12 maio 2015
10 maio 2015
Um prefeito nem sempre é perfeito
Frei Bento Domingues, O. P
1. A vontade de fixar certas interpretações, declarações, doutrinas e instituições religiosas como sendo absolutas, irreformáveis e definitivas - marcadas por tradições, contextos históricos e culturais muito circunscritos – roça a idolatria. Substitui o Absoluto transcendente pelo que há de mais relativo e banal, numa linguagem inacessível. Os textos do Novo Testamento (NT) mostram um constante empenhamento de Jesus em dessacralizar tempos, lugares e instituições divinizadas, pois tornavam o acesso a Deus privilégio de alguns e a condenação de quase todos.
O próprio Jesus, ao andar em más companhias, ao comer com os classificados como pecadores, não só se desautorizava como homem de Deus, como se expunha a ser considerado um agente do diabo:[1] Ele não expulsa demónios, a não ser por Beelezebu, príncipe dos demónios.
Jesus não era da tribo sacerdotal, não andou em nenhuma escola rabínica, não era um teólogo profissional e, no entanto, pôs tudo em causa. [2]
Segundo os textos disponíveis, Jesus foi educado na religião da sua família, mas levou muito tempo encontrar o seu próprio caminho e, quando o encontrou, os antigos companheiros não o entenderam, a família julgava que ele estava doido [3] e os Doze que escolheu nunca conseguiram compreender o seu desígnio. [4]
Como não deixou nada escrito, e muito menos um catecismo bem arrumado, surgiram várias teologias cristãs. Os escritos do NT são irredutíveis a uma só teologia ou a uma só cristologia. Ler esses textos de estilos, épocas, lugares e propósitos tão diferentes, pelo olhar formatado de um Catecismo, é uma cegueira provocada pelo instinto de segurança e necessidade de controlar. São textos simbólicos, alusivos ao mistério inabarcável de Deus, que só com recurso à teologia negativa, apofática, é possível não cair na idolatria teológica. De Deus, tanto mais sabemos quanto mais nos dermos conta que ele excede todo o conhecimento. Nunca será prisioneiro dos nossos conceitos.
2. A falta de profissionalismo teológico está a agitar o Vaticano. Numa entrevista concedida ao jornal francês La Croix, o próprio Cardeal Müller – Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé (CDF), ex-Santo Ofício, Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e Presidente da Comissão Teológica Internacional - declarou algo de muito inédito: “A chegada à Cátedra de Pedro de um teólogo como Bento XVI foi, provavelmente, uma excepção. João XXIII não era um teólogo de ofício. O Papa Francisco também é mais pastor e a Congregação para a Doutrina da Fé, tem uma missão de estruturação teológica do Pontificado”. Assim, pois, segundo a declaração deste cardeal, a CDF deve “estruturar teologicamente” o Pontificado do Papa Francisco. É provável que este seja um dos motivos pelos quais o Prefeito intervém tão frequentemente em público, algo sem precedentes na história.
Até agora, ninguém havia teorizado, a partir do próprio centro da Cúria Romana, uma exigência de normalização do pontificado, como se depreende das palavras citadas por Müller. Acredito que aqui se deva constatar, com preocupação, que esse parece ser, até agora, o mal-entendido mais substancial dos pontificados de João XXIII e de Francisco, curiosamente unificados pela característica de terem “pouca estrutura teológica”.
3. Estamos numa situação delicada. Como vimos, Jesus não tinha nada de teólogo profissional, a sua profissão era outra. S. Francisco, ainda menos. João XXIII, convocando o Concílio e neutralizando a vigilância do cardeal Octaviano, do Santo Ofício, deixou o debate teológico à solta, decisão que nunca mais lhe será perdoada pelos vigilantes da ortodoxia. O pós-Concílio foi de uma grande efervescência e criatividade teológicas, tanto na Europa como na América latina, na África e na Ásia. Com o cardeal Ratzinger procurou-se a normalização pela condenação de tudo que não reproduzisse a teologia deste Prefeito da CDF.
Chegou o Papa Francisco e soltou, de novo, a palavra na Igreja e manifestou, numa carta à Faculdade de Teologia de Buenos Aires, a vontade de que os teólogos profissionais cheirassem a povo, não ficassem isolados numa redoma. Há atrevimentos que se pagam caro.
A ambição do poder de dominar – também há poder de servir – é presunçosa e ridícula. Quem se julga o centro da Igreja, perde-se do Espírito de Cristo e pensa que só ele tem a chave da salvação.
Público, 10.05.2015
- - - - - - - -
[1] Mt 12, 1-37:Mc 2-3
[2] Mc 6, 1-5
[3] Mc 3,20-21.31-35
[4] Mc 10,35-45
1. A vontade de fixar certas interpretações, declarações, doutrinas e instituições religiosas como sendo absolutas, irreformáveis e definitivas - marcadas por tradições, contextos históricos e culturais muito circunscritos – roça a idolatria. Substitui o Absoluto transcendente pelo que há de mais relativo e banal, numa linguagem inacessível. Os textos do Novo Testamento (NT) mostram um constante empenhamento de Jesus em dessacralizar tempos, lugares e instituições divinizadas, pois tornavam o acesso a Deus privilégio de alguns e a condenação de quase todos.
O próprio Jesus, ao andar em más companhias, ao comer com os classificados como pecadores, não só se desautorizava como homem de Deus, como se expunha a ser considerado um agente do diabo:[1] Ele não expulsa demónios, a não ser por Beelezebu, príncipe dos demónios.
Jesus não era da tribo sacerdotal, não andou em nenhuma escola rabínica, não era um teólogo profissional e, no entanto, pôs tudo em causa. [2]
Segundo os textos disponíveis, Jesus foi educado na religião da sua família, mas levou muito tempo encontrar o seu próprio caminho e, quando o encontrou, os antigos companheiros não o entenderam, a família julgava que ele estava doido [3] e os Doze que escolheu nunca conseguiram compreender o seu desígnio. [4]
Como não deixou nada escrito, e muito menos um catecismo bem arrumado, surgiram várias teologias cristãs. Os escritos do NT são irredutíveis a uma só teologia ou a uma só cristologia. Ler esses textos de estilos, épocas, lugares e propósitos tão diferentes, pelo olhar formatado de um Catecismo, é uma cegueira provocada pelo instinto de segurança e necessidade de controlar. São textos simbólicos, alusivos ao mistério inabarcável de Deus, que só com recurso à teologia negativa, apofática, é possível não cair na idolatria teológica. De Deus, tanto mais sabemos quanto mais nos dermos conta que ele excede todo o conhecimento. Nunca será prisioneiro dos nossos conceitos.
2. A falta de profissionalismo teológico está a agitar o Vaticano. Numa entrevista concedida ao jornal francês La Croix, o próprio Cardeal Müller – Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé (CDF), ex-Santo Ofício, Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e Presidente da Comissão Teológica Internacional - declarou algo de muito inédito: “A chegada à Cátedra de Pedro de um teólogo como Bento XVI foi, provavelmente, uma excepção. João XXIII não era um teólogo de ofício. O Papa Francisco também é mais pastor e a Congregação para a Doutrina da Fé, tem uma missão de estruturação teológica do Pontificado”. Assim, pois, segundo a declaração deste cardeal, a CDF deve “estruturar teologicamente” o Pontificado do Papa Francisco. É provável que este seja um dos motivos pelos quais o Prefeito intervém tão frequentemente em público, algo sem precedentes na história.
Até agora, ninguém havia teorizado, a partir do próprio centro da Cúria Romana, uma exigência de normalização do pontificado, como se depreende das palavras citadas por Müller. Acredito que aqui se deva constatar, com preocupação, que esse parece ser, até agora, o mal-entendido mais substancial dos pontificados de João XXIII e de Francisco, curiosamente unificados pela característica de terem “pouca estrutura teológica”.
3. Estamos numa situação delicada. Como vimos, Jesus não tinha nada de teólogo profissional, a sua profissão era outra. S. Francisco, ainda menos. João XXIII, convocando o Concílio e neutralizando a vigilância do cardeal Octaviano, do Santo Ofício, deixou o debate teológico à solta, decisão que nunca mais lhe será perdoada pelos vigilantes da ortodoxia. O pós-Concílio foi de uma grande efervescência e criatividade teológicas, tanto na Europa como na América latina, na África e na Ásia. Com o cardeal Ratzinger procurou-se a normalização pela condenação de tudo que não reproduzisse a teologia deste Prefeito da CDF.
Chegou o Papa Francisco e soltou, de novo, a palavra na Igreja e manifestou, numa carta à Faculdade de Teologia de Buenos Aires, a vontade de que os teólogos profissionais cheirassem a povo, não ficassem isolados numa redoma. Há atrevimentos que se pagam caro.
A ambição do poder de dominar – também há poder de servir – é presunçosa e ridícula. Quem se julga o centro da Igreja, perde-se do Espírito de Cristo e pensa que só ele tem a chave da salvação.
Público, 10.05.2015
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[1] Mt 12, 1-37:Mc 2-3
[2] Mc 6, 1-5
[3] Mc 3,20-21.31-35
[4] Mc 10,35-45
07 maio 2015
Filipa Lowndes Vicente escreve sobre Ana Vicente
Texto escrito e lido por Filipa Lowndes Vicente no dia 29 de Abril de 2015 na missa de sétimo dia de sua mãe, Ana Vicente, na Igreja do Convento de São Domingos, Alto dos Moinhos, Lisboa.
Não vos vou falar da minha perda, do amor profundo e cúmplice
que sentia e sinto pela minha mãe, nem como me sinto uma órfã de 43 anos, a
aprender a viver esta segunda parte da vida em que sou mãe mas já não posso
ouvir a palavra "filha". Muitas das pessoas presentes sabem do que
falo. Não somos as primeiras nem seremos as últimas.
Também não
vos vou contar como, numa comunhão absurda e misteriosa, me senti fisicamente
doente durante todos estes últimos meses em que a doença da minha mãe lhe
começou a coartar os sentidos, as vontades e os gestos: jantar fora com o meu
pai e os amigos; viajar; os concertos na Gulbenkian; as reuniões do Nós Somos
Igreja e do grupo de autoajuda para doentes oncológicos que criara há poucos
anos; o trabalho diário em forma de escrita - artigos de opinião, emails, mas
também os livros, projectos intelectuais que sabia começar, acabar e gozar; os
almoços com as tantas amigas, queridas; a leitura dos livros e jornais que
transbordavam sempre da mesa de cabeceira; ou olhar para as ondas selvagens do
Guincho ao fim da tarde. Só quando deixou de poder fazer tudo aquilo que lhe
enchia a vida e que foi capaz de fazer plenamente durante todos estes anos, é
que partiu. Quando quis partir.
Disse várias
vezes à minha mãe, a brincar, como na sua forma de ser inclassificável e pouco
convencional, ela combinava o melhor de ser inglesa e portuguesa. Sei que a
minha mãe, no seu optimismo pragmático, agora diria, "não há nada a fazer,
não vale a pena lamentarmo-nos e vamos, sim, tentar ser positivos". E eu,
como a menina obediente que nunca tive que ser, porque a minha mãe também fez
da maternidade uma forma de liberdade e de aceitação, vou agora tentar "obedecer-lhe",
tentando transformar a minha tristeza nos três verbos que a moviam, sempre
entrelaçados uns nos outros: escrever, rezar e agir. A palavra escrita, a
palavra em prece e a acção. Uma forma de a lembrar-mos é a de todas, e todos
nós, pormos estes verbos ao serviço de algumas das causas pelas quais lutou,
naquele seu modo único de ser combativa e serena, subversiva e paciente:
1. Em primeiro lugar, e central a todas as outras
inquietações, a sua consciência feminista, os direitos das mulheres, local e
globalmente, nas suas relações com todas as dimensões sociais, políticas,
religiosas, jurídicas ou culturais. Os modos como não só nunca teve medo da palavra
"feminista", como a imbuiu dos sinónimos de justiça, direitos
humanos, e prática cristã.
2. Em segundo lugar, as formas como fez da Igreja Católica
também a sua Igreja, como a sua fé, sempre forte, ao serviço de uma
transformação: o sacerdócio das mulheres, e as mulheres, em geral; uma nova posição
face à sexualidade, ao planeamento familiar, à orientação sexual; uma Igreja
mais pobre, próxima, e pacífica.
3. Em terceiro lugar, e através do "Projecto Vida",
as alternativas à toxicodependência numa década em que a droga se tornou uma
história portuguesa que marcou tantas vidas - a daqueles que a viveram e a das
pessoas que lhes eram próximas, também dos milhares de crianças que hoje ainda
vivem em instituições públicas portuguesas.
4. A protecção legal, social e afectiva dos mais frágeis -
dos idosos, das crianças, e das pessoas com deficiência que estão a cargo do
Estado - tal como a necessidade de um novo empenho institucional e político em
relação à adopção foram outras esferas profissionais que mereceram o seu
empenho. Na sua acepção holística e aberta de todas as esferas humanas, a minha
mãe não sabia isolar os "problemas sociais". As crianças sem a
presença e o amor das mães e dos pais, a violência física contra as mulheres
por parte de ex-namorados, maridos e ex-maridos, a pobreza, a droga, a maior
fragilidade salarial ou laboral das mulheres, muitas vezes cruzam-se numa só
pessoa ou numa só família. Proteger e defender os direitos daqueles que têm
menos voz e menos poder foi outra das suas formas de ser cristã.
5. O cancro surgiu como mais uma causa, claro. A fragilidade
transformada em força. Não apenas a sua força, mas uma força partilhada com outras
pessoas. Criou o grupo de autoajuda de doentes e pessoas próximas de doentes
oncológicos e estava no processo de criar um grupo de apoio a pessoas em fim de
vida. Quem é que toma conta das pessoas que tomam conta de outras e ficam
doentes? Quem acompanha e apoia aqueles, muitos, que estão sozinhos e ficam
doentes? A dignidade na morte, foi assim uma das suas últimas causas. Sobre a
qual escreveu, rezou, agiu, mas também viveu. Viveu a sua morte com a dignidade
que queria. E rodeada de muitas formas de amor. Os abraços e as palavras, de
quem gostava dela têm sido para mim um enorme conforto.
A minha mãe morreu no dia em que cerca de 1000 pessoas também
morreram nas águas do Mediterrâneo. Eu só me apercebi da dimensão do que tinha
acontecido uns dias depois, porque a história é feita pela simultaneidade de
muitos tempos e muitos lugares, e a nossa história individual e o nosso
sofrimento tende a sobrepor-se às histórias alheias. A minha mãe tinha o dom de
cruzar a sua história, e o seu caminho, com as histórias das pessoas com nome
ou sem nome que lhe estavam próximas, ou que estavam do outro lado do mundo.
Teria escrito um artigo para o Público
sobre estas mil pessoas que não tiveram a possibilidade de ter a dignidade na
morte. Agora que a minha mãe está no
outro lado do caminho, já não pode escrever. Mas a sua força, as suas
lutas, a sua serenidade, o seu sorriso, a sua fé podem continuar a motivar-nos
para fazer deste o tal mundo melhor de que falava o seu querido amigo Frei
Bento Domingues.
Filipa Lowndes Vicente
03 maio 2015
Não vos conformeis com este mundo
Frei Bento Domingues, O.P.
1. Nada mais irritante, no plano religioso, do que a invocação da vontade de Deus para justificar situações, acontecimentos trágicos, doenças, injustiças e misérias. Essa invocação é um insulto à inteligência humana e ao mistério insondável da divindade e da natureza. A laicização dessa mentalidade justificou a imoralidade de medidas de ordem económica, financeira e política, repetindo, anos a fio, que não havia alternativa à austeridade. Austeridade que, segundo outros, colocou milhares de pessoas na zona do insuportável e paralisou as energias criadoras de vastos sectores da sociedade.
Seja como for, Thomas Piketty, o celebrado autor de O Capital no século XXI, veio agora dizer ao Público [1] que há sempre alternativas: ”O que é realmente dramático é que transformámos uma crise que nasceu no sector financeiro privado americano numa crise de dívida pública, apesar de, inicialmente, a zona euro não ter mais dívida pública do que os EUA, o Reino Unido ou o Japão. Conseguimos, apenas por causa das nossas más instituições e más decisões macroeconómicas, criar uma crise a partir de nada”.
Este investigador mostra-se interessado em transformar a opinião pública, acabando com a sacralização da economia como conhecimento de um pequeno grupo de iluminados, que difunde a ideia de um universo “demasiado complicado”.
Vem isto a propósito de uma conferência, realizada em Tomar. Estava inscrita numa série destinada à preparação das festas do Espírito Santo que, nesta cidade, se exprime no exuberante “cortejo dos tabuleiros”. O tema que me foi atribuído - a dimensão social dessas celebrações – obrigou-me ao cruzamento do religioso, do económico, do social e do político, procurando não diluir nem separar esses diversos planos.
2. Na origem de tudo – para lá da festa agrária das colheitas - está a narrativa dos Actos dos Apóstolos [2], sobre uma comunidade de partilha integral dos bens, consequência do Pentecostes cristão: tinham tudo em comum, entre os seus membros não havia indigentes e cada um recebia conforme a sua necessidade.
O Abade Joaquim de Flora [3], da Calábria, viu nessa experiência do passado, em pequena escala, o futuro, a última era do mundo. Mediante uma original teologia da história, distribuiu o tempo por cada uma das pessoas da Santíssima Trindade. A era do reinado do Divino Espírito Santo superava e tornava caduca a época do Pai e a do Filho. Inaugurava o reinado do puro amor, da liberdade e da alegria, cume insuperável da história humana, sem contradições nem mediações. [4]
Este visionarismo teve uma posteridade, sempre renascente, desde a Idade Média, passando pela modernidade até aos nossos dias, em diversas versões, de modo original, na cultura portuguesa. [5]
3. O percurso inaugurado pela Rainha Santa Isabel, dentro de uma espiritualidade franciscana, desde Alenquer, Sintra e outras localidades teve, nos Açores, um lugar privilegiado e, através da sua imigração, alcançou uma difusão imparável para o Brasil, EUA, Canadá, etc.
Já no século XVI esta festa era celebrada a bordo das Naus do Brasil e das Armadas da India. Em carta enviada para Itália, desde Goa, o missionário jesuíta, Fúlvio de Gregori, comunica o seguinte: “Costumam os portugueses eleger um imperador pela festa de Pentecostes e assim aconteceu também nesta nau S. Francisco. Com efeito, elegeram um menino para imperador, na vigília de Pentecostes, no meio de grande aparato. Vestiram-no depois muito ricamente e puseram-lhe na cabeça a coroa imperial. Escolheram também fidalgos para seus criados e oficiais às ordens, de modo que o capitão foi nomeado mordomo da sua casa, outro fidalgo foi nomeado copeiro, enfim, cada um com o seu ofício, à disposição do imperador. Até entraram nisto os oficiais da nau, o mestre, o piloto, etc. Depois, no dia de Pentecostes (ou Páscoa do Espírito Santo), trajando todos a primor, fez-se um altar na proa da nau, por ali haver mais espaço, com belos panos e prataria. Levaram, então, o imperador à missa, ao som de música, tambores e festa e ali ficou sentado numa cadeira de veludo com almofadas, de coroa na cabeça e ceptro na mão, cercado pela respectiva corte, ouvindo-se entretanto as salvas de artilharia. Comeram depois os cortesãos do imperador e, por fim, serviram toda a gente ali embarcada, à volta de trezentas pessoas.” [6]
O recurso à entronização de uma criança-imperador, com todas as insígnias imperiais, assim como a partilha da mesma mesa, é uma subversão política, económica e social. Pode alimentar o desejo de um mundo às avessas do actual, mas ao acontecer uma vez por ano, em versão folclórica, pode reforçar o conformismo.
Prefiro, por isso, o carácter imperativo da posição de S. Paulo sobre o Espírito Santo, pois é este mundo que geme e sofre a dores de parto até ao presente, que é preciso transformar: Não vos conformeis com este mundo. [7]
Público, 03.05.2015
- - - - - -
[1] 28. 04. 2015
[2] Act 4, 32-37
[3] 1132-1202
[4] O Google tem diversas entradas sobre toda esta vasta problemática
[5] José Eduardo Franco, Revista Portuguesa de Ciência das Religiões – Ano I, 2002 / n.º 1 – 75-94, Cf Google,
[6] CF Irmandades do Divino Espírito Santo, Google
[7] Rm 8
1. Nada mais irritante, no plano religioso, do que a invocação da vontade de Deus para justificar situações, acontecimentos trágicos, doenças, injustiças e misérias. Essa invocação é um insulto à inteligência humana e ao mistério insondável da divindade e da natureza. A laicização dessa mentalidade justificou a imoralidade de medidas de ordem económica, financeira e política, repetindo, anos a fio, que não havia alternativa à austeridade. Austeridade que, segundo outros, colocou milhares de pessoas na zona do insuportável e paralisou as energias criadoras de vastos sectores da sociedade.
Seja como for, Thomas Piketty, o celebrado autor de O Capital no século XXI, veio agora dizer ao Público [1] que há sempre alternativas: ”O que é realmente dramático é que transformámos uma crise que nasceu no sector financeiro privado americano numa crise de dívida pública, apesar de, inicialmente, a zona euro não ter mais dívida pública do que os EUA, o Reino Unido ou o Japão. Conseguimos, apenas por causa das nossas más instituições e más decisões macroeconómicas, criar uma crise a partir de nada”.
Este investigador mostra-se interessado em transformar a opinião pública, acabando com a sacralização da economia como conhecimento de um pequeno grupo de iluminados, que difunde a ideia de um universo “demasiado complicado”.
Vem isto a propósito de uma conferência, realizada em Tomar. Estava inscrita numa série destinada à preparação das festas do Espírito Santo que, nesta cidade, se exprime no exuberante “cortejo dos tabuleiros”. O tema que me foi atribuído - a dimensão social dessas celebrações – obrigou-me ao cruzamento do religioso, do económico, do social e do político, procurando não diluir nem separar esses diversos planos.
2. Na origem de tudo – para lá da festa agrária das colheitas - está a narrativa dos Actos dos Apóstolos [2], sobre uma comunidade de partilha integral dos bens, consequência do Pentecostes cristão: tinham tudo em comum, entre os seus membros não havia indigentes e cada um recebia conforme a sua necessidade.
O Abade Joaquim de Flora [3], da Calábria, viu nessa experiência do passado, em pequena escala, o futuro, a última era do mundo. Mediante uma original teologia da história, distribuiu o tempo por cada uma das pessoas da Santíssima Trindade. A era do reinado do Divino Espírito Santo superava e tornava caduca a época do Pai e a do Filho. Inaugurava o reinado do puro amor, da liberdade e da alegria, cume insuperável da história humana, sem contradições nem mediações. [4]
Este visionarismo teve uma posteridade, sempre renascente, desde a Idade Média, passando pela modernidade até aos nossos dias, em diversas versões, de modo original, na cultura portuguesa. [5]
3. O percurso inaugurado pela Rainha Santa Isabel, dentro de uma espiritualidade franciscana, desde Alenquer, Sintra e outras localidades teve, nos Açores, um lugar privilegiado e, através da sua imigração, alcançou uma difusão imparável para o Brasil, EUA, Canadá, etc.
Já no século XVI esta festa era celebrada a bordo das Naus do Brasil e das Armadas da India. Em carta enviada para Itália, desde Goa, o missionário jesuíta, Fúlvio de Gregori, comunica o seguinte: “Costumam os portugueses eleger um imperador pela festa de Pentecostes e assim aconteceu também nesta nau S. Francisco. Com efeito, elegeram um menino para imperador, na vigília de Pentecostes, no meio de grande aparato. Vestiram-no depois muito ricamente e puseram-lhe na cabeça a coroa imperial. Escolheram também fidalgos para seus criados e oficiais às ordens, de modo que o capitão foi nomeado mordomo da sua casa, outro fidalgo foi nomeado copeiro, enfim, cada um com o seu ofício, à disposição do imperador. Até entraram nisto os oficiais da nau, o mestre, o piloto, etc. Depois, no dia de Pentecostes (ou Páscoa do Espírito Santo), trajando todos a primor, fez-se um altar na proa da nau, por ali haver mais espaço, com belos panos e prataria. Levaram, então, o imperador à missa, ao som de música, tambores e festa e ali ficou sentado numa cadeira de veludo com almofadas, de coroa na cabeça e ceptro na mão, cercado pela respectiva corte, ouvindo-se entretanto as salvas de artilharia. Comeram depois os cortesãos do imperador e, por fim, serviram toda a gente ali embarcada, à volta de trezentas pessoas.” [6]
O recurso à entronização de uma criança-imperador, com todas as insígnias imperiais, assim como a partilha da mesma mesa, é uma subversão política, económica e social. Pode alimentar o desejo de um mundo às avessas do actual, mas ao acontecer uma vez por ano, em versão folclórica, pode reforçar o conformismo.
Prefiro, por isso, o carácter imperativo da posição de S. Paulo sobre o Espírito Santo, pois é este mundo que geme e sofre a dores de parto até ao presente, que é preciso transformar: Não vos conformeis com este mundo. [7]
Público, 03.05.2015
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[1] 28. 04. 2015
[2] Act 4, 32-37
[3] 1132-1202
[4] O Google tem diversas entradas sobre toda esta vasta problemática
[5] José Eduardo Franco, Revista Portuguesa de Ciência das Religiões – Ano I, 2002 / n.º 1 – 75-94, Cf Google,
[6] CF Irmandades do Divino Espírito Santo, Google
[7] Rm 8
26 abril 2015
Sem justiça nem misericórdia
Frei Bento Domingues, O. P.
1. Lampedusa é um dos cemitérios onde são afogados os que procuram fugir da guerra, da violência, da fome e da própria morte. Foi por aí que o Papa Francisco começou as suas visitas pastorais e onde fez a homilia mais breve da sua vida: Que vergonha!
Quando se perde a vergonha, perde-se a decência e tornam-se vazios os apelos às convenções internacionais, à justiça, à misericórdia e a qualquer princípio. Dir-se-á que estou a simplificar questões complexas de ordem económica, social, cultural e política que envolvem as migrações. As máfias do tráfego humano dominam os seus percursos. É evidente que deixar afogar os pais e os filhos é muito mais simples.
A Europa não pode esquecer a sua parte de responsabilidade pelo que se passa no Medio Oriente. Os horrores da Palestina, do Iraque, da Síria, da Líbia, do Egipto, etc. obrigam as populações a pagar muito caro a morte no Mediterrâneo.
Antes, porém, de repartir responsabilidades, importa perceber que precisamos de crescer numa solidariedade que permita a todos os povos tornarem-se artífices do seu destino, como já dizia Paulo VI em 1967. Em 1971, lembrou que os mais favorecidos deviam renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros.
Para o Papa Francisco, em 2013, a solidariedade é uma reacção espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens, como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los, de modo a servirem melhor o bem comum. Por isso, a “solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver aos pobres o que lhes corresponde.” Animados pelos seus Pastores, os cristãos são chamados, em todo o lugar e circunstância, a ouvir o clamor dos pobres.
Isto não basta, diz, Bergoglio: “é preciso assegurar a educação, o acesso aos cuidados de saúde e, especialmente, ao trabalho. No trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida.” [1]
2. O Papa anda a ser acusado de não ser um teólogo, mas, apenas, um pastor. É uma tentativa ridícula para dizer o quanto ele os incomoda. Neste Domingo, em que Jesus se chama a si próprio pastor – o bom Pastor - a acusação é o maior dos elogios. Vou, no entanto, deixar aqui, a base teológica das opções de Francisco.
“O pobre ocupa um lugar epistemológico central, isto é, o pobre constitui o lugar a partir do qual se procura pensar o conceito de Deus, de Cristo, da graça, da história, da missão das Igrejas, o sentido da economia, da política, o futuro das sociedades e do ser humano. Partindo da perspectiva do pobre, percebemos até que ponto são excludentes as actuais sociedades e em que medida as religiões e as Igrejas são arrastadas pelos interesses dos poderosos.” [2]
Bergoglio pertence, sem dúvida, à “fecunda geração dos bispos latino-americanos que, a partir da década de sessenta do século passado, mudaram a face do cristianismo desse continente: antepuseram a ortopraxis à ortodoxia, a fidelidade ao povo à obediência ao Vaticano; optaram pela solidariedade com as maiorias populares empobrecidas face às alianças com os poderosos e fizeram seu o princípio-libertação frente ao princípio-resignação que, durante muito tempo, caracterizou o cristianismo da América Latina” [3].
Porque será que tantas pessoas, de tantos países - católicos ou não - se reconhecem, se solidarizam e se sentem interpeladas pelas atitudes e mensagens deste Papa, como se ele fosse o seu guia espiritual?
Talvez por ele não querer mandar em ninguém e denunciar aqueles que querem tornar a Igreja uma instituição de poder, de dominação das consciências, em vez de uma fraternidade de serviço, seja de quem for, mas, sobretudo, daqueles que sobram na sociedade.
3. A grande dificuldade que Jesus encontrou na relação com os seus discípulos pode exprimir-se de forma muito simples: andavam dominados pela ânsia do poder que criava rivalidades entre eles. Jesus foi obrigado a ser muito claro: entre vós quem quiser ser o primeiro coloque-se ao serviço de todos. O próprio Jesus sentiu-se desesperado com a persistência desta atitude, até mesmo depois da ressurreição (Act 1 6-9). Prometeu o Espírito Santo, Espírito de conversão permanente da Igreja, para que viva ao serviço de todos na oração, na fraternidade, na partilha dos bens. Este é o regime da Igreja quando não se atraiçoa a si própria.
A traição maior é a perda da consciência de que todos são Igreja, ao mesmo título. A Igreja é um Nós, de voluntários, sem proprietários.
No Domingo passado, a Ana Vicente entrou, para sempre, na alegria de Deus. Com a Maria João Sande Lemos trouxe para Portugal, em 1997, o Movimento Internacional Nós Somos Igreja. Tudo o que a Ana realizou em prol da condição feminina, dentro e fora da Igreja, exige uma atenção e uma abordagem que não cabem nestas linhas.
Público, 26.04.2015
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[1] E.G. 188 - 192
[2] L Boff, Ecologia: Grito da terra, Grito dos pobres, Ed. Sextante
[3] JJ Tamayo, El País, 07.05.2014
1. Lampedusa é um dos cemitérios onde são afogados os que procuram fugir da guerra, da violência, da fome e da própria morte. Foi por aí que o Papa Francisco começou as suas visitas pastorais e onde fez a homilia mais breve da sua vida: Que vergonha!
Quando se perde a vergonha, perde-se a decência e tornam-se vazios os apelos às convenções internacionais, à justiça, à misericórdia e a qualquer princípio. Dir-se-á que estou a simplificar questões complexas de ordem económica, social, cultural e política que envolvem as migrações. As máfias do tráfego humano dominam os seus percursos. É evidente que deixar afogar os pais e os filhos é muito mais simples.
A Europa não pode esquecer a sua parte de responsabilidade pelo que se passa no Medio Oriente. Os horrores da Palestina, do Iraque, da Síria, da Líbia, do Egipto, etc. obrigam as populações a pagar muito caro a morte no Mediterrâneo.
Antes, porém, de repartir responsabilidades, importa perceber que precisamos de crescer numa solidariedade que permita a todos os povos tornarem-se artífices do seu destino, como já dizia Paulo VI em 1967. Em 1971, lembrou que os mais favorecidos deviam renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros.
Para o Papa Francisco, em 2013, a solidariedade é uma reacção espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens, como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los, de modo a servirem melhor o bem comum. Por isso, a “solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver aos pobres o que lhes corresponde.” Animados pelos seus Pastores, os cristãos são chamados, em todo o lugar e circunstância, a ouvir o clamor dos pobres.
Isto não basta, diz, Bergoglio: “é preciso assegurar a educação, o acesso aos cuidados de saúde e, especialmente, ao trabalho. No trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida.” [1]
2. O Papa anda a ser acusado de não ser um teólogo, mas, apenas, um pastor. É uma tentativa ridícula para dizer o quanto ele os incomoda. Neste Domingo, em que Jesus se chama a si próprio pastor – o bom Pastor - a acusação é o maior dos elogios. Vou, no entanto, deixar aqui, a base teológica das opções de Francisco.
“O pobre ocupa um lugar epistemológico central, isto é, o pobre constitui o lugar a partir do qual se procura pensar o conceito de Deus, de Cristo, da graça, da história, da missão das Igrejas, o sentido da economia, da política, o futuro das sociedades e do ser humano. Partindo da perspectiva do pobre, percebemos até que ponto são excludentes as actuais sociedades e em que medida as religiões e as Igrejas são arrastadas pelos interesses dos poderosos.” [2]
Bergoglio pertence, sem dúvida, à “fecunda geração dos bispos latino-americanos que, a partir da década de sessenta do século passado, mudaram a face do cristianismo desse continente: antepuseram a ortopraxis à ortodoxia, a fidelidade ao povo à obediência ao Vaticano; optaram pela solidariedade com as maiorias populares empobrecidas face às alianças com os poderosos e fizeram seu o princípio-libertação frente ao princípio-resignação que, durante muito tempo, caracterizou o cristianismo da América Latina” [3].
Porque será que tantas pessoas, de tantos países - católicos ou não - se reconhecem, se solidarizam e se sentem interpeladas pelas atitudes e mensagens deste Papa, como se ele fosse o seu guia espiritual?
Talvez por ele não querer mandar em ninguém e denunciar aqueles que querem tornar a Igreja uma instituição de poder, de dominação das consciências, em vez de uma fraternidade de serviço, seja de quem for, mas, sobretudo, daqueles que sobram na sociedade.
3. A grande dificuldade que Jesus encontrou na relação com os seus discípulos pode exprimir-se de forma muito simples: andavam dominados pela ânsia do poder que criava rivalidades entre eles. Jesus foi obrigado a ser muito claro: entre vós quem quiser ser o primeiro coloque-se ao serviço de todos. O próprio Jesus sentiu-se desesperado com a persistência desta atitude, até mesmo depois da ressurreição (Act 1 6-9). Prometeu o Espírito Santo, Espírito de conversão permanente da Igreja, para que viva ao serviço de todos na oração, na fraternidade, na partilha dos bens. Este é o regime da Igreja quando não se atraiçoa a si própria.
A traição maior é a perda da consciência de que todos são Igreja, ao mesmo título. A Igreja é um Nós, de voluntários, sem proprietários.
No Domingo passado, a Ana Vicente entrou, para sempre, na alegria de Deus. Com a Maria João Sande Lemos trouxe para Portugal, em 1997, o Movimento Internacional Nós Somos Igreja. Tudo o que a Ana realizou em prol da condição feminina, dentro e fora da Igreja, exige uma atenção e uma abordagem que não cabem nestas linhas.
Público, 26.04.2015
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[1] E.G. 188 - 192
[2] L Boff, Ecologia: Grito da terra, Grito dos pobres, Ed. Sextante
[3] JJ Tamayo, El País, 07.05.2014
24 abril 2015
Texto de Leonor Xavier para o Jornal de Letras
Ana Vicente
Admiro a integridade do seu trabalho, o seu cuidado pelos outros, o seu envolvimento em causas de cidadania, a sua palavra sobre a condição das mulheres, o seu testemunho no entendimento cristão do mundo. Viveu o amor, a alegria, a beleza, a ternura, a fidelidade. Viveu a doença sem revolta. Ausência sentida, silenciosa presença da sua voz, agora.
Leonor Xavier
22 abril 2015
19 abril 2015
A resurreição não pode ser adiada (2)
Frei Bento Domingues, O. P
1. Creio que a nossa ressurreição depois da morte é tarefa exclusiva do Deus dos vivos. Está bem entregue. É a ressurreição dos mortos-vivos, dos sem rosto, dos mais pobres, dos mais desfavorecidos, dos não rentáveis, dos ejectados do círculo virtuoso do liberalismo económico, que constitui o desafio lançado a todas as pessoas de boa vontade. A peça de teatro de Jean-Pierre Sarrazac, O Fim das Possibilidades – uma Fábula Satânica, encenada por Nuno Carinhas e apresentada nos TNSJ e TNDII [1], mede-se precisamente com o que há de mais arcaico e persistente no livro de Job, confrontado com as características da crise actual, aprofundando, em parábola, o seu conhecimento, a partir de muitos afluentes.
Temos de enfrentar a desesperança, mas sem recorrer à publicidade enganosa: “o futuro está de volta”. José Silva Lopes era considerado um dos maiores economistas do país, mas não confundia a esperança com ilusões. Recebeu o Expresso [2] para uma entrevista, dois meses antes de morrer. Temos, agora, acesso à sua opinião sobre algumas questões incontornáveis da nossa actualidade.
Segundo Silva Lopes, a austeridade está para durar e só por si não resolve nada. Os resultados da austeridade são zero ou mesmo negativos, como ficou demostrado na Grécia. Por outro lado, em Portugal, os donos das grandes empresas distribuem muitos dividendos ou tiram dinheiro às empresas para o colocar no estrangeiro. Constituíram grandes dívidas cá para não pôr o (dinheiro) deles na empresa, ou até para o tirar.
Com o subsídio ao abate de carros, arranjamos empregos para a Alemanha, em vez de os criar em Portugal. Há muitas palavras sobre exportações, mas não correspondem a investimentos novos a elas destinados e não travámos as importações. Atreveu-se a dizer que o governo sabe pouco de economia. Destaca, no entanto, que tivemos duas sortes enormes: a descida do preço do petróleo, que é um alívio extraordinário, assim como a baixa nas taxas de juro.
2. Uma das nossas situações mais calamitosas é a questão demográfica, mesmo tendo em conta os 22% de desempregados da população activa. No entanto, a ministra das Finanças, na sua mensagem aos novos, confia no alcance genesíaco da sua divina palavra: jovens, multipliquem-se! Com o aumento de cortes drásticos no abono de família, é de pasmar este encorajamento. A taxa de fecundidade é de 2 filhos por mulher em idade fértil. Não se vai além dos 83.000 nascimentos por ano. Por cada 100 crianças, existem 133 velhos. Será o aumento da esperança de vida o nosso pior inimigo?
Sem abandonar os problemas caseiros, a Revista do Expresso [3] resolveu levar-nos até às tribulações da governação europeia, que também são nossas. A longa entrevista de Cristina Peres a Antony Beevor, reputado historiador da II Guerra Mundial, goste-se ou não, merece atenção.
Para este observador, estamos numa sociedade pós-democrática. Só agora começamos a ver os efeitos de mudanças que ocorreram nos anos 80 e 90. Foi aí que aconteceu a grande revolução que ainda estamos a tentar compreender. Nessa altura, houve uma combinação de acontecimentos que vai obrigar os historiadores a esperar mais 50 anos para concluírem se todas essas alterações estavam ligadas ou se foram pura coincidência: mudanças geopolíticas da Guerra Fria, mudança económica, colapso do controlo do comércio e a globalização; esta é a maior mudança de todas e teve como efeito directo a diminuição do valor do trabalho, em quase todo o mundo. Não se pode “desinventar” a internet.
Os governos perderam o controlo sobre as suas fronteiras virtuais e económicas. A subida incrível do poder das empresas internacionais teve, muitas vezes, efeitos aterradores. Para A. Beevor, é grotesco ouvir Junker falar de valores europeus quando foi ele que introduziu, em Bruxelas, todas as vantagens fiscais para as multinacionais.
3. A entrevista toca em muitas questões. Para este historiador, o verdadeiro desastre foi o culto do multiculturalismo, uma agressão aos países de acolhimento da imigração. As ameaças de terrorismo vão exigir um controlo permanente da vida dos cidadãos, a morte da democracia.
À medida que o Estado Islâmico avançar, aumentarão as migrações e as tensões sociais. Mesmo assim, a Europa será olhada, cada vez mais, como o salva-vidas do mundo. A democracia, com todos os seus defeitos, é considerada o melhor regime político, mas está em risco, mesmo nos países onde tinha mais raízes. Perdeu-se a autoconfiança nas suas capacidades. Também aqui estamos no fim das possibilidades, acima evocadas.
Os governos, ao ficarem nervosos, passam a ser ligeiramente autoritários e a tomar decisões arriscadas, por falta de contacto com a realidade do dia-a-dia dos seus povos.
É verdade: pessoas, povos e testemunhos de civilizações estão ameaçados. Os cristãos que o digam! A ressurreição e a expansão da democracia – o poder do povo – não podem ser adiadas. São um bem cada vez mais escasso. Importa ressuscitá-las, dentro e fora da Igreja.
Público, 19. 04. 2015
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[1] Teatros Nacionais de S. João no Porto e de Dona Maria II em Lisboa
[2] Cf.11.04.2015
[3] Id.
1. Creio que a nossa ressurreição depois da morte é tarefa exclusiva do Deus dos vivos. Está bem entregue. É a ressurreição dos mortos-vivos, dos sem rosto, dos mais pobres, dos mais desfavorecidos, dos não rentáveis, dos ejectados do círculo virtuoso do liberalismo económico, que constitui o desafio lançado a todas as pessoas de boa vontade. A peça de teatro de Jean-Pierre Sarrazac, O Fim das Possibilidades – uma Fábula Satânica, encenada por Nuno Carinhas e apresentada nos TNSJ e TNDII [1], mede-se precisamente com o que há de mais arcaico e persistente no livro de Job, confrontado com as características da crise actual, aprofundando, em parábola, o seu conhecimento, a partir de muitos afluentes.
Temos de enfrentar a desesperança, mas sem recorrer à publicidade enganosa: “o futuro está de volta”. José Silva Lopes era considerado um dos maiores economistas do país, mas não confundia a esperança com ilusões. Recebeu o Expresso [2] para uma entrevista, dois meses antes de morrer. Temos, agora, acesso à sua opinião sobre algumas questões incontornáveis da nossa actualidade.
Segundo Silva Lopes, a austeridade está para durar e só por si não resolve nada. Os resultados da austeridade são zero ou mesmo negativos, como ficou demostrado na Grécia. Por outro lado, em Portugal, os donos das grandes empresas distribuem muitos dividendos ou tiram dinheiro às empresas para o colocar no estrangeiro. Constituíram grandes dívidas cá para não pôr o (dinheiro) deles na empresa, ou até para o tirar.
Com o subsídio ao abate de carros, arranjamos empregos para a Alemanha, em vez de os criar em Portugal. Há muitas palavras sobre exportações, mas não correspondem a investimentos novos a elas destinados e não travámos as importações. Atreveu-se a dizer que o governo sabe pouco de economia. Destaca, no entanto, que tivemos duas sortes enormes: a descida do preço do petróleo, que é um alívio extraordinário, assim como a baixa nas taxas de juro.
2. Uma das nossas situações mais calamitosas é a questão demográfica, mesmo tendo em conta os 22% de desempregados da população activa. No entanto, a ministra das Finanças, na sua mensagem aos novos, confia no alcance genesíaco da sua divina palavra: jovens, multipliquem-se! Com o aumento de cortes drásticos no abono de família, é de pasmar este encorajamento. A taxa de fecundidade é de 2 filhos por mulher em idade fértil. Não se vai além dos 83.000 nascimentos por ano. Por cada 100 crianças, existem 133 velhos. Será o aumento da esperança de vida o nosso pior inimigo?
Sem abandonar os problemas caseiros, a Revista do Expresso [3] resolveu levar-nos até às tribulações da governação europeia, que também são nossas. A longa entrevista de Cristina Peres a Antony Beevor, reputado historiador da II Guerra Mundial, goste-se ou não, merece atenção.
Para este observador, estamos numa sociedade pós-democrática. Só agora começamos a ver os efeitos de mudanças que ocorreram nos anos 80 e 90. Foi aí que aconteceu a grande revolução que ainda estamos a tentar compreender. Nessa altura, houve uma combinação de acontecimentos que vai obrigar os historiadores a esperar mais 50 anos para concluírem se todas essas alterações estavam ligadas ou se foram pura coincidência: mudanças geopolíticas da Guerra Fria, mudança económica, colapso do controlo do comércio e a globalização; esta é a maior mudança de todas e teve como efeito directo a diminuição do valor do trabalho, em quase todo o mundo. Não se pode “desinventar” a internet.
Os governos perderam o controlo sobre as suas fronteiras virtuais e económicas. A subida incrível do poder das empresas internacionais teve, muitas vezes, efeitos aterradores. Para A. Beevor, é grotesco ouvir Junker falar de valores europeus quando foi ele que introduziu, em Bruxelas, todas as vantagens fiscais para as multinacionais.
3. A entrevista toca em muitas questões. Para este historiador, o verdadeiro desastre foi o culto do multiculturalismo, uma agressão aos países de acolhimento da imigração. As ameaças de terrorismo vão exigir um controlo permanente da vida dos cidadãos, a morte da democracia.
À medida que o Estado Islâmico avançar, aumentarão as migrações e as tensões sociais. Mesmo assim, a Europa será olhada, cada vez mais, como o salva-vidas do mundo. A democracia, com todos os seus defeitos, é considerada o melhor regime político, mas está em risco, mesmo nos países onde tinha mais raízes. Perdeu-se a autoconfiança nas suas capacidades. Também aqui estamos no fim das possibilidades, acima evocadas.
Os governos, ao ficarem nervosos, passam a ser ligeiramente autoritários e a tomar decisões arriscadas, por falta de contacto com a realidade do dia-a-dia dos seus povos.
É verdade: pessoas, povos e testemunhos de civilizações estão ameaçados. Os cristãos que o digam! A ressurreição e a expansão da democracia – o poder do povo – não podem ser adiadas. São um bem cada vez mais escasso. Importa ressuscitá-las, dentro e fora da Igreja.
Público, 19. 04. 2015
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[1] Teatros Nacionais de S. João no Porto e de Dona Maria II em Lisboa
[2] Cf.11.04.2015
[3] Id.
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