15 março 2015

Uma religião que condena está condenada

Frei Bento Domingues, O. P

1. Manifestei-me, desde muito cedo, contra certas representações da religião e em particular do catolicismo, mas tive sempre o pressentimento de que era na dimensão religiosa e de modo especial no cristianismo católico, liberto de pretensões exclusivistas ou inclusivistas, que estava escondida a alma do mundo, o impulso do amor da pura gratuidade e da infinita misericórdia.

Encontrei algumas pessoas que, desde a adolescência, me mostraram que as dúvidas e o questionamento são intrínsecos ao processo da fé cristã. Ninguém tem a verdade, mas é possível viver no horizonte da sua busca, com o contributo de todos os que a procuram, em todas as áreas de conhecimento, seja qual for o universo cultural e religioso. Tudo na vida é uma criação de possibilidades, de acontecimentos imprevisíveis. Nunca me dei bem com crenças inamovíveis, com o determinismo.   

Uma “religião” que se apresente como inimiga do questionamento, da investigação e da liberdade deve ser denunciada pelas pessoas e instituições religiosas, como ridícula blasfêmia.

2. A religião como atitude pessoal e como fenómeno social, não começou ontem nem vai acabar tão cedo, apesar da fúria dos loucos do império islâmico e dos observadores apressados, mas não está condenada a ser como sempre foi. É um fenómeno imenso em todos os continentes, menos na Europa preconceituosa. Vê-se, agora, enredada em movimentos, instituições e acontecimentos com os quais não sabe lidar, não os pode eliminar e recusa-se a entender.     

Já na pré-história há indícios de religiosidade, a começar pela ritualização da morte, o que implica a existência de uma concepção simbólica, isto é, de um mundo feito de visível, invisível e imprevisível. Apenas no ser humano, e em nenhum outro ser vivo, se observa semelhante comportamento e tão extrema resistência simbólica.

Alguns investigadores e hermeneutas criaram a categoria de sagrado para caracterizar a ancestral atitude perante o “mundo tremendo e fascinante”. É a religião – subjectiva e objectiva - que o ritualiza e codifica. No âmbito da cultura latina, o termo religião, segundo Cícero, vem de reler, examinar com a atenção, isto é, não ser leviano na observação da complexidade da natureza, do ser humano e da sociedade. Para o cristão Lactâncio, a sua etimologia é mais construída e mais evidente: significa religar, como se os seres humanos reconhecessem que precisam de se religar a uma transcendência e uns aos outros, numa comunidade. O mediólogo, Regis Debray, analisou cuidadosamente a função política da religião, mostrando que a sociedade precisa de reunir os indivíduos através de algo invisível – seja ele qual for - que os transcende.

A consciência desenganada da nossa evidente finitude levanta a questão fundamental acerca do sentido da vida, sem resposta única para todos.

O grande filósofo pragmático, John Dewey, desejaria que o futuro da religião estivesse ligado à hipótese de desenvolvimento de uma fé nas possibilidades da experiência humana e na capacidade humana para estabelecer relações que criem um sentido vital da solidariedade dos interesses humanos e inspirem acções capazes de transformar esse sentido em realidade.

3. Em pouco tempo, Bergoglio tornou-se o pragmático da reforma da Igreja Católica. Não se ficou pelo Banco do Vaticano e pela Cúria Romana, apesar de todas as resistências aí instaladas. A hierarquia eclesiástica, as cúrias diocesanas, as conferências episcopais, as secretarias paroquiais podem, em muitos casos, tentar resistir à mudança. Sentem, no entanto, que o programa reformador do Papa e sobretudo os seus gestos, atitudes, discursos e pregações desorganizaram um mundo que, peça a peça, tinha sido construído para resistir aos que reclamavam reformas urgentes. Começam a sentir-se mal quando lhes dizem que o caminho do Papa Francisco é mais cristão do que o mundo de privilégios sacralizados. Gostavam de citar os Papas para manter a “ordem”. Agora sentem-se em desequilíbrio.

Os movimentos de leigos e, sobretudo os mais elitistas, que se julgam a verdadeira Igreja, a do futuro, não escapam às interpelações de Bergoglio. Ao caminho “Neocatecumenal” fez-lhe observações muito concretas para as correcções de rumo e de métodos, inscrevendo-o nas igrejas locais, de forma inculturada, vencendo as suas tentativas monopolistas.

Foi, porém, no encontro de 7 de Março, com o movimento Comunhão e Libertação – que se julgava um modelo de fidelidade a Roma na luta contra todos os desvios do catolicismo pós-conciliar –, que o Papa aproveitou para marcar o primado na moral cristã e fazer a denúncia da substituição da centralidade de Cristo pelo meu método espiritual, o meu caminho espiritual e o meu modo de o implementar. É uma forma de sair do Caminho e ficar com o carisma petrificado numa garrafa de água destilada, de se tornar guias de museu e adoradores de cinzas.

A Igreja, para encontrar o seu centro em Cristo, tem de sair para todas as periferias do mundo contemporâneo.

Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.

O discurso está na íntegra, em italiano, no site do Vaticano. Que bom seria encontrá-lo em português, sem acordo!

Público, 15.03.2015


08 março 2015

A missa como antidepressivo

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Sei que o título deste texto contraria a experiência de muitos católicos que se confessam ”não praticantes”, precisamente porque o velho preceito de assistir à Missa se lhes tornou impraticável. Um bom passeio, uma prática desportiva, o contacto com a natureza, um convívio com amigos, pelo bem que faz ao corpo e ao espírito, louva mais a Deus do que o aborrecimento de uma Missa enfadonha. Se aquilo era a festa da fé, preferiam ir ao café.

Apesar de tudo isso e de muito mais, mantenho o título, porque julgo que a celebração cristã do Domingo – se a comunidade celebrante encarnar e encenar hoje a significação da sua origem e da sua verdade – torna-se um divino antidepressivo semanal, um dispositivo contra o medo neste mundo carregado de ameaças e seguranças, um belo processo de refazer a vida e enfrentar os desafios de uma nova semana.

Não digo isto apenas porque os textos do domingo passado - o de S. Paulo, “se Deus está por nós, quem será contra nós” (Rm 8,31-34) e o de S. Marcos, sobre a transfiguração, quando Jesus se começa a sentir cercado (Mc 9, 2-10) - são evidentes e poderosas fontes de energia espiritual.
 Não alinho, no entanto, com liturgias destinadas a provocar estados de descontrole emocional, lavagens ao cérebro, simulações de curas milagrosas ou qualquer outra tática para atrair clientes. Não me parece que seja esse o bom caminho para acabar com as missas consideradas uma seca, um aborrecimento ou um sacrifício inútil.

Como Nietzsche observou, a questão de fundo é de ordem antropológica: O cristianismo deu de beber veneno ao Eros, mas este não morreu, degenerou em vício. Sem tentar saber o que é o ser humano, na sua complexidade e unidade, interna e relacional, no seu devir no arquipélago das culturas, não poderemos encontrar a linguagem simbólica que diga em cada tempo e em cada povo, o mistério da Páscoa de Cristo, páscoa do mundo, nossa páscoa.

A ascese culpabilizante esquece, como dizia Tomás de Aquino, que recrear-se no prazer é uma virtude. Um cristão que não seja capaz de se divertir com os outros e ser divertido, não é um virtuoso, é um chato. Sem humor nem o amor tem graça.

Deveria ser possível praticar as realidades mais sérias da fé com a inteligência do humor, protecção contra o puritanismo. Quem toma tudo a sério e sobretudo quem se toma muito a sério, pensa que a inteligência se deveria calar onde começa a piedade. Contaram-me que um miúdo que acompanhava a avó à Missa, depois de comungar, ela vinha tão constrangida, com um rosto de tanto sofrimento que o neto lhe perguntava: “ó Avó, isso dói muito?”

2. Não estou a defender missas engraçadas nem missas desgraçadas. São ambas depressivas. A graçola não é a melhor linguagem litúrgica, embora não caia o Carmo e a Trindade se, numa celebração, escorregar alguma expressão que não agrade a todos os ouvidos. As comunidades não podem nem devem adoptar todas o mesmo padrão. Seria negar as exigências da inculturação litúrgica. Não vejo mal nenhum em que os católicos, quando isso é possível, possam escolher as celebrações que sejam, para eles, as mais significativas e estimulantes. Todas, porém, devem ser suficientemente abertas para não negarem a sua essência cristã: serem família com quem não é da família. Se recusamos uma sociedade de guetos, não a vamos consagrar na missa. Investe-se muito dinheiro na construção de uma igreja ou de um espaço para celebrar e cultivar a fé. Por vezes, onde não fazem falta e com gastos que a estética de uma Igreja serva e pobre condena. Mas quanto é que se investe na formação dos católicos e na preparação das celebrações, tendo em conta a qualidade dos textos, da música, da comunicação e da partilha dos bens?

O Papa fala muito contra o clericalismo. Os padres são poucos e não deixam ordenar as mulheres. Não havendo boas soluções à vista, os clérigos têm tendência a remediar-se chamando colaboradores e colaboradoras que os reproduzam, esquecendo que os ministérios, sejam eles quais forem, não são para substituir, mas para dinamizar toda a comunidade. A celebração é dela.

3. Quando afirmo que a celebração de Domingo – a missa - é, por essência, antidepressiva, não estou a situar-me no papel de psicólogo. Refiro-me a algo que pertence à própria natureza da Pascoa semanal, à nascente da Fé cristã. Vejamos.

A condenação de Jesus de Nazaré à morte – por crucifixão – e o silêncio de Deus deixaram os Apóstolos perdidos e sem reacção, salvo as mulheres. As narrativas do NT são muito claras a esse respeito. A belíssima peça literária – Os Discípulos de Emaús – uma espantosa catequese das componentes estruturais do itinerário cristão, mostra que é à volta da mesa, no partir do pão, na Eucaristia, que se revela, sem se ver, a força antidepressiva da presença do Ressuscitado.
A vida urbana de hoje é muito complicada, uma teia de obrigações: filhos, família, profissão e casa quase não deixam tempo para respirar. Onde buscar a energia espiritual para transfigurar a semana que passou e encontrar esperança para uma vida mais verdadeira? Desde há dois mil anos que os cristãos confessam que o Domingo é a festa de Deus, nossa festa.

Público, 08.03.2015



01 março 2015

Mudar radicalmente a religião (2)

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Ao fazer das periferias o centro da Igreja Católica, Bergoglio tenta mudar, a partir da diocese de Roma, os sinais de trânsito de todas as dioceses do mundo, das paróquias, dos movimentos, das Conferências episcopais e da vida consagrada. O centro das igrejas locais terá de se deslocar para as periferias geográficas, sociais e culturais. O processo vai levar o seu tempo, pois não falta quem espere que o Papa acabe por se cansar, sobretudo se os padres, os bispos e os cardeais fizerem de conta que não estão para aí virados.

O antigo aforismo imperial - “todos os caminhos vão dar a Roma” – poderia ser substituído por outro: todos os caminhos das igrejas vão dar às periferias, aos “bairros problemáticos”, às cadeias, aos hospitais, às pessoas que vivem sós, ignoradas dos familiares e dos vizinhos. Seria apenas uma questão de tomar a sério um dos textos escolhidos para o começo desta Quaresma (Mt 25, 31-46).

No passado dia 15, no final da homilia da Missa com os “novos purpurados”, o bispo de Roma enunciou, de modo sintético e incisivo, essa reorientação pastoral:

“Amados irmãos novos Cardeais, com os olhos fixos em Jesus e na nossa Mãe, exorto-vos a servir a Igreja de tal maneira que os cristãos – edificados pelo nosso testemunho – não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a servir Jesus crucificado em toda a pessoa marginalizada, seja pelo motivo que for; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que não tem com que se cobrir; a ver o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, que se afastaram da prática da sua fé ou que se declaram ateus; o Senhor, que está na cadeia, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor, se não acolhermos de maneira autêntica o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e acolher aqueles que sofrem qualquer género de marginalização. Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade!”

2. Entre os vários textos, intervenções e homilias deste Papa, esta é particularmente sugestiva. Recomendo vivamente a sua leitura, bem meditada e partilhada. É uma ponte entre a prática de Jesus e o que hoje é pedido aos cristãos. Ele não se resigna a fazer da Igreja uma tertúlia, um clube para bem-pensantes, um círculo bíblico, uma ONG ou um centro de apuramentos teológicos, canónicos e litúrgicos. Se as hermenêuticas bíblicas são infindáveis, ele não está à espera de as percorrer a todas para, finalmente, dizer qual é a boa e verdadeira. O que o preocupa é uma Igreja entretida com ela mesma e as suas sacristias, as discussões sem fim para nada. Uma Igreja auto-referente perde-se de Cristo e do mundo e só pode gerar marginalizados da boa doutrina e da moral consagrada, em vez de integrar os que o farisaísmo afastou. Dizia-se de Jesus que Ele não era como os fariseus e os doutores da lei: falava com autoridade, era autor de um novo caminho. Era vinho novo que não cabia em odres velhos. Não vinha remendar o que já não tinha conserto. É precisamente isto que Bergoglio está a partilhar, não a partir de uma cátedra, mas de uma experiência iluminada pelo encontro do Evangelho com as muitas periferias que foi encontrando ao longo dos anos.

Não se pode esquecer que esta homilia está tecida a partir do atrevimento revolucionário de um leproso e de Jesus – em campo aberto - violando ambos a Lei da marginalização de Moisés, preocupada, como é normal, em “salvar os sãos” e “proteger os justos”.

3. O Papa Bergoglio não está preocupado em resolver os problemas que Jesus enfrentou há dois mil anos. Isso já está feito. Mas ao seguir a mesma lógica, a prática deste Papa está a encontrar um grande entusiasmo, mas também grandes resistências nos interesses instalados. Recorro às suas palavras: Jesus, novo Moisés, quis curar o leproso, quis tocá-lo, quis reintegrá-lo na comunidade, sem se autolimitar nos preconceitos; sem se adequar à mentalidade dominante do povo; sem se preocupar de modo algum com o contágio. Jesus responde à súplica do leproso sem demora e sem os habituais adiamentos para estudar a situação e todas as eventuais consequências. Para Jesus, o que importa acima de tudo é alcançar e salvar os afastados, curar as feridas dos doentes, reintegrar todos na família de Deus. E isto deixou alguém escandalizado!

E Jesus não teme este tipo de escândalo. Não olha às mentes fechadas que se escandalizam até por uma cura, que se escandalizam diante de qualquer abertura, qualquer passo que não entre nos seus esquemas mentais e espirituais, qualquer carícia ou ternura que não corresponda aos seus hábitos de pensar e à sua pureza ritualista. Ele quis integrar os marginalizados, salvar aqueles que estão fora do acampamento (cf. Jo 10).

Não parece que Bergoglio ande muito assustado.

Público, 01.03.2015

22 fevereiro 2015

Mudar radicalmente a religião (1)

Frei Bento Domingues, O.P

1. Não tive condições para seguir as cerimónias que envolveram a nomeação dos novos “príncipes da Igreja”. Um amigo, pouco dado a críticas à hierarquia eclesiástica, manifestou-me, no entanto, o seu desapontamento. Daquilo tudo, só as palavras do Papa estavam ajustadas a um programa de reforma da cúria e da Igreja. Seria arcaico exigir dos novos cardeais vestes parecidas com as do carpinteiro de Nazaré. Mas aquele espectáculo era a reprodução de sempre do mau gosto purpurado. As delegações portuguesas, ao convidar o Papa para vir a Fátima, revelaram pouca imaginação e, até parece, uma oposição ao seu programa.

Seja como for, importa redescobrir o papel das religiões no mundo, na Europa e em Portugal. O que as terá anestesiado para que, durante estes anos todos de miserável humilhação dos povos do Sul da Europa e de transformação do Mediterrâneo num cemitério medonho, não tenham suscitado um imenso movimento de resistência não violenta?

Sobre o papel das religiões existem as posições mais desencontradas. Comecemos por uma das mais negativas:

Os três monoteísmos, animados pela mesma pulsão de morte genealógica, partilham uma série de desprezos idênticos: ódio da razão e da inteligência; ódio da liberdade; ódio de todos os livros em nome de um só; ódio da vida; ódio da sexualidade, das mulheres e do prazer; ódio do feminino; ódio dos corpos, dos desejos, das pulsões. Em lugar de tudo isso, judaísmo, cristianismo e islão defendem: a fé e a crença, a obediência e submissão, o gosto da morte e a paixão do além, o anjo assexuado e a castidade, a virgindade e a fidelidade monogâmica, a esposa e a mãe, a alma e o espírito. Em suma: a vida crucificada e o nada celebrado. [1]
2. Não podemos avaliar o alcance da revolução teológica do Vaticano II sem saber de onde viemos, como instituição.

Não há prestidigitação hermenêutica engenhosa que possa transpor o hiato que separa os ensinamentos oficiais sobre as religiões não cristãs dos dois concílios ecuménicos ou gerais, o de Florença (1438-1445) e o Vaticano II (1962-1965). A mudança é de 180º.

No Concílio de Florença, depois de se mostrar a superação do judaísmo com o advento de Cristo, resume-se a sua posição no axioma bem conhecido e muitas vezes repetido - extra ecclesiam nulla salus – fora da Igreja não há salvação. A explicitação não pode ser mais radical nem mais assustadora:

A Igreja crê firmemente, confessa e anuncia que nenhum dos que estão fora da Igreja católica, não só os pagãos, mas também os judeus, os hereges e cismáticos, poderão chegar à vida eterna, mas irão para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos [Mt 25,41], se antes da morte não tiverem sido a ela reunidos. [2]

A partir do Vaticano II, o ecumenismo, a liberdade religiosa e o diálogo inter-religioso passam a fazer parte da doutrina oficial da Igreja, dentro de uma concepção plural da própria teologia católica, embora com diversas interpretações e muitos ziguezagues.

A verdade no diálogo exige o reconhecimento do pluralismo religioso como um valor, um novo paradigma para o pensamento e para a prática pastoral. Se tomarmos a sério a diversidade religiosa não pensaremos em anexar nem em dominar os outros. A prática da hospitalidade religiosa é o caminho para evitar o proselitismo e a violência ou a mera tolerância. Os caminhos de Deus não se podem confundir com os de uma só religião. Seria impor-Lhe as nossas concepções de vida e de salvação. As religiões só têm a ganhar deixando-se interpelar mutuamente em ordem a uma aliança para a abertura ao mistério divino que nenhuma pode abarcar e para se colocarem ao serviço de todos os seres humanos, sobretudo dos excluídos.

3. Nada disto é possível sem que as próprias religiões consintam em entrar num processo de conversão. Se persistirem na ideologia de que são elas a salvação e que Deus só passa por ali, estão condenadas, por mais que julguem que estão a aumentar a sua influência. Como dizia Jesus Cristo, são meras associações de cegos a conduzir outros cegos. Diante da loucura assassina da ideologia religiosa, o presidente egípcio Al-Sisi, em Al-Azhar e perante as autoridades religiosas, teve a coragem de dizer, alto e bom som: nós devemos mudar radicalmente a nossa religião. O Papa Francisco assumiu o programa do Vaticano II e em vez de atenuar a urgência e a profundidade que ele implica, venceu 50 anos de hesitações e descaminhos para o radicalizar a partir do cimo da pirâmide, socavando-lhe os falsos alicerces, para que o governo da Igreja veja o mundo a partir dos excluídos, dos habitantes de todas as periferias. Com um critério: não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial.

Terei de voltar a esta espantosa homilia do Domingo passado, dia 15.

Público, 22.02.2015

[1] M. Onfrey, Traité d’ athéologie, Paris, Grasset, 2005
[2] Peter C. Phan, Diálogo inter-religioso: 50 anos após o Vaticano II, Cadernos Teologia Pública, ano XI, nº 86, vol. 11, 2014.

15 fevereiro 2015

As mulheres chegaram demasiado tarde?

Frei Bento Domingues O.P.

1. Na paisagem pós-religiosa da Europa não foi necessária nenhuma heroicidade para organizar, em Paris – e noutras cidades -, a grande procissão para defender a liberdade de expressão, mesmo acerca das religiões. Nas Filipinas, 6 milhões foram participar com o Papa Francisco na celebração da Eucaristia para rezar e resistir ao imenso sofrimento dos pobres de todos os continentes, a blasfémia contra o ser humano.

Estava a pensar nisto quando deparei com dois livros, que vinham ao encontro de alguns temas que me preocupam. O primeiro [1] é de um bispo, carregado de doutoramentos e coordenador nacional do serviço do episcopado francês, no tocante à pastoral, às novas crenças e às derivas sectárias. Ao observar o que aparece nos meios de comunicação contra o cristianismo e contra a Igreja católica e, por outro lado, a velocidades com que o ateísmo e um certo paganismo alargam a sua influência, não ficou parado: procurou responder a essas críticas, corrigir os erros tantas vezes repetidos, a partir “do coração” do cristianismo.

Para atingir esse objectivo, o autor enfrentou os debates que foram sempre fundamentais: a obediência e a via da autoridade opostas à razão e à sabedoria; o próprio facto da Revelação, as dificuldades que envolvem a Incarnação e o antropocentrismo, sobretudo, o problema crucial do sofrimento e da morte.

Pode parecer pretensioso abranger as questões do ateísmo e do paganismo, na sua fonte, no seu contexto e evolução, até às objecções contemporâneas – ainda que tradicionais – feitas ao cristianismo: as guerras de Religião, a Inquisição, as cruzadas, as torpezas de certos papas, a pedofilia. No entanto, para o diálogo que os agentes de pastoral devem cultivar, com a maioria de crentes e não crentes - não são todos filósofos e teólogos -, é um instrumento muito útil.

2. O outro livro [2] não pertence nem ao campo da teologia nem ao da filosofia, mas ao da sociologia da religião, escrito por um especialista em Ciências da Informação. Recolhe os estudos e as estatísticas que, segundo o título, exprimem uma Europa sem religião, num mundo religioso.

Um vasto inquérito estatístico sobre os efectivos religiosos, as crenças e as práticas, em França, na Europa Ocidental e na América do Norte, tende a confirmar uma hipótese muito evocada nos últimos tempos: o declínio do cristianismo (católico, ortodoxo e protestante) e, também, do judaísmo.

Não é muito fácil reconhecer e encarar este fenómeno e, mais difícil ainda, aceitar que o futuro não repete o passado, imaginar novos tipos de presença e de comportamento. Esta paisagem contrasta com outros dois universos religiosos mais vistosos, ainda que incomparáveis termo a termo, isto é, o islão de inspiração salafista e o protestantismo pentecostal, em parte situados nas periferias do mundo pós-religioso.

Estes factos não são o fim da religião. Em África, na América do Sul, no sul dos Estados Unidos, na Ásia e na Europa Oriental, seja de que ponto de vista for, a religião é uma componente do quotidiano.

Acerca da Europa, o autor não aceita a tese dos que, perante a complexidade do fenómeno religioso, em vez de falarem do seu declínio, analisam a sua recomposição. O que é inegável, por exemplo no catolicismo, é o facto expresso no que dizia, com uma certa graça, o Arcebispo de Lyon: quando ordeno dois padres por ano, enterro vinte. Padres das dioceses e das congregações religiosas são cada vez menos. As religiosas, sejam de clausura ou da vida activa, seguem o mesmo rumo.

Esta situação leva a posições conservadoras bastante ridículas. São poucos os celibatários candidatos a ser ordenados padres. Os poucos não chegam para as encomendas. Muitos dos padres que se casaram, sobretudo depois do Vaticano II, gostariam de continuar o ministério para que estavam preparados. Foi-lhes recusada essa possibilidade. Aqui, começaram as subtilezas: padres casados, não, mas não haveria, em princípio, objecção à ordenação de homens casados, os apóstolos não eram solteiros. Acontece que nunca ordenam os que o desejam. Ficavam as mulheres, entre as quais haveria certamente vocações para diferentes ministérios. Mas essas, nunca! Todo o esforço de papas, bispos e cardeais – e dos teólogos de serviço - esgota-se num rol de incompatibilidades. Uma das mais ridículas consiste em dizer que o padre, ou o bispo, preside à Eucaristia à imagem de Cristo. Ora, este é homem. Nem pensam que, nesta lógica absurda, estão a roubar Cristo às mulheres cristãs.

O resultado prático de tudo isto não é brilhante. As comunidades cristãs, comunidades sacramentais, têm direito à Eucaristia, o sacramento dos sacramentos. Prefere-se aceitar este gravíssimo deficit a olhar de frente a inadequação da teologia que leva a não fazer nada. Existem algumas mulheres pastoras, luteranas, calvinistas ou anglicanas e raras são as rabinas liberais e presbíteras católicas dissidentes.

Diz-se que são poucas e chegaram tarde. Será que para as mulheres católicas estão à espera da 25ª hora?

Público, 08.02.2015

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[1] Denis Lecompte, Au coeur des objections antichrétiennes, Cerf, 2013
[2] Jean-Pierre Bacot, Une Europe sans religion dans un monde religieux, Cerf, 2013

08 fevereiro 2015

As vantagens de não se julgar infalível (II)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Há vantagens em não se julgar infalível. A primeira de todas talvez seja esta: o mundo não começou comigo nem vai acabar quando eu morrer. Os que jogaram ou jogam na ficção da infalibilidade gostariam de parar o tempo que vai medindo todas as mudanças. A verdade, no entanto, nunca é uma posse definitiva, mas um horizonte irrenunciável que exige um trabalho nunca acabado. A busca da “teoria de tudo”, para explicar o universo, pode ser um grande motor de investigação, mas por enquanto ainda vive no campo dos sonhos fecundos.

Há pessoas e instituições que retardam, quanto podem, as mudanças. A chamada cultura tradicional procura assegurar a reprodução do passado no futuro. O método era o da iniciação das crianças nas teias do passado e acrescentar-lhes um feitiço, um tabu, que desgraçaria a vida de quem violasse essa herança. A cultura moderna coloca o acento na inovação do conhecer e do fazer: fazer acontecer o que nunca tinha acontecido e libertar o horizonte de preconceitos.

Se há pessoas e instituições apostadas em retardar as mudanças, existem outras que as aceleram. O dogma da infabilidade papal, no século XIX, pretendia parar o tempo, barrar o caminho a mudanças, sobretudo na Igreja, mesmo fora do âmbito restritíssimo da aplicação desse dogma. O importante era criar, nas pessoas e nos grupos, a ideia sub-reptícia de que tudo o que vinha de Roma trazia o carimbo da infalibilidade. Ressuscitava-se o adágio: Roma falou, assunto encerrado. Roma locuta, causa finita.

2. Este estilo serviu, maravilhosamente, para envenenar a questão dos ministérios ordenados das mulheres, nos anos 80-90 do século passado. Já no tempo de Paulo VI, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) tinha apresentado as razões para impedir a admissão das mulheres ao “sacerdócio ministerial” (15.10.76).

João Paulo II reitera os mesmos argumentos em 1988, mas perante a situação de debate aberto, enviou uma Carta Apostólica ao episcopado (1994), concluindo: Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja.

De facto, Roma locuta, mas a questão não ficou nada arrumada. Em 1997, a CDF teve de responder se sim ou não esta declaração papal tinha carácter infalível. A resposta é “embrulhada” e vai dar lugar a novas interpretações. J. Ratzinger, no seu comentário, diz que não se trata de um acto nem de uma definição solene ex cathedra. Salienta, no entanto, que é definitiva e irreformável. Seja como for, a resposta da CDF não pode ter carácter de infalibilidade!

Com todas estas subtilezas, a ordenação sacerdotal, umas vezes ultra valorizada, outras vezes nem por isso, esquece-se que, no Novo Testamento, o vocabulário sacerdotal só se aplica a Cristo e ao conjunto dos cristãos, ao povo sacerdotal. O resto são ministérios, “ordenados” ou não, que vão variando com o tempo.

3. Não existem apenas pessoas e instituições para travar a inovação. Na onda do Papa Francisco, que já se tinha admirado e lamentado de ver tão poucas mulheres na Comissão Teológica Internacional, realizou-se, em Roma, entre 4 e 7 deste mês, a assembleia plenária do Pontifício Conselho da Cultura (PCC). No momento em que escrevo, não posso saber o que daí irá resultar.

Não é preciso destacar a importância do tema, As culturas femininas: igualdade e diferença. Alegra-me que o instrumento de trabalho tenha sido elaborado por um grupo de 12 mulheres italianas, de reconhecido prestígio no mundo da arte, da comunicação ou da universidade, como foram apresentadas.

O quarto ponto desse texto aborda o papel das mulheres na Igreja. Depois, volta-se para a crise que se vai afirmando a partir das mais jovens. Verifica que, no Ocidente, as mulheres entre 20 e 50 anos vão menos à missa, optam cada vez menos pelo matrimónio religioso, poucas seguem uma vocação religiosa e, em geral, mostram uma certa desconfiança pela capacidade formativa dos homens religiosos, diríamos, do clero.

Com efeito, eles afirmam-se a partir de um lugar, de uma posição e com uma autoridade que os leva a julgarem-se superiores às mulheres. Se assim não fosse, eles não estariam onde estão e elas não teriam de verificar que, na Igreja, há serviços, ministérios, de que as mulheres, por serem mulheres, estão excluídas.

Os homens da Igreja têm uma imagem da mulher que, no geral, já não corresponde à realidade. As mulheres já não passam a tarde a rezar o terço ou em devoções piedosas. Muitas são trabalhadoras, directoras ocupadas como os homens, ou até mais, pois, muitas vezes, recai especialmente sobre elas o cuidado da família. São mulheres que alcançaram, quase sempre com muito esforço, postos de responsabilidade e prestígio na sociedade e no mundo do trabalho, às quais não corresponde nenhum papel de decisão ou de responsabilidade na e para a comunidade eclesial.

Veremos o que a assembleia do PCC tem para nos dizer, de novo e sem infalibilidade nenhuma.

Público, 08.02.2015


01 fevereiro 2015

As vantagens de não se julgar infalível (I)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Dizem-me que estou a ficar viciado no Papa argentino. É possível. Seja como for, o seu pontificado retomou, de forma original e surpreendente, o impulso meticulosamente abafado de João XXIII (1881-1963). Este filho de camponeses pobres, de Sotto il Monte (Bergamo), foi uma bênção inesperada para um mundo dividido e ameaçado por um confronto nuclear. Já muito idoso teve a ousadia de provocar um abalo sísmico numa Igreja obsessionada com dogmas e anátemas, ao convocar o Vaticano II, o concílio do acolhimento universal e do diálogo irrestrito. Consta que este bispo pobre, piedoso e cheio de humor sempre se sentiu bem na companhia de hereges, cismáticos e não-católicos. Destruiu barreias e construiu pontes, em todas as direcções, sem nunca se julgar infalível.

Não esqueço que já passaram várias gerações e que, hoje, é difícil imaginar o que se passou, na Igreja, entre 1958 e 1962. Além disso, em Portugal, esse concílio não foi nem preparado, nem acompanhado, nem recebido.

Tive a graça de ter podido participar em várias das suas audiências públicas. Em poucos segundos, o fausto do Vaticano evaporava-se e ficávamos perante um rosto iluminado de bondade, a escutar palavras não ensaiadas que o tornavam numa pessoa da nossa família. Naquele contexto até ficava mal falar de “ Sua Santidade” ou de “ Santo Padre”!

Ao olhar para aquele cristão, ficava-se com a certeza de que tudo o que tinha havido de mais criativo na Igreja e na sociedade, ao longo do tempo da repressão da liberdade, estava ali intacto à espera de uma oportunidade para todos, sobretudo para os que tinham sido mais ofendidos.

Quando a palavra foi devolvida à Igreja, aconteceram muitas coisas admiráveis em todos os continentes. No entanto, algumas precipitações e ingenuidades reformistas foram o pretexto para o regresso e vingança dos ressentidos pela perda de poder.

O retorno ao pensamento único, às doutrinas “irreformáveis” do magistério, à paralisação da teologia crítica, à enfase em catecismos prontos a substituir o estudo, ao direito canónico, à proliferação de movimentos com ânsias de dominação da Igreja e da sociedade, tiveram tempo e condições para um triunfalismo que, afinal, encobria sepulcros caiados, como depois se revelou, de modo escandaloso.

Lembro isto para não esquecermos donde vimos, se quisermos perceber o radical e sagaz processo dialético do Papa Francisco.

2. Bergoglio também se esqueceu, como João XXIII, da ladainha dos títulos papais que os séculos inventaram para os distanciar dos pobres e para calar os outros membros da Igreja. Reteve apenas o de “pontífice”, o encarregado de lançar e reparar pontes para Deus e para todos os seres humanos, a começar pelos sobrantes e descartáveis, vítimas de uma economia que mata, num mundo em que 1% da população possuiu mais de metade da riqueza mundial.

No começo, a sua predilecção pelas periferias era vista como uma forma populista de desviar a atenção da urgente reforma da Cúria, responsável pelos escândalos que encheram, anos a fio, os meios de comunicação social e sepultaram o Vaticano II, com medidas contra a liberdade, na Igreja. Instaurou-se o sentimento de que Bergoglio não iria conseguir qualquer reforma. Nunca foi essa a minha interpretação.

O seu texto programático, E.G. não engana. Na Igreja, a hierarquia, as instituições e organizações, a liturgia e as doutrinas não são para ela e para a sua auto reprodução. São para a fazer sair para o mundo dos pobres, dos oprimidos, dos excluídos, das vítimas de doutrinas e práticas sociais e culturais que lhes negam o céu e a terra. Enquanto as populações não virem que o Evangelho é a alegria da libertação, não se podem interessar pela cozinha interna das instituições e organizações da Igreja.

3. Depois de alguns retoques na administração económica e financeira, na orgânica administrativa e na substituição de algumas pessoas e cargos, resolveu atacar frontalmente a falta de ética e de espírito cristão dos cardeais. A denúncia esmiuçada das doenças do Vaticano, em 15 pontos, nunca tinha sido feita de modo tão contundente e desabrido por um Papa. O que o terá levado a não aguentar mais? O vocabulário de carreirismo, de alzheimer espiritual, de anseios de poder e de vã glória, etc. não pertence à linguagem palaciana ou do protocolo. Sente-se, em Bergoglio, a urgência de operar aquele cancro. Mais estranho ainda é a necessidade de uma carta aberta aos cardeais que serão criados no próximo dia 14 de Fevereiro, para lhes dizer que não se trata de premiar uma carreira, de uma dignidade, de poder ou de distinção superior. É um serviço. Depois de o realizar digam: somos servos inúteis. Não é uma fórmula de boa educação, é a verdade (Lc 17, 10). Na vossa festa não deixem que o espírito de mundanidade se insinue: entontece mais do que águardente como pequeno-almoço.

São tantos e tais os problemas acumulados, em todos os sectores da vida da Igreja que, ou muito me engano ou o Papa Francisco anda a preparar, passo a passo, um Concílio Ecuménico, cuidando para que não lhe aconteça o mesmo que ao Vaticano II.
 
Público, 01.02.2015