10 julho 2012

De acordo com notícias do jornal on-line “Página 1”[1], pertencente ao grupo da Rádio Renascença, o Cardeal Kurt Koch, responsável da Igreja Católica pelo diálogo ecuménico, considera que o aniversário dos 500 anos da Reforma “não é uma razão para festejar” e “apela antes por um memorial”. Embora as comemorações sejam de iniciativa da Igreja Luterana, haverá representantes católicos convidados, ao que parece. Acrescenta o jornal mencionado: “por uma questão de ecumenismo”. Mas o Cardeal Koch considera que, em vez de se festejar, o evento deveria ser “uma oportunidade para reconhecer erros de parte a parte”. Embora reconhecendo que as suas afirmações “poderiam ser vistas como anti-ecuménicas”, o Cardeal Koch considera que “não podemos festejar um pecado”, referindo-se, segundo o jornal Página 1, ao “pecado da separação”. O Cardeal considera que “deveria haver um evento durante o qual os representantes de ambas as partes pudessem reconhecer e perdoar mutuamente os erros cometidos”. A notícia termina com o seguinte parágrafo: “No dia 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero pregou as suas 95 teses à porta de uma Igreja, um evento que é considerado como tendo dado origem à reforma protestante na Europa Central.” Palavras mais do que escassas para explicar em que consistiu a intuição de Lutero!…
Esta notícia apareceu no preciso momento em que me dispunha a escrever este texto, pelo que ser-me-ia artificial não me referir a ela. Sobretudo, porque acredito que, sendo a separação entre os cristãos um escândalo e uma dor, uma concepção ecuménica da Igreja, centrada no facto de todos sermos irmãs e irmãos em Jesus Cristo, poderá constituir uma forma de olhar para todas as Igrejas (e insisto em dizer “Igrejas”) como cores de um único arco-íris. A maior dor, neste momento, para muitos cristãos, será o não avanço do diálogo ecuménico: disso, sim, teremos todos de nos arrepender. Mas, enquanto católica, sinto-me enriquecida pelas irmãs e pelos irmãos protestantes, herdeiros do rasgo teológico e espiritual de um Martinho Lutero que considerava necessário, em tempo de comércio de indulgências, acentuar que só a fé nos salva, e não as obras, isto é, que não são actos exteriores (inclusivamente os de eventual piedade puramente ritual), mas sem um coração entregue a Deus, que nos salvarão. E que a fé haverá de ser o fundamento para um agir cristão renovador do mundo. Assim como lhe devemos – todos, protestantes e católicos – a sua afirmação de que só a Escritura constitui o fundamento da tradição, pois toda a tradição constitui um serviço prestado à transmissão do essencial da nossa história de fé. Por isso, acredito que também temos todos matéria para festejar.
Teresa Toldy


[1] Jornal “Página 1”, edição do dia 25 de Junho de 2012, in: http://mediaserver.rr.pt/rr/others/428874089ac3c5.pdf

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