12 abril 2015

A ressureição não pode ser adiada (1)

Frei Bento Domingues, O. P
  
1. Encontrei-me, nesta Páscoa, com um grupo de antigos alunos que me veio convidar para um colóquio sobre os novos caminhos da cristologia.

Alguns deles situam-se nas trajectórias de nomes famosos como os de G. Vermes, Sanders, Theisen, Meier, Piñero, Torrents, S. Vidal e outros, mais ou menos alinhados na “terceira busca” ou investigação, do Jesus histórico. É inegável o valor extraordinário dessas reconstruções, embora para alguns comecem a ser entediantes.

A maioria segue os resultados dos importantes Colóquios organizados por Anselmo Borges, no Seminário da Boa Nova, em Valadares, entre os quais “Quem foi/quem é Jesus Cristo?”. Conhecem as múltiplas iniciativas editoriais de Tolentino de Mendonça, coroadas pela bela colecção Biblioteca Indispensável. J. Carreira das Neves é, desde há muito e para todos, a abelha incansável da Bíblia. Nenhum tinha ainda lido, por óbvias dificuldades de comunicação, O rosto humano de Deus, de A. Cunha de Oliveira, sobre o qual espero vir a escrever, com o vagar que o conjunto da obra deste autor merece.

2. Na conversa, os meus amigos começaram a lembrar–se do método que praticávamos, no século passado, nas iniciações ao conhecimento intelectual e afectivo, de Jesus de Nazaré, nossa paixão comum. Era um método algo anárquico, de desconstrução e de pistas para novos ensaios, sempre provisórios, alicerçados na convicção de que a eternidade teológica não era do nosso mundo.

A crítica exegética impedia o biblismo fundamentalista, o testemunho de Paulo e dos Actos dos Apóstolos, pareciam libertar Jesus das amarras da religião em que tinha sido educado, mas dividiam os seus primeiros discípulos acerca da “teologia patriótica” do povo eleito.

Ao contrário do que acontece agora, vivíamos preocupados sobretudo com a originalidade dessa fantástica figura judaica, rompendo com as tentativas da sua redução a uma simples tendência do judaísmo. Para nós, o que interessava era o Jesus homem livre, profeta de um Deus diferente, para a construção de um mudo novo. Não nos importávamos com a observação melancólica de Albert Scheweitzer, de 1906: cada época reconstrói o Jesus que lhe convém. Afinal, não era precisamente dessa evidência que testemunhavam os textos do Novo Testamento? Não se tratava de “processos verbais” dos passos de uma vida, mas peças interpretativas, geográfica e historicamente situadas já muito depois dos acontecimentos.  

As nossas tentativas cristológicas começavam sempre pelas interrogações acerca do sentido ou sem-sentido do mundo, da história e da vida pessoal, ética e estética. Só depois desse percurso existencial e cultural, partíamos para as perguntas inevitáveis: Jesus Cristo, testemunhado pela multiplicidade e diferenciação dos textos do Novo Testamento, que sentido, que beleza, que exigência, que impulso vital e que responsabilidade ética e política trazia à nossa vida pessoal e cidadã? Este quadro aberto permitia incursões em muitas áreas de investigação e obrigava a debates que integravam percursos culturais e espirituais muito diversos.

Era um caminho que exigia um trabalho nunca acabado de religação entre todos os contributos. No âmbito teológico, viver a complexidade com alegria, recusando tanto o dogmatismo como o vale tudo, não era fácil para todos, sobretudo para quem tinha sido moldado pela repetição do credo, pelo catecismo e por uma educação moralista que conhecia o catálogo das proibições mas desconhecia as energias transformantes e criadoras das virtudes humanas e divinas.

Vivíamos uma convicção fundamentada: sem vigilância filosófica, sem cultura estética, sem diálogo com as questões emergentes das ciências, sem o conhecimento da história das outras experiências religiosas não se podia superar certa mentalidade católica com a obsessão das vozes da verdade gémea das vozes da estupidez. 

3. Acabei por dizer aos meus amigos: viestes por causa da avaliação das novas tendências da cristologia e caímos na armadilha da saudade, como se fosse uma reunião de antigos combatentes. Tentemos não ser mortos vivos e escutemos as dores e as alegrias de parto desta época de grandes esperanças, mas também de muitos possessos da loucura desenfreada: Vão para a guerra, vão matar, roubar, violar. Deus olha (H. Helder). A comunidade internacional está cega.

A nossa linguagem sobre a ressurreição está cheia de metáforas mortas. Mas quando me deixo levar pelo que dizem as narrativas da Paixão e medito no Crucificado encontro-me dentro do poema de Herberto Helder: Estava tão morto que vivia unicamente…Renascia. O apóstolo Pedro chegou à mesma conclusão: a morte não O podia reter em seu poder (Act.2, 22-36).

Os cemitérios dizem-me que a “ressurreição” é a ideia mais justa do mundo e não pode ser adiada. A personalidade viva de cada ser humano só tem casa e jardim no coração de Deus, morada de todos, transfigurados. O ensaio começa aqui na transformação das relações humanas. Consta dos Actos dos Apóstolos 4, 32-35: não havia entre eles qualquer necessitado. Distribuía-se a cada um conforme a sua necessidade. O costume ainda não pegou. 

12.04.2015

05 abril 2015

Páscoa de muitas páscoas

Frei Bento Domingues, O. P.

1 No domingo passado, imediatamente depois da missa, na exígua sacristia, com uma fila de pessoas para atender, um amigo atirou-me a pergunta: haverá mesmo ressurreição? Respondi-lhe que o melhor seria ficarmos os dois a ler, a pensar, a escrever e a rezar essa interrogação durante toda a Semana Santa e não apenas a da liturgia oficial.

Entretanto, a morte de amigos ou de amigos de amigos, uns muito novos, outros mais idosos - umas vezes de modo fulminante, outras, depois de longo tempo de sofrimento - não descansou. Em muitas situações não é, em primeiro lugar, a chamada “ressurreição dos mortos” que mais nos interroga. Essa é, segundo a confiança cristã, cuidado de Deus. Mas a ressurreição de mulheres ou maridos vivos, com a morte na alma, sós, com crianças muito pequenas para criar, é nosso encargo.

Quando se mata para sempre o emprego de adultos na força da vida e se deixam os jovens, anos a fio, à espera de nada; quando se cortam nas pensões dos reformados e os idosos são reduzidos a sobrantes, a descartáveis, que fazer? Sem uma política de insurreição das comunidades católicas e das suas hierarquias eclesiásticas, pode ser alienante falar de ressurreição. Sem um levantamento cristão contra a injustiça, expulsámo-nos do amor transformante, da caridade teologal, como nos recorda o Papa Francisco. 

2. Por outro lado, nesta quadra do ano, nada consegue abafar a nostalgia da Páscoa da minha infância, na aldeia serrana onde nasci. Desde o começo da Quaresma, um vizinho, o Tio Amaro, proclamava, com voz forte, do cimo de um muro: Alerta, alerta, alerta! A vida é curta, a morte é certa! Arrependei-vos pecadores!

Se era na tristeza que começavam os rituais da abstinência e da “desobriga”, com o Domingo de Páscoa tudo se iluminava. Era o acontecimento mais feliz e intenso de toda a aldeia que, nesse dia, nem parecia pobre. Era simplesmente bela.

Uma comitiva que tinha saído cedo da Igreja, acompanhava a Cruz luminosa do Senhor que percorria os caminhos de todos os lugarejos, visitava todas as famílias e todos a beijavam fervorosamente. Ela tornara-se o símbolo da extrema generosidade de Deus.

As casas tinham sido lavadas, a mesa estava linda com toalha de linho, com comida e bebida para quem quisesse. O chão da aldeia atapetado de verdura e flores da Primavera, o tocar dos sinos e campainhas, os foguetes subindo ao céu anunciavam uma divina alegria, respiração de um ambiente de festa em expressões de pura cultura popular. 

3. Esse mundo está em acelerado processo de extinção. Do ponto de vista religioso, restam os funerais. As portas das casas vão-se fechando para sempre. Baptizados, cada vez mais raros, só nas férias, dos filhos de imigrantes!

O futuro é imprevisível. Poderá acontecer o imprevisto nessa paisagem desoladora. Se acontecer, será com novas configurações.

Seja como for, não se pense que é esta a grande agonia do catolicismo. Não se pode esquecer que as primeiras gerações de comunidades cristãs desenvolveram-se nos tecidos urbanos. As Epístolas de S. Paulo, muito lidas nas celebrações da Eucaristia, testemunham para sempre as nossas raízes. Não sendo especialista das alterações da geografia do catolicismo português nas últimas décadas, é de supor que só nas cidades e nas suas periferias – em permanente mudança e reconfiguração - poderá ressuscitar. Os modelos rurais do passado serão impraticáveis.

4. Foi na cidade, em Paris, no passado mês de Fevereiro, que faleceu frei Pedro Meca (1935-2015), uma das pessoas mais espantosas que conheci até hoje. Estudámos teologia, juntos, em Toulouse. Depois, cada um foi para seu lado. Ao longo de 40 anos, com grandes intervalos de tempo, caímos nos braços um do outro, nos lugares e pelos motivos mais imprevisíveis: no México, no Chile, em Barcelona, em Paris, em Lisboa.

Deus deu-lhe por companheiros inseparáveis o amor dos pobres, a cólera contra a miséria, uma fonte inesgotável de humor, um desprezo soberano pelo calculismo eclesiástico e uma paixão constante pela partilha dos afectos e do conhecimento.

Nasceu perto de Pamplona. Com a guerra civil espanhola, ficou sem saber dos pais e dos irmãos. Foi criado, à toa, por vizinhos e aprendeu cedo a ter de roubar para comer. Partiu para Marselha à procura da família entre os refugiados bascos e descobriu que qualquer pessoa era da sua família.

Entrou, aos 21 anos, em França, para a Ordem dos Pregadores. Viveu a partilha das múltiplas dimensões do Evangelho na cidade que o seu confrade e amigo (P. Blanquart) investigava e da qual, ele Pedro Meca, vivia a rua e a noite, a companhia dos “contrabandistas da esperança”, os marginalizados, com os quais morria e ressuscitava todos os dias. Para mim, dizia o Pedro, a rua não é um lugar de passagem, mas um lugar de vida que amo e que, desde sempre, me é familiar. Na rua, as noites escuras são mais escuras do que as dos místicos e quantas não são precisas para “uma só manhã” (H. Michaux)! Não se passa uma noite de Páscoa, confessa Pedro Meca, sem que eu não esteja num café ou na rua e, de repente, exclame: é a Páscoa!

Público, 05. Abril. 2015

29 março 2015

Naquele tempo... não! Hoje.

Frei Bento Domingues O.P.

1. “Sejam quais forem os fenómenos inesperados do futuro, Jesus não será ultrapassado. O seu culto rejuvenescer-se-á constantemente; a sua lenda provocará lágrimas sem fim; o seu sofrimento enternecerá os corações mais bondosos, todos os séculos proclamarão que entre os filhos dos homens, nunca nasceu um maior do que Jesus”.

Cito estas palavras de Ernest Renan escritas, em 1873, no final da sua pouco ortodoxa Vida de Jesus, porque são belas.

É verdade que essa obra já está muito longe das últimas vagas de reconstruções históricas das origens do cristianismo, nascido no mundo judaico e greco-romano no Ano I, um dos mais importantes da História universal.

 Foi em referência a Jesus de Nazaré que surgiu o movimento religioso mais significativo do Ocidente e provavelmente o de maior influência cultural e social do mundo. Isto, apesar dos crimes anticristãos que, em seu nome, foram cometidos.

Segundo o historiador Antonio Piñero, tanto entre os judeus como entre os gentios de há dois mil anos, havia uma grande aspiração a que o mundo mudasse de signo, como se pode ler nos oráculos de Sibila: com o menino que vai nascer concluir-se-á finalmente a época de ferro e nascerá, por todo o mundo, a idade doirada

Os seguidores do Nazareno interpretaram, com eficácia, esses “sinais dos tempos”.

É urgente perceber que o rumo do mundo actual, com tantos recursos científicos e técnicos, facilmente globalizáveis, carece de lideranças que o pensem a partir dos que foram e são os mais sacrificados aos imperativos da idolatria do dinheiro, rei e senhor.

2. Estive a ler, comovido, os discursos do Papa Francisco, em Nápoles, seguindo o roteiro do seu percurso. Na sua espantosa arte de escutar, nas suas palavras, gestos e atitudes verifico que o seu Jesus é nosso contemporâneo.

É verdade que o dominicano S. Tomás de Aquino (1225-1274) defendeu, com excelentes razões teológicas, que a eficácia salvadora, transformante, da intervenção histórica de Jesus, de há dois mil anos, atinge todos os tempos e lugares. O monge beneditino alemão, Odo Casel (1886-1948), morreu a cantar o Exultet, um hino muito belo da Vigília Pascal, na célebre abadia de Maria-Laach. Depois de ter defendido, contra ventos e marés, a convicção de que ao celebrar o mistério do culto cristão estamos sempre envolvidos pela presença misteriosa, actual e actuante da morte e da ressurreição de Cristo, entrou no reino da luz. Não se nega a memória. É, todavia, o presente, cheio de futuro, o que mais importa.
Mas então, o que haverá e novo na intervenção de Bergoglio para nos sugerir, nas formas mais surpreendentes, que o tempo e a geografia de Jesus são hoje, seja numa prisão, num hospital, em Nápoles, em Lampedusa, na Turquia, num bairro de lata em Roma ou no Parlamento Europeu?

Diria o seguinte: os teólogos bons e os bons liturgos pensam e celebram, com consciência, a absoluta transcendência de Deus conhecido como desconhecido. Trabalham, de forma brilhante, ideias brilhantes.

Francisco segue outro caminho: não defende apenas que a teologia, a liturgia, a pregação, a catequese, a pastoral devem cheirar a povo e a rua. Não traz apenas para o nosso tempo o que aconteceu naquele tempo, na história de Jesus, interpretada pelos escritos do Novo Testamento nem faz aplicações moralizantes desses textos fantásticos, muito desconhecidos do povo católico. Faz outra coisa: recria, com uma espantosa imaginação, as narrativas de antigamente com histórias e realidades dos pobres, dos doentes, dos desempregados, jovens e adultos de hoje, a quem roubam o presente e a todos roubam a dignidade, reduzindo os idosos a produtos descartáveis e sobrantes.

Prefiro dar-lhe a palavra: “A situação de Nápoles não é só uma responsabilidade da cidade, nem somente do país, mas do mundo! Por quê? Porque há um sistema económico que descarta o povo e agora toca aos jovens serem descartados, sem trabalho e isso é grave!

Diz-se que há obras de caridade, há os voluntários, há a Caritas, há aquele centro, há aquele clube que dá de comer…” 

 O problema, diz Bergoglio, não é ter de comer, por esmola. “O problema mais grave é não ter a possibilidade de levar o pão para casa, de o ganhar! E quando não se ganha o pão, perde-se a dignidade. Esta falta de trabalho rouba-nos a dignidade. Devemos lutar por isso, devemos defender a nossa dignidade de cidadãos, de homens e mulheres, de jovens. Este é o drama do nosso tempo. Não devemos permanecer em silêncio”.

Hoje, Domingo de Ramos, começa a Grande Semana – a da esperança invencível - e dedicada, pela liturgia católica, a evocar a condenação à morte, por crucifixão, de Jesus de Nazaré. Pelo que consta, isto aconteceu devido a interesses político-religiosos, provavelmente, no dia 7 de Abril do ano 30, véspera do grande dia da Páscoa judaica.

Cristo não morre mais. Esta semana será santa se as vítimas da dominação económica, política, religiosa e de qualquer discriminação forem o nosso cuidado afectivo, orante, político. “Ao tocar nas feridas do mundo, tocamos em Deus” (T. Halík).

Público, 29.03.2014

22 março 2015

Teólogos a cheirar a povo e a rua

Frei Bento Domingues O.P.

1. A teologia católica, desde o Vaticano I (1869-1870) até aos anos 50 do séc. XX, expressa em diversas escolas, sentiu-se desafiada pelas várias expressões culturais da modernidade, mas foi sempre severamente vigiada e castigada pelo Santo Ofício.

A mentalidade tridentinista que o marcava e o pânico diante do chamado “modernismo” fizeram com que muitas pessoas e algumas faculdades de teologia fossem severamente vigiadas, castigadas e silenciadas.

Em geral, tentavam responder ao primordial apelo de S. Pedro: capacitar-se para dar razão da esperança cristã (1Pd.15) na actualidade, segundo as solicitações dos “sinais dos tempos”. Partiam de uma convicção teológica óbvia: aquilo que não fosse capaz de exprimir a fé, nos vários contextos do presente, era uma traição ao Novo Testamento e à verdadeira Tradição, que passou a ser cada vez mais investigada, para não ser abafada pelas florestas de tradições em expansão.

A cultura, para se manter viva, tem de assumir a tradição nas expressões mais significativas dos panoramas culturais em mudança. Foram as pessoas e as instituições mais castigadas que abraçaram, com mais entusiasmo, o espírito do aggiornamento de João XXIII. Essas tendências conseguiram, marcar o Vaticano II. A revista internacional, Concilium, continuou até hoje esse caminho, sem qualquer exclusivismo.

Diz-se que as turbulências pós-conciliares resultaram, em parte, do rápido desabrochar das teologias políticas e contextuais: europeias, latino-americanas da libertação, asiáticas, africanas, feministas, hermenêuticas, da inculturação do diálogo inter-religioso, etc. É verdade. Mas o que será uma teologia sem contexto espiritual, eclesial, religioso e cultural, isto é, sem mundo, quimicamente pura?

O cristianismo tornou-se rapidamente multiétnico, mais católico. A verdade cristã realiza-se na inculturação e adultera-se no colonialismo religioso. A lei do diálogo é simples: quem dá, recebe e quem recebe, dá. Em suma: o catolicismo é colorido e as suas teologias também.

2. A Constituição Apostólica de João Paulo II sobre as Universidades Católicas (1990) destaca o papel que a teologia e as faculdades de teologia devem desempenhar nessas instituições. Não lhes compete, apenas, contribuir para o diálogo entre fé e razão, como é óbvio. Devem dar um contributo especial na promoção da interdisciplinaridade para uma visão orgânica da realidade, estabelecendo a interacção entre as outras disciplinas da universidade (Cf. nos 18-20;46-49). Entretanto, durante o tempo do Cardeal Ratzinger, à frente da Comissão para a Doutrina da Fé, não se descansou enquanto não foram reduzidos ao silêncio os teólogos que não reproduziam o pensamento e estilo do Prefeito. O papel questionante da teologia, no seio da cultura universitária, ficava neutralizado. A Profissão de Fé e o Juramento de Fidelidade, exigidos aos professores de teologia – e não só -, não merece comentários, mas não ficaria mal num relicário.

3. Quem diz que na Igreja nada mudou mostra que ainda não se actualizou. Anda desfasado da realidade.

No discurso que o Papa Francisco fez aos membros da Comissão Teológica Internacional (05.12.2014), ao saudar a presença de algumas mulheres, destacou a sua contribuição específica para a interpretação da fé e o seu génio para aprofundar certos aspectos inexplorados do mistério insondável de Cristo.

Por ocasião do centenário da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Argentina (UCA) (03.03.2015), Bergoglio enviou ao seu Chanceler uma carta que não pode ser ignorada. Vou destacar alguns pontos.

Varre décadas de medos que levou a teologia a esgotar-se em disputas académicas e a olhar para a humanidade a partir de um castelo de vidro. Neste tempo, a teologia também deve enfrentar os conflitos: não só os que experimentamos na Igreja, mas também os relativos ao mundo inteiro e que são vividos pelas ruas da América Latina.

Não vos contenteis, diz o Papa, com uma teologia de gabinete. Sejam as fronteiras o vosso lugar de reflexão. Não cedais à tentação de as ornamentar, perfumar, consertar nem domesticar. Até os bons teólogos, assim como os bons pastores, cheiram a povo e a rua. Com a sua reflexão derramam azeite e vinho sobre as feridas humanas. Que a teologia seja a expressão de uma Igreja-hospital de campanha.

A misericórdia não é só uma atitude pastoral, mas a própria substância do Evangelho de Jesus. Sem misericórdia, a nossa teologia, o nosso direito, a nossa pastoral correm o risco de desmoronar na mesquinhez burocrática ou na ideologia.
Tudo somado, quem é o estudante de teologia que a UCA está chamada a formar? Não é um teólogo de museu, que acumula dados e informações sobre a Revelação sem saber o que fazer deles, nem um mirone da história, mas uma pessoa capaz de construir humanidade à sua volta, transmitir a verdade cristã em dimensão humana. Não o intelectual sem talento, o éticista sem bondade, o burocrata do sagrado.

O Papa escreveu à UCA, mas o que disse deveria interrogar as faculdades de teologia de todo o mundo. Sentem-se os teólogos das universidades europeias interrogados pela crise que afectou, sobretudo, os países do sul? Que misericórdia manifestou a Alemanha, pátria da teologia?

Público, 22.03.2015

15 março 2015

Uma religião que condena está condenada

Frei Bento Domingues, O. P

1. Manifestei-me, desde muito cedo, contra certas representações da religião e em particular do catolicismo, mas tive sempre o pressentimento de que era na dimensão religiosa e de modo especial no cristianismo católico, liberto de pretensões exclusivistas ou inclusivistas, que estava escondida a alma do mundo, o impulso do amor da pura gratuidade e da infinita misericórdia.

Encontrei algumas pessoas que, desde a adolescência, me mostraram que as dúvidas e o questionamento são intrínsecos ao processo da fé cristã. Ninguém tem a verdade, mas é possível viver no horizonte da sua busca, com o contributo de todos os que a procuram, em todas as áreas de conhecimento, seja qual for o universo cultural e religioso. Tudo na vida é uma criação de possibilidades, de acontecimentos imprevisíveis. Nunca me dei bem com crenças inamovíveis, com o determinismo.   

Uma “religião” que se apresente como inimiga do questionamento, da investigação e da liberdade deve ser denunciada pelas pessoas e instituições religiosas, como ridícula blasfêmia.

2. A religião como atitude pessoal e como fenómeno social, não começou ontem nem vai acabar tão cedo, apesar da fúria dos loucos do império islâmico e dos observadores apressados, mas não está condenada a ser como sempre foi. É um fenómeno imenso em todos os continentes, menos na Europa preconceituosa. Vê-se, agora, enredada em movimentos, instituições e acontecimentos com os quais não sabe lidar, não os pode eliminar e recusa-se a entender.     

Já na pré-história há indícios de religiosidade, a começar pela ritualização da morte, o que implica a existência de uma concepção simbólica, isto é, de um mundo feito de visível, invisível e imprevisível. Apenas no ser humano, e em nenhum outro ser vivo, se observa semelhante comportamento e tão extrema resistência simbólica.

Alguns investigadores e hermeneutas criaram a categoria de sagrado para caracterizar a ancestral atitude perante o “mundo tremendo e fascinante”. É a religião – subjectiva e objectiva - que o ritualiza e codifica. No âmbito da cultura latina, o termo religião, segundo Cícero, vem de reler, examinar com a atenção, isto é, não ser leviano na observação da complexidade da natureza, do ser humano e da sociedade. Para o cristão Lactâncio, a sua etimologia é mais construída e mais evidente: significa religar, como se os seres humanos reconhecessem que precisam de se religar a uma transcendência e uns aos outros, numa comunidade. O mediólogo, Regis Debray, analisou cuidadosamente a função política da religião, mostrando que a sociedade precisa de reunir os indivíduos através de algo invisível – seja ele qual for - que os transcende.

A consciência desenganada da nossa evidente finitude levanta a questão fundamental acerca do sentido da vida, sem resposta única para todos.

O grande filósofo pragmático, John Dewey, desejaria que o futuro da religião estivesse ligado à hipótese de desenvolvimento de uma fé nas possibilidades da experiência humana e na capacidade humana para estabelecer relações que criem um sentido vital da solidariedade dos interesses humanos e inspirem acções capazes de transformar esse sentido em realidade.

3. Em pouco tempo, Bergoglio tornou-se o pragmático da reforma da Igreja Católica. Não se ficou pelo Banco do Vaticano e pela Cúria Romana, apesar de todas as resistências aí instaladas. A hierarquia eclesiástica, as cúrias diocesanas, as conferências episcopais, as secretarias paroquiais podem, em muitos casos, tentar resistir à mudança. Sentem, no entanto, que o programa reformador do Papa e sobretudo os seus gestos, atitudes, discursos e pregações desorganizaram um mundo que, peça a peça, tinha sido construído para resistir aos que reclamavam reformas urgentes. Começam a sentir-se mal quando lhes dizem que o caminho do Papa Francisco é mais cristão do que o mundo de privilégios sacralizados. Gostavam de citar os Papas para manter a “ordem”. Agora sentem-se em desequilíbrio.

Os movimentos de leigos e, sobretudo os mais elitistas, que se julgam a verdadeira Igreja, a do futuro, não escapam às interpelações de Bergoglio. Ao caminho “Neocatecumenal” fez-lhe observações muito concretas para as correcções de rumo e de métodos, inscrevendo-o nas igrejas locais, de forma inculturada, vencendo as suas tentativas monopolistas.

Foi, porém, no encontro de 7 de Março, com o movimento Comunhão e Libertação – que se julgava um modelo de fidelidade a Roma na luta contra todos os desvios do catolicismo pós-conciliar –, que o Papa aproveitou para marcar o primado na moral cristã e fazer a denúncia da substituição da centralidade de Cristo pelo meu método espiritual, o meu caminho espiritual e o meu modo de o implementar. É uma forma de sair do Caminho e ficar com o carisma petrificado numa garrafa de água destilada, de se tornar guias de museu e adoradores de cinzas.

A Igreja, para encontrar o seu centro em Cristo, tem de sair para todas as periferias do mundo contemporâneo.

Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.

O discurso está na íntegra, em italiano, no site do Vaticano. Que bom seria encontrá-lo em português, sem acordo!

Público, 15.03.2015


08 março 2015

A missa como antidepressivo

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Sei que o título deste texto contraria a experiência de muitos católicos que se confessam ”não praticantes”, precisamente porque o velho preceito de assistir à Missa se lhes tornou impraticável. Um bom passeio, uma prática desportiva, o contacto com a natureza, um convívio com amigos, pelo bem que faz ao corpo e ao espírito, louva mais a Deus do que o aborrecimento de uma Missa enfadonha. Se aquilo era a festa da fé, preferiam ir ao café.

Apesar de tudo isso e de muito mais, mantenho o título, porque julgo que a celebração cristã do Domingo – se a comunidade celebrante encarnar e encenar hoje a significação da sua origem e da sua verdade – torna-se um divino antidepressivo semanal, um dispositivo contra o medo neste mundo carregado de ameaças e seguranças, um belo processo de refazer a vida e enfrentar os desafios de uma nova semana.

Não digo isto apenas porque os textos do domingo passado - o de S. Paulo, “se Deus está por nós, quem será contra nós” (Rm 8,31-34) e o de S. Marcos, sobre a transfiguração, quando Jesus se começa a sentir cercado (Mc 9, 2-10) - são evidentes e poderosas fontes de energia espiritual.
 Não alinho, no entanto, com liturgias destinadas a provocar estados de descontrole emocional, lavagens ao cérebro, simulações de curas milagrosas ou qualquer outra tática para atrair clientes. Não me parece que seja esse o bom caminho para acabar com as missas consideradas uma seca, um aborrecimento ou um sacrifício inútil.

Como Nietzsche observou, a questão de fundo é de ordem antropológica: O cristianismo deu de beber veneno ao Eros, mas este não morreu, degenerou em vício. Sem tentar saber o que é o ser humano, na sua complexidade e unidade, interna e relacional, no seu devir no arquipélago das culturas, não poderemos encontrar a linguagem simbólica que diga em cada tempo e em cada povo, o mistério da Páscoa de Cristo, páscoa do mundo, nossa páscoa.

A ascese culpabilizante esquece, como dizia Tomás de Aquino, que recrear-se no prazer é uma virtude. Um cristão que não seja capaz de se divertir com os outros e ser divertido, não é um virtuoso, é um chato. Sem humor nem o amor tem graça.

Deveria ser possível praticar as realidades mais sérias da fé com a inteligência do humor, protecção contra o puritanismo. Quem toma tudo a sério e sobretudo quem se toma muito a sério, pensa que a inteligência se deveria calar onde começa a piedade. Contaram-me que um miúdo que acompanhava a avó à Missa, depois de comungar, ela vinha tão constrangida, com um rosto de tanto sofrimento que o neto lhe perguntava: “ó Avó, isso dói muito?”

2. Não estou a defender missas engraçadas nem missas desgraçadas. São ambas depressivas. A graçola não é a melhor linguagem litúrgica, embora não caia o Carmo e a Trindade se, numa celebração, escorregar alguma expressão que não agrade a todos os ouvidos. As comunidades não podem nem devem adoptar todas o mesmo padrão. Seria negar as exigências da inculturação litúrgica. Não vejo mal nenhum em que os católicos, quando isso é possível, possam escolher as celebrações que sejam, para eles, as mais significativas e estimulantes. Todas, porém, devem ser suficientemente abertas para não negarem a sua essência cristã: serem família com quem não é da família. Se recusamos uma sociedade de guetos, não a vamos consagrar na missa. Investe-se muito dinheiro na construção de uma igreja ou de um espaço para celebrar e cultivar a fé. Por vezes, onde não fazem falta e com gastos que a estética de uma Igreja serva e pobre condena. Mas quanto é que se investe na formação dos católicos e na preparação das celebrações, tendo em conta a qualidade dos textos, da música, da comunicação e da partilha dos bens?

O Papa fala muito contra o clericalismo. Os padres são poucos e não deixam ordenar as mulheres. Não havendo boas soluções à vista, os clérigos têm tendência a remediar-se chamando colaboradores e colaboradoras que os reproduzam, esquecendo que os ministérios, sejam eles quais forem, não são para substituir, mas para dinamizar toda a comunidade. A celebração é dela.

3. Quando afirmo que a celebração de Domingo – a missa - é, por essência, antidepressiva, não estou a situar-me no papel de psicólogo. Refiro-me a algo que pertence à própria natureza da Pascoa semanal, à nascente da Fé cristã. Vejamos.

A condenação de Jesus de Nazaré à morte – por crucifixão – e o silêncio de Deus deixaram os Apóstolos perdidos e sem reacção, salvo as mulheres. As narrativas do NT são muito claras a esse respeito. A belíssima peça literária – Os Discípulos de Emaús – uma espantosa catequese das componentes estruturais do itinerário cristão, mostra que é à volta da mesa, no partir do pão, na Eucaristia, que se revela, sem se ver, a força antidepressiva da presença do Ressuscitado.
A vida urbana de hoje é muito complicada, uma teia de obrigações: filhos, família, profissão e casa quase não deixam tempo para respirar. Onde buscar a energia espiritual para transfigurar a semana que passou e encontrar esperança para uma vida mais verdadeira? Desde há dois mil anos que os cristãos confessam que o Domingo é a festa de Deus, nossa festa.

Público, 08.03.2015



01 março 2015

Mudar radicalmente a religião (2)

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Ao fazer das periferias o centro da Igreja Católica, Bergoglio tenta mudar, a partir da diocese de Roma, os sinais de trânsito de todas as dioceses do mundo, das paróquias, dos movimentos, das Conferências episcopais e da vida consagrada. O centro das igrejas locais terá de se deslocar para as periferias geográficas, sociais e culturais. O processo vai levar o seu tempo, pois não falta quem espere que o Papa acabe por se cansar, sobretudo se os padres, os bispos e os cardeais fizerem de conta que não estão para aí virados.

O antigo aforismo imperial - “todos os caminhos vão dar a Roma” – poderia ser substituído por outro: todos os caminhos das igrejas vão dar às periferias, aos “bairros problemáticos”, às cadeias, aos hospitais, às pessoas que vivem sós, ignoradas dos familiares e dos vizinhos. Seria apenas uma questão de tomar a sério um dos textos escolhidos para o começo desta Quaresma (Mt 25, 31-46).

No passado dia 15, no final da homilia da Missa com os “novos purpurados”, o bispo de Roma enunciou, de modo sintético e incisivo, essa reorientação pastoral:

“Amados irmãos novos Cardeais, com os olhos fixos em Jesus e na nossa Mãe, exorto-vos a servir a Igreja de tal maneira que os cristãos – edificados pelo nosso testemunho – não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a servir Jesus crucificado em toda a pessoa marginalizada, seja pelo motivo que for; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que não tem com que se cobrir; a ver o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, que se afastaram da prática da sua fé ou que se declaram ateus; o Senhor, que está na cadeia, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor, se não acolhermos de maneira autêntica o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e acolher aqueles que sofrem qualquer género de marginalização. Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade!”

2. Entre os vários textos, intervenções e homilias deste Papa, esta é particularmente sugestiva. Recomendo vivamente a sua leitura, bem meditada e partilhada. É uma ponte entre a prática de Jesus e o que hoje é pedido aos cristãos. Ele não se resigna a fazer da Igreja uma tertúlia, um clube para bem-pensantes, um círculo bíblico, uma ONG ou um centro de apuramentos teológicos, canónicos e litúrgicos. Se as hermenêuticas bíblicas são infindáveis, ele não está à espera de as percorrer a todas para, finalmente, dizer qual é a boa e verdadeira. O que o preocupa é uma Igreja entretida com ela mesma e as suas sacristias, as discussões sem fim para nada. Uma Igreja auto-referente perde-se de Cristo e do mundo e só pode gerar marginalizados da boa doutrina e da moral consagrada, em vez de integrar os que o farisaísmo afastou. Dizia-se de Jesus que Ele não era como os fariseus e os doutores da lei: falava com autoridade, era autor de um novo caminho. Era vinho novo que não cabia em odres velhos. Não vinha remendar o que já não tinha conserto. É precisamente isto que Bergoglio está a partilhar, não a partir de uma cátedra, mas de uma experiência iluminada pelo encontro do Evangelho com as muitas periferias que foi encontrando ao longo dos anos.

Não se pode esquecer que esta homilia está tecida a partir do atrevimento revolucionário de um leproso e de Jesus – em campo aberto - violando ambos a Lei da marginalização de Moisés, preocupada, como é normal, em “salvar os sãos” e “proteger os justos”.

3. O Papa Bergoglio não está preocupado em resolver os problemas que Jesus enfrentou há dois mil anos. Isso já está feito. Mas ao seguir a mesma lógica, a prática deste Papa está a encontrar um grande entusiasmo, mas também grandes resistências nos interesses instalados. Recorro às suas palavras: Jesus, novo Moisés, quis curar o leproso, quis tocá-lo, quis reintegrá-lo na comunidade, sem se autolimitar nos preconceitos; sem se adequar à mentalidade dominante do povo; sem se preocupar de modo algum com o contágio. Jesus responde à súplica do leproso sem demora e sem os habituais adiamentos para estudar a situação e todas as eventuais consequências. Para Jesus, o que importa acima de tudo é alcançar e salvar os afastados, curar as feridas dos doentes, reintegrar todos na família de Deus. E isto deixou alguém escandalizado!

E Jesus não teme este tipo de escândalo. Não olha às mentes fechadas que se escandalizam até por uma cura, que se escandalizam diante de qualquer abertura, qualquer passo que não entre nos seus esquemas mentais e espirituais, qualquer carícia ou ternura que não corresponda aos seus hábitos de pensar e à sua pureza ritualista. Ele quis integrar os marginalizados, salvar aqueles que estão fora do acampamento (cf. Jo 10).

Não parece que Bergoglio ande muito assustado.

Público, 01.03.2015