10 junho 2014

Por que não debater as questões fundamentais?

Frei Bento Domingues, o.p.

1. A primeira nota e a mais importante, porque teimamos em ser enganados pelo Governo português, consiste em chamar a atenção para a entrevista ao Jornal Público (11/5/2014) do ex-conselheiro económico do presidente da Comissão Europeia, Philippe Legrain.

Antes, porém, olhemos para o que o mesmo autor já tinha dito no seu livro European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess (2014): «Na primeira fase da crise, já foi suficientemente mau que os contribuintes tenham tido de salvar os bancos dos seus próprios países. Mas quando o problema alastrou a toda a UE, o que aconteceu foi que a zona euro passou a ser gerida em função do interesse dos bancos do centro – ou seja, França e Alemanha – em vez de ser gerida no interesse dos cidadãos no seu conjunto. O que é profundamente injusto e insustentável».

Recorto da entrevista referida – integralmente transcrita em Religione por A. Marujo e M. Pinto – a seguinte passagem: «A decisão de emprestar dinheiro a uma Grécia insolvente transformou de repente os maus empréstimos privados dos bancos em obrigações entre Governos. Ou seja, o que começou por ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar os bancos, acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa entre países credores e países devedores. E em que as instituições europeias funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores.

«Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado.

«Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais e para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa».

Na entrevista ao Público (2/06/14), Adam Posen, presidente do Peterson Institute for International Economics, defende, com bons argumentos, que Portugal regressaria ao crescimento mais rapidamente e de forma mais sólida, se tivesse reestruturado a dívida. Não é possível crescer com a dívida actual.

2. É estranho que o remédio para a cura se revele um veneno, embora o médico insista em dizer que é o mais eficaz. A dívida aumenta até ao absurdo, mas parece que assim o Governo arranja fôlego para privatizar tudo, de tudo fazer bons negócios para empobrecer a população e concentrar as fontes e o destino de enriquecimento em poucas mãos. É o resultado do grande desígnio de ir além da troika. Quem não estiver bem não seja lamechas, emigre. É a melhor forma de diminuir o desemprego.
O mecanismo de alargar e aprofundar o abismo entre poucos muito ricos e a grande maioria cada vez mais pobre foi explicado por Thomas Piketty, no livro O Capital no Século XXI, muito referenciado em revistas e jornais em Portugal, durante o mês de Maio.

Diz-se que os economistas portugueses estão divididos acerca do livro. É normal que estejam divididos segundo os interesses que defendem. Dada a orientação, diz-se que os pobres nada têm a esperar dos gestores e economistas da Universidade Católica. Ainda bem que o Papa Francisco não foi formado na “economia que mata”. Se mata muitos, também engorda alguns muito depressa, os mais aptos, como consta da selecção das espécies na teoria da evolução.
É talvez uma calúnia levantada por aqueles que não percebem que a riqueza é um sinal de bênção e a pobreza, um sinal de maldição.

3. Acerca das eleições, parece que há muitos mortos nos cadernos eleitorais. Servem para agregar a abstenção dos mortos e dos vivos e dá sempre jeito para repetir que a abstenção nunca foi tão grande.
Nos partidos do Governo da maioria, votou a minoria. O maior partido da oposição revelou-se de perna curta. Os outros servem para mostrar o desprezo generalizado pela coligação que nos desgoverna, mas sem eficácia para criar uma alternativa. O PCP continua com uma visão tribal da política. Julgando-se o fiel da balança da esquerda, é acusado de se tornar um dos maiores obstáculos à constituição de uma maioria de esquerda não sectária. Até parece verdade.

Se é triste verificar que os maiores partidos políticos têm dificuldade em se reformar, é desolador ver que as novas iniciativas salvadoras propostas servem mais para criar ilusões do que soluções. Animam, quando muito, as manchetes dos meios de comunicação.

No momento em que escrevo ainda não se pode saber o resultado da luta interna – e não só – pela liderança do PS.

4. Numa longa e substanciosa entrevista ao Expresso (Revista 31.05.2014), Marcelo Rebelo de Sousa suspendeu, por instantes, o teatro dominical, para falar a sério.

5. Parece que o nosso país se está a tornar um Eldorado fiscal para estrangeiros (Visão,29.05 a 04.06 2014). Estes artifícios, sem ética, servem para viciar a política. A troco de vantagens imediatas, não se trabalha na justiça e na paz a nível local e universal.

6. Um engenheiro português do Google, engenheiro informático de Leiria, deixou Dublin e vem formar uma escola Speak Social, para pôr em contacto comunidades que vivem lado a lado, sem comunicação, por razões de língua e cultura (Publico,2/06/14). Excelente notícia.

7. A Comissão CAVITP (Comissão de Apoio à Vítima de Tráfico de Pessoas – organização das Congregações Religiosas Femininas) promoveu as Jornadas, de 1 a 3 de Junho 2014, em Lisboa, sobre o tema, Tráfico Humano: A Nova Escravatura, com a colaboração de Stefano Volpicelli (Roma) que apresentou uma visão global da actualidade sob o ponto de vista das práticas e das leis. O Protocolo das Nações Unidas – conhecido por Protocolo de Palermo e assinados por vários países – não está a ter os bons efeitos desejados. Os interesses globais dos ricos fazem de conta que o resto da população é de 2ª categoria. Pode ser escravizado. É a globalização da nova escravatura. Os participantes debateram esta realidade em Portugal, na legislação e nas práticas. Acontece que o tráfico humano, como tal, ainda não provocou a intervenção da Justiça, a nível de tribunais e cadeias, sobre os traficantes. Desgraçadamente, não é uma originalidade portuguesa.

8. O Papa Francisco fez aquilo que prega nas homilias das Missas matinais de Santa Marta: a Igreja só tem serviços para abrir as portas a toda a gente (Ostiários). Na peregrinação à chamada Terra Santa, uma peregrinação muito eficaz, abriu portas e muros entre cristãos, judeus e palestinos. Esperemos que, agora, não apareçam os zeladores de uma Igreja de portas fechadas, de israelenses e palestinos sem vontade prática de dois Estados soberanos e fraternos.

9. Saúdo a Newsletter N.º 1 (Jan/Mar 2014) do Policredos, Observatório da Religião no Espaço Público.

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