28 dezembro 2014

Um milénio entre a excomunhão e a bênção

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Segundo a cronologia, devia ter deixado para hoje o que escrevi no Domingo passado. Mas assim é melhor. Vamos, então, à fonte donde nasceram as questões que os jornalistas levantaram ao Papa, no voo de regresso da Turquia.


Foi uma peregrinação que durou três dias cheios de acontecimentos, cuja significação profunda e decisiva para o futuro passou quase despercebida. Começo pelo contraste complementar entre as declarações fervorosas sobre o Islão – a não confundir com as organizações que o invocam para matar em nome de Deus - e o apelo veemente aos dirigentes religiosos e políticos muçulmanos para que se unam na denúncia clara e pública desses crimes e ameaças.


 A Turquia é a fronteira de muitas fronteiras políticas, religiosas e cristãs. Bergoglio não foi lá dar lições a ninguém. Foi encorajar os que procuram caminhos de paz no Medio Oriente, intensificar o diálogo inter-religioso e revigorar a proximidade católica com o mundo cristão da Ortodoxia. 


Era conduzido pelo desejo de congregar as energias de todas as pessoas de boa vontade, daquelas que vêem o mundo a partir do rosto das vítimas da violência, dos pobres e dos excluídos e que não aceitam esta vergonha como uma fatalidade.

2. Depois de se referir ao horror da islamofobia, da cristianofobia e de realçar a importância do diálogo inter-religioso, ele próprio explicou a alma da sua viagem: Eu fui à Turquia e fui como peregrino, não como turista. De facto, o que me levou, o motivo principal, foi a festa de hoje: fui precisamente para a partilhar com o Patriarca Bartolomeu; foi um motivo religioso. Depois, quando fui à Mesquita, não podia dizer: «Não! Agora sou turista!» Isto não; era tudo religioso. E vi aquela maravilha! O mufti explicava-me bem as coisas, com tanta serenidade e mesmo com o Alcorão, onde se falava de Maria e de João Baptista, explicava-me tudo... Naquele momento, senti necessidade de rezar. E disse: «Rezamos um bocado?» «Sim, sim!» - disse ele. E rezei… pela Turquia, pela paz, pelo mufti... por todos... por mim, que bem preciso... Rezei verdadeiramente. E, sobretudo, rezei pela paz. Disse: «Senhor, acabemos com a guerra!» Assim mesmo. Foi um momento de oração sincera.

3. Ao participar na Oração Ecuménica, na Sede do Patriarcado Ortodoxo, no dia da festa de Santo André, fez e disse algo, que irritou os fanáticos da superioridade católica e à qual as outras igrejas se deveriam render: "(...) André e Pedro eram irmãos de sangue, mas o encontro com Cristo transformou-os em irmãos na fé e na caridade. E nesta noite jubilosa, nesta oração de vigília, quero, sobretudo, dizer: irmãos na esperança"


Que grande graça, diz Francisco a Bartolomeu, poder ser irmãos na esperança do Senhor Ressuscitado! Que grande graça – e que grande responsabilidade – poder caminhar juntos nesta esperança, sustentados pela intercessão dos Santos irmãos Apóstolos, André e Pedro! Saber que esta esperança comum não desilude: está fundada - não sobre nós e as nossas pobres forças - mas sobre a fidelidade de Deus.


Com esta jubilosa esperança, transbordante de gratidão e trepidante expectativa, formulo a Vossa Santidade, a todos os presentes e à Igreja de Constantinopla os meus votos cordiais e fraternos pela festa do Santo Patrono. E peço um favor: de nos abençoar, a mim e à Igreja de Roma.


Um milénio entre este pedido de bênção e o envio de uma excomunhão papal!
 Com este espírito, não era difícil que, no final da Divina Liturgia, de Domingo, o Patriarca Bartolomeu e o Papa assinassem uma Declaração Comum de empenhamento em superar os obstáculos que dividem estas Igrejas.


Não é uma Declaração para servir as respectivas “sacristias”, mas para colocar as duas Igrejas no horizonte das suas responsabilidades no mundo, escutando as suas vozes: a voz dos pobres, que pedem uma ajuda material necessária em muitas circunstâncias, mas sobretudo que os ajudemos a defender a sua dignidade de pessoas humanas e a lutar contra as causas estruturais da pobreza; a voz das vítimas dos conflitos, em diversas partes do mundo - conflitos, muitas vezes entre grupos religiosos; a voz dos jovens, que vivem sem esperança, dominados pelo desânimo e resignação e que vão buscar a alegria apenas à posse de bens materiais e na satisfação das emoções do momento. Devemos encorajar as multidões de jovens, ortodoxos, católicos e protestantes, que se reúnem em Taizé, apressando o momento da unidade de todos.


Na Catedral Católica, o Papa sublinhou a nossa permanente tentação de resistir ao Espírito Santo, porque ele perturba, revolve, faz caminhar e incita a Igreja a avançar. É sempre mais fácil e confortável acomodarmo-nos nas posições estáticas e inalteradas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo, quando desiste de o regular e domesticar e afasta a tentação de só olhar para si própria. Nós, cristãos, tornamo-nos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para nos deixamos conduzir pelo Espírito. Ele é frescura, criatividade, novidade.


O diagnóstico das 15 doenças do Vaticano só pode vir de quem se incomoda e não se acomoda. Bom Ano!

Público, 28.12.2014

21 dezembro 2014

Quantos Cristos Ressuscitaram (1)

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Nas crónicas de Natal, durante vários anos, preocupei-me, com questões de ordem histórica e teológica, levantadas pelo género literário dos chamados “Evangelhos da Infância”. Esses belos tecidos simbólicos, anunciando o reinado do Espirito de Cristo – recusa do mundo de senhores e escravos – são mal servidos por uma leitura estéril de biologia milagrosa.
Este ano, opto pela peregrinação ecuménica do Papa Francisco à Turquia, fundamental para o renascimento das Igrejas. Selecciono, apenas, duas respostas descontraídas a perguntas dos jornalistas, no voo de regresso [1]. Voltarei, em breve, a outros aspectos.
O Papa Bergoglio tinha afirmado que, para chegar à suspirada plenitude da unidade, “a Igreja católica não tem intenção de impor qualquer exigência”. Daí a questão: “estaria a referir-se ao Primado (do Bispo de Roma)?
Resposta: A questão do Primado não é uma exigência; é um acordo porque também os ortodoxos o desejam. É um acordo para encontrar uma modalidade que seja mais conforme com a dos primeiros séculos. Li, uma vez, algo que me fez pensar – um parêntesis - aquilo que sinto de mais profundo acerca deste caminho da unidade está na homilia que fiz, ontem, sobre o Espírito Santo. Li, com efeito, que só o caminho do Espírito Santo é caminho certo, porque Ele é surpresa. Ele mostrar-nos-á onde está o ponto decisivo. Ele é criativo…
Talvez isto seja uma autocrítica, mas corresponde, mais ou menos, ao que eu disse nas congregações gerais, antes do Conclave, o problema está no seguinte: a Igreja tem o defeito, o hábito pecador, de olhar demasiado para si mesma, como se imaginasse que possui luz própria. Mas, como sabem, a Igreja não tem luz própria. Deve voltar-se para Jesus Cristo!
 À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe mysterium lunae, o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não tem luz própria; é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. Foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de uma terra – não me lembro qual – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca (ortodoxo). Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não estava voltada para Cristo. Creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial.
Hoje, Bartolomeu usou uma palavra, não foi «auto-referencial», mas era muito semelhante, uma palavra muito bela… Agora não me recordo, mas era muito bela, muito bela [o termo na versão italiana é introversão].
Eles aceitam o Primado [do Bispo de Roma]. Hoje, na Ladainha, rezaram pelo «Pastor e Primaz». Como diziam? «Aquele que preside…». Reconhecem-no; disseram-no, hoje, na minha frente. Mas, quanto à forma do Primado temos de ir um pouco ao primeiro milénio para nos inspirarmos. Eu não digo que a Igreja errou, não. Percorreu a sua estrada histórica. Mas, agora, a estrada histórica da Igreja é aquela que pediu João Paulo II: «Ajudai-me a encontrar um ponto de acordo à luz do primeiro milénio».
Este é o ponto-chave. Quando se fixa em si mesma, a Igreja renuncia a ser Igreja para ser uma ONG teológica.
2. Uma jornalista interpelou-o “acerca da histórica inclinação” que ontem o Papa Francisco tinha feito diante do Patriarca de Constantinopla: como pensa agora enfrentar a crítica  de quem talvez não entenda estes gestos de abertura?  
Resposta: Atrevo-me a dizer que não se trata de um problema só nosso; é também um problema dos ortodoxos. Eles têm o problema de alguns monges, de alguns mosteiros que estão nessa estrada. Por exemplo, há um problema que se discute desde os tempos de Paulo VI: é a data da Páscoa. E não nos pomos de acordo! Mas porquê? Porque, se a fizéssemos na data da primeira lua depois do 14 de Nisan, com o avanço dos anos, correríamos o risco – os nossos bisnetos – de ter de a celebrar em Agosto. E devemos procurar… Paulo VI propôs uma data fixa concordada, um domingo de Abril.
3. Bartolomeu foi corajoso, sublinhou o Papa. Por exemplo, em dois casos, recordo um, mas há outro. Na Finlândia, ele disse à pequena comunidade ortodoxa: festejai a Páscoa com os luteranos, na data dos luteranos, para que num país de minoria cristã não haja duas Páscoas. E o mesmo problema vivem os orientais católicos. Ouvi esta, uma vez, à mesa na Via della Scrofa: preparava-se a Páscoa na Igreja católica e estava presente um oriental católico que dizia: «Ah, não! O nosso Cristo ressuscita um mês mais tarde! O teu Cristo ressuscita hoje?» O outro observou: O teu Cristo é o meu Cristo.
A data da Páscoa é importante. Há resistência a isto por parte deles e nossa. Quanto a estes grupos conservadores, devemos ser respeitosos, sem nos cansarmos de explicar, catequizar, dialogar, sem insultar, sem os denegrir nem criticar porque tu não podes arrumar uma pessoa dizendo: «este é um conservador». Não. Este é tão filho de Deus como eu. Mas convidemo-lo: vem cá, falemos! Se não quer falar é um problema dele, mas eu respeito-o. Paciência, mansidão e diálogo.
Boas festas

Público, 21.12.2014


[1] Cf. Seguirei, de perto, a narrativa do L’Osservatore Romano, 04.012.2014

14 dezembro 2014

A política do Natal

Frei Bento Domingues, o.p.

1. A conversa de taxista sobre política e políticos generalizou-se. Faz deles os responsáveis por todos os males. Está decretado que são e serão todos iguais.
 Pela ausência de pensamento crítico, esta atitude é preguiçosa e perigosa. Certeiro é o aforismo: as mãos mais puras são as de quem as não tem. Não querer nada com a política é esquecer que ela, desde que nascemos até ao cemitério, nunca nos larga.
Descobri há 60 anos, com algum espanto, a apologia da política, precisamente ao começar o estudo da obra filosófica de S. Tomás de Aquino. No proémio do seu comentário à Política de Aristóteles observa: se a ciência mais importante é aquela que estuda o que há de mais nobre e mais perfeito, é necessário que seja a política a principal das ciências práticas e a matriz arquitectónica de todas as outras.
S. Tomás distinguia a política da religião, mas não a separava da ética, da “vida boa”, fruto da virtude e que exige instituições justas. Ele coordenava a ética e a política mediante a noção de justiça geral orientada para o bem comum, de todos e cada um. Ela exige a virtude da prudência no governante - virtude do recto agir nas decisões concretas – a qual também não dispensa nenhum cidadão.
Tudo isto exige mais do que os princípios comuns da chamada “lei da natureza”, pois eles não podem ser aplicados do mesmo modo a todos, devido à grande variedade das realidades humanas. A diversidade da lei positiva é exigida pela diversidade dos povos[1].
 Em geral, com um misto de medo e desprezo, os cristãos - de modo especial os católicos - inclinam-se para a passividade política.
O Papa Francisco, no seu programa pastoral, ”A Alegria do Evangelho” (n. 205), assume uma posição completamente diferente. Depois de avisar que não podemos confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado, pede a Deus “que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo, que vise efectivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade é o princípio, não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações, como relacionamentos sociais, económicos, políticos”.
Depois desta referência teológica, aponta, na mesma passagem, indicações para uma espiritualidade da militância política.
 
2. A fraqueza, a insignificância, a esterilidade actual da Europa resulta, em parte, de ter esquecido o sobressalto da sua alma, antiga e moderna, depois da vergonha de duas guerras loucas.         
Desaparecidas as grandes figuras inspiradoras do projecto europeu, entramos numa época de vazio, de imaginações adormecidas. Não se trata de propor qualquer “partido católico”, mas de perguntar, como Bergoglio fez perante os membros do Conselho da Europa: “Onde está o teu vigor? Onde está aquela tensão ideal que animou e fez grande a tua história? Onde está o teu espírito de curiosidade e empreendimento? Onde está a tua sede de verdade, que comunicaste, com paixão, até agora?”
É da resposta a estas perguntas, segundo o Papa, que dependerá o futuro do continente.
Para renovar a sua fisionomia é preciso retomar a nossa história política e espiritual, curada das suas patologias, em diálogo activo com todos os povos e culturas, presentes entre nós e atirados para a clamorosa injustiça dos “guetos”.
Hoje, a promoção dos direitos humanos ocupa um papel central no empenho da União Europeia. Visa promover a dignidade da pessoa, tanto no âmbito interno como nas relações com os outros países. Trata-se de um compromisso importante e admirável, porque persistem ainda muitas situações onde os seres humanos são tratados como objectos, dos quais se pode programar a concepção, a configuração e a utilidade, podendo depois ser dispensados, quando já não servem por se terem tornado frágeis, doentes ou velhos[2]

3. Durante muito tempo, as questões mais fracturantes da moral familiar foram silenciadas. Depois da Humanae Vitae, reduziam-se às questões dos anti-conceptivos. Antes, durante e depois da III Assembleia do Sínodo dos Bispos[3], os desafios pastorais exigiram o fim dos tabus, mas inflacionaram tanto o discurso que já não se aguenta. O Papa, na mensagem aos participantes no Festival da Família (05.12.2014), optou por mudar de registo. É a própria família que se deve tornar, no plano social, cultural e político, protagonista dos seus interesses que são os do futuro da humanidade.
A família, tendo como centro o bem de cada uma das pessoas, não é um apêndice da política, nem apenas o seu objecto. As famílias têm de se tornar protagonistas das políticas desejáveis para todos.
Não temos de resolver os problemas da Sagrada Família, de há dois mil anos. Mas hoje, que desafios representa o Natal para a família humana?

Público, 14.12.2014


[1] Summa theol. I-II, q.95 a. 2. ad 3.
[2] Entre dignidade e transcendência, Parlamento Europeu, 25.11.2014
[3] III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, Paulinas, 2014

07 dezembro 2014

O clericalismo é o vazio da profecia


Frei Bento Domingues, O.P.

1. Não gosto muito dos livros de homilias. Extinta a luz e o calor da comunicação directa – quando existem – os textos tornam-se mortiços, sem graça. É verdade que aguentei algumas pregações quase ininteligíveis. Eram peças abruptas de teologia literária, em torrentes metafóricas, pouco adequadas às exigências da oralidade, mas que ressuscitavam com uma força enorme quando saboreadas na leitura. Era, aliás, o estilo de Frei José Augusto Mourão, O. P..

Há missas de ritual perfeito que são também um perfeito aborrecimento. Algumas são salvas pela qualidade da música, outras pela acutilância das homilias. Raras são as celebrações que combinam todos os elementos da encenação simbólica da graça, em consonância com a experiência de vida quotidiana de uma assembleia cristã.

Jorge Bergoglio - não o “Santo Padre”, mas o pecador confesso - é um caso raro. Incarna uma novíssima cultura da graça da pregação tocando a sensibilidade, a mente e o coração das pessoas de diferentes povos, continentes e culturas, segundo inumeráveis testemunhos.

      As Ed. Paulinas acabam de publicar, em Portugal, as homilias que ele pregou na Missa matutina da casa Santa Marta[i]. O breve prefácio de Federico Lombardi explica suficientemente o seu percurso até à sua divulgação. As 27 páginas pretensiosas de A. Spadaro são inteiramente dispensáveis.

       Receio que a avalanche de livros desta época do ano - até de livros sobre o Papa Francisco – não ajude a reparar no que devia ser considerado como o grande acontecimento cultural do ano. O próprio estilo familiar não atenua, reforça esta convicção. Se os bispos, os padres, os membros dos diversos movimentos cristãos quiserem, dispõem, agora, de um método muito especial para uma nova evangelização da Igreja. Diria que estas homilias são muito mais do que a concretização dos seus grandes textos programáticos, já publicados[ii]. Praticam o que estes propõem.

    Divulga-se que o Papa desconhece as regras do funcionamento da economia, ignorando que é a própria distribuição desigual da riqueza que se converte no motor do avanço económico e da civilização. O mais urgente, dizem, é desmantelar o Estado Social, erradicar a conversa sobre o amor preferencial pelos pobres e ver o mundo a partir dos que têm sucesso. A mentalidade católica, sobre o enriquecimento, continua a ser a fonte da pobreza dos países do Sul. 

2. O que irrita, nos discursos, nas tomadas de posição, nas atitudes e gestos de Bergoglio, é a dificuldade em o classificar sob ponto de vista de um agrupamento ideológico ou partidário e de o arrumar numa corrente espiritual exclusivista. A sua espantosa liberdade é o tecido das Homilias agora publicadas. Não se repetem nem servem para ser repetidas. Valem como inspiração de criatividade na Igreja e na sociedade. Não são feitas para distribuir doses de doutrina sobre a verdadeira fé da Igreja, nem de receitas repetidas sobre a moral católica. Também não são, apenas, um novo estilo com ares de modernidade. São uma nova cultura. Este Papa não é escravo do passado, não fica cego pela última moda, nem remete tudo para o futuro. Pratica o discernimento permanente nestas três dimensões do tempo. 

Dedicou uma das homilias a uma das suas convicções fundamentais: sem profecia, cai-se no clericalismo. O profeta é o homem de olhar penetrante que escuta a Palavra de Deus. Nem sempre é bem recebido. O próprio Jesus diz aos fariseus que os seus pais mataram os profetas, porque estes diziam coisas desagradáveis, coisas que os molestavam. 

Quando não há profecia, isto é, clarividência, a força recai toda sobre a lei. É a vitória do legalismo. No Evangelho, os sacerdotes foram ter com Jesus para lhe pedirem o registo da legalidade: Com que autoridade fazes tudo isto? Nós somos os donos do Templo. Não tinham olhos penetrantes nem ouvidos para escutar a Palavra de Deus. Só tinham a autoridade. Quando não há profecia no Povo de Deus, o vazio por ela deixado é ocupado pelo clericalismo: é precisamente esse clericalismo que interroga a autoridade de Jesus. Para o clericalismo não há passado nem futuro. Manda o que é legal e que se perpetue. 

Reproduzimos a prece do Papa Francisco nesta homilia:

Que a nossa oração, nestes dias em que nos preparamos para o Natal, seja “Senhor, que não faltem profetas ao teu Povo! Todos nós, baptizados, somos profetas. Que não esqueçamos a Tua promessa! Que não nos cansemos de seguir em frente! Que não nos fechemos nas legalidades que fecham as portas! Senhor, liberta o teu povo do espírito de clericalismo e ajuda-o com o espírito de profecia[iii].”

Na Turquia, Bergoglio lembrou que todos os dirigentes muçulmanos do mundo, políticos, religiosos e universitários se deviam pronunciar, claramente, contra a violência que afecta o Islão.

Público, 07.12.2014


[i] A verdade é um encontro, Homilias em Santa Marta, Paulinas, 2014
[ii] Francisco, Papa, A Alegria do Evangelho, Difusora Bíblica, 2013; Discurso do Papa Francisco aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 27 a 29.10.2014; Discurso ao Concelho de Justiça e Paz sobre o Estado Social, 2.10.2014; Discurso no Parlamento Europeu, 20.11.2014
[iii] Cf. Homilias em Santa Marta (pp 428-430)

30 novembro 2014

Melhor do que a esperança é ser esperado

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Frei Bento Domingues, O. P.

1. Hoje é o primeiro Domingo do Advento. Mudou o cenário exterior das celebrações litúrgicas, quanto a paramentos, velas, textos e músicas. Estas modificações de ornamento só merecem atenção se exprimirem a urgência de um novo impulso na alma profunda da Igreja, isto é, dos cristãos, assim como nas reformas das instituições mais resistentes à mudança.
Tornou-se convencional dizer que o Advento convida à vigilância e à meditação, para entrar no misterioso sentido do tempo. Não apenas o que é medido pelo relógio e desfolhado nos calendários, no fluxo cósmico das estações, no ritmo biológico que vai dizendo o nosso desgaste inexorável. No entanto, como diz S. Paulo, não nos deixemos abater. Pelo contrário, embora o nosso aspecto exterior vá caminhando para a sua ruína, a nossa vida interior renova-se dia a dia (…) pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno (2 Co 4, 16-18).
A pergunta mais importante desta quadra litúrgica não é sobre as nossas experiências de outono da vida, mais chuvoso ou mais ameno. Poderia talvez ser formulada assim: qual é a graça regeneradora, para não aceitarmos - usando as palavras do Papa Francisco – que milhões de seres humanos, nossos irmãos, vegetem e morram com o estatuto de sobrantes e descartáveis

       2. Para a inteligência bem informada de história e antropologia, de profunda compreensão teológica e espiritual dos paradoxos da celebração do ano litúrgico – com analogias noutras culturas e religiões, de quem vai recebendo e rejeitando certas influências, - recomendo uma obra notável, de dimensões razoáveis, bebida nas melhores fontes e inspirada nos mestres mais inovadores, traduzida do espanhol e, inserida na colecção coimbrã “Para Viver”[1].
 Este livro, de José Manuel Bernal, não tem nada a ver com a abundante literatura de lugares comuns do ritualismo e do espiritualismo moralista ou das folhinhas e receitas do agrado da ignorância homilética. Pretende contribuir para que os pastores consigam organizar celebrações de qualidade onde seja possível uma profunda experiência do mistério transformante. Espero regressar a esta obra, sobretudo ao capítulo fundamental sobre os rituais sagrados da “regeneração do tempo”.
Falar do Advento é pensar no Natal. A. Cunha de Oliveira[2], sacerdote católico, dispensado do ministério, casado e notável exegeta da Bíblia, publicou uma obra minuciosa, erudita, volumosa, fundamentada e extremamente clara, cuja leitura é indispensável para quantos se interessam pela verdade, pelas lendas e mitos em torno do Natal. Não conheço nada de comparável, em português.    
O Natal significa que no cristianismo a salvação não se atinge pela fuga ou desprezo do mundo, embora seja essa uma das tentações que, periodicamente, o assaltam.
Foi inscrito, pela pena de S. Lucas, no devir da história universal, colocando a figura mítica de Adão como o primeiro antepassado de Jesus Cristo. No impressionante hino cósmico da Carta aos Colossenses, surge como princípio e sentido de todas as realidades, visíveis e invisíveis. No conhecido poema que abre o Evangelho de S. João, o Verbo eterno fez-se carne, fragilidade humana. Numa dramática poesia de S. Paulo (Fl 2, 6-11), Cristo é reconhecido como divino na suprema humilhação da cruz.
Como escreveu E. Schillebeeckx, O.P.[3], a história dos seres humanos é a narrativa de Deus. Fora do mundo não há salvação, neutralizando o nefasto e abusado aforismo: “fora da Igreja não há salvação”.
Recordo-me, como se fosse hoje, do espanto de muitos quando ele surgiu, no congresso internacional de teólogos dominicanos, em Valência (1966), a defender a obrigatória inclusão do mundo na lista dos clássicos “lugares teológicos”. 

3. A virtude do Advento é a esperança. Não pode ser a esperança de que haverá Natal, mas que este produza o renascimento da Igreja e do Mundo. Precisamos de voltar sempre às narrativas de S. Mateus e de S. Lucas chamadas, impropriamente, Evangelhos da Infância. Para o seu estudo remeto para o citado livro de Cunha de Oliveira. Se forem entendidas como lições de pura história ou de biologia, como tantas vezes acontece, fazem-nos perder a esperança de acreditar na verdade mais profunda do Novo Testamento: Jesus Cristo era em tudo igual a nós, excepto no pecado.
Quem melhor escreveu acerca desta virtude do Advento foi o poeta- teólogo, Charles Péguy[4]: O que me espanta, diz Deus, é a esperança./ E disso não me canso./ Essa pequena esperança que parece não ser nada./ (…) Que veio ao mundo no dia de Natal do ano passado./ (…) Ama o que será./ No tempo e na eternidade.
A esperança merece todos os elogios. Sem ela é impossível viver. Mas melhor do que esperar é ter a certeza de que somos desejados e esperados. Afinal é este o evangelho dentro do Evangelho, a célebre parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-31). Deus tem eternas saudades de nós.

Público, 30.11.2014


[1] José Manuel Bernal, O Ano Litúrgico, Gráfica de Coimbra, 2001
[2] Natal: Verdade, Lenda, Mito, Instituto Açoriano de Cultura, 2012
[3] L´histoire des hommes, récit de Dieu, Cerf, 1992
[4] Os portais do mistério da segunda virtude, Paulinas, 2013

23 novembro 2014

Que rei é este?


Frei Bento Domingues, O.P.

1. A celebração litúrgica de Cristo Rei foi instituída por Pio XI, em 1925, com as monarquias em crise e as repúblicas em conflito com a Igreja Católica. Tornou-se, depois, a coroa do ano litúrgico que recomeça com o Advento, ritmando o infindável acontecer da graça divina – simbolizado na Liturgia - que atinge todos os tempos e lugares, como fonte de libertação das nossas servidões mentais e afectivas, antigas ou novas, materiais, culturais ou religiosas. Sem um programa libertário, o ciclo litúrgico anual dará a ideia do eterno retorno do mesmo.
Quem, por outro lado, desejar conhecer a história do Santuário Nacional de Cristo Rei, elevado, em Almada, a 113 metros acima do Tejo, pode recorrer às informações do Google. Mas com ou sem esse facilitador, abandone os preconceitos e suba ao miradouro mais abrangente sobre a deslumbrante e inesgotável beleza de Lisboa. Regale os olhos e medite no que o tempo faz às cidades e à nossa vida, entre a ruina e o contínuo renascer. Com passaportes dourados ou não, não deixemos privatizar as cidades de milenares gerações de povos e culturas. Que as mil formas de criatividade as tornem cada vez mais acolhedoras.
A simbólica bíblica de “Cristo Rei” implica a luta contra miragens de grandeza efêmera das dominações imperiais e a redescoberta de uma cidadania de acolhimento e serviço de todos, a começar pelos mais pobres, os sobrantes e descartáveis, na linguagem do Papa Francisco.

2. A escolha dos textos da liturgia deste Domingo é particularmente sugestiva [1] ao centrar-se no final do cap. 25 do Evangelho de S. Mateus, composto por três parábolas, que podem ser lidas em separado. Eu prefiro juntá-las num quadro de oposições paradoxais.
A primeira, muito vizinha da fábula da cigarra e da formiga – a das virgens loucas e das prudentes – retrata um mundo no qual ninguém dá nada a ninguém e a ocasião perdida é irrecuperável. A solidariedade favorece a imprevidência.
A segunda, a parábola dos talentos, parece consagrar a roda da sorte e das desigualdades na distribuição das oportunidades sociais. Quem muito tem, e esperteza, terá cada vez mais; quem tem pouco e calcula com medo de perder, até o pouco que lhe saiu, na arbitrária roleta da sorte, lhe será tirado.  
Moral da história: este mundo é das grandes empresas e dos bons gestores. Com os pequenos não adianta perder tempo; falta-lhes habilidade para sair da cepa torta.
Estas duas parábolas deixam os actores sociais à sua inteira liberdade e premeiam os mais aptos, como manda a lei da selecção natural. Não se entende como é que S. Mateus as deixou entrar no seu Evangelho. Não rimam nada com a mensagem de Cristo. Ao reagir assim, esquecemos a terceira parábola. Parece uma carta fora do baralho e, no entanto, é a que leva a tribunal as duas anteriores. Nessas combate-se a imprevidência e o desaproveitamento dos recursos e das capacidades de os fazer render. Parecem mais perto do capitalismo selvagem do que do Estado Social. De facto, falam de outra coisa, daquilo que o Papa Francisco não se cansa de lembrar: os sobrantes, os descartáveis. Estes não serão seres humanos? Não serão nossos irmãos?
É precisamente destes que trata a terceira e a mais solene das parábolas: o Senhor da História universal chama a contas o mundo inteiro. O que divide ou separa as pessoas e as julga é a atitude concreta que tiveram ou têm em relação àqueles que nada podem fazer por si mesmos.
A radicalidade religiosa da parábola e o último teste do sentido da vida, presente no desenrolar do mundo, espanta tanto os que procedem bem como os que procedem mal. Na hora da sentença, o juíz desta parábola identifica-se com aqueles que foram socorridos ou esquecidos: tive fome e deste-me de comer (ou não), estive doente e foste visitar-me (ou não) …
Ninguém se apercebeu que, no dia-a-dia, no serviço que prestou ou não, estava a tocar no que há de mais Absoluto, estava a servir ou a trair o próprio Deus. A causa de Deus e a causa do ser humano é a mesma. O segundo mandamento não se distingue do primeiro, um nunca anda sem o outro, haja ou não consciência disso.
Que rei é este que esvazia a solenidade divina e exalta a condição humana?

3. Conhecidos jornalistas alemães [2] do âmbito económico, não encontraram nenhuma alegria na Exortação Apostólica, Evangellii Gaudium, do Papa Francisco. Submeteram-na a fortes críticas e atribuem-lhe uma grande animosidade contra a economia de mercado e o capitalismo. Se Bergoglio quer diálogo é preciso contradizê-lo. O conjunto desses textos tenta arrasar as observações que o Papa faz sobre economia que mata e os remédios que aponta para combater a pobreza.
Pode ser que tenham razão, mas lembrei-me do Evangelho que inspira o novo Papa, mas que não beneficia muito os que o atacam: Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará outro ou se apegará a um e desprezará a outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro. Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam dele. (Lc 16, 13-14)

Público, 23.11.2014



[1] Ez 34, 11-17; Sal 22; 1Cor.15 20-27; Mt.25,31-46
[2] Cf. Friedhelm Hengsbach, El Papa se equivoca- El Papa tiene razón, Selecciones de Teología, 212, 2014, pg 253-260

16 novembro 2014

Regresso à Barbárie?

Frei Bento Domingues, O. P.                                     

1. Voltaram, há dias, a interrogar-me, em tom de exame e desafio: se existe um só Deus – segundo o credo monoteísta – porque não se unem numa mesma religião judeus, cristãos e muçulmanos? Presume-se que Deus não possa estar em concorrência consigo mesmo.  

Como qualquer cristão, tenho de estar pronto a dar razão da minha esperança, com mansidão e sem arrogância, como recomendou S. Pedro (1Pr 3,15), mas não estou obrigado a ser ingénuo. A pergunta não abriga apenas pouca informação acerca da longa história dos chamados monoteísmos. Recomendo, no entanto, La bibliotheque de Dieu: Coran Evangile, Torah [1]. É uma biblioteca escrita e comentada por humanos durante muitos séculos. Nem sempre tem ajudado a pensar e a viver a aventura humana com esperança. A sua leitura fundamentalista foi e continua a ser usada, com demasiada frequência, para matar em nome de Deus. A teologia do diabo exige o recurso permanente ao poder económico, político e religioso (Lc.4,1-13). Os seres humanos sabem que sem poder bélico e o seu comércio, as guerras perderiam o encanto das conquistas. 

Dito isto, parece-me um abuso responsabilizar a divindade pelas configurações sociais das religiões, mesmo quando algumas gostem de exibir essa pretensão. Deus não é hindu, judeu, budista, cristão, maometano, baha’i, etc.. Se fosse Ele a ditar os escritos fundadores dessas religiões estaria, de facto, em concorrência consigo mesmo.

As explicações sobre a origem da religião estão confrontadas com um facto evidente: tanto o sentimento religioso como as suas múltiplas expressões têm um passado e um presente nos diversos povos e culturas. Podemos estudar as suas metamorfoses, recomposições e migrações, com ritmos diferentes de continente para continente, de país para país e mesmo dentro da mesma área cultural. Apesar de todos os fluxos de ateísmo, agnosticismo e indiferença religiosa, as previsões do seu apagamento definitivo estão cansadas.

Aquelas religiões que pretendem fundar-se em revelações divinas - e procuram justificá-las a partir dos seus textos fundadores - não têm a vida mais facilitada do que aquelas que as reduzem a fenómenos humanos de relação com o Transcendente. Os dois caminhos não se excluem.

2. Os seres humanos vivem no labirinto dos desejos, conscientes ou inconscientes, confrontados com enigmas e mistérios quer da natureza quer da sociedade. Como não se resignam à simplicidade de animais domesticados, têm de procurar o sentido e as formas culturais de viver como humanos, isto é, com dignidade e em instituições justas. A atitude religiosa desenvolve-se numa atmosfera de atenção “à importância misteriosa de existir” (F. Pessoa) e à necessidade de ter um eixo no qual tudo se religa.

       O pluralismo religioso é irredutível, mas se uma religião tiver a pretensão de ser a única verdadeira, divinamente garantida e que fora dela não há salvação, ficam todas sob ameaça ideológica de perseguição religiosa. Consentir na liberdade religiosa seria dar espaço ao erro e à sua nefasta difusão. O raciocínio é simples: apenas a verdade tem direitos; a nossa religião é a única verdadeira; as outras vivem e fazem viver no erro, logo não têm direito a existir.

Na Igreja Católica também se alimentou essa posição assassina ao ignorar que só as pessoas são sujeito de direitos. A Declaração “Dignitatis Humanae” sobre a liberdade religiosa só foi assinada, depois de várias formulações, no dia 7 de Dezembro de 1965, isto é, na conclusão do Concílio Vaticano II! Hoje, é a nossa glória e uma responsabilidade: fora do diálogo inter-religioso não há salvação.
 
Diálogo não pode ser um faz de conta. É um processo no qual os parceiros vão mudando, passando da hostilidade e da indiferença à mútua hospitalidade. Para derrubar as muralhas construídas ao longo dos séculos e construir pontes entre as religiões é preciso destruir os muros edificados nas mentalidades e nos afectos dos crentes. 

3. Paulo VI, na mensagem de Paz para 1971, não podia ser mais incisivo – repete, com uma voz nova que sai da nossa consciência civil, a declaração dos direitos humanos: “todos os homens nascem livres e iguais na dignidade e nos direitos, são todos dotados de razão e de consciência e devem comportar-se, uns com os outros, como irmãos”. A doutrina da civilização chegou até aqui. Não voltemos para trás.  

Esta declaração generosa dos Estados, depois de duas guerras estúpidas e monstruosas, ainda não era a voz de todos os povos, mas era o eco do Evangelho: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) e com o método de aplicação da regra de oiro: “faz aos outros o que gostarias que os outros te fizessem” (Mt 7, 12). 

Se a doutrina da civilização chegou até aqui, como afirma Paulo VI, voltar atrás não seria regressar à barbárie?  

Público, 16.11.2014


[1] Cf. ver. “Lumière & Vie”, nº 255, 2002