02 outubro 2016

A VERDADEIRA RELIGIÃO É CRÍTICA

          1. Tinha recomendado a um amigo, enfastiado com as produções açucaradas de espiritualidade pós-moderna e com as passerelles de diálogo inter-religioso, o último livro de Anselmo Borges, o questionador das manifestações da religiosidade, da religião e das religiões[1]. É um agrupamento de textos essenciais acerca do essencial.
Avisei o potencial leitor de que não são as razões que encontramos para crer em Deus e as que temos para não crer que nos fazem crentes ou ateus. Virou-se para mim apreensivo: mas, então, em que ficamos?
Não podemos ficar. Os que repousam nas suas convicções continuam o mesmo sono dogmático. Os despertos são peregrinos. É normal que, na presente condição humana, precisem de “estações de serviço” para continuar a viagem. Mas quando se diz que o nosso coração não conhecerá quietude a não ser quando repousar no infinito, imagina-se, de forma ilusória, o infinito como termo de uma caminhada.
É no infinito da divindade que vivemos, nos movemos e existimos, como disse S. Paulo, em Atenas, acolhendo, na sua teologia criacionista, as expressões de poetas e filósofos gentios[2].
Não imaginemos a divindade e a sua eternidade como uma múmia. Quando desejamos aos que morrem “o eterno descanso”, não os entregamos ao tédio eterno. Prefiro supor que entram na infinita e incansável criatividade de Deus.
Para não cair na idolatria, na manipulação do nome de Deus, deveríamos ter em conta a advertência poética de S. Gregório de Nazianzo: Ó tu que estás para lá de tudo, será possível cantar-te de outro modo? Que palavra te poderá celebrar? A ti, que nenhum termo te pode nomear. Que espírito te poderá perscrutar? A ti, que nenhuma inteligência te pode apreender? Tu és o único inominável. Porque tu criaste tudo o que é nomeado. Tu és o único que se não pode conhecer. Porque tu criaste tudo o que o pensamento abarca. Todas as coisas falantes e não falantes te louvam. Tudo o que pensamos e não pensamos é em tua honra. Os desejos comuns, as dores comuns de todos são acerca de ti. Todas as preces a ti se dirigem. Tudo o que existe e tem consciência de ti entoa um hino silencioso. Em ti tudo permanece, tudo para ti ao mesmo tempo converge. Tu és o fim de tudo, tu és o único, és tudo e ninguém.
Não sendo um só, não sendo tudo, ó todos os nomes, como te chamarei a ti, o único que não tem nome? Que espírito celeste poderá elevar-se para cima dos véus que estão para lá das nuvens? Sê-nos propício, ó tu que estás para lá de tudo. Quem terá o direito de cantar-te de outro modo?
2. Jesus era um homem profundamente religioso. A sua relação a Deus fazia parte da sua identidade. Porque terá sido, tão agreste com a religião em que nasceu, foi criado e viveu? Segundo as quatro versões do Evangelho, em vez de uma metafísica da religião, praticou uma crítica permanente dos lugares, dos tempos e das pessoas mais zelosas da ortodoxia farisaica. Até parece que tinha um gosto perverso em violar o dia mais sagrado do judaísmo, o Sábado. Um chefe da sinagoga, bastante irritado, observou-lhe: tens seis dias da semana para fazeres as curas que quiseres, mas ao Sábado, não! Resposta de Jesus: que religião é esta que, ao Sábado, os animais têm mais sorte que os seres humanos? Qual seria a razão que levou Jesus a esta falta de respeito pelo dia mais sagrado?
O dia especialmente consagrado a Deus tem de coincidir com o acontecimento da libertação, da alegria, da felicidade do ser humano. Deus não pode ser louvado à custa da humanidade. O Sábado é para o ser humano, não é o ser humano para o sábado. Deus quer misericórdia. Não se alimenta de sacrifícios humanos.
A outra crítica, não menos severa, era de ordem ética: uma religião que justifica a descriminação entre homens e mulheres, entre ricos e pobres, entre sãos e doentes é de uma árvore muito ruim. Não vem de uma divindade aceitável.
3. A dimensão ecuménica da intervenção do Papa Francisco é indiscutível. Não descura os simpósios, as mesas redondas, as celebrações para estimular o diálogo inter-religioso. Mas se estas iniciativas não levarem a um processo de crítica e de reforma de cada uma das religiões, não servem para nada. Nenhuma religião pode desencadear esse processo noutras instituições. O Papa Francisco, desde o começo do seu pontificado, nunca mais deixou os cardeais, os bispos, os padres e a formação de seminaristas em paz. Não tem medo que as outras religiões e os ateus fiquem com má impressão da Igreja Católica. Ainda agora, em Setembro, não deixou que os bispos recém-nomeados se julgassem entronizados nas Igrejas locais, como deuses e senhores das comunidades a quem devem servir. Ele não pretende que a Igreja Católica fique bem na fotografia mundana, nas imagens do sucesso e do poder. O que disse acerca da formação dos seminaristas, devia dar que pensar: quando alguns seminaristas se refugiam na rigidez, por baixo, sempre há algo de feio.
O Papa é muito crítico em relação aos eclesiásticos. Não quer amos. Faz tudo para que sejam os primeiros ao serviço dos mais oprimidos, sobretudo quando são oprimidos em nome da religião.
Frei Bento Domingues, O.P.
02.10.2016 in Público


[1] Anselmo Borges, DEUS RELIGIÕES (IN) FELICIDADE, Lisboa, Gradiva, 2016
[2] Act. 17, 16-34 Cf notas da TOB aos versículos 26-31 

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