29 setembro 2019

P / INFO: Crónicas & Pope laments countries that sell weapons but refuse to take in refugees from conflicts
Frei Bento: Estudar antes de pregar
Pe. Anselmo: Sobre pessoas e animais quem decide?
Pe. Tolentino: Arte involuntária
Pe. Vitor: Um coração com olhos

  ESTUDAR ANTES DE PREGAR
Frei Bento Domingues, O.P.

Não basta a ortodoxia do Credo. A sua repetição não produz saber. Sem a pergunta essencial, fica a cabeça vazia.

1. Em Serralves, no passado dia 19, fui convidado a participar numa conferência com Lídia Jorge, sobre O pensamento como pré-escrita. A moderadora, Luísa Meireles, lembrou que o assunto envolve múltiplas vertentes – literárias, filosóficas, religiosas, semânticas, etc. – com a liberdade de tudo o que cada um quisesse abordar. A conferência foi aberta por Paulo Mendes Pinto e pela música de Pedro Abrunhosa. Não me pertence, a mim, fazer qualquer juízo sobre o que, ali, aconteceu.
Escrever, escrevo, mas não sou escritor nem ficaria infeliz se nada tivesse escrito. Tive de escrever, no âmbito da teologia, muitos textos que me pediram para várias revistas ou de colaboração em obras colectivas, assim como introduções e prefácios sem conta. Fui solicitado por muitas instituições culturais do país, para conferências e debates sobre A Religião dos Portugueses, publicada em 1988, corrigida e aumentada na reedição de 2018, organizada por António Marujo e Maria Julieta Mendes Dias. Desde os inícios do Público, fui convidado para escrever, ao Domingo, uma crónica que se tem mantido até hoje. Deu origem a vários livros, editados pela Figueirinhas e, depois, pela Temas e Debates.
Como disse, não sou escritor nem pertenço à Ordem dos Escritores, mas à Ordem dos Pregadores. É esse o sentido de acrescentar, à assinatura de tudo o que escrevo, O.P. o que ainda intriga alguns leitores.
Até ao século XIII, a Ordem dos Pregadores era identificada com a Ordem dos Bispos. Houve, por isso, resistências a dar este nome a uma Ordem Religiosa. A própria Bula pontifícia, que recomendava a Fundação de S. Domingos (1170-1221), foi corrigida de “Ordem dos que pregam” para Ordem dos Pregadores, aqueles que são “totalmente dedicados ao anúncio da palavra de Deus”.
Este acontecimento revelou-se extremamente fecundo. Fez com que, muitos párocos e várias Congregações religiosas se convertessem a esta missão que é responsabilidade de toda a Igreja.
     Porque será que a chamada Ordem dos Pregadores produziu, muito cedo, grandes teólogos escritores – basta pensar em Alberto Magno e Tomás de Aquino – e a escrita de místicos famosos, como Mestre Eckhart e Catarina de Sena?
      Existe uma resposta óbvia, cunhada pela expressão: verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem).
O acto de escrever é paradoxal: por um lado, procura reter a palavra para que ela atravesse o tempo e o espaço; por outro, ao ser fixada, por vários processos, em signos inalteráveis, perde a voz, o som, a vida. Ficam apenas letras, como traços da passagem de um vivente desaparecido. É uma morte à espera de leitores que a provoquem, a interroguem, a ressuscitem. Um escrito é um morto que pode sobreviver ao seu autor pela energia que transmitir. Um texto não fala se não for provocado.
Antes da palavra e antes da escrita existem várias formas de pensamento fecundado por experiências e emoções vitais. Costumamos dizer que, no começo, era a Palavra: Logos. Poder-se-ia dizer também que, no começo, era o Silêncio. Este, porém, está carregado de palavras. Só sabemos o que os outros pensam se eles o disserem ou escreverem, o resto é “adivinhação”. Diz-se que os tagarelas falam antes de pensar, umas vezes arrependem-se disso, outras não.
Seja como for, só se conhece a distinção entre ser humano e simples animal pela palavra. Existem animais que podem ser treinados para repetir o que os humanos lhes ensinam. Apesar de todo o animalismo reinante, ainda não se conhece nenhuma biblioteca organizada pelos habitantes dos jardins zoológicos ou da selva. Tudo o que é escrito sobre os animais é feito por uns animais que falam e escrevem, organizando sistemas de signos convencionais, em línguas muito diferentes e em registos linguísticos muito diversos.
2. Não sei o que se passa com os escritores e artistas criativos antes da obra que colocam ao nosso dispor. Sei o que muitos deles disseram. No campo da teologia, conheço a recomendação de S. Pedro: estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede; fazei-o, porém, com mansidão e respeito[1]. Não é uma tarefa especializada. É a situação para a qual todo o cristão se deve preparar.
Um pregador, aquele que faz da sua vida o testemunho do Evangelho, não se deveria atrever a pregar sem perguntar, primeiro, se recebeu a graça da pregação, graça do Espírito Santo, o único verdadeiramente entendido no que a Deus diz respeito[2]. A seguir, pertence-lhe estudar. O conhecimento por afinidade espiritual não dispensa as filosofias e as diversas ciências, pois tem de mostrar como é que é verdade aquilo que confessa, na fé, ser verdade[3]. Não basta a ortodoxia do Credo. A sua repetição não produz saber. Sem a pergunta essencial, fica a cabeça vazia. Tem de investigar, cogitar, contemplar ferverosamente, antes de falar, pregar ou escrever.
Humberto de Romans, O.P. ( ca. 1200 -1277)[4] observou: foi com a Ordem dos Pregadores que, pela primeira vez, estudo e vida religiosa se uniram, numa união sempre frágil que precisa de ser assumida, diariamente, como tarefa prioritária.
Acerca da teologia, Bento XVI recordou uma anedota dos seus primeiros anos como professor na Universidade de Bonn: em cada semestre, havia um dia académico, no qual, os professores de todas as Faculdades se apresentavam aos alunos. Nessa altura, a Universidade sentia-se orgulhosa das suas duas Faculdades de Teologia (uma católica e outra protestante), ainda que nem todos os professores partilhassem a fé cristã. Esta situação não se alterou mesmo quando, em certa ocasião, um dos professores tivesse dito que, nessa Universidade, havia algo de estranho, pois tinha duas Faculdades que se ocupavam de algo que não existia: Deus.
Desde a Idade Média, o mundo cultural mudou muito. Nessa altura, o pregador tinha de estar preparado não só para testemunhar Aquele em quem acreditava, mas para dialogar com os judeus e os muçulmanos. Hoje, o diálogo inter-religioso é muito mais vasto e não pode esquecer os agnósticos, os ateus e os indiferentes.
3. O catolicismo convencional gera um pensamento rotineiro que não se deixa interrogar nem pode questionar o status quo da vida da Igreja nas homilias, na administração dos sacramentos, na catequese, etc. etc.. É o maior obstáculo à nova e antiga evangelização.
Veio o Papa Francisco e desconstruiu esse mundo convencional e, daí o grito: ai que ele está a dar cabo da Igreja na sua vida interna e na sua relação com o mundo. É verdade! O vinho novo da sua intervenção, pelo exemplo e pela palavra, rebenta com os odres velhos do conformismo.
in Público, 29.09.19


[1] 1Pd 3, 15-16
[2] Rm 8, 23-27
[3] S. Tomás, Questiones Quodlibetales, 4. q. 9. a. 3.
[4] A Pregação, Tenacitas, 2012  

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Sobre pessoas e animais quem decide?
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia
1. Eu sei que o tema é hoje muito sensível e complexo. Já aqui escrevi várias vezes sobre ele, mas volto a ele, sobretudo porque penso que é fundamental ter conceitos claros, contra a confusão que quer impor-se neste e noutros domínios. Dentro da confusão, é fácil perder-se quanto ao essencial.

Dou exemplos de confusionismo. Contou-me uma pessoa amiga que, durante uma volta a pé, ouviu uma senhora aflita a chamar: "Anda à mãe, anda à mãe." Até se afligiu, pensando que uma criança se tinha perdido. Afinal, era um cãozinho. Outra pessoa contou-me que viu na televisão uma senhora grávida num supermercado com o cãozito num carrinho e, à pergunta para quando o nascimento do bebé, disse a data prevista na qual o cão iria ter um irmão. Segundo o Expresso, André Silva declarou: "Há mais características humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma". E já se pede um SNS para cães e gatos. E há jardins públicos infrequentáveis por crianças, tanta é a porcaria largada por cães, com os donos regalados a observar o alívio dos bichos. E tem havido ataques graves de cães e perturbações sem conta por outros animais que destroem colheitas inteiras, mas nada acontece...


A afirmação acima está na continuidade da de Peter Singer, professor da Universidade de Princeton, que escreveu em Ética Prática: "Devemos rejeitar a doutrina que coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior do que matar um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem pode vir a ser pessoa." Quem faz estas afirmações fá-lo baseado em que a desigualdade de tratamento que damos às pessoas humanas e aos outros animais deriva do chamado especismo, que consiste na preferência que damos aos seres humanos sem qualquer outra razão que não a pertença a uma espécie, no caso, a espécie humana.

2. Oponho-me veementemente a esta tese, que é a tese animalista, uma das teses mais deletérias e ameaçadoras contra o humanismo. E estou à-vontade, por várias razões. Na universidade, sempre falei aos estudantes da Animal Liberation (Libertação animal), de Peter Singer, e há muito que defendi que se deveria encontrar, do ponto de vista jurídico, uma denominação para os animais, que não são coisas. Aliás, isso encontra-se também num livro que coordenei juntamente com Alexandre Manuel, Desafios à Igreja de Bento XVI, no qual o constitucionalista J. Gomes Canotilho perguntava se precisamente um desses desafios não era desenvolver uma ecologia em que "as diferenças entre "algo e alguém" não remetam para o domínio das coisas a problemática humana dos outros seres vivos da Terra." E sempre fui a favor do valor da vida, do cuidado a dar à Criação e de que aos animais é devido tratamento adequado, recusando sofrimentos cruéis e inúteis.

Para mim, de qualquer forma, há uma distinção entre a pessoa humana e os outros animais - e quando se fala em animais, é preciso distinguir entre animais e animais: não é a mesma coisa falar de cães e gatos e falar de pulgas, piolhos, carraças, percevejos, vespa asiática... e, por outros motivos, de leões, tigres, crocodilos, hipopótamos...-, distinção que é não só de grau ou quantitativa, mas essencial, qualitativa, ontológica. Bastará estar atento às diferenças, de que dou apenas exemplos. Neste tema como noutros, o problema é o fundamentalismo e a falta de racionalidade.

Como escreveu Edgar Morin, "embora muito próximo dos chamados chimpanzés e gorilas, tendo 98% de genes idênticos, o ser humano traz uma novidade à animalidade". Há, apesar de tudo, entre etólogos e antropólogos, convergência bastante no reconhecimento de que entre o animal e o homem se deu um salto qualitativo essencial. Esse salto manifesta-se, em termos gerais, na autoconsciência (consciência de que se é consciente), na autoposse de si mesmo como único e centro de identidade, na linguagem simbólica e reflexiva, na capacidade de abstrair e formar conceitos, na transcendência em relação ao espaço e ao tempo, na criação e assunção de valores éticos e estéticos, no pré-saber da morte própria vinculada às crenças religiosas e à angústia frente ao nada, na pergunta pelo ser e pelo seu ser...

O homem não se encontra na simples continuidade da vida no sentido biológico. Como escreveu Max Scheler, o homem é "o asceta da vida", pois é capaz de dizer não aos impulsos instintivos, vendo aí o célebre biólogo F. J. Ayala "a base biológica da conduta moral da espécie humana, nota essencialmente específica dela". Porque é capaz de renunciar, abster-se, deliberar, optar, o homem é um animal livre e moral.

Os outros animais também comunicam, mas o homem tem linguagem duplamente articulada. Aristóteles viu bem, ao definir o homem como animal que tem lógos (razão e linguagem), e, assim, político: "Só o homem, entre os animais, possui fala. A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos frente aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a pólis."

O Pensador, de Rodin, diz-nos bem o que é o ensimesmamento: entrada dentro de si próprio, descida à sua intimidade única, à subjectividade pessoal: o ser humano vem a si mesmo como único, tem a experiência de eu enquanto própria e exclusiva, face ao outro, que é outro eu, outro como eu, mas simultaneamente um eu que não sou eu: um eu outro impenetrável. Disse o famoso psicanalista Jacques Lacan: "Possuir um Eu na sua representação: este poder eleva o homem infinitamente acima de todos os outros seres vivos sobre a Terra. Por isso, é uma pessoa". Sabe que sabe, é autoconsciente, consciente de ser consciente.

O homem é um ser inquieto, nunca satisfeito (satis-factus: feito suficientemente), acabado. Por isso, é o ser do transcendimento, como escreveu Pascal, ao dizer que o homem mora algures entre "le néant et l"infini" (o nada e o infinito), aberto ao Infinito, à Transcendência. É o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, chega a perguntar ao infinito pelo Infinito, isto é, por Deus. Neste sentido, é constitutivamente metafísico e religioso. E tem dignidade, é fim e não meio, como defendeu Immanuel Kant, pois há nele algo de infinito, precisamente esta sua capacidade e necessidade de perguntar pelo Infinito, pelo Fundamento e pelo Sentido último.

E há o riso e o sorriso, a contemplação e a criação de beleza (quando é que um animal vai compor uma sinfonia?), o amor de autodoação, erguer edifícios jurídicos com o estabelecimento da lei e da igualdade de todos perante a lei, a sepultura, a esperança...

E, no final de tudo, se estas notas características e capacidades específicas e outras não convencessem, há uma que é definitiva: nesta questão de saber se a distinção entre os humanos e os outros animais é meramente de grau ou, pelo contrário, qualitativa, essencial, quem é convocado é o homem. É ele e só ele que debate. Alguém se lembra de convocar uma assembleia de outros animais para dirimir a questão?
É preciso tomar consciência do perigo da indiferenciação e da ameaça da animalização da sociedade.

3. Há uma pergunta inevitável. E os membros da nossa espécie que não podem de facto exercer essas capacidades, como os deficientes mentais profundos? Estou com a filósofa Adela Cortina: "Isso não os torna membros de outras espécies, mas pessoas que é preciso ajudar para poderem viver ao máximo essas capacidades, o que só conseguirão numa comunidade humana que cuide deles e os promova na medida do possível."
in DN, 29.09.19
https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/sobre-pessoas-e-animais-quem-decide-11345772.html
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

ARTE INVOLUNTÁRIA

A VIDA É UM TAPETE QUE VOA, É UMA ALIADA DO ESPANTO, TEM MAIS IMAGINAÇÃO DO QUE SUPOMOS, UMA ARTE TODA SUA

Em rigor não existe uma arte involuntária. Leonardo da Vinci recordava, com razão, o óbvio: que esta é coisa mental. A arte supõe o gesto deliberado, o processo, a reflexividade, a dimensão laboratorial, a instigante e consciente procura, a experimentação. Mas o olhar e o coração de cada um de nós sabem, no entanto, que existe também uma arte involuntária. Sabem que há insustentáveis imagens perfeitas que não foram construídas de modo deliberado e nos atravessam; que essas podem ser flagrantemente aleatórias e, ao mesmo tempo, incrivelmente reais; que pertencem porventura à natureza mais do que à manufatura humana; que são um encontro de formas sem motivo, mas que depois se tornam um património que não nos larga mais. Num livro recente do paisagista Gilles Clément, intitulado “Tratado Sucinto da Arte Involuntária”, o autor situa-a justamente numa zona indefinida, numa espécie de encruzilhada contingente entre o domínio elementar da natureza e a expressão informal da nossa humanidade. E fornece esta definição: “Considero como arte involuntária o feliz resultado de uma combinação de situações ou de objetos, organizados por regras de harmonia ditadas pelo imprevisto.” Os exemplos que avança, recorrendo a dezenas de fotografias, mostram aqueles rodopios súbitos de vento que tornam aérea uma inteira população de folhas ou então esculturas de gelo nos cimos mais silenciosos ou aqueles caprichos que o litoral repetidamente nos oferece. E há também fotografias que registam a vida no labirinto das cidades; o emaranhado dos fios que, por quilómetros e quilómetros, nos interligam; as fachadas revistas em sucessão onde o tempo declina não a cor, mas a erosão da cor: quando o azul, o magenta ou o laranja parecem mais do que nunca o assobio do mundo em passagem. E, nessa linha, o livro aposta num levantamento do que se poderiam chamar instalações (mesmo se precárias), epifanias (mesmo se momentâneas) e vestígios (mesmo se destinados a um apagamento mais vertiginoso do que aquele que nós próprios conhecemos). Porém, devo dizer que o que mais me comoveu nesta incursão de Gilles Clément pela arte involuntária foi o exercício de atenção ao que nos rodeia e aos seus humildes detalhes. Por vezes, sentimo-nos a caminhar entre monótonas paredes que se prolongam ou numa cartografia exausta, que é sempre igual. Mas a vida é — voluntária e involuntariamente — outra coisa. A vida é um tapete que voa, é uma aliada do espanto, tem mais imaginação do que supomos, uma arte toda sua. Mas tal depende também do olhar que lhe dedicamos. Aprender a contemplar: que tarefa interminável!

A arte supõe o gesto deliberado, o processo, a reflexividade, a dimensão laboratorial, a instigante e consciente procura, a experimentação

Creio que nós humanos somos mestres desta arte involuntária. As imagens que mais profundamente se gravam, aqueles farrapos de existência que mais tarde nos assombram, nos resgatam e resumem têm essa música. E, por isso, todos recordamos coisas de nada, que, contudo, nos sustentam: um gesto, um silêncio, um sorriso, uma certa hora, uma certa confidência, um rastro, um retrato. Por exemplo, este verão revi o filme de Roberto Rossellini, “Stromboli”, e fiquei siderado com a cena da pesca do atum, mostrada ali como uma coreografia primitiva, intensíssima, até pungente. Durante essa longa cena só me recordava de meu pai, que foi também pescador. Eu fixava-o, com nitidez, de barco em barco, entre as personagens de Rossellini. Vestia uma camisa verde como há muitos anos, na última vez que o vi.
in Semanário Expresso, p 157, 28.09.2019
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XXVI COMUM Ano C
“Um pobre, chamado Lázaro,
jazia junto do seu portão, coberto de chagas.”
Lc 16, 20

Um coração com olhos

A educadora tinha convidado os meninos e meninas da sua sala a desenharem, ao seu gosto, um coração. Umas das mais pequenitas, embrenhou-se na tarefa e foi das últimas a acabar. Apareceram corações muito diferentes e qual deles o mais ricamente decorado, alguns até com brilhantes e missangas. Por fim, a tal pequenita mostrou também o seu desenho: era um coração simples, grande e vermelho, mas com olhos, pés, mãos e uma boca sorridente! E ela explicou: “Tem olhos para ver os outros e tudo, mãos para estender e abraçar, pés para ir ao encontro de todos, e um sorriso porque assim é que é feliz!”

O drama de quem é rico é não ver o pobre. Ou ver e nada fazer. Na única parábola contada por Jesus em que um personagem tem nome, somos todos alertados para a cegueira que a riqueza provoca. Não é feito um juízo sobre o comportamento moral do rico ou do Lázaro: não se conhecem boas ou más acções de um ou do outro. O abismo após a vida é idêntico ao desta: quem podia fazer alguma coisa nada fez. Terá pensado: que adianta ajudar um se são tantos? Como se pode resolver o problema da pobreza? Cimeiras, reuniões planetárias, assembleias faustosas e vistosas continuam a realizar-se no nosso tempo, a produzir declarações admiráveis que pouco se cumprem. A pobreza é dos outros, pouco interessa que esteja à nossa porta ou lá longe onde não nos afeta. Irónica a pretensão do rico da parábola que, mesmo na mansão dos mortos, ainda tenta pôr Lázaro ao seu serviço! É o paradigma: Rico que continua a pensar só nos ricos e a usar os pobres!

É preciso dizê-lo: haver ricos e pobres é contra o projecto de Deus. Os bens da criação e o desenvolvimento humano não podem ser só para alguns. Santo Ambrósio, comentando esta parábola, dizia: “Quando dás alguma coisa ao pobre, não lhe dás o que é teu, restituis-lhe apenas o que já é seu, porque a terra e os bens deste mundo são de todos, não dos ricos.” Um progresso económico, técnico e cultural que não beneficia todos os níveis da sociedade cava abismos de desumanidade. É preciso mudar o “coração de rico” que trazemos connosco. Agarrado a tudo o que julgamos que é nosso e obcecado por aquilo que ainda que ainda nos falta possuir! E por isso tantas vezes infeliz: cego à realidade de quem sofre, sem pés para sair ao seu encontro, sem mãos para partilhar e sem sorriso que nos ilumine o rosto!

“Sair com Cristo ao encontro de todas as periferias” é o programa deste ano na nossa Diocese de Lisboa. São periferias e pessoas com nome. Não vamos inventar “a solução” mas conhecer, melhorar e estimular “as soluções”; não vamos “fazer para” mas “criar com”; não vamos só “dar” mas valorizar o quanto precisamos de todos. À maneira de S. Vicente de Paulo, celebrado por estes dias, fundador dos Padres Lazaristas (hoje, Vicentinos) e que dizia: “A caridade é inventiva até ao infinito”. Como Jesus Cristo faz e ensina a fazer. E que tal começar por abrir os olhos do coração?
in Voz da Verdade, 29.09.19
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8409&cont_=ver2
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Pope laments countries that sell weapons but refuse to take in refugees from conflicts
Inés San Martín
ROME BUREAU CHIEF
ROME - Pope Francis on Sunday said that Christians cannot be indifferent and insensitive to the “tragedy” of poverty, “our hearts deadened” before the misery of innocent people.
“We must not fail to weep,” Francis said. “We must not fail to respond.”
Francis, the son of immigrants himself, also lamented that today’s world is increasingly “more elitist and crueler towards the excluded,” because developing countries are drained of their best resources - natural and human - to benefit “a few privileged markets.”
In addition, he said, “wars only affect some regions of the world, yet weapons of war are produced and sold in other regions which are then unwilling to take in the refugees generated by these conflicts. Those who pay the price are always the little ones, the poor, the most vulnerable, who are prevented from sitting at the table and are left with the ‘crumbs’ of the banquet.”
Francis’s words came in St. Peter’s Square during the Mass for the 105th World Day of Migrants and Refugees. The theme of this year’s message, released by the Vatican in May, is “It is not Just about Migrants.”
According to the United Nations Refugees office (UNHCR), over 70 million people around the world have been forced to leave their homes. Among them are nearly 25.9 million refugees, over half of whom are under the age of 18. The UN agency says one person is forcibly displaced every two seconds as a result of conflict or persecution.
In addition, according to the United Nations Migration office (IOM) there are an estimated 244 million international migrants globally, around 3.3 percent of the world’s population.
Francis said that the commandment is to “love God and love our neighbor,” and that these cannot be separated.
“Loving our neighbor as ourselves means being firmly committed to building a more just world, in which everyone has access to the goods of the earth, in which all can develop as individuals and as families, and in which fundamental rights and dignity are guaranteed to all,” the pope said.
Loving our neighbor, he continued, means to manifest concretely God’s love for them by drawing close to those who are mistreated and abandoned on the streets, soothing their wounds and bringing them to the nearest shelter.
Speaking about the theme for the message, Francis said that loving one’s neighbor and the day for migrants and refugees is not only about foreigners but “about all those in existential peripheries who, together with migrants and refugees, are victims of the throwaway culture.”
The pope began his homily by speaking about the many times in which God calls on those who follow him to care for the widow, the orphan and the foreigner, saying that even twenty-eight centuries later, the warnings of prophet Amos are relevant: Those who are at ease and seek pleasure without worrying about the ruin of God’s people should worry about not being invited to God’s banquet.
The widow, the orphan and foreigners, Francis said, are “often forgotten and subject to oppression. The Lord has a particular concern for foreigners, widows and orphans, for they are without rights, excluded and marginalized.”
For this reason, in the books of Psalms, Deuteronomy and Exodus God “warns” the Israelites to give them special care: “The reason for that warning is explained clearly in the same book: The God of Israel is the one who ‘executes justice for the fatherless and the widow, and loves the sojourner, giving him food and clothing’” he said.
Loving those who are less privileged, Francis argued, is “required, as a moral duty, of all those who would belong” to the people of the God of Israel.
At the end of the Mass, accompanied by four migrants, Francis unveiled a recently installed sculpture depicting 140 migrants of all generations and different times in history. At the center, the wings of an angel are visible, which gives the name of the piece: “Angels Unaware.”
The sculpture was requested by the Vatican’s Migrants and Refugee section. Timothy Schmalz, the Canadian artist responsible for the 20-foot piece, told Crux that he was inspired by the Bible, more specifically, Hebrews 13:2 - Be welcoming to strangers and many have entertained angels unaware.
“What is being installed is not just bronze nor is it just art,” he said. “It’s an idea. An idea of welcoming. If you think about the whole design of St. Peter’s Square, with two extended arms reaching out, historically, the whole concept was considered that they were welcoming arms to welcome not only the pilgrims, but also for the tourists.”
Schmalz said he had strategically placed figures that are rarely seen in artwork in Rome, such as the African, the Jew, the Muslims or Sikhs. People from all over the world and from different religions, he said, are represented, and the sculpture is meant to remind the thousands who visit the square that they too are welcomed, no
After the unveiling, Francis spent several minutes contemplating the sculpture, before greeting the migrants who revealed the sculpture, the artists, and the benefactors who made it possible.
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in Crux, Sep 29, 2019
https://cruxnow.com/vatican/2019/09/29/pope-laments-countries-that-sell-weapons-refuse-to-take-in-refugees-from-conflicts/

Já agendou a nossa próxima conferência?
É no dia 19 de Outubro às 15.30 a
Conferência do Prof. Luca Badini, do
Wijngaards Institute for Catholic Reform


22 setembro 2019


P / INFO: Crónicas & In season of synods, Italy may be next to see if pope’s gamble pays off, artigo de John L. Allen Jr.
Frei Bento Domingues, Acabar com a chantagem
Pe. Anselmo Borges, Demissão do Papa Francisco
NOTA: Conferência do Prof. Luca Badini 
Reserve já na sua agenda o dia 19 de Outubro

ACABAR COM A CHANTAGEM
Frei Bento Domingues, O.P.

Escusam de continuar com as ameaças de cisma. Não o desejo, mas não me assusta e rezo para que não aconteça.

1. O acontecimento mais importante, na liderança da Igreja Católica, nos últimos tempos, não pode passar despercebido ou dissolvido no ruído dos noticiários acerca do Vaticano.
O Papa Francisco, ao regressar da última viagem apostólica a vários países africanos (Moçambique, Madagáscar e Ilhas Maurícias), não se limitou a responder às perguntas e curiosidades dos jornalistas, de forma aberta e desinibida, como sempre faz. Desta vez, foi muito mais longe. Decidiu colocar um ponto final na chantagem que se arrastava, dentro e fora do mundo católico, desde o começo do seu pontificado: a ameaça de um Cisma.
Para quem conhece alguma coisa da história do cristianismo, não pode ignorar os efeitos terríveis que essa palavra evoca, efeitos que ainda hoje persistem, apesar de todas as iniciativas ecuménicas.
Dada a desenvoltura com que se pronunciou, terá Bergoglio esquecido as catástrofes dessa “bomba atómica” no tecido da Igreja? Essa ameaça não deveria aconselhar o Papa a ter mais cuidado com o que diz e faz e, sobretudo, com o modo provocador como fala e actua? Não saberá que está sempre a pisar terreno armadilhado?
     Neste caso, essas perguntas não conseguem esconder uma solene hipocrisia. Dito de outro modo: o Papa Francisco para não causar um cisma na Igreja deve renunciar a cumprir o programa do seu pontificado, tornar-se prisioneiro do medo, asfixiar a liberdade de expressão e concordar que o Vaticano continue num regime de monarquia absoluta!
 Teria de anular tudo o que fez e desistir do futuro: da reforma da Cúria; do combate ao clericalismo e ao carreirismo eclesiástico; da denúncia da economia que mata e da religião que manda matar; do acolhimento das vítimas da guerra e dos que fogem da miséria; deixar de ver o mundo a partir dos excluídos e marginalizados; de aceitar que haja cidadãos de primeira e de segunda; de incitar a Igreja a deslocar-se para as periferias; da revisão do papel dos colégios e das universidades católicas; das alterações nas práticas teológicas para que recusem o papel de ideologia da dominação económica, política e religiosa; da encíclica Laudato Si sobre a ecologia integral; da irradicação da pedofilia no seio das instituições eclesiásticas e seus responsáveis; das conclusões do Sínodo sobre a Família reunidas no documento polémico Amoris Laetitia; de incentivar o debate sobre os ministérios das mulheres na Igreja; de renegar o caminho sinodal como reclamam os opositores vaticanistas à opção dos Bispos alemães; da convocatória para o estudo de alternativas económicas; dos passos gigantescos nos caminhos do ecumenismo e do diálogo inter-religioso; de nunca procurar nas suas deslocações pelo mundo poder para a Igreja católica, mas que se torne exemplo desinteressado para os mais pobres, etc. etc..
2. Acontece, porém, que longe de renunciar ao programa do seu pontificado, de bloquear em si e nos outros a criatividade, alarga-a e estimula-a cada vez mais.
     A 15 de Outubro de 2017, abriu uma nova frente de inquietações e trabalhos, cujas consequências vão muito para além dos seus previsíveis anos de vida.
     O melhor é dar-lhe a palavra: «Acolhendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazónica. O Sínodo será em Romaem Outubro de 2019. O objectivo principal, desta convocatória, é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, e por causa da crise da Floresta Amazónica, pulmão de capital importância para o nosso planeta. Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram os caminhos da justiça e de paz».
A 17 de Junho deste ano, foi publicado o documento de trabalho, Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral[1].
Papa reunirá, no Vaticano, entre os dias 6 e 27 de Outubrobispos dos nove países que abrangem a região Pan-amazónica.
Desde a corajosa convocatória em Outubro de 2017, tudo se agravou. De Janeiro a Setembro deste ano, já foram contabilizados 106.141 focos de incêndios florestais na Amazónia. De um assunto que alguns teimavam em considerar puramente regional transformou-se numa questão global.
3. Estamos todos na mesma Casa Comum. Como diz o teólogo brasileiro L. Boff, voltamos do exílio, depois de milhões de anos, e agora estamos todos juntos no mesmo lugar, no planeta Terra. Esta não pertence a ninguém em particular. É um bem comum de toda a humanidade e de toda a comunidade de vida (animais, árvores, microorganismos, etc.). Amazónia é parte da Terra. L. Boff insiste: O Brasil não é senhor da Amazónia. Possui apenas a gestão dessa parte que administra mal e de forma irresponsável. 
As causas da redução da área natural da Amazónia são múltiplas e essencialmente económico-sociais. Há grandes interesses ligados ao agro-negócio, à criação da soja, à produção da carne de vaca, à indústria madeireira e não só. Segundo a investigação do Ministério Público brasileiro, algumas destas forças organizaram-se para promover um horrendo “dia de fogo” em Agosto passado[2].
No próximo dia 22 de Setembro, no âmbito da quinta edição do Átrio de Francisco, serão projectadas, na fachada da basílica superior de S. Francisco de Assis, as imagens do novo projecto fotográfico de Sebastião Salgado, sobre essa vasta região da América do Sul que tem estado no epicentro das notícias devido à acelerada desflorestação.
Voltemos à questão do começo. O Papa Francisco não deseja abafar as críticas que lhe fazem. Ajudam-no sempre e não vêm apenas dos americanos, vêm da própria Cúria! “Não gosto quando surgem de debaixo da mesa e te fazem sorrisos a mostrar os dentes e, depois, espetam-te a faca nas costas. Isso não é leal, nem humano. Disso não gosto!” Escusam de continuar com as ameaças de cisma. Não o desejo, mas não me assusta e rezo para que não aconteça.
Basta de chantagens!
in Público, 22.09.2019
https://www.publico.pt/2019/09/22/sociedade/opiniao/acabar-chantagem-1887348
O Público lembrou outro artigo:
https://www.publico.pt/2016/11/01/mundo/noticia/igreja-catolica-jamais-ordenara-mulheres-reitera-papa-1749635


[1] Vaticano, Instrumentum laboris, Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. O Papa veta políticos com mandato entre os convidados do referido Sínodo.
[2] Cf. Viriato Soromenho-Marques, Sete teses sobre a Amazónia, in Jornal de Letras de 11 a 24 de Setembro de 2019; ver a entrevista de Leonardo Boff, O futuro da humanidade e da terra está ligado ao futuro da Amazónia http://www.ihu.unisinos.br/

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Demissão do Papa Francisco
Anselmo Borges
   Padre e professor de Filosofia
                                                          
1. No passado dia 10, após uma viagem apostólica a África, visitando Moçambique, Madagáscar e Maurício, o Papa Francisco, já no avião, de regresso a Roma, deu, como é hábito, uma longa conferência de imprensa. E foi respondendo a muitas perguntas.
1. 1. Congratulou-se com o abraço histórico da paz em Moçambique: “Tudo se perde com a guerra, tudo se ganha com a paz. O esforço dos líderes das partes contrárias, para não dizer inimigos, é o de ir ao encontro um do outro. É o triunfo do país: a paz é a vitória do país, é preciso entender isso... E isso vale para todos os países, que se destroem com a guerra. As guerras destroem, fazem perder tudo.”
1. 2. África é um continente jovem, tem uma vida jovem, “se a compararmos com a Europa, e vou repetir o que disse em Estrasburgo: a mãe Europa quase se tornou “avó Europa”. Envelheceu, estamos a viver um inverno demográfico muito grave na Europa.” E acrescentou que leu algures que há um país europeu que em 2050 terá mais reformados do que pessoas a trabalhar, “e isso é trágico”.
Os jovens em África precisam de educação, “a educação é uma prioridade”. E louvou Maurício, cujo primeiro-ministro tem em mente a gratuidade do sistema educativo.
1. 3. A xenofobia é “uma doença humana” e, lembrando “discursos que se assemelham aos de Hitler em 1934”, acrescentou: “muitas vezes as xenofobias cavalgam a onda dos populismos políticos”. Mas África transporta consigo também “um problema cultural que tem de ser resolvido: o tribalismo”. Temos de “lutar contra isso: seja a xenofobia de um país em relação a outro, seja a xenofobia interna, que, no caso de alguns lugares de África e com o tribalismo, leva a uma tragédia como a de Ruanda.”
1. 4. “São fundamentais as leis que protegem o trabalho e a família. E também os valores familiares.” E chamou a atenção para os dramas das crianças e jovens que perdem os seus laços familiares.
1. 5. “Hoje não existem colonizações geográficas — pelo menos, não tantas como antes..., mas existem colonizações ideológicas, que querem entrar na cultura dos povos e transformar aquela cultura e homogeneizar a Humanidade. É a imagem da globalização como uma esfera, todos os pontos equidistantes do centro. Ao contrário, a verdadeira globalização não é uma esfera, é um poliedro, no qual cada povo se une a toda a Humanidade, mas preserva a própria identidade.” Contra a colonização ideológica, é preciso respeitar a identidade de cada povo e dos povos.
1. 6. Opôs-se de novo ao proselitismo em religião, lembrando uma palavra de São Francisco de Assis: “Levem o Evangelho, se for necessário, também com as palavras”. A evangelização faz-se sobretudo pelo exemplo, pelo testemunho. O testemunho provoca a pergunta: “Porque é que vive assim, porque age assim?” Aí explico: “É pelo Evangelho”. “E qual é o sinal de que um grupo de pessoas é um povo? A alegria.”
1. 7. Não podia deixar de sublinhar a urgência da defesa do meio ambiente. No contexto da destruição da biodiversidade, da exploração ambiental e concretamente da desflorestação, não deixou de apontar e condenar de modo veemente a corrupção descarada: “Quanto para mim?”. “A corrupção é feia, muito feia.”
Revelou que “no Vaticano, proibimos o plástico.” É preciso defender “a ecologia, a biodiversidade, que é a nossa vida, defender o oxigénio, que é a nossa vida. O que me conforta é que são os jovens que levam adiante esta luta”, porque o futuro é deles. “Creio que ter-se chegado ao acordo de Paris foi um bom passo adiante, e depois também outros... São encontros que ajudam a tomar consciência.” E, a menos de um mês do Sínodo para a Amazónia, sublinhou: “Há os grandes pulmões, na República Centro-Africana, em toda a região Pan-amazónica, e outros menores.”
2. E vieram a pergunta e a resposta que mais visibilidade tiveram nos meios de comunicação social mundiais.
Jason Horowitz, do The New York Times, perguntou: “No voo para Maputo, reconheceu estar sob ataque de um sector da Igreja nos Estados Unidos. Obviamente existem fortes críticas de alguns bispos, há televisões católicas e sítios americanos muito críticos e até alguns dos seus aliados mais próximos falaram de um complô contra si. Há algo que esses críticos não entendem sobre o seu pontificado? Há algo que tenha aprendido com as críticas? Tem medo de um cisma na Igreja americana? E, se sim, há algo que poderia fazer — dialogar — para evitá-lo?”
E Francisco foi longo na resposta.
Não é contra as críticas. “As críticas ajudam sempre, sempre. Quando se recebe uma crítica, deve-se fazer imediatamente uma autocrítica: isso é verdade ou não? E eu tiro sempre benefícios das críticas.” Reconheceu que as críticas “não vêm só dos americanos, existem um pouco por todo o lado, mesmo na Cúria.” O problema todo das críticas é se há honestidade ou não. “Uma crítica justa é sempre bem recebida, pelo menos por mim. Uma crítica leal — eu penso isto e isto — está aberta à resposta, e isso constrói, ajuda. No caso do Papa: não gosto deste Papa, critico-o, falo, escrevo um artigo e peço que ele responda. Isso é justo. Mas fazer uma crítica sem querer ouvir a resposta e sem dialogar é não amar a Igreja, é perseguir uma ideia fixa, mudar o Papa ou criar um cisma.” “Não gosto quando as críticas estão sob a mesa: sorriem para ti, mostrando os dentes e, depois, apunhalam-te pelas costas. Isso não é leal, não é humano.” “Atirar a pedra e esconder a mão... isso não serve, não ajuda. Ajuda os pequenos grupinhos fechados, que não querem ouvir a resposta à crítica.”
Há uma real ameaça de cisma? “Na Igreja houve muitos cismas.” Há o exemplo do Concílio Vaticano I, por causa da infalibilidade pontifícia. Um grupo fundou os vétero-católicos, que evoluíram e agora ordenam mulheres. Também aconteceu no Concílio Vaticano II, com a separação de Mons. Lefebvre. “Existe sempre a opção cismática na Igreja, sempre. É uma das opções que o Senhor deixa à liberdade humana. Eu não tenho medo de cismas, rezo para que não existam, porque está em jogo a saúde espiritual de tantas pessoas. Que exista o diálogo, que exista a correcção, se houver algum erro, mas o caminho do cisma não é cristão.”
Defende-se. “Um cisma é sempre uma separação elitista provocada por uma ideologia separada da doutrina. É uma ideologia, talvez justa, mas que entra na doutrina e a separa. Por isso, rezo para que não ocorram cismas, mas não tenho medo.” Acusam-no de comunista, mas as coisas sociais que diz são as mesmas que disse João Paulo II. “Eu apenas o copio.” E o mesmo deve dizer-se quanto à questão da graça e da moral (eu julgo que, aqui, tem em mente aqueles que o acusam por abrir a porta à possibilidade da comunhão para católicos divorciados e recasados). Avisa: “Quando virem cristãos, bispos, sacerdotes rígidos, é porque por trás há problemas, não há a santidade do Evangelho. Por isso, devemos ser mansos com as pessoas que são tentadas por esses ataques, estão a passar por um problema, devemos acompanhá-las com mansidão.”
3. Francisco não exclui a possibilidade de um cisma, mas não tem medo. Ele tem muitos opositores e até inimigos, incluindo cardeais influentes, como G. Müller, R. Burke, W. Brandmüller, R. Sarah, que o acusam de não ser um grande teólogo e de herético.
Pergunta-se: ele é mesmo herético? Alguém que conheça minimamente o Evangelho e tenha estudado Teologia poderá acusá-lo de herético? Alguém pode ser acusado de herético por anunciar e praticar o Evangelho, aproximando-se dos mais pobres, abandonados, marginalizados? Por proclamar que o nome de Deus é misericórdia? Por abrir a porta à possibilidade de acesso à comunhão, em casos concretos, de católicos divorciados e recasados? Por arremeter contra o clericalismo e o carreirismo e querer que a Igreja siga um caminho sinodal (caminhar juntos em Igreja, decidindo colegialmente, com a participação de todos, pois a Igreja somos todos)? Por avançar numa reforma profunda da Cúria, um verdadeiro cancro da Igreja? Por declarar a urgência da salvaguarda da Criação, do meio ambiente, da biodiversidade, de uma ecologia integral? Por exigir transparência no Banco do Vaticano (como resolver o défice de mais de 70 milhões de euros num orçamento de 300 milhões do Vaticano)? Por estabelecer normas e práticas severas para acabar com o monstro da pedofilia na Igreja? Por abrir a porta à possibilidade da ordenação de homens casados? Por querer que as mulheres tenham o lugar que lhes compete por vontade de Jesus Cristo também em lugares cimeiros de decisão na Igreja? Por promover o diálogo ecuménico e  inter-religioso? Por afirmar que não se pode ficar parado e imóvel no “sempre se fez assim”? Numa palavra, por querer a Igreja que o Vaticano II sonhou?
A questão é outra: há muitos, dentro e fora da Igreja, que estão interessados em forçar a demissão de Francisco para, no conclave a seguir, eleger alguém que acabe com as reformas que ele está a operar. O superior geral dos jesuítas, Arturo Sosa, disse-o esta semana: “Existe uma luta política na Igreja entre os que querem a Igreja sonhada pelo Vaticano II e os que a não querem. Estou convencido de que não se trata só de um ataque contra o Papa. Francisco está convencido da sua acção desde que foi eleito. Na realidade, do que se trata é de influenciar a eleição do próximo Papa.”
in DN 22.09.2019
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In season of synods, Italy may be next to see if pope’s gamble pays off
John L. Allen Jr.
EDITOR
News Analysis
ROME - Under a pope for whom “synodality” is the buzzword par excellence, meaning broad consultation and shared decision-making, it probably should be no surprise that synods and their vicissitudes are destined to be the biggest Catholic drama over the months to come.
We already know about the controversial Synod of Bishops for the Amazon set to open in the Vatican on Oct. 6, and a tug-of-war between Rome and the German bishops over plans for a two-year national “synodal journey” has also been well chronicled. In October 2020, the Church in Australia will gather for its first plenary council since the Second Vatican Council (1962-65).
Now, it seems, we may soon be able to add Italy to the list of places either contemplating or planning its own synod. In this case, the press is coming from the Primate of Italy himself, meaning the pope, and his closest allies.
The drumbeat began in February with an essay by Italian Jesuit Father Antonio Spadaro in Civiltà Cattolica, the Jesuit-edited journal directed by Spadaro which enjoys semi-official Vatican status.
“Only an effective exercise of synodality within the Church can help us read our situation today and engage in discernment,” Spadaro wrote, making the case for a national synod. “And this can only happen thanks to broad involvement of the People of God, in a synodal process that’s not restricted either to the elites of Catholic thought or to the contexts (specific and important) of formation.”
During an address to the powerful Italian bishops’ conference on May 20, Pope Francis directly referred to a “probable synod of the Italian Church,” which was followed by Cardinal Gualtiero Bassetti of Perugia, president of the conference, telling reporters, “the synod could be the start of a path that will take a long time.”
Most recently, the edition of Civiltà Cattolica that came out today carries a reflection by 90-year-old Italian Jesuit Father Bartolomeo Sorge, a fixture on the Italian and Vatican scene since the era of St. John XXIII and the Second Vatican Council. Noting that the Italian Church has held a national convention every ten years since 1976, Sorge insisted it’s not enough to respond to today’s challenges.
“A simple national ecclesial convention won’t do it,” he wrote. “Therefore, isn’t a synod necessary?”
A decision to hold a synod, or at least to consider it, could come as early as next week when the Permanent Commission of the Italian bishops’ conference meets in Rome. Among the items on the agenda is “to offer proposals for paths to renew the missionary face of the Italian Church.”
Why do Francis and his team want a synod for Italy? Sorting through the arguments, three points seem to loom largest.
First, Francis is a populist at heart, and believes the people could pressure their leaders to implement elements of his reform program he currently believes are being blocked.
For instance, his May 20 line about a “probable synod” came in the context of expressing frustration that an expedited and simplified process for annulments he decreed in 2015 still has not been implemented “in the great majority of Italian dioceses.” Likewise, when Francis issued Vos Estis in May, requiring dioceses to create reporting mechanisms to lodge complaints against bishops for their handling of abuse allegations, one of his closest allies, Maltese Archbishop Charles Scicluna, openly invited the Italian rank-and-file to complain if their diocese drags its feet on the pope’s edict.
The idea is that breaking the logjam may require an end-run around the ecclesiastical bureaucracy, appealing to the base.
Second, Francis’s allies believe that a synod would be a chance to demonstrate that the pontiff has strong popular support despite the oft-nasty criticism he generates, usually from more conservative and traditional quarters.
(Although many see accusations against Francis of a cover-up of sex abuse charges regarding ex-cardinal and ex-priest Theodore McCarrick as an American operation, it hasn’t escaped the attention of Francis’s team that it was an Italian cleric who actually leveled the accusation, Archbishop Carlo Maria Viganò, and that his own writings on the subject are about as Italian as such things come.)
Sorge was especially strong on the point.
“Is it possible that our Christian community does not know what to do in the face of the violent and frequent attacks against Pope Francis, coming largely from inside his own house, which even reach the absurd request for his resignation?” Sorge wrote.
“Formal declarations of filial attachment and adhesion are of little use,” Sorge wrote. “We need, rather, to reassure the faithful, with an official and solemn act, that the Gospel essence of the Petrine service in the Church always remains unchanged, even if the way of exercising it changes, as Pope Francis is doing.”
Third, Francis and his team also believe a synod could address the political role of Italian Catholics, especially the irony that millions of Catholics in the pope’s own backyard routinely vote for politicians with strong anti-immigrant and nationalistic positions at odds with Francis’s teaching and leadership.
That tension comes to a boil most often over Italian politician Matteo Salvini, the former Deputy Prime Minister and now opposition leader, who defies the pope on immigration while brandishing a Bible and a rosary of the Madonna of Medjugorje.
“We ask: What authoritative response can the Italian Church pronounce, in the light of the Gospel and the Church’s teaching authority, about the fact that millions of faithful - priests and consecrated persons not excluded - share, or at least support, anthropological and political concepts that can’t be reconciled with a Gospel vision of man and society?” Sorge asked.
To be sure no one missed the point, he made things even clearer in a footnote. (As an aside, it’s striking how often in Francis’s papacy the real meat on the bone in documents comes in the footnotes.)
“More concretely, what should we say and do with regard to those who extort votes from people with fear and hate, hiding behind the mask of a false religiosity?” Sorge wrote in footnote 15, and although he didn’t use Salvini’s name, the reference was unmistakable.
The bottom line is that Francis and his advisers are frustrated with the narrative that Francis is “controversial,” convinced that most of the grumbling, in Italy as elsewhere, comes from a cadre of elites, political opportunists and special interests who don’t represent the Catholic grassroots. A synod, therefore, would be a chance to demonstrate what they believe is a broad popular consensus in support of the pope’s leadership.
Only time will tell if they’re right.
Exit polls in the most recent Italian elections showed that Salvini was the most popular candidate among Catholics who go to Mass at least once a week, capturing 33 percent support. That’s roughly 15 million Italian Catholics who may not quite be ready to stand foursquare with Francis, at least on the immigration issue.
On the other hand, a survey earlier this year by the respected polling firm Demos found that Francis has a 70 percent popularity rate among Italians overall, and his support is even stronger among those who go to Mass. Most of that backing is probably fairly solid, given that Italians are hardly naïfs - indeed, given the media climate here, they’re probably more exposed to criticism of the pope than any other culture on earth, so it’s not as if they’ve never heard the case for the opposition.
Of course, the Church isn’t a democracy. Nevertheless, Francis and his team appear determined to inject a greater democratic spirit in Catholicism through the revival of synods, trusting it will strengthen the pope’s hand, and Italy may well be next up to see if the gamble pays off.
Follow John Allen on Twitter: @JohnLAllenJr

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in CRUX, Sep 21, 2019
https://cruxnow.com/news-analysis/2019/09/21/in-season-of-synods-italy-may-be-next-to-see-if-popes-gamble-pays-off/

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