05 dezembro 2011

HABEMUS PAPAM


Não vou falar da obra cinematográfica de Nanni Moretti. Tem muitos admiradores e a crítica não se cansa de o apontar como um dos grandes do nosso tempo. Aqui interessa-me destacar o filme Habemus Papam – Temos Papa. A expressão é bem conhecida pelos mais idosos, pelos que já assistiram – pelos meios de comunicação – a tudo o que precede e segue a eleição de um Papa. Sou dos que já contam cinco eleições papais. Acerca desse acontecimento, o povo católico sabe o que lhe transmitem os meios de comunicação antes, durante e depois. Nem sempre com informação e conhecimento suficientes acerca do Vaticano, e da realidade profunda da Igreja. Na maior partes das vezes há palpites, mesmo entre os “vaticanistas”.
Costuma-se dizer que quem “entra papa não sai papa”. Em geral, os nomes mais publicitados nem sempre acabam por ser os que reúnem a maioria dos votos de um eleitorado de anciãos que nem sequer foram eleitos pelos católicos. É o Papa que escolhe aqueles que um dia irão escolher o seu sucessor. Estranha democracia esta… Na realidade é só um que actua na vez de todos: “eu sou a igreja”. Só ele escolhe os futuros eleitores do Papa, os cardeais de determinada idade. Só o Papa passa a não ter idade. Uma das tarefas do Nós Somos Igreja continuará a ser a importância do papel dos católicos na escolha dos ministérios eclesiais.
Julgo, por isso, que o filme Habemus Papam, deve ser muito debatido. Nanni Moretti não pretendeu, como expressamente o disse, atacar o Papa actual. Foi muito mais longe e em profundidade.
João Paulo II morre e procede-se, dentro das normas, a um conclave donde deve sair um nome. Um sinal, um fumo branco, anunciando que já temos Papa. Neste filme, filme dos tempos modernos, tudo começa a complicar-se. A Praça de S. Pedro está cheia, mas o Papa não se mostra, não aparece à janela. De repente, nem os cardeais que o elegeram sabem onde ele está. Fugiu, pois não se sente capaz de assumir uma responsabilidade que, normalmente, é aceite de modo automático em nome da vontade de Deus, do Espírito Santo. Neste caso o eleito entra em crise. O cineasta encontrou soluções admiráveis, quer para manter a Praça de S. Pedro em continuada expectativa, entreténs para os velhos cardeais, ocupação para os psicanalistas, percursos irreconhecíveis do Papa pelos transportes romanos, etc..
É um retrato, em profundidade, da situação do governo da Igreja, envelhecido e à margem do mundo e do povo católico. No filme, a recusa do Papa eleito é a recusa que todos deviam fazer, por serem escolhidos naquelas condições. O drama vivido por esta figura, não é um drama que a psicanálise possa resolver. É de outra ordem: o Espírito Santo não pode substituir os caminhos verdadeiramente humanos dos ministérios ordenados da Igreja. O seu topo reflecte a falta de participação democrática. Se a Igreja, como se repete, não é uma democracia, não deve ser menos do que uma democracia. Deve ser mais, uma fraternidade e sem negar os mecanismos democráticos das instituições de expressão humana. Porque será que, nos belíssimos planos que mostram os cardeais, nem uma mulher. Será que as mulheres nem sequer servem para eleger o Papa?
Uma obra uma vez publicada ou exibida já não pertence ao autor. Pertence a quem a desfruta, a repudia ou lhe fica indiferente. Também este filme está nos olhos dos espectadores.
Será recebido e interpretado de diversos modos. Há regras para ajudar a vencer a arbitrariedade, mas não para vencer diversos pontos de vista. O seu valor estético e a estética do seu humor salvam-no de poder ser transformado numa obra de ataque ou defesa da Igreja. É, no entanto, um grande contributo para que, católicos e não católicos, se interroguem acerca do que se passa, hoje, na e com a Igreja.
Frei Bento Domingues, O.P.
5 de Dezembro 2011

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