14 outubro 2012

Os dominicanos em Portugal e o Vaticano II

1. Não vimos de nós mesmos. Também não nos confundimos com o nosso património genético. Situamo-nos numa história, numa língua e assumimos, de forma necessariamente selectiva, um património, uma linhagem. Depois de ter desfeito muitas quimeras, tentamos viver na companhia da esperança. Não somos nem o último dia, nem a última noite do mundo. Ao longo do tempo, conhecemos pessoas luminosas e outras assim-assim.

No passado dia 11, foram celebrados os 50 anos do início do Concílio Vaticano II. Muitos dos que participaram na preparação e na realização do acontecimento maior da Igreja Católica no século XX já morreram. De quem se esperava que ele fosse acolhido, de forma criativa, na intervenção pastoral, verificamos que não entendeu ou não quis entender as suas orientações mais profundas. Não vale a pena referir os movimentos que preferiam que esse Concílio nunca tivesse existido.

Estava tudo a correr muito bem - numa Igreja que se procurava que fosse imobilista - quando o desvairado ou ingénuo João XXIII, ao fazer a barba, se lembrou de convocar os bispos do mundo inteiro para pensarem tudo de novo. Sentiu que Igreja precisava de um aggiornamento, isto é, de se pôr em dia com o espírito de Cristo, em confronto com os problemas do mundo contemporâneo. Não era uma assembleia para dizer, de uma vez para sempre, o que devia ser o futuro, mas para ensaiar um método de ler os sinais dos tempos, sabendo que Deus faz sinal à sua Igreja a partir não só do seu interior, mas também do mundo que ela não comanda.

2. Mais vale tarde do que nunca e, desde que o Movimento Nós Somos Igreja se lembrou que nem a convocatória nem o começo deste Concílio podiam ser ignorados, têm-se multiplicado as referências a estas datas, com maior ou menor convicção. Depois, até se tornou de bom-tom dizer que o Vaticano II nunca foi tão actual. De facto, o Vaticano II, em Portugal, não foi nem preparado, nem acompanhado, nem bem recebido pelas instâncias oficiais. Manuel de Almeida Trindade, nas suas Memórias de um Bispo, confessa que faltou um grupo de peritos nacionais para acompanhar os bispos portugueses no desenrolar do Concílio e que foi uma lacuna. Se tivessem acompanhado o Concílio estariam depois em condições de, nas suas dioceses, "fazer um trabalho de divulgação e explicação da doutrina conciliar". Mesmo sem querer fazer um juízo exacto acerca das intervenções dos bispos portugueses, observa que "houve intervenções que mostraram o nosso atraso em assuntos teológicos" (...): "Os bispos, ocupados com os trabalhos da pastoreação diária das suas dioceses, não dispõem de sobras de tempo para se dedicarem, com profundidade, a assuntos dessa natureza. É, pois, compreensível que a nossa participação não tenha tido o nível do episcopado do Centro da Europa - ou da que tivemos no Concílio de Trento".

3. Isto não significa que não tivesse havido, em Portugal, pessoas e grupos que trabalharam para a reforma da Igreja na linha do que veio a ser o Vaticano II. Essa História, com várias histórias, já encontrou bons e conhecidos narradores. No passado dia 6, no Convento de Cristo-Rei (Porto), realizou-se um intenso colóquio, de três painéis, dedicado a celebrar os 50 anos da Restauração da Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores. Moisés Martins, professor da Universidade do Minho, mostrou o desconforto de não ter tido tempo - ao falar da presença dominicana em Portugal - de abordar a relação dos dominicanos com o Vaticano II. De facto, mesmo sem ter sido explicitada, com essa designação, esteve presente em muitos momentos. Destaco a abordagem, lúcida e fervorosa, feita pelo filósofo e poeta Eduardo Bento, sobre o papel do Studium Sedes Sapientae (Filosofia e Teologia), frequentado por várias congregações religiosas. Multifacetada e longa foi a acção do Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA), através do Curso de Verão de Teologia, que começou por ser, embora não de forma exclusiva, a iniciação das mulheres à prática da teologia, antes, durante e depois do Vaticano II, causando muita perturbação em vários sectores da Igreja.

Além de muitas outras realizações deste instituto, que ficam para outra altura, é obrigação da memória referir os Encontros de Teologia para Leigos, em Coimbra e no Porto, realizados sob forte vigilância eclesiástica. Deixo aqui pequenos fragmentos do testemunho do cónego Urbano Duarte, no Diário de Coimbra, em 23.02.67: "Uma comissão de leigos incentivou a realização deste III Encontro de Teologia para Leigos, a cargo dos padres dominicanos de Fátima. (...) Mais uma vez, foi impressionante e, podemos dizer, novo, o êxito alcançado. Nada em Coimbra se lhe pode comparar, em matéria de cultura religiosa: (...) os ouvintes, muitos que em salões caracteristicamente confessionais não costumam entrar, eram às centenas. A sobriedade melíflua, o "santo engano", ou a paz morta à sombra da ignorância não tiveram assento nestas assembleias de reflexão sobre a Fé."

Tanta coisa fica por contar... mas seria uma tristeza que a memória de mais de 50 anos não despertasse uma Igreja de futuro.

Frei Bento Domingues, O.P.

Esta crónica foi publicada no jornal Público de hoje, 14.10.12

Sem comentários:

Publicar um comentário