14 junho 2015

Novos olhares sobre o casamento

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Quem decide casar, seja pelo civil seja pela Igreja, é obrigado a marcar uma data. É por isso que existe um antes de casados e um depois de casados. Banalidade das banalidades. As instituições têm normas. Mas esta evidência jurídica não deve esconder as misteriosas dimensões humanas e cristãs de laços que se desenvolvem no tempo e que nenhum tempo explica.

O casamento é um processo infinitamente mais complexo do que o processo civil e religioso. Para não morrer, tem de ir crescendo sempre nos noivos e no casal. Aquilo a que normalmente se chama o casamento é apenas a Festa de uma realidade que só pode ser bem conjugada no gerúndio. As pessoas que se acolhem como casal serão lúcidas se perceberem que ganham em ir casando cada vez mais, nas diferentes etapas da vida, preparando-se, nos dias calmos, para o imprevisível.

Se for verdade, como diz A. Bessa Luís, que as famílias são férteis em tensões e desajustes e que, sem conflitos, a família não subsistiria, então o casal, para ter futuro, precisa da conversão permanente à escuta recíproca, ao diálogo e ao perdão, sabendo que seremos sempre um mistério para nós próprios e para os outros. A ambição da transparência total é o engano de almas lisas. 

Era ainda criança, mas lembro-me, como se fosse hoje, das conversas que provocou na minha aldeia uma pregação do padre Domingos, que depois foi Bispo da diocese da Guarda. Pregava contando histórias exemplares e parábolas semeadas de aforismos que tinham tanto de rústico como de prático. Num dos sermões, conhecendo a realidade local, resolveu falar, com muitos pormenores hilariantes, sobre três modelos de gestão familiar: a do varão - manda ele e ela não; o da varunca - manda ela e ele nunca; o da varela – manda ele e ela!

A questão mais difícil não é saber quem manda, mas o que comanda, em profundidade, as reacções de um casal que sonhou com um paraíso.

2. Nos debates em torno do Sínodo dos Bispos sobre a Família, alguns parecem obcecados pela indissolubilidade e pela impossibilidade de uma segunda celebração cristã do casamento. Nota-se pouca atenção aos seus modelos culturais e religiosos, no passado e no presente. Mesmo no âmbito da tradição cristã, podem observar-se diversos paradigmas.

 Nem o Antigo nem o Novo Testamento impõem uma estrutura determinada e fixa. A partir da experiência cristã, em confronto com outras culturas, numa época de globalização, é normal que se pense, dentro do próprio cristianismo, em instituições mais aptas para a família e para o casal europeu, latino-americano, africano e asiático.

Embora de forma muito esquemática e rápida, importa passar os olhos pelos traços essenciais da sua história como convite para leituras especializadas[1].

 Nos séculos I-III, o casamento era uma questão terrena que se procurava viver em espírito cristão: casava-se no “Senhor”, sem cerimónias próprias. Os cristãos casavam-se como os não cristãos: uns, segundo os ditames do Direito Romano, outros conforme os costumes locais (o direito consuetudinário). O grande cuidado a ter era com os ritos e sacrifícios pagãos que estivessem em contradição com a mensagem cristã.

Nos séculos IV-XI foi-se elaborando uma liturgia cristã, em duas fases: os esponsais e o casamento. As formas não eram obrigatórias. Obrigatória era a Bênção. Entretanto, foram-se introduzindo as formas civis no direito eclesiástico.

Pelo ano mil, todas as questões relativas ao casamento passaram para a jurisdição eclesiástica. Em suma: antes do ano mil, os cristãos casam-se de modos diversos: uns, segundo um rito cristão (direito eclesiástico); outros, segundo o direito civil; outros, segundo os costumes locais; outros ainda, clandestinamente.

Nos séculos XI-XV, produziu-se uma teologização e uma eclesiologização do casamento. O debate teológico sobre a sua essência agudizou-se. Toda a jurisdição do casamento passou para a Igreja, que ficou a regulamentar até os seus efeitos civis. Acabou assim por subsistir apenas o casamento religioso e o clandestino.

No Concílio de Trento (1545-1563), o casamento tornou-se numa instituição da fé. Todas as causas são transferidas para os tribunais eclesiásticos. É invalidado o casamento clandestino, dada a dificuldade dos tribunais em determinar qual era a esposa legítima de determinado varão comprometido, ao mesmo tempo, com várias mulheres.

3. F. Xavier de la Torre, da U. Pontifícia de Comillas, recorda que essa razoável proibição não pode fazer esquecer que, durante 15 séculos, a cerimónia não era uma exigência e, em termos teológicos, não tem de lhe estar associada. Isto permite-lhe destacar o valor luminoso do casamento e entender a crise de uma certa institucionalização. A trilogia sempre unida de casal, casamento e família, fragmentou-se. O adeus à Família é, no entanto, precipitado. De modos diversos, todos a procuram.

Jesus de Nazaré rejeita apenas a família como um mundo fechado, um egoísmo mais ou menos alargado, esquecida do nosso parentesco universal.

Público, 14.06.2015

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[1] Gabino Uríbarri, SJ (ed),La família a la luz de la misericordia, Sal Terrae, 2015, Santander.

07 junho 2015

Espírito criador

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Há pessoas que fazem profissão de optimismo. Olham sempre, ou fingem olhar, para o “lado positivo” de tudo e, perante qualquer desgraça, repetem: ainda podia ter sido muito pior! São capazes de recuar até à pedra lascada para mostrar que agora estamos no melhor dos mundos. Se alguém, mais sensível à questão social, por exemplo, observa que 20% da população detém 80% dos recursos mundiais, a resposta já está pronta: as desigualdades são a principal fonte de progresso para todos.

Quem não quer ser acusado de negativista refugia-se no prestigiado casamento do pessimismo da inteligência com o optimismo da vontade. Por não apreciar esses tranquilizantes, o filósofo espanhol, Xavier Zubiri, apressa-se a declarar que durante toda a sua vida só conheceu a emoção do puro problematismo.

Um dos alimentos principais da filosofia são as interrogações. Mas a problematização contínua é o luxo de quem não tem que decidir. As decisões não podem esperar ver todas as dúvidas resolvidas. A concepção aristotélica da prudência – virtude da decisão bem ponderada – recomenda-se tanto aos “tontos com iniciativa”, como aos eternos hesitantes.

Não tenho que venerar nenhuma dessas atitudes. A todas falta, seja em que domínio for, a alma da vida: o inesperado, o imprevisível da criatividade, a fuga à rotina, a irrupção do novo.

É precisamente por isso que gosto do hino litúrgico de J. A. Mourão, inspirado e enxertado na música de A. Gouzes. Implora o Espírito do Pentecostes, a grande metáfora da realidade profunda do mundo e da Igreja em movimento: Sopro criador vem distribuir a fala! Vem força de partir, vem rio de fogo largo!

Esse é o refrão. O hino tem cinco estrofes. Deixo aqui duas apenas:

Tu que revelas a presença do Deus vivo
no coração do mundo e da vida
Tu que pulsas em nós como fermento
semente de fogo, terra orientada.

Tu és a nossa vontade de viver
intensamente a vida até ao fim
o presente e o futuro da nossa esperança
o que anima a festa no coração do homem.

2. Quando acolhido no íntimo do quotidiano, é o Espírito de Cristo que nos volta os olhos para o ritmo invisível dos trabalhos do mundo, seja na investigação das ciências, nas surpreendentes aproximações entre pessoas e povos, na criação de beleza em todas as artes, de todos os tempos, e nos alerta para o desconcerto do mundo. 

Herberto Helder [1], num dos seus poemas místicos, depois de sugerir a mão que refaz o universo, na sua unidade rítmica, cada coisa e cada animal com a sua aura, descansa:

Sento-me a conversar com Deus; palavra, música, martelo
uma equação: conversa de ida e volta
(…)
Deus não se debruça na canção; destroça
a cadência.

Não tem nada a ver com a recomendação piedosa de dar lugar a Deus na nossa vida. Essa recomendação esquece que é, na realidade do mundo, que se vive a sua transcendência absoluta. Para o Mestre Eckhart, um Deus que precisa de um lugar é um ídolo: por isso é que peço a Deus que me livre de Deus. E sublinhava: Deus só pode estar num lugar sem lugar. Nós, sim! Precisamos de acordar, seja onde for, para a divindade em que vivemos, nos movemos e existimos [2].

Os grandes criadores de paradoxos, os místicos, religiosos ou não, impedem a linguagem religiosa de perder o sal e adormecer nas definições dogmáticas. O terminal da viagem da fé teologal não são os credos, o culto, os sacramentos ou o direito canónico, embora sejam sinalizações importantes nos labirintos do percurso das Igrejas cristãs. Mas S. Paulo notou que todos os carismas e a própria fé teologal se desfaz na luz infinita do Amor que nos acolhe no termo da viagem.     

3. No Domingo passado, foi celebrada na Liturgia católica a Santíssima Trindade. Com música de Langeac, foi cantado, na Missa em que participei, na capela do Colégio de S. José, um hino muito belo de Santa Catarina de Sena, que transcrevo:

Ó Deus, Trindade Santa, ó Luz mais radiosa que toda a luz, fogo mais ardente que todo o fogo, Tu és um oceano, a paz. Tu és um mar sem fundo, mais eu mergulho, mais eu me afundo, mais eu Te encontro, mais eu Te procuro ainda. Sede que Tu saciaste no deserto um dia, para sempre ficar com sede de Ti.

É no dinamismo da simbólica trinitária, na procura criadora da máxima unidade na máxima diversidade, que a Natureza e o percurso da História Humana se podem salvar. Tudo se perde quando, em nome da unidade, se sacrifica a pluralidade e quando, em nome da diversidade, se esquece a comunhão universal. Como diz o citado poema de H. Helder:

e depois ninguém fala, e cada coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.

Este poeta tem mesmo a “temperatura de Deus”.

7 de Junho de 2015
    
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[1] Herberto Helder, Ou o poema contínuo, Assírio e Alvim, 2001
[2] Act 17, 24-29

     

31 maio 2015

Assassinado no altar

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Óscar Romero, arcebispo de San Salvador, nasceu a 15 de Agosto de 1917 e foi assassinado, a 24 de Março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia. Antes de ser morto, ainda teve tempo de explicar, durante a homilia, que, apesar das ameaças de morte que lhe eram feitas, estava disposto a continuar a lutar contra a violência e a favor dos mais desprotegidos de El Salvador: Outros continuarão, com mais sabedoria e santidade, os trabalhos da Igreja e do meu país.

G. Gutiérrez, considerado o pai da Teologia da Libertação, sublinha: Romero não buscou o martírio, encontrou-o no caminho da sua fidelidade a Jesus Cristo, na firme atitude de pastor que não se calou perante as injustiças e humilhações quotidianas que vitimavam o seu povo [1].

Em Fevereiro de 2015, o papa Francisco venceu as manobras dos cardeais adversários de Óscar Romero. Reconhecendo-o como mártir, aprovou o decreto da sua beatificação, celebrada solenemente, no passado dia 23 de Maio, na capital de El Salvador e evocada no Convento de S. Domingos de Lisboa.

Para entender o desígnio deste assassinato e o sentido desta beatificação é preciso ter em conta a grande turbulência política e eclesial, caracterizada por um longo período de extrema violência, na América Central e no conjunto da América Latina. Os anos compreendidos entre 1977 e 1987 foram especialmente duros.

Nesse decénio crítico, muitos desses Estados tiveram regimes repressivos que se autojustificavam pela luta contra as guerrilhas revolucionárias ou comunistas. Os Estados Unidos apoiavam as lutas contra-revolucionárias; Cuba e os países de Leste sustentavam, com frequência, as guerrilhas.

Recordemos algumas datas bem conhecidas: a Argentina, depois do regresso e da morte de Péron, viveu numa ditadura militar de 1973 a 1982; o Brasil, de 1964 a 1985; o Chile encontrava-se, desde 1973 até 1989, sob a ditadura de Pinochet; o Paraguai foi governado pela ditadura militar de 1954 a 1989; o Uruguai conheceu uma feroz repressão entre 1973 e 1985; o Perú foi atingido pela guerrilha e pelo tráfico de droga; a Colômbia conheceu, a partir de 1947, uma dramática guerra civil e depois foi atravessada por fortes violências de vários grupos revolucionários ou de cartéis de narcotraficantes [2].

2. Perante os acontecimentos e a repressão, a análise dessas situações levou alguns movimentos cristãos à conclusão de que o caminho reformista era insuficiente. É neste contexto que é preciso entender a progressiva radicalização de O. Romero. O arcebispo Rivera, seu sucessor, observa: não estou de acordo com aqueles que apresentam Romero como um homem de batina que passou à revolução. O que aconteceu foi simplesmente isto: as massas populares, exacerbadas por tantas injustiças e repressões, desceram às ruas, praticando a desobediência civil e política. A Segurança Pública respondeu com uma repressão ainda mais violenta e, em seu auxílio, ocorreram também os esquadrões da morte.

O episcopado salvadorenho estava dividido. João Paulo II aconselhava o arcebispo a manter uma posição equilibrada, pois não se podia pensar apenas em defender a justiça, mas também em evitar que uma vitória revolucionária colocasse a Igreja em dificuldade.

A defesa do equilíbrio é também a preocupação do Arcebispo, mas não coincidia com o calculismo do Papa. A situação estava cada vez mais polarizada. A sua opção pelos pobres e pela defesa dos direitos humanos não lhe permitiam partilhar as posições revolucionárias, mas por outro, estava cada vez mais distante do poder económico e político. A violência e a morte contra as populações exerciam-se de forma preferencial sobre os padres.

O alvo principal foi atingido quando declarava na catedral: Assim como Cristo florescerá numa Páscoa de ressurreição imperecível, é necessário acompanhá-lo numa Quaresma, numa semana santa que é cruz, sacrifício, martírio. E, sem o procurar, foi martirizado a 24 de Março de 1980.

3. Diz-se que, entre os adversários da canonização de D. Óscar, estavam dois influentes cardeais colombianos: Alfonso López Trujillo, que já morreu, e Darío Castrillón Hoyos, aposentado. Ambos eram conhecidos pelas suas posições ultra-conservadoras e ocupavam, na década de 1990, importantes cargos na Cúria Romana. A arrogância desses cargos e posições não lhes garantiu grande clarividência.

A homilia de Romero, a 21 de Janeiro de 1979, no funeral do padre Octávio Ortiz e de mais quatro jovens assassinados pelas forças de segurança salvadorenhas, numa casa de retiros, é mais realista: Este mundo passa; somente permanece a alegria de se ter vivido para implantar, nele, o reino de Deus. Passarão pela boca do mundo todos os boatos, todos os triunfos, os capitalismos egoístas, os falsos êxitos da vida. Tudo isso passa. O que não passa é o amor, a coragem de reverter o dinheiro, os bens e a profissão ao serviço dos outros, a felicidade de compartilhar e de sentir todos os seres humanos como irmãos. Ao entardecer da vida, julgar-te-ão pelo amor.


Público, 31. 05. 2015

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[1] Cf. O excelente trabalho de António Marujo em Óscar Romero: 35 anos depois da morte.

[2] Cf. Andrea Riccardi, O Século do Martírio, Quetzal, Lisboa, 2002, 395-401; Victor Codina, SJ, El Espírito del Señor actúa desde abajo, cap.I,  Sal Terrae, 2015; Roberto Morozzo della Rocca, Oscar Romero, Ed. A.O, Braga, 2015

24 maio 2015

Não desistir do Espírito do Pentecostes

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Ao começar a crónica deste Domingo, escrevi: a festa de Pentecostes não celebra o que já foi, mas o que falta fazer. De repente, deparei com a notícia: a morte de cerca de uma centena de passageiros de um navio carregado de migrantes do Bangladesh e da Birmânia. Este navio andou quase dois meses à deriva no alto mar, depois da guarda costeira da Malásia e da Tailândia o ter impedido de aportar a estes países. A luta desesperada pelos últimos mantimentos, a bordo, provocou a morte de uma centena dos passageiros. Já em segurança na Indonésia, os sobreviventes contaram a crueldade dessas mortes: esfaqueados, sufocados, atirados ao mar.

A Europa, depois de ver o Mediterrâneo transformado num imenso cemitério, resolveu discutir a atribuição, por cada país, dos migrantes que batem à sua porta. Veremos, como diz o cego.

Apesar das apregoadas virtudes da modernidade e da laicidade, a fraternidade universal foi ficando pelo caminho. O pensamento liberto do obscurantismo da religião não construiu a realidade, segundo o bem do ser humano, isto é, de todos os seres humanos. A grande maioria não passa de simples meio e instrumento de uma minoria privilegiada.

Permito-me revisitar a Bíblia para recuperar algumas perspectivas para o presente e o futuro do ser humano, como animal sagrado e político. 

A Bíblia – a biblioteca fundamental hebraica e cristã – nem sempre é muito recomendável. Nessa biblioteca há passagens criminosas e escandalosamente blasfemas que não ficam nada bem numa literatura divinamente inspirada. Hoje, depois de alguns estudos publicados nos Cadernos ISTA por Frei Francolino Gonçalves, professor da Escola Bíblica de Jerusalém, há mais de 40 anos e consultor da Pontifícia Comissão Bíblica, cheguei à conclusão – que só me responsabiliza a mim - que as Sagradas Escrituras estavam muito bem inspiradas acerca do bem a fazer e do mal a evitar. A literatura sapiencial, na sua mítica e simbologia, é admiravelmente universalista, mas a literatura nacionalista, a par de muitas maravilhas, mostra como os seres humanos podem cair na aberração de fazer de Deus um criminoso que incita à violência, isto é, o que nenhum Deus pode ser, fazer ou incitar a fazer. É apenas um ídolo do mal. Voltou nos nossos dias sob diversas formas e grupos.

2. A narrativa da criação – a não confundir com as representações das ciências – começa em beleza: No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas [1]. O poema continua ao ritmo da natureza. Por fim, Deus disse: façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. O salmista, espantado, escreveu: o que é o Homem para te lembrares dele? Quase o fizeste um ser divino [2].

Esta maravilhosa criatura não está formatada nem para o bem nem para o mal. Pode fazer o melhor e o pior. Perante o crime de Caim, ouvimos a primeira pergunta de Deus: Que fizeste do teu irmão? Quem faz esta pergunta rompe o ciclo da violência. A guerra não é a boa lei da História. No Levítico nasce a regra de ouro: amarás o teu próximo como a ti mesmo, na sua diferença.

Tornou-se um hábito contrapor o Pentecostes cristão à Torre de Babel. Não nos precipitemos. O conto da construção dessa espantosa torre tem muitas lições ou, pelo menos, pode ter várias leituras. Por um lado, a eficácia e os benefícios de uma só língua, de uma só cultura e de uma só técnica. A imagem do sucesso sem obstáculos. A escalada do céu. O sonho de todas as pessoas, de todos os povos. Por outro, a complicação de várias línguas, de várias culturas, ter de traduzir e aprender uns com os outros. Diante destas dificuldades, quem não sonha ser um poliglota universal?

Deus aparece neste conto como ameaçado. De facto, o que Deus impede é a repetição do mesmo, a clonagem cultural e linguística. Defende a pluralidade de línguas e culturas. Os seres humanos só podem viver bem em relação uns com os outros: são todos mestres e discípulos, cooperantes.

A invenção do Espírito Santo, narrada na segunda obra de Lucas, ainda é mais divertida. O Espírito fez descer sobre cada um dos apóstolos línguas de fogo e eles começaram a falar outras línguas que nem conheciam. A multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua e eram de muitos povos.

3. No começo dos Actos dos Apóstolos, Jesus Cristo manifestou-se um bocado desesperado. Tinha passado a vida a tentar convencer os Doze de que foram chamados, não para ocupar lugares de chefia, mas para dar a vida por um mundo novo, no qual as pessoas são apreciadas pelo serviço que prestam. Ele próprio veio para servir, não para dominar. No entanto, a única pergunta que lhe fazem depois da ressurreição é miserável: Senhor, será agora que vais restaurar a realeza em Israel? O Mestre é muito firme: só vos pertence ser minhas testemunhas até aos confins da Terra e da única coisa que precisais é do Espírito de Deus. Foi ele que animou a minha vida.

Não celebramos a festa de Pentecostes por nostalgia. A Terra nunca foi um paraíso. Precisamos do espírito do Pentecostes para que nenhuma geração desista de um mundo onde não haja indigentes, mas irmãos.

Público, 24.05.2015

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[1] Gn 1, 1-2; 26-27
[2] Sl 8, 4-7

17 maio 2015

Não é preciso ir à “Terra Santa”

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Quem se sentir desafiado por Jesus Cristo não deve ignorar que, para além da sua experiência vital e do conhecimento afectivo, tem de recorrer também aos estudos que ajudam a ler os escritos do Novo Testamento (NT) e os ziguezagues da sua influência, ao longo dos séculos. A não ser que se aposte na preguiça piedosa: quanta mais ignorância, mais devoção.

Os resultados da investigação histórica e os frutos da hermenêutica das configurações simbólicas, legadas pelas primeiras gerações cristãs, não devem servir apenas para compor as estantes das bibliotecas das faculdades de teologia.

O seu estudo livre e rigoroso será sempre o melhor remédio contra a manipulação de algumas censuras eclesiásticas, feita em nome da salvaguarda da fé. Só é possível acreditar, de modo decente, interpretando e dialogando com outras interpretações. Como já disse nestas crónicas, a defesa da tradição cristã não se faz com os métodos das indústrias de conserva. É vitalizada no confronto e no diálogo com os desafios de cada época, na diversidade dos povos, a partir dos guetos sociais e culturais criados pelos interesses financeiros e económicos da nova desordem do mundo.  

Segundo o exegeta Xabier Pikaza, neste momento, a preocupação desses estudos deslocou-se da problemática do Jesus da história e do Cristo da fé para a investigação das origens do cristianismo: como surgiu a Igreja e qual o seu sentido? Não está centrada apenas no Nazareno, ocupa-se cuidadosamente dos seus primeiros seguidores. Aqueles que nos deram a conhecer o Mestre também precisam de ser conhecidos.

S. Lucas escreveu a sua obra entre os anos 90 e 100 d.C.. De origem pagã, mas talvez prosélito judeu, conhecia a Bíblia Grega, a dos LXX. Foi o primeiro autor cristão a apresentar a história de Jesus e do seu movimento, segundo os modelos judeu e helenista [1], sendo, também, o primeiro a interessar-se pela identidade social da Igreja e pelo lugar que ela ocupa na história, como movimento messiânico. Não tenta mostrar, em primeiro lugar, como é que as coisas se passaram. Interessa-lhe fazer entender a perspectiva da missão de Paulo que desembocou em Roma, capital do Império.

Sobre este fundo, destaca os dois polos da sua obra, o judaico e o helenista ou romano. O judaico mantem-se como raíz, pois constitui a origem e o destino israelita de Jesus e o princípio da Igreja em Jerusalém [2].

O polo romano constitui o enquadramento final e definitivo da Igreja que chegou a Roma e onde Paulo estava preso, mas anunciava abertamente o Evangelho. Esta perspectiva é muito sugestiva, mas exclui as Igrejas da Síria e da Ásia Menor [3].

No desenho deste cenário, Lucas idealiza e destaca as origens da Igreja em torno de Pedro e dos Doze, quando de facto, como se sabe desde o princípio, a origem real das igrejas ou comunidades foi muito mais ampla e plural.

Se as outras grandes “testemunhas” do NT (Marcos e Mateus, Paulo e João…) não precisaram de escrever uma história da Igreja foi porque, do seu ponto de vista, ela já estava incluída nas narrativas dos seus Evangelhos.

2. Xabier Pikaza chama a atenção para uma obra original de “desconstrução” do segundo livro de Lucas, os Actos dos Apóstolos (Act), feita por um destacado investigador espanhol [4] que se tornou uma autoridade na interpretação das origens cristãs.

Esta desconstrução pôs em causa a visão mais clara do nascimento e expansão da Igreja que tínhamos. Começa-se a saber, agora, que essa obra não conta a história da Igreja primitiva. É uma interpretação muito particular.  Lucas construiu uma tese. Desconstruindo essa interpretação, recuperam-se possíveis materiais mais antigos e valorizam-se outras fontes do NT (Paulo, tradição evangélica, etc.). Talvez se torne possível reconstruir melhor a história das igrejas do princípio e de forma mais ampla.

Neste livro, há personagens importantes que dominam, por algum tempo, a trama deste “romance” (os Doze e Pedro, os helenistas e Estêvão, Filipe, Tiago…), mas acabam todos por ficar em segundo plano. Actuam por um momento e, cumprida a sua missão, desaparecem. Quem garante a unidade e a continuidade da Igreja é a acção do Espírito Santo que a vai conduzindo de Jerusalém a Roma. O grande protagonista desta obra é o Espírito Santo.

3. Cumpriu-se a promessa: Recebereis a Força do Espírito Santo, que virá sobre vós. Sereis, então, minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra. Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem o ocultou aos seus olhos [5].

Cumpriu-se a promessa, em parte. A promessa não era colocar os discípulos pasmados a olhar para o céu: Jesus agora está com o Deus que está com todos em todo o mundo. Não adianta ir procurá-lo à Terra Santa, terra da violência sacralizada.

O segredo da simbólica da Ascensão é o Pentecostes, uma Igreja de saída que o Papa Francisco veio acordar. Convite para o próximo Domingo.

Público, 17.05.2014

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1  Act 1 1-4
2  Act 1-15
3  Act 28
4  Senén Vidal, Hechos de los apóstoles y orígenes cristianos, Sal Terrae, Santander 2015.
5  Act 1, 8-9

10 maio 2015

Um prefeito nem sempre é perfeito

Frei Bento Domingues, O. P

1. A vontade de fixar certas interpretações, declarações, doutrinas e instituições religiosas como sendo absolutas, irreformáveis e definitivas - marcadas por tradições, contextos históricos e culturais muito circunscritos – roça a idolatria. Substitui o Absoluto transcendente pelo que há de mais relativo e banal, numa linguagem inacessível. Os textos do Novo Testamento (NT) mostram um constante empenhamento de Jesus em dessacralizar tempos, lugares e instituições divinizadas, pois tornavam o acesso a Deus privilégio de alguns e a condenação de quase todos.

O próprio Jesus, ao andar em más companhias, ao comer com os classificados como pecadores, não só se desautorizava como homem de Deus, como se expunha a ser considerado um agente do diabo:[1] Ele não expulsa demónios, a não ser por Beelezebu, príncipe dos demónios.

Jesus não era da tribo sacerdotal, não andou em nenhuma escola rabínica, não era um teólogo profissional e, no entanto, pôs tudo em causa. [2]

Segundo os textos disponíveis, Jesus foi educado na religião da sua família, mas levou muito tempo encontrar o seu próprio caminho e, quando o encontrou, os antigos companheiros não o entenderam, a família julgava que ele estava doido [3] e os Doze que escolheu nunca conseguiram compreender o seu desígnio. [4]

Como não deixou nada escrito, e muito menos um catecismo bem arrumado, surgiram várias teologias cristãs. Os escritos do NT são irredutíveis a uma só teologia ou a uma só cristologia. Ler esses textos de estilos, épocas, lugares e propósitos tão diferentes, pelo olhar formatado de um Catecismo, é uma cegueira provocada pelo instinto de segurança e necessidade de controlar. São textos simbólicos, alusivos ao mistério inabarcável de Deus, que só com recurso à teologia negativa, apofática, é possível não cair na idolatria teológica. De Deus, tanto mais sabemos quanto mais nos dermos conta que ele excede todo o conhecimento. Nunca será prisioneiro dos nossos conceitos.

2. A falta de profissionalismo teológico está a agitar o Vaticano. Numa entrevista concedida ao jornal francês La Croix, o próprio Cardeal Müller – Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé (CDF), ex-Santo Ofício, Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e Presidente da Comissão Teológica Internacional - declarou algo de muito inédito: “A chegada à Cátedra de Pedro de um teólogo como Bento XVI foi, provavelmente, uma excepção. João XXIII não era um teólogo de ofício. O Papa Francisco também é mais pastor e a Congregação para a Doutrina da Fé, tem uma missão de estruturação teológica do Pontificado”. Assim, pois, segundo a declaração deste cardeal, a CDF deve “estruturar teologicamente” o Pontificado do Papa Francisco. É provável que este seja um dos motivos pelos quais o Prefeito intervém tão frequentemente em público, algo sem precedentes na história.

Até agora, ninguém havia teorizado, a partir do próprio centro da Cúria Romana, uma exigência de normalização do pontificado, como se depreende das palavras citadas por Müller. Acredito que aqui se deva constatar, com preocupação, que esse parece ser, até agora, o mal-entendido mais substancial dos pontificados de João XXIII e de Francisco, curiosamente unificados pela característica de terem “pouca estrutura teológica”.

3. Estamos numa situação delicada. Como vimos, Jesus não tinha nada de teólogo profissional, a sua profissão era outra. S. Francisco, ainda menos. João XXIII, convocando o Concílio e neutralizando a vigilância do cardeal Octaviano, do Santo Ofício, deixou o debate teológico à solta, decisão que nunca mais lhe será perdoada pelos vigilantes da ortodoxia. O pós-Concílio foi de uma grande efervescência e criatividade teológicas, tanto na Europa como na América latina, na África e na Ásia. Com o cardeal Ratzinger procurou-se a normalização pela condenação de tudo que não reproduzisse a teologia deste Prefeito da CDF.

Chegou o Papa Francisco e soltou, de novo, a palavra na Igreja e manifestou, numa carta à Faculdade de Teologia de Buenos Aires, a vontade de que os teólogos profissionais cheirassem a povo, não ficassem isolados numa redoma. Há atrevimentos que se pagam caro.
A ambição do poder de dominar – também há poder de servir – é presunçosa e ridícula. Quem se julga o centro da Igreja, perde-se do Espírito de Cristo e pensa que só ele tem a chave da salvação.

Público, 10.05.2015

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[1] Mt 12, 1-37:Mc 2-3
[2] Mc  6, 1-5
[3] Mc 3,20-21.31-35
[4] Mc 10,35-45