22 setembro 2013

CATÓLICOS NÃO CRISTÃOS

    
1. Não forjei este título, algo paradoxal, mas que exprime um fenómeno tristemente actual. Não designa os cristãos não católicos. Os membros das Igrejas protestantes, anglicanas e ortodoxas consideram-se e chamam-se cristãos. Quando dizemos que não são católicos é para significar que não estão em plena comunhão com o bispo de Roma, embora essas Igrejas também se considerem católicas.

Que se entende aqui por católico não cristão? Para o teólogo Martín G. Ballester, de quem recebi esta designação, trata-se de alguém que se atribui o título de católico de forma excludente. Considera-se a medida do verdadeiro católico e só pode ser católico quem fôr como ele. Católico é o seu pronto-a-vestir.

Segundo Ballester, esses católicos costumam ser beligerantes. Reforçam a sua identidade na condenação do outro, isto é, naquilo que os separa. Procuram inimigos seja onde fôr, pois o que lhes dá vida é precisamente o inimigo. Além de beligerantes são intransigentes, incapazes de reconhecer algo de bom em quem não pensa como eles.

Este é o retrato do católico fundamentalista, sectário, em contradição com a própria palavra católico, que significa universal, resultado de uma ruptura com a situação vivida na igreja dos começos, desde a crise helenista, descrita pelos Actos dos Apóstolos, que levou à morte o diácono Estevão (Act. 7-15). Foi neste contexto de universalização que, em Antioquia, os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de cristãos (Act. 11, 25-26).

2. Jesus era judeu e os seus discípulos também. Teve alguns contactos, especialmente com estrangeiras, que o encheram de espanto, mas não foi um homem viajado como, por exemplo, S. Paulo. Abriu, no entanto, um caminho universalista no interior do seu povo. Não via o mundo a partir dos detentores do poder económico, político e religioso, mas a partir dos excluídos de todas essas formas de poder.

É esta a razão da recusa em aceitar que lhe chamassem Messias, Cristo. Só foi possível e necessário que os primeiros escritos da igreja o designassem assim – Jesus Cristo – porque a palavra, devido à prática histórica de Jesus de Nazaré, tinha mudado radicalmente de sentido. Nesse comportamento, essa designação deixou de pertencer ao vocabulário do poder e passou a significar serviço, generosidade extrema, vida dada.

São cristãos os que não se servem da Igreja para ter poder. É curioso notar que foram as mulheres, que nada pediram a Jesus – e que, durante o seu processo de condenação, nunca o abandonaram –, que ele encarregou de evangelizar os discípulos, isto é, de o seguirem só pela mística do serviço.

3. Ao que parece, o Papa Francisco criou mais um problema no Vaticano. Com a sua mania de ver o mundo a partir dos pobres e excluídos – dizem que ainda não descobriu que, na Igreja, as mulheres são as mais excluídas – ressuscitou a Teologia da Libertação, com décadas de suspeitas e repetidas censuras. Noticiários e comentários lamentam que ele não compreenda que a hora é do triunfo do capitalismo. Ao receber Frei Gustavo Gutiérrez, um dominicano peruano, considerado o pai da Teologia da Libertação, estaria a ser vítima de um comportamento regressivo. Julgava-se que esse método teológico estivesse para sempre enterrado e, com mais algum tempo, poderia merecer, quando muito, uma nota de roda pé nos tratados e manuais dos seminários e faculdades de teologia.

O Arcebispo de Lima e Primado do Perú, o Cardeal Juan Luis Cipriani, ao saber do encontro do Papa com Gustavo Gutiérrez, manifestou, numa radiomensagem, a sua indignação. Tinha exigido a este teólogo que rectificasse temas que continuam pendentes. Pelos vistos, esse dominicano preferiu outras companhias, o que é irritante.

O Arcebispo Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – nomeado por Bento XVI – acaba de fazer coincidir a publicação de uma obra, assinada por ele e por Gutiérrez, com o encontro do Papa com este teólogo maldito que, em declarações para o Vatican Insider, assinala que este Papa lhe faz lembrar João XXIII. O “que lhe interessa é o Evangelho, não exatamente uma teologia, no máximo uma teologia próxima da Teologia da Libertação. Falar da importância do pobre, do compromisso, da solidariedade com os pobres... isso é do Evangelho! E o Papa, no seu modo de actuar, manifesta-se muito evangélico”.

O referido Cardeal de Lima, J. Luis Cipriani, não aguenta o que aconteceu: “estou a ver que isto parece uma nova primavera de Gustavo Gutiérrez”.

Não está só. Igor Alexandre explicita a indignação de muitos: “uma múmia inca ressuscita artificialmente para afugentar os vivos. Gustavo Gutiérrez malvado, emissário do passado escabroso e marxistoide, regressa para se vingar dos que permaneceram fiéis à doutrina. Será evolução? Nenhuma. É só uma mudança de pele como os ofídios. Do grandote «tentón» Müller, um luterano até à medula, nada há a estranhar. Onde se juntam os abutres, aí esta o morto. (…) Avizinha-se um conluio de demónios teólogos da libertação”.

Gustavo Gutiérrez não gosta que lhe chamem o pai da Teologia da Libertação: “gostaria de ser conhecido como um daqueles que contribuiu para a libertação da Teologia”. Ao Papa Francisco ninguém vai exigir que se torne o teólogo que nunca foi, mas é normal que contribua para que as práticas de Teologia vivam em liberdade e paz na Igreja.
 
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público
22.09.2013

Sem comentários:

Publicar um comentário