seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram-no chamar. Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: a tua mãe, os teus irmãos e as tuas irmãs estão lá fora e procuram-te. Ele, porém, perguntou: quem é a minha mãe e os meus irmãos? Percorrendo com o olhar os que estavam sentados ao seu redor,  disse: Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”(Mc 3).   

Sobre o ponto de vista familiar, a sua visita a Nazaré foi um desastre completo (Mc 6,1-6). Na narrativa de S. João diz-se, longamente, que os seus irmãos o gozavam e não acreditavam nele (Jo 7, 3-5). 

Existe um contencioso evidente entre Jesus, a sua família e a dos discípulos. Porque será? O seu propósito não era a destruição, mas a evangelização da família. Esta, grande ou pequena, não pode ser um mundo fechado. Não consta que este nazareno tenha constituído família, apesar dos romances que lhe atribuem. Ele pretendia algo que pode parecer uma loucura, mas que permanecerá como o verdadeiro sentido da história humana: somos todos filhos de Deus, chamados a fazer do mundo uma família de muitas famílias, de muitos povos e culturas. Somos todos irmãos.

3. Voltemos a assuntos caseiros que farão parte dos debates do próximo sínodo. A pergunta inevitável é esta: qual é o estatuto espiritual dos católicos que vivem em união de facto e dos católicos divorciados recasados?

Acerca dos que vivem em união de facto, há esperança que se venham a casar. Não há certeza de que não se venham a divorciar. Não está definido que os que vivem em união de facto não possam ser católicos e comungar.

Quanto aos divorciados recasados a controvérsia já conta com um grande dossier [1]. Houve a tentação de os considerar não católicos, de os situar fora da Igreja. João Paulo II não alinhou. Insistiu em que devem inserir-se na vida da Igreja, nas suas actividades e frequentar a Eucaristia.
Já ninguém se atreve a dizer que estão excomungados. Alguns configuram estratégias espirituais para que possam desenvolver uma profunda vida cristã e, na missa, comungarem espiritualmente, nunca, no entanto, aceder à comunhão sacramental. Mesmo em estado de graça divina, estão marcados por uma ruptura de uma aliança indissolúvel.

Há divorciados recasados que são convidados a seguir a espiritualidade desse caminho. Existem outros que não aceitam qualquer descriminação. Também encontramos teólogos e pastoralistas, bispos, padres e cardeais advogados das duas orientações. No Sínodo, terão de conversar. Em qualquer dos casos seria importante que os interessados tivessem uma palavra a dizer e uma consciência a seguir.
De qualquer modo, a participação numa refeição pertence à simbólica da Eucaristia. Quem aceitaria um convite para jantar, com a seguinte cláusula: vem jantar, mas olha que não podes comer?  
Pensemos nisto nas próximas Celebrações Eucarísticas.

Precisamos de voltar a este assunto.


[1]   Cf. Michel Legrain, Os divorciados na Igreja, Círculo dos Leitores, 1995; Fidélité et divorce, Lumière et Vie, nº 206, 1992; A. Mattheeuws, S.J., L’ amour de Dieu ne meurt jamais, La sainteté des divorcés remariés dans l’ Église, NRT 136 (2014) 423-444 ; B. Petrà Divorziati risposati e seconde nozze nella chiesa. Una via di soluzione, Assisi Cittadella, 2012

Público, 21.09.2014