27 novembro 2016

UMA NOVA REVOLUÇÃO CULTURAL

         1. O Ano litúrgico terminou com a carta apostólica Misericordia et Misera[1], do Papa Francisco, que marca o encerramento do Ano Jubilar da Misericórdia, mas não da misericórdia. Aproveitou para afirmar: “Quero reiterar, com todas as minhas forças, que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente, mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. (…) Para que não exista qualquer obstáculo entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora, a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver todas as pessoas que tenham incorrido no pecado do aborto."
É normal que os grandes meios de comunicação tenham realçado esta coroa da misericórdia. Mas Bergoglio procura integrá-la numa perspectiva mais envolvente, destacando acontecimentos, mensagens e figuras que são a própria respiração dos Evangelhos. Se ficasse por aí, continuávamos a olhar para a beleza de há dois mil anos: uma galeria da misericórdia do passado. Se ficássemos, apenas, com as expressões devocionais e sacramentais do Ano Jubilar não saíamos dos espaços e dos ritmos do culto católico. A misericórdia não se exerce apenas, nem sobretudo nas missas, em resposta à carinhosa exortação saudai-vos na paz de Cristo!
2. Nesta carta, Bergoglio assume todas as dimensões do que tem sido a sua intervenção desde que foi eleito Papa, a começar pelo salto que é preciso dar desde a prática de Jesus até aos nossos dias: ”Ainda hoje, populações inteiras padecem de fome e sede. Imagens de crianças que não têm nada para se alimentar percorrem o mundo. Multidões de pessoas continuam a emigrar à procura de alimento, trabalho, casa e paz. As doenças são um permanente motivo de dor e aflição que requerem ajuda, consolação e apoio. Muitas vezes, os estabelecimentos prisionais, além da pena de privação da liberdade, devido às suas condições, são fonte de desumanidade. O analfabetismo ainda é enorme. Impede as crianças de se formarem, expondo-as a novas formas de escravidão. A cultura do individualismo exacerbado, sobretudo no Ocidente, leva a perder o sentido de solidariedade e responsabilidade para com os outros. O próprio Deus continua a ser hoje um desconhecido para muitos; isto constitui a maior pobreza e o maior obstáculo para o reconhecimento da dignidade inviolável da vida humana. Por isso, as obras de misericórdia constituem um evidente valor social. Impelem a arregaçar as mangas para restituir a dignidade a milhões de pessoas que são nossos irmãos e irmãs».
Somos, por isso, chamados a fazer crescer uma cultura de misericórdia, uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos. As obras de misericórdia são «artesanais»: nenhuma delas é cópia da outra, são a possibilidade de criar uma verdadeira revolução cultural.
Pelos vistos, o Papa continua fiel às exigências dos seus três tês: terra, trabalho e tecto. São as condições mínimas de respeito pela dignidade das pessoas, mas não só. A sua criatividade simbólica encontra sempre gestos realistas para abrir o futuro. Como ele próprio diz, à luz do «Jubileu das Pessoas Excluídas Socialmente», celebrado quando já se iam fechando as Portas da Misericórdia em todas as catedrais e santuários do mundo, intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário, se deve celebrar, em toda a Igreja, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres.
3. Tudo isso e muito mais, que não cabe nesta crónica, foi escrito na Solenidade de um Rei, coroado de espinhos e cruxificado, imagem do mundo, no Ano do Senhor de 2016, quarto do seu pontificado.
O profeta Isaías, a grande figura profética do Advento, lançou um novo desafio ao Papa Francisco: convocar a Igreja, as Igrejas, as outras religiões, os sem religião, os agnósticos e os ateus para acabar com as indústrias da guerra. Diz o profeta: converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se há-de preparar para a guerra[2].
Nada disto acontecerá só porque se sonhou, nem por qualquer decreto das Nações Unidas. Mas quando se deixar de sonhar, quando se deixar de responsabilizar as Nações Unidas e cada um dos países do mundo, quando se deixar de apelar à conversão das pessoas, de cada um de nós, por se julgar que tudo isto são utopias, é porque já desistimos da humanidade, dos seus pequenos e grandes passos e, os cristãos ter-se-ão perdido de Cristo, nossa Paz, esperança do mundo.
 Começou hoje o Advento, recomeçaram os trabalhos do futuro.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 27.11.2016


[1] As citações e as paráfrases deste documento são da minha escolha e responsabilidade
[2] Is 2, 1-5 

20 novembro 2016

NÃO INVOCAR O NOME DE DEUS EM VÃO

            1. Apesar do Papa Francisco e das suas intervenções carregadas de humanidade divina, o fundamentalismo religioso, mesmo no seio da Igreja católica, não desarma. Panfletos como o da folha dominical de uma paróquia da Califórnia - votar no Partido Democrata é pecado mortal; declarações como a do padre italiano à emissora católica Rádio Maria- os sismos, em Itália, são um castigo divino pelas uniões civis dos homossexuais, ou as expressas à revista Família Cristã pela responsável da Associação de Psicólogos Católicos - um filho homossexual é como ter um filho toxicodependente, são afirmações que não pecam por muito inteligentes. Infelizmente há outras mais tóxicas. Cresce um mal-estar muito vasto não só em relação ao tom e ao conteúdo fundamentalista das homilias dominicais, como acerca das desastradas atitudes no acolhimento aos pedidos de baptismo e de casamento. Em certos casos, em vez de constituírem uma oportunidade de evangelização, resultam em afastamento e azedume contra a Igreja.
Talvez mais perigoso ainda, sob todos os pontos de vista, é o populismo político que tomou proporções alarmantes com a eleição do pobre Trump. Geralmente, há sempre queixas por os eleitos não cumprirem as promessas eleitorais. Neste caso, até os republicanos gostariam que ele não as cumprisse todas. O homem é um susto e a aliança com o Putin faz aquecer a guerra fria. A Europa, que teve momentos de lucidez, já não tem certezas de nada. Tudo pode acontecer.
Com perspectivas diferentes, existe uma curiosa coincidência de desassossego entre os textos de encerramento do ano litúrgico e os textos políticos do Público[1] desta segunda-feira, em que escrevo.
2. Não vou regressar ao meu texto do Domingo passado. Dizem-me que gozei com a exclusão definitiva das mulheres ao sacerdócio, embora pelo baptismo sejam tão sacerdotes como os homens. As minhas razões eram e são de ordem teológica. Não são apenas minhas, que não teriam importância nenhuma. Como diz Edward Schillebeeckx[2], seguindo Tomás de Aquino, não temos nenhum conceito adequado para falar de Deus. A nossa linguagem é e permanece limitada. É uma linguagem terrestre para coisas terrestres.
Deus é inexprimível: nós não sabemos o que é Deus em si mesmo; dele captamos, apenas, um esplendor fraco através do mundo criado e no decurso da nossa história no mundo, história feita de acontecimentos felizes e de tragédias. Não é só o Deus incognoscível, mas também as expressões ou os dogmas sobre Deus que pertencem, à sua maneira, ao objecto da fé. Isto não implica, porém, de modo nenhum, que devam ser tratados em pé de igualdade.
A auto-revelação de Deus é dada em experiências humanas interpretadas. Nunca temos acesso à “Palavra de Deus” de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa. É por isso que E. Schillebeeckx, no uso litúrgico, utiliza, o menos possível, a conclusão solene: “palavra do Senhor”, precisamente porque Deus nunca fala assim. São crentes que falam.
Isto significa que, se em todo o dogma uma verdade se exprime de facto, fá-lo, no entanto, sempre de modo defeituoso e historicamente condicionado. Enquanto expressão verbal da fé, o dogma pode mudar no decurso do tempo. A partir das nossas questões, a fidelidade ao Evangelho e aos dogmas da Igreja pode, por vezes, exigir de nós romper com a imagem ultrapassada do ser humano e do mundo, na qual a verdade evangélica foi outrora expressa.
Há aí uma missão importante de diálogo no seio do cristianismo, missão que constitui uma missão própria para os teólogos. O que nos é transmitido a partir do Antigo e do Novo Testamento são interpretações de experiências de Deus. Ora, experiências não podem ser comunicadas a outros enquanto experiência. Cada geração deve, ela mesma e de modo pessoal, fazer a experiência. A experiência cristã de Deus também não pode ser transmitida. Podemos apenas permitir que essas expressões e descrições se abram, em nós, como experiência pessoal. Só a partir do ponto de falhanço de todas as nossas palavras é que podemos falar do mistério divino. Mas nessa palavra, decifração rigorosa e tacteio razoável no seio das possibilidades culturais de compreensão, o Deus vivo já “se dirigiu” silenciosamente a nós, antes mesmo de termos podido exprimir a nossa experiência. São experiências humanas que são, no entanto, realmente suscitadas pelo Deus incompreensível, esse Deus activo, embora não intervenha nem se imponha.
3. E. Schillebeeckx, neste texto, como em várias das suas obras, diz as razões pelas quais um dogma pode mudar. A sua expressão já não serve para defender o que estava em causa quando foi formulado. Mas se um dogma pode mudar, quanto mais uma declaração que só é definitiva porque foi declarada como tal, mesmo que pretenda interpretar uma tradição secular.
Em qualquer caso, não podemos usar o nome de Deus em vão como legitimação das afirmações, frutos da nossa responsabilidade ou irresponsabilidade.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 20.11.2016



[1] Público 14.11.2016
[2] A Identidade Cristã: Desafio e Desafiada, in Deus no século XXI e o futuro do cristianismo (coor. Anselmo Borges), Campo das Letras, 2007, pp 409-411. O texto de E. Schillebeeckx interpreta duas referências fundamentais da Summa Theologiae, I. q. 1. a 7. ad 1; II-II. q. 1. a. 2, c. São da minha responsabilidade os recortes, as divisões e a pontuação das transcrições do texto de E. Schillebeeckx, para facilitar a sua leitura.

13 novembro 2016

UMA PROVOCAÇÃO TEOLÓGICA

1. Existe uma comissão nomeada pelo Papa Francisco para estudar a hipótese de as mulheres serem ordenadas diaconisas. Christiana Martins[i] publicou, a esse propósito, uma longa entrevista. Refere que “o Expresso contactou três membros da Comissão de Estudo sobre o Diaconado Feminino: Phyllis Zagano, leiga e teóloga da Universidade de Hofstra, nos EUA; a catalã Nuria Calduch-Benades, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma; e Mary Melone, a primeira reitora do Instituto Antoniano. Responderam dizendo estar obrigadas ao sigilo e remeteram qualquer comentário para o Arcebispo Luis Ladaria Ferrer, jesuíta, que preside à comissão e é o número dois da Congregação para a Doutrina da Fé”.
A composição da Comissão é saudavelmente paritária: seis homens, bispos e sacerdotes, e seis mulheres, religiosas e leigas. Logo à partida, temos quem actualmente conta e quem pouco vale.
Entretanto, o Papa Francisco, no regresso da sua viagem à Suécia, que tem à frente da própria Igreja uma mulher, foi interrogado por uma jornalista: “que pensa disto? É realista pensar em mulheres-padres também na Igreja Católica, nas próximas décadas? E se não, porquê? Os padres católicos têm medo da concorrência?”
Resposta do Papa Francisco “Quanto à ordenação de mulheres na Igreja Católica, a última palavra clara foi dada por São João Paulo II, e esta palavra permanece”.
O Papa entregou-se então, em estilo muito indirecto, a considerações de intuição pessoal sobre “a dimensão petrina, que é a dos apóstolos – Pedro e o colégio apostólico, a pastoral dos bispos – e a dimensão mariana, que é a dimensão feminina da Igreja. Já disse isto mais do que uma vez. Pergunto-me quem é mais importante na teologia e na mística da Igreja: os apóstolos ou Maria? Quem é mais importante no dia de Pentecostes? É Maria! Mais ainda: a Igreja é mulher. É «a» Igreja, não é «o» Igreja. É a Igreja; e a Igreja desposa Jesus Cristo. É um mistério esponsal. E, à luz deste mistério, compreende-se o motivo destas duas dimensões: a dimensão petrina, isto é, episcopal, e a dimensão mariana, com tudo aquilo que é a maternidade da Igreja, mas em sentido mais profundo. Não existe a Igreja sem esta dimensão feminina, porque ela própria é feminina”.
Esta secundarização da hierarquia não é apenas uma saída entre os pingos de chuva face à armadilha de João Paulo II. De facto, já Tomás de Aquino[ii] sustentava que o mais importante na lei nova é a graça do Espírito Santo. O resto é só para ajudar.
2. Espanta-me que a Comissão de Estudo sobre o Diaconado Feminino seja tão exígua e de representatividade eclesial muito desnivelada, a nível dos ministérios ordenados. Seja qual for o resultado, nunca poderá ser invocada a sua ampla representatividade democrática. Se for uma provocação a multiplicar iniciativas no conjunto da Igreja, para detectar o sensus fidelium, bendita seja.
O Papa Francisco não pode dizer que João Paulo II não disse que a ordenação sacerdotal estava exclusivamente reservada aos homens e que esta posição devia ser definitivamente acatada por todos os fiéis da Igreja. Isto foi expressamente decidido para estancar o debate.
Aliás, não deixa de ser curioso que a nota de apresentação da Carta apostólica Ordinatio sacerdotalis (22.05.1994) venha esclarecer que o Papa não disse nada de novo, que “não se trata de uma nova formulação dogmática”. Até mantém a esperança de que “constitua uma ocasião para todos os cristãos aprofundarem a inteligência da origem e da natureza teológica do ministério episcopal e sacerdotal conferido pelo sacramento da Ordem”.
O Cardeal J. Ratzinger, como Prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé, veio reafirmar, num extenso arrazoado, que a declaração de João Paulo II não proclama nenhuma doutrina nova. Parece-me que só tem meia razão. Traz uma característica curiosa: nada de novo e o passado é definitivo, não há futuro ou o futuro será a intemporal repetição do passado. Será que a História da Igreja acabou? Jesus Cristo tinha dito vereis coisas maiores. De facto, não vereis nada. Já está tudo visto.
Porque andavam cristãos a ter dúvidas sobre a impropriamente chamada Ordenação sacerdotal reservada aos homens, foi-lhes dito, na segunda metade do séc. XX: não tenham dúvidas. Já está tudo resolvido, parem a inteligência da fé, não procurem saber como tudo isso pode ser. Não procurem interpretar os Sinais do Tempo, não há tempos novos.
3. A discussão dos Ministérios Ordenados na Igreja é muito curiosa: para ordenar homens casados, dizem que não há nenhum obstáculo dogmático. Para deixar continuar no ministério presbiteral os que decidem casar – e dispondo já de prática pastoral – também não há obstáculo dogmático, mas nem pensar! Para as mulheres há obstáculos de tradição. O resultado é todo o mesmo. O povo cristão, com direito à Eucaristia, é privado, em muitos lugares, da sua celebração. Tudo isto porque o Sacramento da Ordem já não sabe para que lado se há-de virar.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 13.11.2016



[i] Jornal Expresso, 05.11.2016, pp 24-25

[ii] ST, I-II, q. 106-108


06 novembro 2016

A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (3)

           1. Insisto neste longo e interrogativo título. Tanto no passado como na actualidade, o uso destas palavras está carregado de sentidos contraditórios. Existem muitas Igrejas. Quando se fala da Igreja Católica, muitos teimam, esquecendo o Vaticano II, em referir-se, apenas, à hierarquia eclesiástica: Papa, Cúria Romana, Cardeais, Bispos e Padres, deixando de fora a quase totalidade da Igreja. Aconteceu, entretanto, algo de muito estranho: chegou um Papa a mostrar que isso está completamente errado.

        Como a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, (A Alegria do Evangelho, 2013), do Papa Francisco, é muito incómoda, procura-se fazer de conta que é um desabafo irrelevante, sem consequências. Mas ele quis deixar escrito que se trata de um documento programático e de consequências importantes, dirigido a cada cristão.

        Não se trata de uma vontade de poder, de auto-afirmação, de quem quer, pode e manda, apoiado na infalibilidade pontifícia. É precisamente essa mentalidade que ele procura desterrar. A Igreja é o NÓS de todos os cristãos e é precisamente isto que Bergoglio lembra, em todas as circunstâncias, a todas as pessoas e grupos, combatendo, sem tréguas, o clericalismo sempre renascente.

        Sabe que é preciso um longo caminho para uma Igreja de saída dos seus hábitos inveterados. “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a igreja aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja doente, fechada, comodamente agarrada às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro. Acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.”[i]

        Tem o cuidado de avisar que se alguém se sentir ofendido com as suas palavras “saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a de um inimigo nem de um opositor. A mim interessa--me apenas procurar que quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e pensamento mais humanos, mais nobres, mais fecundos, que dignifiquem a sua passagem por esta terra.”[ii]

        2. Ao partilhar as suas preocupações sobre a dimensão social do Evangelho, recorda que os ensinamentos da Igreja acerca de situações contingentes estão sujeitos a maiores ou novos desenvolvimentos e podem ser objecto de discussão.

Sem pretender entrar em pormenores, não pode evitar ser concreto e ficar, apenas, nos grandes princípios sociais, em meras generalidades que não interpelam ninguém. É preciso tirar consequências práticas, para que também possam incidir, com eficácia, nas complexas situações actuais.

       Ninguém pode exigir que se relegue a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, despreocupada com a saúde das instituições da sociedade civil e sem se pronunciar sobre os acontecimentos que interessam os cidadãos. No entanto, Francisco sublinha que nem o Papa nem a Igreja possuem o monopólio da interpretação da realidade social ou da apresentação de soluções para os problemas contemporâneos[iii].

       3. Convém não se esquecer que a referida Exortação Apostólica se dirige aos membros da Igreja. Nesta, ninguém se pode manter longe dos pobres, em nome de outras incumbências, mas é a desculpa mais frequente nos meios académicos, empresariais e, até, eclesiais.

       O capítulo dedicado à dimensão social da evangelização, não pode ser aqui resumido, mas o Papa quis ser muito concreto: não se pode continuar a confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha. Requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, criando novas oportunidades de trabalho, que superem o mero assistencialismo.

       Adverte que não propõe um populismo irresponsável, mas a economia não pode recorrer a remédios que sejam um novo veneno, como quando pretende aumentar a rentabilidade, reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos[iv].

       A proposta de Francisco é directamente política: peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise, efectivamente, sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo.

       A política, tão denegrida, é uma sublime vocação. É uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem-comum. Neste ponto, o Papa citava um documento dos Bispos franceses sobre a reabilitação da política (1999). Entretanto, muita coisa mudou em França e no mundo o que provocou outro documento sobre a urgência em reencontrar o próprio sentido da política. A laicidade francesa também está em evolução. O Conselho de Estado recomenda a autorização de Presépios nas Câmaras Municipais, não como culto, mas como cultura.

       Poderá a reforma que Francisco propõe para a Igreja deixar a política indiferente?

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público 06.11.2016


[i] Cf. EG nº 49

[ii] Cf.EG nº 208

[iii] Cf. EG nºs 182 - 184

[iv] Cf. EG nº 204


30 outubro 2016

A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (2)

       
1. Continuando, como prometemos, na temática do Domingo passado, lembro o que escreveu José M. Mardones[1]: depois das revoluções norte-americana e francesa, do século XVIII, marcos da modernidade, a religião abandonou o campo da política. Tinha deixado de ser necessária para legitimar o que podia ser perfeitamente legitimado pela razão humana. Ergueu-se, então, um muro entre Igreja e Estado, muito fino na América e uma separação abrupta e violenta na Europa. A partir daí, os crentes sentiram muitas vezes a tentação, não de trabalhar no âmbito da política, mas de politizar a religião e de religiosizar a política.
Emilio Garcia Estébanez estudou, de forma crítica, o percurso ocidental, desde Platão até aos nossos dias - passando por Aristóteles, os Estóicos, Sto. Agostinho, S. Tomás e Maquiavel, etc. - das relações entre ética e política[2]. Procurou esclarecer a ambiguidade da noção de bem-comum, muito celebrada na Igreja Católica.
Para este filósofo e teólogo, o pensamento ético-político dos estóicos constituiu um dos mais completos da antiguidade, ainda que o seu forte tenha sido a ética. A respeito desta, do ponto de vista histórico, pode-se dizer que eles alcançaram o mais alto nível prático e teórico a que chegou a filosofia moral pagã. Isto pode afirmar-se não apenas em termos relativos, mas também em termos absolutos: a escola estóica, real e objectivamente, construiu um sistema quase perfeito de moral natural, quanto aos seus elementos essenciais.
Em política, a sua concepção sobre a igualdade de todos os seres humanos e o seu universalismo social constituiu, unida às elaborações do mesmo género dos seus antecessores, um corpo completo de doutrinarismo político. Os elementos da doutrina política de Platão e de Aristóteles, enquadrados pela doutrina estóica, teriam criado o panorama político ideal, pouco menos que perfeito. Parece, a esse autor, que o conjunto que poderia ser formado por aqueles sistemas, devidamente articulados, ainda não foi superado por nenhum outro sistema. Além disso, os Estóicos puseram como fundamento de todo o seu filosofar um princípio realmente exacto e frutífero: viver em sintonia com a natureza. Num mundo sem revelação sobrenatural como garantia, o caminho para chegar à verdade consiste em interrogar, com honestidade e sem preconceitos, a natureza.
2. Sto. Agostinho negou que os pagãos pudessem ser virtuosos. Se fosse possível, sem a fé, alcançar a justiça, Cristo teria morrido em vão. Não agiam pelo verdadeiro fim, isto é, para agradar a Deus, pois o único Deus é o dos cristãos. Não basta actuar com energia, constância, afrontando com valentia penas e perigos. É preciso fazer tudo isso pelo Deus verdadeiro. Acusaram Sto Agostinho de dizer que as virtudes dos pagãos eram, apenas, esplêndidos vícios. Nunca o disse expressamente, mas, segundo Estébanez, quem tirou essa conclusão estava na linha das suas invectivas contra os pagãos. Sto Agostinho recusou a existência de uma ética natural.
A doutrina política deste grande génio era uma consequência lógica das suas concepções morais. A finalidade do Estado consiste em promover, sobretudo, o culto divino, cuidar dos bons costumes e práticas dos seus membros, de modo que em nenhum momento se ofenda o Deus verdadeiro. Juntamente com esta, enumera outras finalidades, tais como, manter a paz interior e exterior, promulgar leis que tenham em conta uma justa partilhar dos direitos e deveres, velar pela guarda das leis mediante a aplicação de castigos.
A ideia agostiniana do Estado estava marcada pela convicção de que este deve ser antes de tudo cristão, nos seus membros, na sua actividade e nos seus interesses. Sem esta orientação, degenera num bando de ladrões. A ideia de que o Estado deve, inclusive, aplicar os seus meios específicos, a força, para promover o bem espiritual está a um passo. Sto Agostinho deu esse passo.
Acerca da doutrina política desse grande Doutor da Igreja, S. Tomás de Aquino teve a habilidade de o interpretar num sentido diametralmente inverso. Adopta, sem mais explicações, a definição que Cícero deu do Estado e que Agostinho tinha rejeitado categoricamente.
3. Desde a antiguidade pagã, desde o regime de cristandade, desde as revoluções da Modernidade muita coisa mudou. A melhor de todas foi a Declaração dos Direitos e Deveres Humanos. A globalização, ao não ser a mundialização da solidariedade, nem sempre os respeita e promove. Em 2014 os refugiados já eram 19,5 milhões e 38,2 milhões de deslocados.
A guerra fria regressou mesmo no combate ao DAESH. O panorama político tanto nos EUA como na Rússia, a situação anémica da UE e as ambições da China levantam a pergunta: estaremos a construir um mundo onde haja lugar para todos, em diálogo e cooperação?
Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.
É preciso repensar tudo, de fio a pavio, e ensaiar outros caminhos. Será isso que pretendem os Bispos franceses? Veremos.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 30.10.2016


[1] Fe y Política, Sal Terrae, 1993, Bilbao
[2] El bien común y la moral política, Herder, Barcelona, 1970

23 outubro 2016

A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (1)


        1. A Igreja Católica está em alta! Foi a exclamação de um amigo ao mostrar-me, numa rua do Porto, a primeira página do jornal, Le Monde. No Vaticano, está o Papa Francisco, António Guterres no topo das Nações Unidas e o episcopado francês surge, na praça pública, com um grito de alarme para que os responsáveis da direita e da esquerda reencontrem o verdadeiro sentido da política. A laicidade do Estado é um quadro jurídico que deve permitir a todos - crentes de todas as religiões e não-crentes - viverem juntos, com as suas diferenças.

Não deitei água fria naquela euforia. Ele tinha vivido, desolado, o inverno da Igreja desde os anos 80 do séc. XX e com melancolia a mediocridade das lideranças do catolicismo português. Fomos conversar.

É um facto que o Papa Francisco é uma figura mundialmente respeitada. Não apenas pelo seu empenhamento na reforma da Igreja, mas sobretudo porque esse esforço não se destina a fixar-se em questões da instituição ou baixar os braços dos adversários e acusadores.
Quando ele procura levar os católicos a ver o mundo a partir dos excluídos, não é para aumentar os diletantes que discutem a irradicação mundial da pobreza no mundo, mas nada fazem para que isso aconteça. O que lhe importa é convocar as capacidades de todas pessoas - seja qual for a sua ideologia ou religião – para uma política de serviço universal a partir das comunidades e iniciativas locais.

O bem da Igreja Católica não é a sua-auto glorificação. Esse é o seu funeral. Uma Igreja auto referente perde-se de Deus e do mundo, isto é, de Jesus Cristo. A Igreja está em alta quando é guiada pela liturgia do lava-pés e pela ética samaritana. 
Bergoglio insiste que é satânica a invocação de Deus para matar. Sabe que temos muitos testemunhos desses na Bíblia. Espero que ninguém se lembre de a expurgar desses horrores. Revelam aquilo que os seres humanos são capazes: atribuir ao supremo bem, a Deus, o que há de pior. Ainda no domingo passado, certamente com a intenção de mostrar a necessidade da persistência na oração, os seleccionadores das leituras para a Eucaristia escolheram uma passagem tenebrosa do livro do Êxodo. Moisés, com a vara de Deus na mão, pôs Josué a combater o dia todo, até ao pôr-do-do sol, desbaratando Amalec e o seu povo, ao fio da espada.

Estes liturgos não se dão conta de que se tornam colaboradores satânicos dos militantes do Daesh (Estado Islâmico).
Os pecados das religiões tiveram sempre sábios e profetas para os denunciar, fustigar e apelar à conversão a um Deus de pura misericórdia. Bergoglio procura algo mais: criar uma cultura, uma atitude de vida e pensamento que, sempre que se fale de Deus, de pessoas e instituições religiosas, se pense em nascentes de bondade, de misericórdia e serviço, sobretudo dos marginalizados. É uma tarefa longa. Quando este Papa fala de uma Igreja de saída, sabe que está com Jesus Cristo a continuar o estilo de vida de muitas mulheres e homens que fizeram da sua existência um dom.

2. A Igreja católica está em alta quando a palavra igreja evoca o conjunto dos cristãos e, neste caso, o conjunto dos católicos. O pluralismo cristão e católico não é pecado. As tentativas de obrigar os católicos a lerem todos pela mesma cartilha, pelo mesmo catecismo, em nome da unidade, são a violência da unicidade, da ditadura, do puro vazio. Longa tem de ser a aprendizagem do diálogo no interior da Igreja, para que toda ela se confronte, hoje, com os problemas de toda a sociedade, na diferença legítima das suas sensibilidades, mas trabalhando para vencer o abismo entre os poucos muito ricos e os muitos muito pobres. É um caminho de conversão e sem esse processo não é possível falar da generalização de direitos e deveres humanos. O destino universal dos bens pode encontrar muitas modalidades de realização, mas não muitas formas de o negar.

A Igreja está em alta não por um católico, no caso o português António Guterres, ter sido escolhido para Secretário-Geral da ONU. Este facto poderia ser interpretado como a glória de ver um católico reconhecido e consagrado no topo da mais alta carreira política, a nível mundial. Uma vaidade. Está em alta porque Guterres, segundo as próprias declarações, não pretende ser o líder do mundo, mas com determinação e humildade, ser apenas mediador e facilitador da causa da Paz. Como Alto-Comissário da ONU para os Refugiados, perante situações de horror, chegou à conclusão de que era necessário ter possibilidade de uma intervenção política, ao mais alto nível.

O que se deve pedir à Igreja não é que ela produza ambiciosos de dominação económica, política ou religiosa, mas que as pessoas, seja onde for e segundo as suas possibilidades, desenvolvam o gosto de servir.

3. Em 1991, perante um tempo de desilusão e refluxo das grandes ideologias, os bispos de França insistiram que a política é tarefa de todos. Em 1999, produziram um célebre documento sobre a reabilitação e a regeneração da política, que o Papa Francisco recordou e recomendou no começo do seu mandato. No dia 13 deste mês, publicaram um texto, que já deu brado, sobre o sentido da política num mundo em mudança, mas esta questão fica para o próximo Domingo. 

Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 23.10.2016

16 outubro 2016

NÃO HAVERÁ SALVAÇÃO?



      1. Por causa do texto do passado Domingo, recebi um telefonema longo, tentando mostrar-me que já não existem deuses, homens ou mulheres que nos possam salvar. O mundo está irremediavelmente perdido. Os cristãos são os mais culpados pela enganosa ideia de salvação. Depois da derrota de Jesus de Nazaré, inventaram a fé na impossível ressurreição. Não havendo remédio contra a morte, só ela nos pode livrar do mal de existir. 
    Depois desta metafísica veio uma sumária lição sobre a responsabilidade europeia no actual desconcerto do mundo. No séc. XIX, a filha da civilização das Luzes cegou-se com o alargamento das suas zonas de dominação. Duas guerras mundiais, de horrorosos extermínios, tornaram a memória do século XX numa vergonha sem nome.

Das ruínas, surgiu a ideia de construir uma Europa como nunca tinha existido. Num momento de lucidez, alguns dirigentes de partidos democratas-cristãos e social-democratas consentiram em criar as condições para a sua união. Não previram que os sucessores iriam desprezar as boas regras da cooperação e do funcionamento democrático das instituições. Com desníveis económicos tão acentuados e sem o desenvolvimento de uma cultura de diálogo intercultural – a partir da família, da escola e das relações de trabalho – os velhos demónios do nacionalismo populista voltaram a agitar-se.
 Os eurocépticos passaram a queixar-se do casamento e a calcular as vantagens e inconvenientes de um divórcio. O outro europeu está a torna-se um adversário e os acossados pela guerra e pela fome que lhe batem à porta são seleccionados conforme o contributo que possam representar para os seus interesses e necessidades.
Uma Europa, esquecida da sua alma profunda, de mal com a economia, a política e as religiões, suicida-se julgando que está a salvar a sua pele. Recusa ver-se ao espelho, juntamente com os EUA, para não enfrentar as suas responsabilidades na desordem deste mundo. Caiu o muro de Berlim, outros continuaram e novos se ergueram. As desigualdades sociais tornam retórica a Declaração dos Direitos Humanos. As Nações Unidas são um belo nome para a desunião global.
2. Com essa injecção de tópicos históricos pretendia o meu leitor curar a minha ingenuidade teológica. Agradeci, mas observei-lhe que existem muitos outros argumentos para reforçar o seu pessimismo. Se até um candidato à presidência da maior potência mundial, dispondo das universidades mais desejadas, consegue tantos apoios vociferando ordinarices, talvez possamos ver donde não vale a pena esperar a salvação. Existem outros caminhos.
Todos os dias me espanto com a inesgotável energia criadora, em actos, gestos e palavras, do papa Francisco. Alegra-me, sobretudo, a sua atitude permanente de acolher e suscitar a criatividade das outras pessoas, analfabetas ou intelectuais, sejam elas cristãs, agnósticas, ateias, de outras religiões ou sem religião. Incita a derrubar muros, a construir pontes, a escutar o outro com afecto. Gosta de mobilizar e casar a inteligência e as emoções para desenvolver um mundo de compaixão pelos caídos na valeta. Todos convocados, de geração em geração para cuidar, reparar e tornar bela a casa comum.
A tão falada reforma da Cúria e do Banco do Vaticano, os afrontamentos do mundo eclesiástico desde os bispos, padres e seminaristas, começando sempre pelos eminentíssimos cardeais, são apenas manifestações do acolhimento de Jesus Cristo em todas as dimensões da vida humana actual. Como acaba de escrever o filósofo francês, Jean d’Ormesson, “Francisco reencontrou o espírito revolucionário do cristianismo. Foi o cristianismo, abrindo-se às mulheres, aos pobres, aos escravos que permitiu todas as grandes revoluções a partir das quais podemos pensar a sociedade na qual hoje vivemos. Só há uma revolução: o cristianismo”[1] .
3. Esta observação talvez não vá ao fundo da questão e não é apenas porque em nome do cristianismo e da sua pureza também foram praticados muitos crimes.
 Jesus Cristo está testemunhado e configurado pelos textos do Novo Testamento, mas não está congelado há dois mil anos nessa escrita. Esses textos testemunham de Alguém que está vivo, hoje, nos acontecimentos e na vida das pessoas, acolhido ou rejeitado. A grande tentação religiosa consiste em pensar que o encontro com o Ressuscitado acontece apenas e sobretudo nas missas, nos sacrários e nas exposições do Santíssimo Sacramento. Esses exercícios espirituais valem e muito na medida em que nos lembrem que Jesus Cristo é o clandestino da semana, derrubando muros, separações, inimizades, entre pessoas e grupos. A devoção que retém as pessoas nas igrejas, nas sacristias, está a opor-se a um Jesus em viagem para as periferias sociais e culturais. Foi isto que o papa Francisco veio lembrar: só vale uma Igreja de saída!
O papa não está a inventar nada. Lembra apenas a pergunta de Deus: que fizeste do teu irmão?[2] O julgamento religioso de toda a história humana, religiosa ou profana, em todos os seus momentos, depende da resposta a essa pergunta[3].
Há salvação. Deus não gosta de fazer nada sozinho e o papa Francisco também não.
Frei Bento Domingues, O.P.
16.10.2016
in Público 
                                                                                                                          
[1] Le Monde des Religions, n 79, p. 70
[2] Gn 4, 1-16
         [3] Mt 25, 31-46