15 outubro 2012

Nós Somos Igreja na Havana de Fidel

Em Julho passado li a notícia da morte do dissidente cubano Osvaldo Payá, em desastre de carro numa estrada a 800Km de Havana. Admitida a possibilidade de assassinato, já que em regimes totalitários todas as hipóteses são possíveis, a notícia foi divulgada no mundo e especialmente desenvolvida no jornal El País. Osvaldo Payá, católico, engenheiro, esteve na oposição ao regime desde a juventude, e desde então se envolveu em movimentos católicos. Foi fundador do Movimento Cristão de Libertação e quando em 2002 ganhou o Prémio Sakharov de Direitos Humanos, Payá conseguiu autorização para receber o Prémio em Bruxelas, e ainda foi recebido pelo Papa em Roma. Em mim, a sua memória ficou inscrita na galeria de mortos que me fazem reviver a vida, ou estimular o gosto de vivê-la. Na consciência da liberdade de viajar por onde quiser e puder, sem limites de liberdade nem fronteiras de expressão. E fez-me reviver a vida porquê? Porque a evocação de Osvaldo Payá me fez regressar ao ano de 1989, quando no mês de Julho viajei do Rio de Janeiro para uma estadia em Cuba. Entretanto, recordei as notícias sobre a visita de João Paulo II em 1998 a Havana e o aperto de mão com Fidel, notícias jubilosas para uma possível abertura do regime à Igreja. Este ano, a viagem apostólica de Bento XVI foi formalmente correta, sem alusões à situação dos dissidentes presos e apesar dos apelos para que houvesse um pronunciamento sobre direitos humanos. Mas voltando ao meu mês de Julho de 1990, num dia de calor intenso e em contraste com os brilhos das casas que enquadravam a Praça, com a emoção própria do momento excecional me estava a acontecer, eu entrei na Catedral chamada da Virgem Maria da Imaculada Conceição de Havana, sede da Diocese e Património Mundial da Unesco. Imponente, como são as igrejas construídas no Novo  Mundo pelos jesuítas no séc.XVIII, a Catedral tem o despojamento da decadência, a frescura do silêncio, a escuridão do fio de luz que nos ilumina em funda viagem interior. E que viagem. Logo à entrada, parei a ler o texto de um painel simplesmente manuscrito, assente num cavalete, bem visível, impossível seria que o painel não chamasse a atenção de todo o homem ou mulher que ali chegasse. Fotografei. Revelei. Imprimi. Guardei no álbum de fotografias, entre todas as desses dias em Cuba. Em memória de Osvaldo Payá aqui trancrevo o texto, a registar o fermento da Palavra. Também naquele distante ponto do mundo, nós somos Igreja.   

“No começo da nossa Era, um homem único fez a sua entrada na história da humanidade. Este homem pode significar a tua mais nobre esperança e o melhor futuro para todos os povos.
Chamou-se JESUS.
Por ofício foi CARPINTEIRO e os seus amigos chamavam-lhe MESTRE.  Ele ensinou
Que os pobres e os que deixam de ser maus são os primeiros para Deus.
Que a liberdade é fazer sempre o bem.
Que o homem vale pelo que é e não pelo que tem e pelo que se pode tirar dele.
Que a vida é luta e que quando lutamos por viver como seres humanos, Deus está do nosso lado.
Que não há um Deus distinto para cada um.
Que há um Deus para todos e se chama PAI 
Que não se deixa comprar nem controlar. Dá o seu amor livremente e não suporta a hipocrisia nem a injustiça.
Que a religião não é magia nem ritos nem velhas tradições nem aparências.
Que a religião é trabalhar com retidão perante Deus.É olhar limpamente a vida. É cumprir com os deveres de cada um. É tratar os outros como irmãos.
Que a religião que agrada a Deus é o bem que se faz aos demais.
Vivia o que ensinava e a sua doutrina foi tida como subversiva. Por  dizer estas coisas, mataram-no os poderosos da sua época.
Mas não puderam apagar o seu nascimento nem apagar a luz que incendiou com a sua vida.
Porque CRISTO VIVE.
Vive no coração dos que o amam e lhe entregam a sua vida.
Vive porque veio a vencer todos os males e triunfou sobre a morte
Vive porque ressuscitou e está connosco.
Com o seu nascimento nasceu um mundo novo que todavia ainda está por completar.
Ele deu o primeiro impulso e a nós toca-nos continuar…
Passaram muitos anos desde que esteve no meio de nós.
Dele se disseram muitas coisas
O tempo e o nosso comportamento podem ter desfigurado a sua atuação e os seus ensinamentos.
A Igreja que Ele fundou quer dá-lo a conhecer.”

Leonor Xavier

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