09 novembro 2014

Este Papa é incorrigível

 Frei Bento Domingues, O. P.

1. Eu deveria observar algum tempo de jejum em relação ao estilo, aos temas e aos conteúdos das intervenções pastorais de Mario Bergoglio, mas não me apetece nada precipitar a Quaresma.

Não é, todavia, para o defender ou ceder à desnecessária apologia de alguém que precisa mais de seguidores do que de admiradores. Conheço a oração, “Senhor, ilumina-o ou elimina-o”, as acusações de ser “comunista” e de usar os métodos do “prec” na reforma da cúria, de abusar da noção de hierarquia das verdades e de estar a perder, por palavras, gestos e atitudes, a tradicional dignidade de um “verdadeiro” Santo Padre. Há quem discuta a legitimidade da sua eleição e não só.

Um liberal espanhol, Miguel Angel Belloso, publicou, no DN (31/10/14), um artigo intitulado “O diabo também mora no Vaticano”. Transcrevo alguns parágrafos significativos para não atraiçoar o pensamento do autor: “Depois dos felizes papados de João Paulo II e de Bento XVI, reencontrados com a economia de mercado e sensíveis ao efeito terapêutico do capitalismo sobre a pobreza, o Vaticano viu-se sacudido pelo vendaval Francisco”. (…) “Infelizmente o novo Papa não aprendeu nada [com a experiência Argentina], vem completamente contaminado de populismo e embebido da retórica infeliz da doutrina social da Igreja, para a qual os excessos e fracassos do socialismo são a consequência de erros bem-intencionados enquanto a fé no mercado é a expressão de algo parecido com um cataclismo moral”. (…) “Desde a sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium, até às suas reiteradas filípicas nas viagens apostólicas - a mais recente foi à Coreia do Sul -, Francisco não perdeu a oportunidade de fustigar os liberais, caricaturando o mercado como uma tirania em que vigora a lei do mais forte, na qual o ser humano é considerado como um bem de consumo e em que a ganância de poucos se satisfaz reduzindo o bem-estar dos demais. Estas premissas são claramente erros de vulto, demonstram uma ignorância elementar sobre o funcionamento da economia e um desprezo tremendo pelos resultados originados pelo sistema de mercado no progresso material dos povos”.

2. Se o autor já conhecesse o discurso do Papa aos participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares, reunido no Vaticano (27-29/10/14), ficaria arrepiado com as suas ousadias: “Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: viestes colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela! Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão à espera, de braços cruzados, da ajuda de ONG, de planos assistenciais ou de soluções que nunca chegam ou, se chegam, destinam-se a anestesiar ou domesticar. (…) Os pobres já não estão à espera, querem ser protagonistas: organizam-se, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, pelo menos, tem muita vontade de esquecer. 

“Solidariedade (…) é pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e laborais. É enfrentar os efeitos destrutivos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vós sofreis e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história e é isso que os movimentos populares fazem. Este nosso encontro não responde a uma ideologia. Vós não trabalhais com ideias. Trabalhais com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram… têm os pés no barro e as mãos na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta! Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco. Talvez porque desagrada, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia”.

3. Pelo que se pode observar, nesse longo discurso, os ataques e as farpas que lhe chegam do mundo dos poderes económicos, políticos e religiosos, longe de o intimidar só lhe mostram o que ainda falta fazer por todo o género de excluídos.

Nesse discurso, ao deparar com a expressão, “Digamos juntos”, pensei que estava a iniciar uma prece comunitária. E estava. Só não era a mais habitual na boca de um Papa: “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”.

Ao ritmar “terra, teto e trabalho”, no primeiro Encontro Mundial de Movimentos Populares, a ladainha do Papa, de facto, não é a de um ideólogo do capitalismo.

Público, 9. Novembro. 2014

02 novembro 2014

Eu já não acredito no Papa Francisco (2)

Frei Bento Domingues, O.P.

1. O título da crónica do Domingo passado – Eu já não acredito no Papa Francisco - foi censurado por uma razão óbvia: o título tem de exprimir o conteúdo do texto. Ora, o meu artigo era um elogio do pontificado do papa Bergoglio e uma convocatória para não o deixarmos só, no momento em que é acusado de instalar o “PREC”, na Cúria Romana. Texto e título estão em mútua oposição. Aceito e agradeço o reparo.

Além disso, o emprego corrente da expressão - “eu já não acredito” – revela um desapontamento, uma decepção com o Pontífice romano, observável em diferentes quadrantes: para uns, ele já foi longe demais; para outros, ao ser demorado na reforma da cúria, será ela a tornar impossível continuar a obra começada. Ao espelhar esta situação, visava algo muito diferente que insinuei, na última linha, sem mais explicações.

Vamos, então, à substância. Não sou católico por causa do Papa Francisco, cujo projecto e práticas me dão muita alegria, não podendo dizer o mesmo de todos os que conheci, mas nunca poderei esquecer a minha dívida a João XXIII.

Causam-me sempre bastante tristeza os desabafos das pessoas que deixam de “ser católicas” devido a certas posições da hierarquia eclesiástica. Nessas alturas, lembro-me da reacção do Padre Chenu, quando, em meados do século passado, louvaram a sua “obediência”, em vez de revolta contra as condenações romanas a que fora submetido. Escreveu um texto para dizer que não se tratava de obediência: foi e é a fé sobrenatural em Jesus Cristo, que recebi na Igreja, mas que não é propriedade de nenhuma instituição humana ou religiosa, que me sustenta.

Chenu, grande medievalista e renovador do conhecimento histórico de Tomás de Aquino, lembrava que, para este teólogo, o terminal do acto de fé não são os enunciados do Credo, mas a misteriosa realidade divina. Estes são apenas mediações para o encontro com a Verdade (II-II, q.1.a.2 ad 2). Para S. Tomás, a fé teologal refere-se à própria realidade de Deus e não a uma criatura, como por exemplo a Igreja. Por isso, no Credo, quando se diz creio na Santa Igreja Católica, esta expressão deve ser entendida como referida ao Espírito Santo. Daí que seria preferível dizer simplesmente: creio no Espírito Santo que santifica a Igreja (II-II, q.1.a.9).

Trazer para aqui estas subtilezas parece uma tentativa para ignorar os debates actuais em torno da fé cristã e dos seus problemas, num contexto que oscila entre o ateísmo, o fideísmo e as espiritualidades à la carte, mais ou menos bem adocicadas.

2. A seguir à 2ª Guerra Mundial, certas correntes teológicas tentaram responder à seguinte questão: que sentido tem, para a construção do Reino de Deus, o trabalho e o lazer em que gastamos a maior parte do nosso tempo? Desenvolvia-se, então, a teologia das realidades terrestres e do sentido da construção da História Humana. Desejava-se viver o Cristo todo na vida toda. Os próprios padres deixavam a sacristia e iam para as fábricas aprender o que custava a vida dos trabalhadores. Dizia-se que estava mal, porque mãos consagradas e dedicadas a levantar a Hóstia na missa não se podiam manchar no óleo e na ferrugem. Nenhum trabalho, porém, era incompatível com as mãos daqueles e daquelas que o Baptismo consagrou. A “teologia do laicado” foi superando os limites da teologia da Acção Católica. O Vaticano II, na Gaudium et Spes, assumiu as dimensões incarnacionistas da fé cristã: um futuro de justiça e de paz para todos não é uma loucura. É uma tarefa! A fé é uma esperança que revela uma dimensão que a razão esquece e reprime: o horizonte dos seres humanos não se limita à sua condição mortal. O futuro não é apenas o resultado das nossas acções e do sacrifício de gerações inteiras, para que aconteça um mundo em que se possa viver. Este futuro seria um engano para todas aquelas e aqueles que foram escravos da construção daquilo que nunca poderão ver nem gozar. Só a memória infinita do Amor por cada ser humano pode vencer a vala comum.

3. No dia consagrado a não esquecer aqueles que já encontraram a Casa da Alegria, lembro o poema de Frei J. Augusto Mourão, escrito para uma música muito bela que se canta no Convento de S. Domingos:

  Não pode a morte reter-me na cruz. Não pode o mundo arrancar-me à raíz. Ao pé de Deus hei-de sempre viver. Com Deus cheguei e com Ele vou partir.
  Não poderá corromper-se a alegria. Não pode o fogo extinguir-se no céu. Meu ser demanda a morada do Deus que guarda os nomes no livro da vida.
  Não pode a morte apagar o desejo de ver a Deus face a face e viver. A Deus busquei toda a vida e vivi de acreditar no infinito da vida. Não nos reduz o escuro da noite.
  Não pode o amor esquecer o que o altera. Já ouço a voz do Senhor, Deus dos vivos. Já ouço a voz do amigo que vem.
  Não pode o mar esquecer o que o salga. Não pode a areia esquecer-se do mar.
  Meu Deus, meu Deus, vem buscar-me ao deserto. Que em tuas mãos entreguei a minha sede. A Tua vida me toma e transporta. Teu sangue inunda meu corpo de paz. Eu vejo as mãos do Senhor glorioso. Nas minhas mãos a memória de Deus.
  A Ti, Senhor, meus desejos regressam. Findo o andar, disponíveis as mãos. Abre meu corpo ao devir que não sei. Eu chamo a esperança pelo nome de Deus.

Público, 02.11.2014

26 outubro 2014

Eu já não acredito no Papa Francisco

Frei Bento Domingues, O.P.


1. O Domingo passado não foi de grande festa para toda a Igreja. Está em curso um Sínodo dos Bispos no qual foi possível discutir temas considerados incómodos, como o do acolhimento eclesial dos homossexuais e dos divorciados recasados. Do relatório final da primeira etapa deste Encontro sobre a família esperava-se mais e melhor. Por outro lado, a beatificação do papa Paulo VI, responsável da Humanae Vitae (HV), - adiando questões que há muito deveriam estar superadas – também não foi um sinal muito encorajador. Mais do mesmo.

Não vale a pena dizer que isso não tem importância. Cada um ficará onde já estava. Os casais que se identificam com a doutrina da HV e a da Familiaris Consortio (J. Paulo II) suspenderam os seus receios. Quem aguardava, para já, uma alteração dessas posições, terá de esperar por melhores dias. O Sínodo sobre a família não está encerrado. Cada dia que passa, a realidade vai mostrando que a “Pastoral Familiar” não é a mais adequada, pois se “os pastores” conhecessem e escutassem as suas “ovelhas” não se contentariam apenas com as do rebanho privilegiado.

O Papa Francisco lançou uma esperança e, na sua prática, mostra-se fiel à Alegria do Evangelho. No entanto, foi-se apercebendo de que os apelos feitos à hierarquia da Igreja não têm tido os frutos desejáveis. Sentiu como estavam activos, na preparação e realização do Sínodo, os funcionários da indústria da conserva eclesiástica, ao ponto de ter de afastar o cardeal Raymond Burke, presidente do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica (Supremum Tribunal Signaturae Apostolicae).

Mario Bergoglio surgiu com um programa de reforma do papado e da cúria romana para lançar a Igreja como uma realidade evangelizadora, em todas as suas instâncias, vendo o mundo e actuando a partir das periferias. Trabalha por uma Igreja, toda ela, em movimento. Seria um desastre se as conferências episcopais, as dioceses, as paróquias, os movimentos, as congregações religiosas se comportassem como meros observadores das iniciativas, das tomadas de posição, das intervenções do Papa. É a forma mais requintada de o atraiçoar. Mas, enquanto uns ficam parados, outros atiram-lhe pedregulhos para o caminho.

Não podemos deixar este Papa sozinho e comportarmo-nos apenas como espectadores benévolos e simpatizantes das suas atitudes.

2. Seria péssimo que agora nos deixássemos enredar em discussões que se arrastam desde a HV, desde 1968. O mundo não pára e o próprio passado, se não for congelado, está sempre em devir. Um dos méritos deste papado tem consistido, precisamente, em descongelar doutrinas, atitudes, normas consideradas irrevogáveis, definitivas, situadas fora do tempo e valendo para todo o sempre. Entrar numa casuística de moral sexual, dentro de um universo humano isolado por uma concepção de modelos imutáveis de família, é o caminho do farisaísmo.

Ganharíamos muito se lêssemos e interpretássemos as narrativas dos Evangelhos como belas e eficazes peças de teatro. Têm acção, controvérsias, actores e existem para colocar uma assembleia em movimento. A nossa tentação é a de extrair desses textos apenas princípios doutrinais, sentenças e normas de conduta, reduzindo tudo a lições de moral. As reduções de Jesus eram de outro tipo.

3. Neste Domingo, passada a discussão sobre o tributo a César e a história hilariante da mulher de sete maridos da lei bíblica – de quem será ela depois da ressurreição? - surge um aproveitamento dos escribas contra os fariseus. Vale a pena ler e imaginar.
”Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo.  Um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.» (Mt 22, 34-40 e Mc 12,28-34; Lc 10,25-28; Jo 13,33-35)”.

S. Paulo ainda foi mais sintético: “não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros. Pois quem ama o próximo cumpre plenamente a lei. De facto: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, bem como qualquer outro mandamento, estão resumidos numa só frase: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. Assim, é no amor que está o pleno cumprimento da lei (Rm 13, 8-10)”.

Creio que o Papa Francisco acredita nisto.

19 outubro 2014

A Culpa é de Cristo?

Frei Bento Domingues O. P.

1. Encontrei, na escadaria da Igreja de Santo Ildefonso (Porto), um senhor que, de costas para o templo, aproveitou para descarregar sobre mim não só o habitual anticlericalismo nortenho, mas também o seu desprezo agressivo pelas religiões, frutos do medo, da ignorância e da sacralização da maldade humana.

O Islão é um ninho de criminosos, o Judaísmo, uma rede dos bancos norte americanos, o Cristianismo, um mundo caótico de divisões em cascata, piorando sempre a configuração anterior. O papa Francisco chegou demasiado tarde para salvar a face de um catolicismo que a própria Europa já rejeitou. Etc.! Se as instituições e os serviços sociais da Igreja ajudam muita gente a aguentar a pobreza e a miséria, não revelam nem combatem as suas causas reais. Pelo contrário, ajudam-nas a sobreviver.

Estranhei que não terminasse a sua diatribe com a fórmula habitual, em circunstâncias análogas: Cristo, sim; Igreja, não! No caso referido, foi Cristo que pagou todas as despesas à base de especulações teológicas e cristológicas.

Este senhor mostrou detestar as narrativas do Novo Testamento (NT). Aquelas propostas, parábolas, controvérsias, milagres e discursos são delírios absolutamente inaplicáveis. Se Jesus Cristo fosse, de facto, um enviado de Deus vinha com ideias claras e distintas acerca do passado, do presente e do futuro, da natureza e da história. Substituiria a Bíblia por um tratado divino e infalível de ciência, de sabedoria e de ética, com manual de correcta utilização para todas as circunstâncias.

2. Aquilo que Jesus introduziu de mais perturbador no mundo religioso, económico, social e político do seu tempo, foi a insegurança: não oferecer respostas pré-fixadas para todas as situações e interrogações da vida. Pelo contrário, semeou dúvidas, inquietações e possíveis alternativas a um universo bem organizado e com respostas para sempre, “em nome de Deus”. As tentativas de reduzir os Evangelhos a dogmas e a tratados teológicos bem articulados, sem falhas, nunca poderão funcionar bem enquanto houver possibilidade de confrontar essas certezas com as narrativas da liberdade de Deus e da liberdade humana. A tentação que não nos abandona é a de procurar rapidamente a lição, moral ou dogmática, que encerram. O resto parece acidental. O inconveniente desse método é de perder precisamente o essencial. Dispor de uma resposta para uma pergunta que não se conhece, e sem olhar para o contexto de onde nasceu, é o caminho mais rápido para o dogmatismo insensato. É assim porque é assim e sempre assim foi, pelos séculos dos séculos, de outro modo, como iriamos saber que é a vontade de Deus?

O estilo de Jesus, pelo que podemos conhecer nos Evangelhos, não é o de um professor que ganhou uma cátedra, num concurso universitário, apresentado, para as suas intervenções, como Senhor Professor Doutor Jesus de Nazaré.

O Nazareno é constantemente surpreendido por interrogações e problemáticas de escribas e fariseus, com o propósito de o deixarem embaraçado perante os ouvintes e de recolherem argumentos para o liquidar. Acontece que Jesus não se atrapalha e, vendo as suas intenções perversas, manda-os bugiar.

Neste Domingo, temos os fariseus e herodianos a cogitar a forma de o tramarem numa questão melindrosa: é lícito ou não pagar o tributo a César? Conhecendo Jesus a malícia da pergunta, respondeu: porque me tentais, hipócritas? Devolveu-lhes a questão: de quem é esta imagem e inscrição? De César, responderam: então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Os judeus não podiam cunhar imagens. A única imagem de Deus é o ser humano.

3. Segundo os meios de comunicação, o porta-voz da Conferência Episcopal afirmou que os bispos portugueses estão em sintonia com a linha "inclusiva e de acolhimento" dos homossexuais e recasados, mas admite que o tema não é consensual.

Consensos absolutos não são de esperar em assunto nenhum e ainda bem. A clonagem dos cristãos não é aconselhável. O importante é que a assembleia cristã seja uma família de muitas famílias que respeite a diversidade, não como um favor, mas como um direito de todos e um dever de diálogo permanente. Não é a mesma coisa contentar-se com dizer: cada um que se arranje. Seria a negação da Igreja.

Finalmente, começam a cair alguns tabus. Muita água ainda vai passar debaixo das pontes até que o horizonte da Igreja esteja mais desanuviado. Cada grupo continuará a defender os seus pontos de vista. No entanto, a interrogação que todos se devem fazer, talvez se possa formular assim: para que continuar com o sofrimento inútil dos casais cristãos? O que será preciso alterar nas mentalidades católicas para que a educação sexual se torne uma exigência inerente ao desenvolvimento da vida humana nas múltiplas dimensões do amor? Será que ainda existem católicos que acham que Deus se enganou ao dizer que o ser humano é homem e mulher? Homem e mulher será o pecado de Deus?

No NT não há nenhuma preocupação em mostrar se Jesus constituiu ou não uma família. Os textos insistem em algo mais abrangente: o seu projecto era congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 52).

Seria excessivo pedir-lhe um manual de moral sexual.
 
Público, 19.10.2014

18 outubro 2014

"Agora, o Sínodo da Igreja universal deve continuar"


Este dia final do Sínodo Extraordinário iniciou um processo há muito desejado de diálogo amplo e aberto em toda a Igreja. Este processo não pode ser interrompido.

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja apoia todos os esforços para continuar este diálogo em toda a Igreja mundial, até ao debate no Sínodo de  outubro de 2015. Ao contrário do Sínodo atual, o de 2015 deve anunciar a plena aplicação das ciências teológicas e a participação ativa dos fiéis. Só então poderão ser encontradas respotas informadas e realistas para as muitas questões prementes que persistem.

Já é tempo de os fundamentos da doutrina sexual da Igreja serem desenvolvidos de acordo com a ciência moderna. Isto deve levar, e vai levar, a um abandono das doutrinas incorretas ou desatualizadas e ao desenvolvimento da doutrina.

Acreditamos na importância dos seguintes pontos:
  • Um regresso à primazia da consciência individual (cardeal John Henry Newman),
  • Uma visão nova e holística da sexualidade, possibilitando uma abordagem razoável às questões da homossexualidade e parcerias homossexuais,
  • Uma interpretação inspiradora dos textos bíblicos relevantes e da mensagem de Jesus,
  • uma compreensão sofisticada do casamento como um sacramento, seguindo o concílio de Trento
O Movimento Internacional Nós Somos Igreja espera ainda que que a  discussão subsequente entre os bispos, em 2015, possa produzir:
  • Um novo acolhimento aos divorciados e casais recasados, seguindo o exemplo das Igrejas Ortodoxas e dos bispos do Alto Reno, tornado público em 1993,
  • Uma postura ativa por parte da Igreja Católica Romana contra a criminalização dos homossexuais, que são perseguidos em muitos países, chegando mesmo a incorrer em pena de morte,
  • Uma visão do casamento e das diversas formas de família como comunidades de vida, que assumem a responsabilidade no amor e na solidariedade,
  • Apoio, especialmente para as famílias que têm de viver, por razões sociais ou políticas, em condições muito degradadas.
Após anos de supressão de diálogo na igreja local, o papa Francisco deu um passo notável ao pedir a todos os membros da Igreja para responder ao questionário pré-sinodal. O "Instrumentum Laboris" oferece uma visão global que é impossível de ignorar.

A beatificação do Papa Paulo VI, a ter lugar no último dia do Sínodo, reconhece o seu grande trabalho na abertura da Igreja ao mundo e a continuidade que deu ao trabalho do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu predecessor. No entanto, ele também estabeleceu doutrina sobre questões matrimoniais e sexuais tendo em conta a política da Igreja e ignorando a grande maioria dos votos da Comissão de Controle de Nascimento convocada por ele. Em 1998, a Encíclica "Humanae Vitae" resultou em grande perda de credibilidade para a Igreja como instituição e para a sua doutrina sobre a sexualidade humana. Isso não deve continuar após este Sínodo.

CONTACTOS EM ROMA:
Christian Weisner, cell phone: + 49-172-5 18 40 82, media@we-are-church.org


CONTACTOS NA AUSTRIA:
Dr. Martha Heizer, Chair of International Movement We are Church
cell phone: +43 650 4168500, martha.heizer@inode.at

13 outubro 2014

El Sínodo mantiene la esperanza de un cambio positivo en la historia de la Iglesia

Comunicado do Movimento Internacional Nós Somos Igreja (em breve com tradução portuguesa)

El Movimiento Internacional Somos Iglesia acoge con satisfacción el hecho de que el Papa Francisco haya lanzado hoy un nuevo proceso valiente de diálogo amplio y abierto en la Iglesia Católica. Con el comienzo del Sínodo estamos seguros de que el proceso estará acompañado por el Espíritu Santo y no se podrá detener.

Somos Iglesia pide a los cardenales y obispos que participan en el Sínodo que  no pierdan el tiempo con discusiones fundamentalistas sino que busquen honestamente y de forma conjunta soluciones pastorales a las muchas preguntas apremiantes. La doctrina teológica y las necesidades pastorales no deben ir una en contra de las otras.

Después de años de opresión de todo diálogo dentro de la iglesia, fue un notable desarrollo que el Papa Francisco invitase  a todos los creyentes, al "pueblo de Dios",  para responder a un cuestionario de preparación para el Sínodo. Los resultados procedentes de todo el mundo que el documento "Instrumentum laboris" claramente muestra no pueden ser ignorados: La enseñanza tradicional de la Iglesia ha perdido el contacto con la vida real y con los diferentes tipos de vida familiar de nuestro tiempo. Lo que ellos llaman "situaciones irregulares o no aceptadas" es una realidad generalizada en todas las partes del mundo. "La realidad es más importante que la idea" (Evangelii Gaudium 231).

·         Es hora de que la base teológica de la enseñanza sexual de la iglesia se desarrolle de nuevo teniendo en cuenta las los planteamientos de las ciencias humanas modernas. Incluso el cuestionario cuyas respuestas resume el  "Instrumentum laboris" encuentra la comprensión tradicional de la ley natural "muy problemática, si no totalmente incomprensible".

·         Es hora de que el " sensus fidelium " (el "sentido de los fieles"), así como la primacía de la conciencia individual (Cardenal John Henry Newman) sean re-descubiertos como el punto clave de la vida y la enseñanza cristianas.

·         Es hora de que los líderes de la iglesia se abran a un nuevo enfoque para las parejas homosexuales y las parejas divorciadas y vueltas a casar - no sólo por misericordia, sino por justicia. ¿Por qué no seguir el ejemplo de las Iglesias ortodoxas con las parejas formadas por personas que han vuelto a casarse?

·         Ya es hora de que la iglesia apoye a todas las familias que viven en situaciones muy pobres y duras debidas a los sistemas económicos neoliberales,  de manera auténtica y creíble.

Esta primera reunión del Sínodo cuenta entre sus participantes con una abrumadora mayoría de cardenales y obispos que fueron nombrados por los dos papas anteriores. Hay muy pocas mujeres, expertos y auditores en el Sínodo. Hasta ahora, los miembros de los grupos de reforma no han sido invitados al sínodo , aunque Somos Iglesia propuso una serie de expertos al cardenal Lorenzo Baldisseri . Por lo tanto el proceso del Sínodo no puede y no debe limitarse al aula sinodal. El Movimiento Internacional Somos Iglesia apoyará los procesos de diálogo abierto que haya en los distintos  países hasta la segunda reunión del Sínodo en octubre de 2015.

Dr. Martha Heizer (Coordinadora), el teléfono celular en Roma: +43 650 4168500, martha.heizer@inode.at
Christian Weisner, teléfono celular en Roma: + 49-172-5 18 40 82, media@we-are-church.org

Religião reflexiva

Frei Bento Domingues O.P.

O prémio Nobel da Paz perdeu-se na guerra. Se quiser reencontrar a sua missão, talvez tenha, com o Papa Francisco, uma bela oportunidade de se reabilitar.

1. As sociedades modernas foram fundadas sobre a excomunhão política de qualquer referência religiosa. Embora com vários desenhos, o cenário está identificado.

A institucionalização da autonomia da esfera secular fez-se para suspender a intolerância e a violência associadas às guerras de religião e ao poder absoluto em nome de Deus. A intervenção política ficaria, em princípio, entregue à responsabilidade de todos os cidadãos. Pertencia-lhes escolher as instituições em que desejavam viver. Os indivíduos poderiam ter convicções religiosas, mas estas deveriam cingir-se ao domínio privado e não poderiam ser invocadas na configuração das instituições próprias do agir político ou militar. Era urgente mandar para a reforma o “Deus dos Exércitos” do Antigo Testamento, do regime de Cristandade e do Islão.

Nesse terreno brotaram várias expressões de crenças ateístas, invocando a desalienação religiosa. Diz-se que o patrocínio de alguns conhecidos “mestres da suspeita” lhes emprestou credibilidade. Deus morria para se poder assistir ao nascimento de uma humanidade confiante nas suas próprias capacidades, sem muletas. A investigação da natureza e das suas leis não precisava da hipótese Deus.

O resultado não foi, em tudo, glorioso. Em nome de um futuro sem heranças obscurantistas, desatenderam-se dimensões essenciais da vida humana.

As consequências dessa miopia foi a perda de muita memória cultural criadora e o esquecimento da origem cristã de muitos conceitos e valores fulcrais da modernidade. Precisavam, certamente, de ser libertados da dominação das Igrejas e de se tornarem parte de uma saudável laicidade do espaço público livre. Mas um espaço público que recusa a participação no debate democrático, das diferentes correntes culturais, filosóficas, éticas e religiosas, esquece a complexidade da condição humana e arrisca-se a cair nas piores armadilhas fundamentalistas político-religiosas, como está à vista.

A recente e presente debilidade cultural de muitos dirigentes e decisores europeus favorece o que deveria evitar e não fez nem faz o que é da sua responsabilidade. A falta de sabedoria e de ética política e social mata a vocação europeia.        

2. J.-M. Ferry, depois de um longo percurso filosófico, marcado pela tradução para francês da obra do filósofo alemão, Jürgen Habermas e de contributos essenciais para configurar e repensar o projecto europeu, desenhou o tripé ético e espiritual para a respiração cultural da política numa sociedade contemporânea: recuperou a noção de civilidade, como princípio de socialização mediatizado pelo reconhecimento das diferentes sensibilidades; conjugou-a com a de legalidade, isto é, com a limitação da violência social ou política pela mediação do direito e pela publicidade, concebida como comunicação de experiências sociais e das decisões na discussão argumentada.

As noções deste tripé precisavam de ser esmiuçadas para testar o seu alcance prático. Neste momento, interessa-me sobretudo a sua última proposta, a religião reflexiva [1].

A preocupação de J.-M-Ferry é uma ética para as relações internacionais. É alarmante a situação política do mundo actual e do estado primitivo das relações diplomáticas. Trabalha na construção de uma ética reconstrutiva da reconciliação que complete a ética argumentativa do entendimento mútuo que tem desenvolvido, pois é urgente abrir uma nova época na história dos povos e das suas recíprocas relações.

A religião reflexiva procura reformular os imperativos mais universais da moral kantiana, à luz do que lhe é mais íntimo, mas ainda pouco explicitado: a proposta de uma filosofia da actualidade histórica. Para o conseguir desenvolve uma questão decisiva para o judeo-cristianismo e para a modernidade europeia: o laço da filosofia, da teologia e da história. Filosofia e teologia não são objectos de conhecimento só para eruditos. São instrumentos de conhecimento para todos. A ética reconstrutiva é uma ética da responsabilidade que lança os fundamentos de uma filosofia da história.

Temos de procurar apreender e reconstruir o sentido na história universal, sem procurar nem postular um sentido da história universal.

3. Se, neste momento, a voz de um papa se libertou, de forma clara e explícita, do espírito de dominação eclesiástica e assume a causa dos oprimidos, deve haver liberdade para, no espaço público, escutar e debater esta voz, para que ninguém a tente anexar ou manipular. Os temas não são apenas de interesse mundial e local. O que Bergoglio anda a fazer é uma convocatória de todos os seres humanos de boa vontade, sejam ateus, laicos ou religiosos, para o que a todos diz respeito: um futuro de paz e cooperação de onde ninguém seja excluído. Não havendo, nesta convocatória, nada que seja para proveito próprio ou de grupo, talvez mereça mais atenção do que uma assembleia de negócios.

O prémio Nobel da Paz perdeu-se na guerra. Se quiser reencontrar a sua missão, talvez tenha, com o Papa Francisco, uma bela oportunidade de se reabilitar.

[1] J. – M. Ferry, La religion réflexive, Paris, Cerf, 2010