10 fevereiro 2013

AS RELIGIÕES NÃO SÃO TODAS IGUAIS

1. Na polémica com os liberais, o católico ultramontano, Louis Veuillot (1813–1883), assumiu uma posição que ficou célebre: “quando estou em situação desfavorável, em nome dos vossos princípios, exijo a liberdade; quando estou em posição forte, em nome do meu antiliberalismo, nego-vos a liberdade”.
 Lembrei-me desta estranha ética, a propósito do modo como os cristãos são maltratados em muitos países muçulmanos - na China é pior - e das exigências dos seus imigrantes, nomeadamente na Europa, em nome da liberdade religiosa e da afirmação da sua identidade cultural, no espaço público.
A grande imigração islâmica, quando é acompanhada ou infiltrada por líderes fundamentalistas, não se contenta com a liberdade reconhecida a todas as religiões. Ameaça todos aqueles que, usando a liberdade de expressão nos países democráticos, se atrevem a questionar o Corão, os símbolos e as personagens do Islão.
 A Noruega não parece disposta a aceitar a chantagem terrorista. O governo norueguês aceita a construção de mesquitas no seu território. Não admite, porém, que a Arábia Saudita e os seus homens de negócios entrem com milhares de milhões para financiar esplendorosas mesquitas e continuem a impedir a construção de igrejas cristãs, no seu país. Exige reciprocidade.
 O ministro dos negócios estrangeiros da Noruega, Jonas Gahr Stor, levará esta exigência ao Conselho da Europa. Para ele, seria um paradoxo e anti-natural aceitar essas fontes de financiamento de um país onde não existe liberdade religiosa. A aceitação deste dinheiro seria um contra-senso, pois nesse país árabe é proibida a construção de igrejas de outras religiões. As comunidades religiosas têm direito a receber ajuda financeira, mas o governo Norueguês, excepcionalmente e por razões óbvias, não aceitará o financiamento islâmico de milhões de Euros.
Dir-se-á que esta posição ainda não saiu do Antigo Testamento, “olho por olho, dente por dente”, mas o ministro Stor não joga no campo religioso. A sua intervenção situa-se no plano político, com meios políticos, a favor de um mínimo de justiça.
Confundir, porém, as correntes fundamentalistas com a totalidade das práticas islâmicas, é um erro com consequências graves para a paz mundial e não ajuda a encontrar o caminho para a defesa da liberdade religiosa, em todos os países e no comportamento interno de todas as religiões. O Concílio Vaticano II, ao realizar uma dolorosa revolução na Igreja católica, exige dos seus membros humildade histórica e persistência nas atitudes de tolerância e nas iniciativas de diálogo inter-religioso.
2. A caridade nunca é demais, mas não é bem servida pela ingenuidade. O advogado Gilbert Collard, que não parece ser um grande simpatizante do mundo islâmico, descreveu a sua dificuldade em entender o que significa, ser ”infiel”, para um muçulmano.
Ao participar no estágio anual de actualização, necessária à renovação da sua habilitação de segurança nas prisões, foi confrontado com uma apresentação feita por quatro intervenientes representando, respectivamente, as religiões Católica, Protestante, Judaica e Muçulmana, explicando os fundamentos das suas respectivas doutrinas. Este advogado estava interessado, sobretudo, na exposição do Imã que classificou de notável.
Terminadas as intervenções, começou o tempo das perguntas e respostas e, quando chegou a sua vez, perguntou: “Agradeço que me corrija se estiver enganado, mas creio ter compreendido que a maioria dos Imãs e autoridades religiosas decretaram a “Jihad” (guerra santa) contra os infiéis do mundo inteiro e que, matando um infiel (o que é uma obrigação feita a todos os muçulmanos), estes teriam assegurado o seu lugar no Paraíso. Neste caso poderá dar-me a definição do que é um infiel?”
Sem nada objectar à minha interpretação e sem a menor hesitação, o Imã respondeu: “um não muçulmano”.
Respondi-lhe: “Então, permita-me assegurar se compreendi bem: o conjunto de adoradores de Alá devem obedecer às ordens de matar qualquer pessoa que não pertença à vossa religião, a fim de ganhar o seu lugar no Paraíso. É ou não verdade?
A sua cara, que até esse momento conservava uma expressão cheia de segurança e autoridade, alterou-se e, de repente, parecia a de um miúdo apanhado em flagrante.
É verdade, respondeu ele, num murmúrio.
Observei-lhe : “Tenho bastante dificuldade em imaginar o Papa Bento XVI a dizer, a todos os católicos, para massacrarem todos os vossos correligionários, ou um Pastor, a dizer o mesmo, para garantir a todos os protestantes, um lugar no Paraíso.”
O Imã ficou sem voz !
Continuei: “Também tenho a maior dificuldade em me considerar seu amigo, pois o senhor e os seus confrades incitam os vossos fiéis a me cortarem o pescoço!”
Só mais uma pergunta: “O senhor escolheria seguir Alá, que o manda matar-me, para ganhar o Paraíso, ou seguir Cristo, que manda amar a todos e irmos juntos para o Paraíso?”
Podia-se ouvir uma mosca voar, enquanto o Imã continuava calado.
Não é preciso dizer que os organizadores e promotores do Seminário de Formação não apreciaram nada esta minha maneira de tratar o Ministro do culto Islâmico e de expor algumas verdades a propósito dos dogmas desta religião.
No decurso dos próximos trinta anos, haverá suficientes eleitores muçulmanos para, em França, instalarem um governo da sua escolha, com a aplicação da “Sharia”, a lei islâmica.
Ao fim e ao cabo, este advogado gostaria de levar o muçulmano fundamentalista a ser infiel à sua loucura. Não sei se a receita foi eficaz.
3. A fixação no mundo muçulmano pode levar a esquecer a questão de fundo: as religiões são muitas, não são todas iguais, dentro de cada uma há muitas diferenças, ninguém pode ter um conhecimento experimental de todas para descobrir os seus traços espirituais e místicos.
Por outro lado, não são realidades estáticas. Têm história e as diferenças, no interior de cada uma, também. Quem se der ao trabalho de recorrer às investigações dos historiadores, sentir-se-á confrontado com um universo inabarcável. Basta, aliás, uma viagem pelo Google para se ter a imediata sensação de entrar numa imensa floresta.
As religiões são manifestações humanas. Suponho que Deus não tem religião. Em tudo o que é humano, também pode surgir o desumano. A religião exprime o que, em nós, há de melhor: a procura da fonte de sentido, o que podemos esperar da vida e o que podemos fazer uns pelos outros. Em suma, os percursos sinuosos da fé, da esperança e da eternidade do verdadeiro amor.
O místico é aquele que nunca pode parar em nenhuma das suas realizações e expressões. As nossas ideias de divindade não são divinas. O idólatra é aquele que não interroga as crenças, os ritos, os preceitos e os interditos, a organização, a autoridade e tudo aquilo a que chama a sua religião. Ao tratar imagens e instituições muito relativas como absolutas e expressões da vontade de Deus, não procura, não investiga e afirma cada vez mais o mesmo, receando que as dúvidas façam ruir todo o seu edifício. Como a afirmação de Deus e dos seus atributos estão ao serviço desse universo idolátrico, não podem deixar de ser a idolatria das idolatrias.
Quando se persegue e mata outros seres humanos, em nome de Deus, que só pode ser amor, é porque a invocação de Deus se tornou um instrumento do ódio e da ira mais desumana.
4. Na liturgia católica dos últimos Domingos, muitos cristãos foram confrontados com um comportamento religioso de Jesus tão estranho, que os seus conterrâneos lhe quiseram dar a morte. Era intolerável a sua falta de respeito pela integridade da Sagrada Escritura. Ao ler uma bela passagem do profeta Isaías, na Sinagoga de Nazaré, sua terra, permitiu-se fechar o livro, antes de tempo, suprimindo o que Ele não podia aceitar nem proclamar: o “dia da ira de Javé”. Pagou caro a falta de respeito por aquilo que chamavam “palavra de Deus”. Teve de fugir para não ser linchado. S. Paulo dirá que a letra mata, o espírito vivifica. S. Tomás de Aquino acrescentou que os próprios textos do Novo Testamento, lidos de forma puramente material, idolátrica, matam o entendimento da sua significação.
Nem tudo é santo nas religiões. Jesus alterou aquela em que tinha sido educado e mesmo a que tinha escolhido, como discípulo de João Baptista. Não por capricho nem de forma arbitrária. Teve a experiência mística que o libertou de imagens de Deus escravizantes, inaceitáveis. Do Céu só podem vir declarações de amor, como as que ele próprio recebeu, estando em oração, depois do baptismo celebrado no Jordão, antes da irrupção do espírito, a nova lei (Lc 3, 21-23).
Frei Bento Domingues, o.p.

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