10 julho 2016

Entrevista a Frei Bento Domingues, O.P.

À conversa com… Frei BENTO DOMINGUES

ANDRÉ RUBIM RANGEL

VP – O seu lar familiar foi desde cedo uma ótima escola de fé, a ver-se pela entrega à vida religiosa dominicana do Frei Bento e do irmão, Frei Bernardo. Sentiu-se interpelado e descobriu a vocação através do irmão mais velho? Através de que sinal?

BD – O Frei Bernardo tem mais 3 anos e 3 meses do que eu. Foi recebido na Ordem dos Pregadores também antes de mim. Ambos fomos influenciados por um sedutor dominicano brasileiro, Frei Adriano, muito influente em vários movimentos da Acção Católica do Porto. Ele era amigo de um tio meu, chamado Frei Bernardo que se fez dominicano, pouco depois de ter chegado, como imigrante, ao Rio de Janeiro. Esteve 23 anos sem vir a Portugal. A seu pedido, Frei Adriano foi visitar a minha avó que não achou graça nenhuma que, depois de lhe terem roubado o filho, lhe viessem roubar os netos. A pedido do pároco, pregou um tríduo em Nossa Senhora do Livramento (Vilar – Terras de Bouro). Ele era uma tal alegria de Deus – o contrário da religião vinagreira e ameaçadora que então se vivia em toda aquela zona – que, quando me perguntou, na confissão, o que é que eu queria ser quando fosse grande, respondi sem hesitar: quero ser como você. Creio que com o meu irmão Bernardo (chamava-se Domingos) aconteceu algo semelhante, só que ele tinha jeito para tudo e eu não tinha jeito para nada. Mandaram-me guardar as ovelhas e elas escutavam um livro em latim que eu não entendia, mas que achava muita graça. Os meus pais, esses sim: eram uma escola de fé viva e interrogada.

VP – Em 62 anos de vida religiosa há algo de que se arrependa de ter feito? E há algo que ainda não fez, que gostaria de fazer e que acredita / sabe que ainda realizará? Se não fosse religioso e dominicano, o que seria?

BD – Arrependo-me de quase tudo – menos de ser dominicano – e peço a misericórdia de Deus e a da Ordem dos Pregadores na qual fui recebido. Há tanto que fazer, mas já não vou ter tempo. Por outro lado, foram sempre os outros que me disseram o que eu tinha de fazer. Se não fosse dominicano? Seria dominicano.

VP – Os dominicanos celebram correntemente 800 anos de presença em Portugal. Que oito pontos essenciais destaca nesta presença em cada um dos centenários vividos?

BD – No dia 1 deste mês, fiz a conferência inaugural das Jornadas de História da Ordem dos Pregadores (1216-2016), no espaço Corpus Christi, de Vila Nova de Gaia, sobre os principais pontos altos e baixos de 800 anos de história, com o título Missão da Ordem dos Pregadores Hoje. Procurei documentar uma convicção que sempre me acompanhou: quando a investigação teológica esteve atenta aos sinais dos tempos, foi fecunda a pregação do Evangelho. Quando se deixou dominar pelos apelos do poder político-religioso, foi um desastre. Desde S. Domingos, fora do estudo, em actualização contínua, não há salvação para os dominicanos cumprirem a missão que lhes compete, na Igreja e na sociedade, seja onde e quando for.

VP – No início da década de 60 viveu no Porto e estabeleceu uma relação próxima com Francisco Sá Carneiro. O que lhe fica do Porto e realça desta cidade, bem como do portuense e antigo primeiro-ministro?

BD – Quando cheguei ao Porto e me fizeram assistente da Juventude ligada à Igreja de Cristo Rei, por influência do Frei Bernardo, o Vaticano II já era uma preocupação viva e interveniente de uma minoria de jovens e adultos que sentiam a falta de D. António Ferreira Gomes (no exílio). A minha relação com o Francisco Sá Carneiro inscrevia-se nesse movimento. Tornou-se cada vez mais amiga. Entre muitas outras coisas, ele teve influência junto de Marcelo Caetano para permitir o regresso do Bispo do Porto.

VP – Enquanto teólogo, e após ter sido obrigado a sair de Portugal em 1963, voltou a Roma – onde estudou – para acompanhar os trabalhos do II Concílio do Vaticano, até 1965. O que mais lhe marcou na altura e que marca mantém hoje em si, fruto do Concílio?

BD – Ir para Roma, nessa altura, embora por motivos pidescos, foi o melhor castigo que me podiam dar. Já tinha sido um frequentador das audiências gerais, espantosas, de João XXIII. Isso continuou, mas participar nos debates em torno do que acontecia na aula conciliar, com peritos e jornalistas de todo o mundo, deixou-me sempre um devoto de João XXIII e do Vaticano II. Nenhuma decepção do pós concílio me fez perder a esperança na renovação de uma Igreja, serva e pobre, que, se não for para servir os que mais precisam, também não serve para nada.

VP – Nunca teve medo de dizer verdades nem de ser, por isso, confrontado com a então PIDE? Uma afirmação em 1970, das muitas interessantes que teve, foi: “Vem aí o Natal, vão dar-vos pistolas. Não aceitem. Digam: quando formos grandes não queremos andar em guerras” (numa eucaristia com crianças). Sente que foi ouvido e/ou ignorado, num planeta com muitas guerras, ódios, violências, etc.?

BD – Quando fui interrogado pela PIDE, na António Maria Cardoso, por causa dessa homilia, perdi o medo ao perceber que, na altura, não sabiam nada da minha participação em actividades clandestinas contra o regime opressor e a guerra colonial. A loucura da guerra continua.

VP – Na década de 80 fomentou a Teologia da Inculturação, indo em missão e ensinando teologia em Moçambique, Angola, Perú, Colômbia e Chile. O que guarda na memória desses tempos? E em que estado global está este tipo de teologia?

BD – Participei, dentro dos meus limites, nesse trabalho de teologia e pregação inculturadas que se fazia em África e na Améria Latina. Com o Papa Francisco foi retomado esse horizonte e esse método, de modo alegre e criativo. Na memória conservo, apenas, que trabalhei sempre em países atravessados por conflitos tremendos e que a realidade actual não deixa esquecer.


VP – O título do seu primeiro livro, “A Religião dos Portugueses” (de 1988), leva-me a perguntar-lhe como era nesse tempo e como é agora a religião nacional. Estamos a falar de uma mesma religião, duma mesma fé num só Deus? Que fé é esta de que, como povo, somos feitos e o que caracteriza a sua transmissão?

BD – O Padre Tolentino Mendonça queria reeditá-lo. Graças a Deus, hoje, a investigação, acerca do período por ele abrangido, tem-se desenvolvido de forma espectacular. Teria de ser muito revisto. Não sei se vou ter tempo. Seja como for, a “arte portuguesa de ser religioso”, nas suas constantes e variantes, está a concentrar-se em Fátima. E Fátima cada um tem a sua.

VP – Dos seus nove livros publicados, qual aquele que teve mais impacto e que sente que as pessoas, crentes ou não, mais aprenderam e mais se identificaram consigo? E qual é a principal ideia e máxima que escreve nessa mesma obra?

BD – O que sempre me interessou foi isto: só posso crer interpretando e partilhando o que vou vivendo e entendendo desafiado pelo cruzamento permanente entre fé cristã e os fenómenos culturais, sociais e políticos. Houve pessoas e editoras (de modo especial, o jornal Público) que acharam interesse em publicar o que escrevi. Nunca foi iniciativa minha.

VP – De que forma vê a relação atual e dualidade “Igreja – Mundo”, comparativamente ao passado? Como tem sido o mundo da Igreja: tem sabido estar à altura de tudo o que se passa no Mundo e que mais lhe diz respeito?

BD – Neste momento, vivo tão agradecido a Deus pelo Cardeal Bergoglio ter aceite ser o Papa Francisco que, apesar de todo o tecido de oposições que ele encontra, a relação “Igreja-Mundo” está a encontrar caminhos e expressões que vai ser muito difícil apagar da memória da Igreja e da sociedade. Entre João XXIII e Francisco, apesar de todos os invernos, a esperança resiste de forma muito activa.

in Voz Portucalense

Edição de 2016/07/06

http://www.voz-portucalense.pt/

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