22 fevereiro 2015

Mudar radicalmente a religião (1)

Frei Bento Domingues, O.P

1. Não tive condições para seguir as cerimónias que envolveram a nomeação dos novos “príncipes da Igreja”. Um amigo, pouco dado a críticas à hierarquia eclesiástica, manifestou-me, no entanto, o seu desapontamento. Daquilo tudo, só as palavras do Papa estavam ajustadas a um programa de reforma da cúria e da Igreja. Seria arcaico exigir dos novos cardeais vestes parecidas com as do carpinteiro de Nazaré. Mas aquele espectáculo era a reprodução de sempre do mau gosto purpurado. As delegações portuguesas, ao convidar o Papa para vir a Fátima, revelaram pouca imaginação e, até parece, uma oposição ao seu programa.

Seja como for, importa redescobrir o papel das religiões no mundo, na Europa e em Portugal. O que as terá anestesiado para que, durante estes anos todos de miserável humilhação dos povos do Sul da Europa e de transformação do Mediterrâneo num cemitério medonho, não tenham suscitado um imenso movimento de resistência não violenta?

Sobre o papel das religiões existem as posições mais desencontradas. Comecemos por uma das mais negativas:

Os três monoteísmos, animados pela mesma pulsão de morte genealógica, partilham uma série de desprezos idênticos: ódio da razão e da inteligência; ódio da liberdade; ódio de todos os livros em nome de um só; ódio da vida; ódio da sexualidade, das mulheres e do prazer; ódio do feminino; ódio dos corpos, dos desejos, das pulsões. Em lugar de tudo isso, judaísmo, cristianismo e islão defendem: a fé e a crença, a obediência e submissão, o gosto da morte e a paixão do além, o anjo assexuado e a castidade, a virgindade e a fidelidade monogâmica, a esposa e a mãe, a alma e o espírito. Em suma: a vida crucificada e o nada celebrado. [1]
2. Não podemos avaliar o alcance da revolução teológica do Vaticano II sem saber de onde viemos, como instituição.

Não há prestidigitação hermenêutica engenhosa que possa transpor o hiato que separa os ensinamentos oficiais sobre as religiões não cristãs dos dois concílios ecuménicos ou gerais, o de Florença (1438-1445) e o Vaticano II (1962-1965). A mudança é de 180º.

No Concílio de Florença, depois de se mostrar a superação do judaísmo com o advento de Cristo, resume-se a sua posição no axioma bem conhecido e muitas vezes repetido - extra ecclesiam nulla salus – fora da Igreja não há salvação. A explicitação não pode ser mais radical nem mais assustadora:

A Igreja crê firmemente, confessa e anuncia que nenhum dos que estão fora da Igreja católica, não só os pagãos, mas também os judeus, os hereges e cismáticos, poderão chegar à vida eterna, mas irão para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos [Mt 25,41], se antes da morte não tiverem sido a ela reunidos. [2]

A partir do Vaticano II, o ecumenismo, a liberdade religiosa e o diálogo inter-religioso passam a fazer parte da doutrina oficial da Igreja, dentro de uma concepção plural da própria teologia católica, embora com diversas interpretações e muitos ziguezagues.

A verdade no diálogo exige o reconhecimento do pluralismo religioso como um valor, um novo paradigma para o pensamento e para a prática pastoral. Se tomarmos a sério a diversidade religiosa não pensaremos em anexar nem em dominar os outros. A prática da hospitalidade religiosa é o caminho para evitar o proselitismo e a violência ou a mera tolerância. Os caminhos de Deus não se podem confundir com os de uma só religião. Seria impor-Lhe as nossas concepções de vida e de salvação. As religiões só têm a ganhar deixando-se interpelar mutuamente em ordem a uma aliança para a abertura ao mistério divino que nenhuma pode abarcar e para se colocarem ao serviço de todos os seres humanos, sobretudo dos excluídos.

3. Nada disto é possível sem que as próprias religiões consintam em entrar num processo de conversão. Se persistirem na ideologia de que são elas a salvação e que Deus só passa por ali, estão condenadas, por mais que julguem que estão a aumentar a sua influência. Como dizia Jesus Cristo, são meras associações de cegos a conduzir outros cegos. Diante da loucura assassina da ideologia religiosa, o presidente egípcio Al-Sisi, em Al-Azhar e perante as autoridades religiosas, teve a coragem de dizer, alto e bom som: nós devemos mudar radicalmente a nossa religião. O Papa Francisco assumiu o programa do Vaticano II e em vez de atenuar a urgência e a profundidade que ele implica, venceu 50 anos de hesitações e descaminhos para o radicalizar a partir do cimo da pirâmide, socavando-lhe os falsos alicerces, para que o governo da Igreja veja o mundo a partir dos excluídos, dos habitantes de todas as periferias. Com um critério: não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial.

Terei de voltar a esta espantosa homilia do Domingo passado, dia 15.

Público, 22.02.2015

[1] M. Onfrey, Traité d’ athéologie, Paris, Grasset, 2005
[2] Peter C. Phan, Diálogo inter-religioso: 50 anos após o Vaticano II, Cadernos Teologia Pública, ano XI, nº 86, vol. 11, 2014.

15 fevereiro 2015

As mulheres chegaram demasiado tarde?

Frei Bento Domingues O.P.

1. Na paisagem pós-religiosa da Europa não foi necessária nenhuma heroicidade para organizar, em Paris – e noutras cidades -, a grande procissão para defender a liberdade de expressão, mesmo acerca das religiões. Nas Filipinas, 6 milhões foram participar com o Papa Francisco na celebração da Eucaristia para rezar e resistir ao imenso sofrimento dos pobres de todos os continentes, a blasfémia contra o ser humano.

Estava a pensar nisto quando deparei com dois livros, que vinham ao encontro de alguns temas que me preocupam. O primeiro [1] é de um bispo, carregado de doutoramentos e coordenador nacional do serviço do episcopado francês, no tocante à pastoral, às novas crenças e às derivas sectárias. Ao observar o que aparece nos meios de comunicação contra o cristianismo e contra a Igreja católica e, por outro lado, a velocidades com que o ateísmo e um certo paganismo alargam a sua influência, não ficou parado: procurou responder a essas críticas, corrigir os erros tantas vezes repetidos, a partir “do coração” do cristianismo.

Para atingir esse objectivo, o autor enfrentou os debates que foram sempre fundamentais: a obediência e a via da autoridade opostas à razão e à sabedoria; o próprio facto da Revelação, as dificuldades que envolvem a Incarnação e o antropocentrismo, sobretudo, o problema crucial do sofrimento e da morte.

Pode parecer pretensioso abranger as questões do ateísmo e do paganismo, na sua fonte, no seu contexto e evolução, até às objecções contemporâneas – ainda que tradicionais – feitas ao cristianismo: as guerras de Religião, a Inquisição, as cruzadas, as torpezas de certos papas, a pedofilia. No entanto, para o diálogo que os agentes de pastoral devem cultivar, com a maioria de crentes e não crentes - não são todos filósofos e teólogos -, é um instrumento muito útil.

2. O outro livro [2] não pertence nem ao campo da teologia nem ao da filosofia, mas ao da sociologia da religião, escrito por um especialista em Ciências da Informação. Recolhe os estudos e as estatísticas que, segundo o título, exprimem uma Europa sem religião, num mundo religioso.

Um vasto inquérito estatístico sobre os efectivos religiosos, as crenças e as práticas, em França, na Europa Ocidental e na América do Norte, tende a confirmar uma hipótese muito evocada nos últimos tempos: o declínio do cristianismo (católico, ortodoxo e protestante) e, também, do judaísmo.

Não é muito fácil reconhecer e encarar este fenómeno e, mais difícil ainda, aceitar que o futuro não repete o passado, imaginar novos tipos de presença e de comportamento. Esta paisagem contrasta com outros dois universos religiosos mais vistosos, ainda que incomparáveis termo a termo, isto é, o islão de inspiração salafista e o protestantismo pentecostal, em parte situados nas periferias do mundo pós-religioso.

Estes factos não são o fim da religião. Em África, na América do Sul, no sul dos Estados Unidos, na Ásia e na Europa Oriental, seja de que ponto de vista for, a religião é uma componente do quotidiano.

Acerca da Europa, o autor não aceita a tese dos que, perante a complexidade do fenómeno religioso, em vez de falarem do seu declínio, analisam a sua recomposição. O que é inegável, por exemplo no catolicismo, é o facto expresso no que dizia, com uma certa graça, o Arcebispo de Lyon: quando ordeno dois padres por ano, enterro vinte. Padres das dioceses e das congregações religiosas são cada vez menos. As religiosas, sejam de clausura ou da vida activa, seguem o mesmo rumo.

Esta situação leva a posições conservadoras bastante ridículas. São poucos os celibatários candidatos a ser ordenados padres. Os poucos não chegam para as encomendas. Muitos dos padres que se casaram, sobretudo depois do Vaticano II, gostariam de continuar o ministério para que estavam preparados. Foi-lhes recusada essa possibilidade. Aqui, começaram as subtilezas: padres casados, não, mas não haveria, em princípio, objecção à ordenação de homens casados, os apóstolos não eram solteiros. Acontece que nunca ordenam os que o desejam. Ficavam as mulheres, entre as quais haveria certamente vocações para diferentes ministérios. Mas essas, nunca! Todo o esforço de papas, bispos e cardeais – e dos teólogos de serviço - esgota-se num rol de incompatibilidades. Uma das mais ridículas consiste em dizer que o padre, ou o bispo, preside à Eucaristia à imagem de Cristo. Ora, este é homem. Nem pensam que, nesta lógica absurda, estão a roubar Cristo às mulheres cristãs.

O resultado prático de tudo isto não é brilhante. As comunidades cristãs, comunidades sacramentais, têm direito à Eucaristia, o sacramento dos sacramentos. Prefere-se aceitar este gravíssimo deficit a olhar de frente a inadequação da teologia que leva a não fazer nada. Existem algumas mulheres pastoras, luteranas, calvinistas ou anglicanas e raras são as rabinas liberais e presbíteras católicas dissidentes.

Diz-se que são poucas e chegaram tarde. Será que para as mulheres católicas estão à espera da 25ª hora?

Público, 08.02.2015

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[1] Denis Lecompte, Au coeur des objections antichrétiennes, Cerf, 2013
[2] Jean-Pierre Bacot, Une Europe sans religion dans un monde religieux, Cerf, 2013

08 fevereiro 2015

As vantagens de não se julgar infalível (II)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Há vantagens em não se julgar infalível. A primeira de todas talvez seja esta: o mundo não começou comigo nem vai acabar quando eu morrer. Os que jogaram ou jogam na ficção da infalibilidade gostariam de parar o tempo que vai medindo todas as mudanças. A verdade, no entanto, nunca é uma posse definitiva, mas um horizonte irrenunciável que exige um trabalho nunca acabado. A busca da “teoria de tudo”, para explicar o universo, pode ser um grande motor de investigação, mas por enquanto ainda vive no campo dos sonhos fecundos.

Há pessoas e instituições que retardam, quanto podem, as mudanças. A chamada cultura tradicional procura assegurar a reprodução do passado no futuro. O método era o da iniciação das crianças nas teias do passado e acrescentar-lhes um feitiço, um tabu, que desgraçaria a vida de quem violasse essa herança. A cultura moderna coloca o acento na inovação do conhecer e do fazer: fazer acontecer o que nunca tinha acontecido e libertar o horizonte de preconceitos.

Se há pessoas e instituições apostadas em retardar as mudanças, existem outras que as aceleram. O dogma da infabilidade papal, no século XIX, pretendia parar o tempo, barrar o caminho a mudanças, sobretudo na Igreja, mesmo fora do âmbito restritíssimo da aplicação desse dogma. O importante era criar, nas pessoas e nos grupos, a ideia sub-reptícia de que tudo o que vinha de Roma trazia o carimbo da infalibilidade. Ressuscitava-se o adágio: Roma falou, assunto encerrado. Roma locuta, causa finita.

2. Este estilo serviu, maravilhosamente, para envenenar a questão dos ministérios ordenados das mulheres, nos anos 80-90 do século passado. Já no tempo de Paulo VI, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) tinha apresentado as razões para impedir a admissão das mulheres ao “sacerdócio ministerial” (15.10.76).

João Paulo II reitera os mesmos argumentos em 1988, mas perante a situação de debate aberto, enviou uma Carta Apostólica ao episcopado (1994), concluindo: Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja.

De facto, Roma locuta, mas a questão não ficou nada arrumada. Em 1997, a CDF teve de responder se sim ou não esta declaração papal tinha carácter infalível. A resposta é “embrulhada” e vai dar lugar a novas interpretações. J. Ratzinger, no seu comentário, diz que não se trata de um acto nem de uma definição solene ex cathedra. Salienta, no entanto, que é definitiva e irreformável. Seja como for, a resposta da CDF não pode ter carácter de infalibilidade!

Com todas estas subtilezas, a ordenação sacerdotal, umas vezes ultra valorizada, outras vezes nem por isso, esquece-se que, no Novo Testamento, o vocabulário sacerdotal só se aplica a Cristo e ao conjunto dos cristãos, ao povo sacerdotal. O resto são ministérios, “ordenados” ou não, que vão variando com o tempo.

3. Não existem apenas pessoas e instituições para travar a inovação. Na onda do Papa Francisco, que já se tinha admirado e lamentado de ver tão poucas mulheres na Comissão Teológica Internacional, realizou-se, em Roma, entre 4 e 7 deste mês, a assembleia plenária do Pontifício Conselho da Cultura (PCC). No momento em que escrevo, não posso saber o que daí irá resultar.

Não é preciso destacar a importância do tema, As culturas femininas: igualdade e diferença. Alegra-me que o instrumento de trabalho tenha sido elaborado por um grupo de 12 mulheres italianas, de reconhecido prestígio no mundo da arte, da comunicação ou da universidade, como foram apresentadas.

O quarto ponto desse texto aborda o papel das mulheres na Igreja. Depois, volta-se para a crise que se vai afirmando a partir das mais jovens. Verifica que, no Ocidente, as mulheres entre 20 e 50 anos vão menos à missa, optam cada vez menos pelo matrimónio religioso, poucas seguem uma vocação religiosa e, em geral, mostram uma certa desconfiança pela capacidade formativa dos homens religiosos, diríamos, do clero.

Com efeito, eles afirmam-se a partir de um lugar, de uma posição e com uma autoridade que os leva a julgarem-se superiores às mulheres. Se assim não fosse, eles não estariam onde estão e elas não teriam de verificar que, na Igreja, há serviços, ministérios, de que as mulheres, por serem mulheres, estão excluídas.

Os homens da Igreja têm uma imagem da mulher que, no geral, já não corresponde à realidade. As mulheres já não passam a tarde a rezar o terço ou em devoções piedosas. Muitas são trabalhadoras, directoras ocupadas como os homens, ou até mais, pois, muitas vezes, recai especialmente sobre elas o cuidado da família. São mulheres que alcançaram, quase sempre com muito esforço, postos de responsabilidade e prestígio na sociedade e no mundo do trabalho, às quais não corresponde nenhum papel de decisão ou de responsabilidade na e para a comunidade eclesial.

Veremos o que a assembleia do PCC tem para nos dizer, de novo e sem infalibilidade nenhuma.

Público, 08.02.2015


01 fevereiro 2015

As vantagens de não se julgar infalível (I)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Dizem-me que estou a ficar viciado no Papa argentino. É possível. Seja como for, o seu pontificado retomou, de forma original e surpreendente, o impulso meticulosamente abafado de João XXIII (1881-1963). Este filho de camponeses pobres, de Sotto il Monte (Bergamo), foi uma bênção inesperada para um mundo dividido e ameaçado por um confronto nuclear. Já muito idoso teve a ousadia de provocar um abalo sísmico numa Igreja obsessionada com dogmas e anátemas, ao convocar o Vaticano II, o concílio do acolhimento universal e do diálogo irrestrito. Consta que este bispo pobre, piedoso e cheio de humor sempre se sentiu bem na companhia de hereges, cismáticos e não-católicos. Destruiu barreias e construiu pontes, em todas as direcções, sem nunca se julgar infalível.

Não esqueço que já passaram várias gerações e que, hoje, é difícil imaginar o que se passou, na Igreja, entre 1958 e 1962. Além disso, em Portugal, esse concílio não foi nem preparado, nem acompanhado, nem recebido.

Tive a graça de ter podido participar em várias das suas audiências públicas. Em poucos segundos, o fausto do Vaticano evaporava-se e ficávamos perante um rosto iluminado de bondade, a escutar palavras não ensaiadas que o tornavam numa pessoa da nossa família. Naquele contexto até ficava mal falar de “ Sua Santidade” ou de “ Santo Padre”!

Ao olhar para aquele cristão, ficava-se com a certeza de que tudo o que tinha havido de mais criativo na Igreja e na sociedade, ao longo do tempo da repressão da liberdade, estava ali intacto à espera de uma oportunidade para todos, sobretudo para os que tinham sido mais ofendidos.

Quando a palavra foi devolvida à Igreja, aconteceram muitas coisas admiráveis em todos os continentes. No entanto, algumas precipitações e ingenuidades reformistas foram o pretexto para o regresso e vingança dos ressentidos pela perda de poder.

O retorno ao pensamento único, às doutrinas “irreformáveis” do magistério, à paralisação da teologia crítica, à enfase em catecismos prontos a substituir o estudo, ao direito canónico, à proliferação de movimentos com ânsias de dominação da Igreja e da sociedade, tiveram tempo e condições para um triunfalismo que, afinal, encobria sepulcros caiados, como depois se revelou, de modo escandaloso.

Lembro isto para não esquecermos donde vimos, se quisermos perceber o radical e sagaz processo dialético do Papa Francisco.

2. Bergoglio também se esqueceu, como João XXIII, da ladainha dos títulos papais que os séculos inventaram para os distanciar dos pobres e para calar os outros membros da Igreja. Reteve apenas o de “pontífice”, o encarregado de lançar e reparar pontes para Deus e para todos os seres humanos, a começar pelos sobrantes e descartáveis, vítimas de uma economia que mata, num mundo em que 1% da população possuiu mais de metade da riqueza mundial.

No começo, a sua predilecção pelas periferias era vista como uma forma populista de desviar a atenção da urgente reforma da Cúria, responsável pelos escândalos que encheram, anos a fio, os meios de comunicação social e sepultaram o Vaticano II, com medidas contra a liberdade, na Igreja. Instaurou-se o sentimento de que Bergoglio não iria conseguir qualquer reforma. Nunca foi essa a minha interpretação.

O seu texto programático, E.G. não engana. Na Igreja, a hierarquia, as instituições e organizações, a liturgia e as doutrinas não são para ela e para a sua auto reprodução. São para a fazer sair para o mundo dos pobres, dos oprimidos, dos excluídos, das vítimas de doutrinas e práticas sociais e culturais que lhes negam o céu e a terra. Enquanto as populações não virem que o Evangelho é a alegria da libertação, não se podem interessar pela cozinha interna das instituições e organizações da Igreja.

3. Depois de alguns retoques na administração económica e financeira, na orgânica administrativa e na substituição de algumas pessoas e cargos, resolveu atacar frontalmente a falta de ética e de espírito cristão dos cardeais. A denúncia esmiuçada das doenças do Vaticano, em 15 pontos, nunca tinha sido feita de modo tão contundente e desabrido por um Papa. O que o terá levado a não aguentar mais? O vocabulário de carreirismo, de alzheimer espiritual, de anseios de poder e de vã glória, etc. não pertence à linguagem palaciana ou do protocolo. Sente-se, em Bergoglio, a urgência de operar aquele cancro. Mais estranho ainda é a necessidade de uma carta aberta aos cardeais que serão criados no próximo dia 14 de Fevereiro, para lhes dizer que não se trata de premiar uma carreira, de uma dignidade, de poder ou de distinção superior. É um serviço. Depois de o realizar digam: somos servos inúteis. Não é uma fórmula de boa educação, é a verdade (Lc 17, 10). Na vossa festa não deixem que o espírito de mundanidade se insinue: entontece mais do que águardente como pequeno-almoço.

São tantos e tais os problemas acumulados, em todos os sectores da vida da Igreja que, ou muito me engano ou o Papa Francisco anda a preparar, passo a passo, um Concílio Ecuménico, cuidando para que não lhe aconteça o mesmo que ao Vaticano II.
 
Público, 01.02.2015

30 janeiro 2015

Contributo do Movimento NSI Portugal para o Sínodo Diocesano

Contributo do Movimento Nós Somos Igreja – Portugal para a reflexão sobre o Sínodo Diocesano de Lisboa, preparatório do próximo Sínodo da Família

O Movimento reuniu e elaborou a seguinte carta que enviou em 2 de Jan 2015 ao Patriarca de Lisboa.

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Lisboa, 2 de Janeiro de 2015

Senhor Patriarca de Lisboa
D. Manuel Clemente
Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja-Portugal tem vindo a envolver-se em todos os temas de actualidade que exijam um sinal da nossa presença como Povo de Deus. Queremos ser uma presença de proximidade, em férteis horas de bons procedimentos, ou em complexas circunstâncias próprias deste tempo em que vivemos. Desejamos agora também contribuir com estas reflexões para o Sínodo diocesano que, em boa hora foi convocado pelo Senhor Patriarca, tendo em vista preparar o Sínodo de 2015 sobre a família.

Neste momento em que pela Santa Sé acabam de ser anunciados os Lineamenta para o referido Sínodo, permitimo-nos evocar as palavras do Papa Francisco no final da Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo, em Outubro passado: “Deus é o Deus da lei. É também o Deus das surpresas. Deixem-se surpreender por Deus. Deus não tem medo da novidade.” Inspirador, o seu pensamento permite-nos com maior entusiasmo, escrever esta carta, a propósito dos trabalhos que ao longo do ano ocuparão a toda a Igreja diocesana, quer os nossos bispos, assim como as comunidades de fiéis, para que, seja verdadeiramente um sinal de esperança e de misericórdia, entre nós, como nas restantes zonas do mundo, acompanhando “Evangelium Gaudium” e considerando as transformações sociais positivas que marcam o tempo presente. Não impondo regras radicais, cuja justificação teológica e/ou evangélica ou não têm qualquer fundamento ou tem fundamentos demasiadamente frágeis.

28 janeiro 2015

Uma excelente oportunidade para o Papa Francisco e para a Igreja

Ana Vicente*

Quantas vezes a Igreja, na sua história, se viu obrigada a rever posições e a pedir desculpas pelos seus pecados?

Lemos com alegria que o Papa Francisco, mais uma vez, foi a uma zona do mundo que, em boa hora, está a deixar de ser uma franja para passar a ocupar o lugar que lhe é devido. Aí constatou a gritante situação de pobreza de milhões de pessoas – sobretudo das mulheres. A forma obsoleta e iníqua com que nos organizamos a nível internacional em termos económicos e políticos, tantas vezes sublinhada pelo próprio Francisco – metade da riqueza mundial nas mãos de 1% da população!

Francisco sabe, porque já demonstrou, que é uma pessoa intelectualmente honesta, uma qualidade demasiadamente rara nas elites religiosas, que está mais que analisado, estudado e avaliado que a maioria dos pobres tem cara de mulher e que essa pobreza ocorre maioritariamente entre as mulheres não por mero acaso. Estão excluídas do poder, e o que é mais grave, também do poder religioso, pois este deveria ser o primeiro a dar o exemplo de justiça e igualdade, tão ansiado pelo divino. São objecto de discriminação no acesso à saúde, à educação, à formação, aos direitos humanos, em suma. São as principais vítimas de violência sexual, de violência psicológica, de violência bruta, como aliás é reconhecido na exortação papal A Alegria do Evangelho: “Duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos.” (para 212). O PÚBLICO de 19 de Janeiro fala das Filipinas como uma ilha de catolicismo no continente asiático; descreve como o povo clamou contra a corrupção e contra a injustiça – que os assola há décadas. Mas será adequado referir as Filipinas como um país católico? Tendo em conta que  está organizado de uma forma profundamente não-cristã, tudo ao arrepio da mensagem evangélica?

Perante os catastróficos cenários filipinos com que se confrontou e que aliás referiu por diversas vezes, tenhamos esperança que o Papa Francisco tenha o bom senso e a coragem de rever a muito infeliz e, aos olhos de muitas teólogas e teólogos, frágil, porque muito mal fundamentada, encíclica de 1968, subscrita por  Paulo VI, Humanae Vitae. Aí se faz uma distinção entre métodos contraceptivos "naturais" e outros "artificiais", impondo o uso dos "naturais". É sabido que uma forte maioria do grupo de trabalho nomeado primeiro pelo Papa João XXIII e depois alargado por Paulo VI, concluiu que todos os métodos ‘iludem a natureza’, incluindo os chamados naturais – porque estes usam o estratagema de identificar os tempos inférteis da mulher para só nesses períodos poder haver relações sexuais; e o sensus fidelium rejeitou de tal modo as prescrições da encíclica que hoje em dia, no mundo ocidental, cerca de 95% dos católicos praticantes consideram-nas inaceitáveis e ignoram-nas, usando qualquer método em boa consciência, porque entenderam que o que de facto importa é ser responsável na parentalidade, quer da parte materna quer paterna. São seguidos nessa opinião pela grande maioria do clero, das religiosas e até de muito episcopado que, repetidamente, tem solicitado ao Vaticano a revisão desta encíclica, que tanto tem minado a autoridade eclesiástica. É mais do que sabido que apenas alguns membros de organizações ultratradicionalistas seguem estas orientações. Estão no direito de o fazer – não estão no direito de as impor aos outros.

25 janeiro 2015

Acredite no que quiser, mas não seja idiota

Frei Bento Domingues, O. P.
                                       
1. Deparei com este título num artigo de R. F. Machado, O desencantamento da experiência de Deus em House, dedicado a estudar as relações entre fé e ciência, a partir de uma conhecida série norte-americana. O autor já tinha consagrado uma tese de doutoramento ao mesmo tema [1]. Numa das conversas entre House e uma freira doente – que disfarçava uma complicada história pessoal com a vontade de Deus - o médico acabou por explodir: acredite no que quiser, mas não seja idiota. Mesmo sob a protecção divina, ao atravessar a rua, se não quiser ser atropelada, olhe bem para os dois lados.        

O Papa, ao regressar das Filipinas, tem uma observação ainda mais rústica: pensam alguns que para serem bons católicos - desculpem o termo - devem ser como coelhos. Contou, a propósito, a pergunta feita a uma mãe de sete filhos, todos nascidos de cesariana: como se atreve a pensar em ter ainda outro? Eu acredito em Deus! Bergoglio lembra-lhe que Ele nos deu meios para sermos responsáveis.       

Sempre me irritou a beata invocação da vontade de Deus, a propósito de tudo e de nada. De forma consciente ou inconsciente é a arma psicológica sempre disponível. Contaram-me que um superior autoritário invocou a vontade de Deus para exigir a obediência de um membro da comunidade, acerca de uma decisão algo arbitrária. Resposta pronta e firme: devo-lhe obediência e cumprirei, mas não julgue que a santíssima e misteriosíssima vontade de Deus passa pela sua realíssima gana!        

Fazer chantagem com a vontade de Deus, é um pecado contra o Céu.

2. Quando ouço falar de Deus levianamente, lembro-me de uma carta de S. Paulo a Timóteo [2]: “Deus mora numa luz inacessível, que nenhum ser humano viu, nem pode ver”.      
Santo Agostinho advertiu: “Por mais altos que sejam os voos do pensamento, Ele está ainda mais além. Se compreendeste, não é Deus. Se pudestes compreender, não foi Deus que compreendeste, mas apenas uma representação de Deus. Se quase pudeste compreender, então foste enganado pela tua reflexão”.       

S. Tomás de Aquino sustentava que de Deus tanto mais saberemos quanto mais nos dermos conta de que não sabemos. Da sua experiência mística, no final da vida, brotou a confissão: tudo o que escrevi parece-me palha! No entanto, cantou numa belíssima poesia iluminista: atreve-te quanto puderes! Em suma: ousar e saber os limites da nossa ousadia.

O sentido agudo da transcendência divina, não é fruto de uma fuga do mundo ou uma alienação e a chamada teologia negativa não resulta de um cansaço especulativo. São tudo expressões do esforço para não ceder às tentações idolátricas, sejam de que natureza forem.

S. Paulo, no célebre discurso no Areópago de Atenas recorreu à sua experiência judaica para falar da transcendência divina e ao poeta Arato, da Cilícia (séc. III a.C.) para falar da sua inteira imanência: a divindade não está longe de nós; é nela que vivemos, nos movemos e existimos. Somos da sua raça [3].

No cristianismo, confessa-se que Deus se esvazia da omnipotência dominadora para se revelar como puro dom do amor que nos amou primeiro, pura e simplesmente porque é amor de absoluta generosidade, ágape [4].

3. Para não invocar o nome de Deus em vão, ou contra o ser humano, importa ter cuidados com a linguagem teológica. Como princípio geral, deveremos considerar como falsa toda a afirmação acerca de Deus que despreze a liberdade humana, a sua responsabilidade e a sua alegria. Não é o ser humano para a religião, mas a religião para o ser humano. Esta sentença é atribuída ao próprio Cristo, mas esquecida ao longo dos séculos [5].

É pelos frutos que se conhece a árvore. Os frutos da orientação económica mundial não são todos apetecíveis. Se a tão louvada globalização da economia faz com que metade da riqueza do mundo esteja, brevemente, nas mãos de apenas 1% da população mundial, podemos acreditar à vontade nas teorias e práticas económicas que quisermos, mas não sejamos idiotas. Se o comércio internacional das armas faz com que cheguem à República Centro Africana armas de todos os géneros e proveniências, se as granadas de mão custam menos do que uma coca-cola, meio dólar, o resultado será a continuação da guerra.

No momento em que escrevo, ainda não se sabe os resultados da Conferência de Davos, onde mais de 2.500 participantes de 140 países, incluindo mais de quarenta chefes de Estado e de governo e um enorme grupo de empresários, terão a oportunidade de analisar a actual crise económica, política e tecnológica, expandir a sua rede de contactos e explorar possíveis contratos e acordos.

Não sei se terão alguns momentos para pensar com lucidez que as suas opções não podem estar colonizadas apenas por 1% da humanidade que goza de metade da riqueza mundial.

Ao deixarem 99% da população fora dos seus cuidados, estão a criar boas condições para a miséria e para o terrorismo. Depois, só se podem queixar de si próprios. Com tantos chefes de Estado e de governo, com tantos empresários e peritos em todas as áreas da governação alguém terá de perguntar: como conseguimos ser tão idiotas?

Público, 25.01.2015


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[1] Cadernos de Teologia Pública, n.84, 2014
[2] 1 Tim. 6,16
[3] Act 17, 24-29
[4] Fl 2, 5-11; 1Jo 4
[5] Mc 2. 23-28 e paralelos; Mt 9. 13